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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A enxaqueca nacional

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Por Antunes Ferreira

JÁ SE SABIA, mas agora está confirmado: somos um País com dores de cabeça, ou, ainda pior, com enxaquecas. Que são muito mais complicadas, pois à dor de cabeça, aliam-se as no pescoço ou na zona cervical. Diz quem sabe, particular e obviamente os médicos que são causadas por vasos sanguíneos dilatados. Ora em Portugal o que não falta são vasos dilatados, sanguíneos ou não. Donde, somos um País com enxaquecas.

Mais de um décimo dos portugueses sofre delas e até à data muito se questionava – e muitos – sobre a sua origem. Mas, agora, é outra loiça: investigadores portugueses (pelos vistos ainda os temos, o que já não é mau) descobriram que a susceptibilidade à enxaqueca pode estar ligada ao gene STX1A, responsável pela produção da proteína sintaxina 1A, que regula a libertação de neurotransmissores no sistema nervoso central. Desde já me permito adiantar que nesta matéria sou um leigo praticante e, por isso mesmo, sugiro uma consulta à Wikipedia.

Prossigo. Os investigadores portugueses trabalham no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) da Universidade do Porto e estudaram 475 pessoas - 188 doentes que sofrem de enxaqueca e um grupo de controlo de 287 pessoas sem sintomas da doença - com o objectivo de identificar variantes que apontassem uma maior susceptibilidade de determinados grupos familiares para a enxaqueca.

Os resultados mostraram duas variantes genéticas associadas a um risco aumentado de enxaqueca nos doentes. O estudo, publicado na revista científica "Archives of Neurology", permitiu pela primeira vez a associação efectiva do gene à susceptibilidade da doença, tornando ainda possível identificar uma nova variante do gene em questão que nunca tinha sido associada à enxaqueca. Esta descoberta poderá abrir caminho para novas terapêuticas para esta doença incapacitante. Os investigadores lusos avançam ainda que a identificação destas variantes genéticas explica o risco aumentado de enxaqueca na população portuguesa.

Reporto-me, evidentemente, ao que a Comunicação Social publicou a este respeito, já que a minha ignorância militante não levaria, nunca, a que me pronunciasse nestes termos científicos. Mas, para alem do registo que aqui fica acompanhado pelo meu agradecimento a quem fez a descoberta e a quem a publicou, retenho o que se afigura mais significativo.

É a altura, penso, de muito boa gente deste País reflectir sobre este assunto. Nomeadamente aqueles que se repartem entre o Poder e as Oposições, entre os que administram (?) a Justiça e os que nela sofrem, entre os docentes, os discentes e outros pacientes. Talvez fosse uma boa oportunidade para a enxaqueca nacional, no mínimo, começar a decrescer. Não disse a ser curada.

sábado, 14 de agosto de 2010

Bebé vale nove milhões

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Por Antunes Ferreira

BEBÉ torna-se notícia. Com direito a cabeçalhos, páginas inteiras, lugares de destaque nas televisões e nas rádios. Acentuam os meios da Comunicação que se trata de um verdadeiro artista, com habilidade a dizer chega, um fenómeno. Peço, desde já, desculpa, mas palavra que não estou a tentar enganar quem quer que seja. Dispenso a citação do biberão, da chupeta, da roca, das fraldas e dessas coisas todas que, no caso, não têm razão de ser.

Porque este Bebé é já um moço de vinte anos, futebolista, que nem chegou a passar pela Liga portuguesa, em competições oficiais. Resumindo: Tiago Manuel Dias Correia, lisboeta, acaba de ser comprado pelo Manchester United ao Vitória de Guimarães por uns «modestos» nove milhões de euros. E, de repente, transformou-se na Cinderela desta época estival.

A história conta-se em meia dúzia de frases. Nascido numa família muito carenciada, o miúdo caiu na rua de onde o tiraram para entrar na Casa do Gaiato de Loures. Fez-se homem na instituição fundada pelo Padre Américo – que não o conheceu? – e foi lá que se transformou num cidadão de bom comportamento e arrancou para a prática do futebol. Começou pelos juniores do Loures e dali seguiu para o Estrela da Amadora, tendo feito parte da Selecção Nacional de Futebol de... Rua, em 2008.

E neste defeso, foi contratado pelo Vitória de Guimarães que por ele pagou noventa mil euros. Onde apenas alinhou nos jogos de preparação. E, de repente, o clube de Sir Alex Ferguson não foi de modas. A troco dos tais nove milhões de euros pagos ao clube da cidade-berço, transferiu-se para os ingleses. Uma história de fadas, cujos episódios apenas começaram, pois que esta procissão futebolística apenas começou a sair do adro. Modesto, com um coração de ouro, é um exemplo real, de acordo com o Padre Arsénio que dirige hoje a Obra da Rua.

Ponto final, para já. O que se vai seguir terá de ser acompanhado com a atenção devida. «Não tenhas medo de ser quem és, agarra-te a tudo o que te faz bem e põe em prática tudo o que aqui aprendeste», são as palavras que lhe foram dirigidas pelo sacerdote, ouvido por A Bola.

Num País como o nosso, em que os incêndios dão água pela barba a todos nós, em que as chamas já causaram mortes entre os bombeiros, saber desta estória, dá-nos alento. Num País como o nosso, em que a Justiça é uma bandalheira desenfreada, ficamos todos um pouco menos deprimidos, com o milagre deste Bebé. Num País como o nosso, em que um advogado e anterior deputado está enrolado num crime de assassínio – ou vários outros – que saltitou do Brasil para cá, saboreamos gostosamente este Bebé sem chucha. Temos de lhe agradecer o que nos oferece.

Que é muito mais do que os nove milhões.

sábado, 7 de agosto de 2010

A Justiça e a Senhora da Agrela

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Por Antunes Ferreira

«Só falta o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, SMMP, querer prender o Procurador Geral da República». Quem o disse foi o advogado, professor universitário e presidente do MRPP, Garcia Pereira. E poderia ter dito que só faltava que o SMMP quisesse executar, em público, Pinto Ribeiro, com um tiro na nuca e a bala paga pela família. O exemplo tem origem na RPC.

O diz-que-disse-que-disse, entretenimento nacional e desporto mais popular no nosso País, corrijo, depois do futebol, foi muito interessante, é e promete continuar a ser. E instrutivo. Até porque nunca é tarde para aprender. Desde a auto-qualificação pelo próprio Procurador, considerando que necessitava de mais poderes, de ser quase Rainha da Inglaterra, até ao atestado de incompetência passado pelo Sindicato, houve lugar para tudo. Um verdadeiro wrestling juridico-anedótico. Só que no vertente, ao contrário do ringue, não é previamente combinado.

Toda a gente que se acha importante da política & afins tem molhado a sopa neste escabroso tema. Ou melhor, nesta enorme caldeirada. Até à data em que escrevo este texto, mais precisamente, quarta-feira, 4 do corrente Agosto, ainda não participam na refrega justiceira, que eu saiba, o Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa e o tesoureiro da Junta de Freguesia de Alcagoitas e pouquíssimas entidades mais. É um esclarecedor fartar vilanagem, com a excepção vicentina da arraia-miúda.

Querido País este, que em plena época estival (em que o pessoal só vai a banhos o mais longe possível, ou seja a Costa da Caparica, incluindo o Meco, e por determinação pública de Sua Excelência o Senhor Presidente da Re-pública), se dedica a estas trocas de galhardetes realmente empolgantes. Longe já vai o tempo do Mundial sul-africano e esquecido paulatinamente o imbroglio do Queiroz – o Carlos, que o pobre do Eça, felizmente, não faz parte destas trocas e baldrocas.

Assim vai a Justiça (???) neste torrão natal, à beira-mar debruçado. Valha-lhe a Senhora da Agrela, que não há santa como ela. Valha-nos.

sábado, 31 de julho de 2010

Os mas do Freeport

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Por Antunes Ferreira

O CHAMADO «Caso Freeport», mesmo depois do Ministério Público o ter dado por concluído, sem haver motivos para incriminar José Sócrates, continua a merecer por parte de órgãos da Comunicação Social, comentários os mais diversos, todos alicerçados nos mas mais diversos, ainda que tocando a mesma tecla. Será mesmo que Sócrates não participou activamente nele? As conclusões do processo não terão, elas próprias, sido influenciadas – pode ler-se manipuladas – pelo primeiro-ministro?

A afirmação feita por dois magistrados do grupo que se encarregou das averiguações ajudaram, ajudam e ajudarão à festa. Faltou-lhes tempo para fazer mais perguntas a Sócrates. Caiu o Carmo e a Trindade. Num processo que demorou cinco anos ou mais, faltou tempo, vejam lá, para fazer perguntas ao antigo ministro do Ambiente, hoje chefe do Governo.

Já escrevi e não tiro dos textos uma única vírgula, que José Sócrates, em quem depositei imensas esperanças e por isso nele votei, trem tido comportamentos que por complicados têm recaído sobre ele próprio. E bastantes, em número suficiente para que me dispense de aqui os enunciar. Ou seja, muito claramente: alterei em boa parte, as esperanças que alimentei.

Peço, desde já perdão das dimensões desta crónica. Mas, não posso deixar de transcrever um artigo da autoria do Embaixador de Portugal em França, Francisco Seixas da Costa, publicado no seu blogue «duas ou três coisas» na sexta-feira, 16 deste mês.

«Portugal tem uma das mais brilhantes escolas daquilo que se pode qualificar como "jornalismo adversativo". Trata-se de um apurado estilo, que exige uma grande experiência para garantir a sua hábil utilização, que consiste em relativizar e atenuar, pela negativa, qualquer notícia através da qual possa transparecer uma ideia positiva ou otimista.

Há anos que constato que esta é, verdadeiramente, uma especialização de um certo jornalismo português, muito patente nos títulos dos jornais ou dos seus "sites" informáticos, mas igualmente presente, quase por um peculiar imperativo deontológico doméstico, nos noticiários televisivos. Os exemplos são aos milhares, pelo que aconselho o leitor a estar atento, nos próximos dias, à eventual divulgação de qualquer estatística ou linha tendencial positiva. Logo verá que, no segundo seguinte, aparece uma frase começada por: "Porém ..." ou "Mas, contudo,..." ou "No entanto...".

Querem exemplos? "As praias portuguesas foram consideradas das mais limpas da Europa, em 2009. Porém, neste domínio, a Itália evoluiu mais do que Portugal, nos últimos dez anos". Ou ainda: "Há menos incêndios em Portugal em Julho de 2010 do que em idêntico período de 2009, mas isso pode ter ficado a dever-se às temperaturas mais baixas".

As estatísticas económicas e sociais são "bombo da festa" deste "jornalismo". Qualquer índice positivo em Portugal aparecerá, inevitavelmente, diminuído por um outro que permita negativizá-lo ou por uma oportuna comparação ("Contudo, dentro da UE, a economia de Malta cresceu mais no mesmo período" ou "No entanto, Portugal não conseguiu chegar ao nível de recuperação de postos de trabalho obtido por Chipre").

De notar que há uma "regra de ouro" nesta escola de jornalismo: nunca se "poluem" as notícias negativas com notas positivas, como por exemplo: "Desemprego cresceu no último mês, mas a taxa do seu crescimento tem vindo a diminuir de forma sensível, o que aponta para uma recuperação".
Era só o que faltava!, estarão a dizer os cultores do "jornalismo adversativo"».

E mais não escrevo. Era só o que faltava…

sábado, 24 de julho de 2010

Gordos - uni-vos!

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Por Antunes Ferreira

GORDOS DE TODO O MUNDO - uni-vos! Unamo-nos! Estão, estamos, em alerta vermelho, grande risco, quase como o que é lançado pelo INMG face aos caloraços de Verão. Não é que se trate de um incêndio de dimensões escaldantes. Mas, também não é só fumaça, até porque, sabe-se bem, não há fumo sem fogo. Até o do cigarro. E, até os maços avisam em letras garrafais: FUMAR MATA.

A má-língua viperina afirma que um cidadão é gordo como um texugo, como uma bola, como uma jibóia, como um nabo, que nem um abade. Tontices sem qualquer razão de ser, aleivosias torpes, verdadeiro apartheid entre quem mais pesa e quem pesa menos. Mas, também existe o reverso da medalha: gordura é formosura. E a tradicional boa disposição dos a atirar mais para o cheio é constatável quotidianamente.

Posto isto, que já não é pouco, a que vem este alerta, aliás justificadíssimo? A ameaça contra os verdadeiros repletos veio da Alemanha. Que dá guarida a gente dessa quantidade, numa proporcionalidade que esclareço: dois terços dos machos e metade das fêmeas. Anteontem, um deputado do Partido Cristão-Democrata (CDU), defendeu que “os gordos devem pagar um imposto para compensar os gastos de saúde devido à sua excessiva carga corporal”, segundo avançou o jornal Bild.

O parlamentar – neste caso, melhor, o para lamentar – germânico, de seu nome Marco Wanderwitz, acentuou que, “é preciso discutir se os custos avultados que resultam de uma alimentação excessiva devem ser assumidos a longo prazo pelo sistema de saúde”. O homem, que tem 34 anos e é dirigente da juventude cristã-democrata, acrescentou também que “quem tem uma vida pouco saudável, voluntariamente, deve assumir a responsabilidade financeira por ela”. Para o que lhe havia de dar. Como se um anafado entrasse num restaurante, comesse à tripa-forra e, no final do ágape, mandasse a conta para Berlim. Que despautério.

O alegado representante (mais creio que seja dos eleitores magros, dos esbeltos, dos petrónios) não é de modos. Tomem lá imposto, anafados de uma figa, percentagem da taxa não especificou, mas penso que seja progressiva. Ou seja, um obeso militante deveria ficar com uma alcavala de 35%. Longe vá o agouro, num País como o nosso, onde a banha é documento, Teixeira dos Santos, no caso de tentar pôr em prática a medida, arriscar-se-ia a ser defenestrado do alto do Torreão do Terreiro do Paço.

Aqui fica, in fine, a palavra de ordem que se torna justificadíssima perante este atentado à liberdade gastronómica. Gordos unidos jamais serão vencidos! Recurso à greve da fome - nunca!

sábado, 17 de julho de 2010

Padres – só homens

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Por Antunes Ferreira

PARA A SANTA MADRE IGREJA, a tentativa de ordenação de mulheres é considerada como um crime grave que viola o sacramento da ordem. Isto mesmo constou de um conjunto de normas que, agora dado a público, não são novidades. Mas, apenas, e de acordo com um comunicado da Santa Sé, com a assinatura do Pe. Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, tão-só e apenas «incluir normas já em vigor» num ordenamento «mais orgânico» sobre os delitos cuja apreciação e julgamento são pertença da Congregação da Doutrina da Fé (CDF). Como é sabido é um verdadeiro braço armado da Igreja, ao qual presidia o cardeal Ratzinger, hoje Bento XVI.

Sobre este caso da ordenação de mulheres existia já um decreto da poderosa Congregação, datado de 2007. Trata-se de um verdadeiro cavalo de batalha do Catolicismo. Só os homens podem ser ordenados sacerdotes, e ponto final, parágrafo. E vem agora acentuar-se que a pena para este tipo de ordenações é a excomunhão latae sententiae (automática). E mais, para quem tenta conferir a ordenação e para a própria mulher que tenta receber a “ordem sagrada”.
O sexo fraco – expressão cada vez mais calina e imprópria – que se ponha a pau, portanto. A Católica, Apostólica e Romana não brinca em serviço. Caríssimas mulheres, muita atenção: essas tentativas pecaminosas já não levam à fogueira, mas quase. Ou seja, à excomunhão sem apelo, nem agravo. Por essas e por outras é que há quem chame à CDF a sucessora e herdeira da Santa Inquisição. Por mim, tenho como certa essa afirmação. Daí que, a ser possível, o fogo lavaria este crime grave. (As palavras são da própria Igreja).

Desde que a papisa Joana se meteu em trabalhos, de acordo com lenda que correu na Idade Média, as mulheres ficaram sob observação extrema por parte da Santa Sé. Conta-se que, dada a sua grande inteligência e preparação cultural, Joana se fez passar por monge, bispo e chegou a cardeal. No Conclave que se reuniu após a morte de Leão IV, seria eleita por unanimidade, tendo tomado o nome de João VII.

Porém, o imbróglio culminou com o parto de uma criança sua filha e de um oficial da Guarda Suíça, durante uma procissão a que ela/ele presidia. Um cronista do século XIII escreveu que os cardeais que tomavam parte na celebração terão reagido de imediato com um «milagre, milagre»! Mas, passada a ocorrência, parece que retiraram as exclamações e aproveitaram o ensejo para condenar a papisa à morte por apedrejamento. O Irão ainda hoje o faz, mas para casos de adúlteras…

Vladimir Ylyich Lenine, anticlerical conhecido e reconhecido, teria clamado, face a este comunicado da Congregação para a Doutrina da Fé, mulheres de todo o Mundo, uni-vos! E não seria caso para menos.

sábado, 10 de julho de 2010

Salvar a Nação

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Por Antunes Ferreira

EL-REI DOM SEBASTIÃO, ao pé do Dr. Pedro Santana Lopes, não passa de um ajudante de auxiliar de praticante. O Desejado limitou-se a desencadear uma crise com a aventura espúria de Alcácer Quibir. O facto de ter sido considerado durante séculos (e hoje mesmo, ainda) como sendo o Salvador da Nação não tem nada a ver com proposta que ele tenha feito por ideia própria. E, de resto, os meios da Comunicação eram, na época, pouco significativos. Um tal Luís Vaz preparava o lançamento de obra que se visse – e lesse. Mas não percebia muito de marketing.

O Dr. Santana Lopes, bem ao contrário, com um fortíssimo pendor para a criação de impacto junto do povo sempre que faz afirmações, neste particular é um alho. Os já citados media aguardam-no com a tenacidade de um qualquer rotweiller que se preze, sempre na esperança de manchetes resultantes das suas declarações. Neste particular, é um verdadeiro Mestre. Quando menos se espera, ei-lo na berra, depois de andar por aí, ou mesmo quando anda. É um Salvador da Nação sofisticado. Sem espada, mas com armadura ainda que virtual.

Tenho para mim que é a altura ideal para apresentar ao José Cid (que, qual Fénix, vai renascendo das próprias cinzas), uma sugestão: compor uma nova balada que, desta feita, poderá começar, a exemplo do que fez com o saudoso monarca, com um sonoro Pedro Santana Lopeeees. O cavalo do êxito não passa assim tão frequentemente por um músico; há que aproveitar a ocasião e montá-lo.

Cito órgãos de informação: «(…) criticou o Presidente da República por ter deixado que o PS formasse Governo sozinho, na sequência das eleições legislativas de Outubro, insistindo que o ideal era ter promovido um "Governo de salvação nacional",(…) “com base maioritária estável no Parlamento". Mas não defende um Governo de bloco central, formado apenas por PS e PSD ou também com a participação do CDS-PP. "Era necessário um Governo de salvação nacional onde admito a conveniência de ser chamado o próprio PCP e as diferentes forças sindicais à mesa das negociações", advogou (…)»

Os Portugueses estão fartos de ser salvos contra vontade. Eu, pelo menos, estou. Consecutivamente, quais cogumelos, brotam excelentes intenções de salvar a Pátria exangue, com os resultados que se têm vindo a ver e se vêem. É um tanto como o escuteiro que, ao ver uma velhinha parada no passeio, se lhe dirigiu e a ajudou a atravessar a rua, alegando tratar-se da sua boa acção de cada dia. O óbice é que, já no outro lado, a senhora lhe disse que não queria atravessar coisíssima nenhuma, apenas estava à espera da neta Filomena.

Um «Governo de Salvação Nacional», com todos como o bacalhau é uma ideia muito interessante e que, na medida do possível, deveria ser tomada seriamente em consideração. Oportunidades como esta não se podem desaproveitar. Modestamente, adendo: no contexto da comparação histórica, o primeiro-ministro podia ser, então, o Senhor Dom Duarte Pio. Sem cavalo branco, mas com muito nevoeiro – para não ser reconhecido.

sábado, 3 de julho de 2010

Carlos, o mestre-escola

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Por Antunes Ferreira

TRATA-SE DO FAMIGERADO Queiroz a que temos direito, mas, atenção, é o Carlos, que o nosso Eça não tem nada a ver, felizmente, com esta embrulhada. Trata-se do alegado responsável pela selecção nacional que se portou de forma medíocre no Mundial da África do Sul. Trata-se de um sujeito portador de verborreia aguda, inconsequente e incompreensível, quando fala, em Português, sem tradutor.

Esta equipa nacional pode ser tudo, mas não é uma… equipa. É um molho de jogadores, alguns deles bons, um que outro óptimo, mas sem nada a uni-los. Porque quem a dirige não o consegue fazer – não o sabe fazer. Poderão dizer-me que enfileirei no clube dos treinadores de bancada, ora apontado como atacante do professor. Todos nós o somos. E 85 % rejeitam o homem. Que, para ser verdade, deveria, ele sim, incutir espírito atacante na selecção.

Isto porque, bem vistas as coisas, a selecção foi para a África do Sul (depois de uma penosa caminhada, com calinadas diversas na qualificação), com a ideia de defender as cores de Portugal ou com a ideia de se defender perante os adversários? Há muitos cidadãos que escolhem a segunda hipótese. Eu sou um deles. Foi carregada de medo e descarregada de objectivos. Ou, apenas com um: safar-se…

Sejamos realistas. Os «brilhantes» resultados obtidos, que devem ser motivo de contentamento para os portugas, segundo o oráculo, cifraram-se em dois empates, uma vitória e uma derrota. E, de acordo, com o alegado técnico, a prestação foi positiva. Mais, depois de um 0-0 frente à Costa do Marfim, o sujeito permitiu-se ao luxo de declarar que «fizemos um jogo inteligente».

E após a derrota com a Espanha afirmou que a táctica era desgastar la roja e, depois, atacar para a vencer. Viu-se. A derrota começou quando substituiu Hugo Almeida por Danny, alegando que o primeiro estava extenuado. O que o avançado depois negou. O que levou o Ronaldo a dizer-lhe, de dentro das quatro linhas, «Carlos, assim, não ganhamos…»

O capitão, que, de tão chateado, no final da partida, respondeu aos jornalistas que o questionavam sobre o motivo da derrota: «Perguntem ao Carlos Queiroz!» Não foi bonito. Um arvorado não responde assim ao chefe. O (ainda) responsável pelo grupo nacional, respondeu, como sempre, qual Pitonisa de Delfos, que havia camisolas que eram maiores do que quem as vestia, mas havia também os que a vestiam e lhes eram pequenas demais, ou algo assim. E terminou de forma grandiloquente: «Não estou cá para fazer amigos!» É, então, que está onde está - para fazer inimigos?

Os 7-0 dados aos rapazes do «querido camarada» Kim Jong Il motivaram o embandeiramento em arco. Ainda por cima, aos mesmos que tinham dificultado a vitória do Brasil. Mas também os mesmos que baquearam no confronto com os marfinenses. O Brasil, de Dunga, foi igualmente, uma desilusão. Porem, tão mau como o Carlos foi o Domenech da França. Pior, só na má educação.

Queiroz, em tudo o que se meteu, deu bota. Exceptuando-se nos juniores que levou a campeões mundiais por duas vezes, o que foi excelente e alimentou o ego tuga. Mas, no Sporting, lembrem-se, não conseguiu nada; nos EUA, nada; no Real Madrid, nada. No Japão, nada. No Manchester foi um bom ajudante.

Resumindo e concluindo. Queiroz é um bom mestre-escola. E só. No restante, e para alem do alimentar de casos com Nani (o que terá acontecido?), com Deco, com Cristiano Ronaldo e sabe-se lá com mais quem, dá-se bem a ensinar jovens. O que, não sendo pouco, é, paradoxalmente pouco. Para nós, os Portugueses, que queríamos mais.

In fine: Os Brasileiros estão putos, como dizem, com o já mencionado Dunga. No entanto, têm uma enorme vantagem sobre nós: o cara sai. A tristeza e até mesmo a raiva que se apoderaram das gentes do lado de lá do nosso Atlântico, vão passar, ainda que lhes custe muitíssimo engolir o fracasso num caminho que, supunham e almejavam, conduziria o escrete ao hexa.

Por aqui, o tipo fica. Até quando? O próprio diz que só no fim do contrato, ou seja lá para 2012. Paciência? Nem a Senhora do Caravaggio nos vale.

sábado, 26 de junho de 2010

Dois Portugal - Espanha

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Por Antunes Ferreira

NA ÁFRICA DO SUL, Portugal defronta a Espanha na terça-feira, 29. Em Lisboa, Portugal defronta a Espanha no dia seguinte, ou seja a 20. Como assim? Parece um paradoxo, mas não é. O que une os dois acontecimentos é o confronto entre os dois países ibéricos. No restante, o caso fia muito mais fino.

Vamos por partes. Na primeira das datas as equipas de Portugal e da Espanha jogam nos oitavos de final da Mundial 2010, tendo por palco o estádio Green Point na Cidade do Cabo. Como dizia o anterior seleccionador nacional, o brasileiro Scolari, é um jogo do mata-mata. Quem ganhar passa aos quartos de final. O que quer dizer que o derrotado arruma as botas – e o restante equipamento – faz as malas e regressa ao lar–doce-lar.

De seguida, o embate verificar-se-á aqui na nossa capital durante a Assembleia-geral da Portugal Telecom. De um lado, alinhará Administração da PT e os accionistas que não querem vender, do outro a Telefonica de Espanha que quer comprar. O quê? Toda a gente que segue com alguma atenção este folhetim das telecomunicações sabe que o desacordo existe quanto à tentativa de Madrid de comprar a Participação de Lisboa na VIVO, uma operadora de sucesso no negócio de telefones móveis do Brasil, que ali são os celulares.

As coisas são o que são e singularmente a terra da Vera Cruz está indissoluvelmente ligada aos dois enfrentamentos. No primeiro, o escrete já tinha garantida a passagem à fase seguinte do Mundial. E jogava com Portugal. Registou-se um empate insosso sem golos marcados e, assim, os lusos qualificaram-se também. Com declarações finais do seleccionador Dunga, um tanto exaltado, acusando os tugas de terem entrado em campo para não pretenderem ganhar, só empatar.

Pelo seu lado, Carlos Queiroz vituperou os brasucas pelas entradas violentas para intimidar os jogadores de uniforme vermelho e verde. Por trás dessas declarações conflituosas, a principal razão era que ambos não queriam defrontar os homens de Vicente del Bosque, campeões europeus em título. Caiu-nos em sorte, por mor dos regulamentos, que as duas selecções ibéricas vão mesmo ter de se matar uma à outra. Fatal, como o destino. E só uma passará.

Voltemo-nos para o embate do dia seguinte. Até hoje de madrugada, data em que escrevo esta crónica, os esforços da operadora espanhola parecem não ter o sucesso que a Telefonica pretendia. Os accionistas, que votarão contra o negócio, deverão fazê-lo na esperança de que os espanhóis ofereçam mais dinheiro pela tentativa de compra. E até Sócrates revelou ontem no Parlamento que já dera ordem à CDG e à Parpública para votarem contra.

Estes desaguisados são, pelo menos, um atentado contra a Jangada de Pedra do Saramago que acabou de falecer há dias. As relações económicas e principalmente as financeiras entre as duas entidades máximas das telecomunicações móveis de Portugal e da Espanha.

E também aqui não se poderá aceitar um hipotético empate, porque também se trata de outro mata-mata. Por certo muito mais grave do que o que decorre em território sul-africano. Os golpes mais ou menos sujos estão lançados. A CMVM diz que não pode intervir. A FIFA diz o mesmo.

Desde que Portugal se tornou independente que isto tem sido calino. Em muitas matérias. Mas em Futebol e Finanças, simultaneamente, é caso raro. Raríssimo. Para mim – único.

sábado, 19 de junho de 2010

Uma obra menor

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Por Antunes Ferreira

MORREU JOSÉ SARAMAGO. Curta a notícia, grande o pesar. Desapareceu o único Nobel Português – a solo. Egas Moniz fora-o também, porém a meias.

Normalmente, uma ocasião destas é motivo mais do que sobejo para dizer bem do falecido. Dos falecidos. Pelo Mundo inteiro esta prática – que vem, presumo, desde que o primeiro homem o foi, porque começou a falar – é tão habitual que a admiração surge quando se diz mal. E quando assim acontece, vem um tanto afastado da data do óbito. Há excepções, todas as regras as têm.

Tive o privilégio de conhecer Saramago, de com ele conversar, de almoçar com ele por diversas, bastantes mesmo, vezes. Homem difícil, não pela frontalidade, mas pelo feitio, de algum modo pouco simpático. Um dia, em meados de 1976, na Varina da Madragoa, onde quase diariamente almoçava com a sua mulher de então, a Isabel da Nóbrega, foi ele que se me dirigiu, pela primeira vez.

Fiquei um tanto admirado. Admirador confesso dos seus livros, para mim tratava-se de uma honra. «Não quero incomodá-lo. Sei quem é e que foi para o Diário de Notícias depois de eu ter saído de lá. Quero apenas, desejar-lhe sorte, porque bem precisa dela. É uma casa complicada. Mas, pelo que sei de si, acho que se vai desenvencilhar».

Agradeci-lhe e perguntei-lhe se queria tomar o café connosco, bem como a Isabel, que conhecia bem, era colaboradora do DN e quando ali ia entregar os textos dela dava-me uns dedos de conversa amável. O jornalista e escritor olhou-me através das lentes dos seus óculos, penso que terá reparado na minha mulher e disse, com uma certa secura: «Um dia destes». Só.

Anos depois, creio que em Outubro de 90, encontrámo-nos na Bertrand. Eu tinha acabado de ler o seu livro mais recente, a «História do Cerco de Lisboa» - de um jacto, de tal modo me entusiasmara. O enredo, admirável, era, simultaneamente um isco a que não se podia escapar e um passo enorme no seu caminho de ganhador.

Fomos almoçar. E exaltei o que me tinha obrigado a duas noites em claro, dei-lhe os parabéns, mas, sobretudo, o meu agradecimento pelo prazer que me proporcionara. Limitou-se a acenar com a cabeça, como que sendo o suficiente para me responder.

Mas, de súbito atirou-me com uma pergunta calina: de qual das suas obras gostara eu mais. Não tive dúvidas em responder-lhe (e nem hoje as tenho) que era precisamente a «História do Cerco de Lisboa». Mediu-me de novo. «Isso nem parece seu. Trata-se da minha obra menor».

Ontem, quando me chegou a notícia do seu desaparecimento, lembrei-me desta estória. E do seu feitio frequentemente desagradável. E do telefonema que lhe fiz aquando do Nobel. E da resposta dele, que foi apenas o renovar do comentário antigo. «Continua a dizer que do que gosta mais é da minha obra menor»? Continuava – e continuo.

sábado, 12 de junho de 2010

As vouvuselas e a crise

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Por Antunes Ferreira

NÃO SABIA O QUE ERA uma vouvuzela. Santa ingenuidade e candura q.b. Quando ouvi pela primeira vez o termo, palavra que pensei que era qualquer coisa comestível, que tivesse aparecido a enriquecer um qualquer menu. A minha mulher reprovou-me com alguma acrimónia - que eu só pensava em comida. Não lhe respondi. Tal como no famoso debate televisivo, pensei para mim mesmo que não respondo a provocações.

Amigos ou similares, classificaram-me como espécime em vias de extinção, ao saberem do meu desconhecimento. Outros, aliás bastantes, suspeitaram e disseram-no que se tratava de mais uma das minhas habituais facécias. Que já sabiam o que a casa gastava e que eu estava mas era a mangar com o pessoal.

Porém, por uma destas noites mais caldas, estava tranquilamente a atirar-me ao teclado, quando me entrou pelo escritório que me dou ao luxo de ter em casa, um som tonitruante e simultaneamente pungente. Teria fugido o elefante do sininho do Zoológico? Parecia-me um lamento de proboscídeo capturado, prestes a regressar ao seu fosso nas Laranjeiras.

Fui à varanda e os decibéis continuavam em registo lancinante; mas de animal trombudo nenhum vestígio. No prédio há um, o vizinho do terceiro andar, exactamente por cima do meu, que quando o encontro no elevador ou na garagem vem sempre de trombas como se fora um trabalhador da Função Pública a trabalhar ao domingo. Sem horas extraordinárias.

Face à situação e aos desacordes que não cessavam, vim para dentro e perguntei à caríssima metade o que seria aquele tsunami sonoro. Ela olhou-me como se estivesse perante o ET do Spielberg. São umas duas ou três vouvuzelas. São quê? Duas ou três, quiçá mesmo quatro vouvuzelas. Disseste que não sabias o que eram; agora já sabes.

Calei-me para não agravar a questão. Mas, depois, aquando da transmissão televisiva de um jogo treino da selecção nacional, descobri o que eram esses instrumentos demoníacos, misto de trombeta e cana rachada que produziam um alarido sonoro de tal ordem que quase me levou a não assistir ao jogo com Cabo Verde. De resto, melhor seria que me tivesse retirado, tal a pobreza da prestação do Cristiano Ronaldo & ajudantes. Sem esquecer o Queirós, o Carlos, que não o Eça.

Originárias da África do Sul e vendidas por requisição nos postos da Galp, originando bichas, perdão, agora diz-se filas - por mor de más interpretações e piores intenções – de extensão impensável. Custam um euro esses objectos de tortura auditiva e tudo indica que seja um óptimo negócio. Pelo menos, foi esse o comentário do Marques, que se dedica à prestimosa tarefa de atestar o depósito do meu Hyundai com gasosa de 95 octanas.

Começou em Joanesburgo o Mundial e o tormento para os tímpanos e para os restantes componentes dos ouvidos, incluindo os estribos. Valha-nos, porém, uma coisa: a partir de ontem não há crise. Que resista às vouvuzelas. Portugal acalmou e até o nosso primeiro dorme mais descansado. Se não tiver uma qualquer vouvuzela por baixo da sua varanda.

sábado, 5 de junho de 2010

Há reis e reis

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Por Antunes Ferreira

PIROLITO é a alcunha. Há muitos, mesmo muitos anos, era ainda catraio trabalhei num fábrica deles e assim fiquei. O meu nome, de acordo com o BI, é Julião Casimiro Pintado. É verdade, me posso esqueceri: tenho de ir tirar o Cartão de Cidadão. sei a queim, mas lá que tenho de o tirar, tenho. Sou natural duma convenção. De quêi? De uma convenção foi o que disse, isto éi, de Evoramonte. A caminha do Caia, na raia.

Onde, vejam lá vomecês, nã há Multibanco. Quer-se dizêri, nã existe lá nenhuma ATM, quê sei muto beim oké, mas é assim que lhe prantaram e lhe chamam. Resumindo e concluindo: aquelas mánicas metidas nas paredes das agências bancárias ou nos supermercados ou nessas coisas assim e que servem para tirarmos dinhêro, pagarmos as contas e até carregarmos os telelés… O queles inventam. Ainda entendo qual a rezão do sindicato dos bancários nã têri protestado por elas inliminarem postos de trabalho.

Se me permitem, vou aligeirar o sotaque, senão ainda me arrisco a levar um arraial de porrada dos outros alentejanos que pensam que eu estou a mangar com eles – e se calhar até têm razão. Se eu fosse o Vasconcelos, conhecem?, o Miguel, ainda me defenestravam. Dizem que é aventar pela janela. Está boa, a palavra, o trambolhão é que não. Um tipo arrisca-se a partir umas coisas. E não há cola mesmo super que lhe valha.

Pois, na segunda-feira feira, estava eu pelo fim da tarde num bar de tapas em Badajoz e apareceu-me o Fernando Lavadinho, conterrâneo da melhor colheita. O sujeito trabalha por aquelas bandas, nos painéis solares, por conta de uma firma que os fabrica, em Montemor. Que é a terra com mais semáforos de todo o Mundo, pelo menos no Alentejo é.

Eu tinha mandado vir umas gambas a l’ajillo e um tinto de verano, e ele pediu riñones al Jerez e bebida igual, que o calor começou a apertar e com muito gelo o vinho com limonada passa pelo estreito que nem faca em manteiga no Verão. Lavadinho é conhecido pelo Alforreca, não me perguntem porquê, em Evoramonte não há mar que se veja ou que se não veja. Não há.

«Vieste ontem? Apanhaste o Rei?» «Mas qual rei?», retorqui-lhe. «Então o homem não foi hoje que tomou posse?» O Lavadinho, barra, Alforreca: «Tás a gozar comigo? Um rei toma posse? Isso é um Presidente da República, um primeiro-ministro, um chefe de repartição, até um ajudante de auxiliar de praticante. Um rei é coroado. Tás cada vez mais bronco. A caminho de cota é o que é…»

A conversa estava a dar para a banda do torto, por isso e para desanuviar, chamai o camarero e encomendei uns callos com garbanzos. E mais tinto. Para selar o tratado de paz que se impunha, mesmo sendo entre Portugueses, o que é cada vez mais difícil, vejam-se o Carvalho da Silva e o João Proença nas comemorações do Primeiro de Maio.

Decidimos assentar ideias e apagar confusões. Falávamos de temas diferentes, era óbvio. O meu interlocutor passou a esclarecer. No domingo, isto era ontem, comemorara-se na cidade do Guadiana espanhol, o Día de las Fuerzas Armadas que em cada ano tem lugar em urbes diferentes espalhadas pelo país vizinho. Assim a modos que o 10 de Junho por cá, com desfiles, discursos e condecorações. Isto antes da crise, que agora o PR até já mandou todos os convidados utilizarem a via ferroviária, com a gentil colaboração da CP e da RENFER.

Su Majestad el Rey Don Juan Carlos presidira às cerimónias, Acompanhado da Reina Sofia e dos Príncipes das Astúrias, Don Felipe e Doña Letizia. Esta era a base inabalável do Lavadinho que me contou das medidas de segurança, uma caterva de ruas cortadas, polícias de todas as qualidades, feitios e tamanhos, atiradores especiais nos telhados, o trivial da precaução, que a ETA…

Fiquei embasbacado. O compatriota afinal não estava passado, do sol sobre os colectores da energia dele; dele, astro rei. Cos diabos, já eram monarcas a mais, incluindo a estrela da nossa constelação e os herdeiros do trono. Só faltava o Dom Duarte Pio. As coisas eram claras, claríssimas. Nos entretantos, o acolhedor empregado de mesa, que afinal era Portuguesíssimo de Avis, trouxera una tortilla de patatas y cebolla e dois uísques aparentemente castellanos. Con soda e muchas piedras de hielo.

Era a minha vez de elucidar o Alforreca e o gentil servidor, aliás o Teixeira (que acabara de saira de serviço e fora substituído por un extremeño con bigote), interlocutores atentos e interessados na minha explicação. Depois nos informaria que ali ganhava bastante mais do que em Portugal e a gasolina era mais barata e as compras eram mais em conta e porque torna e porque deixa.

E apesar do paro ir acima dos 22%, ele queria trabalhar e por isso arranjara-o. Já na nossa terra, ainda acrescentou, o pessoal quer é ter um emprego, não quer trabalho. Cansa muito. Ou, melhor ainda, estar refastelado no desemprego com subsídio. Anotei e continuei. Por estas e por outras é que nós não passamos da cepa torta. E também, porque a nossa produtividade é menor do que as reservas de muitos bancos. Adiante. Eu referia-me, obviamente, ao Mourinho.

Da mesa do lado, veio um comentário com acento estremocense. «Esse sim, esse é que é rei. Ou antes, é Deus…» Definitivamente em Badajoz, a percentagem dos participantes lusitanos no colóquio era alta, uns cem por cento. Os aventureiros que somos não se ficaram nos Descobrimentos.

E o último interveniente: «Patrícios, vocês não sabem daquela do Mou quando estava no Chelsea e foi para a cama com uma inglesinha entusiasmada?» Não sabíamos. E ele: «Quando chegaram aos finalmentes, a Mary começou a gemer, oh my God, oh my God!!!!» e o Special One disse-lhe docemente, «my dear, you can call me just only José…»

Eu tinha ou não tinha razão?

sábado, 29 de maio de 2010

PR defende os «mais desprotegidos»

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Por Antunes Ferreira

DE SUA EXCELÊNCIA o Senhor Presidente da República há que esperar tudo, pois já nada nos espanta, muito menos nos elucida. A Constituição confere-lhe o poder para promulgar as leis. Naturalmente ele fá-lo ou deixa de o fazer e não tem de explicar a razão da sua decisão. Concorda, assina; discorda, não assina. É o veto, resumindo.

O Senhor Professor Aníbal Cavaco Silva – que em tempos não muito distantes e enquanto primeiro-ministro, nunca se enganava e raramente tinha dúvidas – entendeu por bem dirigir-se aos Portugueses para esclarecimento da sua posição em relação a problemas magnos. Os quais, naturalmente, se enquadravam na dicotomia anunciada há uns anos, não muito afastados, aliás.

Recordo três: a propósito do Estatuto dos Açores, das escutas telefónicas a Belém e, agora, da promulgação do diploma sobre o casamento entre indivíduos do mesmo sexo, depois de a ter cumprido. Santo homem: de nenhuma deles a arraia miúda, entre ignorante e impreparada, sentiu-se satisfeita pela atenção que lhe dispensava o Supremo Magistrado da Nação. Recordo que já o Almirante Tomás o era.

Mas, a ingratidão típica da ralé motivou concomitantemente a perplexidade. Muitos, muitíssimos, quiçá a maioria dos destinatários, deu-se ao luxo de perguntar - afinal o que foi que ele disse? Bem vistas as coisas, o que foi que ele explicou? E, nesta última explicação/justificação – mas se ele tinha o poder de promulgar, por que bulas veio explicar que o tinha feito para não agravar a crise? Agravar, quem? Notários, solicitadores, advogados até tiveram motivos para se rejubilar com um possível aumento de postos de trabalho. Donde, a necessidade do pensamento de Sua Excelência?

Porém, na quarta-feira, os motivos de espanto, se ainda tivesse cabimento a sua existência perante a solicitude e a disponibilidade do ainda inquilino do Palácio de Belém, voltaram a sair à rua. Espanto acompanhado, de novo, por mais uns quantos pontos de interrogação.

Qual Robin dos Bosques à portuguesa, afirmou que esperava, «como muitos esperam, que os rendimentos mais baixos sejam protegidos, que se tenha em atenção o apoio social aos mais pobres e desfavorecidos». Espíritos insidiosos e perversos entenderam que se tratava de uma alusão ao pacote de medidas de austeridade que o Governo Sócrates pretende fazer aprovar na Assembleia da República.

Gente deste quilate sempre houve, há e haverá em Portugal. Sua Excelência já afirmara atempadamente que não se metia, nem comentava, sequer, medidas ou políticas do Executivo. Os Lusos podiam, assim, estar descansados e dedicar-se de alma e coração à selecção do Queiroz. Do Carlos, evidentemente, que o outro continua a tapar a Verdade nua com o manto diáfano da fantasia, ali ao Camões.

Concluindo. Um destes dias, ouviremos o Senhor Presidente afirmar, convicto e inflexível: a terra a quem a trabalha. Ou os ricos que paguem a crise.

sábado, 22 de maio de 2010

E se fossemos polvos?

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Por Antunes Ferreira

ALGUÉM JÁ VIU uma troca de braços? É muito difícil, mas aconteceu aqui mesmo na capital. E por mor de um engano de um cirurgião. Um engano qualquer tem, diz sabiamente o Povo. Quer isto significar que acontece. E que até se pode desculpar, se não for mal intencionado ou fruto do descuido. Do desleixo, para ser mais preciso. Mas, há enganos e enganos.

No dia 12 o Sr. Fernando Costa foi operado a um braço, no Hospital Particular de Lisboa. Até aqui, tudo bem. Só, ao acordar da anestesia geral que lhe tinha sido dada, descobriu, entre o pasmado e o zangadíssimo que o tinham operado ao braço direito. Isto porque o que o devia ter sido, era o esquerdo. Aliás, enquanto o destro se lhe apresentava coberto por ligadoras, o sinistro até estava escanhoado.

Claro que chamou a enfermeira que, sem demoras, lhe pediu muitas desculpas; como se sabe, desculpas não curam. De seguida vieram o operador e o chefe da equipa. O primeiro, compungido, pudera, não, tentou explicar que se tratara de um lapso, mas que no dia seguinte iria repor a verdade cirúrgica, operando o esquerdo.

O chefe da equipa não foi de modas: por que razão o paciente não avisara quem brandia o bisturi? O Sr. Costa, por mais paciente que fosse – perdeu a paciência. E saiu do malfadado Hospital Particular, com o seu processo clínico debaixo do braço, presume-se que do são, e informou que o passo seguinte seria dado em sede própria, o tribunal.

A notícia trouxe-a à luz do dia pelo Público. De princípio, duvidei: seria possível? Porem, pelos vistos, foi. A desgraçada estória fez-me recordar as intervenções oftalmológicas no Hospital de Santa Maria, que causaram danos gravíssimos a cinco doentes. Incluindo a cegueira. Num hospital privado, acontecera agora este enormíssimo disparate; num do Estado ocorrera antes outro. Emendo: não foi um gigantesco disparate; foi um acto criminoso.

Se este País deitado ao mar, não apenas debruçado, estivesse em estado normal, dir-se-ia que a ocorrência, no mínimo, era inverosímil: Mas, o impossível aqui é… possível. Tudo pode acontecer e quase ninguém já se espanta. Somos assim, nós os Portugueses, teremos de fazer muito para nos emendarmos, se formos capazes.

Desculpabilizar os autores deste atentado à saúde pública, em particular a do Sr. Fernando Costa, perfila-se no horizonte. Somos uma terra de branqueamentos. Tome-se, como exemplo, o que se vem passando sobre Salazar. Mas isso são outras contas de outro rosário.

E isto, quando apenas temos dois braços. Que faria se fossemos polvos?

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Morreu o Zé Luís

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Por Antunes Ferreira

SÓ QUANDO ALGUÉM MORRE, os que ficam apressam-se a afirmar que fulano era um homem de bem, amigo do seu amigo, muitíssimo competente, íntegro, vertical, coerente, honesto e coisas assim. Os que recebem tais encómios em vida têm o legítimo direito de duvidar, «não mereço, nem tanto ao mar, nem tanto à terra, penso que não serei assim. Mas, de qualquer forma, agradeço». E de pensar que quando a esmola é grande – o pobre desconfia.

O Zé Luís era quase três anos mais novo do que eu. Foi na Faculdade de Direito que nos conhecemos. Fizemos umas quantas loucuras e outras tantas malandrices juntos, ainda que o pudesse considerar um puto. E era. E foi o que ele soube ser ao longo da vida, um puto porreiro e irreverente. Foram uns anos bons aqueles em que convivemos e em que acreditámos que o futuro seria muito diferente, para melhor. Enfrentámos a PIDE, ele muito mais do que eu. Sofremos as consequências. Ele muito mais do que eu. Anos de prisão contra três interrogatórios e uma detenção de dois dias. Em língua de râguebi, 86-3.

Depois fui para a tropa. Durante cinco anos e 18 dias. Com vontade de me ir embora, mas sem coragem para o fazer. E, ainda por cima, dois crianços a obrigar-me a pensar, repensar e… ficar. Com isso, afastámo-nos, mas mantivemos a Amizade, naturalmente, Os oito anos de Angola, com os quilómetros de distância, não foram impeditivos – nunca o seriam! – de prosseguirmos o excelente relacionamento.

Depois do 25 de Abril, regressado de África, vim encontrá-lo no MRPP. (Era já o Saldanha Sanches. Mas, para mim, o Zé Luís, como para ele eu era o Henrique). Obviamente. Discutimos muito, discordámos muito, mas nunca perdemos esse elo amigo que entre nós se instalara, sem apelo, nem agravo. Opções políticas foram o que mais nos levou a terçar armas – mas embotadas, para nenhum de nós se picar, sequer. E quando em Outubro de 1975, José Freire Antunes, então da Comissão de Imprensa do MRPP, confirma a expulsão de José Saldanha Sanches, à data director do jornal LUTA POPULAR, acusado de representar «os interesses da burguesia», telefonei-lhe a dar os meus parabéns… Foi um fartote...

Voltámos a desencontrar-nos. Anos passados, respondendo a convite de Sousa Franco, meu colega desde o Camões até Direito, tive a péssima ideia de dizer que sim e, por conseguinte, ir com ele para o Ministério das Finanças. Se há alguma coisa de que me arrependa na vida foi esse passo malfadado. Culminado com uma bipolar durante cinco anos e… seis psiquiatras.

Mas, toda a medalha tem o seu anverso. Foi lá que, ao entrar do lado do rio, dei de caras com o Zé Luís, já na altura fiscalista de méritos comprovados, a quem Sousa Franco cometeria a tarefa inglória de participar na chamada Comissão Monti. A utopia da uniformização fiscal na Europa comunitária era realmente uma teia de Penélope sem qualquer Ulisses. Numa vinda conjunta de Bruxelas, confessou-me que «estou farto disto».

A última vez que nos falámos foi quando, recordo-me amargamente bem, em 7 de Junho de 2007 o chumbaram miseravelmente nas provas de agregação na Faculdade de Direito. Uma vingança mesquinha; mas, continuo a perguntar-me: de quê? E por que bulas? Por ser ele considerado um dos maiores fiscalistas portugueses? Telefonei-lhe. Disse-me: «Eles lá sabem porquê…».

Ontem, ao princípio da madrugada, fez-nos mais uma partida. A da partida. Não vale, Zé Luís. Tu não foste. Estás.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Bento e as montanhas

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Por Antunes Ferreira

A FÉ MOVE MONTANHAS, mas os mais apressados usam a dinamite. A frase não é minha, encontrei-a na casa de banho de um restaurante lisboeta, o que prova, uma vez mais, que a cultura nacional anda de calças na mão. A sentença logo me levou a fazer a ligação com a visita do papa que, asneirada, chega na terça-feira. Explico.

Não gosto de papas, das de maizena, das de linhaça ou dos de Roma. Abro parênteses: minto; não me referi, intencionalmente, às de sarrabulho, de chupar os dedos até aos cotovelos. Fecho parênteses. E deste então, nem se fala, ou seja, se há graus de não gostar dos bispos do Vaticano, este Bento ocupa o lugar cimeiro da escala. Ratzinger - que foi no Vaticano guardião da dita Fé – não, obrigado. No almoço comemorativo dos cinco anos deste blogue, reunião muito simpática e gratificante, um dos participantes insistiu com um outro no sentido de fazer um esforço final, nestes dias que faltam para a despudorada visita, na denúncia e crítica dela. Com factos, acrescentou. Concordei. Concordo.

Há que o dizer, tal como no estrangeiro, que a chegada do pontífice não é desejada por muitíssimos Portugueses. A Time, por exemplo – e continuo a seguir o raciocínio do primeiro conviva que a citou – pergunta se Bento se vem lavar na água benta portuguesa. Vem. Um sujeito que defendeu o encobrimento da pedofilia sacerdotal e bispal e sei lá qual mais eclesiástica, que continuou a proibir os seus seguidores de usar o preservativo, não é flor que se cheira.

Resumindo: para o papa, tolerância zero. O busílis é que ele é acompanhado de tolerância… de ponto. Poderão perguntar-me: mas porquê a referência supra sobre a dinamite? Que tem o explosivo a ver com a alva tourné? Tem; no percurso papal serão retirados, presumo que provisoriamente, todos os lixões, nos quais mãos criminosas poderiam deixar lembrança com detonador. Os Portugueses são pacíficos e acolhedores, mas, por via das dúvidas…

Homens de pouca Fé, atentai no discurso antecipado do desvelado encobridor dos amigos muito chegados das crianças. Ele prevê uma chegada apoteótica e a demonstração dos fidelíssimos filhos de Portugal, nação valente, digo, fiel até à última gota de cálice. Simpático, o senhor. Aliás, foi o Chefe dele que lhe ordenou a viagem a este País destemperado. Vai, para impedires que o meu filho seja de novo crucificado. O do Benfica, é óbvio. E é tanto assim, que o LF Vieira lhe vai oferecer uma camisola vermelh.., perdão, encarnada. E, pelo sim, pelo não, o JE Bettencourt também vai. O futuro a Deus pertence.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Mau como o Pintam

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Por Antunes Ferreira

QUANDO EU ERA PUTO, perguntou-me um tio qual era o homem pior de Portugal. Na altura, se já tivesse alguma formação política, podia perfeitamente ter dito que era o Salazar. Mas, aos oito anos de idade, claro que não tinha. E fiquei a olhar para o tio Armando, irmão de minha mãe e meu padrinho. Por isso sou também Armando. Henrique Armando Antunes Ferreira.

Contam que eu estava um verdadeiro boi a olhar para um palácio. Isto porque o meu olhar bovino correspondia à incapacidade de responder. Sabia lá eu quem era a criatura. Porém, ele insistia, qual era o pior fulano que havia em Portugal. Como fora o meu interrogador que me iniciara nos mistérios da bola de cótechu, como então se dizia, e me industriara para me arregimentar no seu clube, que era o Sporting, pensei mais umas vezes, já então em termos futebolísticos.

Neste particular, o segundo sargento da Força Aérea Armando Antunes tinha atingido o plano que arquitectara. Não um qualquer plano de voo. Nada disso. O engenhoso sistema de captação de mais um adepto dos leões que, na altura, ainda eram do Campo Grande, surtiu efeito. Até hoje sou o que os adversários mais mesquinhos e soezes chamam «lagarto».

Daí que tivesse adiantado, talvez com algumas reticências (francamente, não me recordo de todo o episódio, mas tenho mais do que uma vaga recordação), que era o Félix, o defesa central dos «lampiões», de acordo com a terminologia armandina. O que deu motivo para umas largas e sonoras gargalhadas do meu tio e, naturalmente, uma intervenção discreta do Ferreira pai, no sentido de morigerar a situação. O meu progenitor sempre foi uma excelente pessoa, ainda que usasse fato cinzento.

O tio Armando, sossegou o riso e disse-me que não, infelizmente não, o Félix não era bom, lá isso não era, mas, de forma alguma, era o pior habitante de Portugal. E elucidou-me que era o Pintam. Esbugalhei, por certo, os meus olhos já exageradamente esbugalhados. O pai Ferreira, admirado igualmente, pediu ao cunhado que esclarecesse, por favor, pois, quem era esse Pintam. Não conhecia ninguém com tal nome, ainda que, em Portugal tudo fosse possível.

E o brioso militar tentou clarear a questão. Já não era directamente comigo que ele tratava; era com o meu progenitor. A resposta era um verdadeiro enigma, quiçá mais difícil de desembrulhar do que a pergunta que lhe dera motivo. A boquiaberta criança que eu era tinha ficado de lado. Creio que não me terei apercebido disso, mas dizem que fiquei um tanto chateado. Menino, não se diz isso, é – aborrecido. O certo é que estava a modos que.
E veio o esclarecimento. «Ó Ferreira, então você não sabe que em Portugal nunca há ninguém tão mau como o pintam?» Tudo acabou num tal coro de casquinadas e registo de decibéis, que as senhoras que estavam na cozinha vieram, açodadas, de avental e colher de pau, a perguntar o que acontecera.

Tudo isto me veio à lembrança porque, de repente, no meio da tempestade económico-financeira em que estamos mergulhados até às pontas dos cabelos, e quem sabe se um pouco mais até, surgiu o Senhor Brian Coulton em entrevista ontem publicada pela agência noticiosa Bloomberg a afirmar que «o quadro da economia portuguesa não é negro como o pintam».

O citado cavalheiro é um dos manda-chuvas da Fitch, que é uma agência de notação alemã. Esta opinião parece ser importante: ela surge na sequência do facto de uma outra agência de notação financeira, a Standard & Poor’s ter cortado drasticamente o rating de Portugal. Mas o especialista em tais temas não foi de modas. E ainda disse mais.

Portugal, com um défice de 9,4% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2009, tem, na sua opinião, uma situação menos grave do que aquela que a Grécia enfrenta e relembrou até que o Executivo de José Sócrates tem um historial de redução do défice público. Mas, foi mais longe: a Espanha está em piores condições do que o nosso País.

E o Governo português tem muito mais credibilidade do que o executivo de Papandreou e já tomou muitas medidas no sentido da redução do défice antes de a crise se declarar. A finalizar recordou que, em 2008, Lisboa conseguiu a proeza de reduzir o défice para 2,7% do PIB, que é até à data presente o mais baixo de Portugal em tempo de democracia.

Percebo muito pouco destes assuntos financeiros, não sei muito bem o que é o rating, aprendi mais ou menos o que é o défice, penso que entendo o que é uma agência de notação. Em resumo, sou deficitário e muito no domínio financeiro-económica. E, apesar do não vás sapateiro, jamais me esquecerei de que não há ninguém tão mau como o pintam.

sábado, 24 de abril de 2010

Experimente o seu milagre na Terra Santa

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Por Antunes Ferreira

NÃO TENHAMOS dúvidas, homens de pouca fé; é assim mesmo, sem tirar nem pôr. Enquanto há vida, há esperança, isto porque esta é sempre a última a morrer. Aforismos com carradas de razão – eles têm-na sempre. Mas, quem são eles? Passo a explicar, para depois tirar as conclusões que aliás são evidentes. E a sugerir ao Ministro das Finanças que atente nesta excepcional proposta.

A caixa do correio é imprescindível mas é muito perigosa. Nesta semana que passou, ela acolheu uma coisa impressa cujo título é Folha de Portugal. Tratamento privilegiado tem, já que a Dica e outros órgãos de comunicação e impressos, são colocados obrigatoriamente em cima da secretária do Sr. Eduardo Sequeira, o porteiro do prédio, que fiscaliza absoluta e cuidadosamente esse procedimento. Aqui para nós, o Sr. Sequeira é um gajo porreiro.

Esta folha é, portanto, uma excepção, para ser mais correcto a excepção. Talvez porque no título ostente na orelha direita um «sempre ao seu lado», que conforta e informa o pessoal que não há que ter incerteza, qualquer ela que surja ou mesmo que seja. Lembrou-me o «sempre, sempre ao lado do Povo», mas este era do MFA que, não sei se sabem ou se recordam era o Movimento das Forças Armadas que fez o 25 de Abril.

Nada disso, lagarto, lagarto, lagarto, t’arrenego Satanás. Esta folha semanal, com a tiragem de 50.000 exemplares de distribuição gratuita é da IURD, a Igreja Universal do Reino de Deus, com sede ali na Alameda D. Afonso Henriques, no prédio que foi o falecido cinema Império. Comandada pelo Bp, que não é a gasolineira, mas sim Bispo pastor Edir Macedo.

Nas 20 páginas que possui, o semanário – que também tem um suplemento com mais oito, o caderno Folha Centro de Ajuda Espiritual, CdeAE – podem ler-se as 39 situações em que não é cobrado nada. Grátis. Mas, lá está igualmente que «Só ensina às pessoas a VERDADE. O dízimo, como também as ofertas, são mandamentos bíblicos». Ali não se engana ninguém. Nova recordação me assalta a mente ímpia. Os da banha-de-cobra também não.

E, para que não subsistam interrogações, traz uma entrevista com Cláudia Nunes, que vive em Oliveira do Hospital, e era possuidora de vários quistos de grandes dimensões. Apesar do «intenso tratamento» (os termos vêm lá), «…as dores eram cada vez maiores» e só havia uma solução de acordo com a médica dela: «retirar o ovário».

Mas, felizmente, ela foi ao CdeAE onde «clamou a Deus para acontecer um milagre». Até entrou na «Fogueira Santa» e deu «tudo o que Deus me tinha pedido. Sacrifiquei com a certeza de que ia obter o milagre que precisava, assim coloquei no Altar todo o dinheiro que tinha juntado durante três anos». Resultado: os quistos desapareceram todos, facto comprovado pela sua médica.

Um outro depoimento, desta feita da Emília, hoje empresária com a ajuda do CdeAE. Era costureira, ganhava uma miséria «até que, um dia, o pastor estava a pregar e perguntou quem é que tinha coragem de dar o seu tudo para que a situação se resolvesse». Tinha vindo do armazém, onde recebera a féria «e mesmo tendo as contas para pagar (…) decidi dar o meu tudo». E como pedira para ser empresária, hoje é. Entregando de novo o seu tudo.

Face a isto, não admira que o anúncio de uma página afirme expressamente e em letras gordas EXPERIMENTE O SEU MILAGRE NA TERRA SANTA, a partir de 1.600 euros.

O ministro Teixeira dos Santos deveria inscrever-se já e ir e experimentar o seu milagre, numa excursão que decorrerá entre 13 e 20 de Agosto. Talvez um pouco tardia para encontrar o milagre de pôr em ordem as finanças e a economia do País. Mas, mais vale tarde do que nunca. FMI, comentadores, opinion makers, especialistas e outros render-se-ão. O CdeAE não falha; é tiro e queda.
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NOTA (CMR): Cartoon publicado com autorização do autor - http://karikamania.no.sapo.pt

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O culpado das cinzas

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Por Antunes Ferreira

CADA VEZ MAIS tenho para mim que o culpado dos enormes transtornos nos transportes aéreos não é o vulcão Eyjafjallajokull, na Islândia; é o primeiro-ministro José Sócrates. Tem de ser. O homem já é acusado de tanta coisa que, mais uma, menos uma, não lhe deve causar grande mossa. E como não se pode prever durante quanto tempo mais a erupção se manterá e as chuvas de cinza dela resultantes também prosseguirão, creio que, com a maior celeridade deverá ser nomeada uma comissão de inquérito para o efeito. De preferência no Parlamento.

Estou certo de que nunca um chefe de Governo, no percurso da Democracia em Portugal, foi alvo de tantos ataques, insultos, acusações e processos como o actual. Nem na I República, a que muitos chamaram e ainda chamam uma bandalheira. Estamos neste ano que corre a celebrar os cem anos republicanos, e não me consta que no período de 1910 a 1926 algum primeiro-ministro tenha sido tão fustigado.

Pior só António Granjo, que foi barbaramente assassinado no Arsenal do Alfeite, em 19 de Outubro de 21, escassas horas depois de ter apresentado a sua demissão, durante a famigerada Noite Sangrenta. A outras figuras políticas portuguesas isso também tinha acontecido escassos anos antes, desde o Rei Dom Carlos até ao Presidente Sidónio Pais.

Pode dizer-se que o percurso do homem público José Sócrates Pinto de Sousa está carregado de assuntos que, no mínimo, têm originado os procedimentos acusatórios de que vem sendo alvo. Ele próprio lançou a ideia de estar a ser alvo de uma campanha negra, de um conluio gigantesco que o pretendia e pretende eliminar politicamente. Mas, ele próprio se tem posto a jeito de muitas dessas suspeitas e das correspondentes acusações.

Nomeadamente no que concerne à relação que mantém (?) com a Comunicação Social, as atitudes do primeiro-ministro vêm sendo lastimosas. É sabido que os media não gostaram dele e logo desde que ganhou as primeiras eleições com maioria absoluta. E, mesmo, talvez antes. Sócrates não sabe lidar com os órgãos de comunicação e tudo indica que não tem ao seu lado quem o saiba fazer.

E agora, periclitante, em função da maioria relativa, o seu comportamento negativo tem vindo a aumentar. É-lhe cada vez mais difícil movimentar-se frente a uma oposição que congrega Direita e alguma Esquerda, é-lhe cada vez mais penoso andar quotidianamente a fazer desmentidos. O tristemente famoso Face Oculta está a ser o último que o abala. De mentiroso a charlatão tudo lhe é endereçado. E a CS, para além de acusadora, transformou-se em caixa de ressonância. Vida dura.

Há quatro anos, mais coisa menos coisa, escrevi que Sócrates era - para mim, naturalmente - o melhor primeiro-ministro depois do 25 de Abril. Agora, não diria o mesmo. E não se trata de virar o bico ao prego ou de virar a casaca, procedimentos tão do agrado de nós, Portugueses. E muito menos de emendar a mão. É apenas o reconhecimento de que não é assim. Infelizmente.

O sim ou não do apoio à candidatura de Manuel Alegre a Belém é mais um berbicacho. Vão sendo muitos. Por isso mesmo, resta-me a ironia, quiçá despropositada: cada vez me inclino mais para a interferência dele no processo das cinzas vulcânicas. Se, por acaso, não tiver sido assim, pode o inquilino de São Bento marcar um ponto a seu favor. De qualquer forma, continuarei a votar PS. Mesmo com José Sócrates. De tal modo andam as coisas por este triste País que me apetece o desabafo calino: do mal, o menos. Mesmo tendo em conta Pedro Passos Coelho.

sábado, 10 de abril de 2010

O não do Constitucional

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Por Antunes Ferreira

MONS PARTURIENS. As dúvidas e os correspondentes medos de Aníbal Cavaco Silva a propósito do casamento entre homossexuais, que o fizeram enviar o texto legislativo para o Tribunal Constitucional, pelo sim, pelo não, afinal parece que eram infundadas. Auto arvorado em Defensor da Moral Tradicional, o (ainda) inquilino de Belém, sai, uma vez mais, muito sujo de uma situação que ele próprio provocou.
De acordo com as notícias a esse respeito, apenas dois juízes em treze defenderam que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é inconstitucional. O que significa que uma esmagadora maioria deitou pela borda fora as inquietudes do Chefe. Do estado, obviamente. Que, de resto, mais uma vez envergou o fato da Oposição conservadora, Melhor, foi a sua voz.

Os conselheiros concluiram que a nova lei "não viola a garantia institucional do casamento, considerando que a mesma não tem por efeito denegar a qualquer pessoa ou restringir o direito fundamental a contrair (ou a não contrair) casamento". O relator juiz Victor Gomes, ainda acentuou que "o núcleo essencial da garantia constitucional do casamento não é franqueado pelo abandono da regra da diversidade de sexos entre os cônjuges" e também "a extensão do casamento a pessoas do mesmo sexo não contende com o reconhecimento e protecção da família como 'elemento fundamental da sociedade'".

O Tribunal Constitucional respondeu assim ao pedido do Presidente da República, que tinha solicitado a fiscalização da inconstitucionalidade de quase todos os artigos da lei. Mas não pôde pronunciar-se - porque Cavaco Silva expressamente não o pediu – sobre a alínea que proíbe o direito à adopção aos casais formados por cidadãos do mesmo sexo. E considerou que "pode seguramente concluir-se que (…o legislador…) não teve qualquer opção no sentido de proibir a evolução da instituição".

Apenas uma nota informativa mais. Votaram a favor os conselheiros Vítor Gomes (relator), Ana Maria Guerra Martins, o vice-presidente Gil Galvão, Maria Lúcia Amaral, Catarina Sarmento e Castro, Carlos Cadilha, Maria João Antunes, Pamplona de Oliveira, João Cura Mariano, Joaquim Sousa Ribeiro e presidente Rui Moura Ramos. Vencidos foram os conselheiros José Borges Soeiro e Benjamim Rodrigues.

O falso puritanismo do PR vê-se, então e assim, desarmado pela entidade competente a quem solicitara parecer, quiçá na convicção de que obteria declaração final que reforçaria, a ser-lhe favorável, a recandidatura. Que, por mais tabus, malabarismos e reflexões que possam ser alegados por Cavaco, está sobre carris, a caminho de novo mandato. O que seria um verdadeiro trauma. Uma desgraça nunca vem só. Donde, conviria que tal não acontecesse. É o que eu penso e desejo.

Neste caso, como em diversos outros mais, o Chefe d…a Oposição deveria ter tido em conta que não lhe convinha pôr-se a jeito de se verificar o princípio - virar-se o feitiço contra o feiticeiro. E não é que se virou mesmo? Os conselheiros constitucionais não lhe fizeram a vontade. Um dia destes, teremos nova comunicação ao País, informando-o de que a maioria dos membros do Tribunal Constitucional é perigosa e, até, pode ser que tenha montado escutas no palácio cor-de-rosa. Neste caso não houve, pelo menos, alegação de quaisquer procedimentos de Fernando Lima. Mas, nunca é tarde para a verdade vir ao de cima como o azeite em relação à água.

Um País que elegeu este mandatário tem o que merece. Os Portugueses que votaram nele têm o que merecem. E como a memória, se é que existe, é curta, podem voltar a fazê-lo. O criminoso volta sempre ao local do crime.