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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Espiões

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Por João Paulo Guerra

DAVID JOHN Moore Cornwell, a.k.a (‘also known as’) John Le Carré, havia de ter gostado de inventar esta história. Mas lá na Cornualha, onde vive, não há histórias destas. E assim, o autor de "O espião que saiu do frio" tem que se contentar com a sua própria imaginação. E desse modo perde, porque a ficção a consideraria provavelmente absurda, a história do chefe dos espiões que anunciou a demissão na véspera de uma Cimeira da NATO no país cuja espionagem externa chefiava. O caso estará para a espionagem com Saltillo esteve nos anos 80 para o futebol: desencadear uma cena de contestação ao sistema mesmo em cima do acontecimento.

A verdade é que a Cimeira da NATO traz a Portugal mais de três mil espiões. Três mil credenciados, porque com os espiões a sério serão muitos mais. E num tal cenário, mais espião, menos espião não aquece nem arrefece. Acontece, porém, que o demissionário não é um espião qualquer: é, ou era, o chefe do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa, apresentado pelo conhecedor Diário de Notícias como uma espécie de "CIA portuguesa". A velha raposa David John Moore Cornwell exultaria com a informação de que o demissionário frequentou com aproveitamento o Curso de Língua Russa na Associação de Amizade e Cooperação Iuri Gagarin e não descansaria enquanto não lhe encontrasse na biografia uma passagem discreta por Cambridge. Mas isso daria apenas uma novela de ficção.

A realidade é que o chefe dos espiões portugueses anunciou a demissão em cima do acontecimento da Cimeira da NATO, apresentando como razões os cortes orçamentais que vão levar ao encerramento de várias estações da espionagem portuguesa.

A Cimeira da NATO começa com uma brecha no Ocidente e com Portugal a ter que tapar um buraco.
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«DE» de 19 Nov 10

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Cimeira

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Por João Paulo Guerra

VINTE E UM anos após a queda do Muro de Berlim, 20 anos depois da reunificação da Alemanha, 19 anos passados sobre a dissolução da União Soviética e a extinção do Pacto de Varsóvia, a NATO é o derradeiro arsenal, unipolar, da guerra fria. É o armazém da tralha de 46 anos de corrida armamentista e de chantagem nuclear. Não tem qualquer razão de existir, a não ser para fomentar o chorudo negócio do armamento, o poder do complexo e da clique militar-industrial que comanda a política americana, e dar emprego a milhões de apóstolos da guerra, formados em cursilhos na doutrina do poder e do terror militar, que agora pregam pelo Mundo, em vez da extinção do único bloco político-militar, o alargamento da NATO.

O objectivo é velho e relho. Já nos anos 60 do século passado, quando a NATO constituía o maior sustento do aparelho militar português nas guerras coloniais, os falcões da Aliança e os peneireiros de Lisboa sustentavam que o Trópico de Câncer deveria ser entendido "cada vez mais como um limite imaginário", de modo a não perturbar "a eficácia da Aliança". Mas terminada a guerra fria, não há justificação racional para a persistência e globalização da NATO. As ameaças invocadas - como o terrorismo ou a pirataria marítima - podem e devem ser enfrentadas num quadro multilateral de cooperação entre estados no seio nas Nações Unidas. E querer atribuir à NATO funções na luta contra o aquecimento global é o mesmo que entregar o comando das corporações de bombeiros a um incendiário. As guerras da NATO na Europa e no Médio Oriente contribuíram decisivamente para a destruição ambiental em vastas áreas do planeta.

Mas claro que a Cimeira vai aprovar tudo o que lhe aprouver. E assim será até que o mundo construído pelos senhores da guerra lhes rebente nas mãos.
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«DE» de 18 Nov 10

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Boato

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Por João Paulo Guerra

EMPRESAS COTADAS
no PSI 20, que aumentaram lucros em 40 por cento nos primeiros nove meses do ano, devem estar a cantar hossanas à crise. Tal como as grandes empresas que ganham milhões escapando legalmente ao Fisco, apesar das subidas dos lucros. Assim como os milionários da Bolsa, com participações acima dos 10% e por esse motivo isentos de tributação, devem estar a aplaudir a bem-aventurança desta crise que se abate sobre o mundo, a Europa, o país mas, aqui chegada, distingue quem sofre e quem acumula.

E como é assim que se passam as coisas, não faltará daqui a pouco quem diga que a crise é um boato e que aquilo que verdadeiramente se passa é que os imensamente ricos precisam de esportular os derradeiros cêntimos dos bolsos dos últimos dos pobres para encherem um pouco mais o saco. Não me canso nunca, nesta coluna, de citar o velho e grande João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett: "E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico". Garrett foi um liberal do tempo em que os ideais liberais derivavam da liberdade contra a escravatura, e não, como hoje, procuram um étimo na liberdade de escravizar e explorar o próximo até mais não.

Por estes dias, se em Portugal a democracia e as instituições funcionassem, ter-se-ia produzido um profundo abalo com as duríssimas críticas da Igreja à absoluta insensibilidade social da classe política, uma casta que trata da vidinha, em vez que cuidar da causa pública.

E assim vai a crise. Com a miséria anunciada de uma absoluta maioria e a riqueza acumulada dos ricos que se produzem com milhões de pobres.
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«DE» de 16 Nov 10

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Blindados II

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Por João Paulo Guerra

A ADMINISTRAÇÃO não consegue já conciliar as suas mentiras sobre o folhetim dos blindados.

A campanha promocional para compra de seis carros blindados para a PSP foi rodeada do maior alarmismo sobre a iminência de ataques terroristas em Portugal a propósito da realização da Cimeira da NATO. A Administração, ao mesmo tempo que jurava não querer espalhar "cenários alarmistas", foi semeando cenários alarmantes: pululam por aí grupos extremistas, alguns dos quais já receberam treino de acções terroristas, patati, patatá.

A primeira mentirola foi detectada quando a GNR veio dizer publicamente que estava em condições de emprestar à PSP blindados que eram para ter sido usados no Iraque, mas não chegaram a tempo e foram substituídos por carros emprestados pelos italianos. O que não impediu a GNR de adquirir blindados que chegaram fora de tempo e, por esse motivo, estarão a enferrujar por falta de uso. Alguém terá percebido então que o alarmismo se destinava simplesmente a explicar o gasto de cinco milhões para compra de seis blindados excedentários em relação às necessidades da PSP e GNR.

Certo é que, sendo dado adquirido que os blindados não chegam a tempo da Cimeira, a encomenda se mantém. Até parece que Portugal não tem mais nada em que empatar dinheiro a não ser em material repressivo.

Finalmente, quando se confirmou que os blindados não iam chegar a tempo da Cimeira, a Administração deixou escapar que afinal os blindados se destinam a possibilitar a entrada da PSP nos "bairros problemáticos". E como todos os antecedentes de casos deste tipo demonstram, os bairros tornar-se-ão muito mais "problemáticos" com patrulhas de blindados.

Uma verdade parece flutuar à superfície de tanta mentira: os blindados destinam-se a combater "inimigos internos".

«DE» de 12 Nov 10

Da importância política da sopa

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Por Helena Matos

A SOPA É UMA ESPÉCIE de barómetro das nossas crises. Como não podia deixar de ser, neste ano da graça de 2010 ou da desgraça da dívida pública a 7,22% , aí está ela, a sopa, nas notícias sobre o aumento da procura nas cantinas escolares e nas instituições de solidariedade. Algumas escolas já terão cantinas a funcionar aos fins-de-semana. Tudo isto é acompanhado por aquele vox populi do “que comam pelo menos uma sopa”.

E contudo ainda há algumas décadas a sopa era um sinal do nosso atraso. Nos anos 60 e 70 era um dado adquirido que no dia em que fossemos todos evoluídos e europeus a sopa seria substituída pelos iogurtes e pelas saladas. Enquanto não se atingia esse depurado patamar civilizacional devia pelo menos tentar-se que os etéreos purés de cenoura substituíssem, nas nossas toscas mesas, aquelas sopas de feijão e grão que, a par da roupa pendurada à janela, eram um sinal inequívoco do luso atavismo, com a agravante estética que as ditas sopas nem para postal ilustrado serviam. Convém registar que nesses tempos em que o frango assado, os bifes e os combinados passavam por alimentos modernos, o top da boçalidade era ocupado por aqueles que preferiam o azeite ao óleo no momento de temperar a salada.

Ao fim de alguns anos gastronomicamente muito difíceis percebemos que podemos invejar o regular funcionamento das instituições holandesas sem que tenhamos de colocar nos nossos pratos aquilo a que chamam comida os muito democráticos e evoluídos holandeses. As palavras, neste domínio tal como na política, querem dizer uma coisa hoje e amanhã o seu contrário: aquilo que, como acontecia com as açordas e as feijoadas, anteriormente se chamava pejorativamente farta-brutos passou agora a designar-se sofisticadamente por dieta mediterrânica.

Enfim, atrás de tempos, tempos vêm. E ao menos nesta crise já não parece coisa de pobre comer-se sopa pois quando as crises nos visitam nós voltamos à sopa. E as crianças voltam às cantinas. Note-se que até há bem pouco tempo as cantinas escolares confrontavam-se não com o aumento da procura mas sim com a debandada dos adolescentes que na hora das refeições trocavam a antiquada cantina pelo bar mais próximo, onde invariavelmente gastavam mais dinheiro e comiam muito pior. (Por ironia nos estabelecimentos particulares de ensino, os alunos, até ao 9.º ano, comem quase sempre nas cantinas, o que custa menos às famílias do que a opção pelo bar de muitos alunos do ensino público.) O aumento da procura das cantinas escolares não é portanto necessariamente uma má notícia. O que já me parece uma má notícia é o anúncio da abertura das cantinas escolares nas férias e sobretudo aos fins-de-semana, como já está a acontecer ou poderá vir a ocorrer em alguns agrupamentos de Faro, Trofa, Setúbal e Rio de Mouro.

Se o objectivo é ajudar famílias em dificuldades disponibilizem-se-lhes alimentos que as crianças e as suas famílias confeccionem e comam em casa. Não se transforme a crise num pretexto para assistencializar as pessoas e quebrar os laços familiares. Quando as crianças vão comer à cantina escolar no sábado ou no domingo onde é que estão as suas famílias? Ficam em casa à espera que a junta de freguesia ou a paróquia abram uma cantina que sirva adultos? Ou talvez as famílias não existam ou funcionem muito mal e nesse caso falar de crise económica é um eufemismo para algo que de económico tem pouco.

Quando num dos seus livros de cozinha Jamie Oliver dá conta de que a resposta invariável dos seus interlocutores italianos sobre o local onde se comem as melhores massas ou a melhor polenta é a casa da “mamma” de cada um deles está a falar de muito mais do que de cozinha.

Por cada criança que não acha a sopa da sua casa a melhor de todas ou que pelo menos não tem memória dos cheiros da sua cozinha pagamos um enorme custo social, económico e moral. Crianças a comerem ao fim-de-semana na cantina da escola pode ser uma solução numa emergência mas não é uma resposta para a crise.
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«Público» e «Blasfémias»

Vento

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Por João Paulo Guerra

NÃO ESTAVA previsto, como garantiu um membro do Governo, mas passou a estar: Sexta-feira há tolerância de ponto em Lisboa, excepto para 60 chefes de Estado e de Governo, respectivas comitivas e guarda-costas, para além de um batalhão de polícias mobilizado para garantir a segurança da Cimeira da NATO, em especial contra a ocorrência de um atentado terrorista que o ministro da Administração Interna tem a profunda convicção que estará iminente.

O ministro foi acusado de "alarmista", mas que seria dos sistemas de alarmes se não fossem os alarmistas? Se não houver atentado - como se espera - o ministro vai dizer que mais vale prevenir que remediar. Se houver, o ministro vai proclamar a sua presciência: "Eu não dizia?".

A convicção do ministro baseia-se na presença, que já terá sido detectada em Portugal por serviços secretos "amigos", de elementos ligados a grupos extremistas, treinados no uso de armas e explosivos, muitos deles antigos polícias e militares. E aqui, a convicção do ministro começa a fazer algum sentido. É que antigos polícias e militares, juntos, ao vivo e em número de "muitos", das duas, uma: ou andam infiltrados entre outros extremistas para ver em que param as modas, ou preparam alguns efeitos especiais que virão a dar razão ao ministro e justificarão, por parte da Cimeira, a adopção de medidas de maior dureza e largueza contra o inimigo sem rosto do "terrorismo". Porque quanto ao terrorismo com rosto, o que se conhece, o próprio Bin Laden, foi uma criação de um serviço secreto.

E agora, a vigilância aí está. Sexta-feira passada, em comunicação telefónica com um edifício na zona limite da área da Cimeira foi-me dito que se notava um certo "vento" na linha. Mas, como toda a gente sabe, "o vento não bate assim".
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«DE» de 15 Nov 10

domingo, 14 de novembro de 2010

A lição de Lula e o teste de Obama

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Por Rui Tavares

HÁ UNS MESES, no Rio de Janeiro, ouvi Lula explicar como entendia ele ser de esquerda, ou por outras palavras, como entendia ele a sua esquerda: “é fazer primeiro o necessário, começando pelo mais simples; depois é fazer o possível; logo, logo, o impossível vai estar acontecendo”.

Lula defendia que esse modus operandi o distinguia da esquerda de “à europeia”, que se caracteriza por aceitar as estruturas de poder como elas estão, mas também da esquerda “Chico Alencar”, do nome de um político brasileiro que saiu do PT para fundar o Partido Socialismo e Liberdade, que deseja chegar ao socialismo “de uma vez só” (na descrição de Lula, que talvez não fosse a dos sujeitos em causa).

Lula ia pontuando a sua explicação com exemplos adequados a qualquer pessoa e plateia. Fazer o necessário era começar pelos mais pobres; contrariamente ao que se costuma pensar, fazer política começando pelos mais pobres não é um bicho-de-sete-cabeças. “Na verdade é muito simples”, dizia Lula, “é fazer saneamento básico sempre e só fazer viaduto quando é preciso”. “No passado”, continuava ele repetindo uma das suas bengalas de linguagem que mais irritam a oposição, “os prefeitos só queriam fazer viaduto porque podiam por lá o nome deles e todo o mundo via; não queriam fazer saneamento básico porque corre enterrado e não dá votos. Mas com o saneamento básico feito é menos criança pobre que corre descalça e pega doença; com a bolsa-família é mais criança pobre que estuda; portanto, é muito simples”. Da mesma forma Lula passava para o possível e, concluía, “como vocês estão vendo, logo-logo o impossível vai estar acontecendo”.

O impossível, de certa forma, aconteceu. Quem diria que o Brasil iria chegar a 2010 como uma respeitada potência global? Nos últimos 16 anos a democracia brasileira tem funcionado bem — e lembrem-se que o ponto de partida foi Collor de Mello. Fernando Henrique Cardoso fez também o necessário: domar a hiperinflação. Lula fez o possível: tirar 20 milhões da pobreza. Se Dilma Rousseff no futuro próximo (e talvez Aécio Neves num futuro hipotético) domarem a corrupção e a violência nas grandes cidades — aí está o impossível que nós gostaríamos de ver acontecer.

Como se desenrascaria Obama no teste do necessário-possível-impossível desenhado por Lula? É cedo para dizer.

Desde logo, Obama começou pelo impossível: ser eleito. Fez apenas parte do necessário: a reforma do sistema de saúde. Fez apenas parte de outra parte do necessário: a reforma do sistema financeiro, na qual deveria ter ido mais longe com uma nacionalização-reprivatização de alguns bancos e com um estímulo à economia adequado à dimensão da catástrofe. E fracassou completamente em outra parte do necessário: fechar Guantánamo e limpar os estábulos de Áugeas do complexo militar e de informações americano, ainda dominado pela doutrina do medo que vem de Bush.

Naquilo em que Obama sofreu nesta eleição, pode argumentar-se que foi porque procurou demasiado o centro, permitindo que os seus adversários o caracterizassem como fraco e fugissem ainda mais para a direita.

Mas isso não é causa para nenhum regozijo. Não há Lulas no hemisfério Norte. Quem se queixa de Obama, olhe para a paisagem que temos: Sócrates, Sarkozy, Merkel, Barroso, Cameron e quejandos. Obama está à esquerda de todos, e mais ainda de uma dinâmica política americana ameaçada por um extremismo de direita agressivo e completamente desligado da realidade. Se Obama falhar o teste, pode ser culpa dele; mas o mal será de nós todos.
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In RuiTavares.Net

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

QUANDO um socialista tão influente como António Vitorino vem assumir publicamente que «o Governo despertou tarde para o problema da dívida soberana», isso é sinal de que o PS já interiorizou a insustentabilidade desta governação de José Sócrates.
Bem como a inevitabilidade de uma mudança, a breve prazo, do ciclo político. (A propósito, cabe perguntar quando acordou Vitorino para tão magna e crítica questão, ele que andou desde 2008 a negar os alertas e as evidências em todas as intervenções que foi fazendo por múltiplos jornais e televisões...).

E quando um socialista tão ortodoxo como Vital Moreira aparece a escrever que «a remodelação governamental não deve esperar para depois das eleições presidenciais» e que «nada aconselha manter a mesma equipa que não ficou bem no retrato da execução orçamental do corrente ano», isso só pode querer dizer que os sinos tocam a rebate na aldeia socialista. Que o PS já não vê como fugir a eleições antecipadas e a uma pesada factura eleitoral em 2011. E que está em curso o início da fase pós-Sócrates.

Há já, aliás, no aparelho socialista, quem se apreste, mais ou menos explicitamente, para a sucessão, começando a arregimentar apoios e a contar espingardas. São três os candidatos óbvios ao lugar de secretário-geral, que Sócrates se verá forçado a abandonar na sequência de uma severa derrota eleitoral.

António Costa, que se distanciou em devido tempo do Governo e de Sócrates, decidindo correr em pista própria na Câmara de Lisboa. António José Seguro, que tem o extraordinário condão de ser um eterno candidato à liderança do PS, apesar de não se lhe conhecer um único pensamento político de fundo ou distintivo para o futuro do país. E Francisco Assis, que tentou gerir com inteligência, nos últimos meses, um percurso político autónomo e imune aos desvarios do naufrágio socratista.

Sabendo-se que o líder que inicia um novo ciclo é, em regra, de transição, não resistindo ao desgaste do cargo na Oposição, não será ainda este, certamente, o tempo de António Costa avançar. O PS terá, pois, que escolher, brevemente, entre Seguro e Assis. O aparelho decidirá.
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«SOL» de 12 Nov 10

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Proximidade

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Por João Paulo Guerra

É REVELADOR que perante uma austeridade que já está a fazer sofrer milhares de portugueses, e vai fazer sofrer muitíssimos mais, as manifestações de preocupação e solidariedade surjam da parte de instituições e pessoas que mantêm com as populações relações de proximidade.

Estou a falar das notícias de iniciativas que começam a surgir todos os dias por parte de igrejas, autarquias e escolas, que lidam directamente com as pessoas e com o seu sofrimento, e não têm de tudo isso apenas visões abstractas, insensíveis e reduzidas a números, como é o caso do poder central.

Uns mais que outros, os governantes são cada vez mais uns petulantes que passam pelo povo a alta velocidade e rodeados de escoltas, dentro de carros de vidros fumados, para encontros com os seus iguais, do país e da Europa, tão distantes como eles próprios de quem os elege e lhes paga as contas. A classe política, passada a tormenta das campanhas eleitorais, em que é forçada a descer até junto do povo eleitor, uma vez eleita reduz o povo a percentagens, vazias de pessoas e de casos humanos. Lá do alto vislumbra-se a abstracção de um quinto da população em situação de pobreza, mas não se vêem os pobres. Nos círculos do poder tudo é conforto, bem-estar, abastança e ostentação. É por isso que, nas fotos de família, os governantes estão sempre satisfeitos consigo próprios, risonhos, por mais tristonhos que andem os respectivos governados.

Ao contrário, as instituições que lidam em proximidade com a população sabem que a austeridade não consiste tão simplesmente em meia dúzia de algarismos que se cortam nos orçamentos. E a pobreza tem caras, nomes, casos, tem filhos e família, tem aflições e desespero, enquanto a caravana do poder passa, cercada de seguranças e de altivez.
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«DE» de 11 Nov 10

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Em dívida

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Por Rui Tavares

NO TEMPO das manifestações na Praça Tiananmen, em junho de 1989, quase ninguém sabia o que era a internet. O email era também praticamente desconhecido; ainda não havia web, muito menos twitter ou facebook. Raras pessoas tinham visto um telemóvel, e ninguém adivinharia que enviar mensagens de texto viria a ser um dos seus usos mais populares. Mesmo a televisão de notícias, com o seu ciclo de 24 horas por dia, estava apenas a começar. Era muito mais fácil encerrar um país e fazer com que as notícias pingassem a intervalos cada vez mais reduzidos.

Mesmo assim, seguimos os acontecimentos na China com invulgar intensidade, primeiro, e ansiedade depois. Muitos talvez — como eu — pela rádio, nos noticiários de hora a hora — ou já seriam de meia em meia-hora? — enquanto uma minoria talvez tivesse televisão por satélite e canais internacionais. A informação não era contínua; era aos soluços, intermitente, e escassa. Irão ser tolerados os manifestantes? Não estarão eles demasiado audaciosos? Conseguirão vergar o regime? O que explicará este compasso de espera? O que fará o exército? Está confirmado que já há tanques nas avenidas?

Foram chegando então as notícias, cada vez mais seguras, de que tinha havido um massacre na praça.

O movimento foi, porém, mais vasto do que os acontecimentos daqueles dias. Os “mártires de Tiananmen”, como lhes chama o Nobel Liu Xiaobo, pediam apenas aquilo que a nenhum cidadão pode ser negado: liberdade de associação, de manifestação, de expressão e de informação. Isso faz deles património não só do povo chinês mas da humanidade inteira.

Restou-nos a fotografia — e um filme curto — do “homem do tanque”, no qual um desconhecido segurando dois sacos de compras se posiciona calma e metodicamente em frente a uma coluna de tanques. Os tanques desviam-se, ele acompanha. Os tanques ameaçam, ele insiste. E depois os tanques param porque algum soldado lá dentro terá sentido que não conseguiria matar ali aquele homem. Houve muitas tentativas para encontrar a identidade e confirmar o seu destino, que eu saiba sempre infrutíferas. Será melhor assim; seria bom que o “dissidente desconhecido” fosse simplesmente a corporização de algo que existe em cada um dos humanos.

Trata-se, quanto mais pensamos nisso, de um documento simples e muito perturbador. A realidade lembra-nos todos os dias que nós humanos estamos predispostos à obediência; e ali está a prova em contrário, contra todas as evidências mesmo, de que afinal um desobediente consegue deter um império. Coisa difícil de acreditar.

Nos anos seguintes, a China mudou muito. Ficou mais rica e poderosa; os ingénuos do capitalismo acreditaram que com o dinheiro viria a democracia, que “a China ficaria mais parecida connosco”. Afinal, foi o contrário que aconteceu. Nós é que estamos agora mais parecidos com a China, mais dispostos a trocar democracia por dinheiro — por exemplo dispostos a deslocar uma manifestação, em Lisboa, para que os dirigentes chineses possam viver no seu mundo de deferência e fantasia.

Sim, eu sei. Estamos endividados e os dirigentes chineses fazem o favor de comprar a nossa dívida. Por mim, podem comprar toda a dívida que quiserem. Isso não apagará a dívida maior, mais profunda e impossível de pagar que temos ao homem do tanque.
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In RuiTavares.Net

'Déjà vu'

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Por João Paulo Guerra

QUEM TENHA participado, testemunhado ou simplesmente assistido como mero espectador ao fim do regime do chamado Estado Novo anda agora a tropeçar frequentemente em situações que deixam uma vaga percepção de déjà vu.

Não falo em movimentos de capitães ou conspiratas de generais, mas falo em deslocações de movimentos sociais que, de um dia para outro, alteram substancialmente a relação das forças no enfrentamento político. O mais recente déjà vu foi o duríssimo ataque da hierarquia da Igreja Católica à política desumanizada consignada no acordo de viabilização orçamental entre o Governo e o PSD. Os apelos à "resistência" a tal acordo, ao mesmo tempo que os bispos denunciavam a falta de verdade nos centros de decisão da gestão pública, são de uma dureza rara. Como comentava uma socióloga no DN, "o implícito foi bastante explícito".

No estertor do fascismo, também o regime foi perdendo e perdeu o pilar da fé. A persistência cega na guerra, cada vez mais brutal, destruidora e sanguinária, os massacres, a injustiça social e a repressão levaram a um implícito, bastante menos explícito, afastamento da Igreja em relação ao regime. Eram tão surpreendentes certas homilias, como dar pela presença de jovens oficiais nos comícios da oposição democrática. Ou simplesmente ver figuras da cultura a desertar das hostes do poder.

Com todas as abissais diferenças entre dois tempos que não têm comparação, as críticas frontais da hierarquia da Igreja à falta de verdade no jogo político a que agora se assiste fizeram recordar outros tempos, quando um poder se desmoronava em ruínas e uma classe política apodrecida persistia na mentira como derradeira colete de salvação. Diziam que "reinava a calma em todo o país".
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«DE» de 10 Nov 10

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Circo

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Por João Paulo Guerra

A DESQUALIFICAÇÃO da classe política está na ordem do dia e ainda ontem, em entrevista a este jornal, o dr. António Vitorino dizia que “há um empobrecimento das lideranças”. Basta olhar em redor. Ou entrar em cada sede partidária e percorrer a galeria dos líderes. Lá estão, a olhar para a posteridade, Mário Soares, Sá Carneiro, Freitas do Amaral, ou Adriano Moreira, ou até mesmo Francisco Lucas Pires, o velho Álvaro Cunhal. Independentemente do respectivo ideário, havia alguma grandeza naquelas figuras. Agora pensemos nos próximos cromos a juntar às galerias e só vemos retratos ‘a la minute' de pequenos, apressados e fugidios líderes, pouco ou nada significantes perante a História.

E esta é a geração que inventou precisamente os contratos por objectivos e a avaliação permanente: os objectivos ficaram nos patamares dos mais absolutos fracassos e a avaliação, a ter sido feita, daria um fiasco comprometedor. E não venham com a conversa de que a avaliação da classe política é feita nas urnas porque ao povo só lhe resta votar no que há, no que as cliques partidárias lhe servem à mesa das eleições, com acompanhamento de demagogia banhada em corantes e conservantes.

Imaginemos que as promessas eleitorais passavam a ser contratos por objectivos assinados pelos governos. Baixar o défice, não aumentar impostos, criar 150 mil empregos e outras balelas. A esta hora haveria filas de ex-ministros e ex-secretários de Estado no balcão para o subsídio de desemprego.

E algum governo cumpriu a promessa de fazer funcionar a Justiça, estabilizar o sistema educativo, garantir saúde aos portugueses, acabar com as pensões de miséria, criar postos de trabalho? Ou os portugueses andam todos a fingir que acreditam em números de ilusionismo de um circo de artistas decadentes e falhados?
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«DE» de 9 Nov 10

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Blindados

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Por João Paulo Guerra

JÁ LI NUM JORNAL que os alertas que têm invadido os jornais sobre putativos motins e outros distúrbios iminentes em Lisboa são simplesmente uma cartada do MAI para justificar a despesa extraordinária de 5 milhões com a compra de blindados anti-motim para suposta segurança da Cimeira da NATO.

Como em campanha publicitária, os alertas têm subido de dramatismo à medida que se aproxima a data da Cimeira e que os blindados não chegam. Há jornais que publicam verdadeiros ‘features' dos serviços secretos com as mais estrambólicas ameaças que andarão a pairar sobre o coitado do português. Perigosíssimos terroristas, que no dia seguinte são designados por extremistas, depois por anarquistas, mais tarde por esquerdistas, estarão entre nós preparados para pôr Lisboa de pantanas, mergulhada numa onda de inaudita violência.

De maneira que me parece que a jogada é mais ampla. Trata-se não apenas de justificar o dispêndio de 5 milhões em tempos de apertos, como também de diabolizar o cidadão que, no uso dos seus direitos, critique a NATO, a Cimeira de Lisboa e a ideia de globalização da Organização dita Atlântica. Quem o ousar é obviamente um malandrim a soldo do famoso Bin Laden, portador de armas de destruição maciça como as que ninguém encontrou no Iraque, merecedor de ser entregue à voragem das lagartas dos blindados.

Outra hipótese, também já aventada nos jornais, é que os blindados vão chegar à PSP, mas não para a Cimeira da NATO. Então para que serão os blindados anti-motim? Para a greve geral ou outras greves e manifestações que aí venham de contestação à austeridade de uma banda só? Só faltava mais essa. Que a política de empobrecimento extremo dos portugueses se escudasse por detrás de novos émulos do capitão Maltês ou do tenente Carrajola.
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«DE» de 8 Nov 10

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

O MINISTRO Teixeira dos Santos saiu pouco satisfeito do acordo que rubricou com a delegação social-democrata chefiada por Eduardo Catroga.

Apareceu a resmungar que «vai ser necessário adoptar medidas adicionais para atenuar o custo de 500 milhões de euros deste acordo» e a queixar-se de que o PSD queria «dourar a pílula». Estranha-se o tom rezingão do ministro. Não tanto por confirmar a ideia de que tanto ele como Sócrates apostavam mais num desacordo do que num acordo. Mas por duas outras razões.

A primeira é a de que os 500 milhões representam uma percentagem ínfima no despesismo de milhares de milhões do aparelho do Estado (bastando cortar um pouco nos excessos dos gabinetes governamentais, nos custos exorbitantes com juristas e advogados, nos gastos com empresas amigas de assessoria de comunicação ou de promoção de eventos... e por aí fora). E 500 milhões não devem ser preocupação para um ministro que fala com a maior das ligeirezas de uma dívida imprevista de 580 milhões da empresa Estradas de Portugal ou de uma derrapagem de 1.700 ou 1.800 milhões no OE de 2010.

A segunda razão é o facto de Sócrates e Teixeira dos Santos se terem especializado em múltiplos expedientes para espoliar aos contribuintes os milhões que se viram obrigados a cortar, à pressa e contrafeitos, na despesa do Estado. Eis três exemplos ilustrativos. O Governo conta ir buscar 100 milhões de euros aos benefícios fiscais, cortados à sorrelfa, das instituições religiosas (excepto a Igreja Católica) e de solidariedade social. Aumenta, furtivamente, em 33 milhões de euros a taxa de audiovisual que todos os portugueses pagam à RTP (em muitos casos, sem sequer o perceberem) na factura mensal de electricidade. Para aliviar o orçamento do Ministério da Cultura, obriga as televisões, empresas de telemóveis e de acesso à internet a esportularem 80 milhões de euros numa taxa para o cinema. Vale tudo...

Será muito 500 milhões para um Governo que se comporta como um senhor feudal, reduzindo salários e aumentando impostos indiscriminadamente, e que nas horas vagas se transforma em salteador de estrada, a extorquir mais dinheiro aos incautos com taxas e outras artimanhas? Pelo que parece, são apenas trocos.
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«SOL» de 5 Nov 10

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Miséria

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Por João Paulo Guerra

OS SINAIS de degradação social, fome e miséria não esperaram sequer pela entrada em vigor do Orçamento que vai reduzir Portugal a um país de indigência.

De facto, a penúria dos portugueses já vem por detrás, de crise sobre crise, e o Orçamento dos partidos que mais se têm governado enquanto desgovernam o país, apadrinhado pela banca, pelo embaixador dos EUA, por Sarkozy e pela Merkel, só vai agravar a míngua nacional a extremos nunca vistos, nem sequer nos tempos do governo do Bloco Central e da fome em Setúbal. Ontem, os jornais davam conta que já tinham disparado os pedidos de ajuda alimentar às Misericórdias, à Cruz Vermelha e ao Banco contra a Fome, ao mesmo tempo que se multiplicam os pedidos de ajuda de portugueses que se libertaram do álcool e da droga e que a crise levou a que caíssem de novo na dependência.

É este o país que José Sócrates vai deixar a quem vier a seguir, depois do PS apagar a luz e bater com a porta. Um país condenado à degradação pela mais brutal insensibilidade social, pela subjugação a interesses alheios e opostos aos do país e do povo. Mas na verdade não é apenas este governo do PS que desentranhou Portugal do rol dos países com direito à dignidade. A política de desastre vem de longe e foi partilhada pelas três famílias políticas que governaram Portugal nos últimos 30 anos. Foi a política desastrosa que desmantelou em Portugal todo e qualquer resquício produtivo - acabou com a agricultura, com as pescas, com parte essencial da indústria, liquidou os transportes, arruinou o comércio. Essa política deliberada, que destinou Portugal a ser um país de especulação e de campos de golfe, é a causa da ruína do país e da miséria de milhões de portugueses.

Muitos o pensam, embora poucos o digam.
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«DE» de 3 Nov 10

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

BASTAVAM ALGUNS relatórios internacionais, esta semana divulgados, para os portugueses avaliarem devidamente, sem mentiras nem ilusões, o que representaram para o país estes cinco anos e meio de governação de José Sócrates.

«A década perdida de Portugal», titulava o El País no domingo, citando o Relatório da Economia Mundial do FMI, onde Portugal surge em antepenúltimo lugar entre 180 países no que respeita ao crescimento do PIB entre 2000 e 2010. Com Sócrates como primeiro-ministro, Portugal afastou-se, ano após ano, da União Europeia. E o Relatório prevê que os próximos cinco anos serão de estagnação da economia portuguesa.

Num outro relatório, este da Transparência Internacional, com sede em Berlim, Portugal aparece em 32.º lugar no ranking da corrupção, uma classificação que o coloca como um dos piores países da Europa Ocidental.

Dias antes, o relatório anual da organização Repórteres Sem Fronteiras fazia cair Portugal para a 40.ª posição no que respeita à liberdade de expressão existente no país. Em 2007, Portugal encontrava-se no 8.º lugar, em 2008 baixou para 16.º, em 2009 para 30.º e, agora, para 40.º.

Eis um retrato fiel e sucinto da degradação a que a governação de Sócrates conduziu o país. Atraso e definhamento da economia, proliferação da corrupção e do negocismo, redução da qualidade da democracia com tentativas de controlo e silenciamento da comunicação social. A que se podem juntar o descontrolo total do despesismo do Estado, o endividamento galopante do país nos mercados internacionais, um desemprego inédito e o aumento incessante de impostos a par de cortes nos salários.

Percebe-se, por tudo isto, que Sócrates não queria enfrentar as consequências próximas da sua desastrada e irresponsável governação. Que tente, uma vez mais, vitimizar-se e atirar as culpas para cima de outros. Que prefira, com frio calculismo político, a ruptura a qualquer negociação ou entendimento mínimo que o obriguem a manter-se em funções. Sem mais expedientes. E a arcar com as consequências.
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«SOL» de 29 Out 10

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Adivinha

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Por João Paulo Guerra

ESTIVE VAI-NÃO-VAI para apostar que o acordo para viabilização do Orçamento era aprovado terça-feira, mesmo a tempo da apresentação da recandidatura do professor Cavaco Silva.

Mas afinal aprendi que o mais avisado é seguir o conselho de um velho pensador português: prognósticos só depois do jogo.

Uma das razões porque apostaria era de ordem zodiacal: acabáramos de entrar no Escorpião, o signo magnético do senhor dos propósitos, do alto preço, o guerreiro que procura o caminho infalível para atingir os seus objectivos, para além do visível, com Marte como planeta regente, e com Vénus e a Lua cooperativos. Outra, mais prosaica e terrena, era simplesmente porque a delegação do PSD às conversações com o Governo haveria de querer acorrer ao CCB, a marcar presença no beija-mão. Afinal a delegação foi ao beija-mão mas de mãos a abanar quanto a compromisso para viabilizar o Orçamento.

Enganava-me pois e admito-o. Nisto de palpites até o polvo Paul, que ficou célebre por acertar nos vencedores dos jogos do último Mundial de futebol, terá falhado o derradeiro prognóstico, não adivinhando que iria morrer de causas naturais no aquário de Oberhausen.

Há no entanto um enigma na alocução do recandidato que "continua a ser Presidente". É quando o professor diz que "qualquer Governo contará sempre" com a sua "cooperação na resolução dos problemas do país". Ninguém se meta a adivinhar. Mas esta referência a "qualquer governo" poderá trazer água no bico. E o pote da água que traz a alusão no bico pode ser, por exemplo, um chumbo do Orçamento, como também pode muito bem não ser. Especular é uma contemplação própria do raciocínio humano mas adivinhar é do domínio da bruxaria. E para o Dia das Bruxas ainda faltam três noites.
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«DE» de 28 Out 10

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

'Hay Presidente? Soy a favor!'

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Por Ferreira Fernades

MEDIDA sábia em dia em que só se lhe pedia o anúncio da candidatura: Cavaco Silva deu ordens à sua campanha para que os gastos não ultrapassem metade do tecto que a lei impõe. Duplamente sábia, aliás. Caem sempre bem, e agora mais, os anúncios de cortes nas próprias despesas. E, depois, o Presidente Cavaco pode cortar na propaganda sem ser imprudente. No Palácio de Belém os contratos de arrendamento são sempre por dez anos. Eanes entrou em 1976, saiu em 86, Soares, 1986-96, Sampaio, 1996-2006, logo, Cavaco, que entrou em 2006, sabe que 2011 são favas contadas.
Os nossos quinquénios presidenciais são como os planos quinquenais soviéticos, são números falsos. Os mandatos presidenciais, ao contrário do que diz a Constituição, são de dez anos - com um faz de conta de campanha no meio. Os portugueses têm uma leitura muito peculiar da velha frase anarquista, eles soletram-na assim: "Hay Presidente? Soy a favor." Entre nós, os Presidentes são sempre reeleitos, por isso nas campanhas do meio (as do fim do "primeiro" mandato) há sempre um vazio de concorrentes credíveis. No fim de Soares (1996), Cavaco ousou candidatar-se; no meio de Sampaio (2001), Cavaco cortou-se.
Na verdade, as próximas presidenciais são em 2016. Um corte nas despesas a sério não é gastar, agora, só metade na campanha, seria acabar com a campanha toda e com estas inúteis eleições-intervalo.
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«DN» de 27 Out 10

terça-feira, 26 de outubro de 2010

A tragédia desejada

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Por Rui Tavares

É ESTRANHO dizê-lo, mas se o orçamento (previsto) fosse apenas injusto, nós já nem daríamos por isso. O nosso país é injusto há muito tempo; nos últimos anos só pontualmente e parcialmente contrariou essa tendência.

Mas é preciso dizer que este orçamento não é só injusto; é errado.

É perturbante pensá-lo, mas se este orçamento fosse apenas errado talvez nos limitássemos a encolher os ombros. Este país tem vivido com mais políticas erradas do que certas. E por vezes o errado é a única coisa que existe.

Mas é preciso insistir que este orçamento não é só errado; é trágico.

E por aí adiante. Essa tragédia vai ser feita de muitas micro-tragédias: quem tem um mínimo de noção de como vive em Portugal a maioria das pessoas só pode ficar arrepiado com o que aí vem. Isto não é só injusto, errado e trágico. Isto vai ficar muito pior.

E mesmo isso não é o pior. O pior é a forma tonitruante, insistente e demagógica como isto foi matraqueado nos últimos tempos. Num momento da verdade como este, esperaríamos que ao menos aqueles que passaram os últimos anos clamando por esta receita (cortes de salários, recessão induzida) sentissem a credibilidade em risco. Neste particular, eu já não tenho quaisquer ilusões. O pensamento do status quo é, afinal de contas, isso mesmo. O partido que mais pediu por austeridade — o PSD — faz agora uma tremebunda birra, como se a não quisesse aprovar. Os profetas do sofrimento já sabem o que vão dizer quando isto falhar, até porque é o mesmo de antes: que não sofremos o bastante. Fica sempre bem.

Em vez de nos salvar, esta receita vai aproximar-nos do agravamento da dívida, da bancarrota e da liquidação total. A primeira obrigação de quem discorde é dizer isto mesmo. Que ao menos fique registado. Nem todos os economistas, políticos e comentadores achavam o mesmo em Outubro de 2010.

Mas não chega. Se o caminho que nos trouxe até aqui foi errado, é preciso explicar como teria sido melhor. E para mostrar outro caminho, não adianta olhar apenas para as estreitas ravinas que delimitam o percurso nacional e que fazem crer que cada passo que demos foi inevitável. É preciso olhar para o mapa. Neste caso é, inevitavelmente, o mapa da Europa.

Os líderes políticos e a opinião tiveram um ano inteiro para poder olhar para esta crise como resultado das debilidades institucionais europeias. Na fase crítica, os nossos governos tiveram o último semestre para montar uma resposta a estas debilidades: levando o Banco Central Europeu a comprar dívida soberana diretamente (em vez de fazer disso um belo negócio para os privados), emitindo eurotítulos que permitissem àUE ter uma política expansionista na escala continental em que ela é globalmente sustentável. Havia oposição? Claro. Mas eles (Sócrates, Zapatero, Sarkozy) falharam miseravelmente no debate; nem sequer o trouxeram para a opinião pública europeia, onde ele poderia ser ganho.

E mesmo dizer isto não chega. Agora que estamos onde estamos, é preciso dizer como se poderia reagir de uma forma mais justa: fazendo os bancos pagar os mesmos impostos que as outras empresas, acabando com o desperdício nas parcerias público-privadas, mantendo a rede de segurança para a população mais pobre.

Onde é injusto, há que mostrar como poderia ter sido mais justo. Onde é errado, é preciso dizer como poderia ter sido de outra forma. Onde vai ser uma tragédia, é essencial demonstrar que poderia ter sido uma oportunidade. Fazer mais justo não teria apenas sido menos errado. Teria sido melhor.
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In RuiTavares.Net

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Negociações

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Por João Paulo Guerra

VAI POR AÍ uma certa confusão: quem negoceia a viabilização do Orçamento é o Governo do PS com o PSD. Mas a matéria em negociação diz respeito aos que não têm voto nesta matéria: os portugueses que vão ser espoliados de direitos e condições de vida mais dignas. Com isto não se contesta a legitimidade democrática dos partidos para formarem governos e constituírem-se oposições. Mas os partidos, como o nome indica, são uma parte. E o todo é que sofre.

De maneira que para os partidos o regateio do voto para o Orçamento pode situar-se ao nível da taxa do IVA sobre o leite achocolatado, como outrora se situou na aprovação de uma fábrica de queijo. À mesa das negociações, os partidos defendem os respectivos interesses de poder e vendem-se por bagatelas. Entretanto, a matéria negociada corta nos salários, nas pensões e abonos, suprime subsídios, aumenta impostos, faz um inferno da vida das pessoas concretas que, bem vistas as coisas, são quem paga as contas.

Ou seja: os portugueses em geral trabalham, recebem, consomem, pagam impostos, alimentam o mercado interno e a máquina do Estado. Os partidos formam governos, governam ou desgovernam. E em caso de desgoverno são os próprios partidos que estabelecem as penas a que os cidadãos vão ser condenados pelos resultados das más políticas governativas. E o cidadão não tem recurso? Tem. O recurso é a alternância dos últimos 35 anos por parte de três partidos que já formaram todas as combinações possíveis para dirigir a máquina do Estado, com os resultados que estão à vista.

Nos momentos de grandes decisões é que se vê o fosso entre governantes e governados. Governantes são aqueles que posam para a fotografia, sorridentes, enquanto trocam chalaças sobre o IVA no leite achocolatado
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«DE» de 25 Out 10