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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A República ameaçada

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Por Baptista-Bastos

"SEM DISCURSOS NEM TROMBETAS, os inimigos da República tomaram o poder na sociedade. Na primeira linha, o dinheiro e a imagem. A sua aliança sucedeu ao trono e ao altar." Eis as primeiras frases de um texto notável, de que só agora tive conhecimento, e no qual o autor, o dr. Miguel Veiga, advogado e intelectual que vive no Porto, procede a uma análise do estado actual das coisas. Quando a cultura deixa de ser o paradigma da relação com o outro, a colectividade perde o lugar confluente onde se cruzam os preceitos éticos e estéticos que a justificam.

Diz Miguel Veiga: "Agravando a opulência pela notoriedade, multiplicando a desigualdade dos rendimentos pela da consideração pública, ela ataca os fundamentos do orgulho da República: o desinteresse e o anonimato que subordinam os interesses e as vaidades ao interesse geral. A República não é um regime político entre outros. É um ideal e um combate." O texto foi lido em Arcos de Valdevez, há menos de dois meses, numa homenagem a Mário Soares, e a sua importância reflexiva não mereceu, da imprensa a atenção necessária. A imprensa, cada vez mais abandonada à futilidade e ao pequeno escândalo, aumenta a hipótese repressiva da conduta política.

Essa conduta política repressiva expressa-se nas formas mais diversas. A última das quais, porventura, a da tentativa de alteração dos códigos constitucionais. Lembremos que o autor principal dessa revisão, proposta pelo dr. Passos Coelho, é um importante dirigente da Causa Real, Paulo Teixeira Pinto, ex-banqueiro, convertido aos fascínios da pintura e da edição. A tomada do poder, na sociedade, pelos inimigos da República, de que fala Miguel Veiga, não é uma metáfora. A lassitude com que assistimos à destruição dos princípios e dos padrões fundamentais da ideia republicana é sinal da nossa indolência moral. Antero chamou-lhe a "decadência da alma". É-nos imposto um novo modelo de desenvolvimento que desrespeita os tempos do homem e cria uma violência social destruidora da espontaneidade, da imaginação e da própria vida associativa. Nada fazemos para nos opor. E aceitamos a identidade dominante, rudemente aplicada, sem nos insurgirmos contra esse notório abuso de poder. Não é ingénua a leviandade com que muitos jornalistas portugueses aceitam este totalitarismo mascarado de democracia de superfície. A leviandade nunca é ingénua. E o silêncio da memória não protege o homem dos perigos que sobre ele impendem.

As ameaças à República são reais e corroem a identidade da democracia. É cada vez mais difícil reapropriarmo-nos das heranças legadas há um século. E cada vez mais fácil fomentar o mal-entendido que tem levado ao desleixo de cuidarmos dessas heranças.
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«DN» de 22 Set 10

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Edite escreveu uma carta

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Por Baptista-Bastos

EDITE ESTRELA escreveu uma carta aos seus camaradas. Embora não sendo camarada de Edite, o texto chegou-me às mãos. É uma carta de instigação e de crítica, por igual impetuosas. Num Portugal entediado, precaucionista, com vocação concêntrica para a manhosice e as meias palavras, o texto de Edite Estrela constitui um tonificante sobressalto. Entendem-se as preocupações subjacentes. Já se não entende o alarido indisposto da Direita, a qual, à falta de melhor argumento, fala, indignadíssima, que Edite Estrela "roça o insulto" ao Presidente da Republica [Marcelo Rebelo de Sousa dixit].

Andei, infatigável e arfante, à procura do insulto de Edite, da injúria de Edite, do indecoro de Edite. Vasculhei a prosa; procedi a um varejo intenso e minucioso; esquadrinhei o adjectivo; perscrutei as eventuais insinuações que se escondessem, sinistramente, por detrás das locuções adverbiais. Nada. A carta mais não adianta do que repetir o que muitos portugueses alfabetizados pensam e dizem do dr. Cavaco. E fá-lo com prudência, com equilíbrio e com gramática. Não diz que o rei vai nu. Aponta os perigos que o reino corre com este rei vestido, crispado, desprovido de ironia, regido por um projecto político no qual o humanismo e a compaixão estão ausentes. Nem um sopro de novidade. Diz Borges que os homens assim configurados ocultam sempre algo de sinistro. Diz Borges, não Edite.

Parece-me que o furor do PSD tem mais a ver com o lumbago do que com angústias existenciais. Lê-se o que, por encomenda, diz Jorge Moreira da Silva, e não se acredita. Moreira da Silva é uma figura irrelevante, mas não deixa de ser vice de Passos Coelho, e antigo assessor do dr. Cavaco. Moreira foi encarregado de responder a Edite, em nome da artificiosa emoção causada, no partido, pela carta. São declarações confrangedoras, por desajustadas e medíocres.

Depois da inabilidade demonstrada nas anunciadas alterações à Constituição, do consequente trambolhão nas sondagens, e da dubiedade nas posições sobre o Orçamento, Pedro Passos Coelho continua a passeata displicente para o despenhadeiro. Ou as cabeças dos seus conselheiros riscam o diamante ou são socialistas infiltrados. Passos parece não dispor de muitas ideias de seu. De disparate em disparate criou, agora, este ilusório problema. E arrastou o dr. Cavaco para afirmações infelizes, indicativas de que este não leu a carta. Ao asseverar que é "pessoa educada", o dr. Cavaco acusa, subrepticiamente, Edite Estrela de má educação, acaso por ela defender Manuel Alegre, promover a "vitória da cultura contra a tecnocracia" e contrariar "uma visão restrita e preconceituosa" da sociedade. Mas não há, no texto, um pingo de descortesia. Apenas meia dúzia de verdades.
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«DN» de 15 Set 10

domingo, 12 de setembro de 2010

História de um grande português

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Por Baptista-Bastos

NA TERÇA-FEIRA, dia 7 p.p., assisti, na RTP-2, a parte do que me pareceu um excelente documentário, sobre Manuel Tito de Morais. Não vi desde o princípio, e tenho pena.

O documentário faz parte de uma série sobre portugueses proeminentes, e é bom que a memória histórica seja reavivada, numa altura em que tudo se encaminha para a amnésia colectiva. Semanas antes, vira um excelente trabalho sobre Jorge de Sena, com notáveis intervenções da sua viúva, D. Mécia de Sena, incansável guardiã da memória e da obra do grande escritor. As minhas ausências como telespectador devem-se ao facto de evitar a passividade imposta por aquele media, e a irritação que me assola quando, por acaso, sou "tomado" por este ou por aquele programa. O processo de imbecilização cultural e, até moral, a que as televisões estão votadas, mereceriam intervenções de carácter… policial. O que vi do programa sobre Manuel Tito de Morais [14. Dezembro. 1910- 28. Junho. 1999] entusiasmou-me. Pela qualidade da investigação, pelos depoimentos e, sobretudo pela aproximação feita à acção e à vida de uma personalidade que os nossos desatinos têm colocado na sombra, e interesses cavilosos têm ofuscado.

E, no entanto, o eng.º Tito de Morais foi um homem que não desistiu; um daqueles, cada vez mais raros, antifascistas que se bateu, com denodo e coragem, para o que o PS fosse, realmente, socialista. Sabe-se que nunca se calou, que sempre esteve em desacordo, e um desacordo veemente e categórico, quando assistia aos desvios à direita do partido de que era, rigorosamente, o grande fundador.

Nunca ensarilhou as armas, nunca abandonou a velha trincheira republicana de combate e de honra. Foi preso várias vezes pelo PIDE, torturado com crueldade; viveu no exílio em países tão diferentes quanto Angola, Brasil, Argélia, Itália, rodeado de mulher e de filhos numerosos, cercado de dificuldades de toda a ordem. São impressionantes as revelações feitas no documentário; como surpreendente é o silêncio pesado e doloroso que paira sobre Tito de Morais.

Não o conheci pessoalmente, mea culpa, sabia quem ele era, e juntava-o a essa imensa legião de portugueses que se bateram, com denodo e bravura, contra o fascismo salazarista. Fiquei a conhecê-lo um pouco melhor e a criar o desejo de saber mais sobre este português valoroso, que não soçobrou ante as mais terríveis injustiças e as mais insustentáveis ameaças. Talvez se perceba porque é que ele nunca foi ministro, apenas duas vezes secretário de Estado. E também talvez se entenda que a integridade da sua moral e o poder da sua honra, o tenham levado a recusar ser administrador da Galp porque entendeu que o vencimento proposto era escandalosamente indecente em relação ao então ordenado mínimo nacional: 30 mil escudos.

A gente observa o que se passa em redor; assiste a estas vergonhas de que são protagonistas (entre outros, claro) alguns próceres do PS; contempla, com a raiva nos dentes, às capitulações e às traições destes "socialistas" actuais - e é por eles que cora de vergonha, da vergonha que eles não têm, bem entendido. No documentário, há uma imagem particularmente emocionante: fixa um qualquer congresso do PS e a imagem alquebrada e envelhecida, porém altiva e indomável, de Manuel Tito de Morais. O jornalista pergunta-lhe: "Está contente com o seu partido?" A resposta é seca e rápida: "Não!"

Todos os deponentes neste filme são unânimes: ele foi um homem de bem, um homem honrado e impoluto e um grande carácter. Almeida Santos diz: "Um pouco radical, enfim…" Radical, uma ova, meu caro Almeida Santos. É hábito destes tempos chamar-se "radical" a quem recalcitra, a quem rejeita pertencer à manada, a quem defende princípios, valores e convicções. Parece que a inquietação moral e ideológica de Manuel Tito de Morais era aceita com complacência e, até, com a benevolência dispensada a uma traquinice. Nada disso.

Tito de Morais estava empenhado em transformar o mundo e em ajudar a fazer de Portugal um país europeu, moderno, civilizado, informado e culto. Mas percebeu que esta gente não era a sua gente. Protestava com energia, mas nunca deixou o partido de que era o principal fundador. Sabia que só unida a Esquerda conseguiria realizar as alterações e as reformas sociais de que o País necessitava. Tal como Fernando Piteira Santos, outro grande português que os portugueses esqueceram, bateu-se, até ao fim por essa unidade.No final, foi emocionantemente bom ouvir os filhos de Manuel Tito de Morais confessarem o orgulho que tinham pela vida do pai.
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«J. Negócios» de 10 Set 10

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O extremo da aberração

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Por Baptista-Bastos

"HÁ RECEITAS para a felicidade?", perguntava, no Diário de Notícias, num dos seus habituais excelentes artigos, o padre Anselmo Borges. É uma busca quase desesperada, esta, que o ser humano empreende desde a idade da razão. O caminho para Deus é uma das hipóteses; a hipótese religiosa, bem entendido. Mas, pergunto, a hipótese política não conterá, em si mesma, algo de religioso? Saint-Just, na Convenção de Paris: "A Revolução Francesa proclama que a liberdade é uma ideia nova na Europa, e que a felicidade é possível entre os homens." A liberdade e, por acréscimo, a felicidade proclamadas como decreto suscitam todo o tipo de apreensões. "Mas é um princípio", para relembrar o que escreveu o filósofo católico George Santayana.

Tudo está em aberto, como se pressupõe do artigo do padre Borges, aliás minha leitura semanal. É evidente, porém, que o combate à desgraça, à injustiça, à corrupção, às iniquidades sociais configurará, sempre, uma possibilidade moral. E a consequente denúncia de um sistema predador, que torna o homem dependente de uma lógica económica insustentável, é uma imposição a que nenhum homem de bem, nenhuma instituição (como, por exemplo, a Igreja) deve fugir. Essa imposição estabelece um compromisso consigo mesma, afinal um ponto decisivo para se questionar o processo histórico.

A fome, a exclusão, são produtos típicos das novas relações de poder, nascidas da implosão do comunismo. As "regras práticas" indicadas num estudo do pensador Richard D. Precht (desconheço quem seja) e referidas pelo padre Borges, consistem, afinal, na ocupação do cérebro pelo trabalho, na constituição da família, na fruição dos prazeres simples, no entendimento das nossas limitações e na arte de se saber lidar com as dificuldades. Há qualquer coisa de passividade bucólica, nesta espécie de breviário da resignação, onde se lê estas frases surpreendentes: "Não se pode viver obcecado com o futuro. Quem só espera vir a ser feliz, nunca o será."

Pode-se, em recta consciência, acabar com a esperança que a ideia de futuro acalenta e estimula? Não são "os amanhãs que cantam"; é a própria natureza do homem que o impele para a idealidade. Brecht: "Os homens são feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos." A felicidade não se promulga por decreto, mas deve ser uma demanda infatigável e intransigente num mundo que, inclusive, está a perder a fé no homem. Emmanuel Mounier, que muitos cristãos deviam ler com mão profusa, reivindicava, simultaneamente, a revolução espiritual e a revolução das estruturas.

A nossa infelicidade advém de tudo estar submetido à hierarquia do lucro, e de o lucro ter sido erigido à categoria de necessidade total da pessoa humana. Eis a aberração levada ao extremo.
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«DN» de 1 Set 10

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Ramos da mesma raiz

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Por Baptista-Bastos

JOSÉ SÓCRATES foi a Mangualde responder ao discurso de Pedro Passos Coelho no Pontal. Ora, como este nada disse, aquele nada adiantou. O Pontal foi um equívoco. Mangualde, uma inutilidade. Entendamo-los, aos dois comícios, como puro exercício eleitoralista tocado a quatro mãos, ou troca de correspondência pública entre duas pessoas que não sabem o que fazer com Portugal.

Porque a questão é essa. O "meu remorso de todos nós" de que o O'Neill falou, terna e amargamente, continua a ser "golpe até ao osso / fome sem entretém." Mas Passos e Sócrates não são exemplares únicos: eles representam, tipicamente, no sentido lukacsiano do termo, a ausência de nação, a inexistência de correcção tácita, a falta de referentes culturais. Foram estes, os referentes culturais, que formaram as melhores gerações de portugueses. Tínhamo-nos em que nos apoiar; sustentávamo-nos com os exemplos e, com isso, suportávamos o quase insuportável.

Tanto Sócrates como Passos nada nos dizem. Não possuem back-ground, são produtos do mesmo berço ideológico que se rege pela carência de ideologia; procedem de uma intenção "doutrinária" sem graça, sem imaginação e, sobretudo, sem aquela grandeza que converte a esperança em sonho e o sonho em destino. A política, para ambos, é uma organização de agenda, um empreendimento sem qualidade áurea, que vive dos telejornais da noite, enfim: uma teologia estabelecida por assessores, que depaupera o humano e liquida a mais leve insubmissão. Atentemos nos discursos do Pontal e de Mangualde: são intervenções destinadas ao pressuposto, muito semelhantes porque nenhum dos protagonistas arrisca, desafia, afronta, desinquieta - e é incompetente para mudar, alterar, reconstruir do que sobra das cinzas. Nós não figuramos nos seus projectos, porque eles apenas alimentam projectos pessoais de poder.

Os portugueses têm dificuldades múltiplas em se adaptar a este tempo, marcado pela indiferença, pela má-fé, pela traição e ilustrado pela ignorância triunfante. O friso de "notáveis", apresentado, diariamente, pelas televisões, não é um parêntesis temporário, espelha as evidências que delimitam o nosso futuro. E isso tem medo.

Todos criticamos, de um modo ou de outro, estes senhores, mas eles resultam das nossas inépcias e das deficiências culturais que nos não abandonam. Pontal e Mangualde são ramos da mesma raiz, expressões melancólicas e desventuradas de um país cabisbaixo, desprovido de paixão e de fervor.

Vivemos no mito de que a democracia agitaria o nosso histórico torpor e edificaria a nossa risonha felicidade. Mas a democracia tinha mais que fazer do que se preocupar com ninharias. Sócrates e Passos garantem que o sonho perdeu toda a vigência.
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«DN» de 25 Ago 10

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Pontal: metáfora menor

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Por Baptista-Bastos

O PONTAL É UM EQUÍVOCO. Começou por ser um sítio, onde se reuniam desagrados e desagravos e passou a símbolo melancólico e errante, porque de sítio e de expressão foi mudando. Ali, Sá Carneiro, inquieto, exuberante e exaltado, desancou alguns daqueles que lhe não compraziam, por este ou aquele motivo. Não nos esqueçamos de que ele possuía um temperamento autoritário e imponderável. Porém, o Pontal não configura uma doutrina, uma estratégia, um repto. É, apenas, uma metáfora menor, que perdeu o viço e o significado. O PSD promove, a espaços, sob aquele nome, uma reunião festiva. Aproveita a circunstância de os seus baronetes estarem de vilegiatura algarvia e lá vai conseguindo agrupar uns senhores e umas senhoras cansados pela idade e tostados pelo sol. Depois, essas pessoas estimáveis e um pouco pasmadas surgem nas revistas cor-de-rosa a incorporar textos de um barroquismo, direi: ascético. O povo, na sua trivial realidade, aprecia este ataúde destapado.

Impulsionado por Mendes Bota, poeta e organizador, por igual avaliável, Pedro Passos Coelho, numa auto-imolação comovente, animou, este ano, o jantar. Houve faltosos, o mais exemplar dos quais o prof. Marcelo Rebelo de Sousa, que escapou, esbaforido, sob o subterfúgio intelectual de ter de esclarecer, na TVI, os sombrios mistérios da política. As televisões, atentas e zelosas, fixaram um friso de proeminentes cidadãos, quase todos reformados de luxo, que mais pareciam figuras de um retábulo de alucinados do que responsáveis pelo que nos tem acontecido nas últimas décadas.

Passos Coelho, como lhe competia, falou e disse. Vai sendo hábito afirmar desatinos que deixam os sociais-democratas embevecidos e os socialistas irritados. Segundo o nunca assaz louvado Vitalino Canas, agora com um corte de cabelo à ucraniana, o presidente do PSD quer provocar uma crise política, "de resultados imprevisíveis." Espinoteante tolice. Desta vez, Passos, que gosta de dizer coisas, quis, apenas, chatear o PS e espevitar os seus correligionários. Na SIC, Ricardo Costa, assumptivo e sem pitada de humor, como vai sendo costume, desmontou o discurso do Pontal, cheio de austeridade, veemência e sisudez. Parecia estar a decompor um grave texto de Kant. Com perdão da palavra, não se percebeu nada do comentário do Costa. Tomou a sério o que não passava de puro divertimento.

Nada que faça mal à saúde. A não ser, repito, a visão macabra daquele friso de gente confusa e aleatória, que ali se encontrava para varar uma quente noite de estio.

Não se sabe o que Passos Coelho foi fazer ao Pontal. Expor o dandismo de que faz tanto júbilo ou a pesarosa monotonia que o acompanha?
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«DN» de 18 Ago 10

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A democracia agredida

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Por Baptista-Bastos

DURANTE alguns anos embalámos a sensação, um pouco vaga, levemente indeterminada, de que a Justiça não só era justa como velava por nós. Os malvados eram punidos e os justos protegidos. A harmonia que este pressuposto comportava justificava a circunstância de nem sequer nos preocuparmos. Desconhecíamos os nomes e os rostos daqueles que vigiavam pela segurança de todos. Pessoas de carácter impoluto que não apenas faziam cumprir as leis como defendiam a grandeza e a decência democráticas. O festim da confiança durou pouco. Tratava-se, afinal, de um sentimento que pertencia aos domínios da fé.

Sou do tempo em que a magistratura era o mimetismo arrogante do poder fascista. E assisti, em tribunais plenários, às mais repulsivas misérias morais, cometidas por "juízes" que compunham medonhas caricaturas da nobreza e da honra. Nunca foram julgados nem castigados. Aliás, depois de condenarem presos políticos a penas pesadíssimas, adicionadas a "medidas de segurança", que significavam, praticamente, prisão por tempo indeterminado, esses senhores iam tomar chá à Bénard ou à Ferrari, ou entravam na Bertrand para saber das novidades literárias. Tranquilamente, sem sobressaltos de consciência. Morreram no leito da serenidade, com reformas substanciais.

As coisas melhoraram, com o 25 de Abril? Superficialmente. A mentalidade de retábulo de eleitos não sofreu alterações: as características de domínio corporativo mantêm-se. Ainda não chegámos à "democracia de juízes", como ocorreu, por exemplo, em Itália. Mas caminhamos para uma interpretação perigosa do que a Justiça pode ser. Abrem-se as veredas a uma sociedade de incertezas, que fará a erosão dos mecanismos e dos princípios democráticos. Não duvidemos das graves ameaças que pesam sobre nós.

Esta beligerância activa entre o procurador-geral da República, o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público e Cândida Almeida comporta a hipótese de uma continuidade perturbadora. E resulta das velhas malformações existentes na Justiça. As virtualidades estruturais, intrínsecas ao nosso sistema, deixaram de existir, ou nunca existiram, e deram lugar a excrescências malignas, que se desenvolvem em todos os aparelhos judiciais e jurídicos. Estas anomalias irão dilatar-se no tempo, com tal extensão, que podem facilitar novas amolgadelas na democracia portuguesa, cada vez mais amassada?

Em Portugal acredita-se muito pouco nas instituições. Ninguém abona ninguém. Uma desconfiança generalizada das populações, na honestidade e na "independência" de quem devia estar acima de toda a suspeita, está a abalar a própria credibilidade da democracia. Como nada acontece por acaso, a quem aproveita a situação?
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«DN» de 11 Ago 10

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Ele, assim, não vai longe

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Por Baptista-Bastos

A CRER NAS ÚLTIMAS sondagens, Pedro Passos Coelho está a perder a base social de apoio. Os números são elucidativos. Empatou, praticamente, com Sócrates nas intenções de voto. A queda parece dever-se ao facto de falar em excesso. Por duas vezes, em Espanha, reprovou, com veemência, as decisões do Governo português em aplicar a golden share no negócio da PT-Telefónica-Vivo. Objectivamente, esteve ao lado dos espanhóis, materializando, com essa tineta fatal do neoliberalismo e das leis do mercado, os estados de incerteza e de angústia em que vivemos.

Passos seguia o balanço das ameaçadoras declarações sobre as alterações à Constituição, que haviam deixado toda a gente em polvorosa. Inclusive parte significativa dos apaniguados. Entendo que o presidente do PSD deseje marcar a diferença e ambicione ser o criador das horas de transição histórica. Mas o remédio deixou de estar na moda. A senhora Thatcher, seu modelo, é, hoje, tida como uma mediocridade política, que deixou a Inglaterra de rastos. E Tony Blair, inspirado naquela ênfase ideológica, transfez-se numa extravagância grotesca. Os novos dirigentes ingleses não sabem como resolver a embrulhada.

As afirmações de Passos Coelho em Espanha foram a rima desajeitada de quem ignora mover-se nos meandros da diplomacia política. Pareciam extraídas dos frascos de formol onde, nos museus da teratologia política, repousam as velhas aberrações doutrinárias. O português médio desagradou-se. Detesta que nos coloquemos de cócoras ante aquele a que, hipocritamente, chamamos de "hermanos". E o espanhol medianamente letrado não escondeu a sua perplexidade com a inesperada colaboração político- -económica do alto dirigente "social--democrata".

Resultado: Pedro Passos Coelho, que subira nas intenções de voto e deixara José Sócrates muito para trás, como uma espécie de ser à parte, regressou ao sonambulismo do velho PSD. Não só preocupara: assustara de pânico um eleitorado já ferido pelas novas regras dos apoios sociais, e desconfiadíssimo de tudo o que pareça alteração nas rotinas. Pese, embora, as palavras de tranquilidade, proferidas por distintos tenores do partido, o susto colectivo reflectiu-se nas sondagens, e despertou as dúvidas e as apreensões dos muitos que vêem na direita o rol de todos os perigos. Talvez Passos Coelho tenha depredado o concentrado de simpatia obtido pelo desastre político de Sócrates e pela notória repulsa que causou o consulado de Manuela Ferreira Leite. Ele fala de mais e, com perdão da palavra, pensa de menos. Nota-se-lhe a fragilidade do mimetismo doutrinário e, como síntese, a submissão às lógicas do momento, por absurdas que sejam. Assim, não vai longe nem deixa rasto.
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«DN» de 4 Ago 10

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A excepção e o impossível

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Por Baptista-Bastos

A RENÚNCIA A PENSAR parece ser endémica. Como parece estar em marcha um processo substractivo que confere falsa "modernidade" a ideias que julgávamos nos sótãos das velharias ideológicas. As inflexões contemporâneas de alguns tenores da Direita resultam, logicamente, da circunstância de a Esquerda estar vazia de ideias. E uma não existe sem a outra. Chega a ser pungente o que, reclamando-se de "progressistas", alguns preopinantes declamam sobre a necessidade de se "reinventar" a Esquerda. Demonstradamente, é urgente fazer, isso sim, com que a Esquerda o seja.

Ao colocar, na agenda política, a revisão constitucional, Pedro Passos Coelho percebeu que essa questão, por extemporânea, se ergue como a excepção ao possível. E o possível é a actual relatividade das fronteiras entre a ética e o que realmente é importante para o País. A Direita não sabe.

A fome, a miséria, o desemprego, a ausência de perspectivas aumentam com a falta de decisões. A Esquerda, segundo as sondagens, continuará maioritária, mas possuímos, de facto, uma cultura de Esquerda? E que é uma cultura de Esquerda? Não me parece que alguém possa, seriamente, responder a estas perguntas. Sobretudo averiguando-se o que, em nome da Esquerda, tem sido cometido pelo PS - pelos PS's.

Há dias, numa assinalável entrevista do dr. António Marinho e Pinto ao jornalista Duarte Baião, e editada no suplemento Notícias-Sábado, do DN e do JN, o bastonário dos advogados proferiu uma afirmação que comportava uma séria advertência: "Não vão para Direito!" Conhece-se a franqueza, a coragem e a decência deste homem, alvo de críticas correspondentes à importância do que diz. Marinho fala com endereço e corre os riscos decorrentes. Estão a mandar milhares de jovens para o desemprego com leviandade criminosa. Acontece coisa semelhante com os cursos de "jornalismo". As escolas de "comunicação social" são inúmeras e "licenciam", anualmente, cerca de mil e quinhentos moços e moças, os quais, muito cedo, vêem pulverizada a concentração de sonhos que lhes foi criada. E alguns dos "professores" não servem, sequer, para receber informação telefónica de qualquer correspondente de província.

As questões estão sempre relacionadas umas com as outras. A sociedade de mercado invadiu, inclusive, as consciências. O modelo europeu de sociedade está a ser metodicamente liquidado, sem que consigamos estabelecer a conciliação, imprescindível, entre responsabilidade colectiva e responsabilidade individual. O projecto de Passos Coelho não está isolado do contexto. Como as preocupações de Marinho e Pinto no-lo dizem que devemos incitar à compreensão mútua das nossas verdadeiras urgências.
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«DN» 28 Jul 10

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Herculano. Quem?

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Por Baptista-Bastos

O GOVERNO DESLEIXOU as comemorações do bicentenário do nascimento de Herculano. Está na natureza do Governo. O dr. Cavaco ignorou a data. É a sua relutância às minudências da cultura. O dr. Cavaco tem mais de se ralar do que se apoquentar com a efeméride. Aliás, creio que nem o Governo nem o dr. Cavaco alguma vez se debruçaram sobre uma linha sequer, uma escassa e minguada linha escrita pelo grande historiador. E, no entanto, a chamada de atenção, as celebrações a um homem e a uma obra que tentaram resgatar, do soturno viver, um povo deprimido, deviam proceder das mais altas instâncias.

A Associação Portuguesa de Escritores tentou suprir a lacuna. Uma série de acontecimentos culturais, coordenada pelo incansável Luís Machado, marcou o facto. Dir-se-á: foi pouco. No entanto, entre outros conferencistas, teve António Borges Coelho, um dos três maiores historiadores do nosso tempo, que falou, como só ele sabe, de um homem da palavra, do rigor, da honra e da liberdade. Herculano tem um destino de grandeza e de solidão, confirmado pela guerra, pelo estudo e pelo exílio. Ignorá-lo é mais do que um escândalo.

Como muitos outros da minha geração, entrei no universo de Herculano pela mão de Nemésio. E o que poderia ser uma maçadoria pouco entusiasmante transformou-se numa viagem intelectual sem limites. Volta e meia, quando o desconcerto do que por aí se diz e se escreve me leva até ao desgosto da mensagem, vou à estante e releio o velho mestre. Ramalho escreveu sobre ele algumas frases amargas. Não lhe perdoou o retiro para Vale de Lobos, o cansaço de um português maior que dissera da Pátria, num desassossego semelhante ao que, hoje, muitos de nós pensam e sentem: "Isto dá vontade de morrer!" Não é só Herculano o esquecido e o ignorado. A lista daqueles que deram a fisionomia ao País, quando o País era governado por gentalha como esta, agora, é quase infindável. Dá vontade de os correr a sarrafo!

Há páginas admiráveis escritas por Bulhão Pato, nas Memórias, que traçam os últimos dias do autor dos Opúsculos. Sem esquecer a comovente reportagem de Fialho d'Almeida, no volume póstumo Figuras de Destaque, sobre a morte e o enterro de Herculano. Um texto que deveria ser lido e estudado nas chamadas escolas de "comunicação social". E a Casa da Imprensa editou, há anos, Nosso Companheiro Herculano, de Fernando Piteira Santos, Raul Rêgo e Jacinto Baptista, este último igualmente autor do belíssimo Alexandre Herculano, Jornalista.

O homenageado pela Associação Portuguesa de Escritores disse, certa vez: "Sou filho da imprensa. Tudo o que sou a ela lho devo." Enobreceu, como poucos, o jornalismo. Onde pára o seu exemplo?
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«DN» de 21 Jul 10

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Este homem que nos coube em sorte

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Por Baptista-Bastos

O DOCE EMBALO de julgar que cumpre um destino tem levado o dr. Cavaco ao incomparável incidente de ser preceptor das nossas vidas. Desde a rodagem de um carro até que os acasos da fortuna e os desacertos da História o empurraram para lugares cimeiros da Nação nada de entendível esclarece o enigma. Nenhum estudo fervoroso e incessante desanuvia a nossa pobre e obnubilada perplexidade. Foi um primeiro-ministro medíocre; é um Presidente da República sem estofo. Quando fala, o discurso é ambíguo, desbotado e triste, quando não funesto.

Acontece vezes de mais. Uma delas foi há poucos dias, numa daquelas cerimónias em que senhores consideráveis e visivelmente bem instalados discreteiam sobre a redenção da Pátria e a salvação do povo. Aí, o dr. Cavaco falou. Quando o dr. Cavaco fala, ninguém resiste à sagacidade portentosa das suas meninges. Infelizmente para a cultura e para a história nacional, o dr. Cavaco pouco mais adianta do que apontar números, estabelecer comparações, esticar o dedo hirto para a estatística, para a cifra, para a percentagem.

Reacentuando a insustentabilidade do País, estribou-se na falta de flexibilidade das leis do trabalho e, impelido pelo fulgor da corrente, designou generalizações e estatuiu paralelismos exemplares. A China, a Índia e a Turquia, além da Polónia, eram uma copiosa provisão de modelos económicos a seguir.

Em boa consciência, como pode alguém enunciar aqueles países, onde a democracia é constantemente sovada; onde quem trabalha aufere salários de escravo, as mulheres são tratadas abaixo de cão, os miúdos são colocados nas mais rudes tarefas - como pode alguém nomear a China, a Turquia, a Índia, a Polónia dos gémeos Kaczynski (Lech morreu em Abril) como paradigmas económicos, omitindo o preço das misérias e das tragédias por que passam os povos daqueles países?

Qualquer deles organizou e desenvolveu aparelhos policiais, técnicas repressivas, mecanismos de poder absolutamente pavorosos. Mas a verdade é que as sociedades ocidentais também se têm pautado por métodos muito próximos. Estes pormenores parecem não desassossegar a sensibilidade do dr. Cavaco. A hipocrisia está pressupostamente associada à ausência de complexos morais. E o que surge como "exportável", naqueles países, tem em conta o que pode favorecer os instrumentos de irracionalidade política da ideologia que o dr. Cavaco defende. Evidentemente, o dr. Cavaco defende uma democracia de superfície, apanágio do "movimento reformista" por ele referido, com entusiasmo, cujo objectivo mais não é do que a fixação de um ultraliberalismo profundamente reaccionário.

Que homem é este que nos coube em sorte?
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«DN» de 14 Jul 10

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Sem remorso e sem polémica

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Por Baptista-Bastos

MUITO NOVO, muito novo mesmo, aprendi que temos de fazer o que é preciso fazer. A assunção deste princípio implica certos riscos, sobretudo se vivermos numa sociedade precaucionista. No campo actual das nossas experiências políticas, os perigos não são semelhantes aos que impendiam sobre nós no tempo da ditadura; mas constituem, ainda assim, gravíssimas ameaças. O chamado "poder democrático" dispõe de meios e de processos intimidatórios extremamente sofisticados para punir os recalcitrantes. A "dissidência" e as suas duras consequências não são exclusivo apanágio do comunismo. Esta lógica do castigo a quem prevarica espalhou-se por todos os partidos, sem excepção.

O PS promoveu as suas Jornadas Parlamentares. Os seus notáveis, assim como os menos notáveis, identificaram as raízes dos nossos problemas contemporâneos com a maldade do sistema financeiro. Nenhum dos oradores que me foi dado ouvir analisou o fundo da questão. Nenhum deles, também, procedeu à mais ténue autocrítica. E respaldam-se em investidas serôdias e cansativas ao PSD, como se fosse este partido o único responsável pela violência dos ataques ao mundo do trabalho, aos funcionários públicos, à Saúde, à Educação e, até, valha-nos Freud!, à Justiça.

As Jornadas não vão dar em nada: constituem um cenário teatral pouco convincente, uma demonstração enganosa que pretende legitimar as malfeitorias de um Governo cuja acção tem tripudiado sobre a nobre ideia de socialismo. Os exercícios de retórica apenas reconhecem as funções do poder, e poucas vezes, muito poucas vezes, o poder reconhece os erros e os desvios próprios. Nos discursos de mera circunstância, somente Ferro Rodrigues, pelo qual desejo manifestar consideração, se aproximou da génese da crise, denunciando, timidamente, o carácter predador do capitalismo e da fase de domínio sobre todas as formas sociais em que se encontra. Mas ficou-se pela superfície. É pena.

Não esperava afirmações contundentes nem rupturas com um passado que, amiúde, chega a ser escabroso. Porém, talvez não fosse má ideia que alguns dos dirigentes socialistas tivessem a coragem de cauterizar as características patológicas de que o PS e os seus Governos têm enfermado.

O problema da identidade política e ideológica daquele partido foi esquecido. Não houve discussão teórica, e podem crer que, no estrangeiro, sobretudo em França [verbi gratia os textos vivíssimos de Alain Badiou e de Myriam Revault d'Allonnes] têm sido apresentadas curiosas soluções que, pelo menos, renunciam ao mutismo e à resignação. Não houve polémica nem remorso nem grandeza nestas Jornadas Parlamentares do PS. O PS não tem feito o que é preciso fazer.
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«DN» de 7 Jul 10

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O Discurso da Ambiguidade

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Por Baptista-Bastos

PEDRO PASSOS COELHO falou, com amenidade, acerca das alterações ao programa do PSD, que pretende intentar. Acentuou que o mundo está em mudança e que o partido, naturalmente, tem de acompanhar o mundo e a mudança. Para aviso das almas mais sobressaltadas esclareceu que Sá Carneiro, na "sua época", chegara a afirmar que o SPD alemão (o de Willy Brandt) era o seu paradigma e o molde que desejava aplicar ao partido que fundara. Neste momento, Passos Coelho sorriu levemente, e informou ser a CDU germânica o actual arquétipo do actual PSD, reconhecendo, assim, que caminhava, desenvolto, com os tempos novos. (Para os esquecidos, a CDU era o partido de Franz-Josef Strauss, o "toiro da Baviera", e um dos políticos mais reaccionários e perigosos da Europa daquele tempo, um paladino da Guerra Fria e do confronto sem concessões. É, também, o partido de Angela Merkel).

Não me parece que, actualmente, este seja o exemplo mais apropriado de partido e a ideologia mais adequada para enfrentar os nossos dilemas. Há dias, confidenciei, a um amigo comum, que Passos Coelho está a falar de mais e a não dizer rigorosamente nada.

O novo presidente do PSD está a encaminhá-lo para as zonas dos objectos perdidos, no propósito (acaso sem intenção, o que é pior) de romper os laços sociais, e de fazer desaparecer, simultaneamente, as garantias dos nossos direitos individuais, e um horizonte de valores cuja importância nunca denegámos. A exigência democrática não se compadece com a incerteza.

As últimas sondagens não são propícias a grandes euforias. Apesar da corrosão do PS, e de Sócrates ser o primeiro-ministro mais vilipendiado da democracia, os equilíbrios são surpreendentemente mais estáveis do que se previa. E a esquerda continua maioritária. Penso que o discurso de Pedro Passos Coelho provoca uma lógica de semelhança com o PS. Quando assevera que o PSD está, apenas, a ajudar o País, Passos Coelho embrulha-se numa dualidade de critérios que não encoraja a tomada de decisão por parte dos eleitores. De contrário, as conclusões da última sondagem, publicada anteontem no DN, seriam obviamente muito diferentes.

Se o Governo é a baralhada que se conhece, os torções a que procede o PSD, entre a palavra e a acção, impedem-nos de descortinar uma perspectiva de escolhas, de valores e de padrões. A tese de que não agir faz parte do agir parece-me anacrónica. Sobretudo quando, apesar de lacunas e desconsolos, o português comum já não participa nessa "adesão passiva" que fez a história das tiranias e das democracias de superfície.

E não há jornalistas estipendiados, nem comentadores do óbvio que consigam alterar esta direcção das coisas.
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«DN» de 30 Jun 10

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O Certo e o Errado

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Por Baptista-Bastos

UM JORNAL ESCREVEU, em editorial, sobre José Saramago: "Esteve, muitas vezes, do lado errado da História." Infere-se, deste duro juízo moral, que o feliz editorialista conhece o lado certo da História, e que ele próprio se situa, intrepidamente, nesse lado. E que é o lado certo ou errado da História? O lado certo será límpido e asseadíssimo; o errado, por antinomia, sujo, abjecto, torpe.

O simplismo da afirmação retém, em si, a totalidade das ideias feitas; e a estrutura do conceito é reveladora da preguiça mental, invariavelmente associada à atracção exercida pelos "vencedores" da História sobre aqueles cujo horizonte de valores é unívoco e maniqueísta. Claro que a frase do editorialista autoriza-nos, pelas razões expostas, a considerá-la uma parvoíce. Até porque se entende, com clareza, o que, verdadeiramente, ele deseja atingir.

Que é um "vencedor" da História? Thiers, o carniceiro dos comunards? E estes serão, mesmo, os "vencidos"? Franco foi o "vencedor" da Guerra Civil em Espanha?; Pinochet foi-o, no Chile?; e Videla na Argentina? As interpretações clássicas conduzem, habitualmente, a concessões ao que convém dizer. E o que convém dizer, nesta como em outras matérias afins, faz parte da "submissão" a um particular modelo de pensamento.

Saramago foi um comunista desobediente; nunca dissidente porque não tolerava as derivas morais, periodicamente em moda. Esteve sempre onde a consciência o determinava. Em Chiapas, nas batalhas rurais, como a protestar contra as iniquidades de uma lei de imigração nas Canárias ou em Madrid. Cortou com Cuba porque não sabia reduzir o superior ao inferior. O seu rosto grave nunca perdeu a preocupação do mundo. Havia nele algo de sartriano: o gosto de se envolver, a exultação em se arriscar, a felicidade de desafiar. Não estava de perfil para o "acontecimento"; escolhera a exigência dos factos para melhor compreender o coração dos homens. Um ser desta estirpe contrairia inimigos ferozes e amigos efusivos. O seu lado era esse, o do compromisso, numa época funesta em que os intelectuais, por cansaço, indiferença ou estratégia, haviam desistido de ser cidadãos.

Talvez não tivesse razão, algumas vezes; talvez. Mas nunca deixou de exercer o acordo ético e ideológico que implica o despique e que recusa qualquer espécie de "arbitragem". Sobretudo, nunca emudeceu quando as vozes de muitos outros se cumpliciavam com a cobardia. Esteve no lado que envolve a relação problemática entre poder e liberdade. Quero dizer: escolheu a instabilidade, as ameaças e os riscos. E é um dos maiores escritores portugueses de sempre.
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«DN» de 23 Jun 10

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Ler os velhos mestres

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Por Baptista-Bastos

A IDA DE UM GRUPO de banqueiros a Bruxelas possui contornos tão pouco esclarecidos como a lesão de Nani: rigorosamente, nada se sabe. Sabe-se, isso sim, que há assuntos cuja natureza nos parece sempre embrulhada em ambiguidades e evasivas. A certeza das certezas é que não nos sentimos bem, nem à vontade. A história das nossas vidas corresponde a uma decepção quase ininterrupta. Atingiu--se, em Portugal, os 10,8 por cento de desempregados, número assustador, mesmo assim enganoso: há mais, muitos mais portugueses sem emprego. Ninguém espera que o vistoso grupo de banqueiros tenha viajado a Bruxelas com o coração apoquentado pela nossa desgraça, e o alvoroço de quem se consome na procura de uma solução.

No mesmo dia soube-se que, desde Janeiro, faliram mais 1800 empresas, numa média de onze por dia. O rol dos infortúnios não termina aqui. Nem os perigos que nos ameaçam têm, nestes números, um definitivo ponto final. Com perdão da palavra, não acredito que aqueles senhores se preocupem com a salvação da pátria. Nem que procedam a um mea culpa, pela circunstância de serem os representantes típicos da falência do que têm defendido e nos arrastou para a situação miserável em que nos encontramos.

Há tempos, um outro airoso conjunto de génios, desta vez economistas, foi recebido pelo dr. Cavaco. Também se desconhece o resultado da reunião. Transpirou, para o público ignaro, que os senhores estavam muito mortificados com o estado da nação. Muitos deles haviam sido governantes; outros, decisores. Falavam como se nada tivessem a ver com as condições de desincorporação político-social em que nos achamos. Nenhum deles disse que a crise é sistémica, e corresponde ao carácter relacional do poder. Marx explicou. Mas se Marx provoca brotoeja, Max Weber também o disse, de outro modo. Leia-se, por obséquio, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.

Carlos Pimenta, social-democrata e ambientalista, afirmou, recentemente, numa palestra promovida pela Intervenção Democrática: "Acho que quem alguma vez leu Marx, o próprio Marx ou Engels (não os divulgadores do Marx, pois sobre estes tenho a opinião de que são os maiores adulteradores do marxismo, propositadamente ou, tão somente, porque tornaram simplório e linear o que era dialéctico e complexo), quem estudou Marx e quem procurou interpretá-lo, inevitavelmente transportará Marx por toda a vida."

A leitura dos velhos mestres, associada à consciência de quem se não submete ao fatalismo da imutabilidade, provoca o conflito de forças e a explicação da índole do lucro e da mais-valia. Portugal não é insustentável. A noção de responsabilidade deveria corresponder à noção do exacto significado das palavras.
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«DE» de 16 Jun 10

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A violência encoberta

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Por Baptista-Bastos

VIVEMOS, HÁ SEMANAS, numa espécie de fervor que, simultaneamente, nos regozija e entorpece. Veio o Papa e enchemos os dias de graciosas solenidades. Andamos a pedir dinheiro emprestado, e a expressão sumptuariamente e devota que expusemos, importou em não se sabe quanto, certamente muitíssimo. Mantivemos o estilo, mas desentendemo-nos da realidade. Pobretes e alegretes. Sua Santidade abençoou-nos com transporte e unção. As televisões, muito pias, aborreceram-nos e fatigaram-nos tanto que nos deixaram depauperados. Horas e horas, dias e dias sem misericórdia nem compaixão. As narrativas dos locutores atingiram o grau máximo da repulsa. Um panegírico absurdo, acrítico, que produziu a tese exemplar de como se não deve fazer televisão.

O festim não parou. Foi a vitória do Benfica; foi a assinatura do contrato entre José Mourinho e o Real Madrid; foram as primícias do Mundial. Tudo minuciosamente filmado, em directo, pelos canais existentes, reconcentrados e vastos, impulsionados pelos magnos acontecimentos. Horas a fio, arbitrárias e agressivas pela imposição sem tréguas, assustadoras pelo que representavam de mau jornalismo, de desrespeito pelo povoléu, cujos gostos julgam lisonjear.

O futebol comporta, em si mesmo, doses substanciais de humanidade. Porém, o excesso não o serve, nem assiste aos adeptos. O excesso doentio de informação, que o não é, beneficia qualquer coisa de pouco asseado, dissimulado num institucionalismo ausente de profundidade e serventuário de outros interesses e objectivos. Estas falsas razões não são novas. As grandes tiranias e as democracias amolgadas utilizam as paixões e as emoções em massa para as manipular. O Estado é uma ferramenta perigosa nas mãos de quem conhece as características da multidão. O pior é a ressaca da euforia. E a debilidade da nossa consistência colectiva é esclarecedora da força que podem adquirir as diversas faces do poder. O jornalismo, este jornalismo, não emerge por acaso, e não está ausente da distinção entre segurança interior e segurança exterior. A inexistência de espírito crítico possui o sabor amargo da servidão.

Nos anos tumultuosos de 1974/75 esteve em Portugal um dos corifeus da antipsiquiatria, David Cooper. Por uma tarde embatente de calor, na Trindade, cervejávamos com ele, na companhia do Afonso Praça e, se bem me lembro, do Rogério Rodrigues, além do António Carmo e do José Carlos Gonzaléz. Ele dizia que o português possuía as particularidades comuns aos seres marcados pela tristeza da abulia. O que não significa um estado de impotência natural. Quando desperta, a cólera transforma-se em fúria e esta numa violência quase sem controlo.
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«DN» de 9 Jun 10

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O 'pragmatismo' contra a ideologia

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Por Baptista-Bastos

CUNHAL, SOARES e SÁ CARNEIRO possuíam convicções e tinham projectos para o País. Gostássemos ou não da natureza desses projectos, estes faziam parte dos conceitos éticos e políticos de cada um daqueles homens, mas, sobretudo, correspondiam ao carácter da época. À ideologia, às ideologias. No imediato 25 de Abril, a criação das instituições era um problema capital. Sob uma figura de significado confuso: "democracia de tipo ocidental", vivemos uma ideia dividida, por imprecisa. Na verdade, ninguém sabia, exactamente, o que era a "democracia de tipo ocidental", pela singela razão de que, nessa lógica, havia democracias para todos os gostos e recados, e, por sinal, algumas bem repressivas e arbitrárias.

Portugal não conseguia harmonizar distância reflexiva com politização. Cinquenta anos de fascismo haviam liquidado a interrogação do presente. Pouco ou nada compreendíamos das possibilidades de escolha. O tumulto do PREC envolvia uma poética das ruas, inseparável dos sinais exaltantes da liberdade, da festa. Quem viveu esses tempos, entende que a História confluía em múltiplas mas ingénuas certezas. E que tudo era aprendizagem. Até do amor, até do sexo, porque as coisas relacionavam-se como laços sociais.

A "normalização" e a ascensão ao poder do dr. Cavaco determinaram a substituição da ideologia e do sonho pelo "pragmatismo." O "pragmatismo" não transmite saber, facilita e dá cobertura a todas as vilezas políticas porque ausente de qualquer sobressalto moral. São as possibilidades circunstanciais que formam as afirmações das suas condutas. Guterres, Durão, Santana, Sócrates descendem directamente desse abaixamento, ilustrativo de uma "certa maneira de estar no tempo." Os espaços públicos de contestação e de discussão, que representavam um contra-poder, minguaram até desaparecer. A dimensão afectiva extinguiu-se. Burocratas da política tomaram o lugar das paixões do homem.

Enquanto Cunhal, Soares e Sá Carneiro, habitados pela ideia de mudança, jogaram, no regueirão da História, o que de melhor e de pior a sua experiência incorporava, aqueles que se lhes seguiram eram movidos pelos seus interesses pessoais. Acrescente-se uma nefasta mediocridade e o quadro talvez aclare esta triste desgraça em que vivemos: mentiras, vacuidade, ignorância, impunidade aos prevaricadores, enriquecimentos ilícitos.

A nossa insatisfação nasce desse jogo complexo do poder, do carácter nocivo de quem nos dirige e dos mecanismos económicos que se sobrepuseram à importância da ideologia. A decomposição social resulta da fragmentação identitária dos partidos, da ambiguidade política e da fragilidade cultural de quem conduz. E da impassibilidade de todos nós.
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«DN» de 2 Jun10

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A metáfora e o tango

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Por Baptista-Bastos

"NÃO DEI A MÃO AO GOVERNO: dei a mão ao País", disse Pedro Passos Coelho. É uma metáfora sorridente, destinada a justificar o conúbio deste PSD com o PS que por aí penosamente se move. A metáfora é uma forma de encantamento, e a dissimulação do que se não deseja abertamente dizer. Ao pretender salvar a pátria, deprimida e confusa, com um tropo linguístico, Passos coloca Sócrates num lugar errante e subalterno. Por seu turno, este, em Espanha, enche aquele de elogios, utilizando, também, uma metáfora, a do tango, para afirmar, ante uma plateia estupefacta, ter, agora, com quem dançar. Uma cena deprimente.

Sócrates já esvaziara de direcção e de sentido a sua política e a sua presunção. Mentiras, omissões, deambulações absurdas, uma certa pusilanimidade decisória tinham-lhe apagado o estilo e embaciado o retrato. Falou-se em arrogância o que, de facto, era falta de convicção, ausência de livros, ambiguidade ideológica. Está a descer rapidamente a rampa. Não sinto o mais escasso contentamento com dizer isto; pelo contrário.

Pedro Passos Coelho apercebeu-se da debilidade. E, igualmente, da oportunidade surgida das indecisões do adversário e do evidente mal-estar no PS. Até o cauteloso e matreiro Seguro, que sempre preferira expressar-se com frases evasivas e castos comentários, começou a protestar, no objectivo essencial de tomar lugar no proscénio. O PS anda numa deriva interminável e só agora o cândido moço desperta, com sobressalto. António José Seguro não passa, realmente, do rasto das coisas.

Quanto a Passos Coelho, ele sabe que não embarcou numa aventura perigosa. Se Sócrates cair, ele não se estatela porque desempenhou o bondoso papel de preferir a pátria ao partido. Acaso Sócrates sair vencedor destes imbróglios e surja aos olhos dos paisanos como a Fénix renascida, Passos Coelho desfrutará do lugar daquele que procedeu a grandes magnitudes e a decentíssimos comportamentos políticos.

José Sócrates talvez ainda se não tenha apercebido, ou apercebeu-se e gosta da vaidade lisonjeada, de que está rodeado de sabujos, uma gente degradante, para quem o exercício de pensar é uma embaraçosa maçada. Basta assistir aos preopinantes que o defendem para aquilatarmos da natureza dos seus caracteres e da substância do que dizem. O caso da protelação do apoio a Manuel Alegre é uma pequena vingança de pequenos medíocres, sem aprumo nem grandeza, que chegam a espadeirar-se no insulto rasteiro.

O Governo é um descalabro, e o PS um partido enfermo pelo poder. Há uma corrosão acentuada na sociedade portuguesa. A impostura adquiriu carta de alforria: ninguém é culpado, ninguém é responsabilizado. Quem nos acode?
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«DN» de 19 Mai 10

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Manuel Alegre

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Por Baptista-Bastos

HAVIA, TALVEZ, uma possibilidade criadora neste PS, acaso possuísse a grandeza de desanuviar a tensão que nele próprio quase explode. Mas o PS, este PS, perdeu menções, esqueceu o brio da história de muitos dos seus militantes e dirigentes, move-se ao sabor dos ventos e inverteu, definitivamente?, o papel que poderia representar na sociedade portuguesa. É uma associação de ressentidos, uma agência de empregos, e proclama que os alucinados são os outros.

A possibilidade de que falo consistia em acabar com a dilação em torno da denominação de Manuel Alegre, candidato à Presidência da República, que deixou de ser uma torpe vingança para se converter num escabroso indecoro. Ouve-se o fatal José Lello e não se acredita; escuta-se o medonho Vitalino Canas e ficamos transidos: estamos num lodaçal de afrontas. Em nome de quê? Da retórica de obediência ao chefe, praticada sem as reservas da consciência individual.

Goste-se ou não de Alegre, esteja-se ou não de acordo com as críticas por ele feitas às derivas da direcção deste PS, ele pertence ao património cultural, nosso e daquele partido, e às raízes de um combate que identificou os socialistas com uma certa fórmula de actuação na sociedade. O "estar em discordância" não pertence aos domínios das inutilidades ideológicas: é um valor da honra contra as certezas definitivas de um mundo sem honra.

Estas ardilosas indecisões já custaram à esquerda as últimas presidenciais. Foi a salgalhada de Sócrates que colocou Cavaco em Belém. Basta consultar os números, sem nos deixarmos inibir pelas armadilhas mediáticas, e proceder a uma equação que recuse a perda de sentido da aritmética, para entendermos a natureza do embuste. Como se tem visto, Cavaco estava mais nos carris de Sócrates do que Manuel Alegre. Ideologicamente, a questão reside aí.

A história repete-se, com outros protagonistas, sem maior segredo, enigma ou fascínio. Mas sob o peso de uma tristeza letal, provocado por este mundo flutuante, desprovido de convicções e de dimensão. Há dias, almoçando com um velho amigo e camarada de imprensa, o António Rêgo Chaves, falámos da perfídia desta gente, que estendeu o reino da falsa linguagem até ao desgosto da palavra. Perderam-se as referências cívicas que assinalaram o nosso tempo e marcaram os nossos destinos. Um desfile de nomes, de obras, de probidade, de desempenho ético, que reabilitaram a fisionomia moral e cultural de uma pátria sequestrada pela violência do fascismo. Não dispomos, hoje, de muitos valores exemplares, que nos permitam organizar a vida segundo os princípios de uma sociedade decente.

Talvez Manuel Alegre seja um dos últimos dessa estirpe.
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«DN» de 12 Mai 10

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A nossa fúria e a nossa revolta

Por Baptista-Bastos

NÃO ME RECORDO de termos sido felizes. O 25 de Abril abriu as parangonas dos nossos testemunhos mútuos, mas a festa durou, apenas, pouco mais de ano e meio. A euforia termina sempre na indolência, outro modo de resignação. Desde que me recordo, vivi cercado pela crise, mas, também, pelos acenos dos "amanhãs que cantam." Com este ou com outro estribilho, os homens admitem o sofrimento e, às vezes, até, a abjecção das épocas, na esperança de que o futuro será melhor. Talvez eu seja um pouco tonto, talvez, ou um teimoso obstinado e caturra; porém, continuo a acreditar no surgimento de outra coisa que substitua esta selvajaria sufocante.

Acordamos e deitamo-nos sob a pressão da catástrofe iminente. A imprensa, as rádios e as televisões encharcam-nos de medo e de desassossego, a moderna aptidão para se abraçar um certo estado de vida. Viver no medo e no desassossego foi a ideologia dominante nos cinquenta anos salazaristas. Um medo e um desassossego larvares, prolongados, depois, pela natureza canibal de uma economia, que assaltara, de mão armada, a política, e ameaça a saúde da democracia. Como, aliás, se vê por aí.

Emmanuel Mounier, o filósofo do personalismo, que li, e releio, com mão diurna e nocturna, escreveu: "O homem renova, perpetuamente, o aspecto das suas indignações" - para nos ensinar do transitório das coisas e da necessidade de não perdermos o fio à meada de uma batalha nunca ganha mas também nunca perdida.

Chegámos a uma situação perigosa. O papel essencial do trabalho, na sociedade, é desprezado por uma laia dirigente, emproada e vil, ignorante da experiência da História, e que não sabe redefinir as bases do contrato social. O caso da Grécia, independentemente dos seus contingentes pecados, é significativo dessa vileza. A senhora Merkel, cuja cabeça não é, propriamente, um bulício de inteligência, desconhece que o projecto europeu (seriamente avariado) constitui a aprendizagem de viver juntos. Ao recusar auxiliar os gregos, nomeava a Alemanha como dona da Europa. Ignora- va que a Europa ajudara a Alemanha a recompor-se das ruínas, pressionando, inclusive, os Estados Unidos a colaborar na empresa.

Ainda há horas vi, na televisão, o rosto desfeito em lágrimas, em dor, em susto, em assombro, de uma desempregada da Allcoop, cadeia de supermercados no Algarve, que formulou esta dramática pergunta: "Quem nos ajuda?" Ninguém. Com esta Europa, com este, e outros ruinosos governos, cheios de piedade sentenciosa e de explicações superficiais, nada há a esperar.

Resta-nos a fúria da nossa repulsa e a força imparável da nossa revolta.
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«DN» de 5 Mai 10