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sexta-feira, 27 de março de 2009

Envelhecer

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Por Maria Filomena Mónica
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ANTEONTEM, fiz sessenta e cinco anos, ou seja, como se diz no jargão oficial, passei a ser «uma pessoa idosa». Eu teria preferido o termo «velha», mas mesmo este me soa estranho, porque tão pouco me sinto velha no sentido em que a minha bisavó e trisavó o eram. Em Dezembro de 1991, tinha quarenta e oito anos, dei uma entrevista à revista «Marie Claire». Lendo-a hoje o que me surpreende é o optimismo. É verdade que já então descobrira não ser imortal, mas, à época, declarava que ter cinquenta anos era a melhor coisa do mundo.
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A minha posição actual é mais complexa. Se há coisas boas no envelhecimento, as más ultrapassam-nas de longe. Começo pelas primeiras. À cabeça, a evidência de dispor de mais dinheiro, um benefício atenuado pelo facto de o prazer de fazer compras ter desaparecido. Dantes, qualquer roupa me servia. Agora, só encontro trajos desenhados para anoréxicas. Uma vez que é na cintura que a idade mais partidas nos prega, comprar um par de calças tornou-se numa tarefa morosa e aborrecida.
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Depois dos sessenta anos, raro é o dia em que não temos uma maleita. E não estou a falar de doenças graves, mas de pequenas aflições, uma subida da tensão arterial, uma dor de cabeça, uma lombalgia. Outro aspecto sobre qual a idade tem efeitos devastadores diz respeito às tecnologias. Levei anos a aprender a mudar um fusível, a lidar com uma panela de pressão e a programar um micro-ondas. Ainda consegui passar da máquina de escrever para o computador, mas a minha evolução parou aqui. Por saber que o tempo gasto a ler instruções não compensaria a utilidade ou o prazer que deles retirava, já não dei o salto para o telemóvel, muito menos para o iPod. Tendo em conta o que Henry James chamou «a imaginação para o desastre», podia passar horas a enumerar as desgraças que antevejo, mas não quero assustar os leitores. Basta dizer-lhes que o grande pânico é o de ficarmos sozinhos ou, pior ainda, o de passarmos a ser dependentes. Envelhecer é saber isto.
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Novembro de 2007
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sábado, 21 de março de 2009

O que a televisão tem para oferecer

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Por Maria Filomena Mónica
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HÁ QUINZE ANOS os portugueses passaram a usufruir de canais privados de televisão. Até ao dia 6 de Outubro de 1992 apenas existia a RTP, cujo dono era o Estado. Antes de eu prosseguir, vale a pena recordar o que nos era oferecido: telejornais politicamente controlados, séries medíocres e programas pseudo-intelectuais. De longe em longe, tínhamos acesso a um produto de qualidade, comprado, por acaso, numa dessas feiras onde os altos funcionários da RTP gostam de se pavonear.
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Foi então que surgiu a SIC – com um estilo novo e vibrante – e a TVI – oscilando entre o báculo do bispo e a privada ganância. A RTP tentou reagir, produzindo concursos imbecis, a TVI abraçou-se ao «Big Brother» e a SIC perdeu o vigor inicial. Hoje, temos quatro canais, lutando igualmente por audiências, o que acaba por os tornar indiferenciados. Por melhor que seja uma ideia, nenhum se arrisca a colocar no ar um programa se não tiver a certeza de que lhe assegura o máximo de lucro. E, no entanto, se me perguntarem se critico o Estado por ter aberto o espaço hertziano à iniciativa privada, a minha resposta é negativa. Considero que tudo é melhor do que uma televisão controlada pelo poder político.
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Não há contudo país na Europa em que o desprezo pelos telespectadores seja tão claro. À degradação moral, acresce a falta de cumprimento das leis sobre a publicidade. No último mês de Agosto [2007], a RTP, a SIC e a TVI emitiram um conjunto de 68.646 peças publicitárias, o que equivale a uma média diária de 4 horas por canal, praticamente o tempo médio (3 horas e meia) que os portugueses dedicam por dia à televisão. Num país tradicionalmente miserável, a televisão transformou-se no refúgio de quem, nos tempos livres, não tem outra solução que não seja a de permanecer em casa. É por isso que aquilo que exibe – telenovelas mais publicidade mais concursos - me escandaliza. Nem todos podem, como eu, desligar o aparelho e encomendar DVD's à Amazon. Aliás, não é legítimo que o Estado me obrigue a pagar um bem que não uso. Um dia destes, ainda o ponho em tribunal.

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Outubro de 2007

quinta-feira, 12 de março de 2009

Obras em Casa

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Por Maria Filomena Mónica
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SOU CONTRA OBRAS EM CASA pelo mesmo motivo que sou contra a utilização da cirurgia plástica: as rachas das paredes são tão bonitas quanto as rugas na cara. Sei que não é uma posição popular, mas é aquela que adoptei. Em 1974, quando aluguei a casa pombalina onde vivo, já não estaria nas melhores condições, mas pareceu-me lindíssima: apreciei os desvios do soalho, as portadas que rangiam, a assimetria das janelas. Em 1981, o senhorio obrigou-me a comprá-la.
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Durante doze anos, não mexi uma palha. Até que, em 1993, o esgoto de grés rebentou. Não havia alternativa se não substituí-lo. De um dia para o outro, o andar foi inundado por engenheiros, arquitectos, pedreiros, carpinteiros, electricistas e até fiscais da Câmara. O pesadelo durou dois anos. Para me consolar, convenci-me que nunca mais teria de me maçar com problemas de construção civil. Eis que, depois das recentes chuvadas, os azulejos da fachada começaram a cair: não todos de uma vez, mas um aqui, outro acolá.
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Apesar de ser a gestora do condomínio, armei-me em esperta, fingindo que nada se passava. Igualmente preguiçosos, os outros fizeram o mesmo. Estava eu a meditar no que conviria reparar – uma fachada de onde faltam bocados parece uma boca desdentada – quando uma vizinha da frente me bateu à porta, queixando-se de que um azulejo do 3º andar do meu prédio aterrara sobre a sua cabeça (por sorte horizontalmente). Chamei os bombeiros e a polícia, os quais selaram a rua. Em dois dias, uns alpinistas brasileiros detectaram os azulejos em vias de se descolarem e recolocaram os que estavam em falta.
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Desconfiei logo que isto bastasse. Um mestre-de-obras confirmou as minhas piores suspeitas. Por muito que considerasse belas as casas decadentes, o meu prédio estava em vias de ruir. Eis o motivo por que estou a redigir esta crónica diante de uns matulões colocando andaimes em frente da minha secretária. O seu bom humor contrasta com a minha tristeza. Porque sei que por muito seguro que o meu prédio fique, adquirirá um arzinho novo-rico. Sem rachas, uma casa não tem personalidade.

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Outubro de 2007
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Foi para isto?

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Por Maria Filomena Mónica
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FOI PARA ISTO que se fez o 25 de Abril? De tão usada a frase está gasta, mas nunca como agora foi tão adequado inscrevê-la num título. O que mais me alegrou quando os capitães de Abril derrubaram o governo de Marcelo Caetano foi o estabelecimento de um Estado de Direito. Nada e criada sob um regime em que as pessoas apenas podiam ler jornais censurados, não podiam pensar nem escrever livremente, não podiam falar ao telefone sem medo de estarem a ser escutadas pela polícia, exultei. A partir de então, pensei, as liberdades fundamentais estavam garantidas.
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Mas eis que acabo de ter conhecimento que, na sequência do escândalo causado pelo chamado «envelope 9» (respeitante a uma real ou suposta rede pedófila), num só dia, o da data em que a comissão parlamentar visitou a Policia Judiciária, esta andava a «escutar» 1.600 chamadas. Entre 2003 e 2005, realizaram-se 26.000 escutas legais (as ilegais permanecem claro fora de qualquer contabilidade). Como se aquele relatório não bastasse, existem as declarações que o Procurador-Geral da República fez anteontem na Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais de Direitos, Liberdades e Garantias e que resumiu em três palavras: «Não tenho poderes». Se nem ele pode garantir que as suas conversas estão fora das escutas que por aí pululam, incontroláveis, o que se passará connosco?
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No meio da crise económica, da falência do sistema de ensino, do aumento do desemprego, temo que os portugueses se não tenham apercebido da gravidade do que se passa. Portugal é, sei-o há muito, um país sem tradições liberais, mas nada me preparara para o choque destas revelações. Que devemos fazer: conversar em linguagem cifrada?; comunicar à PT que prescindimos do aparelho telefónico?; emigrar? Mesmo se a mais apetecível, a última solução é, no meu caso, tardia, pelo que exijo que alguém - o Presidente da República, o Parlamento, eu sei lá - me assegure que tenho a liberdade de falar ao telefone sem ser espiada. Caso isso não aconteça, a única solução é proibir toda e qualquer escuta, o que causará o desespero da PJ, mas que nos garantirá a nós, cidadãos – e é isso que importa – que podemos falar ao telefone em paz.
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Outubro de 2007
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Os costumes rurais

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Por Maria Filomena Mónica
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O MUNDO MODERNO tem tendência para considerar o passado como um paraíso perdido. Os citadinos olham o campo, onde aliás raramente põem os pés, como se de uma Arcádia se tratasse: segundo eles, a vida rural é povoada por lindas pastoras, burrinhos fazendo toque-toque-toque e velhinhas a fiar na soleira da porta. Durante a minha infância, passei o tempo suficiente numa aldeia para saber que nada disto corresponde à realidade.
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Há dias, fui a Lamego. Ao almoço, falou-se de «abafadores», uma personagem que desconhecia. Foi-me explicado que se tratava de umas pessoas chamadas para colocarem uma almofada sobre a cara de um velho, quando este estava a incomodar a família com os seus gemidos, ou, na melhor hipótese, quando se encontrava em processo de sofrimento. O «abafador» procedia ao que hoje chamaríamos eutanásia. A morte de um inútil fazia parte da cultura aldeã.
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Mas não era apenas o fim dos velhos que era aceite. Depois do almoço, fomos até a uma adega, povoada por tonéis de carvalho, iguais aos que eu tantas vezes vira na quinta do meu avô, situada perto de Tomar. Lembrei-me das advertências do meu pai no sentido de ser perigoso entrar dentro do recipiente vazio – proeza que eu tentara em mais de uma ocasião – porque os vapores que ali existiam eram venenosos. Imaginei tratar-se de uma mentira destinada a fazer com que não manchasse o bibe de rendas que sempre usava. Chegara o momento de saber a verdade.
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Gentilmente, o dono da adega explicou-me ser o perigo real, acrescentando que, por vezes, no Douro, era assim que se faziam abortos. Não estando a ver como conseguiria uma grávida meter-se por a pequena frecha aberta na parte fronteira do tonel, quis saber pormenores: não, não era a mãe que por ali entrava, mas o recém-nascido. Do que estávamos, por conseguinte, a falar era de infanticídio. Como no caso dos «abafadores», os vizinhos fechavam os olhos. A vida rural era dura e duros eram, são, os seus costumes.
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Outubro de 2007
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O Enterro do PSD

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Por Maria Filomena Mónica
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QUEM PENSE QUE O DR. LUÍS FILIPE MENEZES se referia ao Dr. Balsemão, ao Dr. Pacheco Pereira ou ao Dr. Marcelo Rebelo de Sousa, quando, a 18 de Fevereiro de 1995, designou os «sulistas, elitistas e liberais» como os seus principais inimigos, engana-se. A fálica flecha era-me dirigida: aquelas características – que eu tomo como virtudes e ele como defeitos – aplicam-se-me que nem uma luva. Não sou do PSD, mas no estado em que os cadernos eleitorais se encontram – e provavelmente sempre se encontraram – ele não tinha forma de o saber.
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Como quem não se sente não é filho de boa gente, passei a seguir a sua carreira com atenção. Na Sexta-Feira de madrugada, quando soube os resultados da guerra interna do PSD – ou antes os pseudo-resultados uma vez que ninguém sabe quem foi metido ou riscado das listas – a sua vitória não me espantou. Como o nome indica, nada é mais popular do que o populismo. Felizmente que não penso que o homenzinho de Gaia chegue ao poder: o que conseguiu foi enterrar o PSD.
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Lembrei-me então de um empreendimento por ele prometido antes de férias: um novo cemitério. Após ter constatado que os vinte e quatro cemitérios existentes em Gaia estavam a abarrotar, pôs a concurso público a concepção e gestão de outro, o qual albergaria quarenta e uma mil sepulturas, contando com dois fornos crematórios, uma igreja aberta a todos os credos e um parque de estacionamento, num investimento ascendendo a 20 milhões de euros. Logo houve quem – as agências funerárias – questionasse a decisão, com base no favoritismo da autarquia por uma multinacional. Imaginei que a privatização da morte provocasse uma fúria, mas, pelos vistos, os ecos da revolução da «Maria da Fonte» esfumaram-se. Verificou-se, é certo, alguma agitação, mas esta foi provocada pela hipótese de serem os espanhóis a lucrar com o negócio. Por fim, sabemos tudo: é em Gaia que o líder do novo partido, evidentemente nortenho, anti-liberal e anti-elitista, pensa enterrar o PSD: requiescat in pace.
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Outubro de 2007

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

As Relações entre a Igreja e o Estado

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Por Maria Filomena Mónica
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HÁ MUITO QUE AS RELAÇÕES entre a Igreja e o Estado não são pacíficas. No século XIX, depois da expropriação dos bens religiosos, venceu o Estado. A fúria inicial da Santa Sé acabou por ser substituída por um modus vivendi tolerável para ambas as partes. No fim do século, o anti-clericalismo não parou de crescer, um rio de ódio que desembocou na República. Jacobino, o novo regime fez tudo o que pôde para humilhar a Igreja. Esta vingou-se: em 1926, os católicos venceram. O Estado Novo dar-lhes-ia praticamente tudo o que desejavam. Assim se viveu durante quarenta anos. Em 1974, veio o 25 de Abril. Prudentes, os socialistas – com destaque para Mário Soares – tentaram moderar os ímpetos anti-clericais de alguns sectores do partido. Em 1975, com meios legítimos e ilegítimos, a Igreja lutou contra a hegemonia comunista. Mas fomos poupados à violência anti-clerical da I República.
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O Partido Socialista decidiu incluir na sua agenda política algumas «questões fracturantes», de que a mais importante parece ser o casamento entre homossexuais. Não sou partidária do casamento. Na minha opinião, trata-se de uma instituição cuja data de validade tende a ser cada vez mais curta e cujo poder simbólico é patético. Não percebo qual o motivo que leva os «gays» a quererem casar à força.
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Em vez de insistirem neste ponto – que, diga-se, não condeno como tal – penso que, como os outros portugueses, deviam era lutar pela liberdade de testar. É aqui que o problema reside: se os bens são nossos, porque não nos autoriza o Estado a deixá-los a quem nos apetece? Ninguém pensa nisto, mas garanto que fosse outra a legislação, a sociedade portuguesa ganharia.
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Mantendo-me dentro da actualidade, devo ainda declarar que concordo com a revisão da Concordata. Aliás, esta já havia sido revista, em 1975, no que diz respeito a um ponto importante: o da proibição, até então estabelecida, de os cônjuges que se haviam casado na Igreja poderem, uma vez separados, voltar a casar-se pelo civil. Quanto ao ensino da religião, é matéria que deve ser deixada aos pais. A colocação de crucifixos nas salas de aula públicas não é legítima num Estado laico, mas não gostava de ver ressuscitada a histeria à volta da questão, pelo que espero que o assunto seja tratado com delicadeza. Quanto à existência de sacerdotes em hospitais e prisões, estou de acordo, desde que os doentes e presos não sejam sujeitos a pressões indevidas para usarem os serviços religiosos e que as suas crenças sejam respeitadas. Como gostava de lembrar Salazar, Portugal nasceu à sombra do Catolicismo, mas é hoje uma sociedade em que existem fés diversas.
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Finalmente, a secularização da sociedade portuguesa tem muitas causas, de que devemos salientar o rápido desaparecimento do campesinato. Quem saiu das serras dificilmente regressa ao conforto da mensagem religiosa. Desde há muito que a Europa – a que, sem o saber, pertencíamos – deixou de acreditar em Deus. As sociedades avançadas são hedonistas, individualistas e cépticas. Foi aliás por o saber que, em vésperas da adesão de Portugal à CEE, a Conferência Episcopal se pronunciou contra essa opção. Quanto às «vocações» sacerdotais é simples: antes da II Guerra Mundial, a única maneira de uma criança pobre ascender na vida, em Portugal, era através do seminário. Este cenário mudou. Para sorte de nós todos.

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Blogue «Sorumbático» – 13 Fevereiro de 2009
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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O Desaparecimento de Maddie

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Por Maria Filomena Mónica
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COMO TODA A GENTE, tenho seguido [Set 2007] a história do desaparecimento de Madeleine McCann com um misto de curiosidade e de repulsa. Provavelmente por desconfiarem da qualidade da investigação criminal portuguesa, os McCann promoveram uma campanha mediática para encontrar a filha. A partir desse momento, o mundo não cessou de se interrogar sobre o que teria acontecido a Maddie. Até eu, que resisto a rumores, ouvi explicações que vão da tese de que o rapto fora o resultado das maquinações do Vaticano até outra que dizia ter a mãe, Kate, um amante que matara a criança. De início, o interesse por esta história pareceu-me mórbido. Mas a curiosidade tem raízes profundas.
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O desaparecimento de um filho é, para uma mãe, o terror supremo. Recordo um dia, no final da década de 1960, em que fui à Caparica, na companhia dos meus filhos, teria ela seis e ele cinco anos. Devia ser de semana, porque a praia estava deserta. Depois de eu ter recusado o pedido de nos metermos no comboiozinho que atravessava as praias, o meu filho, que era dado a amuos, interrompeu a caminhada. Habituada a este tipo de cenas, continuei a andar, sabendo que, mais tarde ou mais cedo, teria de «desamuar», como eu designava o momento em que seria forçado a ceder.
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A certa altura, parei no areal. Dele, não havia a mais leve sombra. Para o mar, não poderia ter ido, porque o teríamos visto passar. Corri, como louca, de um lado para o outro, até que a minha filha reparou em três barracas de lona, daquelas antigas com riscas, tendo uma delas o pano da frente para baixo. A medo, levantámos a cobertura. Dentro, armado em estátua, lá estava ele. O episódio não durara mais do que trinta minutos, mas nunca mais o esqueci. É por a história de Kate McCann ser ao mesmo tempo trágica e banal que nos toca desta forma.
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Setembro de 2007.
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O Aquecimento Global

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Por Maria Filomena Mónica
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NÃO HÁ MELHOR MANEIRA de acreditar numa teoria do que sentir os seus efeitos na pele. De cada vez que alguém me falava de aquecimento global, respondia que isso mais não era do que o substituto ideológico para quem tinha perdido a fé em Deus. Foi neste espírito que li a recente notícia de que a União Europeia, pela voz de José Sócrates, pretendia chegar, até 2012, a um acordo pós-Quioto, penalizando a emissão dos GEE (gases de efeito de estufa). Os EUA e a China não recuarão provavelmente na sua vontade de fazer o que lhes apetece. O mesmo não sucede comigo.
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Perguntar-me-ão qual a razão desta epifania. A resposta é simples: a presença de traças em casa. Há alguns meses, fui a uma entrevista na televisão, envergando uma camisola preta de que me orgulhava. Quando lá cheguei, a maquilhadora de serviço fez-me notar as dezenas de pequenos orifícios que tinham transformado aquela peça numa renda. Ao chegar a casa, verifiquei que as minhas camisolas - as melhores - tinham sido todas atacadas. Para além do desperdício, irritou-me a snobeira dos insectos, patente no facto de desprezarem o acrílico, concentrando-se na cashemira.
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De início, atribui o facto ao meu desleixo. De facto, não colocara cânfora, nem naftalina, nem sacos de lavanda nos armários. Eis que, depois de ter enchido a casa de produtos químicos, a invasão prosseguiu, pelo que tive de recorrer a uma empresa da especialidade. Mas a coisa não resultou. Estava já desesperada quando, por acaso, li um artigo em que se afirmava que, devido ao aquecimento global do planeta, as traças haviam entrado num processo de crescimento exponencial: em vez de se reproduzirem apenas uma vez por ano, fazem-no agora a triplicar. Estou portanto num dilema: ou convivo com as traças, o que é impossível, ou aqueço ainda mais o planeta com o uso do spray, o que é indesejável. Antes de me penalizar, o engº Sócrates tem de resolver o problema das traças.
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Setembro de 2007

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Um Rapaz da Província

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Por Maria Filomena Mónica
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NÃO SEI SE O ACTUAL Primeiro-Ministro está envolvido nas peripécias ligadas à construção do Freeport, mas estou ciente de três coisas: de entre os processos da Agência Portuguesa do Ambiente, a aprovação do último estudo ambiental deste empreendimento foi o mais rápido de sempre; os ingleses enviaram uma carta rogatória às autoridades portuguesas com base em que o eng. Sócrates é suspeito de ter «facilitado, pedido ou recebido» o pagamento de subornos; o eng. Cravinho, que pertence ao mesmo partido que o Primeiro-Ministro, quer saber o que terá levado um governo de gestão a tomar tal decisão, o que seria anti-constitucional.
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Só agora, ao ter-me sido pedida uma opinião, comecei a juntar as peças de um puzzle. A primeira coisa que notei, quando o Primeiro-Ministro tomou posse, foi a opacidade do seu olhar. Em parte, pensei que tal se devia ao facto de viver num limbo em que aquilo que diziam os seus documentos nem sempre ser real. Sócrates nasceu no Porto, mas os pais decidiram registá-lo em Vilar de Maçada; o seu apelido não é Sócrates, mas Carvalho Pinto de Sousa. Até aqui, só tangencialmente tem culpa e muito menos é responsável pela família materna – tio e primos – saída de uma telenovela latino-americana.
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Sócrates teve menos contacto com esta parte da família do que com a paterna. Em 1955, o pai casara com Adelaide de Carvalho Monteiro, cujos ascendentes tinham ganho algum dinheiro com a venda de volfrâmio. Devido à vida nómada do marido, os pais separaram-se, tendo este filho ficado a viver na Covilhã. O rapaz não tardou a considerar que a província era demasiado pacata. Mesmo as madrugadas em que comia chouriços assados, de pernas cruzadas no chão, o enchiam de tédio. Isto para não falar dos estudos: terminou o liceu com 13 valores.
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Em Coimbra, matriculou-se no recém-criado Instituto Superior de Engenharia de Coimbra (ISEC), por onde viria a obter, mais uma vez com nota medíocre, o grau de bacharel. Como diria: «Aos vinte e um anos, eu tinha tirado o sétimo ano, tinha estado quatro anos em Engenharia, também não queria ser muito engenheiro, mas era melhor ser engenheiro do que não ser», após o que acrescentava: «Eu esperei que a vida me surpreendesse, esperei pelo meu Sol».
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Antes, teve de assinar projectos de construção feitos por outros, com o objectivo de transformar barracões horrendos em mansões ainda mais horrendas. Ao que me dizem, trata-se de um costume nacional, o que nada explica nem desculpa, uma vez que nunca se devem assinar coisas que não são da nossa autoria. Começavam as trafulhices. Vieram outras. Embora o seu «curriculum» fosse confuso e mais confusa ainda a Universidade que lhe dera o diploma, resolveu promover-se a engenheiro.
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Na política, fez parte da geração criada em redoma dentro dos aparelhos partidários. A sua única experiência profissional era a de técnico da Câmara da Covilhã, para onde, na década de 1980, havia sido levado pelo pai. Depois, foi deputado, Secretário de Estado e Ministro do Ambiente e, a 15 de Julho de 2004, candidatou-se, com êxito, à liderança do Partido Socialista. A 12 de Março do ano seguinte, era convidado a formar governo. Por fim, o Sol alumiava-o. Até hoje. Já agora, agradeço que não pensem que tenho ilusões sobre os meus compatriotas: os que berram contra a corrupção são, por vezes, os que mais a praticam. Simplesmente, não gostam que «eles», os de cima, também o façam. Pode parecer injusto, mas é assim a vida.
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«Jornal de Negócios», de 30 de Janeiro de 2009

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A geração sanduíche

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Por Maria Filomena Mónica
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CELEBRA-SE HOJE [Set 2007] o Dia Mundial da Pessoas com Doença de Alzheimer, a enfermidade mais tenebrosa que conheço. É por saber que cada vez mais gente dela virá a sofrer que penso valer a pena reflectir sobre o assunto. Recordemos alguns factos. Há duzentos anos, morria-se entre os 30 e os 40 anos e, no caso das mulheres, muito antes, uma vez que uma percentagem elevada de grávidas não aguentava os partos. Existia um ciclo estabelecido: mortos os antecessores, os casais dedicavam-se à educação dos filhos.
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É esta situação que tem vindo a alterar-se. Actualmente, os indivíduos com cinquenta anos têm de cuidar, em simultâneo, de pais em processo de fragilidade acelerada e de adolescentes atravessando turbilhões emocionais. No caso das mulheres, a tentativa de conciliar ambas as tarefas – para não falar do trabalho - pode ser destrutiva, uma vez que o sentido do dever lhes dilacera o coração. Dado que o mundo não vai mudar, só vejo um remédio: envolver os homens, os quais, deixados a si, pretenderão sempre libertar-se de compromissos dolorosos. Finalmente, quando imersas em tragédias deste tipo, as mulheres têm de admitir que cuidar de si é legítimo: um ser emocionalmente arruinado não ajuda quem quer que seja. Ao fazê-lo, a «geração sanduíche» não está a ser egoísta, mas a tentar sobreviver.
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Eis que, no meio disto, apareceu uma comissão oficial anunciando que o governo tem como meta o prolongamento das nossas vidas. Além de constituir uma patetice – trata-se certamente de uma extrapolação das estatísticas – devo alertar o engº Sócrates para o facto de ninguém lhe ter encomendado o recado. É por saber que a Medicina moderna consegue milagres indesejáveis que já redigi um «testamento em vida». Doravante, ninguém me poderá ligar, sem o meu assentimento, a um ventilador, nem alimentar-me através de um tubo naso-gástrico. No que me diz respeito, desejo morrer em paz.
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Setembro de 2007

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Férias

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Por Maria Filomena Mónica
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SUSPEITAVA, mas não tinha a certeza. Agora, sei: ir de férias faz mal à saúde. Do que não estava consciente era de que regressar é pior. Aprendi isto em dois artigos, um deles publicado num jornal britânico e outro num português. A «síndrome dos descanso», como lhe chamam, traduz-se em resfriados, dores de cabeça, febres altas e dores musculares. Depois de ele próprio ter sido vítima, o Prof. Ad Vingerhoets, do Departamento do Psicologia da Universidade de Tilburgo, na Holanda, começou a investigar a doença, tendo reunido uma amostra de 1.800 indivíduos, após o que concluiu que 3% adoecia durante o período anual de repouso. Também a Doutora Anne MacGregor, directora da Clínica de Enxaquecas de Londres, notou que, ao cessarem o trabalho, muitos empregados adoeciam. Por seu lado, a Doutora Sarah Brewer, uma nutricionista, recordou que o remédio consistia na ingestão, antes de férias, de um compósito de vitaminas.
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Estava eu a tentar adaptar-me a esta realidade, quando, há dias, descobri que 35% da população activa sofre da «síndrome pós-férias», a qual se manifesta em mudanças de humor, insónias, ansiedade, perda de apetite, irritabilidade e vómitos. Este estudo, feito pela Sociedade Espanhola de Medicina da Família e Comunitária, concluía que a doença afectava particularmente as mulheres, as quais teriam dificuldade em regressar ao emprego, uma vez que tal facto implicava uma duplicação do trabalho, o que se não verificava no caso dos homens. Uma vez em casa, estes limitar-se-iam a berrar pelo jantar, o que é reconfortante. Interrogada sobre a matéria, uma psicóloga portuguesa, Ana Raquel Bastos declarou que, «além da regulação do ritmo biológico ao trabalho é normal que haja alguma ansiedade», tendo, no entanto, advertido que a síndrome não durava. Mesmo sem ajuda especializada, afirmou, uma ou duas semanas depois do regresso, os doentes já estavam bons. Fiquei sem saber o que fazer. Na dúvida, conclui que o melhor era não sair: nem para o emprego, nem para férias.
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Setembro de 2007

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Encurralados na Escola

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Por Maria Filomena Mónica
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EM VÉSPERAS DAS FÉRIAS GRANDES, o Ministério da Educação tende a entrar em delírio. O presente ano lectivo não foi excepção: basta pensar nas provas de aferição, em que, num teste de Português do 6º ano, os alunos foram autorizados a dar erros de ortografia. Para os pedagogos a soldo do Ministério, a maneira como os meninos se exprimem não tem, pelos vistos, qualquer importância. Habituada a dislates pedagógicos, já não me deveria escandalizar, mas tenho um feitio impossível.
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Embora há muito não trabalhe neste campo, sou doutorada em Sociologia da Educação, o que me dá alguma capacidade para espreitar por detrás das aparências. E o que nos bastidores se passa é horrendo. Sob a retórica igualitária, que pulula nestes círculos, sob os discursos dos pedagogos que dizem ser preciso valorizar os «saberes» que os alunos trazem de casa, sob a máscara de uma escola para todos, estamos a destruir o futuro das crianças mais pobres.
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Não tenham dúvidas: os alunos que mais sofrem com as experiências pedagógicas que o Ministério inventa são os que mais precisariam de que a escola funcionasse bem, porque, para eles, e só para eles, ela é o único caminho para uma vida melhor. Numa escola que minimiza a importância de se escrever (e de se pensar) bem, essa possibilidade fica-lhes vedada. Ora, a escola actual nada lhes dá. Eles pagam-lhe na mesma moeda, ou seja, deixam-na à primeira oportunidade. Não admira que, por essas cidades, encontremos bandos de jovens que, apesar de terem frequentado a escola durante seis, sete ou oito anos, não sabem ler, contar, nem escrever.
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A política educativa tem consistido num plano, certamente inconsciente mas efectivo, para impedir que os jovens que, há apenas uma geração, trabalhavam no campo e nas fábricas, possam subir na vida, entrando em competição com os filhos dos ricos. Enquanto não tivermos uma boa escola pública, a ideia de que existe uma sociedade onde vigora a igualdade de oportunidades é um mito.
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Junho de 2007

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O Saber Ocupa Lugar

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Por Maria Filomena Mónica
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DEIXEMOS DE LADO as reformas organizativas anunciadas pela Ministra da Educação e a abertura tipo choque tecnológico do ano escolar e concentremo-nos no aspecto mais importante do ensino, isto é, na sua qualidade. Atente-se nestes três factos: o anúncio de que a disciplina de Filosofia deixará de ser necessária para aceder ao Ensino Superior, a estranha mistura entre Literatura e Ciências Sociais e a provável extinção, para acesso a certos cursos, do Latim e do Grego. Sou licenciada em Filosofia, para o que, no final do Secundário, tive de me submeter a exames nestas duas línguas mortas. Por razões que não vêm ao caso, não fui boa aluna, mas sinto a falta de conhecimento destas matérias.
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Há mais de cem anos, no romance «Hard Times», Charles Dickens fazia troça de Mr. Gradgrind, para quem no mundo só havia «factos, factos, factos». Apesar de baseada numa concepção mutiladora do homem, era, e é, uma ideia popular. Mas a escola não pode ficar reduzida à formação de autómatos capazes de meter um «chip» num telemóvel. Se desejo que os estudantes aprendam Filosofia, que saibam apreciar um romance e que alguns até dominem o Latim e o Grego é por pensar que aquilo que, a partir de agora, só estará acessível a uma elite o deveria estar a todos. É verdade que, ao longo dos anos, a vida material dos portugueses melhorou, mas terá acontecido o mesmo, e na mesma extensão, à sua vida intelectual ? A resposta é negativa.
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A responsabilidade reside nos vinte e seis Ministros da Educação que, desde 1974, ocuparam a pasta. Todos, de esquerda e de direita, confundiram elitismo intelectual e exclusivismo social, o que os levou a recusar que a igualdade de oportunidades pudesse ser obtida sem que o nível de exigência do ensino baixasse. Se as disciplinas humanísticas forem extirpadas dos curricula, os nossos filhos e netos terão uma vida mais esquálida do que a nossa, porque lhe teremos dado a ilusão de que eles «sabem», sem lhes termos oferecido os instrumentos necessários à compreensão do mundo. É para isto que serve a Filosofia.
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Junho de 2007

Férias da Pátria

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Por Maria Filomena Mónica
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NO PAÍS QUE ME COUBE EM SORTE, os velhos são tristes, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; os serviços públicos funcionam mal, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; as escolas estão degradadas, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; os transportes são maus, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; as ruas têm buracos, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; os canais de televisão são um estendal de imbecilidades, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; os políticos são medíocres, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; as praias estão poluídas, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; as casas estão arruinadas, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; nas bibliotecas públicas, os livros caem de podres, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; as câmaras são focos de corrupção, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria.
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Quem me leu até aqui deve ter-se apercebido que qualquer coisa não estava a funcionar bem na minha cabeça. De facto, assim era. Na noite consagrada à redacção deste artigo, um amigo oferecera-me uma garrafa, ostentando a marca «Nonino», contendo um líquido transparente que, na minha ingenuidade, pensei ser água. Afinal, era uma coisa a que, em Itália, chamam «grappa», uma bebida de elevado teor alcoólico. Uma vez que era aprazível, enquanto escrevia o que acima podem ler, fui bebericando aquilo. No dia seguinte, o Dia da Pátria, a ressaca desaparecera e, com ela, o ardor nacionalista, substituído agora pelo meu usual pessimismo. Mais uma vez, dei comigo a recitar os versos do Alexandre O´Neill: «Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui,/ na terra onde nasceste e eu nasci?». Chegara o momento, conclui, para tirar férias da Pátria.
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Junho de 2007