Mostrar mensagens com a etiqueta MJR. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta MJR. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 24 de julho de 2009

É tempo de rapar tachos

.
Por Manuel João Ramos



O DISCURSO POLÍTICO É UM CAMPO de metáforas constantes, nem todas de grande “elevação” ou “profundidade”. Uma das mais usadas em tempos recentes provêm da actividade financeira: fala-se de “descrédito” das propostas políticas e de “descredibilização” da classe política, para qualificar discursos em crise de sentido e posturas eticamente questionáveis.

Usam-se também metáforas biológicas, como a “morte” das ideologias ou o “insuflar vida” na política, para identificar a perda de objectivos utópicos colectivos que resultou do fim da guerra fria, e o actual estado de descrença nas ilusões de futuros risonhos.


Simultâneo ao “esgotamento” do sentido que atinge as propostas e programas partidários (uma metáfora a um tempo financeira e ecológica), desponta uma nova prática política – e um novo campo metafórico – que ganha especial incidência em períodos eleitorais: trata-se de “rapar o fundo do tacho”, “deitar mão” e “lançar a rede” às causas cívicas de modo a atrair votantes cada vez mais recalcitrantes.

Esta prática que nasceu em Portugal com a cooptação de sindicalistas ainda nos anos 70, estendeu-se posteriormente a “personalidades independentes”, em particular a docentes universitários, e chegou enfim aos “representantes da sociedade civil”, geralmente figuras de movimentos associativos e mandatários de anseios e insatisfações de temáticas sociais ou ambientais específicas.

Assistimos este Verão, com um olho na temperatura das águas balneares, na preparação do próximo Outono eleitoral, a um frenético “rapar o fundo do tacho” por parte dos organizadores de candidaturas – sobretudo autárquicas.
Vários universitários deixam agora o governo rejubilando-se porque, recorrendo a uma esconsa lei sobre “desempenho de cargos de interesse nacional”, se aprestam a pedir a subida de categoria no regresso às suas escolas (são os cadedráticos cangurus, que saltam sobre os colegas sem terem de provar competência para aceder aos novos cargos).

Outros estarão certamente a preparar o “salto” para a política (será uma metáfora de raiz desportiva ou contrabandista?). Vários associativos cedem à tentação melíflua de “marcar a agenda política” aceitando lugares fracamente elegíveis em listas autárquicas, enquanto outros “lambem as feridas” de tentações passadas.


Face a este “quadro” (uma metáfora artística), e não confiando que os guardiães das mesas de voto respeitem a brancura do meu boletim de voto sem se tentarem a marcar nele uma sorrateira cruz, desde já declaro que vou votar NULO (e, porque uma imagem vale mais que mil metáforas, vou tirar uma fotografia ao boletim com o meu telemóvel, ainda dentro da cabina de voto).

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Será a Minha Heterossexualidade uma Tara?

.
Por Manuel João Ramos


CONFISSÕES DE UM HETEROSSEXUAL

Monólogo do espectáculo O Ano do Pénis, lido por João Grosso
(ILGA Portugal, 1998)
.
Tive uma infância perfeitamente normal. A minha mãe, que é lésbica como qualquer boa mãe, era evidentemente uma figura dominadora - não tanto, claro, como a sua amante. Vestiu-me, até muito tarde, com roupas de menina, e cultivou em mim o ar de jovem "Morte em Veneza". Ainda hoje me chama, com toda a naturalidade fufa, a sua Mariquinhas. Para mais, não fosse tal legado suficiente para fazer frutificar uma normal ambiguidade sexual, o meu pai, que é gay como qualquer bom pai, esteve quase sempre ausente - com o seu namorado -; um must para obviar a uma excessiva identificação ao modelo masculino.
.
De acordo com todas as normais e naturais expectativas, eu deveria ser gay. Como toda a gente.
..
Mas não sou. Devo, quero, tenho de confessar: sou heterossexual. Assumido. Acho mesmo que sempre fui. Quero dizer, que nasci assim - hetero. As minhas mães nunca mo perdoaram, mas a verdade é que nunca me senti confortável em roupas femininas e longos caracóis alourados com infusões de camomila. Também os meus pais estranhavam que, desde os tempos do desabrochar normal da puberdade, eu não vislumbrasse o que fazer com as pilas que homens e rapazes me punham na mão ou na boca. Além do mais, caso dramático numa liberal família gay e lésbica, desde cedo revelei sentir-me atraído por mamas e vaginas - excepção feita às da minha mãe e da sua amante. Foi, por isso, um verdadeiro choque para os meus pais, e para as minhas mães, o dia em que lhes revelei a minha primeira experiência com uma mulher. Se tinha gostado? Claro que gostei. Sim, quero mais, mais do mesmo. Desmaios, gritos, lágrimas sentidas.
.
Muitas vezes penso se não haverá um gene responsável pela heterossexualidade. Uma espécie de mutação cromossómica que leva certos indivíduos, aparentemente normais, a sentirem-se constantemente atraídos pelo outro sexo. Sei bem que o simples facto de colocar esta dúvida parece legitimar o ostracismo obscurantista de toda a gente "gay" em relação aos hetero. A verdade é que não encontro outra explicação para a minha resistência involuntária à boa educação que tive. Porque não posso sequer conceber que os meus pais, e as minhas mães, tenham falhado - de todo. À parte a minha heterossexualidade, que eles e elas sempre olharam com um misto de suspeição e tristeza, conseguiram com êxito inculcar em mim os grandes valores da boa cultura gay-lésbica. Como toda a gente, adoro ópera e a Tereza Berganza, li Mishima e Yorcenar na idade certa, Mapplethorpe era amigo de um tio meu. Sou sibilino, frio e cruel como uma fufa despeitada; ácido, cáustico e requintado como um homo passivo; impetuoso e de espírito aberto como um bissexual; complexo e reservado como um transexual.
.
Será a minha heterossexualidade uma tara? Uma monstruosidade? Admito que, por natural influência maternal e paternal, durante muitos anos senti vergonha de mim mesmo, das preferências que eu próprio via como perversas e pouco naturais. Mas não conseguia deixar de gostar de mulheres, de me excitar ao ver e agarrar as suas mamas e vaginas. Perguntava-me se não seria um problema hormonal, algo que se resolvia com uma simples mudança de sexo. Se gostava de mulheres deveria ser porque, no fundo, eu próprio me sentia ou devia ser uma mulher. Tempos houve em que me rapei, que fiz implantes e devorei hormanas X. Mas a verdade é que não fui nunca capaz de dar o golpe decisivo. Porque, ligado ao desejo e atracção pelo corpo feminino, estava uma vontade irreprimível de o penetrar - e tinha de ter com quê. A vergonha, a culpa, a sensação de conspurcação e transgressão, sem dúvida fruto da minha educação "gay" e lésbica, nunca foram suficientes para refrear tais tendências.
.
A pouco e pouco, graças às mulheres com quem dormia, vim a ter conhecimento de que havia outros como eu. Ao mesmo tempo, também eu passava palavra e informava as minhas companheiras de que não eram as únicas, de que havia outras que partilhavam o seu heterogosto. Percebi então que a questão da normalidade - da norma - homossexual, bem como as tentativas de resposta avançadas por geneticistas, psiquiatras e juristas para explicar o desvio hetero, não tinham qualquer relevância. O importante, vim a descobri-lo, é que um heterossexual se possa sentir bem com o seu desvio, e poder partilhá-lo com as suas semelhantes. Uma progressiva consciencialização de que é possível uma normalidade heterossexual alternativa acabou mesmo sendo complementada pela descoberta de que a heterossexualidade pode ser algo mais que uma tendência sexual. De que há mesmo, ainda que subterrânea e acossada, uma verdadeira cultura e uma comunidade hetero.
.
Sei que o que vou dizer pode parecer, a toda a gente normalmente gay ou lésbica, inverosímil ou até absurdo. Mas creio firmemente que é necessário ter uma sensibilidade especial para poder apreciar verdadeiramente as obras e realizações de personalidades hetero, assumidas ou não. Tal como quem não é normalmente gay ou lésbica não compreende muito do que Platão, Rousseau ou Gadamer escrevem, ou do profundo sentido da mensagem do Novo Testamento, também só um verdadeiro e assumido hetero capta completamente as subtilezas de Stendhal, as formas de Rubens, ou as ideias de Madonna.
.
Mas não nos iludamos! O e A heterossexual são ainda hoje objecto de uma nem sempre frontal discriminação. O par hetero é visto como instável e pouco vocacionado para a procriação e educação infantil. A desconfiança em relação às virtualidades do casamento não homossexual, polígamo ou incestuoso continua sendo um forte preconceito que condiciona a plena aceitação dos casais hetero no mainstream homo.
.
NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Mortalidade Rodoviária: A Magia dos Números

Por Manuel João Ramos
.

COMUNICADO DA ACA-M

LISBOA, 2006:

A 27 de Abril, uma menina de nove anos foi atropelada por um taxista quando atravessava a Av. de Ceuta. Foi projectada contra um pilarete e teve morte imediata.

A 12 de Novembro, um casal arrumava a bagageira do seu carro na Rua Cidade da Beira, Olivais Sul, quando um veículo comercial os atingiu mortalmente, perante os olhares das suas duas filhas, que escaparam sem ferimentos.

Um e outro caso foram amplamente noticiados pela comunicação social.

O atropelamento da vítima da Av. Ceuta não surge, até hoje, na Base de Dados da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR). Por seu lado, as duas vítimas dos Olivais só foram incluídas nesta Base de Dados em 2008. Nenhuma destas três vítimas da estrada foi, portanto, contabilizada nas estatísticas referentes ao ano de 2006.

Estas omissões não têm nada que ver com o problema grave que é a não inclusão nas estatísticas oficiais das vítimas da estrada que não morrem imediatamente ou nas primeiras 24 horas, vindo a falecer posteriormente em consequência dos ferimentos recebidos.

Não têm também nada que ver com as variadas situações em que vítimas mortais surgem nas estatísticas como feridos graves porque os socorristas não estão habilitados a fazer declarações de óbito, porque os hospitais não estão obrigados a informar as polícias ou a ANSR, e porque os agentes policiais não vão aos hospitais verificar o óbito após a retirada do corpo após o acidente de viação.

Os casos relatados são exemplos – gritantes porque muito mediatizados, e misteriosos porque nunca explicados ao público – de filtragens, por parte da ANSR (e da sua antecessora, a DGV) das bases de dados policiais.

Temos portanto três tipos de omissão nas estatísticas da mortalidade rodoviária: 1) decorrentes da não contabilização dos mortos a trinta dias, ao contrário do que acontece no resto da Europa; 2) não verificação de óbitos por ausência de médico no local e por não confirmação posterior; 3) falta de confronto, ou confronto tardio, entre diferentes bases de dados.

Quando recebeu em 2008 o Prémio europeu de segurança rodoviária, o governo português tinha pleno conhecimento de que os números que tem apresentado ao país e ao mundo são errados. Aceitou ilegitimamente o prémio porque privilegia a propaganda do anúncio da redução contínua da sinistralidade rodoviária ao confronto com a realidade.

Segundo o Instituto de Medicina Legal, o número de vítimas mortais da estrada é 40% superior às estatísticas apresentadas pelo governo. O não reconhecimento público deste morticínio só aproveita ao MAI, que assim não tem de se maçar a resolvê-lo. Os custos, esses, são pagos pelas famílias das vítimas e por todos nós, contribuintes e concidadãos.

O Governo prometeu que iria passar a contabilizar as vítimas mortais em 2010. Esperemos que sim. Entretanto, não devemos esquecer o seguinte:

Em 2001, o governo português, em vez de começar a fazer nessa altura o registo das vítimas a trinta dias, optou por alterar a forma de cálculo da taxa de agravamento para efeitos de comparação pelo Eurostat, reduzindo, através desta manobra de secretaria, o número calculado destas vítimas para metade (de 1.30 para 1.14). Mas a melhoria do socorro às vítimas da estrada tem levado a que a estabilização dos feridos muito graves prolongue os seus sinais vitais para além da chegada ao hospital, fazendo que o número de vítimas a trinta dias tenha aumentado em vez de diminuir:

- segundo o Instituto de Medicina Legal, estas representam 1.40 a nível nacional;

- segundo a Brigada de Investigação Criminal da PSP, estas representam 1.70 em Lisboa (compreende-se: o socorro é, claro, mais eficiente na capital do que em muitas zonas do país).

Prova, afinal, que não é boa ideia brincar à magia com os números da sinistralidade rodoviária.

.

NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O Fim do casamento

.
.
Por Manuel João Ramos
.
I married myself
I'm very happy together

This time it's gonna last

(Sparks)
.
COMEÇO POR ESCLARECER que não sou católico, e que a minha profissão – a antropologia - é provavelmente aquela que mais estimula a compreensão das diferenças culturais e a adopção de posturas relativistas. E também esclareço que este esclarecimento não merece ser entendido como um refinamento da frase “Alguns dos meus melhores amigos até são gays, mas...”.
A minha apreensão em relação a toda a polémica em torno do chamado “casamento gay” deriva sobretudo do facto de parecer haver uma conspiração de silêncio colectiva em relação ao princípio da universalidade, basilar em qualquer edifício legislativo, que recomenda que se legisle o interesse particular em conformidade com o interesse geral e com outros interesses particulares.
.
Há treze anos, o ensaísta Charles Krauthammer escreveu um interessante artigo na revista Time, onde considerava juridicamente indefensável discriminar positivamente a união homossexual no momento de alargar as fronteiras conceptuais do casamento. Isto porque, lembrava ele, a consequência lógica da extensão do âmbito legal de forma a abarcar os interesses de casais homossexuais, em nome do direito à não discriminação de opções individuais ou culturais, em sociedades “multi” ou “pós” culturais, deveria ser a abolição dos princípios de monogamia e de proibição de incesto.
.
Dito de outro modo, ao pormos em causa a concepção de que o casamento tradicional ocidental é uma união entre duas pessoas de sexo oposto sem laços familiares próximos, em nome do reconhecimento de direitos particulares, estaremos a discriminar arbitrariamente entre uniões homossexuais e uniões polígamas e incestuosas.
.
Mais recentemente, Krauthammer escreveu outro artigo no Washington Post, desta vez a propósito das actuais polémicas envolvendo as pretensões de legalização da poligamia nos Estados Unidos. Aí, afirma que o surgimento destas novas fórmulas de casamento são o sintoma, e não a causa, do esboroar do matrimónio tradicional perante a prevalência de ideologias individualistas radicais.
.
Seguindo esta linha de raciocínio, aquilo que os legisladores, opinadores e políticos portugueses deveriam actualmente estar discutir não é a legitimidade do casamento gay mas sim se este deve ser autorizado sem legalizar também a união incestuosa entre parentes de primeiro grau e a união poligâmica (ou melhor, poliamorosa). A razão é a seguinte, e foi sublinhada por Krauthammer: a justificação mais geralmente aceite para a primeira proibição é a eventualidade de dele resultar uma prole geneticamente anómala. Já a premissa monogâmica assenta numa justificação cultural e não biológica: a poligamia não só carece de fundamento normativo no mundo ocidental por não ser suportada por preceitos religiosos, ao contrário da lei islâmica, mas exprime uma assimetria estatutária entre homens e mulheres, inadmissível no direito ocidental. Assim, preceitos e crenças religiosas à parte, os defensores do casamento gay deverão, por maioria de razão e em nome do princípio de universalidade do direito, defender toda a união incestuosa de que não resulte uma prole geneticamente enfraquecida e toda a união poliamorosa que não promova assimetria entre sexos.
.
A legalização do casamento gay implica contestar o princípio do casamento tradicional, definido como uma união entre dois indivíduos de sexos opostos e sem laços consanguíneos. Então, a lei resultante não deverá distinguir entre o direito de dois indivíduos do mesmo sexo, não aparentados entre si, a casar e adoptar filhos, e o direito de três indivíduos consanguíneos e do mesmo sexo à união matrimonial e à adopção. Dito de outro modo, será lógica e juridicamente inadmissível a legalização do casamento homossexual, caso se recuse o seu corolário mais extremo – nomeadamente, o casamento homossexual incestuoso poligâmico.
.
Se colocamos em causa um dos critérios definidores da noção de casamento (o facto de ser uma união entre sexos opostos), então que justificação lógica e jurídica haverá para não descartarmos todos os outros (nomeadamente, o facto de ser uma união restrita a dois indivíduos não consanguíneos)?
.
O mais curioso, e diríamos paradoxal, em toda esta polémica é a insistência com que as ideologias individualistas radicais, subjacentes ao casamento gay, se afirmam como bandeiras da esquerda, e não da direita.
-
NOTA: Este post é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

O Peão e a Cidade

Por Manuel João Ramos

CONVITE aos leitores do Sorumbático:

Colóquio Internacional: The Walker and the City - O Peão e a Cidade

Dia 12 de Novembro das 9.45h às 18.00h.

Goethe-Institut Portugal
Campo dos Mártires da Pátria, 37
1169-016 Lisboa

Organizado pela ACA-M, Mestrado em Risco, Trauma e Sociedade - ISCTE, PQN-COST Action 358 e Fundação Friedrich Ebert

Inscrições: Fundação Friedrich Ebert, Tel. 213573375, Fax 213573422, mail: info@feslisbon.org

Mais informações e programa AQUI

Apresentação:

O encontro fortuito entre cidadãos anónimos é a pedra de toque da vida urbana. Os espaços exteriores de atracção de gente são o garante da interacção entre gerações, classes sociais e comunidades, e de construção da "coisa pública". Por toda a Europa, as preocupações ambientais e energéticas, associadas a novas exigências de qualidade na vivência urbana, têm contudo promovido visíveis alterações nos paradigmas ideológicos que balizam o discurso e a prática da gestão urbana.

O presente Colóquio procura reflectir, numa perspectiva comparada e a nível europeu, sobre essa categoria funcional da mobilidade urbana, tão ubíqua e estigmatizada que é o "peão". Para tal, foram convocados especialistas europeus de reconhecido mérito em áreas tão diversas como a engenharia de transportes, o urbanismo e as ciências sociais.

No contexto deste Colóquio Internacional, é também promovida uma Mesa Redonda juntando investigadores e organizações da sociedade civil portuguesa, onde se procurará fazer uma avaliação da situação da pedonalidade em Portugal.

No final do Colóquio será lançado o livro de Aymeric Bôle-Richard, Pedonalidade no Largo do Rato: Micro-poderes. Uma edição ACA-M.
-
Este texto é uma extensão do publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Os Fim dos Dinossauros

.
.
Por Manuel João Ramos*
.
QUE O PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA tenha sido eleito por um em cada nove lisboetas não é normal. Que o seu grupo de vereadores tenha poder de planear e gerir projectos tão estruturais como a terceira travessia do Tejo, a frente ribeirinha, urbanizações e reabilitações de vastas áreas do território da cidade é quase um golpe de estado.
.
É urgente que um ciclone varra a classe política instalada, que uma tempestade curte-circuite o espectro partidário, que uma onda gigante leve os maçons para França, os opus dei para Itália, o compadrio para a Sicília e as cunhas para Espanha (cuña = berma).
.
A população portuguesa está-se nas tintas para o socialismo, borrifa-se para a social-democracia, marimba-se para a democracia cristã, considera o comunismo uma anedota, e o bloquismo de esquerda uma espécie de loja do canhoto.
.
Ninguém, a não ser os clientes da partidocracia em que se tornou a cangalhada herdada da revolução de 1974, se revê sinceramente no sistema político montado, em que a ordem é produzida em Bruxelas, o sustento é assegurado por grupos financeiros e a mira da felicidade é acaparada pela peste do futebol. O resultado confrangedor deste estado de coisas da res publica lusitana é um intransponível abismo cavado entre eleitores e eleitos, que se espelha na quase total ausência de participação cívica na vida política, e no desamor colectivo pelos conceitos de comunidade e de civilidade.
.
Lisboa é um caso agudo desta derrocada cultural. Em grande parte tal é devido à existência de um mastodonte político-administrativo chamado CML.
.
A CML deveria ser, pura e simplesmente, suprimida e em seu lugar deveriam ser criadas dez câmaras que pudessem gerir eficazmente os vários núcleos urbanos que compõem a cidade. Estas câmaras, com as dos concelhos limítrofes, deveriam compor um conselho municipal com funções de gestão e planificação estratégica, que absorvessem funções da CCDR e do governo civil. A miríade de freguesias deveria ser destituída segundo o princípio de que uma junta de freguesia urbana não deveria administrar uma população menor que 5.000 e maior que 20.000 habitantes. A Assembleia Municipal deveria ser correspondentemente reformada de modo a funcionar como parlamento regional.
.
Seria mais lógico que os munícipes votassem em agrupamentos cívico-partidários que representassem e defendessem interesses específicos à freguesia, ao núcleo urbano, à cidade e à região.
.
Depois de tal terramoto, justificar-se-ia a criação de um museu dedicado à evocação da memória dos tempos jurássicos da democracia portuguesa. Seria o local indicado para contemplar as foices, martelos, setas, punhos e flores, bolas e estrelas partidárias.
-
* Cidadão de e por Lisboa
-
NOTA: Este post é apenas uma extensão do existente no Sorumbático [v. aqui], onde os eventuais comentários deverão ser afixados.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

GERTRUDE, o médico e o monstro

.
Por Manuel João Ramos
.

Gertrude em Bordéus
.
POUCOS PORTUGUESES SABEM o que é o GERTRUDE. E menos ainda sabem como funciona e para que serve.
.
Em breves palavras: o GERTRUDE é um sistema de controlo centralizado de gestão do trânsito, implantado na cidade de Lisboa há cerca de vinte anos. É basicamente um software que gere o sistema de semáforos do centro da cidade e gere os fluxos automóveis, através de sensores implantados no pavimento ligados a uma estação central de controlo viário. Foi concebido por uma empresa de Bordéus, e tem sido gerido em parceria pelo departamento de tráfego da CML e pela EISA-TESIS, uma firma portuguesa que detém o monopólio da semaforização de Lisboa (por sinal, a mesma que implantou o sistema de radares fixos da cidade).
.
O GERTRUDE tem sido criticado por contribuir para o estado geral de caos do trânsito da cidade, e para o ambiente de insegurança rodoviária que resulta de uma circulação automóvel feita em velocidade excessiva.
.
O que quase ninguém sabe é que: 1) o sistema é flexível, 2) o seu afinamento actual não é imputável à empresa francesa, mas resulta de directivas políticas assentes numa visão arcaica da mobilidade urbana, e 3) a empresa tem, desde há vários anos, insistido em convidar – sem qualquer sucesso até hoje - os sucessivos presidentes da CML e seus vereadores do trânsito, bem como as administrações da Carris, a visitar Bordéus, para que uns e outros possam perceber como o sistema pode funcionar com outro tipo de directivas.
.
Bordéus é uma cidade média francesa cujo município, como muitas outras autarquias europeias, apostou na redução drástica do acesso do automóvel privado às zonas centrais da malha urbana. Fê-lo criando parques de estacionamento na periferia, introduzindo linhas de eléctrico que, como um metro de superfície, ocupam o espaço antes cedido ao automóvel nas principais vias da cidade, e alterando o afinamento do GERTRUDE de modo a dar total prioridade ao transporte colectivo (eléctrico e autocarros) e ao trânsito de peões e bicicletas, em detrimento do transporte automóvel privado.
.
O resultado foi o aumento exponencial da qualidade de vida na cidade, uma profunda requalificação urbanística, uma economia de transportes muito mais sustentável, e uma impressionante diminuição da poluição atmosférica e acústica.
.
Eu decidi fazer aquilo que nenhum vereador do trânsito da CML e nenhum administrador da Carris alguma vez fez: fui a Bordéus avaliar o sucesso do sistema.
.
E regressei impressionado e profundamente desanimado. É que, apesar de Bordéus partilhar com Lisboa o software GERTRUDE, o nosso problema não é de natureza técnica, mas política. Por isso, o paraíso de mobilidade urbana que é Bordéus não é transplantável para Lisboa – não porque o afinamento do GERTRUDE não possa produzir os mesmos resultados nas duas cidades, mas porque o provincianismo e falta de visão dos nossos políticos municipais irá continuar a impedir a mais que urgente modificação do sistema de gestão de trânsito cá implantado.
.
Ao mesmo tempo que Lisboa se endividava para construir vias rápidas e túneis que garantem a invasão diária de mais de meio milhão de veículos à cidade, Bordéus colocava linhas de eléctrico protegidas por muretes que bloqueiam quase completamente o acesso dos automóveis ao centro urbano.
.
Não estou certo que a recusa dos autarcas e transportadores lisboetas em aceitar o convite da empresa GERTRUDE para visitar Bordéus se deva a problemas de ordem financeira. Mas, para que esse pretexto não seja publicamente invocado, desde já me ofereço para participar na compra de um bilhete de avião Lisboa-Bordéus, à especial atenção do presidente da CML.
.
NOTA: Este post é uma extensão do que foi afixado no Sorumbático, pelo que eventuais comentários devem ser lá afixados [v. aqui].

sábado, 6 de setembro de 2008

Dez meses que não mudaram Lisboa

Por Manuel João Ramos

DADAS AS CIRCUNSTÂNCIAS, tentei fazer o melhor que pude. Durante dez meses, apresentei diligentemente propostas e requerimentos, li dossiês, alvitrei aqui e ali, votei de modo a ter o menor peso possível na consciência. Recusei o carro com motorista acoplado, mantive-me afastado de recepções, festas e cerimónias, não vesti o típico fato e gravata negros, e não reuni uma vez sequer com banqueiros, empreiteiros ou sindicalistas. Durante dez meses, senti o serpentear dos infecciosos mecanismos de desresponsabilização colectiva que fazem a rotina diária da mais disfuncional, mastodôntica e inimputável autarquia do país.

Excepto num ou noutro caso, restringi o meu contributo propositivo aos problemas de mobilidade e segurança viária da cidade. Perorei o menos possível, numa vã tentativa de evitar que as reuniões do executivo camarário se prolongassem para além das dez horas. E nunca deixei de anotar e desenhar em caderno próprio a viagem que fiz à volta do mundo da administração local lisboeta em 304 dias.

Em todo este tempo, correndo das aulas para as reuniões camarárias, e destas para casa, volta-não-volta às duas horas da madrugada, uma pergunta perseguiu-me continuamente: “O que estou eu a fazer aqui?”.

A interrogação faz o título do derradeiro livro do viajante-escritor Bruce Chatwin. É uma pergunta comum a todo o antropólogo que se aventura em cantos perdidos do mundo onde os usos, os costumes e as maneiras de pensar lhe surgem como profundamente diferentes dos seus. É portanto uma dúvida que eu era já suposto conhecer como chavão existencial.

A primeira vez que ela aflorou o meu espírito foi logo na tarde do dia um de Agosto de 2007, durante o interminável ritual do beija-mão que se seguiu à tomada de posse dos vereadores da autarquia lisboeta. Ao ver e ao sentir a minha mão direita apertada pela do presidente de conselho de administração de um dos maiores grupos financeiros portugueses, senti um calafrio. É que logo naquele momento a pergunta “O que estou eu a fazer aqui?” ganhou uma coloração bem mais chã que a da mera dúvida existencial, porque se lhe associou inevitavelmente uma outra: “O que está ele a fazer aqui?”. “Ele” era um banqueiro português que não considerou ser tempo perdido despender uma tarde abafada de Agosto marcando presença na longuíssima tomada de posse de um executivo camarário de curta duração.

Nunca mais voltei a cruzar-me com o banqueiro, nos 10 meses em que estive vereador da CML, mas a sua sombra pessoal e institucional nunca deixou de pairar sobre o executivo camarário. Era uma sombra crua que me dizia em surdina “Que estás tu a querer fazer? Quem manda aqui sou eu”.

Ao fim de dez meses, conformei-me: de facto, não estava ali a fazer nada.

-

NOTA: Eventuais comentários a esta crónica deverão ser afixados no Sorumbático, e não aqui