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domingo, 10 de maio de 2009

As convicções no baloiço

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Por Nuno Brederode Santos
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AO AVANÇARMOS NA VERTIGEM pré-eleitoral, acentuam-se as confusões de ideias e as habilidades verbais, os truques para os media verem, as tentações populistas, a manipulação da rua, os ataques pessoais e as excepcionalidades administrativas de curtíssimo prazo. Mantenho que nada disto seria importante se às crianças de hoje só viesse a chegar, como no futebol, o resultado histórico final. Mas como é muito duvidoso que o resultado final seja assim tão histórico, o mais certo é que, na pedra, só fique gravado o anedotário e aquela atitude impensada ou a palavrinha traiçoeira que, no calor de um debate ou no destempero de uma pose para a televisão, o actor político (ou económico ou social) deixa escapar para a eternidade possível. Como o - esse sim, histórico – voo sem rede de um deputado que se preocupava com relações sexuais sem intuitos de procriação e que Natália Correia estatelou a tiros tribunícios, com o famoso e poético “truca-truca”.
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Os últimos dias trouxeram disto exemplos vários. Como, de resto, sempre trazem. Eu pego neste. Porque gosto.
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Todos os partidos – numa unanimidade que um voto contra, uma abstenção e (creio que) três declarações de voto, por muito que honrem, não desmentem – votaram a nova versão da lei sobre o seu financiamento. Dos mais temperados pelo exercício do poder aos mais remetidos ao apostolado moralista por insuficiência de votos. Por boas e más razões, todos eles despertaram com isso hostilidades e dúvidas, não sei se generalizadas, mas, pelo menos, excessivas. Pela parte que me toca, mantenho as reservas que manifestei aquando da primeira versão: mesmo que não fosse a altura de acentuar a componente pública sobre a privada nesse financiamento, não se deveria ter aberto a porta a um retrocesso. E haverá retrocesso desde que, como é inteiramente previsível, for impossível uma fiscalização convincente e eficaz. Mas a minha posição é inteiramente irrelevante para o caso. Ao contrário do que parece ser um recuo do PSD. Dias depois da votação, ainda tão fresca – e após Paulo Rangel ter dado a cara pela decisão do parlamento e do seu partido – já Manuela Ferreira Leite recuava na colagem que fez às palavras de Cavaco e sugeria que o PSD pode mudar de posição (se vierem a surgir “efeitos perversos”, é claro). A gente sabe que toda a legislação é testada através da sua aplicação (que é o seu cotejo com o real). Mas sabe também que isso abre para a possibilidade de tal avaliação ser feita após as eleições que se perfilam, remetendo assim a apreciação final para depois delas. Por outro lado, sublinhá-lo em cima da decisão e aos primeiros embates com a hostilidade e a descrença só contribui para a insegurança do direito, o que não honra quem tanto diz preocupar-se com a ineficácia do nosso sistema de justiça. O “vamos a ver se a lei pega”, que os brasileiros reivindicam para si, é um dos maiores contributos para que a justiça não funcione. Mas a lógica eleiçoeira e populista de, em período eleitoral, tergiversar ao sopro das vozes inorgânicas é isso e mais qualquer coisa de pior. Além de que se baseia num preconceito infantilizador do eleitorado que ainda não deu grandes provas. (Declaração de interesses: cá por mim, ainda bem. Em coincidência, se não de alma, pelo menos de circunstância, com Rui Rio e Marques Mendes, mais uma listagem onomástica que não tenho aqui à mão).
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O que vale é que o cidadão eleitor já sabe. Destas e de tantas outras tropelias da razão e da vontade. E julgo que já escolhe o que mais lhe apraz para a quadra festiva que aí vem. Pode sofrer e arrancar os cabelos agarrado à televisão. Pode ser displicente e aliviar a paixão e a atenção na leitura diária dos jornais. E pode preferir recolher a um “bunker” da consciência, ajustando o despertador para as 17 horas do dia sete de Junho. Aí, levanta-se, lava-se, sai de casa e vai votar. Como responsavelmente lho mandarem a convicção, a experiência, os interesses e a livre vontade. Porque é exactamente a essa hora que ninguém pode impedi-lo de ser o dono do mundo. Do mundo que mais lhe importa, pelo menos.

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«DN» de 10 de Maio de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

domingo, 3 de maio de 2009

Terra de quem?

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Por Nuno Brederode Santos
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CONHECI-LHE O VIÇO,
o rubor natural e as formas generosas. Não de ser moça, pois bem mais moço era eu. Mas por respirar segurança, convicção, civilidade. Agora, que tão raramente a vejo, está magrinha. Parece que o mundo exterior a aperta e lhe traça, rente à pele, uma fronteira intransponível. Um mundo exterior povoado, não só por políticos, mas por todo o tipo de agentes de intervenção política. Um mundo que, dia após dia, a vai comprimindo mais. É a tolerância, mãe e filha de uma revolução que se fez libertadora e que tantos intolerantes acabam de celebrar. Uma criatura cultural e cívica que se conforma e vai minguando, a cada proclamação veemente de que o acto e a palavra do outro nos são “intoleráveis”. Não receio que se extinga. Desde logo, porque um dos seus mais firmes redutos defensivos está no próprio intolerante, que tem de a usar – e sempre a usa com largueza – para consigo mesmo. Depois, porque na intolerância habita o medo e a impotência: só não tolera quem não consegue impedir. Enfim, porque nem a pior tirania conseguiu a proeza de mergulhar tão fundo na alma de todos os homens. Mas, pese embora a tudo isto, é também certo que se vai tornando difícil aos que a prezam virem a merecer o epitáfio: “viveu entre intolerantes e nem assim conheceu o intolerável”. Porque a última legítima defesa da tolerância continua a residir em não tolerar a intolerância.
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Uma delegação partidária desloca-se ao local da cidade onde se encontra a direcção da maior central sindical portuguesa, no cumprimento da prática recorrente de apresentação de cumprimentos. Consumado o propósito, o seu responsável é atacado, verbal e fisicamente, por alguns manifestantes. O que os próximos dias vão trazer é a deliberada confusão do costume. O sofrimento em que os agressores se encontram. A culpa alheia na escolha da pessoa que encabeça a representação. Os sibilinos propósitos eleitorais da mesma. Etc. Tudo matérias em que devemos recusar liminarmente entrar. A questão é simples e simples devia ficar.
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Quem recebe, respeita. Porque responde pelo que vai na sua própria casa. Sobretudo se esta é emprestada, por se tratar de via pública da Lisboa de tantos mais. Se quem recebe não tem mão na sua própria casa, tenta prevenir eventuais desmandos (que se vão tornando habituais). Se, de todo, os não puder impedir, cabe-lhe uma reparação capaz junto dos ofendidos – representante e representado - o que necessariamente inclui a demonstração mínima de um esforço honesto para que tais factos se não possam repetir. Este dever deve ser cumprido de um modo que tranquilize a cidade, em cujo espaço comum (a via pública) a desordem ocorreu. E o país, cuja serenidade perturbou, para lhe assegurar o carácter anómalo, excepcional e irrepetível de acontecimentos similares.
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Estas obrigações são cívicas (e políticas, portanto). Das jurídicas não cuido aqui, porque para isso existem autoridades com competência específica e os media deram do facto testemunho. Para já não falar dos cidadãos que lá estavam, dos vizinhos à janela, dos imigrantes e dos turistas que passavam. O que importa aqui é não calar que os ofendidos são múltiplos e nenhum deles pode falar pelos outros. O cidadão agredido, o partido representado, a cidade cuja tranquilidade (e cujo espaço) foi perturbada, o país cujos sistema e valores foram postos em causa. E a palavra de reparação compete, antes de mais, a quem recebia e, mesmo que em espaço alheio, era o anfitrião. Porque lhe cabe assegurar as condições necessárias a que nada disto aconteça.
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É óbvio que um outro juízo popular se vai fazer (independentemente até de consequências, tão circunstanciais quanto incertas, nas urnas de um próximo voto – que é onde sempre reside o último juízo político). Pela notória razão de que vem sendo feito, à medida que tão desbragados “precedentes” se acumulam. E esse abraçará o círculo maior da ocorrência, pois levará todos e cada um a reflectirem sobre se querem uma cidade e um país onde possa campear o que politica, cultural e socialmente já tantas vezes recusámos: o incivil, o descortês e o anti-cívico.
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E, se tudo isto for piedoso, não faz mal. Também o sou quando quero.
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«DN» de 3 de Maio de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

domingo, 19 de abril de 2009

Visto, está conforme

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Por Nuno Brederode Santos
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POR MUITO DISTRAÍDO que eu andasse, era impossível deixar de reparar na sucessão, em quarenta e oito horas, do discurso de Cavaco Silva na abertura do 4.º Congresso da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE) e mais uma entrevista de Luís Filipe Menezes à SIC Notícias. Não para sugerir um nexo entre os dois factos, mas porque ambos formalizam, segundo os meus subjectivíssimos critérios, o arranque da pré-campanha das próximas eleições europeias. Não está mal: quer porque o último cabeça de lista (o do PSD) foi finalmente revelado, quer porque eu tenho sempre a original atitude de gostar muito das campanhas até ao limite fisiológico de me fartar delas.
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Vai ser curioso assistir às ondas de choque provocadas pelo discurso de Cavaco. Como sei que a notícia está no excesso, não me fiquei pelas manchetes e fui fazer uma primeira leitura do texto ao sítio da Presidência da República na "net". Como é de regra, pouco importa a substância do que lá está (o que é bem diferente de dizer que a não tem). É um conjunto de ideias sobre a crise, económica e financeira, mundial; com imputações genéricas de culpas, mais duras (e mais moralistas) para empresários e gestores e algo mais políticas para com os decisores dos países que nos são deixados facilmente adivinhar. Segue-se um "vademecum" para ambos esses grupos. Passando depois a Portugal, são equacionados "desafios" que se apresentam à nossa economia e instam-se políticos, empresários e gestores a novas atitudes e condutas, que implicam (ou sugerem) críticas à sua actuação anterior e (ou) actual. Tudo isto vem envolto numa abordagem que, sendo ideológica, é no entanto a que maior receptividade deveria obter junto dos presentes (sendo o exemplo mais berrante a alusão às políticas "que favorecem o enfraquecimento dos laços familiares"). Chamemos-lhe social-cristã. Pela televisão pudemos ver que o tom é firme, mas quem quiser chame-lhe duro. De resto, várias vezes aqui assinalei que é característico do nosso Presidente manietar-se antes de falar forte e grosso: é que depois, quando vierem reivindicar consequências, ele pode dizer com verdade que está manietado.
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Só os ainda mais distraídos do que eu é que não terão notado como, poucos dias antes, muitos "media" assinalavam a habitual não notícia: "a partir de hoje, o Presidente da República já não pode dissolver o Parlamento". Notícia é saber-se a animação que isso sempre desencadeia para os tempos seguintes.
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Mas a substância, escolhida como é para ser pacífica, importa menos do que o facto de estes discursos se sucederem quase iguais, convidando assim à busca minuciosa das pequenas diferenças. São estas que, dramatizadas ou banalizadas, suscitarão todas as atenções, moldarão as atitudes e irão até impregnar (odiosa palavra, esta) o discurso oficial dos vários agentes, políticos, económicos e sociais. Mas sobretudo - e para nossa desdita - darão azo a torrenciais manifestações de inteligência em filigrana, por parte dos treinadores de sofá que se (nos) pretendem(os) fazedores de opinião. Duríssima será também a habitual competição entre os que se insinuam como intérpretes autênticos, para já não dizer fantasmáticos autores da prosa em causa. A vida ensina, a gente aprende: vamos ser bombardeados com tempos verbais, escolhas entre sinónimos possíveis, substantivos mais usados por um partido do que por outro. E com os "não é por acaso" de uma fé intangível, que não poderemos combater. A generalidade ou a abstracção de uma frase será o volúvel corcel de quem quiser montá-la. O governo explicará que não é com ele e, perante um caso ou outro mais difícil, dirá que a crítica é para quem empata a governação. As oposições proclamarão exactamente o contrário: que tudo é contra o governo. Mas terão de travar entre si alguns duelos, abrangendo na crítica os demais: é a mim que ele dá razão. Todos parecerão acreditar no princípio segundo o qual o melhor argumento é o mais ruidoso, pelo que a gritaria que se segue terá a vantagem cultural de nos mandar a todos para o cinema.
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Menezes, um estudioso das agendas alheias, esperou e bem. Depois chegou e poisou no galho alto. Descontado um pequeno ajuste de contas, detalhado nome a nome, foi gentil. Voltou a protestar lealdade e a declarar-se pronto para a primeira linha do combate partidário. O pior vem a seguir e é sempre mais rápido do que se julga. É quando ele desce: primeiro ao galho baixo, depois ao chão. Se o aproveitarem, dá sarilho. Se o ignorarem, também. Vimos este filme mais vezes do que A Túnica. Boa noite e boa sorte.
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«DN» de 19 de Abril de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Ainda o sismo

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Por Nuno Brederode Santos
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DEBALDE SE PROCURAM NOVIDADES em tudo o que mexe à nossa volta. Por mim, suspeito sempre que as manchetes engordam na razão inversa do potencial da notícia. Talvez, por isso, o número de mortos no terramoto italiano cresça de dia para dia, mas quase sempre embrulhado (ou diluído) em questões menores. Como a de Berlusconi – que nunca foi my cup of tea – ter recusado o apoio internacional. A meu ver, fê-lo com razão (que é um contratempo que acontece até aos piores). Se um país tiver meios para acudir às situações de catástrofe com uso exclusivo dos seus próprios recursos, poupa-se a uma infinidade de problemas de coordenação no terreno (até porque o zelo assistencialista estrangeiro é muitas vezes mais “marketing” para consumo próprio do que ajuda operacional efectiva).
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Claro que a justificação de que “a Itália é um país orgulhoso, um país rico” é um desastre político que se veio juntar ao desastre natural.
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Primeiro, porque é muito pouco “afluente”: só proclamam o orgulho os deprimidos, só invocam a riqueza os que a não têm. (Mas os Estados Unidos, mesmo já com Obama, tiveram de o fazer…). Segundo, porque é perigoso: nenhum país, por mais rico, pode repor satisfatoriamente a situação anterior. Nenhum bem-estar paga as mortes; e, sendo o bicho homem o que é, haverá, em breve, reivindicações materiais para compensar as perdas afectivas. Terceiro, porque é leviano: o Estado, por muito precavido que seja, não tem ainda um levantamento seguro e concreto da extensão dos danos e dos custos, materiais e sociais, que estão associados à tragédia, pelo que convém sempre não ser tão categórico e definitivo na recusa de meios alheios. Enfim, quarto, porque é quase sempre ilusório: de transigência em transigência, o Estado só vai deter-se na reparação dos danos quando tiver ultrapassado largamente a dotação de que podia dispor para o efeito.
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O que se planeia é o cruzeiro da vida, porque os picos anómalos não são planificáveis nem orçamentáveis (sob pena, aliás, de plano e orçamento deixarem de ser, com razoabilidade estatística, instrumentos úteis). É tudo isto que faz da catástrofe natural um pesadelo para os poderes do dia e uma mina de ouro para todas as oposições: os inevitáveis descontentamentos sociais serão cavalgados, a capacidade instalada de prevenção será questionada, os dispositivos de assistência contestados e os bodes expiatórios exigidos. A fuga às responsabilidades (muitas vezes, de resto, imaginárias) será a estratégia de todos os intervenientes. Governos, regiões, câmaras e juntas de freguesia trocarão entre si a batata quente das culpas, mesmo das que não existem. Porque o Criador não as assume e a população é quem vota. Só que um erro táctico, por muito que prejudique a razão estratégica que serve, não anula o seu bom fundamento. E é contra este que muitas vozes já se ouvem.
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Também por cá convém ir pensando nisto. Com três eleições sucessivas, o muro que cai sobre a casa, o buraco em que se afunda o automóvel e o lar de idosos que vem abaixo, serão, sempre e necessariamente, objecto do jogo de passa-culpas entre os vários níveis da organização administrativa do Estado ou entre diferentes etnias ou entre partidos rivais. E em escala maior, a seca, o incêndio e a cheia ainda mais severamente exigirão um culpado, porque os povos não aceitam que o Criador possa também destruir. Nós não somos melhores. Por isso, melhor será não lançar mão, para com a Itália, de critérios que aqui – espero bem que perante dramas menores – não iremos poder manter.
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Uma nota de circunstância extraída do nosso quintal: a nova investida do Presidente da Associação Nacional de Farmácias gorou-se. “Por uma questão de bom senso”, disse o próprio com a razão que lhe falhara ao lançar-se nela, dias antes, “Fez bem em recuar”, li na imprensa. Não há como um bom eufemismo para assegurar a elegância verbal. Porque, de facto, o que ele fez foi mal em ter avançado. Infelizmente, esta é só só uma escaramuça na guerra larvar em curso, na qual todos os grupos profissionais envolvidos reivindicam as vantagens, mas enjeitam as responsabilidades.
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«DN» de 12 de Abril de 2009

domingo, 29 de março de 2009

Um dia para gente afável

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Por Nuno Brederode Santos
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ESCREVO NUM HOJE que será o ontem dos incautos que me lerem. Um hoje negregado pelo que já trouxe e inquietante por aquilo que trará. Não sei se ao mundo, ao país, à cidade ou à minha rua. Basta-me saber que a mim.
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Subi à vertical com a luz do sol. Também ela vinha em amarelo, mas esmaecido pelas pequenas hesitações do dealbar. Entreguei-me às abluções da doutrina e foi tudo quanto fiz para aguçar as capacidades mentais que já vão rombas. Nem o café redentor tomara ainda, quando saí para pôr marcos mentais no latifúndio lisboeta que guardo nas traseiras (os tais imponentes sessenta e sete metros quadrados que mais tonificam estes meus pulmões cansados do que qualquer catálogo turístico sobre a Amazónia). Mas poucos segundos de exposição ao libérrimo esplendor da natureza bastaram para reparar que vinha luz a mais do topo sudeste e logo compreender que me tinham arrancado e surripiado as glicínias (uns seres encantadores de pacífica modéstia que ali faziam uma pequena zona de sombra, no azul-lilás que o olhar aguado de Herr Fritzl acaba de tornar mal afamado).
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Há anos – já muitos, concedo – o sangue trazido às guelras ter-me-ia lançado nas aventuras de uma guerra pessoal. Teria ido várias vezes à esquadra (uma para participar; outra para depor, à hora em que o agente adequado para o efeito lá estivesse; e uma terceira para assinar o depoimento, caso não quisesse esperar pela dolorosa dactilografia monodigital do esforçado amanuense, que mais não era do que um polícia de giro sob castigo disciplinar). Anos depois, quando naquele recanto sucessivas e diferentes flores me tivessem sido roubadas e eu já nem guardasse memória das glicínias, seria chamado a depor na fase de instrução, perante gente que, vergada ao senso comum e ao excesso de trabalho, me faria perceber - e bem – como o meu zelo cidadão estava a prejudicar a justiça dos outros. Muito mais tarde, receberia enfim a explicação de que o processo contra incertos fora arquivado a guardar melhor prova.
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Hoje, já sou mais poltrão. Ou fiz recuar a fronteira do brio e da coragem. Foram-se as glicínias? Seja. Amanhã as hortênsias? Vá que não vá. Sou um país invadido que já só defende a capital: o limoeiro e as buganvílias. Aí serei uma fera, porque há sementes deles que já entraram em mim e cá ficaram. Tirarei licença de porte de arma, comprarei uma caçadeira, mandar-lhe-ei serrar os canos na rotunda do Relógio e sobretudo soltarei no jardim a fúria meridional do mini-mastim andaluz que enfrenta pardais em campo aberto. Em suma, exercerei, como cidadão, a legítima defesa da propriedade. Porque, ao contrário do que nos querem convencer, o crime contra a propriedade – não a contabilística, que preocupa os neoliberais, mas a de raiz, a da terra úbere, que comove os conservadores – é mil vezes pior e mais cobarde do que o crime contra a vida ou a integridade física. Neste, a vítima defende-se. Ou pelo menos tenta. E, se não consegue, ainda pode escolher como morrer: se na pedinchice do martírio, se na bravata do herói. No crime contra o património, não. Na propriedade, sobretudo fundiária, jaz um estar que é, todo ele, um enlevo de presença, silêncio e paz. A propriedade não se sabe defender. Não aguenta um golpe de lei, nem um golpe à margem dela. Os que a não possuem não imaginam o calvário a que estão poupados.
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Assim explicado o desencanto com que parti para a extraordinária aventura que o resto do dia devia propiciar, devo então explicar o que ele ainda trará de inquietante. É o apagão cívico. Uma hora mundial e ao que parece muito fraterna, em que se empenham sete municípios portugueses (fora os que agora se propõem voluntariamente seguir-lhes o exemplo) e o entusiasmo de alguns ambientalistas – tudo sob o entusiástico patrocínio de quatro multinacionais e a comovida vigilância da EDP e da REN. Por isso, das 20h30m às 21h30m, apagaremos as luzes: nas casas, nos escritórios, nos monumentos. Para irmanar ricos e pobres, aqueles juntam-se a estes durante sessenta minutos, no jovial sacrifício de uma auto-imposta Idade Média (o que é mais exequível e barato - mas sobretudo prudente - do que conceder uma hora de iluminação dos que a não têm).
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Diluídos no sofá, de telemóvel na mão esquerda, copo na mesa de apoio e comando na mão direita, até se pode ver (à luz de vela que o petróleo não haja poluído) um Portugal-Suécia - que Ban Kimoon e Madaíl terão certamente combinado estar subtraído às obrigações um tanto juvenis do prometido mundo verde.

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«DN» de 29 de Março de 2009

NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

domingo, 22 de março de 2009

No palco da cidade

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Por Nuno Brederode Santos
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TRÊS ELEIÇÕES de dimensão nacional: eis o que nos espera para o ano em curso.
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Num primeiro relance, o que é, logo à partida, preocupante são uns cadernos eleitorais, ao que se lê, enxameados de mortos e ausentes e, por isso, geradores de taxas de abstenção certamente enganosas e provavelmente alarmistas, que ocultam a exacta medida do fenómeno. Nos processos mais recentes e já com os resultados oficialmente proclamados, todos pudemos assistir à vozearia dos observadores, mas a coisa não durou mais do que o decoro exigia. Intenções dos vencedores, estados de alma dos vencidos, tácticas de sobrevivência e novidades nas políticas, nos cargos e nas nomeações, tudo isto fez o ruído maior que abafou o eco dos queixumes em torno da abstenção. Aqui reside – se é que não jaz – o principal. Porque o resto, que desespera uns tantos e galvaniza outros, apenas exprime a vontade popular. São os resultados e é para o seu apuramento que as eleições se fazem. Os ainda muitos que, como eu, não tiveram eleições livres até (praticamente) aos trinta anos, dificilmente se cansam do direito de votar – desde que já como direito o vissem no tempo em que não podiam exercê-lo. Confiemos que, não por essa experiência passada, mas por zelo, interesse e aposta no futuro, os mais jovens procedam igualmente. No que a mim envolve – porque não quero envolver ninguém nestas frivolidades que amamento - até diria que não aceito ser privado do lado vivaz e lúdico que as eleições também comportam e que os trinta e três anos decorridos não fizeram, nem farão, adormecer.
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Mas esta bem-aventurança não vem só. Traz consigo ónus e espinhos que já todos vamos conhecendo. Três campanhas que antevemos ruidosas e obsessivamente mediatizadas, apostadas em manobras ínvias (de diversão ou dilatórias), palavras irrevogáveis e gestos rancorosos, farão o caldo de cultura para que se abra a úlcera no mais pacato e fleumático cidadão (ele próprio já chocalhado por convicções, anseios e interesses, cuja conciliação raramente é linear). Sirvam de exemplo as já marcadas europeias. Os exércitos, de esquerda e de direita, a que eufemisticamente chamamos eurocépticos – e que mais necessitariam da campanha para explicar a Europa por que querem que nos batamos em Bruxelas – fazem abertamente a pedagogia segundo a qual a utilidade dessas eleições é protestar contra as políticas internas e prefaciar vitórias nas que se seguem. Os exércitos ditos pró-europeus estão cem por cento empenhados numa estimulante e mútua carnificina, o que obviamente também só por razões internas se explica. Enfim, a Europa propriamente dita – seja ela projecto, contingência ou circunstância – será, provavelmente e se a tanto lhe chegar a sorte, um pretexto. Não para comícios, que até são um meio digno que rareia, mas para a arruaça comicieira. E para uns ajustes de contas de viela escura, com navalhas a calar razões. Mas como nada disto é nosso apanágio - se é que há um apanágio nosso - sacudam-se ombros e destrave-se o calendário.
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De caminho, tocava a fanfarra se resolvêssemos o problema do Provedor de Justiça, um cargo honrado por quantos nele se sentaram. Nascimento Rodrigues incluído. Pena foi o desvario, de atitude e linguagem, com que reagiu ao inexplicável atraso da sua substituição. Sobre isso, mantenho o que já aqui escrevi. É compreensível que haja consultas ou contactos informais entre partidos que assegurem a maioria qualificada necessária. E é óbvio que um deles é sempre o partido que governa, mesmo se o cargo pressupõe independência até do órgão que o elege. Mas este expediente prático, que visa também proteger o elegendo de uma desnecessária exposição pública, não é mais do que isso: um expediente. Ao primeiro sinal de dificuldade consistente, deve a questão ser colocada no seu terreno, que é a Assembleia, onde a Constituição não contempla titulares e reservistas. E onde uma hipotética pretensão do partido no poder em impor um comissário (que não vi, em nenhum dos nomes divulgados) terá de fazer-se à vista da cidade. Mas onde também nenhum partido de oposição poderá reclamar um especial estatuto, majorador da medida dos seus votos. O recato pode ser bom conselheiro, o sigilo raramente o é. E quando o recato falha, mais vale passar logo ao palco público, onde ninguém escapa às suas responsabilidades, do que insistir nas sombras. Que tapam a luz, não a geram.

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«DN» de 22 de Março de 2009.

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domingo, 15 de março de 2009

Por estes pingos da crise

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Por Nuno Brederode Santos
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GOSTO DESTE SOL impúbere. Precoce, educado e tímido, sem fanatismos nem farroncas. 22 a 24º. Não há melhor. Até eu quero estar na rua, vasculhando em círculos lentos os que passam, as janelas alheias e o chão que piso. Em casa, as buganvílias já espreitam e os limões estão absolutamente imperiais. Filmo em mim a vida que faço e ainda dou aos outros, como brinde, a garantia de que o filme não é para exibir. Sinto que algo rumina, sem pressas, o que quer que possa haver na minha caixa craniana. É óptimo. E é o estado de espírito asado para olhar o pequeno mundo que me foi dado fruir.
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José Eduardo dos Santos veio a Lisboa em visita de Estado, porque (e quando) lhe e nos interessou. "Portugal tem relações diplomáticas e económicas com Angola e deve receber e conversar com os seus representantes" é o enunciado de princípio que o facto mereceu a Francisco Louçã e que eu aceito. Só que daí decorrem consequências, a não menor das quais é a normalidade protocolar: ressalvada a independência estatutária dos tribunais, o visitante celebra os três órgãos soberanos em que a (nossa) democracia assenta (Presidente, Assembleia e Governo). O bom senso não é macro nem é micro, não é fino nem é grosso. Ora, invocar um "festim neo-colonial", revelador dos "tiques da economia e da política portuguesas" e criticar o "deslumbramento", a "vertigem do negócio" e o "cinismo" de (ou seria "dos"?) empresários portugueses, para justificar a ausência de deputados no parlamento, não é razoável. Não se sacrifica um princípio político a contingências e rigorismos processais. Nem se sujeitam os nossos interesses à suspeição de maus benefícios alheios. O "festim" nem decorrera quando a decisão foi tomada. Se a oposição fosse de princípio, tudo se resolvia - ainda que, concedo, com prejuízo do espectáculo - com um comunicado ou um discurso a advogar o corte das tais relações. Sem necessidade do exibicionismo mediático, nem de esperar pela consumação da visita. Já tínhamos tido idêntico (e lamentável) episódio com o Rei de Espanha. É imaturo, é o "sol na eira e chuva no nabal" dos radicalismos puritanos, que fogem às responsabilidades do poder para - ao que julgam - consolidarem o seu crescimento eleitoral. Mas é sobretudo a incapacidade de entender que isso de só ter expressão de Estado na Assembleia da República tem custos, mas imputáveis ao eleitorado soberano. O Bloco tem de resolver primeiro o problema da sua implantação a todos os níveis do Estado - e não apenas no Parlamento - e só depois arrogar-se o exercício das subtilezas diplomáticas. Caso contrário, continuará a reagir de escopeta em riste contra pulgas no humor, carraças no remorso histórico e contratempos da agenda política. E a embaraçar-nos a todos. E a julgar que uma autocrítica tardia - como a feita com o caso do Rei de Espanha - virá resolver os problemas que agora pretendeu criar. E a deitar a perder o esforço, tão recente quanto insano, para demonstrar a todos nós que até tem ministro das finanças.
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Em Aveiro, um pai deixou o seu bebé, durante três horas, fechado no carro. Ao que parece, na ansiedade de acudir a uma reunião profissional, em tempos de emprego funambulesco. Esquecida, a criança morreu. Oiço as vozes dos vigilantes de primeiro instinto pedindo castigo severo para o monstro. Mas pode haver castigo mais severo do que o homem ter de viver com o que fez, muito antes do que lhe for feito em nome de todos nós? E logo oiço outros que, em nome desta razoabilíssima pergunta, não admitem que ele possa ser punido pela lei. Não se enjeita explicitamente a lei, mas sublinham-se todas as especificidades circunstanciais do episódio. E há psicólogos que proferem penetrantes considerações científicas sobre o caso. Por isso, ocorre sempre perguntar: mas nós não tínhamos, há trinta e tal anos, combinado que este agora seria um Estado de Direito, no qual as leis, uma vez por nós pactuadas, ganhariam sentido e vida própria e seriam aplicadas, no seu normativo geral e abstracto, aos casos concretos, por um juiz de Direito independente? Podemos, é claro, exprimir todas as opiniões: esse mesmo Estado também nos assegura essa liberdade. Mas apelos e abaixo-assinados é que já talvez não façam muito sentido.
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Agora volto à vidinha, que este belo dia ainda guarda 19 graus para me dar.
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«DN» de 15 de Março de 2009
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domingo, 8 de março de 2009

À catanada

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Por Nuno Brederode Santos
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O CHEFE DO ESTADO-MAIOR-GENERAL das Forças Armadas da Guiné-Bissau, máxima expressão operacional do poder militar local, foi assassinado. Horas depois, o seu adversário político (!) e Presidente da República foi-o também. Na própria casa e à vista da mulher. A golpes de catana e tiros à queima-roupa. Raiava o dia e a cidade fechou-se nos medos dos seus habitantes: nos medos em que ninguém é solidário.
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De manhã, porém, nada mais aconteceu. As autoridades que restam lamentam, com litúrgica e descoroçoante rapidez, o sucedido e logo anunciam a boa nova: não houve golpe de Estado. Em Portugal, pai conflituoso de pesados ontens que os realismos da vida - CPLP incluída - foram tentativamente reaproximando, responsáveis de todos os partidos proclamaram também, por entre alívios: não houve golpe de Estado.
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No dia 10, Nino Vieira vai a soterrar, com os adereços do calculismo da sua República. Por isso, ninguém dirá que desce à campa o guerrilheiro que se foi tornando no telúrico e iracundo destruidor das melhores promessas do futuro dos sonhos de Amílcar Cabral. Entre muitos dos seus, como entre nós, leva as saudades com ele. Parece que o que agora importa é que a situação regresse à normalidade, e não repensar a normalidade da situação que regressa. Também ninguém quererá pôr a nu a evidência: se não houve golpe de Estado, não foi por falta de golpe, mas só por falta de Estado.
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Praticamente desde sempre - um sempre reportado à independência - que a Guiné-Bissau emigrou da lógica e da prática institucionais que nós por cá partilhamos. E este sangrento episódio só confirma que, por lá, o mandato político é uma autorização de desempenho de uma gestão orientada para a satisfação das reivindicações dos militares. Por isso mesmo, o mandato não é o cruzeiro entre dois sufrágios. O mandato tem por limite, entre cada dois sufrágios, a duração da paciência dos militares. O resto é menor. A catana e a pistola suprem a vitalícia gratidão do povo aos que se arrogam méritos antigos de uma libertação que já poucos podem recordar. A fatia dos lucros que as rotas atlânticas da droga deixam nos seus entrepostos é magra, não dá para todos. Custa tudo em soberania, em desenvolvimento, em saúde e em bem- estar. E só chega para dar condições de felicidade a uns quantos bravos mal fardados se entretanto eles se forem liquidando entre si.
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Passaram mais de três décadas. Não há nostalgia ou remorso coloniais que razoavelmente nos envolvam nas actuais rotinas do sangue e da pobreza. Estivemos lá quando Portugal não vinculava os portugueses e saímos de lá logo que os portugueses passaram a vincular Portugal. Não somos grande potência, militar ou económica. Não somos vizinhos geográficos, como a Guiné ou o Senegal. Temos, é certo, pessoas e interesses a defender, mas isso temo-lo também no Brasil, na Venezuela ou em França. É, por isso, positiva a recolocação de um embaixador em Bissau. Mas há que pisar com cuidado o terreno bilateral, para que não nos sejam pedidas responsabilidades a que não poderemos corresponder. A boa consciência da comunidade internacional gosta de se servir do primeiro voluntário néscio, como alguns accionistas gostam de ter um otário por gestor. É certo que não nos está na natureza ver morrer na Guiné pessoas e liberdades, com a displicência snobe com que se inauguram as corridas de Ascott. É verdade que ainda nos atrapalham os ecos de um Benfica-Sporting em Bissau. Há muito de solidariedade e cooperação por fazer - e isso deve ser feito. No político, no económico, no cultural, no social. Mas deve sê-lo usando os instrumentos multilaterais, num delicado exercício de juízo sábio e mãos treinadas na microcirurgia. Sem protagonismos que permitam à comunidade internacional isentar-se ou aos candidatos a um mau protagonismo instalarem-se. Sem as paixões que cegam (e que sobreviveram aos tempos do "amor de mãe") e sem o cinismo de esquecer que temos cá muitos filhos de quantos por lá ficaram.
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Até ver, parece ser esta a postura política do MNE e ser este o sentido da missão de João Gomes Cravinho, por via da actual presidência da CLP. Oxalá seja. Porque, se o não for, só encontraremos riscos e problemas. E porque, para além dessa fronteira, só há pasto para as saudades do império. Um investimento caro e sem retorno. Que deve ser pago por quem as tiver.
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«DN» de 8 de Março de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

domingo, 1 de março de 2009

Espinho e a rosa

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Por Nuno Brederode Santos
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UNS É PORQUE O SPORTING vai ao Dragão. Outros é porque o PS se celebra em Espinho. A verdade é que as baixas na tertúlia deste fim-de-semana excedem o habitual e talvez até o razoável. Podia aqui argumentar que não sabia do jogo, mas nem por isso me via livre das suspeitas de que, no que toca a baixas, tenho o poder de previsão de George W. Bush.
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É certo que a semana já se rarefazia à minha volta. Quando o mundo se sintetiza no cão-d'água que ascendeu à Casa Branca e no meu país é notícia que uma carrinha da EMEL apanhou com o chumbo de uma espingarda de pressão de ar, só uma sólida formação filosófica, moral e cívica é que nos pode pôr a salvo das mais excruciantes interrogações acerca do sentido da vida.
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Aos que por cá ficaram, só resta apascentar os afectos com a conversa mole dos inquilinos do tempo. Até porque, por razões mais duradouras, estou pouco preocupado com o que se vai passar no Dragão. Guardo, por isso, a atenção e a curiosidade para o que vier a ser o congresso do PS (mesmo que, em tese, fosse mais apropriado guardar o tema para o próximo domingo).
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O congresso cumpre a função que a adopção das "directas" lhe reservou. Teoricamente, o que havia a debater já lá vai (mesmo que saibamos que tal nunca foi feito cabalmente, em partido algum) e agora há que escolher: pessoas, papéis, propósitos. Isto, quanto aos chamados "partidos de poder" - que o mesmo é dizer todos os partidos que se não excluírem a si próprios. Mas sofistica-se (ou complica-se) quando, mais do que partido(s) de poder, estamos perante o partido no poder. Porque, sendo o poder o fim aglutinador do grosso de quem milita, a sua defesa difere do seu assalto como num cerco militar. Ninguém lá vai para questionar um líder já consagrado, há apenas quem lá vá tentar condicioná-lo no detalhe das opções (e sobretudo nas escolhas de pessoas). Tudo isto é ainda mais gritantemente assim num ano de três eleições de escala nacional. Quem o entende sujeita-se às regras. Creio que todos, sem excepção, se sujeitam, mesmo que consigam convencer do contrário os sitiantes.
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Não condeno as razões dos que quereriam ver debatidas algumas questões cruciais. Eu também lamento algumas omissões: desde a aprovação da regionalização sem uma prévia normalização conceptual das autonomias regionais até à formulação de políticas sociais, que ainda não deixaram cair o ideal da igualdade de oportunidades e contudo mantêm a abolição do imposto sucessório. Para já não falar em alguns e candentes problemas, pelo menos na área da justiça. Mas o ponto é que os actuais congressos não servem para isso. Pressupõem isso. Quando o congresso chega, está-se já no território, desejavelmente comum, da grande batalha contra o cerco. Consagra-se um chefe, mesmo que se fuja ao one man show.
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Aos sitiantes compete depreciar a capacidade de resistência da cidadela. Quanto mais não seja para que a soldadesca não desmoralize. E já que, lá dentro, a liturgia é virada para o País, pois é com os olhos no eleitorado que vão tentando captar as atenções. Daí que cada qual se sirva do que tem à mão. Já vi Louçã a distribuir folhetos e recados sedutores à porta de uma estação de caminho-de-ferro; Jerónimo numa afadigada reunião com esse interlocutor sempre difícil que lhe é a CGTP; e Portas entre idosas ou numa fábrica de calçado exemplar. Mas também Alexandre Relvas, na Amadora, defendendo a "líder legítima" (o que, no PSD actual, parece não ser tautológico) contra Passos Coelho, que, em Carcavelos, denuncia a incapacidade da oposição que Manuela Ferreira Leite faz e que só "alimenta a fantochada". Mas vi também Manuela, a propriamente dita, a tentar explorar a ausência de Sócrates numa reunião em Bruxelas e constatei novamente o império da táctica que vai na Rua de S. Caetano. É que se queriam - ou ao menos admitiam - vir a utilizar esta linha de argumentos, não deviam ter feito tanto marketing à volta de um parto familiar em Londres quando o País parecia subjugado à desordem desencadeada por transportadores rodoviários. Entre a escolha que então fez - humaníssima, de resto - e a escolha que agora fez o adversário vai a distância de esta não ter nada de civicamente criticável.
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Segue-se uma semana de pousio. Ruidoso, é certo. Com sitiados e sitiantes a esvaírem-se em entrevistas e declarações. Mas o congresso terá sido cumprido. "É a vida." Não existimos fora dela e quase todos gostamos dela.

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«DN» de 1 de Março de 2009

NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

SUPOSTOS INDÍCIOS DE UM ALEGADO CARNAVAL

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Por Nuno Brederode Santos
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JÁ OS MEUS AMIGOS DEBANDAM, na pequenina diáspora que os assalta aos primeiros rumores de Carnaval. Por mim, menos dado a tais folguedos, nunca é seguro: espero sempre até ver se a frondosa senhora morena da madeixa loura reaparece no disfarce fantasista do costume: uma Jane Fonda a cujos braços, peito e ancas sobra Barbarella por todos os lados (sendo que a espada curta e o escudo de plástico prateado não são mais do que crédito malparado da princesa Zena ou adereço de uma qualquer amazona insurgente). A seu lado, cumpridor e tristonho, virá o marido, vergado, não só à calvície prematura dos 40, mas sobretudo às enormes responsabilidades sociais que visivelmente se atribui. Esse, porque o orçamento é de crise ou porque a imaginação só lhe proporciona o voo da galinha, trará um chapéu preto de larguíssima aba (coisa de cineasta inconformado, mas que os lojistas chineses que o vendem sempre imputam ao Indiana Jones). Esta gente é que é fiável: só descem ao meu horizonte se e quando for Carnaval. Nem compro serpentinas antes de os ver. Andamos todos, neste vale de lágrimas e sorrisos, a toque de caixa: acorremos ao osso que nos é lançado e alçamos as patas da frente para o devolver a quem o lança. Muitas vezes, quem mais ladra é quem mais corre e quem mais alça. A minha atitude não me vexa: faço como os outros. Entretanto, formalista e respeitoso, só no domingo à tarde saberei, de ciência rija, se na terça-feira é Carnaval.
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Mais forte é a convicção do Ministério Público em Torres Vedras. Aí, uma mãe de Bragança descaída no mapa lobrigou pecado gordo nas fotos de umas senhoras carenciadas, pelo menos daquele mínimo de roupa que assegura uma razoável dose de Islão na Cristandade. Cidadã vigil, queixou-se ao Ministério Público local, reclamando que fôssemos todos poupados à irredimível afronta da "pornografia" (numa extensão conceptual que nos torna todos culpados na banheira). Tiro e queda: proibindo a infâmia no escassíssimo tempo disponível, o pescoço da nossa virtude foi subtraído à guilhotina da nossa luxúria. Realista e folião, o autarca responsável disse aos media da sua surpresa, alimentou o folhetim e, muito institucionalmente, barafustou por requerimento. De um dia para o outro, um (ou uma?) jornalista tentou em vão contactar a ministra da Educação e eu próprio não consegui um comentário, nem do sócio mais antigo da Academia Almadense, nem sequer do dr. Vale e Azevedo. Só que a opinião pública fora já mordida pela cascavel da crítica mordaz. Pelo que o pronto recuo da autoridade - que o autarca, com cifrões no lugar das meninas (e falo das dos olhos) - se desnudou no que era: o baixar da ponte levadiça ao sitiante. Mas o procurador-geral, que foi à Madeira asseverar, para nossa tranquilidade, não haver lá mais corrupção do que no resto do País, explicou que o caso, afinal, era o MP estar em campanha eleitoral - coisa mística em que é melhor não interferir (mesmo quando ela interfere connosco). Mesmo sem a Barbarella, o episódio sugere que é Carnaval.
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Mas já antes disso alguém tinha querido arear as pratas ao brio do pachola português. Ao que parece com origem na Lusa, foi-nos servido o pedido de ajuda a Portugal que Barack Obama terá endereçado a Cavaco Silva (no dia seguinte, foi-nos revelada idêntica diligência junto de José Sócrates). Por vazia que a barriga possa estar, o nosso ego insuflado tomou-lhe os espaços. O episódio demonstra que uma boa educação compensa. A resposta, feita em linha de montagem, do Presidente americano aos telegramas de felicitações das autoridades políticas do mundo inteiro, sendo uma formalidade cortês para todos os outros, era afinal a admissão de que, sem nós, a América soçobraria no mercado do escândalo, do vício e da desregulação dos costumes. E de que os herdeiros políticos do xerife Fontoura levariam Newark a salvar os Estados Unidos. Perante a boa recepção que o facto teve entre nós, o Congresso suspirou de alívio e a Casa Branca abriu Mateus Rosé. Assim é que está bem, porque temos de ser uns para os outros. Mais um indício de que o Carnaval está aí. Mas a vida fez-me céptico e eu continuo a esperar pela Barbarella.
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Se na terça-feira for, de facto, Carnaval, então eu alinho: durmo a sesta de fato e gravata.

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«DN» de 22 de Fevereiro de 2009.

NOTA: Este 'post' é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

A DAR À CAUDA

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Por Nuno Brederode Santos
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PARECE O CACIMBO AFRICANO, mas não é. É um capacete de humidade que abafa e que o paisano não estranha, tanta é a chuvinha que nos vai gelando os ossos. Mas acresce-lhe uma espécie de fuligem, daquela que nos devorava a garganta, quando, no Verão, a Malveira ardia. Não tenho explicação, mas incomoda. Só que, como tantos outros percalços da existência, não tem remédio ao nosso alcance.
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Sondei a Sara, o canídeo iluminado que devotou prazenteiramente a oportunidade, que a vida é, a disfrutar a sucessão dos seus momentos. Há entre nós uma afinidade filosófica. Mas foi em vão. Ansiosa e obsessiva, ela grudou-se ao fluir do tempo, à espera da eventual entrada de uma prima de sangue na Casa Branca. (Digo "prima" porque um senhor vizinho que, prudentemente, transferiu para a criação canina os rigores do sangue azul, asseverou que a Sara é a versão andaluza da eleita. Por mim, está bem. Porque, com Cervantes e Unamuno e outras prendas, a tanto monta o meu iberismo). Levantou os olhos por entre a franja preta e despejou em mim o antiquíssimo enfado dos animais domésticos perante donos que, para eles, o são também. Decidi, por isso, resignar-me. Porque é esse o exercício de que mais sólida tarimba guarda esta velha linhagem de rei, capitão, soldado, ladrão, menina bonita e os demais, em que me incluo. E deixei-a nos seus milenares langores mediterrânicos.
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Mas, se ouvir um médico, diz-me que saia de casa. E que ande muito e coma bróculos e deixe de fumar. Nada de novo, além de que nunca entenderei por que hei-de ser eu a pagar as más notícias. Se fizer um protesto oficial, ainda é pior. Desde logo, porque Deus não me ouve (e eu não posso censurá-lO, porque não sou um retribuinte exemplar). Depois, porque me sujeitava a tomadas de posição públicas da meteorologia, do Governo, dos partidos da oposição, do site de Santana Lopes e, com sorte, de um despacho-editorial de Alberto João Jardim. Se não merecesse até uma atroadora ambiguidade do Presidente da República, que logo me prantaria na mesa dos programas televisivos de debate. De ideias, creio.
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Perdido por mil, passei aos jornais. E dei com "PSD acusa sondagens de manipulação política". No texto de Paula Sá, "o PSD tinha prometido que não iria reagir a sondagens. Mas não resistiu" perante a da SIC e RR de sexta-feira, também publicada no Expresso de sábado. Agostinho Branquinho, "director executivo das campanhas do partido," reage, em jeito varonil: "Ou há manipulação ou essas campanhas não são de confiança." Claro que já meio mundo assinalou a consistência desses números da Eurosondagem - ou da tendência que revelam - com os demais, da Aximagem e da Intercampus, revelados na mesma mãozinha cheia de quarenta e oito horas (fora da qual, até se lhe podiam juntar outros números e indícios). Mas o mais surpreendente é aquela disjuntiva. Ou há manipulação ou não são de confiança. À primeira vista, poder-se-ia até pensar que, havendo manipulação, seriam de confiança. Ou que só havendo a confiança, que é do seu pessoalíssimo e discricionário critério, é que uma sondagem está isenta de suspeitas de manipulação. O critério, reconheço, é tentador: tivesse-me eu lembrado dele e já me teria feito muito jeito nos cruzamentos anónimos da minha vida privada. Mas o facto é que nem me ocorreu e o mérito vai inteirinho para esse olhar vigilante de rapace com que Agostinho Branquinho observa o mundo à nossa volta. A coisa tem tradição: Santana Lopes, na campanha eleitoral em que o PSD se atolou e perdeu, chegou a notificar a humanidade de que iria processar judicialmente as agências que davam números parecidos. E só o imenso fair-play que o partido assumiu na derrota é que as livrou do cumprimento da ameaça. Felizmente, a democracia vive muito de sabermos perdoar os factos irreversíveis. Mas tudo isto, repito, é à primeira vista. Só que eu não tenho aqui espaço, nem agora tempo, para uma segunda.
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Por isso, voltei atrás e contei à Sara. Sem mexer a cabeça, ela levantou os olhos, no mesmo jeito displicente com que me ouvira há bocado. Mas, agora, fez-se Lassie, Milou ou Rim-Tim-Tim, e deu à cauda.
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«DN» de 8 de Fevereiro de 2009. NOTA: Este post é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

O GRITO E A VOZ

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Por Nuno Brederode Santos
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ACHA QUE AINDA TEM CONDIÇÕES para governar?", pergunta sempre quem mais se empenhou em destruir as condições para governar. Como que a pedir um insuspeito atestado de desempenho. "Todo este alarido em torno do caso está a distrair a atenção dos portugueses para os reais problemas da crise e da governação" é a versão dominante entre os que fomentam o alarido sobre o caso, distraindo a atenção dos portugueses para os reais problemas da crise e da governação. Como que a explicar o plano B, que é o de, se "isto" não for a lufadas de escândalo, ao menos paralisa-se o Estado, na sua desesperada defesa da cidadela que os votos construíram. De caminho, também se vende melhor. Porque o mercado da pequena infâmia existe. Só que é atípico: o rancor não se vende porque o rancor se compre. Há é quem o compre desde que ele esteja à venda.
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Claro que talvez isto não fosse possível se a condição do sistema judicial fosse outra. Como ainda agora a inauguração do Ano Judicial exuberantemente demonstrou, a máquina é prisioneira de guerras que ninguém tem já forças para vencer. Uns, passam as responsabilidades à falta de meios, tomam a autonomia (técnica) de que gozam pela independência que só a outros toca, reclamam das leis que lhes cabe cumprir e dão-se a prerrogativa de propor melhor legislação (nem sempre apenas qual, às vezes como). Outros, endossam a culpa também à falta de meios, reclamam melhorias da condição profissional (que não tem já equivalente, deixados que estão para trás diplomatas e militares), tomam o seu dever de independência pela sua (necessária) tradução em direitos puramente instrumentais e não raro roçam o propósito de legislar aquilo mesmo que só lhes cumpre aplicar. Outros ainda, fazendo das questões salariais o seu único objectivo, tecem políticas de alianças em que apoiam ou não as reivindicações dos demais, mesmo que elas os transcendam por completo - sob condição de serem por eles apoiados. Enfim, os que supostamente seriam os mais livres, resistem à mais pequena tentativa de os submeter a um regime comum e geral, alegando - como os representantes dos médicos, ou dos engenheiros ou dos farmacêuticos - a natureza superior do seu papel e a feliz (e quase mística) coincidência dele com os interesses colectivos: o que é bom para a General Motors é bom para os Estados Unidos. Todos eles, porém, convergem no método: procuram fazer valer os seus interesses pela via mediática. Houve tempos em que a careta era a amarga derrapagem de um sorriso. Isso acabou. Hoje, à vista de uma câmara, a careta refloresce no sorriso.
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Voltemos à tese geral. Pese embora às convicções de quem neles votou, pode suceder que um dia se descubra e se comprove a corrupção de um Presidente, um primeiro-ministro ou qualquer alto mandatário. Já aconteceu a outros, não há dogma que disso nos isente. Mas a questão é: e a lei previu? Previu. Então aplique-se, de cada vez que quem de direito entender haver razões para tal. Ninguém tem mais interesse nisso do que os que mais enganados se sentirem, ou seja, os que tiverem dado a cara. Só que, para isso há regras, que a mesma lei acolheu. Não há que entrar em regime de excepção, no qual ninguém votou. Nem instaurar a gritaria e o código sumário de vigilantes que nunca ousaram sufragar-se como tal. Nem induzir a confusão entre denunciante, polícia, juiz e carrasco. Nem fazer da opinião mediatizada - que nem sequer é certo que chegue a pública - o tribunal plenário de um regime que quisemos democrático.
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O contrário é fazer da "busca insana da verdade" o álibi malsão que legitima a irresponsabilidade. É agravar as aflições de um aparelho de investigação, até agora pouco convincente, a dar mostras de isenção, não para a resolução de um problema, mas para o suscitar de outros, tantos quantos os necessários a fazer "prova" pública dela. E é espalhar, em voz baixinha, pelas ruas e vielas da cidade - que desespera aos solavancos da crise - o rumor catastrofista que é o caldo de cultura donde emergem todas as aventuras autoritárias: se há magistrados ou juízes que não conseguem enfrentar os media, acabe-se com a sua não exercida independência e sujeitem-se à cadeia de um funcionalismo hierárquico rigoroso; se há jornalistas que mentem ou manipulam, instaure-se uma censura prévia que responsavelmente acautele o "interesse geral"; se chegam à rua opiniões maliciosas, troque-se a liberdade de opinião por um seu patriótico controlo; se há políticos eleitos que são corruptos, substituam-se por aqueles que gente sábia e séria designar; e se as instituições democráticas não forem capazes de comportar tudo disto, instaurem-se outras que o sejam.
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Mal com a política por amor da economia, mal com a economia por amor da sociedade. Um dia, muito mais tarde, os historiadores discutirão quais, de entre nós, foram os culpados.
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«DN de 1 de Fevereiro de 2009

domingo, 25 de janeiro de 2009

O PRIMEIRO PROTESTO

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Por Nuno Brederode Santos
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MANTENHO O QUE DISSE aos meus amigos aziagos: quem quiser que eu cumpra os lutos tem de deixar que eu faça a festa. E foi assim que passei entre amigos celebrantes a noite da vitória de Obama. Sem esquecer nunca que os interesses que ele irá acautelar são os dos seus, e não os meus. Quando isso se manifestasse, eu logo o notaria. Não me levando a condená-lo, exigir-me-ia pelo menos uma demarcação. Pois é o que aqui faço hoje, formulando o meu primeiro mas veemente protesto. Já vislumbro o gelo na Casa Branca, o embaraço do ministro Luís Amado e o desconforto dos meus vários amigos diplomatas. Mas eu sou a coluna de Sansão. A honradez - e outros valores éticos sortidos - fala mais alto. E também ninguém me cala.
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Obama encarnou a mais litúrgica das candidaturas. Chegou a toda a América e chegou ao mundo inteiro detonando os sonhos, usando palavras mágicas e gestos simbólicos. Evocou Jefferson, Kennedy e Luther King. Mas sobretudo grudou-se à memória de Abraham Lincoln, fazendo do Memorial mais do que é a Casa Branca e jurando a missão na Bíblia que fora dele. Como é possível que tenha escolhido - ou pior: deixado que escolhessem por ele - um Cadillac para limusina oficial do Presidente?
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Isto parece de somenos, mas não é. Compreendo que a escolha teria de recair sobre uma viatura de fabrico nacional - e daí logo adviria o primeiro desencanto. A indústria automóvel americana tem décadas de atraso sobre a europeia (e até já sobre a japonesa). Porque, se a necessidade aguça o engenho, a desnecessidade embota-o. A gasolina barata, a destruição que a II Guerra causou na Europa e a progressão dos mercados cativos no pós-guerra, permitiram que, ainda muitos anos depois, os americanos chamassem automóvel a um chasso: duas toneladas de aço pousadas sobre um "chassis" que não evoluía, mais uma roda em cada canto; lá dentro, dois bancos corridos, dois pedais e uma telefonia. Os cinquentões tardios ainda se lembram dos táxis da nossa infância: Chevrolet, Dodge, Oldsmobile e Pontiac. Uma galeria de carros indistintos, talvez com as excepções - que o foram para o bem e para o mal - dos Studebaker e Nash. As "banheiras" que, mil e uma vezes restauradas, ainda se vêem em Cuba. Dentro deles, eu sentia-me num escafandro, tão alta e exígua era a área envidraçada. Nas curvas, eles adornavam e as crianças riam muito, porque deslizavam violentamente sobre a napa dos estofos.
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Desses construtores impunes, sobressaíam o Cadillac (da General Motors) e o Lincoln (da Ford) - porque o Imperial da Chrysler ficou sempre um furo abaixo - concorrentes directos no luxo para as classes "superiores". O Caddy vendia mais: espalhafatoso, por vezes kitsch, ele encandeava com cromados e rabos de peixe os "gangsters" em fim de carreira e os surfistas da ascensão social meteórica. O Lincoln apostava numa sobriedade altiva, num culto mais antigo, mais europeu. E isto mantém-se, mesmo se os bilionários de herança e tarimba própria preferem importar os Premium europeus.
Ora o carro da Presidência, creio que até "W" Bush, era o Lincoln. O que até me dava jeito, porque o recebi como um red-neck, grunho, pífio e permeável às evangelizações de vão de escada. (Depois, essa visão complicou-se, porque a vida complica sempre o mundo da inteligência). A escolha de um armário deitado, com cinco metros e meio, concebido a custo zero em neurónios de designer, mas sabendo tudo sobre bombardeamentos e emboscadas, parecia-me a mais adequada ao personagem. Agora o mesmo já não vale para Obama. Um motor a óleos pesados, com quase sete litros, debitando uma potência exígua, bebe 34 de gasóleo para puxar pelas toneladas da blindagem, não conseguindo violar os nossos limites de velocidade e fazendo o 0 a 100 em quase 16 segundos (que me permitiriam sempre dar a volta e regressar a casa), tudo isto é impróprio de quem me for simpático. Que tem luxos, dizem eles. Mas, há 34 anos, já os tinha a famosa Chaimite do major Dinis de Almeida. Mas o pior de tudo é ele trocar o nome de Lincoln pelo do Sieur de Cadillac, um aventureiro instalador de feitorias na longínqua "América francesa". A Besta, como lhe chamam, devia ser a escolha de um plantador do Sul, mas não a de um neto dos escravos.
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Indignei-me, como já se percebeu. E rendo sentida homenagem aos cinzentos boicotadores da felicidade alheia: quinze dias são volvidos e já ele está a trair o voto que nem lhe dei. Eles viram bem: toda a ilusão traz a desilusão no seu ventre.
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«DN» de 25 de Janeiro de 2009

domingo, 18 de janeiro de 2009

AMÉRICA, AMÉRICA

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Por Nuno Brederode Santos
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NÃO SEI SE O REMORSO curva a espinha e ensombra o gesto. Nem sei o que pesou mais nos últimos dias de George W. Bush. Se a memória de como planeou vingar-se do pai, parecendo querer vingar o pai; se o intuito de refazer a apagada e vil imagem que a primeira metade da vida lhe traçou; se a pulsão da epopeia, às vozes e tambores dos evangélicos; se o ter-se deslumbrado com a simples e prática cupidez de Dick Cheeney. Estes são os condimentos principais que, num filme subestimado mas interessante, Oliver Stone nos propõe para doseamento su misura. Eu não tento o meu. E não excluo uma abordagem mais singela: o que verga Bush são as sondagens de aceitação popular, nesse momento sem remédio que é a passagem aos arquivos da história americana.
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Na partida, ele faz dois grandes protestos de inocência. A ter errado - diz - pelo menos agiu em consciência. E, graças a ele e à sua insónia de sete anos, nunca mais, desde o 11 de Setembro, a América voltou a ser agredida no seu próprio território. Fracos consolos. O primeiro, porque busca salvação impossível, já que filia os erros, não numa actuação que dê margem para a repartição das culpas, mas nesse pessoalíssimo e irrenunciável éter a que chamamos consciência. Não sei o que é uma consciência errada, mas deve ser a pior companhia para a reforma. O segundo, porque dificilmente comove multidões. Tanto quanto me lembro, na sua mais do que bicentenária história, a única agressão em casa foi Pearl Harbour. Antes disso, só uma romanesca invasão pelos mexicanos de Pancho Villa, a quem Carlos Fuentes definiu o estatuto: uma rapsódia de camponeses, guerrilheiros e patriotas, agindo de acordo com regras que não podiam ser diferentes das de uma longa tradição de banditismo. Por isso, os seus sete anos e meio rasgam no mundo um sorriso amargo: é que é um critério pelo qual ele mesmo se coloca em último lugar no grande panteão dos presidentes.
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E, se dúvidas houvesse sobre a imagem com que sai, as cadeiras vazias de alguns convidados, que lhe incensaram a pior das aventuras, falam por si. São homens que não ouvem vozes interiores, mas só os megafones da luta política. Homens que entendem que a moral só emerge nas derrotas e só costuma dar futuro aos outros. Homens como Aznar, Berlusconi e Barroso. Por isso, a sua ausência é um auto de notícia. George W. Bush sai agora para a solidão de um rancho texano. Quando o ouvirem a falar sozinho, estará provavelmente a persuadir o seu cavalo de que o Iraque e o Afeganistão são democracias pujantes e os seus povos amam os EUA. Por prisioneiro que, muito justamente, o seu sucessor seja, na gaiola dos interesses de quem o elegeu e ele representa, o mais difícil do muito que o espera é um estilo e uma atitude que dêem ao mundo razões para esquecer aquele que sai.
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No entretanto, escreve Paul Krugman, no NYT de sexta-feira, 16, que, perguntado sobre se possíveis crimes, cometidos pelo Governo de Bush, seriam investigados, Barack Obama respondeu que ninguém está acima da lei, mas que é preciso olhar em frente, e não continuar a olhar para trás. Krugman comenta que esta resposta significa que os detentores do poder estão, de facto, acima da lei, porque não sofrem consequências quando abusam dele. E condena: "Para proteger e defender a Constituição, não basta a um Presidente obedecer-lhe, ele tem de responsabilizar os que a violam. Por isso, o Sr. Obama deve reconsiderar a sua aparente decisão de deixar impunes os prevaricadores da anterior administração. Porque, independentemente das consequências, essa é uma decisão que ele não tem o direito de tomar."
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Este filme é conhecido. Está na vida, muito mais perto de nós do que qualquer cinema. Interessante - e desafiador - é que ele germine aos nossos olhos, no excelente relacionamento político de dois homens que a esquerda europeia acarinhou no mesmo abraço. Obama, o primeiro Presidente negro, fez a maioria de todas as minorias e acendeu o céu americano, dando asas a todos os sonhos. A sua aventura de vida começou agora, com o dealbar de quatro - talvez oito - anos de luta entre a vontade e a contingência. Aquilo de que menos precisa é que, em nome de puros princípios e sem olhar a consequências, lhe comecem a laminar os grandes consensos que forjou para enfrentar todas as crises que Bush lhe deixa no regaço. Krugman, o intelectual e economista que escancarou o Nobel ao jornalismo, tem por aventura pessoal a pureza das causas, a coerência dos valores e um apego, sem máculas nem tardanças, a tudo aquilo que lhe trouxe a glória de hoje. E cada qual defenderá a imagem que visiona de si mesmo. Crêem na mesma divisa: prosseguir um grande desígnio com a flexibilidade necessária e que o não comprometa. Cada qual traçará a sua e subjectivíssima fronteira entre o terreno onde se pode ceder, em nome do bem maior, e aquele em que a lesão de um princípio é o mal absoluto, sendo ocioso estar a medir-lhe as consequências. Há em ambos responsabilidade e vaidade. Mas não somos todos somos assim?
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«DN» de 18 de Janeiro de 2009

domingo, 11 de janeiro de 2009

BALADA DA NEVE

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Por Nuno Brederode Santos
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NUMA EUROPA ENREGELADA, ainda há dois dias Lisboa era, por uma luxuosa diferença de três graus, a mais quentinha das capitais europeias: onze graus contra oito de Roma, com Madrid e Atenas bem abaixo. Não diz nada mais do que isso: Port-au-Prince é bem mais quente do que Toronto. Mas, nos estritos limites daquilo em que o clima nos envolve, era talvez a boa nova possível. Mas não serviu e não chegou. O frio da noite confinou-nos à legítima defesa das nossas casas, que é onde, às primeiras castanholas da dentição que nos restar, sabemos onde jaz um cobertor suplementar e podemos aquecer à temperatura dos infernos uma sopinha da véspera. Pasmamos, assim, sofá abaixo, sem coragem para brandir livro ou jornal, para que as mãos não congelem. No meu caso, acresce até a singularidade de o frio intenso, tal como o seu putativo adversário que é o calor em excesso, me trazer a sonolência. Penso até que isso demonstra que o sono, em mim, mais do que pretexto, é mesmo ideologia. Mas, voltando ao fado: em frente da nossa tiritante imobilidade, só vive e mexe um televisor, onde, libérrima, infrene, se exercita o melhor da criatividade, privada e pública, de que, velha nação, somos capazes.
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Vai daí, surgem as tão esperadas notícias. Derramam-se estagiários pelo país inteiro, que perguntam aos transeuntes, nas afogueadas horas da corrida para os empregos, o que têm a dizer do frio. Que sim, que é muito, dizem os coitados em trânsito. “E como é que se preveniu?”, perguntam jovens jornalistas, vibrando na paixão do seu futuro múnus. “Trago uma camisola por baixo”, responde o português médio (aquele que até então julgávamos meramente estatístico), impante nos seus minutos de Warhol. “E em casa?”, insiste o jovem. “Em casa ligo o aquecimento”, diz a presa. “Mas é caro…”, sugere o tirocinante. “Pois é, mas tem de ser”, fataliza o cidadão. “E pronto, Fulano”, remata a glória prometida, dirigindo-se ao pivot, “daqui, de Poiares de Mim, onde a neve surpreendeu as pessoas, mas a vida tem de continuar, é tudo. Para o Canal Tal, Cicrano, com imagens de Beltrano”. Volta o pivot, para, enfim, sabermos do parlamento, ou da crise na Europa, ou da empresa em dificuldade, ou do martirológio de Gaza, ou da vaga de fundo de Soares Franco. Mas não: “vamos agora ligar a Fulana, que se encontra em Lugar de Mourejos”. E lá vêem cabras e granitos e xailes negros e cafés de aldeia, onde a bica se serve ao balcão de alumínio a clientes de luva e gorro de lã. A atenção já se esvai, arrasta-se viscosamente pelos objectos que nos circundam o sofá. A quase meia hora que lá vai, somada à certeza de que ainda faltam estradas bloqueadas, limpa-neves e gente simpática que visita idosos, parece-nos - e é – mais longa do que qualquer cerco de Lisboa. As pálpebras descem devagar, como, no último mastro, a bandeira do vencido. A cidadania escoa-se num negrume consentido (e, afinal, libertador).
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Acordamos, aos gritos do festejo de um golo tardio. E percebemos que o parlamento, a crise, as empresas e Gaza, se foram, já lá não estão – pois, no meu caso, para a vaga de fundo, já não sobra a paciência. Passaram-se quarenta e cinco minutos, mas o noticiário seguinte devotará novamente a primeira meia hora ao esplendor da neve e aos rancores das criaturas. Notícias? Lá para a semana. Porque até lá, mesmo que eu veja três noticiários seguidos, continuarei a adormecer com a neve e a acordar com o golo. Nada sei, pois, do que se passa. O que também tem a sua dimensão de serviço público.
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Saio à rua, desafiando este gélido nono círculo do inferno. Penso na crise e na melhor forma de a enfrentar. E tomo uma decisão: a minha estratégia para ela vai ser, com excepção de três eleições em que irei votar, a de me tornar num velhinho intratável. Egoísmo pertinaz, solidariedade zero. Um sociopata, mesmo que não consume violências maiores do que o legítimo resmungo. Encontro, por acaso, o José Duarte. Esse mesmo: “um, dois, três, quatro, cinco minutos de jazz”. “'tás bom?”, pergunta ele. “'tou. Já sei como defender-me da crise. Vou transformar-me num velhinho intratável”, respondo, muito brioso. Nem nos western spaghetti se sacava tão depressa quanto ele o fez: “Isso já és”.
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«DN» de 11 de Janeiro de 2009

domingo, 4 de janeiro de 2009

FRANCISCO FERREIRA GOMES

Por Nuno Brederode Santos
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O ANO DE 2008 JÁ ESTIOLAVA por entre pequenas e rancorosas patetices, quando o Francisco Ferreira Gomes se foi embora daqui. Daqui, do maior aqui que existe. Por azar, foi-se embora horas antes, mas no mesmo dia em que o fez o António Alçada Baptista. Azar nosso, bem entendido, porque a coincidência lhe apagou a partida, mesmo que ele se estivesse bem nas tintas para isso. Mas nós, os seus amigos, teríamos gostado, ao menos, de um breve registo do facto. Três segundos de televisão ou uma soturna local na imprensa. Nada. O Xico que, ainda jovem, incutiu em tanta miudagem universitária algum gosto literário; que fez Direito sem querer ser advogado e, sendo um esteta, arriscou viver como executivo de uma multinacional (em cujo ramo português chegou ao topo). O Xico, cuja "nonchalance" povoou o humor de tanta gente e alimentou pequenas, mas duradouras, tertúlias; e cujas eficácia e entrega levaram Jorge Sampaio a confiar-lhe a direcção da campanha eleitoral para o seu segundo mandato. Esse Xico, o nosso Xico, foi-se como se a pedir licença.
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Quando um amigo se vai, a gente olha-se no espelho. Porque o próprio real é também um espelho, que corrige a imagem que devolve. Conforma-a, se não quisermos dizer que a deforma. Quando o vigor e a pureza nele se miram, o guerreiro vê cansaços e a virgem devassidões. Porque sabemos que não há Dorian Grays que nos roubem tempo ao tempo que já tivemos, nem feições poupadas ao amargo logro em que vivia a madrasta da Gata Borralheira. Mas não podemos impedir-nos de o ter, eliminá- -lo da nossa vida: da casa de banho ao elevador, passando pelo retrovisor do automóvel, ele salta-nos ao caminho, em sucessivas tocaias. E dá-nos o que talvez não queiramos, mas que mais não é do que o produto do que fomos sendo: então uma amizade traída, um desgosto de amor, uma causa sacrificada a circunstâncias menores e até décadas de usos e abusos do que o corpo aguenta, poderiam não turvar os olhos, não talhar sulcos na pele, não levar os cantos da boca à rendição?
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Sobre isto (mesmo que por palavras que não estas) conversei longamente com o Xico, durante uma noite castigadora dos nervos dessa campanha eleitoral, numa cervejaria da Rua das Portas de Santo Antão. Uma conversa em que o Xico foi o melhor de si, harmonizando uma imensa tolerância com os pequenos sarcasmos que o salvavam da santidade. As suas observações de homme du monde sobre os gestos, atitudes e intenções que subjazem aos comportamentos individuais, numa máquina política em pleno movimento, podiam rechear, para ilustração, um tratado sobre as pequenices da natureza humana. À visão de quem trazia vida nos bolsos, o Xico acrescentava a lucidez de não querer nada de um mundo que não desprezava, mas que, nos momentos próprios, para o bem e para o mal, tinha escolhido recusar. E a tudo isto acrescentava uma humildade intelectual que - coisa rara - foi aprendendo com a vida: outros, melhor do que eu, o saberão, mas o Xico que retenho da juventude era bem mais assertivo, e menos sábio e relativista, do que aquele que agora se oferecia aos outros.
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Depois disso e da vitória, foi uma longa ausência mútua, que só viria a ser interrompida, por generosa iniciativa dele, para um ano e meio de almoços quase, mas só quase, regulares, numa estupenda sucessão que a doença viria, sem aviso, interromper. A partir daí, tudo se cingiu a (creio que) duas visitas, de enorme e recíproco constrangimento, em sua casa. Em que o amigo era, cada vez mais, o que ia restando do amigo; e em que ele, cada vez mais longe, dava mostras de que o sabia muito bem.
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Absolvam-me de não me render aos caprichos do calendário, mas, em qualquer síntese do meu 2008, a memória do Francisco Ferreira Gomes estará lá. Este espaço não é um obituário. Mas convenhamos que só a paixão do adjectivo do dia e a volúpia de dissecar as ilusórias entranhas das paramécias da política corrente é que podem explicar o absoluto silêncio que rodeou a morte dele. Porque ele não foi apenas um amigo de todos quantos o mereceram. Foi alguém que, ainda por cima e pelos padrões dessa vulgaridade que é o código de vencedores que se instalou, o foi também.
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«DN» de 4 de Janeiro de 2009
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domingo, 28 de dezembro de 2008

A MANSARDA E O JARDIM

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Por Nuno Brederode Santos
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AJOUJADOS À SERVIDÃO dos fumadores, os "meus" gerontes reúnem-se, pela manhã, na esplanada do café, porque "lá dentro" não se pode fumar. Albardam-se como os índios da reserva, mas sem direito a fogueira comunal. Falo por mim: camisola interior numa fibra mais severa que amianto, camisola lambswhool, casaco, "cachecol" e gabardina. O vento frio corta a direito, em grandes lençóis horizontais que ignoram as lentes dos óculos e libertam lágrimas indesejadas. A mão só sai da luva para brandir a chávena e, mesmo assim, o corpo treme todo, como se levado ao paredão de um pecado ou crime de que não guardo consciência nem memória. Busco refúgio na ideia de que, na véspera do Natal, haverá por certo um stock de temperança e amor pelo desvalido que me irá proteger das culpas que desconheço. E olho para os três jornais que comprei, perguntando-me quantos anos mais resistirei a trazê-los debaixo da camisola. Os vizinhos deram sumiço, acolhidos aos fogos de família do país interior, de onde só voltarão no domingo, carregados de chouriças e azeite "lá de casa". Só mesmo alguns jovens passam, eles e elas na arrogância das camisolinhas de manga curta, a lembrar-nos o que já tivemos e como nos resta merecer os aconchegos da segurança social.
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O empregado é muito jovem, talvez trabalhador-estudante. É educado, afável e solícito. Ao toque para a segunda bica, faz conversa e diz para uma conviva, meio morta de frio: "Fulano conhece-a muito bem. Manda-lhe cumprimentos." Ela parece não se surpreender e pergunta: "Conhece Fulano? É-lhe alguma coisa?" Ao que o rapaz, sempre sóbrio e respeitoso, responde: "Sim, sim. Ele é namorado da minha avó."
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Qualquer coisa de animal e antiquíssimo rugiu em mim. E refugiei-me na tosse tabágica para dissimular o espanto e a gargalhada. Não sei bem o quê nem o porquê. O meu mundo dos avós esvaiu-se há muito, obediente aos ditames naturais. Mas, numa vertigem de imagens em corrupio, no involuntário carrossel que nos sintetiza as memórias, eu coloquei ali, naquela cena, a última avó que se me foi e imaginei-lhe um estupor tão grande que nem lhe deixava espaço à indignação.
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Namorado da avó? Então ela, viúva de tão longe e tantas noites, contida a tricotar desde o lusco-fusco, em frente do televisor, e cujo maior assomo de convivialidade com homens se cingia a retribuir o "boa noite" profissional de Pedro Moutinho e a "despedir-se com amizade" do engenheiro Sousa Veloso, poderia alguma vez admitir - ou até, presumo eu, conceber - a existência do estatuto, social mas a ameaçar o jurídico, de "namorado da avó"? Então a botija de água quente que, na viuvez deitada, lhe aquecia os pés, poderiam outras avós, as desse futuro que é o nosso presente, trocá-la pelo calor original de um corpo de homem? E a abnegação, o sacrifício, a severa mortalha interior que toma o corpo por dentro, precisamente porque nos embrulha a alma? A vontade de Deus agora é questionável? Corrigimos-lhe o traço firme conforme nos apraz, sem que as iras do Velho Testamento nos arrasem? Suponho que a minha avó condenaria os desmandos de outros credos, que sepultam a viúva em vida ou lapidam a de memória ingrata na praça pública. Mas nem por isso teria podido inocentar, nem simplesmente ignorar, um tal desaforo na cristandade.
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Mal o jovem virou costas, os meus parceiros - que não tinham precisado de se esconder cobardemente por detrás de um ataque de tosse provocado e tinham sabido guardar uma cordial sisudez para a circunstância - disseram adeus à compostura e fizeram-se a um carnaval de gargalhadas. Todos tinham, afinal, pensado o mesmo que eu. Naturalmente, todos tinham avós para recordar e encontravam nessa busca um igual tesouro arqueológico.
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Pois é, avó. Parece que o inferno se adapta aos tempos, na exacta medida e ao ritmo com que nós os vamos fazendo. A ameaça também precisa de ser funcional. Não tem sentido ameaçar com o que o ameaçado já nem percebe, porque já cai fora do alcance do seu código de valores. E sabe que mais? Por esquivo que lhe seja este mundo de namorados das avós, o certo é que essa coisa laboriosa que é a felicidade já deixou o bafio de vésperas que era a mansarda do seu tempo e respira o ar sem dono de um pequeno jardim. No meu caso, com buganvílias. Mas também com a mesma ternura por si.
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«DN» de 28 de Dezembro de 2008
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domingo, 21 de dezembro de 2008

As nossas culpas

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Por Nuno Brederode Santos
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SE BEM ENTENDI MIGUEL CADILHE, a coisa é esta: a Sociedade Lusa de Negócios perdeu muito com o muito que perdeu o seu Banco Português de Negócios. E este perdeu o que perdeu por má gestão, senão mesmo por gestão criminosa. Por isso – e porque o que a SLN perdeu, perderam-no os seus accionistas – o órgão estatutário máximo da sociedade, que é a sua Assembleia Geral, decidiu-se pela interposição de acções judiciais contra os titulares dos órgãos sociais (anteriores à tomada de posse de Cadilhe) “relativamente aos quais tenham sido ou venham a ser detectadas irregularidades”. Mas Cadilhe vai mais longe, sugerindo aos accionistas que interponham também acções contra o Estado, por erros, insuficiências ou culpas da supervisão da instituição.
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Este é o lado jovial da crise que nos atola. Uma tribo mundial de rendidos aos prazeres da vida – e se ela os tem!... – tomou a “mão invisível” de Adam Smith, prendeu-se à letra das palavras e confundiu a ideia de um funcionamento autónomo, harmonioso e automático do mercado com a compreensível ambição de um carteirista num comboio suburbano. Depois, mundializaram esta ideia (com a prévia e sensata cautela de tornarem o mundo seu) e entregaram o nacionalismo, que entenderam já não ter préstimo, ao desespero afectivo de um proletariado que minguava. Conheceram todos os mimos: a Louis Vuitton, o Aston Martin Lagonda e a trufa branca. Fomentaram outros, mesmo que salvos da nossa inveja: o ouro maciço num Rolex e o pequeno almoço no recato de um seis estrelas ,no Dubai, com a Céline Dion (e direito a fotografia autografada) –ou seja, tudo o que nos faz pele de galinha. Desmaterializaram o dinheiro, para que os pobres, ainda senhores da oponibilidade do polegar aos outros dedos, não o pudessem segurar. E a riqueza das nações tornou-se num murmúrio nocturno, que rumorejava em “overnights”, durante o sono dos justos. Constituíram, nas barbas da nossa inocência um tanto negligente, a versão facinorosa – a que alguns chamaram também ultramontana – do neoliberalismo. Na Europa, só se lhes atravessava no caminho a ideia de regulação. E, por isso, lhe moveram uma guerra sem quartel, não raro apoiada no ressentimento de vários aliados de circunstância. Se olharmos para o nosso próprio umbigo, vê-lo-emos. Pode, sem dúvida haver razões para criticar a Autoridade da Concorrência, a Asae, a ERC, a CMVM, o ISP, o BdP, a REN, a ERSE ou a Anacom. Pode a experiência europeia não ter produzido ainda a excelência regulamentadora. Mas, entre nós, qualquer delas, todas elas, gozam do apreço que o Casal Venoso votava ao polícia de giro. A bem dos interesses da tribo alienígena, mesmo quando é o povo que se queixa. E mesmo quando o faz com razão.
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A crise financeira mundial travou-lhes o passo e abriu os olhos aos gentios. Mas, como na saga do “Terminator”, não lhes pôs cobro. Enquanto não há reforma para o sistema, eles estrebucham e procuram uma nova moral que assenta na eliminação da responsabilidade. Os factos é que mandam: se as consequências são para todos, então o remédio terá de ser de todos também. A moral deixou de ser que o lucro era a contrapartida do risco. Além de sofrerem as consequências, agora querem que os povos as paguem. O Estado, que eles continuam a considerar congenitamente mau gestor, é acolhido e celebrado como um excelente pagador. Já não basta que acorra à protecção dos inocentes, há que vestir os culpados de andrajos e dissimulá-los por entre a multidão gemebunda.
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Por isso, não basta já serem defendidos no seu bom nome, por mero reflexo da defesa dos depositantes. Querem ser inocentados expressamente e indemnizados até ao último tostão por terem perdido a cautela que já todos sabemos branca (se não falsa). As eventuais culpas de Oliveira e Costa e outros não lhes pagam os prejuízos (ou a mera frustração de ganhos), mas se todos acorrerem a pagar isso resolve-se. Não importa que caiba à Assembleia Geral de accionistas escolher os gestores da sociedade e apreciar, em última instância, a sua gestão. Não vem ao caso que tenham aprovado as contas anuais sem fazer perguntas, enquanto o dinheiro afluía. É irrelevante que os Conselhos Fiscais e os auditores que eles escolheram tenham sancionado essa gestão. Mas, sobretudo, não conta que a regulação tenha em vista a defesa dos utentes: clientes, fornecedores, depositantes – todos os que alegadamente a supervisão não terá defendido da sociedade. Houve ali “falha de Estado” e o Estado tem de pagar, até que o último milhão do accionista seja salvo pelo último cêntimo do contribuinte.
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Era interessante que a tese tivesse pés para andar. Isso diria muito sobre o nosso Direito e/ou sobre a nossa Justiça. Mas se Cadilhe acreditasse nisso, era a própria sociedade quem accionava o Estado.
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«DN» de 21 de Dezembro de 2008
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domingo, 14 de dezembro de 2008

COISAS DO DESASSOSSEGO

Por Nuno Brederode Santos
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EM FUNDO, ESCASSOS RECURSOS e grandes necessidades. A crise força os governos a aliviar a rigidez dos seus critérios. Permite às oposições cavalgá-la, exigindo o instante e o adiável, o necessário e o supérfluo. Faz saltar os interesses menores, pelo medo de serem duradouramente preteridos pelos maiores. Acentua - e, em regra, bem - a suspeição, sobre quem pede ou reclama, de o fazer em nome de interesses. Agora, junte-se a isto a iminência de eleições e a ideia, que a experiência dos povos não desmente, de que o poder político costuma sorrir para adoçar o esgar (ou, como disse Narana Coissoró na SIC Notícias, no embalo naïf de uma cumplicidade espúria com a oposição de esquerda de Fernando Rosas e corroborando a crítica à contenção e às restrições do momento: "A nove meses de eleições, este Governo devia ser um governo doce, esbanjador e despesista"). Isto faz-nos o clima, mais do que a chuva do Outono que outoniza. Nem apetece sair de casa.
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Até para não tropeçar no lixo que se acumula, fede e ninguém apanha. Uma greve inesperada apontou-nos, pior do que ao coração, ao Natal. Em calhando, até terá os seus motivos. Não sabemos. Porque o afã de pôr a gritar na rua, em sucessão ininterrupta, tudo o que tiver razões de queixa, leva por vezes a esquecer de explicar, bem explicadinho, o transtorno que causamos a terceiros. Claro que o sindicalismo de sempre conta com esse transtorno, mas costumava ser para explicar e suscitar solidariedades. Agora, parece que não há tempo. Basta dizer que há a suspeita de que a Câmara quer privatizar a recolha do lixo no Chiado e nos Olivais. O Presidente da Câmara diz que nem lhe é possível dialogar, porque nada sabe, a não ser que tem, na secretária, o pré-aviso de outra greve. No meu pacato quotidiano, uma classe média que comigo partilha o atavismo de pensar que talvez não seja indispensável contratar com terceiros a recolha do lixo urbano (a não ser nas improváveis condições de um notório benefício para a cidade), começa a ponderar se fazê-lo não será o melhor modo de acabar com mais um foco de mal-estar.
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Mas ficar em casa não resolve todos os problemas, nem sequer os maiores de entre eles. Porque, ao mesmo tempo que isto ocorre à nossa porta, os media metem-nos lá dentro outra gloriosa arruaça na Assembleia Legislativa da Madeira, culminando com um discurso intimista de Jardim (no qual até aproveitou para explicar por que razão é malcriado). "A figura do Estado unitário não serve", repetiu ele. Para logo acrescentar que "ou a República respeita a Madeira ou (...) assumirá as suas consequências". Acossado pela incompreensão geral quanto ao seu comportamento para com os desmandos de Jardim, o Presidente da República aproveitou um incidente com deputados faltosos em S. Bento para, como quem não quer a coisa, fazer doutrina: o Presidente não interfere no funcionamento interno das Assembleias, seja a da República sejam as das ilhas (cuja equiparação, no caso, não podia ter outro a propósito). Talvez chegue em auto-avaliação. Mas, se me é permitido avaliar também, não chega. Porque o que está em causa não é matéria do regimento da Assembleia Legislativa, nem sequer já a sonora proclamação de princípios contrários à Constituição que nos rege. É, muito mais singelamente - e por estulta que seja -, uma ameaça ao regime. E uma ameaça que cresce perante cada manifestação de fraqueza contemporizadora de Belém. Não se quis ligar aos "cubanos do Continente", porque talvez a expressão fosse galhofeira. Não se quis ouvir os "colonialistas de Lisboa", porque se preferiu levar à conta de um transporte humoral. Então tomem lá a expressão singela e sóbria, rotunda e escorreita, do seu pensamento: ele fala da República. Essa mesma. A que tem uma Constituição por zelar. E se quem pode o mais pode o menos, o Presidente, que ainda tem meios e poderes para intervir na vida das regiões e que, com os olhos postos nos Açores, já se dirigiu ao país inteiro, teria as oportunidades que quisesse para varrer a testada da instabilização, provocatória e permanente.
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Que o PSD não o faça, que nenhum líder nacional tenha coragem (que hoje é já força) para o fazer, é problema dele e dos seus filiados. Mas o respeito pelo património político nacional cabe a quem os portugueses votaram para o efeito. E não há improviso doutrinário que nesta matéria os engane.
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«DN» de 14 de Dezembro de 2008 - Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.