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segunda-feira, 10 de maio de 2010

Bem Bom Mais

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Por Rui Zink

É BONITO que esta semana se cumpra sob o signo do BB+. Refiro-me, obviamente, à vitória do Benfica e à visita de Bento XVI. Têm a minha simpatia porque ambas trazem, a uma quantidade impressionante de pessoas, duas coisas importantes: alegria e esperança. Mas é verdade que não é só por altruísmo que me alegro com a felicidade e fé alheias. Sim, também é porque... daí saco vantagem. Pessoas felizes são mais generosas, mais atenciosas, têm menos tendência a chatear o próximo (ou seja, eu) do que pessoas frustradas, ressentidas. Corro menos riscos de ser atropelado, levar um tiro ou ser mal atendido na repartição – e não ser atropelado nem levar um tiro nem ser tramado com a papelada são (vá lá saber-se porquê) coisas a que ligo alguma coisa. Há anos o comandante da Brigada de Trânsito da GNR confirmou-me esta tese: quando a vida corre bem aos portugueses, somos menos agressivos ao volante e há menos desastres.

O Braga por acaso também começa por B, fazendo o triângulo perfeito, sendo que Braga sempre foi a cidade mais religiosa de Portugal. Também não desmerecia ganhar. Mas a vitória do Benfica conjuga-se melhor – a começar pelo nome do treinador – com a vinda de Bento, que até tem nome de antigo guarda-redes do Benfica. Por isso não alinho com a malta ateia em abaixo-assinados pela “laicidade”. Sabiam que também num ateu o fanatismo é uma chatice? E quanto a vós, amigos do Porto: cadê o mal de, depois da vossa fartura, o Benfica ganhar? Hã? Aprendamos, com o Pai, com a Mãe, com o Tio, com o Roque, com a Amiga, a viver e a deixar viver. Sobretudo numa altura em que as agências de “reitingue” nos tiraram o AA+, é bem bom termos pelo menos esta semana de festejos BB+. Viver e deixar viver, ouvisteis, pá? Aceitar como nossa a alegria dos outros. Ide por mim. É tão simples que nem parece complicado. Viva o Benfica! Viva Bento XVI! Viva Bortugal!

sábado, 17 de abril de 2010

O homem que move montanhas

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Por Rui Zink


JOÃO GARCIA é o mais português dos portugueses e, ao mesmo tempo, o menos português. A esta hora está a escalar (a TENTAR escalar, ou seja, a escalar MESMO) o Annapurna, a mais temível das montanhas, e a única que lhe falta no admirável currículo. Pode até nem ter ainda as botas na neve. Se calhar está a comprar material, mas a escalada já começou, pois nas montanhas (como em tudo o que vale a pena) o mais importante são os preliminares. No caso do João, sei que a logística não é a sua parte favorita. Ele gosta mesmo é de estar no terreno, é aí que se encontra consigo mesmo. Mas, como bom profissional, sabe que não pode descurar a parte “entediante” da aventura. Nisso o João não está sozinho. Todas as pessoas que tentam escalar uma qualquer “montanha” (seja nas indústrias do ensino, do futebol, do calçado) sabem que assim é. Não é possível, para quem quer ser profissional, desconhecer as diversas componentes da sua arte, saber, mister.

O que deu ao João Garcia esta mania de subir montanhas? Uma resposta possível é o clássico “Porque estão lá.” E confere. Desde que a humanidade existe que não pode ver nada sem ir lá mexer. Por isso, sim, daqui a trinta anos haverá viagens Abreu para Marte (e provavelmente só de ida). Mas a melhor resposta nunca pode ser dada pelo próprio. Por sorte eu não sou o próprio e posso dá-la: ao subir o Annapurna, o João Garcia comove-me e dá-me alento para voltar àquela aula que não anda a correr bem, àquele livro que não desencalha, àquele adolescente que me anda a dar água pela barba, àquele emprego em que já não me revejo, àquele casamento a afundar-se, àquela conta que tenho para pagar e não sei onde desencantar o dinheiro. Se alguém me perguntar hoje por que raio não desisto, talvez responda: “Porque o João está lá, a escalar o Annapurna.”

terça-feira, 6 de abril de 2010

Vamos amar-nos?

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Por Rui Zink

SE HÁ COISA EM QUE O PC TEM RAZÃO é que o Sol quando brilha é para todos nós. Até ver, certo. Mas por enquanto é uma das coisas boas (e gratuitas) que há em Portugal. Ainda me lembro do tempo em que se podia entrar numa leitaria e pedir um copo de água, sem ter de pagar um euro e tal. Lá chegará a altura em que o próprio Sol será pago, mas… ainda não chegou. E com o Sol vem a Primavera, e as flores e os passarinhos, e os coelhinhos ululantes e as rolas arfantes. E o amor, claro, pode lá viver-se sem amor, sobretudo em Portugal.

Eu hoje tinha planeado dizer uma ou duas coisas de esquerda, até para tirar a poeira às minhas ideias de esquerda, mas não é preciso. Para quê, se agora até já o PSD é de esquerda? Para quê, se em todos os jornais directores e cronistas zurzem com indignação os “salários obscenos” (sic) dos gestores & administradores portugueses? Para quê eu levantar a lebre, se são os próprios neo-liberais que já se chocam com os “prémios de má gestão”, exigindo antes Solidariedade em nome da “coesão social”? É bonito. E é estranho: para onde foram os que, há apenas meses, se queixavam da “Inveja” como o Grande Mal português? Sei que não morreram, mas andam metidos na toca. Ora bem, já que não é preciso eu falar disto, falo então do amor. A Primavera está aí, o Sol brilha para todos nós (sim, já disse, mas soa tão bem…), só há uma coisa a fazermos: amarmo-nos uns aos outros. Não digo espiritualmente, isso é bom para o Inverno, digo darmos mesmo o corpinho ao manifesto.

Vá, então, arranje alguém para namorar. Ou, se o seu problema for a timidez, consulte os classificados. Um dos lados bons do desemprego é que passa a haver mais gente a oferecer serviços íntimos (logo, os preços baixam). É assim que funciona a economia. Já sei, está a perguntar: “Então e se eu não tiver dinheiro para alugar o amor de que necessito (e que mereço)?” Nada de pânico. Neste caso a solução é sermos nós mesmos a pôr o anúncio, e assim até ganhamos uns cobres. Seja como for, vamos amar-nos?
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In Metro

terça-feira, 23 de março de 2010

O que eu sempre soube acerca das mulheres mas ainda assim tive de perguntar

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Por Rui Zink

TRATAM-NOS MAL mas querem que as tratemos bem. Apaixonam-se por serial-killers e depois queixam-se de que nem um postalinho. Escrevem que se desunham. Fingem acreditar nas nossas mentiras desde que tenhamos graça a pregá-las. Aceitam-nos e toleram-nos porque se acham superiores.
São superiores. Não têm o gene da violência, embora seja melhor não as provocarmos. Perdoam facilmente mas nunca esquecem. Bebem cicuta ao pequeno-almoço e destilam mel ao jantar. Têm uma capacidade de entrega que até dói. São óptimas mães até que os filhos fazem dez anos, depois perdem o norte. Pelam-se por jogos eróticos mas com o sexo já depende. Têm dias. Têm noites. Conseguem ser tão calculistas e maldosas como qualquer homem, só que com muito mais nível. Inventaram o telemóvel ao volante. São corajosas e quando se lhes mete uma coisa na cabeça levam tudo à frente. Fazem-se de parvas porque o seguro morreu de velho e estão muito escaldadas. Fazem-se de inocentes e (milagre!) por esse acto de vontade tornam-se mesmo inocentes. Nunca perdem a capacidade de se deslumbrarem. Riem quando estão tristes, choram quando estão felizes. Não compreendem nada. Compreendem tudo. Sabem que o corpo é passageiro. Sabem que na viagem há que tratar bem o passageiro e que o amor é um bom fio condutor. Não são de confiança, mas até a mais infiel das mulheres é mais leal que o mais fiel dos homens.
São tramadas. Comem-nos as papas na cabeça, mas depois levam-nos a colher à boca. A única coisa em nós que é para elas um mistério é a jantarada de amigos – elas quando jogam é para ganhar.
E é tudo. Ah, não, há ainda mais uma coisa. Acreditam no Amor com A grande mas, para nossa sorte, contentam-se com pouco.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Os corruptos, nossos amigos


Por Rui Zink

JÁ AQUI TIVE OPORTUNIDADE de explicar que o princípio de “não bater nos mais fracos” não faz qualquer sentido. Porque, se não for nos mais fracos, vamos bater em quem? Pois hoje venho explicar que o abuso de poder é bom. Não digo para os abusados, mas para quem abusa. E daí? Toda a gente diz mal dos abusadores, dos corruptos, mas esquecemos que os abusadores também são gente. E merecem ser acarinhados. Sem condições, sem apoios, claro que é difícil para um português, por mais que se esforce, atingir o nível competitivo de um Madoff, ou mesmo um traficante afegão.

De resto, só quem não tem poder resmunga contra quem beneficia abusivamente desse poder. Eu, por exemplo, detesto dar aulas. Em compensação, a parte do chumbar alunos já acho gira. É a recompensa possível pelas humilhações sofridas a falar para o boneco. Da mesma forma para um “dirigente”, depois do tempo perdido a aturar eleitores durante a campanha, depois de tanto sorriso, tanto beijinho, tanta faneca assassinada, a tomada do poder é como chegar a casa ao fim dum longo dia de trabalho: uma pessoa só quer pôr-se à vontade e relaxar. E untar as mãos com um pouco de mel ou, como dizem os franceses, enfiá-las num “pote de vinho”. Qual é o mal? Mas não, nunca se está descansado, vem logo alguém relinchar que “ser corrupto é feio”. Está bem, feio será. Mas sabe tão bem…

Porque a triste verdade é que o exercício do poder só dá gozo se abusarmos dele. Não o fazermos... é o mesmo que não o ter. Porque estamos apenas (como dissemos em campanha) “ao serviço dos concidadãos”. E, isso sim, é uma seca. Então andei eu a esfalfar-me, a fazer fretes e mais fretes (na Jota ou noutro local igualmente lindo), a fazer contactos, a lamber botas, a bajular chefes, para acabar feito criado a servir os outros? Ná.

«Metro» de 1 Mar 10

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Natureza selvagem

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Por Rui Zink

TODO O PORTUGAL É BONITO, mas nada se compara à beleza dramática da Madeira e dos Açores. Em compensação, os Açores são nove ilhas espartilhadas e a Madeira tem o Alberto João. E, antes da Europa e do avião barato, sofreram um isolamento que os levou a emigrar em massa: da Madeira para a Venezuela e África do Sul, dos Açores para a América.

A tragédia de anteontem lembra-me outra que abriu a década: a queda da ponte de Entre-os-Rios. Também então, ainda em choque, se começou a tentar “apurar responsabilidades”. Muito gostamos nós disso. Evidentemente, passados anos, nenhuma “responsabilidade” foi “apurada”. Apenas houve um ministro que se demitiu, admitamos que por pudor. Hoje, ao que consta, “está na construção civil”, como tantos ex-colegas, onde mercê da sua “experiência” ganha concursos para “obras públicas”.

Pois no apurar das responsabilidades na Madeira há já duas teorias:
1) faltava um “radar meteorológico”, 2) houve construção desordenada. As duas não se excluem, nem têm de estar certas. Até porque não é humanamente possível prever tudo. Mas infelizmente estamos escaldados; já temos tradição de a construção, mais do que “civil” ou “pública”, ser muitas vezes “selvagem”. Já nem vou falar do IP5, tragédia anunciada desde o início pelas incongruências do traçado, apenas lembrar “azares” recentes: a falésia no Algarve, o desabamento na CREL, o magnificamente abafado “acidente” entre viaturas oficiais a 120 à hora na Avenida da Liberdade.

Num país obcecado pelo “fazer”, pelo “fazer obra”, pelo “desenvolvimento”, convém lembrar que cá se fazem, cá se pagam. O problema é que, obviamente, quem “paga” não é geralmente quem “faz”. Mais do que “apurar responsabilidades”, convinha começar por apurar, afinar, o nosso sentido de responsabilidade. O país melhorava. Mas eu bem sei o difícil que é combater a nossa natureza selvagem….

«Metro» de 22 Fev 10