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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Proximidade

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Por João Paulo Guerra

É REVELADOR que perante uma austeridade que já está a fazer sofrer milhares de portugueses, e vai fazer sofrer muitíssimos mais, as manifestações de preocupação e solidariedade surjam da parte de instituições e pessoas que mantêm com as populações relações de proximidade.

Estou a falar das notícias de iniciativas que começam a surgir todos os dias por parte de igrejas, autarquias e escolas, que lidam directamente com as pessoas e com o seu sofrimento, e não têm de tudo isso apenas visões abstractas, insensíveis e reduzidas a números, como é o caso do poder central.

Uns mais que outros, os governantes são cada vez mais uns petulantes que passam pelo povo a alta velocidade e rodeados de escoltas, dentro de carros de vidros fumados, para encontros com os seus iguais, do país e da Europa, tão distantes como eles próprios de quem os elege e lhes paga as contas. A classe política, passada a tormenta das campanhas eleitorais, em que é forçada a descer até junto do povo eleitor, uma vez eleita reduz o povo a percentagens, vazias de pessoas e de casos humanos. Lá do alto vislumbra-se a abstracção de um quinto da população em situação de pobreza, mas não se vêem os pobres. Nos círculos do poder tudo é conforto, bem-estar, abastança e ostentação. É por isso que, nas fotos de família, os governantes estão sempre satisfeitos consigo próprios, risonhos, por mais tristonhos que andem os respectivos governados.

Ao contrário, as instituições que lidam em proximidade com a população sabem que a austeridade não consiste tão simplesmente em meia dúzia de algarismos que se cortam nos orçamentos. E a pobreza tem caras, nomes, casos, tem filhos e família, tem aflições e desespero, enquanto a caravana do poder passa, cercada de seguranças e de altivez.
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«DE» de 11 Nov 10

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

'Déjà vu'

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Por João Paulo Guerra

QUEM TENHA participado, testemunhado ou simplesmente assistido como mero espectador ao fim do regime do chamado Estado Novo anda agora a tropeçar frequentemente em situações que deixam uma vaga percepção de déjà vu.

Não falo em movimentos de capitães ou conspiratas de generais, mas falo em deslocações de movimentos sociais que, de um dia para outro, alteram substancialmente a relação das forças no enfrentamento político. O mais recente déjà vu foi o duríssimo ataque da hierarquia da Igreja Católica à política desumanizada consignada no acordo de viabilização orçamental entre o Governo e o PSD. Os apelos à "resistência" a tal acordo, ao mesmo tempo que os bispos denunciavam a falta de verdade nos centros de decisão da gestão pública, são de uma dureza rara. Como comentava uma socióloga no DN, "o implícito foi bastante explícito".

No estertor do fascismo, também o regime foi perdendo e perdeu o pilar da fé. A persistência cega na guerra, cada vez mais brutal, destruidora e sanguinária, os massacres, a injustiça social e a repressão levaram a um implícito, bastante menos explícito, afastamento da Igreja em relação ao regime. Eram tão surpreendentes certas homilias, como dar pela presença de jovens oficiais nos comícios da oposição democrática. Ou simplesmente ver figuras da cultura a desertar das hostes do poder.

Com todas as abissais diferenças entre dois tempos que não têm comparação, as críticas frontais da hierarquia da Igreja à falta de verdade no jogo político a que agora se assiste fizeram recordar outros tempos, quando um poder se desmoronava em ruínas e uma classe política apodrecida persistia na mentira como derradeira colete de salvação. Diziam que "reinava a calma em todo o país".
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«DE» de 10 Nov 10

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Circo

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Por João Paulo Guerra

A DESQUALIFICAÇÃO da classe política está na ordem do dia e ainda ontem, em entrevista a este jornal, o dr. António Vitorino dizia que “há um empobrecimento das lideranças”. Basta olhar em redor. Ou entrar em cada sede partidária e percorrer a galeria dos líderes. Lá estão, a olhar para a posteridade, Mário Soares, Sá Carneiro, Freitas do Amaral, ou Adriano Moreira, ou até mesmo Francisco Lucas Pires, o velho Álvaro Cunhal. Independentemente do respectivo ideário, havia alguma grandeza naquelas figuras. Agora pensemos nos próximos cromos a juntar às galerias e só vemos retratos ‘a la minute' de pequenos, apressados e fugidios líderes, pouco ou nada significantes perante a História.

E esta é a geração que inventou precisamente os contratos por objectivos e a avaliação permanente: os objectivos ficaram nos patamares dos mais absolutos fracassos e a avaliação, a ter sido feita, daria um fiasco comprometedor. E não venham com a conversa de que a avaliação da classe política é feita nas urnas porque ao povo só lhe resta votar no que há, no que as cliques partidárias lhe servem à mesa das eleições, com acompanhamento de demagogia banhada em corantes e conservantes.

Imaginemos que as promessas eleitorais passavam a ser contratos por objectivos assinados pelos governos. Baixar o défice, não aumentar impostos, criar 150 mil empregos e outras balelas. A esta hora haveria filas de ex-ministros e ex-secretários de Estado no balcão para o subsídio de desemprego.

E algum governo cumpriu a promessa de fazer funcionar a Justiça, estabilizar o sistema educativo, garantir saúde aos portugueses, acabar com as pensões de miséria, criar postos de trabalho? Ou os portugueses andam todos a fingir que acreditam em números de ilusionismo de um circo de artistas decadentes e falhados?
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«DE» de 9 Nov 10

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Blindados

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Por João Paulo Guerra

JÁ LI NUM JORNAL que os alertas que têm invadido os jornais sobre putativos motins e outros distúrbios iminentes em Lisboa são simplesmente uma cartada do MAI para justificar a despesa extraordinária de 5 milhões com a compra de blindados anti-motim para suposta segurança da Cimeira da NATO.

Como em campanha publicitária, os alertas têm subido de dramatismo à medida que se aproxima a data da Cimeira e que os blindados não chegam. Há jornais que publicam verdadeiros ‘features' dos serviços secretos com as mais estrambólicas ameaças que andarão a pairar sobre o coitado do português. Perigosíssimos terroristas, que no dia seguinte são designados por extremistas, depois por anarquistas, mais tarde por esquerdistas, estarão entre nós preparados para pôr Lisboa de pantanas, mergulhada numa onda de inaudita violência.

De maneira que me parece que a jogada é mais ampla. Trata-se não apenas de justificar o dispêndio de 5 milhões em tempos de apertos, como também de diabolizar o cidadão que, no uso dos seus direitos, critique a NATO, a Cimeira de Lisboa e a ideia de globalização da Organização dita Atlântica. Quem o ousar é obviamente um malandrim a soldo do famoso Bin Laden, portador de armas de destruição maciça como as que ninguém encontrou no Iraque, merecedor de ser entregue à voragem das lagartas dos blindados.

Outra hipótese, também já aventada nos jornais, é que os blindados vão chegar à PSP, mas não para a Cimeira da NATO. Então para que serão os blindados anti-motim? Para a greve geral ou outras greves e manifestações que aí venham de contestação à austeridade de uma banda só? Só faltava mais essa. Que a política de empobrecimento extremo dos portugueses se escudasse por detrás de novos émulos do capitão Maltês ou do tenente Carrajola.
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«DE» de 8 Nov 10

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Miséria

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Por João Paulo Guerra

OS SINAIS de degradação social, fome e miséria não esperaram sequer pela entrada em vigor do Orçamento que vai reduzir Portugal a um país de indigência.

De facto, a penúria dos portugueses já vem por detrás, de crise sobre crise, e o Orçamento dos partidos que mais se têm governado enquanto desgovernam o país, apadrinhado pela banca, pelo embaixador dos EUA, por Sarkozy e pela Merkel, só vai agravar a míngua nacional a extremos nunca vistos, nem sequer nos tempos do governo do Bloco Central e da fome em Setúbal. Ontem, os jornais davam conta que já tinham disparado os pedidos de ajuda alimentar às Misericórdias, à Cruz Vermelha e ao Banco contra a Fome, ao mesmo tempo que se multiplicam os pedidos de ajuda de portugueses que se libertaram do álcool e da droga e que a crise levou a que caíssem de novo na dependência.

É este o país que José Sócrates vai deixar a quem vier a seguir, depois do PS apagar a luz e bater com a porta. Um país condenado à degradação pela mais brutal insensibilidade social, pela subjugação a interesses alheios e opostos aos do país e do povo. Mas na verdade não é apenas este governo do PS que desentranhou Portugal do rol dos países com direito à dignidade. A política de desastre vem de longe e foi partilhada pelas três famílias políticas que governaram Portugal nos últimos 30 anos. Foi a política desastrosa que desmantelou em Portugal todo e qualquer resquício produtivo - acabou com a agricultura, com as pescas, com parte essencial da indústria, liquidou os transportes, arruinou o comércio. Essa política deliberada, que destinou Portugal a ser um país de especulação e de campos de golfe, é a causa da ruína do país e da miséria de milhões de portugueses.

Muitos o pensam, embora poucos o digam.
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«DE» de 3 Nov 10

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Alguém tem que ceder

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Por João Paulo Guerra

A COMÉDIA romântica com argumento e realização de Nancy Meyers intitulada “Something’s Gotta Give”, exibida em Portugal com o título “Alguém tem que ceder”, conta a história de um ‘playboy’ irrecuperável perdido entre a mais recente conquista e a inesperada mãe da jovem.

Pelo meio, o ‘playboy' é traído pelo coração propriamente dito, o jovem médico assistente antecipa-se na sedução da mãe da miúda e o filme acaba bem, romanticamente, em Paris.

E só mesmo o título é que pode sugerir alguma comparação com a banal ‘sitcom' de política de cordel entre dois partidos tão sequiosos de poder como ansiosos por se livrarem do incómodo de ter que prestar contas pela governação. A política portuguesa está cheia de fugitivos, de agentes políticos que fazem da política o trânsito para a vida regalada - até agora - dos conselhos de administração, com prebendas, sinecuras, tachos, penachos e regalias correlativas. Não há memória de qualquer político que tenha ficado mal na vida e não foi seguramente à custa do subsídio de reintegração.

A cena em exibição entre Governo e PSD é de baixa comédia e baixinha política. O Governo, por mais que diga, tem mais medo de eleições que do FMI. O PSD, por mais que conte, quer que o PS faça o trabalho sujo de pôr em vigor este Orçamento saqueador. O Governo quer que o PSD se comprometa com o Orçamento para que o ónus não bata apenas à porta do Largo do Rato. O PSD quer deixar o PS, sozinho, a contas com alguma fúria do eleitorado. E o povo que paga o bilhete para o triste espectáculo, também paga os cenários, o guarda-roupa, os adereços, os efeitos especiais, as comedorias, mais as vitualhas do banquete.

Alguém tem que ceder? Que ceda o povinho que é para isso que cá anda.
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«DE» de 29 Out 10

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Adivinha

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Por João Paulo Guerra

ESTIVE VAI-NÃO-VAI para apostar que o acordo para viabilização do Orçamento era aprovado terça-feira, mesmo a tempo da apresentação da recandidatura do professor Cavaco Silva.

Mas afinal aprendi que o mais avisado é seguir o conselho de um velho pensador português: prognósticos só depois do jogo.

Uma das razões porque apostaria era de ordem zodiacal: acabáramos de entrar no Escorpião, o signo magnético do senhor dos propósitos, do alto preço, o guerreiro que procura o caminho infalível para atingir os seus objectivos, para além do visível, com Marte como planeta regente, e com Vénus e a Lua cooperativos. Outra, mais prosaica e terrena, era simplesmente porque a delegação do PSD às conversações com o Governo haveria de querer acorrer ao CCB, a marcar presença no beija-mão. Afinal a delegação foi ao beija-mão mas de mãos a abanar quanto a compromisso para viabilizar o Orçamento.

Enganava-me pois e admito-o. Nisto de palpites até o polvo Paul, que ficou célebre por acertar nos vencedores dos jogos do último Mundial de futebol, terá falhado o derradeiro prognóstico, não adivinhando que iria morrer de causas naturais no aquário de Oberhausen.

Há no entanto um enigma na alocução do recandidato que "continua a ser Presidente". É quando o professor diz que "qualquer Governo contará sempre" com a sua "cooperação na resolução dos problemas do país". Ninguém se meta a adivinhar. Mas esta referência a "qualquer governo" poderá trazer água no bico. E o pote da água que traz a alusão no bico pode ser, por exemplo, um chumbo do Orçamento, como também pode muito bem não ser. Especular é uma contemplação própria do raciocínio humano mas adivinhar é do domínio da bruxaria. E para o Dia das Bruxas ainda faltam três noites.
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«DE» de 28 Out 10

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Negociações

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Por João Paulo Guerra

VAI POR AÍ uma certa confusão: quem negoceia a viabilização do Orçamento é o Governo do PS com o PSD. Mas a matéria em negociação diz respeito aos que não têm voto nesta matéria: os portugueses que vão ser espoliados de direitos e condições de vida mais dignas. Com isto não se contesta a legitimidade democrática dos partidos para formarem governos e constituírem-se oposições. Mas os partidos, como o nome indica, são uma parte. E o todo é que sofre.

De maneira que para os partidos o regateio do voto para o Orçamento pode situar-se ao nível da taxa do IVA sobre o leite achocolatado, como outrora se situou na aprovação de uma fábrica de queijo. À mesa das negociações, os partidos defendem os respectivos interesses de poder e vendem-se por bagatelas. Entretanto, a matéria negociada corta nos salários, nas pensões e abonos, suprime subsídios, aumenta impostos, faz um inferno da vida das pessoas concretas que, bem vistas as coisas, são quem paga as contas.

Ou seja: os portugueses em geral trabalham, recebem, consomem, pagam impostos, alimentam o mercado interno e a máquina do Estado. Os partidos formam governos, governam ou desgovernam. E em caso de desgoverno são os próprios partidos que estabelecem as penas a que os cidadãos vão ser condenados pelos resultados das más políticas governativas. E o cidadão não tem recurso? Tem. O recurso é a alternância dos últimos 35 anos por parte de três partidos que já formaram todas as combinações possíveis para dirigir a máquina do Estado, com os resultados que estão à vista.

Nos momentos de grandes decisões é que se vê o fosso entre governantes e governados. Governantes são aqueles que posam para a fotografia, sorridentes, enquanto trocam chalaças sobre o IVA no leite achocolatado
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«DE» de 25 Out 10

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Liberdade

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Por João Paulo Guerra

PORTUGAL DESABOU 10 furos para um 40.º lugar na tabela mundial da liberdade de imprensa elaborada pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras (RSF).

Desde que os RSF publicam a sua tabela, em 2004, esta é a cotação mais baixa da liberdade de imprensa em Portugal. E é caso para perguntar o que ganha Portugal com as mentalidades, os comportamentos, os tiques de arrogância e intolerância que determinaram a queda na classificação? Não ganha nada. Só perde num domínio que é pedra-de-toque da democracia e dos direitos humanos.

Os Repórteres Sem Fronteiras não fundamentam a causa do trambolhão que coloca Portugal vizinho da Tanzânia e da Papua Nova Guiné em matéria de liberdade de imprensa. Mas os "casos" do ano, referentes a Portugal em matéria de liberdade de imprensa recenseados pelos RSF são bem claros: o roubo de gravadores de jornalistas da revista Sábado por um deputado do partido do Governo e os processos judiciais contra o jornal Sol, nomeadamente movidos por um ex-representante do Estado na Administração da PT. Ambos os casos foram protagonizados por meteóricas estrelas do partido do Governo, cuja ascensão na escadaria do poder terá sido directamente proporcional ao trambolhão que terão dado na consideração pública.

O que é particularmente preocupante é que a queda da cotação do país na tabela da liberdade de imprensa acompanha a decadência acentuada do nível de vida dos portugueses. O que parece dar razão a quem pensa, diz e escreve que as políticas restritivas, que impõem sempre os mesmos sacrifícios à mesma maioria da população, são inseparáveis da restrição dos direitos e liberdades dos cidadãos. A senhora Merkl, paradigma dos governantes da direita neoliberal à esquerda envergonhada, já explicou o que é que anda por aí no rastro da austeridade.
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«DE» de 22 Out 10

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Extintores

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Por João Paulo Guerra

CONTAVA o Diário de Notícias na edição de ontem que o Governo, no seu afã de exterminar algum Estado, se propunha extinguir nove organismos extintos.


Não é original. Já em Junho de 2002 o Governo de Durão Barroso determinou a extinção de organismos extintos. Anteriormente, em plena época pantanal, o Conselho de Ministros dera 15 dias para que os vários ministérios apresentassem uma lista dos organismos públicos que poderiam ser "extintos, reformulados ou fundidos". Porém, em cima da herança do Secretariado para a Modernização Administrativa "cavaquista", o "guterrismo" limitou-se a fundar o Programa Integrado de Formação para a Modernização Pública. Uma década depois, será possível saber o que ganhou e perdeu o Estado entre o SMA e o PIFMP? Aliás, permanecem essas e outras questões a considerar nesta missão de liquidação, dissolução, fusão e confusão de organismos.

A grande questão é que não houve ainda um exterminador verdadeiramente implacável de organismos excedentários na máquina da administração de um país com organismos a mais e serviços a menos. E por cada organismo extinto, o governo extintor, ou o seguinte, cria outros tantos, candidatos a extinção futura. Um dia haverá uma comissão de extinção de organismos do Estado, que não deverá no entanto confundir-se com a comissão de ex-organismos extintos, nem com a comissão de extinção de organismos em vias de extinção ou sequer com a comissão de pequenos e médios extintores.

Importaria era saber como é que estamos de ERCTIS? E de PECLEC? E que há quanto a SIGIC? E como vamos de POC? Onde pára o GTADS? O actual Governo propõe-se extinguir a Comissão para a Optimização dos Recursos Educativos. Será que o organismo, criado há dois meses, não substituiu convenientemente o GAE e o DAPP?
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«DN» de 21 Out 10

terça-feira, 19 de outubro de 2010

E depois?

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Por João Paulo Guerra

OS PORTUGUESES vão acabar por entender, perante esta etapa da crise e face à brutalidade das medidas de austeridade, que tanto lhes faz como lhes fez votar PS ou PSD.


As políticas dos dois partidos são idênticas, apenas divergindo em questões de luta pelo poder. O PSD não está em desacordo com o Orçamento do PS: está a fazer o seu número de prestidigitação para tirar um Coelho da cartola, ao mesmo tempo que procura que seja o PS a fazer o trabalho sujo, que lhe desbaste o caminho. Enquanto isto, o PS vai tentando diferenciar-se do PSD invocando a defesa do Estado Social, com o que poderá enganar mais uns tantos que acreditem que o Estado Social se defende com um Orçamento intermediado pelos bancos, que esmaga as famílias com menos rendimentos e aumenta as desigualdades. Atente-se neste pequeno mas significativo pormenor: o Governo que corta a direito, atropelando assalariados e pensionistas, justifica-se com a alegada escassez de meios técnicos para não carregar um poucochinho sobre as chamadas pensões douradas.

E depois há outro motivo de reflexão: de que vale aos portugueses votarem PS ou PSD se o País é depois governado pela direita radical europeia? Nunca como hoje a Europa foi tão uniforme na coloração política. E três dos governos que escapam ao redil, apesar das afinidades das práticas políticas - Portugal, Espanha e Grécia - estão sob terrível pressão para arrasar o que resta da Europa social. A direita europeia subiu ao poder sobre os escombros da política direitista dos partidos socialistas e social-democratas e agora tem o terreno desbravado para acabar com os derradeiros resquícios de direitos sociais.

E depois? Depois as Merkl e os Sarkozy nomeiam os seus regentes e os Pê Esses passam à história por umas décadas.
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«DE» de 19 Out 10

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Nonsense

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Por João Paulo Guerra

PORTUGAL no seu dia-a-dia é um permanente tributo à memória de Raul Solnado. Nos anos 60, quando Solnado gravou a História da sua ida à Guerra, Portugal travava uma guerra absurda e incompetente, que municiava os batalhões da Índia com caixotes de chouriços e dispunha cozinheiros e escriturários, armados com obsoletas espingardas Mauser, para enfrentar um eventual desembarque da Real Marinha inglesa que bloqueava o porto da Beira. A expressão "isto parece a guerra do Solnado" passou mesmo a ser um dos mais frequentes desabafos das tropas mobilizadas.

Desde então, Portugal tem feito um assinalável esforço por adequar a sua realidade ao nonsense de Raul Solnado. E o nonsense cada vez faz mais sentido em Portugal. Ontem mesmo, a propósito da crise, o secretismo dos Serviços Secretos vinha posto a nu no jornal Público: dificuldades de tesouraria, problemas financeiros, dificuldades operacionais. Admite-se mesmo o cancelamento de operações, o fecho de «estações» e despedimento de «espiões». Portugal, que já se tinha notabilizado no ramo ao divulgar pelos 230 deputados do Parlamento mais os incontáveis membros dos gabinetes parlamentares a lista dos agentes secretos, põe agora em letra de forma, ou se preferirem em caracteres, as misérias dos Serviços Secretos.

Solnado já tinha visionado este panorama pelintra e amador. "Cheguei à guerra do inimigo, bati à porta, a sentinela espreitou pela frincha e perguntou: ‘Quem é?". E eu respondi: "Sou a Maria Albertina". Malandrice. "O que é que queres?". "Eu venho cá buscar os planos da pólvora". E ele perguntou. "Trabalhas d' espia há muito tempo?". "Trabalho desde as 11".

A história do Solnado está à beira da realidade, com "espiões" a recibo verde a espiarem o inimigo a prazo.
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«DE» de 12 Out 10

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Juros

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Por João Paulo Guerra

O FÓRUM NÃO GOVERNAMENTAL para a Inclusão Social considerou que 2010 está a ser o pior dos últimos 30 anos em Portugal em matéria de combate à pobreza.


É paradoxal porque o ano de 2010 foi proclamado pela Europa, da qual Portugal faz parte e à qual se submete, Ano de Combate à Pobreza e Exclusão Social. Dir-se-á que a crise caiu em cima do país de supetão, sem aviso prévio, não só impedindo o combate à pobreza e à exclusão mas impondo mesmo novas e mais duras medidas de austeridade. Mas quem o disse faltará á verdade. Porque a verdade é que Portugal anda de crise em crise e de austeridade em austeridade, moribundo pela doença ou às portas da morte pela cura, há duas ou três décadas e há cinco ou seis governos. E portanto nenhuma crise chega a Portugal de surpresa, como nenhuma promessa de tréguas na austeridade passa de pura e simples demagogia com fins eleitorais ou outros.

Quando no ano passado, no auge de um feérico calendário de três campanhas eleitorais, o Governo inaugurou «o início do fim da crise» sabia que a promessa valia tanto como aquela do governo e do partido que acenaram, nos anos 80, com salário para as donas de casa. Aliás, deitando a crise para trás das costas, o Governo interrompeu no ano passado um longo período de congelamentos salariais na administração pública, com aumentos que agora vão ser cobrados com juros usurários pelo Estado.

E é assim que no Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão Social o número de pobres vai disparar no País, ao mesmo tempo que os talibans neo-conservadores vão continuar a influenciar as políticas anti-sociais, na Europa e em Portugal, e a acusar os pobres de constituírem a causa da pobreza. Perguntava Almeida Garrett quantos pobres são necessários para fazer um rico? Cada vez mais.
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«DE» de 11 Out 10

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Cabrais

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Por João Paulo Guerra

O PARTIDO Socialista está estranhamente silencioso em relação à tremenda desigualdade social que resulta desta visão de austeridade governamental que penaliza irremediável e drasticamente os mais pobres. Ou será que, à semelhança de outras osmoses e outros fenómenos miméticos, o PS também absorveu do PSD a Lei da Rolha?

Raras vozes socialistas, marginais, lá se manifestaram criticamente em relação ao draconiano plano de austeridade do Governo do PS. Henrique Neto, sempre ele, denunciou o facto de a austeridade governamental não tocar na gordura do Estado nem nos interesses da oligarquia. Jorge Coelho comentou que se o consumo vai por água abaixo nos afundamos na recessão. Retirado da política para a política dos negócios, Coelho é o que resta do PS que em 2002 contestou a austeridade de Durão Barroso, responsabilizando-a por transformar uma crise financeira numa crise económica. Como transformou. E Henrique Neto é um homem de grande independência, porque, ao contrário da generalidade dos militantes e quadros satélites do PS, não precisa dos favores do aparelho, não anda a abichar colocações ou empenhos. De resto, no PS, zero em espírito crítico em matéria social.

Quando o PSD de Passos Coelho aprovou formalmente a adopção de uma famigerada Lei da Rolha, o PS chamou estalinista à decisão. Mas o estalinismo tem bigodes cada vez mais depilados e disfarçados. A rolha estalinista do PSD será a rolha democrática do PS. E se no PSD ninguém pode abrir a boca em matéria de eleição presidencial, no PS todos têm que aplaudir a austeridade que, de corte em corte, vai acabar por cortar a base eleitoral do próprio partido. Mas em silêncio. Afinal, toda esta casta política que agora até dá vivas à República descende dos Cabrais do século XIX.
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«DE» de 6 Out 10

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Gliese

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Por João Paulo Guerra

O GLIESE 581g, planeta rochoso que gravita em torno da estrela vermelha Gliese 581, na Constelação da Libra, tem três vezes a massa da Terra, gravidade suficiente para manter atmosfera, indícios de água.

O Gliese 581g é pois habitável. O problema é que fica a 20 anos-luz do planeta Terra. Caso contrário, seria um bom destino de emigração, agora que a Terra se está a tornar inabitável não apenas por razões ambientais mas também porque foi tomada pelos ‘talibans' neo-liberais.

Os terráqueos têm-se convencido que estão sozinhos no Universo e gabam-se de terem erguido várias civilizações que conduziram ao grau da civilização actual, a civilização. Mas eis que a civilização está cada vez menos civilizada e até já há quem defenda que isso de Direitos Humanos é relativo: haverá os Direitos Humanos que, sim senhor, são para cumprir; mas outros, são simples figuras decorativas, questões de forma, com zero de conteúdo. E esses serão os direitos sociais. Bem dizia um pensador norte-americano que, depois de vencer o comunismo, o capitalismo procuraria derrotar a democracia.

A globalização, ao fim de 500 anos de navegações a ligar os homens e a Terra, salda-se pela integração económica segundo as receitas do neo-liberalismo. E os homens comuns vão perdendo a esperança, perante um mundo desumano comandado por fanáticos do chamado mercado. Pelo caminho que as coisas levam, é fatal que a democracia - que já é posta em causa com total falta de pudor - a breve prazo seja arrumada no baú das tralhas do passado. Um país, o nosso, que corta com a mais absoluta crueldade no bem-estar dos cidadãos, investe ao mesmo tempo em equipamento de repressão policial.
Se ao menos Gliese 581g ficasse ali ao virar da esquina de um outro mundo...
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«DE» de 4 Out 10

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Está lá fora o inspector

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Por João Paulo Guerra

A PRIMEIRA INICIATIVA para rever a Constituição da República Portuguesa, na altura escrita e aprovada de fresco, foi da autoria de Francisco Sá Carneiro e continha um item memorável.


Rezava mais ou menos assim: Portugal aceita os limites à sua soberania decorrentes da integração europeia.

Isto de um país aceitar voluntariamente e por sua iniciativa limites à própria soberania seria coisa para arrepiar qualquer patriota. Mas a verdade é que as pátrias dos conservadores - sejam eles de que colorações forem - já não são o que eram. As pátrias passaram a ter o símbolo do mercado e a cor do dinheiro. De maneira que a soberania, a independência nacional, e coisas desse quilate, jazem numa espécie de vala comum dos valores, nas traseiras do Panteão Nacional.

Isto dito porque, como assinalam as gazetas, está lá fora o inspector. Não, não se trata da reposição da peça de teatro do inglês John Boynton Priestley que celebrizou João Villaret, em Portugal, e Fernanda Montenegro, no Brasil. O inspector que para entrar em Portugal nem sequer vai bater à porta, como o da peça, e que vem por aí dentro para vasculhar as contas públicas, é o liberal polaco Janusz Lewandowski, que tem como facto mais notável do seu currículo a titularidade no Ministério das Privatizações do primeiro governo de Varsóvia após o derrube do Muro, ali ao lado, em Berlim. O segundo facto mais notável foi ter governado de tal maneira que na legislatura seguinte não conseguiu sequer a eleição como deputado. Mas na Comissão Europeia o currículo necessário e suficiente é a escolha pessoal do dr. Barroso.

E estamos neste pé em matéria de democracia: os portugueses elegem um Parlamento, que escolhe um Governo, e depois vem de lá o inspector e decide.
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«DE» de 27 Set 10

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Cegueira

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Por João Paulo Guerra

LÊ-SE NOS JORNAIS e custa a crer: “A escola de Lamego que, no ano passado, foi escolhida pela Microsoft para integrar a rede mundial de escolas inovadoras, fechou as portas.


Os 32 alunos da EB1 de Várzea de Abrunhais - que dispunham de ‘wireless' e em cujas aulas os Magalhães trabalhavam conectados com o quadro interactivo - foram transferidos para um centro escolar onde não há telefone nem Internet".

Será possível? Claro que é possível. Passa-se em Portugal, onde toda a alarvidade fruto de uma política cega é possível. Fechou agora uma escola eleita pela Microsoft como já fecharam unidades de saúde acabadas de equipar. A EB1 de Várzea de Abrunhais nem sequer estava na lista negra das escolas com menos de 21 alunos que, por esse cego e estúpido motivo, estão condenadas ao encerramento. Fechou, porque sim. Porque o Governo manda e a Direcção Regional pode. E lá se vai a razão que colocou uma aldeia de Portugal no mapa-mundo da inovação tecnológica, o que parece não constituir motivo de orgulho para um país atrasado. Portugal prefere os trágicos recordes europeus do abandono e do insucesso escolar e da desertificação.

Há seguramente quem se recorde, como eu próprio me recordo, das primeiras escolas encerradas em Portugal pelos governos de Cavaco Silva - anos 80 e 90 do século passado - perante a maior indignação e a denúncia da oposição socialista, a nível central como local. Mas a verdade é que também os socialistas mudaram nas últimas décadas.

Cada escola que encerra é mais uma pazada de terra que se deita sobre o futuro de um Portugal ilustrado e desenvolvido. A política do fecho de escolas e de estabelecimentos de saúde é cega. Mas a cegueira do poder político é o complemento necessário e suficiente dos olhinhos das clientelas.
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«DE» de 24 Set 10

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Apoio

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Por João Paulo Guerra

O LÍDER DO CDS-PP apoiará o professor Cavaco Silva caso o actual chefe de Estado decida candidatar-se a novo mandato.

O líder do CDS-PP gosta tanto do professor Cavaco Silva como o professor Cavaco Silva gosta dele. E os anais da democracia portuguesa registam exuberantes trocas de piropos entre ambos. Paulo Portas, enquanto director de O Independente, disse do cavaquismo e dos cavaquistas o que Mafoma não disse do toucinho. O professor Cavaco Silva, no segundo volume da Autobiografia Política, situou Portas entre os jornalistas "pouco sérios e sem escrúpulos" que "aviltam a informação".

Mas o que lá vai, lá vai. E em matéria de candidatos e de eleitores indigestos, é do chefe Cunhal a receita dos sapos vivos. De maneira que o apoio de Paulo Portas a Cavaco Silva - que a verificar-se constituirá reincidência da opção de 2006 - é tão natural como tomar um purgante: tapa-se o nariz e lá vai disto.

Portas tem razões acrescidas para a sua opção. Primeiro, não quer queimar as pontes que poderão levá-lo de novo ao poder no marsúpio do PSD. Segundo, o apoio a Cavaco Silva é mais uma pazada de terra sobre veleidades de oposições internas. O único candidato a candidato que se manifestou na direita extra-cavaquista foi José Ribeiro e Castro e há protagonismos que o líder do CDS-PP não pode admitir nem a brincar. Há pois que desencorajar o candidato de consumar a candidatura. Por pequeno que fosse, o pecúlio de votos constituiria uma desautorização do conselho de Portas aos eleitores do partido.

Há dias passou na TV o filme O Mentiroso Compulsivo: o protagonista, forçado pelas circunstâncias, tem que dizer a verdade durante 24 horas. Se a verdade se tornasse compulsiva na política portuguesa, no dia seguinte começava a guerra civil.
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«DE» de 20 Set 10

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Análises

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Por João Paulo Guerra

BEM PODE António Arnaut clamar que “nem a falta de recursos deveria alguma vez pôr em causa o SNS”.

Os actuais governantes e dirigentes do partido do Governo não só não têm memória nem sensibilidade social, como não têm muito de socialistas. De maneira que encaram Arnaut, o fundador do Serviço Nacional de Saúde, como uma flor de lapela, um ornamento, um patusco, mas não lhe passam cartão. O PS continua a agitar a bandeira de António Arnaut, porque tem ali um taxímetro para facturar votos. Mas governos e ministros do PS têm liquidado na prática, em doses suaves ou à bruta, a herança de António Arnaut.

E assim, de corte em corte, o "tendencialmente gratuito" do SNS está cada vez mais caro e inacessível. Nem se percebe a contestação dos "pê esses" aos propósitos dos "pê esse dês" que querem riscar da Constituição da República um preceito que nenhum governo tem respeitado. Muito pelo contrário: um preceito que todos os governos têm desrespeitado.

O mais recente corte que se anuncia no sistema de saúde é um atentado não apenas ao espírito do SNS e à Constituição como também ao direito à vida de muitos portugueses, doentes ou gozando de saúde. De acordo com o Correio da Manhã de ontem, as análises e exames clínicos têm os dias contados de modo a que o Governo "poupe" 13 milhões nos encargos com a Saúde. Para já, trata-se de contas de mercearia: o Governo "poupa" numa parcela que lhe sairá muito mais cara no futuro. Em segundo lugar é um sinal da maior insensibilidade e desumanidade afastar milhares de portugueses da possibilidade de terem um diagnóstico precoce de uma eventual doença. Há pacientes portugueses que se salvaram de doenças cardiovasculares como de doenças oncológicas mas que temem agora não sobreviver à política de saúde do actual Governo.
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«DE» de 17 Set 10

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Escape

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Por João Paulo Guerra

O PRESIDENTE da Pastoral Social, o bispo Carlos Azevedo, verberou o actual “modelo económico” considerando-o “indecente, injusto, desigual, desproporcionado, dele resultando o agravamento da pobreza e da exclusão social”.


As palavras do bispo Carlos Azevedo, pelo conteúdo e pela forma, estão obviamente mais perto da doutrina cristã que a bênção das desigualdades como ordem natural das coisas, que muito pregam dentro e fora da Igreja de Jesus Cristo. "Indecente, injusto, desigual, desproporcionado" não são pecadilhos que se absolvam com umas tantas rezas. Mas claro que todos aqueles que se enchem com o actual "modelo económico", mesmo aqueles que simultaneamente batem com a mão beata no peito, estarão pouco preocupados com as palavras de Cristo ao preconizar que lhes será mais difícil entrar no Reino dos Céus que a um camelo passar pelo fundo de uma agulha. Na verdade, o paraíso goza-se na terra, no bem-bom da riqueza material e do poder do dinheiro.

De vez em quando, ergue-se uma voz a quebrar a monotonia do pensamento único que aponta a selvajaria do capitalismo como uma inevitabilidade da história e destino dos homens. Por vezes, essas vozes evocam a doutrina social da Igreja e os seus originais valores de generosidade pregados por Cristo. Mas Cristo, por essas e outras, acabou pregado numa cruz e dois mil anos mais tarde os princípios da solidariedade são motivos ou de chacota ou de suspeição, alimentados pelos ‘gauleiter' dos valores do mercado.

As palavras severas do bispo Carlos Azevedo ecoaram nos jornais de ontem. O poder tem capacidade para suportar uma crítica. E mais vale abrir, aqui e ali, uma válvula de escape que permita que salte a tampa da panela de pressão. Mas tão cedo não volta a falar-se do assunto. Ouviram?
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«DE» de 16 Set 10