quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Curiosidades de arquitectura e engenharia...

É muito possível que algumas destas imagens tenham sido concebidas por computador.
Noutros casos, poderá tratar-se de construções feitas de propósito, com intuito humorístico ou provocatório.
Seja como for, aqui fica a colecção completa:












quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O ARGUMENTO DA HONRA

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Por Baptista-Bastos
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A ÉTICA REPUBLICANA iluminava as virtudes do carácter e a grandeza dos princípios. As revoluções, idealmente, não são, apenas, alterações económicas e substituições de regimes. Transportam a ideia feliz de modificar as mentalidades. Essa mistura de sonho e ingenuidade nunca se resolveu. A esperança no nascimento do "homem novo" não é exclusiva dos bolcheviques. O homem das revoluções jamais abandonou o ideal de alterar o curso da História e de modelar os seus semelhantes à imagem estremecida das suas aspirações.
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É uma ambição desmedida? Melhor do que ninguém, respondeu Sebastião da Gama: "Pelo sonho é que vamos/comovidos e mudos./Chegamos? Não chegamos?/Partimos. Vamos. Somos." A ética republicana combatia a sociedade do dinheiro, da superstição religiosa, da submissão, e pedia aos cidadãos que fossem instrumentos de liberdade. As "raízes vivas", de que falou Basílio Teles.
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Fomos perdendo, sem sobressalto nem indignação, a matriz ética da República. De vez em quando, releio as páginas que narram os desassossegados dezasseis anos que durou o novo regime, obstinadamente defendido por muitos a quem se impunha a consciência do compromisso. Esses, entre o aplauso e o assobio, percorreram o caminho que vai do silêncio à perseguição, do exílio ao assassínio político. Morreram pobres. São os heróis de uma história que se dissipou, porque o fascismo impediu nos fosse contada, nas exactas dimensões das suas luzes e das suas sombras.
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Relembrei estes episódios ao tomar conhecimento, pelo semanário Sol, de que Ramalho Eanes prescindira dos retroactivos a que tinha direito, relativos à reforma como general, nunca por ele recebidos. A importância ascende a um milhão e trezentos mil euros. É um assunto cujos contornos conformam uma pequena vindicta política. Em 1984, foi criada uma lei "impedindo que o vencimento de um presidente da República fosse acumulado com quaisquer pensões de reforma ou de sobrevivência que aufiram do Estado." O chefe do Governo era Soares; o chefe do Estado, Ramalho Eanes, que, naturalmente, promulgou a lei.
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O absurdo era escandaloso. Qualquer outro funcionário poderia somar reformas. Menos Eanes. Catorze anos depois, a discrepância foi corrigida. Propuseram ao ex- -presidente o recebimento dos retroactivos. Recusou. Eu não esperaria outra coisa deste homem, cujo carácter e probidade sobrelevam a calamidade moral que por aí se tornou comum. Ele reabilita a tradição de integridade de que, geralmente, a I República foi exemplo. Num país onde certas pensões de reforma são pornográficas, e os vencimentos de gestores" atingem o grau da afronta; onde súbitos enriquecimentos configuram uma afronta e a ganância criou o seu próprio vocabulário - a recusa de Eanes orgulha aqueles que ainda acreditam no argumento da honra.
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«DN» de 17 de Setembro de 2008
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NOTA: Este post é uma extensão do que está afixado no Sorumbático [v. aqui], onde os eventuais comentários deverão ser afixados.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Portugal para turistas

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Por Alice Vieira
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Foto obtida [aqui]
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NEUZA TEM 23 ANOS, nasceu em Brasília, onde vive com um namorado português, meu amigo, que lhe prometeu mostrar a pátria assim que pudesse.
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Caíram-me há dias no colo.
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Traziam no corpo mais de dois mil quilómetros em estradas portuguesas, e agora ela queria conhecer Lisboa.
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“Tenho um almoço de negócios”, disse-me ele ao telefone, “podes tratar dela esta tarde?”
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Nunca fui grande cicerone, ainda por cima agora, que um vírus qualquer anda a fazer-me a vida negra, provocando-me tantas dores no corpo e um tal cansaço que parece que passo dias inteiros na estiva.
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Mas não podia dizer que não, e lá fui apanhar a Neuza à esplanada da Brasileira – completamente fascinada pelas pessoas, pelo bacalhau, pelos pastéis de nata, pelos ovos moles, pelos palácios, pelas caves de vinho do Porto.
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Desde que o avião aterrara, não tinham tido um minuto de descanso, cumprindo à risca o itinerário traçado em Brasília.
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E a Neuza falava, emocionada, do centro histórico de Guimarães, dos cais de Gaia, da capela dos ossos de Évora, da subida ao Palácio da Pena, de Trancoso, de Cabanas de Viriato, etc.
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Para não deixar Lisboa malvista, arranco com ela pelo Chiado, levo-a a almoçar num desses restaurantes muito zen que abundam agora na Baixa, paro no Largo do Carmo onde lhe conto a história (acho que vai chegar ao Brasil confundindo o Condestável, o Marquês de Pombal e Salgueiro Maia…) e dou-me conta de que tenho nas mãos uma brasileira de 23 anos que sabe tanto da história recente de Portugal como um português de 23 anos sabe da história recente do Brasil, perguntando, espantada, “fizeram uma revolução?! E porquê? O governo era corrupto?”. (Para uma brasileira de 23 anos, o único motivo para fazer revoluções é a corrupção).
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A Neuza emociona-se com o rio em Santa Catarina, abre a boca de espanto com o tecto arte nova do restaurante, sente-se no paraíso diante das montras das grandes marcas, parece uma criança à janela do 28.
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A Neuza é uma turista perfeita e, para turistas perfeitos, Portugal é um país perfeito.
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E eu tenho pena de não ser capaz de olhar para o país com a ingenuidade dos olhos dela, e de me emocionar assim – sem pensar no desgoverno que vai por aí.
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Se o país fosse aquilo que a Neuza vai levar nos olhos para o Brasil, como nós seríamos felizes!
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A um país assim, tenho a certeza de que até o meu vírus acabaria por se render.

«JN» de 14 de Setembro de 2008
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NOTA: Este post é uma extensão do existente no Sorumbático [v. aqui], onde os eventuais comentários deverão ser afixados.

Os Fim dos Dinossauros

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Por Manuel João Ramos*
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QUE O PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA tenha sido eleito por um em cada nove lisboetas não é normal. Que o seu grupo de vereadores tenha poder de planear e gerir projectos tão estruturais como a terceira travessia do Tejo, a frente ribeirinha, urbanizações e reabilitações de vastas áreas do território da cidade é quase um golpe de estado.
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É urgente que um ciclone varra a classe política instalada, que uma tempestade curte-circuite o espectro partidário, que uma onda gigante leve os maçons para França, os opus dei para Itália, o compadrio para a Sicília e as cunhas para Espanha (cuña = berma).
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A população portuguesa está-se nas tintas para o socialismo, borrifa-se para a social-democracia, marimba-se para a democracia cristã, considera o comunismo uma anedota, e o bloquismo de esquerda uma espécie de loja do canhoto.
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Ninguém, a não ser os clientes da partidocracia em que se tornou a cangalhada herdada da revolução de 1974, se revê sinceramente no sistema político montado, em que a ordem é produzida em Bruxelas, o sustento é assegurado por grupos financeiros e a mira da felicidade é acaparada pela peste do futebol. O resultado confrangedor deste estado de coisas da res publica lusitana é um intransponível abismo cavado entre eleitores e eleitos, que se espelha na quase total ausência de participação cívica na vida política, e no desamor colectivo pelos conceitos de comunidade e de civilidade.
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Lisboa é um caso agudo desta derrocada cultural. Em grande parte tal é devido à existência de um mastodonte político-administrativo chamado CML.
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A CML deveria ser, pura e simplesmente, suprimida e em seu lugar deveriam ser criadas dez câmaras que pudessem gerir eficazmente os vários núcleos urbanos que compõem a cidade. Estas câmaras, com as dos concelhos limítrofes, deveriam compor um conselho municipal com funções de gestão e planificação estratégica, que absorvessem funções da CCDR e do governo civil. A miríade de freguesias deveria ser destituída segundo o princípio de que uma junta de freguesia urbana não deveria administrar uma população menor que 5.000 e maior que 20.000 habitantes. A Assembleia Municipal deveria ser correspondentemente reformada de modo a funcionar como parlamento regional.
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Seria mais lógico que os munícipes votassem em agrupamentos cívico-partidários que representassem e defendessem interesses específicos à freguesia, ao núcleo urbano, à cidade e à região.
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Depois de tal terramoto, justificar-se-ia a criação de um museu dedicado à evocação da memória dos tempos jurássicos da democracia portuguesa. Seria o local indicado para contemplar as foices, martelos, setas, punhos e flores, bolas e estrelas partidárias.
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* Cidadão de e por Lisboa
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NOTA: Este post é apenas uma extensão do existente no Sorumbático [v. aqui], onde os eventuais comentários deverão ser afixados.

O buraco negro e a aposta de Pascal

Por Nuno Crato
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AINDA AQUI ESTAMOS? Sim, eu pelo menos ainda aqui estou... ou estava, quando acabei de escrever este artigo. E se o leitor o está a ler é porque ainda aqui está, neste nosso mundo, apesar dos avisos catastróficos dos que diziam que o LHC iria criar um buraco negro que engoliria a Terra e todo o sistema solar.
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De onde surgem estes medos? Por que razão sempre que a ciência avança há quem queira fazer-nos retroceder às superstições dos tempos das cavernas?
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Quem menos ajuda a compreender o fenómeno têm sido algumas corrente antropológicas e sociológicas que identificam conhecimento e superstição — seriam tudo crenças impossíveis de provar de forma absoluta — e chegam a dizer que a ciência é uma construção social como outra qualquer, portanto entre crendice e conhecimento científico haveria apenas uma distinção de grau, se é que existiria alguma.
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O LHC está de pé para provar a diferença. A superstição jamais conseguiria construir um aparelho tão perfeito, tão bem pensado e com tanto sucesso. A ciência constrói modelos teóricos e testa-o com os factos. Usa a razão e a dúvida sistemática. Confronta as previsões teóricas com as observações. Usa a experimentação e submete-a à análise estatística. Constrói.
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Nos últimos anos, quem mais tem contribuído para perceber as origens da crendice têm sido os biólogos e teóricos evolucionistas. A capacidade humana para a associação espúria entre causa e efeito teria tido, afirmam, um papel positivo na sobrevivência da espécie humana. Ou seja, a crendice ter-nos-ia ajudado a sobreviver.
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Um leve restolhar de folhas, para dar um exemplo muito discutido nos estudos evolucionistas, seria o suficiente para fazer a horda primitiva levantar-se e fugir. Poderia ser um leão a aproximar-se, poderia também ser apenas o vento, mas o melhor seria tomar precauções. Os humanos desenvolveram uma capacidade de associação entre factos provavelmente desconexos que originou as crenças supersticiosas.
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Esta semana, os evolucionistas Kevin Foster a Hanna Kokko publicaram um modelo matemático que explica as condições de sucesso da associação espúria (DOI: 10.1098/rspb.2008.0981). Esse modelo adapta um argumento original do filósofo Blaise Pascal que, nos seus Pensamentos (1670), dizia ser melhor acreditar em Deus, pois poucas desvantagens haveria se Ele não existisse enquanto o benefício da fé seria imenso. O argumento ficou conhecido como a «aposta de Pascal», e tem sido muito criticado em termos teológicos e filosóficos, mas oferece uma das primeiras formulações daquilo que veio a ser conhecido com a teoria matemática dos jogos. Foster e Koko constróem uma matriz de percas e ganhos semelhantes à da aposta de Pascal e estudam as condições em que as associações irracionais trouxeram vantagens à espécie humana.
Uma conclusão, no entanto, é clara. A civilização e a ciência ultrapassam pouco a pouco a associação espúria. Onde há dados científicos não há vantagens em regressar aos buracos negros da crendice.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 13 de Setembro de 2008 (adapt.)
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NOTA: Este post é apenas uma extensão do existente no Sorumbático [v. aqui], blogue onde os eventuais comentários deverão ser afixados.

Passatempos em curso

1 - «Acontece...» [v. aqui]: terminou às 20h de 15 Set 08. Aguarda-se a decisão do júri.
2 - Pilha de livros (em conjunto com o Travessa do Ferreira) [v. aqui]: termina às 24h de 17 Set 08.
3 - Raul Brandão/Gomes Freire de Andrade [v. aqui]: aguardam-se respostas até ao início de Outubro.*
NOTA: Chama-se a atenção dos vencedores para o prazo para reclamar os prémios.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

«Pois...»

Foto de arquivo


Domingo, 14 Set 08, de manhã

Estas fotos, que documentam o estacionamento selvagem aos fins-de semana numa paragem da Carris na Av. de Roma, vêm no seguimento do post «Conversa da treta» [v. aqui], onde se mostra uma imagem do caos e da impunidade que, se já é exasperante de segunda a sexta, atinge o delírio completo nos feriados e fins-de-semana.
Pois bem. Ontem, passei pelo parque de reboques da EMEL, em Sete-Rios. Lá estavam estacionadas umas poucas de carrinhas-bloqueadoras e reboques da empresa que, pelos vistos, folga ao domingo - o que até se compreende, dado que o parqueamento é gratuito nesse dia. Só que isso implica(ria) que a repressão ao estacionamento selvagem fica(sse), nessas alturas, entregue aos cuidados da PSP e da PM.
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NOTA: O requinte do absurdo não é só o facto de as autoridades não fazerem rigorosamente nada nesses dias (*); é também o facto de haver, por todo o lado, lugares vagos... GRATUITOS.
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(*) Sábados (a partir das 14h), domingos e feriados.

domingo, 14 de setembro de 2008

«Sem Cura Possível», de André Brun - Cap. IV



Este post, como todos os afixados aqui, é uma extensão do que foi afixado no Sorumbático

sábado, 13 de setembro de 2008

Número de capítulos de «O Livro Verde da Revolução»

Os "palpites" feitos foram:7-12-15-18-22.
O vencedor foi, pois, o leitor Florêncio que, ao aventar o n.º 22, foi quem mais se aproximou do correcto (34).Como sempre, pede-se-lhe que contacte sorumbatico@iol.pt, indicando morada para envio do livro.
Obrigado a todos!

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Pátio do Tronco

Entrada pela Rua das Portas de Santo Antão
Parede do lado Sul

Parede do lado Norte

Pormenor de Arte Urbana

E ao fundo, no pátio propriamente dito...
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Aqui esteve preso, no seguimento de uma rixa, um senhor muito conhecido que dava pela alcunha de Trinca-Fortes. Em 1992, a Câmara Municipal de Lisboa resolveu perpetuar o facto cobrindo o túnel com azulejos mostrando a cara do ilustre recluso e escrevendo, em grandes letras, SEMPRE PORTUGAL. Pois...
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NOTA: Este post é uma extensão de outros, afixados nos blogues O Carmo e a Trindade e Sorumbático. Nomeadamente neste último, está a decorrer uma interessante troca de ideias acerca do amor pela cidade - ou da ausência dele.
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Actualização (10 Jun 09): algum tempo depois de amplamente divulgadas estas fotos, os grafitos foram removidos. O mesmo não se poderá dizer do lixo, que se manteve como ex libris do local...

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

GERTRUDE, o médico e o monstro

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Por Manuel João Ramos
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Gertrude em Bordéus
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POUCOS PORTUGUESES SABEM o que é o GERTRUDE. E menos ainda sabem como funciona e para que serve.
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Em breves palavras: o GERTRUDE é um sistema de controlo centralizado de gestão do trânsito, implantado na cidade de Lisboa há cerca de vinte anos. É basicamente um software que gere o sistema de semáforos do centro da cidade e gere os fluxos automóveis, através de sensores implantados no pavimento ligados a uma estação central de controlo viário. Foi concebido por uma empresa de Bordéus, e tem sido gerido em parceria pelo departamento de tráfego da CML e pela EISA-TESIS, uma firma portuguesa que detém o monopólio da semaforização de Lisboa (por sinal, a mesma que implantou o sistema de radares fixos da cidade).
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O GERTRUDE tem sido criticado por contribuir para o estado geral de caos do trânsito da cidade, e para o ambiente de insegurança rodoviária que resulta de uma circulação automóvel feita em velocidade excessiva.
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O que quase ninguém sabe é que: 1) o sistema é flexível, 2) o seu afinamento actual não é imputável à empresa francesa, mas resulta de directivas políticas assentes numa visão arcaica da mobilidade urbana, e 3) a empresa tem, desde há vários anos, insistido em convidar – sem qualquer sucesso até hoje - os sucessivos presidentes da CML e seus vereadores do trânsito, bem como as administrações da Carris, a visitar Bordéus, para que uns e outros possam perceber como o sistema pode funcionar com outro tipo de directivas.
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Bordéus é uma cidade média francesa cujo município, como muitas outras autarquias europeias, apostou na redução drástica do acesso do automóvel privado às zonas centrais da malha urbana. Fê-lo criando parques de estacionamento na periferia, introduzindo linhas de eléctrico que, como um metro de superfície, ocupam o espaço antes cedido ao automóvel nas principais vias da cidade, e alterando o afinamento do GERTRUDE de modo a dar total prioridade ao transporte colectivo (eléctrico e autocarros) e ao trânsito de peões e bicicletas, em detrimento do transporte automóvel privado.
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O resultado foi o aumento exponencial da qualidade de vida na cidade, uma profunda requalificação urbanística, uma economia de transportes muito mais sustentável, e uma impressionante diminuição da poluição atmosférica e acústica.
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Eu decidi fazer aquilo que nenhum vereador do trânsito da CML e nenhum administrador da Carris alguma vez fez: fui a Bordéus avaliar o sucesso do sistema.
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E regressei impressionado e profundamente desanimado. É que, apesar de Bordéus partilhar com Lisboa o software GERTRUDE, o nosso problema não é de natureza técnica, mas política. Por isso, o paraíso de mobilidade urbana que é Bordéus não é transplantável para Lisboa – não porque o afinamento do GERTRUDE não possa produzir os mesmos resultados nas duas cidades, mas porque o provincianismo e falta de visão dos nossos políticos municipais irá continuar a impedir a mais que urgente modificação do sistema de gestão de trânsito cá implantado.
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Ao mesmo tempo que Lisboa se endividava para construir vias rápidas e túneis que garantem a invasão diária de mais de meio milhão de veículos à cidade, Bordéus colocava linhas de eléctrico protegidas por muretes que bloqueiam quase completamente o acesso dos automóveis ao centro urbano.
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Não estou certo que a recusa dos autarcas e transportadores lisboetas em aceitar o convite da empresa GERTRUDE para visitar Bordéus se deva a problemas de ordem financeira. Mas, para que esse pretexto não seja publicamente invocado, desde já me ofereço para participar na compra de um bilhete de avião Lisboa-Bordéus, à especial atenção do presidente da CML.
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NOTA: Este post é uma extensão do que foi afixado no Sorumbático, pelo que eventuais comentários devem ser lá afixados [v. aqui].

NÃO HÁ DISCURSOS GRÁTIS

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Por Baptista-Bastos
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ARFANTE DE EXPECTATIVA, a pátria aguardava o discurso de Manuela Ferreira Leite. Não a pátria toda. Contrariando a gravidade que o momento reclamava, o Público, embora pouco propenso à ironia, fez uma manchete com agudo e jocoso sentido: "No discurso da rentrée, parte do PSD foi ver aviões." É um comentário demolidor. Não sei se justo. Lamentavelmente não fui convidado a assistir às instrutivas sessões da Universidade de Verão. Mas, se o título não é justo, lá que parece, parece. Pelo que assisti, nas televisões, a intervenção da presidente do PSD foi uma bocejante chatice.
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Além de nada dizer que sobressaltasse as almas, a senhora é desprovida de convicções, de paixão, de fulgor, de compromisso vital, de empatia, de simpatia e de persuasão. Também escutei, nas rádios com "antena aberta", as opiniões de portugueses. Vinte e quatro horas após o sinédrio de Castelo de Vide, as pessoas ainda estremeciam de assombro. Digamos que 98 por cento dos intervenientes reduziram a subnitrato a fúnebre oração. Não creio que todos os radiouvintes discordantes fossem comunistas, como acusou, severo e cruel, um participante, que se confessou admirador de Salazar e de Portas. Este hábito de se etiquetar de comunista todo aquele que desacorde é outra singularidade da nossa escassez de convivência cultural. E resulta na hirsuta confusão que habita na cabeça daquele pobre sujeito.
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Se o discurso de Manuela Ferreira Leite foi uma pungente manifestação da astenia por que passa o PSD, a intervenção de Jerónimo de Sousa, na Festa do Avante!, embora excessivamente longa e repetitiva, não deixou de reflectir a imagem de um homem convicto, impulsionado pela razão que lhe assiste, por discutível que seja, marcado pelo fogo de um entusiasmo que tem muito a ver com o desejo, e empolgado pela ideia de um pensamento optimista. Goste-se ou não. Esteja-se ou não de acordo.
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Manuela Ferreira Leite é, em todos os aspectos, e com perdão da palavra, um frigorífico. Com outro revés: não possui nenhuma ideia nova, não apresenta nenhum projecto, não expressa nenhuma característica de mudança. O que poderia suscitar um curioso estudo das anti-relações linguísticas e ideológicas entre as duas identidades políticas perdeu-se nessa espécie de crise da razão que percorre a sociedade portuguesa em geral - e que existe entre o insulto soez e a ignorância crassa.
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Devo dizer que me não congratulo. O esvaziamento, cada vez mais acentuado, das variantes clássicas debilita as possibilidades do jogo democrático. E o cenário fixo de um partido sem antagonista, perpetuado no poder por inexistência de repertórios opostos, com encenações negociadas consoante as situações - vai corroendo, letalmente, o regime. E atinge todos os partidos. Todos.
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«DN» de 10 de Setembro de 2008
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NOTA: Este post é uma extensão do que foi afixado no Sorumbático, pelo que eventuais comentários devem ser lá afixados - [v. aqui].

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Lisboa 8 Set 08 - Descendo do Jardim do Torel até à Rua das Pretas









Este post é uma extensão dos dois que se podem ver [aqui] e [aqui].

domingo, 7 de setembro de 2008

Novo Espaço Cultural em Vila Velha de Ródão







Jovens no Espaço Internet

Vista da varanda do Espaço Internet
Este post é uma extensão do que se pode ver [aqui].

«Sem Cura Possivel», de André Brun - Cap. V

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Este post é uma extensão do que se pode ver [aqui].

sábado, 6 de setembro de 2008

Dez meses que não mudaram Lisboa

Por Manuel João Ramos

DADAS AS CIRCUNSTÂNCIAS, tentei fazer o melhor que pude. Durante dez meses, apresentei diligentemente propostas e requerimentos, li dossiês, alvitrei aqui e ali, votei de modo a ter o menor peso possível na consciência. Recusei o carro com motorista acoplado, mantive-me afastado de recepções, festas e cerimónias, não vesti o típico fato e gravata negros, e não reuni uma vez sequer com banqueiros, empreiteiros ou sindicalistas. Durante dez meses, senti o serpentear dos infecciosos mecanismos de desresponsabilização colectiva que fazem a rotina diária da mais disfuncional, mastodôntica e inimputável autarquia do país.

Excepto num ou noutro caso, restringi o meu contributo propositivo aos problemas de mobilidade e segurança viária da cidade. Perorei o menos possível, numa vã tentativa de evitar que as reuniões do executivo camarário se prolongassem para além das dez horas. E nunca deixei de anotar e desenhar em caderno próprio a viagem que fiz à volta do mundo da administração local lisboeta em 304 dias.

Em todo este tempo, correndo das aulas para as reuniões camarárias, e destas para casa, volta-não-volta às duas horas da madrugada, uma pergunta perseguiu-me continuamente: “O que estou eu a fazer aqui?”.

A interrogação faz o título do derradeiro livro do viajante-escritor Bruce Chatwin. É uma pergunta comum a todo o antropólogo que se aventura em cantos perdidos do mundo onde os usos, os costumes e as maneiras de pensar lhe surgem como profundamente diferentes dos seus. É portanto uma dúvida que eu era já suposto conhecer como chavão existencial.

A primeira vez que ela aflorou o meu espírito foi logo na tarde do dia um de Agosto de 2007, durante o interminável ritual do beija-mão que se seguiu à tomada de posse dos vereadores da autarquia lisboeta. Ao ver e ao sentir a minha mão direita apertada pela do presidente de conselho de administração de um dos maiores grupos financeiros portugueses, senti um calafrio. É que logo naquele momento a pergunta “O que estou eu a fazer aqui?” ganhou uma coloração bem mais chã que a da mera dúvida existencial, porque se lhe associou inevitavelmente uma outra: “O que está ele a fazer aqui?”. “Ele” era um banqueiro português que não considerou ser tempo perdido despender uma tarde abafada de Agosto marcando presença na longuíssima tomada de posse de um executivo camarário de curta duração.

Nunca mais voltei a cruzar-me com o banqueiro, nos 10 meses em que estive vereador da CML, mas a sua sombra pessoal e institucional nunca deixou de pairar sobre o executivo camarário. Era uma sombra crua que me dizia em surdina “Que estás tu a querer fazer? Quem manda aqui sou eu”.

Ao fim de dez meses, conformei-me: de facto, não estava ali a fazer nada.

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NOTA: Eventuais comentários a esta crónica deverão ser afixados no Sorumbático, e não aqui

Viagem de fim de férias

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Por C. Barroco Esperança
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COM O CÉU ENEVOADO e as nuvens a anunciarem borrasca, no penúltimo dia de Agosto, dei um passeio por velhas aldeias que neste mês voltaram à vida, sobretudo nos dias de festas canónicas, e já se encontram de novo desertas.
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Saí de Almeida para comprar umas bolas de carne, na Reigada, para enfeitar a mesa no dia da Feira Nova, em 1 de Setembro, destinadas a parentes e amigos que ainda vêm. O forno estava alugado aos de Vilar Formoso para confeccionar doces para a festa do dia seguinte. Não faz mal, já não há dias santos, amanhã é domingo, coze o que hoje devia. O Inferno foi extinto, urge ganhar o pão de cada dia, ficaram as bolas encomendadas.
Passei por Vilar Torpim, não enxerguei vivalma. A aldeia tinha ar de ter sido habitada em época recente mas estariam os autóctones fechados em casa, quiçá receosos ainda das lutas liberais.
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Tomei café em Figueira de Castelo Rodrigo. Havia afinal gente nos restaurantes, jovens nas esplanadas dos cafés e repuxos a esguichar num lago que há-de ter surgido para um autarca ganhar eleições. Havia vida na sede de concelho, até crianças a quem os pais hesitaram entre o gelado e o tabefe acabando por aceder ao pedido e desistir do desejo. As vilas ainda se mantêm graças à hemorragia das aldeias e aos empregos municipais.
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Passei pelo convento de Santa Maria de Aguiar, por Nave Redonda, que me pareceu fechada e parei junto à barragem de Santa Maria de Aguiar um razoável lençol de água vulgar apesar da santidade do nome que não evita a conversão em charco ou a seca em estios mais cálidos.
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Em Almofala entrei na igreja onde duas piedosas mulheres que mudavam as flores aos santos me acenderam as luzes e dois homens desmanchavam os andores de uma festa recente para os despacharem para a sacristia. Não cuidei da destruição castelhana em Outubro de 1642 e passei por Escarigo, cujo martírio na Guerra da Restauração foi maior, sem me deter na igreja matriz cujo tecto e talha dourada valem a viagem. Foi José Saramago, em «Viagem a Portugal», que me alertou para essas jóias da arte sacra numa aldeia que guarda memórias e afectos da minha juventude.
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Compadeci-me da velhinha de olhos vagos, com a pele curtida de muitos sóis, absorta, indiferente à passagem do automóvel, perscrutando no horizonte o futuro que lhe resta ou recordando o passado que lhe coube. Estava só, na soleira da porta, sem raios de sol que a aquecessem, sentada, com o céu carregado de nuvens.
Alguns quilómetros depois, atravessei a Vermiosa. Apenas um velho, também só, via o tempo passar do banco de pedra onde tinha a bengala que, decerto, lhe serviria de apoio na volta. Mais à frente jazia na terra um cão escanzelado, imóvel, resignado, indiferente às pulgas e carraças, se acaso as tinha, e milagre era não tê-las.
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Dos dois seres vivos que vi na aldeia, dantes pejada de gente, o cão, rafeiro sofredor, foi a mais eloquente metáfora dos que teimam em ficar nas aldeias que outrora foram um alfobre humano e são hoje um cemitério de recordações.
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Nem dei por passar em Malpartida ao voltar a casa. Esperei pela Feira Nova, que ainda juntou gente, e parti logo.
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NOTA: outras crónicas do mesmo autor - no blogue Ponte Europa

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Esquecer os amigos

Por Alice Vieira
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MORREU a Isa Meireles.
Há quatro dias.
Com direito a um obituário rigorosamente igual em toda a parte: jornalista, começou no “Diário Ilustrado”, andou pelo “Diário de Lisboa” e “Capital”, estava reformada, passava dos 70, morreu de repente.
E fico cheia de remorsos porque, durante anos, a Isa Meireles fez parte do meu quotidiano e agora, ao ler a notícia tão breve da sua morte, dou comigo, sem querer, a murmurar: “julgava que já tinha morrido.”
De repente, ou porque a nossa vida se modifica, ou porque o trabalho nos desgasta, ou porque escolhemos caminhos diferentes, ou sei lá porquê, vamos esquecendo pessoas que nos pareciam imprescindíveis, com quem privámos no trabalho, com quem nos cruzámos diariamente, vamos desabituando a nossa boca de pronunciar os seus nomes, vamos esquecendo o som das suas vozes.
Gostava de saber em que momento da minha vida comecei a esquecer a Isa Meireles, mas não sei. Sei que durante anos nunca pensei nela, e agora, quando de repente o seu nome regressa à minha memória, só me vem à boca aquela frase terrível: julgava que já tinha morrido.
Há uns sites de bem-fazer na net, uma coisa chamada “Click to Give”, que todas as manhãs nos recordam a nossa obrigação de clicar para lá porque, a partir desse nosso simples gesto, podemos ajudar crianças a ter livros, ou o planeta a ser mais verde, ou mulheres necessitadas a fazerem mamografias, ou os animais a serem mais bem tratados, ou mil outras coisas urgentes. Pelo menos é o que nos dizem. E nós acreditamos, claro. E clicamos. Todos os dias. Sem faltar um.
Devia haver uma coisa parecida em relação aos nossos amigos.
Assim que abríssemos o computador, logo uma organização qualquer se encarregava de nos enviar a lista de todos os amigos de quem não nos poderíamos esquecer nunca, nem um só dia, e a gente clicava, clicava , e por cada vez que clicasse o amigo recebia de nós a palavra necessária, e a certeza de que, nem que fosse pelo espaço de um segundo, tínhamos pensado nele.
E sempre que arranjamos tempo para pensar num amigo - nem que seja por um segundo - tornamo-nos melhores pessoas.
Nem são precisos grandes discursos. Uma palavra apenas. A que eu gostaria de me ter lembrado de dizer à Isa Meireles durante estes anos todos de esquecimento.
Porque às vezes basta uma única palavra para nos salvar o dia. Para nos salvar a vida.

«JN» de 31 de Agosto de 2008
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NOTA-1: eventuais comentários deverão ser afixados no Sorumbático - e não aqui.
NOTA-2: não foi possível encontrar uma foto de Isa Meireles para aqui afixar. Se algum leitor tiver alguma, agradecemos que a envie para sorumbatico@iol.pt

NENHUM SILÊNCIO É INOCENTE

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Por Baptista-Bastos
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DIZ-SE QUE MANUELA FERREIRA LEITE vai "quebrar o silêncio". Diz-se que esse magno acontecimento ocorrerá no domingo, no encerramento da Universidade de Verão do PSD. Diz-se, numa amarga perturbação, que a calada senhora, a fim de manter a estratégia da inaudibilidade - apenas sussurrará.
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Esta atmosfera espectral, que o previsível Pacheco Pereira designa de necessária pausa para meditação, não tem sido, propriamente, aplaudida de pé. As dúvidas erguem-se, como puas, nas almas perplexas dos militantes. E a conspiração alastra como eczema. Menezes, feroz e irado com a mudez obstinada da dr.ª Manuela, ameaça com um congresso devastador. Marcelo manifesta-se incomodado e, até, aflito, com a cruel ausência da presidente. Santana Lopes, apesar de primo da dr.ª, não descansa um mísero segundo sem a fulminar com impiedosos comentários. Ângelo Correia abandonou a efusão das metáforas. Proclama que este rumo absurdo conduzirá o partido às profundezas do abismo. A dr.ª usa a retórica do desdém (moita, carrasco!) que deixa os adversários desatinados.
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Mas já não são, exclusivamente, os "barões" a criticar as águas palustres onde, penosamente, se move o PSD da dr.ª Manuela Ferreira Leite. As "bases" começam a embaciar o fascínio sentido pela senhora. Circula um abaixo-assinado no qual se pede uma "sacudidela" à "abulia e à inércia" do partido. As palavras são aprimoradas; mas não deixam de ser rudes.
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A Universidade de Verão parece, na lógica deste panorama, a contra-regra do Pontal; digamos: um sinédrio intelectual e grave, destinado a inculcar em cem ansiosos moços o breviário da "social-democracia" à portuguesa. A coisa é notoriamente confusa. E a identidade dos "professores" uma barafunda pegada, repleta de narcisismos perversos e de nervosas ambições.
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Não sei se os meus pios leitores imaginam a natureza dos discursos de Pacheco e de Leonor Beleza, de António Borges e do general Garcia Leandro, sem omitir, claro!, o inimitável António Vitorino, socialista e tudo, sobretudo nos dias ímpares. Quase todos os nomeados são directamente responsáveis pelo estado a que chegou o País. Parte do descrédito da acção política a eles se deve. O nosso desalento deixou de ceder a qualquer apelo cívico, e as nossas emoções mais asseadas foram letalmente atingidas. A casta que tomou conta da Pátria devia ser condenada por indignidade nacional. Chega a ser infame a lista das prebendas, das reformas sumptuosas, das funções acumuladas, dos duplos e triplos vencimentos auferidos por uma gente desprezível, que entre si partilha o bolo, num macabro trânsito de interesses.
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Os cem jovens que assistem ao conclave de Castelo de Vide vão, com aqueles "professores", aprender - quê? Os exemplos não são virtuosos.
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«DN» de 3 de Setembro de 2008
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NOTA: Eventuais comentários deverão ser afixados no Sorumbático - e não aqui.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Av. Guerra Junqueiro - Lisboa - 1 Set 08









NOTA: Eventuais comentários deverão ser deixados em «O Carmo e a Trindade» e não aqui.

Alianças em anos magros

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Por J.L. Saldanha Sanches
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2009, UM ANO DE CRISE e de eleições. Crise quer dizer necessidade constante de decisões políticas desagradáveis e impopulares. Eleições querem dizer que a maioria absoluta do PS vai provavelmente acabar.
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Como continuar com a política de reformas sem maioria estável?
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A nova edição de um governo com políticas guterristas é impensável. Só se pode negociar com toda a gente e conseguir aprovar leis e orçamento quando há sempre qualquer coisa para distribuir. Largueza financeira, em suma.
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Como havia no tempo em que a descida das taxas de juro criava um excedente: dinheiro para as regiões, dinheiro para as autarquias, para a educação e orçamento equilibrado.
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Na situação que aí vem não vai ser assim e as políticas que vão ser necessárias exigem uma maioria estável.
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Logo, que alianças vamos ter?
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Como o BE e o PCP não aceitam a necessidade da disciplina orçamental, o PS vai ter que fazer alianças à direita. Com quem?
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Se tudo continuar como está vamos ter três possibilidades: bloco central (com o que restar do PSD), aliança com o CDS ou com os deputados de Jardim. Que já explicou que está às ordens.
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Uma aliança com o actual CDS não será apenas contra natura. Portas vai para a Defesa e para mostrar o seu peso político (e por outros motivos) compra uma porta-aviões. Ou qualquer outra coisa tão inútil e dispendiosa com os submarinos. O Dr. Portas tem uma imaginação muito fértil quando se trata de arranjar formas de gastar o dinheiro dos contribuintes.
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Jardim tem a vantagem de só querer dinheiro para a Madeira. O resto não lhe interessa, é instrumental. Mas quem diz Madeira, diz Açores e a mesma dependência doentia dos subsídios públicos.
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Em anos de contenção das despesas, não está mal.
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A terceira hipótese é o bloco central. Uma hipótese desagradável e desprestigiada.
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Mas com funciona o bloco central e quais são as suas consequências?
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Será mais propício ao crescimento da corrupção e do tráfico de influências (as clássicas maleitas da economia portuguesa) do que o governo de um só partido? Dará mais poder e mais lugares às clientelas esfomeadas? Criará um ambiente mais ou menos favorável para se prosseguir com reformas?
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Os acordos para os grandes negócios que geralmente passam pelos principais partidos contribuirão mais ou menos para distorcer a economia se a aliança entre os dois partidos for não apenas privada mas também pública?
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As questões centrais são estas: os males tradicionais da sociedade portuguesa podem aumentar ou diminuir conforme o PS escolha uma solução que lhe dá mais poder (para Jardim ou Portas uma sobras são suficientes) ou a que permite políticas mais racionais. Escolhendo os parceiros mais exigentes em vez dos mais desesperados.
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Por vezes, a escassez permite soluções mais racionais: e as dificuldades dos próximos anos são a única certeza que nos resta. Não vamos ter margem para um aumento das despesas públicas, nem para partilhas orçamentais.
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As alianças e as políticas vão ser todas elas condicionadas pela escassa margem de decisão: por isso qualquer solução tem que ser considerada na perspectiva da escassez de recursos e das consequências das coligações para a gestão dessa escassez.
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A crise económica irá dar o tom essencial a qualquer política de alianças.
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«Expresso» de 30 de Agosto de 2008 - www.saldanhasanches.pt
NOTA: Como habitualmente sucede, eventuais comentários deverão ser afixados no Sorumbático, e não aqui.