domingo, 5 de outubro de 2008

O que diz Molero - a cena dos "camones"

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A propósito do 5 de Outubro de... - Resolução do problema

Resolução do problema colocado no Sorumbático em 5 de Outubro e 2008 - ver [aqui]

Os 50 anos da Televisão - Quando tudo começou

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Por António Barreto
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COMO EM TUDO NA VIDA, também a data verdadeira de início da televisão em Portugal é objecto de discussão. Para uns, foi em Setembro de 1956, quando, num perímetro reduzido à volta da Feira Popular, começaram as emissões experimentais em Lisboa. Ou em Dezembro do mesmo ano, com o segundo ciclo de experiências alargadas à cidade e arredores. Para outros, terá sido a 7 Março de 1957, data oficial das primeiras emissões “a valer”, com as grandes áreas de Lisboa e Porto já abrangidas. Mas ainda há a data legal, a da aprovação do decreto-lei que cria a RTP, em 1955. Assim como a de uma experiência feita no Porto, em 1956, por empresa comercial. Ou, finalmente, a data de chegada das imagens à minha terra, esta sim, efeméride real para tantos portugueses. É a data que eu prefiro. Foi em 1958.
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Apenas a cem quilómetros do Porto, Vila Real não ficava só para lá do Marão, ficava no fim do mundo. Para se ir de comboio até à “capital do Norte”, tinha de se passar primeiro pela Régua. Eram 25 quilómetros de via reduzida. As carruagens, muito estreitas, eram iguais às que víamos nos filmes do “Far West”. Por isso o comboio tinha a doce alcunha de “Texas”. Este demorava, ao longo de curvas apertadas do vale do Corgo, mais de uma hora para percorrer aquele curto trajecto. Depois, até ao Porto, eram duas a três horas de esperas e apeadeiros. Em alternativa, o carro ou a “carreira” tinham de percorrer as famosas “voltinhas do Marão”. Duas a três horas de enjoo, curvas e perigos. Não se ia ao Porto. Ninguém se deslocava ao Porto. Ia-se de viagem, o que era diferente. Levava-se mala, cesta e farnel. E garrafão. Mas, para a maior parte, essas viagens eram raras. Ora, havia outras necessidades, outras urgências. Assim, quando se precisava de alguma coisa da cidade, do Porto, documento oficial, renda ou medicamento difícil, era necessário recorrer ao “recoveiro”, um senhor que ia todos os dias de madrugada e regressava à noite com as encomendas que íamos, ansiosos, buscar à estação de caminho-de-ferro. Trás-os-Montes não ficava ali. Ficava longe.
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Três jornais locais, verdadeiras folhas de couve, faziam a crónica do lugar. “A Voz de Trás-os-Montes” (“A Voz de Trás”) pertencia à diocese, era impressa nas tipografias do seminário e sempre foi dirigido por um sacerdote. O “Vila-realense” era republicano, feito, do princípio ao fim, pelo senhor Heitor Matos, com a ajuda de um extraordinário amador, o José Rocha, e um cronista do outro mundo, o “Naralhas”, especialista em necrologia. O “Ordem Nova” era, obviamente, da União Nacional, estava em todo o sítio e ninguém o lia.
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As notícias importantes vinham do Porto. Quatro diários disputavam o mercado: o “Primeiro de Janeiro”, o “Comércio do Porto”, o “Jornal de Notícias” e o “Diário do Norte”. Custavam oito tostões, preço igual ao do café. Não parece, mas eram caros. A maior parte das pessoas que sabiam ler iam fazê-lo nos cafés ou nas associações. Os diários do Porto chegavam todos os dias, mas sem horas fixas: por vezes de manhã cedo, geralmente mais perto do meio-dia. Os jornais de Lisboa eram raros. Só chegavam ao fim da tarde ou no dia seguinte. Quase ninguém os tinha ou lia. Os meus amigos e eu íamos ler ao “Clube de Vila Real”, a associação da burguesia liberal da cidade e dos notáveis vagamente republicanos, simpatizantes dos Rotários. Ali nos deleitávamos com o “Diário de Notícias” e “ O Século” dos dias anteriores. Tínhamos 16 anos, líamos tudo e achávamos que Lisboa era o princípio do mundo. Os anúncios dos cinemas eram objecto de leitura atenta e inveja intensa. O exercício tinha o seu quê de masoquista: a maior parte dos filmes que acabavam de estrear em Lisboa (às vezes, no Porto) demoraria longos meses ou anos antes de chegar a Vila Real. Se chegassem.
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O Teatro Circo e o Cineteatro Avenida davam duas ou três sessões por semana. Abundavam os filmes portugueses, os de “cow boys”, os de aventuras (capa e espada e piratas) e alguns grandes dramas italianos, ditos de “faca e alguidar”. O grande herói era o Cantinflas, do mexicano Mário Moreno, que não sei se tinha, no resto do país, igual êxito. Aos seus filmes, por vezes repetidos no dia seguinte, acorriam a cidade e os arredores. Todas as classes sociais assistiam, conservando entre si, evidentemente, as devidas distâncias. Os preços dos bilhetes e a qualidade das cadeiras garantiam as convenientes fronteiras sociais: a 3ª plateia a 2$50, a 2ª a 5$00, a 1ª a 7$50, o balcão a 10$00 e o camarote a 30$00. Todos encontravam o seu lugar. Todos sabiam qual era o seu lugar...
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Teatro, “sério” ou “de revista”, era uma raridade absoluta, quase inexistente. Música, clássica ou ligeira, igualmente distante, com excepção de umas bandas, locais ou não, que passavam de vez em quando, designadamente nas romarias e nas “festas santas”: de Santo António, em Vila Real, da Nossa Senhora do Socorro, na Régua e da Senhora dos Remédios, em Lamego. Momento especial era o da passagem, de muito em muito longe, dos “Companheiros da Alegria”, de Igrejas Caeiro, “show” misto de comédia, música, variedades, concursos e publicidade e que literalmente fazia “casa cheia”. Tradição apreciada era a gala anual da “Academia” de Vila Real, pomposa designação que os estudantes finalistas do Liceu se tinham dado a si próprios. Além das festas, do baile, das ceias (com galinhas roubadas...) e dos cortejos do “Regadinho” (“Água leva o regadinho, Água leva o regador, Enquanto rega e não rega, Vou falar ao meu amor”), havia a récita do 1º de Dezembro: variedades, comédia, um entremez, cenas de revista com “compère” e muita crítica local, tudo evidentemente censurado. Não havia um lugar vago. Finalistas e suas famílias tinham os seus primeiros dias de glória.
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Havia, evidentemente, a rádio, assim nomeada pelo povo, mas que os senhores chamavam telefonia. Antes dos “transístores”, nem toda a gente tinha. Eram mesmo poucos os que possuíam um aparelho. Os mais pobres, os trabalhadores e a gente do campo, não tinham de todo. A rádio não era única. A Emissora Nacional, a Renascença, o Rádio Clube e os Emissores Norte Reunidos partilhavam a antena. A que se acrescentava uma formidável Rádio Alto Douro, mais amadora do que profissional, de uma companhia privada que emitia a partir da Régua durante meia dúzia de horas por dia e tomava conta da vida local. Era nesta rádio que se ofereciam e ouviam os “discos pedidos”, princípio ou confirmação de tantos namoros. As rádios nacionais públicas serviam para as notícias. As privadas para a música ligeira e sobretudo para o “folhetim radiofónico”, novela interminável que, a seguir à hora de almoço, mobilizava as donas de casa. A partir de certo momento, já nem se dizia “folhetim”, mas simplesmente “O Tide”, que era o nome do anunciante ou do patrocinador.
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A “vida social” era previsível. Pertencia sobretudo aos homens. Estes frequentavam os cafés depois de almoço, ao fim da tarde e depois de jantar. Cafés e pastelarias estavam separados por famílias, classes sociais, afinidades políticas e outros princípios tribais. A Gomes, a Brasileira, o Clube, o Excelsior, a Pompeia e o Queirós, além de outros, dividiam entre si os frequentadores que lhes eram mais fiéis do que às mulheres. Senhoras sozinhas nas ruas ou nos espaços públicos, só as das classes altas e às horas decentes do chá. Ou nas compras, evidentemente. Muito poucas, as mais ousadas, saíam à noite com os maridos. Desde que o tempo ficava doce ou quente, o “passeio na avenida” era obrigatório. Os rapazes tinham um pouco mais de folga nas horas de regresso a casa. Os pais saíam em família, com as filhas pela mão. Davam voltas à avenida Carvalho Araújo, pelos passeios dos canteiros centrais. As famílias cumprimentavam-se, os homens levantavam os chapéus e as senhoras trocavam as últimas informações. Os que as tinham mostravam a suas filhas em idade casadoira. A exibição começava pouco depois das oito e meia, acabava antes das dez. Às onze da noite, a cidade estava deserta. Sobravam uns jovens mais estouvados, uns professores do liceu mais novos, alguns advogados ou médicos que ficavam até tarde na intriga. E uns bêbedos. Aqui e ali, a começar pelo Clube de Vila Real, jogava-se a dinheiro, para grande desgosto de muitas “senhoras de sociedade” que, apesar disso, preferiam este passatempo dos maridos a outros divertimentos inconfessáveis.
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O culto religioso e as festas ocupavam grande parte do espaço público e do calendário. A começar pelas missas dominicais. Também estavam divididas, não só por bairros, mas sobretudo por classe social. A mais importante era a do meio-dia, na Sé. Todas as pessoas importantes ali vinham. Mulheres à frente, homens atrás. Ir “ver a saída da missa” era obrigatório na agenda: intrigar, trocar impressões ou sorrisos, mostrar-se, ver as raparigas e exibir vestidos. Depois, eram numerosas as procissões, os cortejos, as novenas e toda a liturgia da Páscoa e do Natal. Finalmente, as festas, as romarias e umas vagas peregrinações a santuários vizinhos. Era também à religião que as mulheres, com algum tempo livre, dedicavam as suas energias: Acção Católica, Conferência de São Vicente de Paula, Liga Missionária e outras.
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As organizações políticas do regime tinham pindérica existência. A Legião Portuguesa, a Mocidade Portuguesa e a União Nacional limitavam-se ao nome e a umas actividades destinadas a fazer prova de vida, não necessariamente de actividade. Mostravam-se quando a cidade era visitada por um membro do governo ou, de quatro em quatro anos, quando se organizava uma reunião eleitoral chefiada por um ministro. Fazer política não era bem visto. E fazer a política do regime não era fazer política. Tempos estranhos...
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A educação distinguia Vila Real. Era a única cidade do distrito com direito a ter um Liceu completo (até ao 7º ano, hoje 12º). Era o Liceu Camilo Castelo Branco, baptizado pelo Estado Novo como Liceu Nacional de Vila Real. Era, curiosamente, misto, o que raramente acontecia em Lisboa e no Porto. Mas os recreios eram separados. Tinha aquecimento central a funcionar e uma confortável biblioteca, na qual, ao fundo à direita, um armário fechado à chave encerrava os livros proibidos e os não recomendados. Estavam ali, por exemplo, livros de poesia de António Botto, Guerra Junqueiro e José Régio, o livro de Egas Moniz sobre a educação sexual, “O crime do Padre Amaro” e “A relíquia” de Eça de Queirós e até a “História da literatura portuguesa” de António José Saraiva e Óscar Lopes. Como estava um pequeno livro de José João Cochofel intitulado “Iniciação estética”, pela simples razão de que tinha na capa uma mulher nua, neste caso a reprodução de uma senhora de P. P. Rubens! Em 1958, todas as turmas de ciências e letras do último ano do liceu eram frequentadas por cerca de 50 rapazes e raparigas, tantos eram os que, em todo o distrito, conseguiam terminar os estudos secundários! Muito antes da Universidade, já a escola secundária tinha feito o desbaste da segregação social. Além do Liceu, que assim pertencia à elite, havia a escola comercial e industrial, duas ou três escolas primárias e outros tantos “colégios” de raparigas, onde residiam as filhas das famílias mais abastadas do distrito. Mais de metade da população do distrito era analfabeta, o que era mais ou menos igual a todos os distritos do interior do país.
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Os mais cultos, ou com dinheiro, ou com importância, critérios nem sempre coincidentes, tinham duas ou três vezes por ano um momento alto: os concertos da Pró Arte. Vinham, do Porto ou de Lisboa, dois ou três solistas (nunca falhavam o piano e o violino) dar uma récita. Como não havia sala adequada, tinha de ser no ginásio do Liceu, por entre espaldares e plintos arrumados a um canto. As senhoras vestiam-se a preceito. Foi nesses concertos que vi, pela primeira vez, um ou outro senhor de “smoking” ou de casaco branco e calça preta. Como nos filmes...
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Apesar da doçura aparente destes costumes, em Vila Real, nos anos cinquenta, sufocava-se. Sabia-se pouco. E tarde. Conhecia-se pouco. E mal. O divertimento era raro e caro. A informação escassa. A cultura inexistente. As novidades velhas. Mesmo assim, Vila Real era privilegiada. Outras pequenas cidades e vilas (Chaves, Régua, Bragança, Mirandela, Alijó, Sabrosa, Murça, Valpaços...) e todas as aldeias estavam ainda, se tal é possível imaginar, muito mais atrasadas, muito mais distantes.
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Foi neste ambiente que se começou a falar de televisão, desde 1957, logo que foi uma promessa. Foi aqui que a televisão chegou em 1958. Já era, antes disso, assunto de todas as conversas. Uns poucos tinham visto. Os jornais do Porto escreviam sobre o tema e publicavam os programas do dia. Os primeiros “Guias” de televisão eram vendidos nos quiosques. E nós líamos, como se servisse para qualquer coisa! As emissões começaram por chegar em más condições, situação que durou um ou dois anos. Esse período, de certo modo provisório, foi horrível. Mas a má qualidade e a instabilidade das imagens, com “areia”, interferências e interrupções repetidas, não eram suficientes para fazer desistir quem queria ver. Só quando, em 1962, foi reforçado o retransmissor da Serra do Marão, é que as imagens passaram a ser excelentes. Duas casas vendiam aparelhos de televisão. O Dionísio, ou Casa dos Rádios, de Dionísio Rodrigues da Silva, e a Rádio Patinhas. Foi no Dionísio que vi a primeira emissão no dia em que chegou. O anúncio vinha sendo feito durante semanas com cartazes e aparelhos nas montras. Os comerciantes queriam vender aparelhos, mas quase ninguém comprava. Ou porque queriam ver primeiro, ou porque, razão preponderante, não tinham dinheiro suficiente. A verdade é que eram caros, muito caros. Como cara era a licença que tinha de se pagar, enquanto se não descobria o método, depois generalizado, de fugir ao pagamento da taxa. Foram os cafés e as associações que rapidamente descobriram este meio de atrair clientes.
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No dia primeiro, a emissão estava anunciada para as oito e meia. Desde as sete que, no Largo da Capela Nova, diante do Dionísio, se começaram a juntar pessoas. Alguns já tinham visto, no Porto, mas eram poucos. Mostravam evidentemente a superioridade dos que conhecem. E diziam maravilhas, para inveja dos que não tinham ainda tido a oportunidade. Mas também recordo um que sorriu com desdém, passou ao lado e murmurou qualquer coisa que acabava com um sabido “... Não é novidade nenhuma”!
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Eu tinha quinze anos e sentia que era um dia importante da minha vida. Durante semanas, antes, não se falava de outra coisa. As obras de construção da antena da serra do Marão eram seguidas pelos Vila-realenses como se fosse melhoramento essencial. Havia gente que fazia umas dezenas de quilómetros para se assegurarem pessoalmente de que as obras corriam bem e de que os prazos seriam cumpridos. Nunca, com a água ou a electricidade, se tinha tanto falado ou esperado por uma obra pública. Talvez só no século XIX, quando Emílio Biel (o grande fotógrafo e comerciante alemão do Porto) fez, em Vila Real, a primeira experiência do país de iluminação eléctrica pública. Nos finais da década de cinquenta, a maior parte das casas da cidade já tinha electricidade, mas, à volta, nas aldeias, ainda a maioria dela estava privada. No país inteiro, quase dois terços dos agregados familiares não tinham electricidade em casa. Mesmo que quisessem ou pudessem ter televisão, tal não era possível.
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Oito ou nove horas da noite. Juntei-me à pequena multidão que começava a formar-se. A praça estava cheia. Parecia que toda a cidade se tinha despejado ali. Havia pessoas que olhavam há mais de meia hora para a montra onde dois aparelhos mostravam a mira! Cá fora, no andar de cima, na varanda e virado para a rua estava o maior aparelho de todos. Na praça, murmurava-se, “davam-se palpites” e já se faziam críticas ao que nunca se tinha visto! “É a preto e branco”, resmungava um. “É muito pequeno”, desdenhava outro.
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Quando o ecrã começou a animar-se, com o símbolo da RTP e a música de abertura, a praça agitou-se. Mal apareceu a locutora, uma salva de palmas saudou-a. Alguns pediam silêncio, mas não o obtinham. Todos queriam ouvir, mas ouvia-se mal. O som era fraco e o murmurinho persistente. Mesmo assim, as pessoas ficaram ali à espera, a ver tudo. Resumo do programa, música, notícias e, se bem me lembro, uma peça de teatro. Era tarde quando os últimos deixaram a praça e foram para casa. Nessa noite, a vida em Vila Real mudara.
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Nunca esquecerei esse momento. De repente, era possível ver mais longe. O facto, percebi depois, não ajudava a querer ficar em Vila Real. Pelo contrário, aguçou o apetite por partir. Para ver “ao vivo” o que passava no ecrã. Mas, nos primeiros tempos, parecia que ajudava a respirar. Também não esquecerei esse dia por causa de um episódio singular. Ao fim de alguns minutos, depois de a emissão ter começado, senti que me batiam no ombro. Era alguém atrás de mim. Perguntava-me: “O que é? O que é que se vê?”. Achei a questão insólita. Respondi apressadamente, estava mais interessado no que se passava diante de mim. O senhor insistia: “Mas está gente dentro de uma caixa pequena?”. Só então percebi que o senhor era cego. Passei os minutos seguintes a explicar a um cego o que era ver televisão! Nunca saberei como me desempenhei da tarefa. Ele ouvia com um sorriso triste.
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Em pouco tempo, os horários das famílias foram alterados. Como demorou muito a haver televisão em casa, a grande maioria dos habitantes via em locais públicos. Os cafés foram os primeiros a perceber o negócio. Prepararam um espaço para o efeito. Os que o não tinham instalaram simplesmente o aparelho na sala única. A Gomes, a Pompeia, a Brasileira e até o Acácio da taberna (onde eu aprendera a jogar bilhar e a fumar...) estiveram entre os pioneiros. Passou a jantar-se mais cedo, pois as pessoas queriam já estar diante dos aparelhos por volta das oito e meia. Para os locais públicos, vinham famílias inteiras, pais, filhos, avós e netos. Não demorou muito até que as associações e outras instituições descobrissem a solução para os seus problemas, seja o da falta de receitas, seja o da diminuta participação dos sócios. O Grémio do comércio, o Sindicato dos escritórios, o Clube de Vila Real, as associações recreativas, o clube de futebol e a Acção Católica compraram aparelhos, prepararam as respectivas salas e passaram a abrir à noite. Os “resistentes”, uns cafés que não se actualizaram logo, depressa perceberam que tinham de seguir a onda. Poucos meses depois de ter chegado, a televisão ocupava as noites dos Vila-realenses que se espalhavam pelas instituições ou pelos cafés da sua preferência. De vez em quando, uma família desaparecia destas sessões públicas. Ficava a saber-se que tinha dinheiro e acabara de comprar o seu aparelho. Foram precisos muitos anos até que a maioria das habitações tivesse a sua televisão familiar.
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A chegada da televisão mudou os horários. Mudou a vida em família. Mudou sobretudo as conversas do dia seguinte. Nas escolas, no Liceu, nos empregos, nos cafés e nas ruas falava-se do que se tinha visto na véspera. A comunidade local enriqueceu-se com assuntos vindos de fora. Os concursos, as charlas, as notícias, as peças de teatro, as variedades e o desporto passaram a fazer parte do quotidiano. Não pensávamos nisso, mas era assim em todo o país. Os heróis contemporâneos, as modas, os modelos e os padrões começaram a ser nacionais. Fátima ganhou as suas credenciais nacionais e, mais tarde, internacionais. O Benfica, cujos grandes triunfos europeus surgem poucos anos depois de iniciada a televisão, consagrou-se, por essa via, como o principal clube nacional. Mais do que pela escola, a que muitos nunca tinham ido, é pela televisão que muitas pessoas se sentem efectivamente parte de uma comunidade nacional. Ou antes, como disse Martin Scorsese, noutro contexto, a comunidade transformou-se em sociedade.
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Muito depressa surgiram novos nomes e novas caras de que se falava. A Maria Helena (Varela Santos), o Gomes Ferreira, a Vera Lagoa (então Maria Armanda Falcão), a Maria Leonor, o Fialho Gouveia, o Henrique Mendes e tantos outros transformaram-se em referências de todos os dias. Não passaram a fazer parte da família, como por vezes se exagera, mas eram “lá de casa”. Com alguma inocência e sem a coscuvilhice de hoje, o primeiro “guia” de televisão acrescentava pormenores sobre as suas vidas. Os cantores e os actores passaram a ter rosto. O teatro e as variedades tiveram êxito imediato. Os concursos, com menção especial para o “Quem sabe, sabe”, igualmente. Mas também, estranhamente para os padrões contemporâneos, programas “sérios”, como as “Conversas de teatro” do António Pedro, as “Charlas linguísticas” do Padre Raul Machado ou as histórias e os poemas declamados pelo João Villaret. E até os programas especializados, como a culinária de Maria de Lurdes Modesto e a agricultura de Sousa Veloso, eram vistos por quase toda a gente. Não demorou muito tempo até que se vissem nas ruas senhoras vestidas como as locutoras e homens com gravatas iguais às dos apresentadores. Os produtos publicitados na televisão passaram imediatamente a “best sellers” nas mercearias e nas drogarias, dado ainda não haver supermercados. Qualquer livro mencionado na televisão desaparecia no dia seguinte das duas livrarias da cidade. Para muitos portugueses, foi também esta a primeira oportunidade para conhecerem a cara de Salazar, de que apenas conheciam, se fossem alfabetos, o retrato sem data nem tempo afixado nas paredes das escolas.
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Quando aparecem os primeiros programas estrangeiros, como “O homem invisível”, “Bonanza” ou “As aventuras de Robin dos bosques”, o entusiasmo cresceu imediatamente. A curiosidade era enorme. A técnica e o conteúdo daqueles filmes pareciam muito mais avançados e divertidos do que a produção nacional. Curiosamente, os filmes e as séries não eram dobrados. As legendas faziam a tradução. O primeiro problema, imediato, era o de, nos cafés e nas associações, arranjar lugar suficientemente perto do aparelho para poder ler as letras pequenas. Muitos iam uma hora antes do grande programa da noite “para marcar lugar”. Havia mesmo os que, para esse efeito, mandavam os filhos à frente. Mais grave era o problema dos analfabetos. Que muitos eram. Nos primeiros tempos, nem esse facto foi bastante para demover os interessados, que não desistiam. Ou pediam aos vizinhos para ir lendo e traduzindo, o que criava grande desconforto na sala, ou simplesmente seguiam as imagens e faziam por compreender. A televisão portuguesa optou, desde o início, por não dar a todos os meios de compreensão. Com quarenta por cento de analfabetos no país e quase sessenta nos distritos rurais, o regime não quis que a televisão mostrasse tudo aos analfabetos e aos mais pobres. Para esses, bastava-lhes a produção nacional. Só muito mais tarde, com os programas infantis, começaram a aparecer emissões dobradas.
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A euforia dos primeiros tempos de televisão ajudou talvez a esquecer muita coisa, sobretudo as deficiências de informação. A censura, na televisão, não parecia pior nem melhor do que nos jornais ou na rádio. Mas o valor acrescentado da imagem e do divertimento quase sugeria mais liberdade. Os desenganos vieram depressa. De 1958 a 1960, duas histórias graves, a do General Humberto Delgado e a do Bispo do Porto, passaram ao lado da televisão. Ou a televisão à distância delas. Já a fuga dos comunistas (entre os quais Álvaro Cunhal) da cadeia de Peniche, em Janeiro de 1960, mereceu notícia nos ecrãs. Mas esta foi dada, em tom grave e policial, no fim das notícias, a que foi acrescentado um apelo para que todos os que algo soubessem ou vissem imediatamente denunciassem à polícia. Sem grandes resultados, pelos vistos.
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Pior ainda foram os anos seguintes. Sobretudo 1961. O início da guerra em Angola, o assalto ao Santa Maria e a queda de Goa tiveram, da televisão, o tratamento brutal da informação do regime. Os acontecimentos de Angola, em particular os verdadeiros massacres perpetrados por terroristas no Norte da colónia, ainda serviram para comover a população. Segundo fontes britânicas, terão sido assassinados 1.400 colonos e 11.000 angolanos. Os actos tinham sido de tal modo bárbaros, que o regime não viu dificuldades em usar as informações e as notícias em proveito próprio. A análise era a do governo. A discussão não existia. Mas informação houve, ainda por cima feita no local pelos jornalistas e operadores que, por coincidência, lá se encontravam. O assalto ao vapor Santa Maria, filmado por operadores da RTP, passou quase escondido, excepto no que poderia igualmente mostrar Portugal e Salazar como vítimas do estrangeiro. Já o regresso do navio a Lisboa foi mostrado com festa e glória. Quando chegou a invasão de Goa pelos exércitos indianos, também a mão do governo e a tesoura da censura fizeram o necessário para ocultar. Toda a demagogia foi usada. Durante dois ou três dias, sem imagens (nem sequer compradas às televisões estrangeiras), a televisão limitou-se a ocultar, mentir e passar sob silêncio, conforme as circunstâncias. A televisão, a rádio e os jornais falavam de “resistência heróica” e de “centenas de mortos”, mesmo depois de se saber que não era nada disso.
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Nesse mesmo ano, tinha também havido eleições para a Assembleia Nacional. O acesso da oposição à televisão era simplesmente nulo. Aquela acabaria, mais uma vez, por desistir de ir às urnas. Discussão e debates eleitorais eram entidades desconhecidas pela televisão. Este ano de 1961 termina aliás por outro episódio invulgar para a vida política portuguesa, que deixou definitivamente, neste ano, de ser “pacata”: a 31 de Dezembro, ocorreu a tentativa de revolta iniciada pelo assalto ao quartel de Beja. No incidente, morreu o Subsecretário de Estado do Exército. A televisão deu a notícia, o chefe de Estado a ela se referiu na sua mensagem de Ano Novo, o facto foi aproveitado o melhor possível pela propaganda. Ainda nesse ano, o primeiro homem no espaço, o então soviético Iuri Gagarine, passou quase desapercebido. Era irritante que o homem fosse soviético. A fazer lembrar, uns anos antes, em 1957, aquele professor e académico que, diante do primeiro “Sputnik” igualmente soviético, declarou simplesmente que “não era possível”! Esse ano de 1961 foi, para quem ainda as tinha, o fim das ilusões. Nesse ano, a televisão portuguesa perdeu definitivamente a inocência.
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Voltemos aos anos da fundação. Consta que Salazar tinha dúvidas, do que não há evidência. E que Marcelo Caetano era o grande defensor, o que está demonstrado. De qualquer maneira, o regime, entre 1956 e 1960, sentia-se seguro. Com as excepções dos casos de Humberto Delgado e do Bispo do Porto, que deixarão sequelas para mais tarde, a vida política, financeira e económica parecia tranquila. Estavam longe os anos difíceis do pós-guerra, quando se chegou a pensar que, com a vitória dos aliados, as ditaduras ibéricas iriam também desaparecer. Com o aprofundamento dos conflitos e da rivalidade entre Leste e Oeste, o regime de Salazar é plenamente reconhecido pelas potências, pelos países democráticos do Ocidente e pela comunidade internacional. Portugal é admitido na NATO (ao contrário da Espanha), nas Nações Unidas, no Banco Mundial e no Fundo Monetário Internacional. No fim da década, Portugal é um dos fundadores da EFTA, Associação Europeia de Comércio Livre.
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Vivia-se um ponto alto do regime. Não só externamente, como também no plano nacional. Em 1956, tinha-se criado a Fundação Calouste Gulbenkian, cuja formidável acção se começou logo a sentir. Havia dinheiro, o Estado tinha as suas finanças de boa saúde. Fazem-se esforços por criar políticas económicas e de desenvolvimento mais consistentes. Surgem os Planos de Fomento. Constroem-se barragens e estradas. Lançam-se obras de infra-estrutura e animam-se algumas indústrias de base. De tudo isso, a televisão faz-se testemunha, elevando a propaganda do regime a níveis inéditos. A RTP parecia ser o sinal mais visível de um novo edifício. A euforia inicial da televisão não era apenas a que resultava deste novo meio de comunicação e de divertimento, era também a tradução de um clima geral. Que foi de pouca dura. De 1960 a 1962, as turbulências políticas internas, as manifestações operárias, os movimentos estudantis, a guerra em Angola e a perda de Goa marcam o fim de um período maior do regime. E o princípio das grandes perturbações que vão durar alguns anos.
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Mas tratava-se também de um momento charneira, entre o país fechado e a sociedade aberta que sub-repticiamente se preparava. O crescimento económico anunciava-se vigoroso. A emigração para a Europa começou, assim como turismo de estrangeiros em Portugal. Uma vaga de industrialização, alimentada em grande parte por investimentos estrangeiros, animou a economia. As migrações dos campos para as cidades aceleram. Uma nova sociedade, urbana e industrial, começou a surgir. As classes médias cresceram mais rapidamente. Na economia e na sociedade vivia-se um novo clima. Só a política resistia. A guerra colonial vai dominar os anos seguintes. A televisão moderniza-se, desenvolve-se o grande divertimento, surgem os “Festivais da canção”, os “Jogos sem fronteiras” e outros programas que atraíam grandes audiências. Mas a censura resistia. Depois da morte de Salazar, Caetano tentou modernizar ou arejar a vida pública. Ele próprio, entusiasta desde sempre com a televisão, utilizou-a o mais possível e inaugurou, também através da televisão, os contactos “directos” com a população. Mas as pressões liberais eram demasiadas. A vontade de liberdade também. Mais do que isso, a guerra iria liquidar o regime, depois de ter afastado qualquer hipótese de liberalização real.
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A televisão portuguesa desempenhou papel importante neste processo de mudança. Tanto na abertura dos costumes, como no fechamento da política. Tanto no estímulo à curiosidade, como na propaganda. Tanto no conhecimento, como na manipulação. A RTP não foi só observadora, registo e veículo, foi também parte integrante do Estado Novo. Como o foi, depois, da revolução, da contra-revolução e da democracia. Tal como em todos os países europeus, a televisão era do Estado e estava na dependência do poder político. Se este não era democrático, a televisão também o não era. Para o melhor e o pior, a televisão traduz o regime político e a sociedade em que vive. Pode ser melhor, pode procurar elevar os padrões de vida colectiva, como pode ser semelhante, ou mesmo contribuir para o declínio cultural dos cidadãos. Por isso é grande o seu poder e é vasta a sua influência. Talvez não tanto quanto se pensa, mas de qualquer maneira “apetecível”. Por isso, os poderes políticos conhecidos em Portugal, nestes últimos cinquenta anos, tudo fizeram por a utilizar. Sem excepção. Os autoritários, os revolucionários, os contra-revolucionários e os democratas. E, dentro destes, todos os partidos com acesso ao governo fizeram o necessário por se assegurar o domínio ou a conformidade da televisão. Os dirigentes políticos e os governantes parecem ter uma confiança ilimitada na capacidade da televisão. Para moldar as consciências? Para formar adeptos? Para evitar a voz dos outros, dos opositores? Ou simplesmente para publicitar e ampliar a sua acção? Verdade é que nenhum poder político resistiu a tentar governar e usar a televisão pública, ou seduzir e conquistar a televisão privada.
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Discute-se hoje, por toda a parte, a autonomia, a independência ou o pluralismo das estações de televisão. Tanto das públicas, tuteladas pelo poder político, como das privadas, dependentes do poder económico dos proprietários e da publicidade. Mas não se duvida de que alguma dependência exista, tanto num caso como noutro. A discussão é sobre a compatibilidade entre essas dependências e outros valores, como os da autonomia, da criatividade, da crítica e do pluralismo. A discussão é interminável e o debate permanente pode contribuir para se melhorar o serviço que as televisões prestam aos cidadãos.
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A televisão é, por excelência, a comunicação da sociedade de consumo, da política igualitária, da cultura de massas, do “nivelamento” cultural e da homogeneização social e cultural. O que não quer dizer que os regimes autoritários não tenham utilizado intensamente (não utilizem ainda...) a televisão. Estes últimos, de comum com os regimes democráticos, têm os factores de homogeneização e da cultura de massas. Os novos tempos que se avizinham e que prometem, por via da tecnologia, novos modelos e novas faculdades ilimitadas, poderão mudar os dados actuais do problema. Mas ainda é cedo. Por enquanto, sabe-se que a televisão “aristocrática”, de grande qualidade, do património cultural, das vanguardas artísticas e culturais, é uma televisão socialmente desigual. Mas, do ponto de vista dos padrões estéticos e culturais, seguramente “melhor” do que a televisão de massas. Esta televisão, que correspondia aos sonhos iniciais de “elevar os padrões culturais dos cidadãos”, deu lugar a uma televisão de massas, certamente mais “democrática”. Com mercado, concorrência e publicidade, a televisão de “alta qualidade” está praticamente condenada. Só a televisão digital ou por cabo e todas as suas potencialidades poderão salvar ou ressuscitar uma televisão de qualidade. A resolução desta contradição, entre democracia e cultura, não se anuncia para breve. Nem em Portugal, nem no resto do mundo.
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NOTA 1: Este texto foi publicado no volume comemorativo dos 50 anos da RTP (2007), assim como em brochura autónoma editada pelo Museu municipal de Vila Real (2008).
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NOTA 2: Este post é uma extensão dos que estão no Sorumbático [aqui] e no Jacarandá [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

A vozearia

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Por Nuno Brederode Santos
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AO MAIS INADIVINHÁVEL INDÍCIO de que o Presidente da República vai proclamar que o mundo é azul, Manuela Ferreira Leite antecipar-se-á, declarando, sem a propósito visível, que o mundo é azul e que há que impedir o Governo de o tornar cor-de-rosa.
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No dia seguinte, porém, Luís Filipe Menezes escreverá que o mundo é redondo e que só uma liderança sem alma nem rumo pode dar mais relevância à cor do que à forma. Acorrerá então António Borges, dizendo, em entrevista-surpresa, que é ao eleitorado que cabe decidir a cor do mundo, mas que todos os sinais da economia global apontam para que os povos o desejem azul. Passos Coelho convocará a sua Plataforma e notificará as gravatas de seda presentes de que toda a realidade é mutável e que a cor verde deve começar a ser observada com crescente atenção. Na TSF, Santana Lopes explicará que decretar o mundo azul é um exercício aventureiro, sobretudo quando ainda nem se sabe o pensamento de Cavaco na matéria. No Porto, Marco António Costa promoverá à pressa um ajuntamento a que chamará distrital, concluindo que, na opinião unânime desse órgão, o que do mundo interessa é a forma, e não a cor, pelo que a oposição do PSD devia fazer-se no sentido de impedir o Governo socialista de tornar o mundo plano. Uma hora mais tarde, Rui Rio dirá nem ter tido conhecimento da reunião e Miguel Veiga responderá à Lusa que não se deixa envolver em garotices. Carlos Carreiras emitirá um comunicado explicitando que o problema da cor do mundo não existe, porque Lisboa ainda não se pronunciou sobre ele. E, à saída de um jantar no Hotel do Guincho, António Capucho dirá aos jornalistas que tem "obra para fazer" e não "tem tempo para madurezas". Na SIC Notícias, Ângelo Correia classificará de "precipitada e leviana" a declaração da líder e revelará ser sua convicção pessoal que, uma vez bem ponderado o assunto, a cor do mundo andará entre o verde e o azul-marinho. Carlos Coelho invocará a extrema complexidade da matéria para afirmar que o partido não terá posição sobre ela até à Universidade de Verão de 2009. Algures no barlavento algarvio, Mendes Bota sentenciará que não faz sentido pronunciarem-se sobre a cor do mundo enquanto se não promover uma experiência-piloto no Algarve para apurar se ele é plano ou redondo. Esta declaração merecerá de Macário Correia, em Tavira, o comentário: "Não vejo interesse em pronunciar-me sobre as opiniões pessoais de Mendes Bota." Numa festança improvisada no Funchal, Alberto João Jardim, após denunciar à humanidade que se está nas tintas para os colonizadores do Continente, proclamará que a escolha da cor do mundo é da competência e da responsabilidade exclusivas da líder do partido; e que depois, lá para fins de Março, se discutirá se a cor foi bem ou mal escolhida, extraindo-se desse facto as devidas ilações. Correrão rumores de que, em Ponta Delgada, Costa Neves terá querido dizer alguma coisa.
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O PSD está em reflexão. É mesmo a única entidade reflexiva que reflecte melhor no alarido litigante e na confusão dispersiva do que no sossego de pedra de Rodin. O seu método não é o do diálogo prévio, num esforço centrípeto para atenuar as divergências, mas sim o de as sujeitar ao efeito centrífugo da gritaria desordenada de todos os que são (e até de todos os que se julgam) caciques de qualquer coisa, por pequenina que seja. Há muitos modos de assegurar a base agregadora de qualquer associação, mas o PSD não descobre nenhuma. Após a partida de Durão Barroso, experimentou Santana Lopes, Marques Mendes e Menezes. Muitos pensaram - eu também - que só o baronato mais urbano, empresarial e cavaquista poderia já restabelecer a indispensável coesão. Cruel engano. Na hora da verdade, um deserto de disponibilidades e capacidades obrigou a recorrer a uma líder relutante por temperamento, dispersiva nos interesses, omissiva na estratégia e ferida no currículo. A qual, como aqueles seus antecessores, entre tropeçar nos próprios erros e andar a fugir às ciladas dos seus rivais internos, não consegue correr os cem metros em linha recta nos quais o eleitorado vislumbra um caminho e entrevê um objectivo. O recente - e, aliás, sereno - episódio da ida a Belém para ouvir o Presidente sobre o Kosovo ilustra muito mais o que Cavaco pode fazer com o PSD do que o respectivo vice- versa. Até o eventual propósito de alardear sentido de Estado morreu na frase de Ferreira Leite à saída: "O Governo fez bem em ter um momento de grande pausa." A intenção era pia, mas o átrio do Palácio Presidencial não é a melhor sede para enigmas semânticos, lógicos e matemáticos. Há vidas falhadas. Há Estados falhados. Saberemos nós reconhecer, em tempo útil, um partido falhado?

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«DN» de 5 de Outubro de 2008.

NOTA: Este post é uma extensão do que está afixado no Sorumbático [v. aqui], onde os eventuais comentários deverão ser afixados.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A Queimadela do Antraz

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Por C. Barroco Esperança
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ERA VERÃO. Na rua, junto à casa dos meus avós maternos, o tanoeiro do Jardo afeiçoava tábuas de carvalho antes de as equilibrar sobre um calhau, à volta do qual crepitava uma fogueira de lume brando, e de lhes amarrar pedras nas extremidades para as vergar adequadamente e produzir aduelas.
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Com uma giesta, mergulhada num caldeiro de água, molhava regularmente as tábuas expostas ao calor e logo voltava à plaina e à enxó a desbastar outras que se seguiriam para tomarem a forma ajustada e substituírem as que o tempo e a acidez do vinho tinham carcomido num tonel de cem almudes.
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Pela rua seguia o Ti Portas, do Sabugal, soprando a gaita de capador, à espera de porcos, vitelos, cães, gatos e outros machos cujos donos decidissem pôr termo à alegria dos bichos, fosse para preservar o sabor da carne ou para os obrigar ao sedentarismo que o cio não permitia.
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Os animais de grande porte eram levados ao tronco do ferrador e os cães e gatos entalados entre uma porta e o batente enquanto duravam a cirurgia e os queixumes.
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De estômago composto, com meio trigo, uma peixota de bacalhau frito e meio quartilho de vinho, retemperadas as forças, as contrabandistas abandonavam a taberna para retomarem as cargas e rumarem ao destino, com alpercatas, pana, chocolates, bolachas e outras encomendas.
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Um presságio afastou-me do tanoeiro para subir as escadas de casa, a correr, depois de ver entrar o Ti Capas, o Medo, o Zé Mateus e o Bodo, que eram usuais nas fainas agrícolas mas não era hábito, àquela hora, entrarem em casa de meus avós.
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O avô andava doente, consumido por um antraz que lhe aparecera na barriga, mas resignado, habituado ao sofrimento e aos baldões da sorte. Fora cedo para a Argentina a bordo de um navio em cujo porão viajou para voltar tão pobre como partira. Pouco tempo depois de casar não o matou um carbúnculo porque lho queimaram e, com ele, o nervo óptico que lhe cegou um olho.
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No lume, o cabo de um garfo de ferro, com os dentes virados para fora da lareira, incandescia. Olhei o meu avô, que, da cadeira onde se sentara, me devolveu um olhar de ternura, afecto reservado ao primeiro neto, enquanto a avó Anunciação, com voz doce, me dizia para ir brincar.
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Saí com vontade de chorar. Pressenti que iam fazer mal ao avozinho, mas não percebi o silêncio, nem a presença dos homens, nem o lençol de linho feito em tiras. Cruzei-me nas escadas com o António Ferreira, o último a chegar, talvez atrasado por mor de alguma besta que estivesse a ferrar.
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O António Ferreira era ferrador por necessidade e clínico por vocação. O fogo era o tratamento que aplicava na ciática e noutras moléstias e não lhe faltavam clientes. Haviam de suceder-lhe o Jaime Gil e o Américo Ferrador na arte de aparar os cascos dos bovinos, muares, burros e cavalos e no jeito de lhes afeiçoar e pregar as ferraduras, mas nunca o imitaram na clínica.
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Nessa tarde, ao descer as escadas, afastava-me do ambiente pesado que se vivia na cozinha dos meus avós enquanto regressava, indiferente, a observar o tanoeiro. Só o percebi quando um grito lancinante do meu avô, logo abafado por alguma almofada, me fez compreender a razão daquele cabo de garfo em brasa, a presença dos trabalhadores e a visita do ferrador.
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Vi descer o António Ferreira, que tinha sido o último a entrar e era o primeiro a sair, a falar sozinho, queimei bem a raiz, queimei-a bem, e lá foi rua acima, de regresso a outros afazeres.
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Ansioso, subi as escadas, duas a duas, a correr, num esforço apreciável para pernas tão curtas. O avô Paulo já estava na cama e a minha avó pediu-me para não o incomodar. No ar, um cheiro doce a carne queimada agoniava-me e eu só pensava em ver o meu avô, em dar-lhe um beijo, em conversar com ele; mas só no dia seguinte pude vê-lo, ainda com febre, feliz por me ver, esquecido das dores, contidos os gritos e gemidos que durante a noite se ouviram.
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Ainda viveu mais uma dúzia de anos, número igual ao das férias grandes, Natal, Carnaval e Páscoa em que a ternura dos avós e a autonomia que me concederam, criaram em mim o gosto pela liberdade e formaram o cidadão.
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Até ao dia 2 de Março de 1961, quando, da cama onde agonizava, o avô me agarrou a mão, balbuciou de forma quase imperceptível, Caarrlos, e se despediu. Era noite.
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NOTA: Este post é uma extensão do que está afixado no Sorumbático [v. aqui], onde os eventuais comentários deverão ser afixados.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008


Repare-se neste pormenor: alguém se lembrou de plantar cedros mesmo em frente ao miradouro. Como, neste local, estas árvores atingem enormes proporções, em breve a vista será tapada...
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Os responsáveis (autárquicos?) por este miradouro esforçam-se por mantê-lo o mais limpo possível, não faltando recipientes para o lixo, por perto. Mas há sempre quem encontre um cantinho para dar largas ao seu civismo...
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NOTA: estas imagens vêm na sequência do passatempo afixado no Sorumbático [v. aqui], onde se desafiava os leitores a identificarem o local.

O CASO 'LISBOAGATE' E A CULTURA DA CUNHA

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Por João Miguel Tavares
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A CUNHA TEM MUITO que se lhe diga. Toda a gente está disposta a condená-la e a apontá-la como uma das causas do atraso de Portugal, mas poucos, na prática, passam sem ela. Se Jesus, em vez de frequentar as terras de Israel, tivesse pregado nas margens do Tejo, teria dito à multidão em fúria: "Quem nunca meteu uma cunha que atire a primeira pedra." E aí todos baixariam a cabeça, começando pelos mais velhos, e iriam apedrejar para outra freguesia. É que a cunha não é um acto de corrupção, como enfiar notas na mão de um autarca. É, de forma bem mais cândida, driblar a máquina burocrática, pedir pequenos favores para o primo que é óptimo rapaz, tentar muitas vezes ajudar quem efectivamente precisa ou, como se diz na minha terra, ter um simples "olhamento".
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Mas, claro, de cunhas bem-intencionadas está o inferno cheio. Veja-se o caso "Lisboagate". As primeiras notícias divulgadas pelo DN ainda vinham acompanhadas de um halo de santidade. Os abusos na atribuição de casas pela autarquia eram, afinal, justificados pelas melhores razões: do Presidente da República à esposa do primeiro-ministro, todos metiam cunhas e pediam casas, mas sempre a favor do pobrezinho desamparado. A cunha, boa parte das vezes, não beneficia directamente o próprio e é feita com o argumento de reparar uma injustiça. O problema é que, sem a existência de regras claras e justas, passa a haver uma espécie de fotogenia da pobreza: beneficiam aqueles que melhor comoverem os poderosos. Claro que atrás do pobre vem o motorista do Presidente que mora longe, coitado, e atrás do motorista vem a funcionária que se divorciou e não tem para onde ir, e atrás da funcionária vem o filho da funcionária, que também é filho de Deus.
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A partir daí, nessa avalanche de cunhas e favores cabe tudo, e tudo se mistura. Quando o caso "Lisboagate" atinge um nome como o de Baptista-Bastos, é porque algo está podre no reino da Dinamarca. Numa breve troca de mails, Baptista-Bastos negou-me ter tido qualquer comportamento "reprovável" e eu não tenho qualquer razão para pôr em causa a sua verticalidade. Mas também não tenho dúvidas de que ele jamais deveria ter recorrido à câmara para conseguir uma casa. O escritor Baptista-Bastos, que já tanto deu a Lisboa, podia ter direito a ser ajudado numa altura de dificuldade, como parece ter sido o caso. O jornalista Baptista-Bastos, não. Porque pediu um favor ao poder autárquico. Porque auferiu de um privilégio vedado ao cidadão comum. Que alguém que sempre foi tão moralmente exigente nos seus artigos de imprensa não perceba isto faz-me confusão. Quem, como ele, acredita na nobreza do jornalismo, tem de reconhecer uma cunha quando a vê. E, sobretudo, deve reconhecê-la quando a mete.
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«DN» de 30 de Setembro de 2008 - c.a.a.
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NOTA: Este post é uma extensão do que está afixado no Sorumbático [v. aqui], onde os eventuais comentários deverão ser afixados.

VÃO BATER A OUTRA PORTA!

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Por Baptista-Bastos
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NA SEMANA QUE PASSOU fui copiosamente nomeado. Não por ter editado um novo livro. Não por ter escrito um rude artigo contra alguém, ou um elogio a quem o mereceu. Apenas porque, há 11 anos, sou inquilino da Câmara Municipal de Lisboa. As "notícias" vindas a lume traem o étimo da palavra: nenhuma novidade comportam. Por três ou quatro vezes, em crónicas amenas, confessei-me arrendatário municipal, como outras dezenas, senão centenas, de pessoas. E há os ateliês dos Coruchéus; os de Belém. Cedidos, como em toda a Europa, a artistas, que não vivem propriamente na penúria. Sem esquecer o Bairro dos Jornalistas, em Alfragide, construído com grandes apoios municipais. Durante umas outras eleições municipais, um sisudo e monótono semanário quis saber do assunto. Embora preserve, com feroz esmero, a minha vida privada, esclareci a senhora que perguntava. Repetiu-se, agora, a dose. Habituei-me à manipulação (porque de manipulação se trata), tocado da leve rabugice que a reincidência me provoca e a idade justifica. O que se publicou está eivado de inexactidões, de omissões e de insídia. Este jornalismo húmido e pegajoso mais parece um livro de encargos sujos do que a função de origem. Um só facto: o meu senhorio é, realmente, o Município. De resto, nada de ilegal, nada de imoral. E muito menos a retribuição de "pequenos favores". Há homens que arrastam consigo a polémica ou a ignomínia. Pertenço ao primeiro grupo. E de ignomínias possuo uma lista cada vez mais acrescida. Como o registo das coisas acompanha sempre o sentido das intenções - sei muito bem de onde e de quem partem estas periódicas atoardas. Ser livre é muito difícil.
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O apartamento foi-me atribuído após inspecção dos técnicos à minha casa, em Alfama, onde vivi 32 anos. Chovia no interior, paredes rachadas, perigos vários. Procederam, outros técnicos, ao varejo cuidadoso dos meus réditos de então. Escassos: eu estava desempregado. Abandonara o jornalismo, ou o jornalismo abandonara-me em 1990. O contrato assinalava que a renda aumentaria consoante os ritmos da inflação. Devo dizer que faço estas confidências com pudor e escrúpulo. Porém, torna-se imperioso que não deixe aos acasos das contingências as evidências da razão. Conheço os perigos que a minha actividade comporta. Tenho sido, certamente, injusto, áspero e, até, insensato. Mas escrever ou ter comportamentos moralmente reprováveis - conscientemente, creio que nunca. No extremo cume da extrema percepção, é-me difícil exprimir, por outro meio que não este, a indignação causada pela abjecta orientação ad hominem da atoarda. Faço uma representação do mundo que, naturalmente, me é muito própria. E não abdico de convicções. Há quem altere o prisma, para adoptar novos modos de vida. Como não pertenço a esse agrupamento, recomendo: Vão bater a outra porta! É tudo.
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«DN» de 1 de Outubro de 2008
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NOTA: Este post é uma extensão do que está afixado no Sorumbático [v.
aqui], onde os eventuais comentários deverão ser afixados.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Senhoras Donas, por favor!


Por Alice Vieira

CADA PAÍS (CADA LÍNGUA, CADA CULTURA) tem a sua maneira específica de se dirigir às pessoas. Mal passamos Vilar Formoso, logo toda a gente se trata por tu, que os espanhóis não são de etiquetas nem de salamaleques.
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Mas nós não somos espanhóis.
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Também não somos mexicanos, que se tratam por “Licenciado” Fulano.
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Nem alinhamos com os brasileiros, para quem toda a gente é “Doutor”, seguido do nome próprio: Doutor Pedro, Doutor António, Doutor Wanderlei, etc.
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Por cá, Doutor é seguido de apelido, e as mulheres, depois de passarem por aqueles brevíssimos segundos em que são tratadas por “Menina”, passam de imediato - sejam casadas, solteiras, viúvas ou amigadas, sejam velhas ou novas, gordas ou magras, feias ou bonitas, ricas ou pobres – à categoria de “Senhora Dona”.
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Mas parece que uns estranhos ventos sopraram pelas cabeças das gerações mais novas que fizeram o “dona” ir pelos ares ou ficar no tinteiro.
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Quando recebo daqueles telefonemas que me querem impingir tudo o que se inventou à face da terra - desde “produtos” bancários que me garantem vida farta, até prémios que supostamente ganhei por coisas a que nunca concorri — sou logo tratada por “Senhora Alice.” Respondo sempre: “trate-me por tu, se quiser; ou só pelo meu nome, se lhe apetecer; mas nunca por Senhora Alice”.
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Mas o cérebro destes pobrezinhos não foi formatado para encontrar resposta a estas coisas, e exclamam logo: “ah, então não é a Senhora Alice que está ao telefone!”
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Eu sei que isto não é uma coisa importante, mas que é que querem, irrita-me quando oiço este tratamento dado às mulheres.
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Tal como me irrita quando vejo/oiço um jornalista tratar por você alguém com o dobro da idade dele.
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É uma questão de delicadeza. De respeito. E de saber falar português. Três coisas — admito — completamente fora de moda.
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Pois qual não é o meu espanto quando, aqui há dias, na televisão, oiço o Senhor Primeiro Ministro referir-se assim à mulher (também odeio a palavra “esposa”…) do Comendador Manuel Violas. “A Senhora Celeste…” (não sei se é este o nome da senhora, mas adiante).
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Fico parva. Nos cursos todos que tirou, ninguém lhe ensinou que as senhoras são todas “Senhoras Donas”?
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Parafraseando livremente o nosso Augusto Gil, “que quem trabalha num call-center nos faça sofrer tormentos… enfim!/ Mas o Primeiro Ministro, Senhor? Porque nos dás esta dor? Porque padecemos assim?”
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«JN» de 28 de Setembro de 2008
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Nas entrelinhas de Machado

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Por Nuno Crato
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É QUASE IMPOSSÍVEL PASSAR HOJE por uma livraria brasileira sem notar o destaque dado a um escritor que muitos em Portugal apenas conhecem de nome. Não se trata de Jorge Amado nem de Graciliano Ramos. O homem que tem obras em todas as vitrines usava óculos e bigode. Era filho de uma lavadeira açoriana e de um pintor mulato, por sua vez filho de escravos. Chamava-se Machado de Assis (1839–1908) e há uma quase unanimidade da crítica em apreciá-lo como o maior escritor de sempre da grande nação sul-americana. Harold Bloom considera-o «até hoje, o supremo escritor de origem negra». Agora, que se assinala o centenário da sua morte, ocorrida a 29 de Setembro, há escaparates inteiros com os seus livros. Há exposições nas bibliotecas. Por toda a cidade do Rio de Janeiro, onde Machado nasceu, viveu e morreu, há cartazes e bonecos de pano que o representam e chamam a atenção para as suas muitas reedições, biografias e estudos.
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Machado viveu momentos de grandes mudanças. Viveu o fim da escravatura no Brasil e a implantação da república. Protagonizou a transição do romantismo literário para o realismo. Nesse percurso, criticou o romance Primo Basílio, de Eça de Queirós, vindo-se depois a arrepender de outras críticas ao escritor português. Na realidade, Machado foi homem de poucas polémicas, preferindo intervir pela subtileza da sua criação literária — onde há muito a ler, nas linhas e nas entrelinhas.
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Entre as formas de homenagem que os Brasileiros escolheram há a reposição de uma peça de teatro quase desconhecida — a última do escritor. É a Lição de Botânica (1908), uma farsa em que um cientista rigoroso tenta evitar uma jovem enamorada, por achar que não há espaço no seu coração para dois amores. Dividido entre a ciência e a paixão, queria resistir à segunda para melhor se dedicar à primeira. Imagina-se que perderá a batalha.
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Na Casa de Ciência da Fundação Instituto Oswaldo Cruz, um extraordinário estabelecimento de investigação científica na periferia do Rio de Janeiro, a farsa é representada para deleite dos espectadores jovens. No final discute-se a visão de Machado, que insistia na necessidade de concórdia entre a razão e a emoção.
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Se esta peça de teatro é uma das obras menos conhecidas de Machado, já a segunda discutida pelos brasileiros neste âmbito de comentário científico é uma das mais lidas — e uma das mais consideradas. Trata-se do conto ou novela O Alienista (1882), em que um alienista, ou seja, um médico de loucos, resolve tratar por métodos pretensamente científicos todos os habitantes da sua cidade. Ao longo das cinquenta páginas da ficção, Machado ridiculariza a pretensão cientifista então em voga no Brasil.
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Os positivistas brasileiros, que tiveram um papel determinante na implantação da república em 1889, eram seguidores do filósofo francês Auguste Comte e pretendiam gerir a sociedade e moldar a mente humana por métodos ditos científicos. Era a ambição de tudo submeter ao racionalismo extremo, que transforma o desejo de progresso na recusa da diferença.
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Se o leitor não conhece Machado de Assis, O Alienista é uma obra excelente para começar. Daí siga directamente para os romances mais conceituados: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro. Mas se quer uma opinião pessoal, não perca, sobretudo, o extraordinário Memorial de Aires.

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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 27 de Setembro de2008

domingo, 28 de setembro de 2008

«Sem Cura Possível», de André Brun - Cap. II

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A absolvição do banqueiro

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Por J. L. Saldanha Sanches
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ERA UM PEQUENO BANCO PORTUGUÊS, surgido do nada e cheio de gente vinda da política. Com especulação imobiliária, lavagem de dinheiro e traficâncias várias conseguiu singrar.
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Ninguém percebia como. Os auditores fugiram horrorizados e explicaram porquê mas como não metia futebol ninguém ligou. Depois veio a crise, o banco ficou à beira do colapso, parecia que ia ter de ser salvo com os dinheiros do contribuinte, mas talvez pela sua pequena dimensão arranjou quem o comprasse.
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A nova administração passou as contas a pente fino, elaborou volumosos dossiers com provas circunstanciadas dos desfalques. O Banco de Portugal e a Comissão do Mercado dos Valores Mobiliários enviaram para tribunal caixotes e caixotes de prova. Tarde, mas enviaram.
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O país ficou à espera do resultado.
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O juiz não gostou do que viu. Preferia julgar vadios por assaltos à mão armada. A prova era abundante, mas não tão simples como o assassínio na esquadra de Faro. E mesmo esse caso...
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Para mais, tudo se passava num banco e o juiz não gostava de bancos. Tudo o quanto sabia sobre bancos é que lhe tinham aumentado os juros do empréstimo da sua casa e ninguém o convencia que culpa não era exclusivamente deles. Isso dos bancos, achava o juiz, eram uma cambada de ladrões.
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Lá num recanto nevoento da sua cabeça havia uns vagos ecos de teorias de quando a banca era essencial numa economia de mercado, que a subida dos juros era uma decisão do Banco Central Europeu, mas eram ecos muito longínquos. As pessoas com quem falava diziam todas que os bancos eram uns ladrões.
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Por isso, mesmo quando lhe explicavam minuciosamente como é que o financiamento do banco a uma sociedade off-shore tinha ido directamente para o bolso do arguido ficava com dúvidas. E o que era isso de uma sociedade off-shore? Para mais, os advogados do banqueiro decaído explicavam doutamente que não era nada assim e conseguiam sustentar a sua tese com documentos muito bem elaborados.
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E pensava o juiz, o que lhe iria suceder, se navegando sem mapa nem bússola naqueles milhares de páginas cheias de contratos abstrusos, cometesse um qualquer erro que levasse à anulação do julgamento e à absolvição futura do arguido? E se o banqueiro vítima indefesa da justiça portuguesa que lhe tinha manchado a reputação (qual reputação?) o obrigasse a passar o resto da vida a pagar uma indemnização?
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E depois? Iam ser aqueles senhores (também banqueiros) que lhe tinham explicado em julgamento como aquele tipo de manejos destruía a economia que iriam pagar a indemnização?
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Não. Tinha dúvidas. In dubio, pro reo. Absolveu-o: ao menos aquele não fazia reféns quando assaltava (por dentro) o banco.
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Os jornais falaram disso por uns tempos mas depois esqueceram-se e o juiz prosseguiu tranquilamente a sua brilhante carreira sempre com a classificação de “muito bom”
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Portugal, país da impunidade? De modo nenhum.
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O banqueiro decaído moveu uma acção por denúncia caluniosa contra o Governador do Banco de Portugal e o Presidente da Comissão do Mercado dos Valores mobiliários. Prova? Tinha sido absolvido.
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Mais afoito que o juiz do crime o juiz cível dá-lhe razão. O processo contra ele tinha sido uma monstruosidade e tinha causado danos irreversíveis na sua reputação (qual reputação?).
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Um final feliz. O banqueiro refez a virgindade perdida e foi indemnizado. O Governador do BdP e da CMVM pagaram chorudas indemnizações. O Ministro da Justiça assistiu a tudo embevecido: cumpria-se a Constituição.
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NOTA: Este post é uma extensão do que está afixado no Sorumbático [v. aqui], onde os eventuais comentários deverão ser afixados.

sábado, 27 de setembro de 2008

Passatempo sem prémio

Soluções:
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Luís Bonito oferece aos leitores do Sorumbático este conjunto de problemas com fósforos.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

«Sem Cura Possível», de André Brun - Cap. III



Comunas e burguesia

Por Antunes Ferreira

PRONTO. O Presidente do Governo Madeirense afirmou ontem no Funchal que Portugal está a viver «em cima de uma panela de pressão». E disse mais. De acordo, ainda, com a Comunicação Social, Alberto João Jardim acentuou: «Isto tudo é de uma grande irresponsabilidade», tendo considerado como sendo facto «insólito, em qualquer democracia europeia», que em Portugal as sondagens recentemente publicadas indicarem que há «uma intenção de voto de 20 por cento nas organizações comunistas todas somadas». O que, para ele, Jardim, «é impensável em qualquer país da União Europeia». Assim, disse ainda «um em cada cinco eleitores está disposto a votar no partido comunista».
O governante madeirense opinou também que enquanto se assiste a este cenário «a burguesia portuguesa, com a sua tradicional incultura, acha que está tudo bem, que os direitos sociais dos trabalhadores podem continuar a ser violados, porque o que interessa é ganhar dinheiro e que o mercado continue a funcionar selvaticamente».
Acrescentou ainda que «há um fenómeno muito desagradável em Portugal: os partidos políticos fecharam-se como que numa concha, tornando-se em centros de interesses individuais e de grupo, tornando-se mais em lobbies do que representantes do sentir da Nação portuguesa».
Ora toma. Quem havia de dizer? A riqueza do pensamento político-cultural do Senhor da Madeira é, realmente, ofuscante. E a sua coerência, espantosa. Se não, veja-se: em Portugal ocorre o «impensável» na UE: um em cada cinco eleitores está disposto a votar no PC; mas, por outro lado, a inculta burguesia portuguesa vai violando os direitos sociais dos trabalhadores, num mercado a funcionar selvaticamente.
Não fosse já conhecido o discurso habitual do líder regional – e as gentes pasmavam. Claro, cidadãos ignaros, ralé, arraia miúda, diria o Fernão Lopes, tinham de aprender com as tiradas sapientes e profundas do Dr. Alberto João. E não apenas os da Região Autónoma. Todos. O povo, que já não é quem mais ordena, agora tem de ser quem mais aprende. Com o grande dirigente. Ao pé do qual o finado Kim il-Sung não passava de um aprendiz de feiticeiro. Jardim, neste contexto, deixa, por exemplo, Arnaldo Matos – lembram-se dele? - a anos-luz de distância.
AJJ é um fenómeno. Indiscutivelmente. Capaz de afirmar aos berros e de dedo em riste, o que raríssimos Portugueses (para não dizer fundamentalisticamente nenhuns) conseguiriam sequer sussurrar. As suas diatribes, bastas vezes a roçar a inconveniência e, até, a má educação, ressoam pelo nosso País inteiro. Uma tal truculência virulenta pede meças ao mais pintado. E parece que muitíssima gente tem medo dele. Veja-se Jaime Gama, veja-se até Cavaco Silva que, anote-se, é o Presidente…, mas só da República.
No mesmo saco: os comunistas e a burguesia que se cuidem. O verdadeiro grande educador está um luta. Atenção, seus filhos da p…romiscuidade política mais abjecta. Que seria da Madeira sem Jardim? Ora essa: que seria de todos nós os Portugueses sem Jardim? Que seria de Portugal?
Viver sobre uma panela de pressão é incómodo, perigoso, fatal. Mas, sosseguem, gentes: temos quem nos salve.
NOTAS: Este post é uma extensão do que está afixado no Sorumbático [v. aqui], onde os eventuais comentários deverão ser afixados. Blogue do autor: Travessa do Ferreira; cartoon cedido por Sergei

6ª "dica" para Passatempo-relâmpago



Estas fotos já são extremamente próximo do local-mistério.
E mais! A foto inferior foi tirada junto ao toco de árvore que se vê na foto-mistério afixada no Sorumbático...
Se, depois disto tudo, ninguém acerta... não sei o que faça!

Passatempo-relâmpago - "5 ª dica"



Fotos tiradas, com poucos dia de intervalo, a uma centena de metros do local que se pretende identificar
Nesta ruela, onde é proibido PARAR, toda a gente pode estacionar à vontade, e até extravazando para o passeio, que não lhe acontece nada.
Recentemente, alguém assinalou, com uma fita, a ruína iminente do murete.
Pouco depois, outro alguém retirou o sinal de perigo, e tudo voltou ao habitual...

"Dicas" para o passatempo "Cidade Escaldante"

dica
A foto do passatempo afixado hoje no Sorumbático foi tirada na mesma cidade que esta, num local situado a uns 2000 metros daqui.

2ª dica - Estacionamento para deficientes
A foto do passatempo afixado hoje no Sorumbático foi tirada na mesma cidade que esta, num local situado a uns 1000 metros daqui.
3ª dica - Estado habitual de um passeio junto a uma famos casa de frutas e sumos.
A foto do passatempo afixado hoje no Sorumbático foi tirada na mesma cidade que esta, num local situado a uns 500 metros daqui.

4ª dica - Estado habitual do parque para motos (quem diria?) existente à porta de um famoso café

A foto do passatempo afixado hoje no Sorumbático foi tirada na mesma cidade que esta, num local situado a uns 250 metros daqui.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Curiosidades de arquitectura e engenharia...

É muito possível que algumas destas imagens tenham sido concebidas por computador.
Noutros casos, poderá tratar-se de construções feitas de propósito, com intuito humorístico ou provocatório.
Seja como for, aqui fica a colecção completa:












quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O ARGUMENTO DA HONRA

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Por Baptista-Bastos
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A ÉTICA REPUBLICANA iluminava as virtudes do carácter e a grandeza dos princípios. As revoluções, idealmente, não são, apenas, alterações económicas e substituições de regimes. Transportam a ideia feliz de modificar as mentalidades. Essa mistura de sonho e ingenuidade nunca se resolveu. A esperança no nascimento do "homem novo" não é exclusiva dos bolcheviques. O homem das revoluções jamais abandonou o ideal de alterar o curso da História e de modelar os seus semelhantes à imagem estremecida das suas aspirações.
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É uma ambição desmedida? Melhor do que ninguém, respondeu Sebastião da Gama: "Pelo sonho é que vamos/comovidos e mudos./Chegamos? Não chegamos?/Partimos. Vamos. Somos." A ética republicana combatia a sociedade do dinheiro, da superstição religiosa, da submissão, e pedia aos cidadãos que fossem instrumentos de liberdade. As "raízes vivas", de que falou Basílio Teles.
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Fomos perdendo, sem sobressalto nem indignação, a matriz ética da República. De vez em quando, releio as páginas que narram os desassossegados dezasseis anos que durou o novo regime, obstinadamente defendido por muitos a quem se impunha a consciência do compromisso. Esses, entre o aplauso e o assobio, percorreram o caminho que vai do silêncio à perseguição, do exílio ao assassínio político. Morreram pobres. São os heróis de uma história que se dissipou, porque o fascismo impediu nos fosse contada, nas exactas dimensões das suas luzes e das suas sombras.
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Relembrei estes episódios ao tomar conhecimento, pelo semanário Sol, de que Ramalho Eanes prescindira dos retroactivos a que tinha direito, relativos à reforma como general, nunca por ele recebidos. A importância ascende a um milhão e trezentos mil euros. É um assunto cujos contornos conformam uma pequena vindicta política. Em 1984, foi criada uma lei "impedindo que o vencimento de um presidente da República fosse acumulado com quaisquer pensões de reforma ou de sobrevivência que aufiram do Estado." O chefe do Governo era Soares; o chefe do Estado, Ramalho Eanes, que, naturalmente, promulgou a lei.
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O absurdo era escandaloso. Qualquer outro funcionário poderia somar reformas. Menos Eanes. Catorze anos depois, a discrepância foi corrigida. Propuseram ao ex- -presidente o recebimento dos retroactivos. Recusou. Eu não esperaria outra coisa deste homem, cujo carácter e probidade sobrelevam a calamidade moral que por aí se tornou comum. Ele reabilita a tradição de integridade de que, geralmente, a I República foi exemplo. Num país onde certas pensões de reforma são pornográficas, e os vencimentos de gestores" atingem o grau da afronta; onde súbitos enriquecimentos configuram uma afronta e a ganância criou o seu próprio vocabulário - a recusa de Eanes orgulha aqueles que ainda acreditam no argumento da honra.
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«DN» de 17 de Setembro de 2008
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NOTA: Este post é uma extensão do que está afixado no Sorumbático [v. aqui], onde os eventuais comentários deverão ser afixados.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Portugal para turistas

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Por Alice Vieira
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Foto obtida [aqui]
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NEUZA TEM 23 ANOS, nasceu em Brasília, onde vive com um namorado português, meu amigo, que lhe prometeu mostrar a pátria assim que pudesse.
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Caíram-me há dias no colo.
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Traziam no corpo mais de dois mil quilómetros em estradas portuguesas, e agora ela queria conhecer Lisboa.
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“Tenho um almoço de negócios”, disse-me ele ao telefone, “podes tratar dela esta tarde?”
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Nunca fui grande cicerone, ainda por cima agora, que um vírus qualquer anda a fazer-me a vida negra, provocando-me tantas dores no corpo e um tal cansaço que parece que passo dias inteiros na estiva.
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Mas não podia dizer que não, e lá fui apanhar a Neuza à esplanada da Brasileira – completamente fascinada pelas pessoas, pelo bacalhau, pelos pastéis de nata, pelos ovos moles, pelos palácios, pelas caves de vinho do Porto.
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Desde que o avião aterrara, não tinham tido um minuto de descanso, cumprindo à risca o itinerário traçado em Brasília.
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E a Neuza falava, emocionada, do centro histórico de Guimarães, dos cais de Gaia, da capela dos ossos de Évora, da subida ao Palácio da Pena, de Trancoso, de Cabanas de Viriato, etc.
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Para não deixar Lisboa malvista, arranco com ela pelo Chiado, levo-a a almoçar num desses restaurantes muito zen que abundam agora na Baixa, paro no Largo do Carmo onde lhe conto a história (acho que vai chegar ao Brasil confundindo o Condestável, o Marquês de Pombal e Salgueiro Maia…) e dou-me conta de que tenho nas mãos uma brasileira de 23 anos que sabe tanto da história recente de Portugal como um português de 23 anos sabe da história recente do Brasil, perguntando, espantada, “fizeram uma revolução?! E porquê? O governo era corrupto?”. (Para uma brasileira de 23 anos, o único motivo para fazer revoluções é a corrupção).
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A Neuza emociona-se com o rio em Santa Catarina, abre a boca de espanto com o tecto arte nova do restaurante, sente-se no paraíso diante das montras das grandes marcas, parece uma criança à janela do 28.
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A Neuza é uma turista perfeita e, para turistas perfeitos, Portugal é um país perfeito.
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E eu tenho pena de não ser capaz de olhar para o país com a ingenuidade dos olhos dela, e de me emocionar assim – sem pensar no desgoverno que vai por aí.
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Se o país fosse aquilo que a Neuza vai levar nos olhos para o Brasil, como nós seríamos felizes!
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A um país assim, tenho a certeza de que até o meu vírus acabaria por se render.

«JN» de 14 de Setembro de 2008
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NOTA: Este post é uma extensão do existente no Sorumbático [v. aqui], onde os eventuais comentários deverão ser afixados.