sábado, 22 de novembro de 2008

A desafinação nacional

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Por Antunes Ferreira
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PECADO CONFESSADO é pecado meio perdoado, diz quem sabe, neste caso o Povo, de cuja voz também se afirma que é a de Deus. Máxima que parece ter caído em saco roto, apesar de alguns, mais crentes, ainda a aceitem. Mas, convenhamos, o que era ontem pecado, hoje já não é – e, em certos casos, é até uma quase virtude. Quer se queira, quer não, as coisas já não são o que eram. Por uma segunda vez consecutiva, falo de futebol. O que para nós Portugueses não é óbice, dado que é o tema nacional por excelência. Mas, não só.
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Já no que respeita à voz do Povo ser a voz de Deus, nada mais desactualizado, no mínimo. Os decibéis do Povo serão iguais ou, no mínimo, semelhantes aos que a Divindade utiliza? Creio bem que não. Nesta época em que os sintetizadores são reis, as vibrações vocálicas andam um tanto abastardadas. Há uns anos falava-se no dó de peito. Agora, comenta-se que metem dó. Prismas.
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São os danados dos chips, são sim senhor, que deram cabo do que era inatacável. Há quem diga mesmo que nos dias que vão correndo os registos sonoros, de tão aviltados, distorcidos, desmotivados, só justificam a rouquidão em treinadores de futebol no final do jogo – ou em animadores de manifestações, ao volante de veículo dotado de altifalantes condicentes com.
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Tomem-se três exemplos. Depois do cataclismo ocorrido na cidade de Gama, ali ao pé de Brasília, o técnico (?) luso Carlos Queirós veio dizer que a equipa (?), perdão, os dez jogadores restantes, não sabe jogar para o Cristiano Ronaldo, como acontece no Manchester. O dito treinador (?) era ou não era ajudante do Sir Ferguson? Não é capaz de trazer para a selecção o que ali se esforçava por aprender com o mestre? Neste caso, apetece referir que o Povo também não tem pejo em afirmar que vozes de burro não chegam aos céus. Com todas as letras, sem tirar nem pôr.
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Outro: a operação Fair Play. Detonada a ocorrência, veio a Procuradoria Geral da República informar que «foi possível recolher prova para indiciar os arguidos, que se organizaram no âmbito da claque de futebol denominada No Name Boys, pela prática de vários ilícitos criminais, designadamente dos crimes de associação criminosa, posse e tráfico de armas de fogo, tráfico de estupefacientes, ofensa à integridade física qualificada, roubo, incêndio, explosões e outras condutas violentas especialmente perigosas». E mais. O texto da PGR veio sublinhar a acção da polícia face à «firme determinação de combater o sentimento de impunidade existente em alguns sectores da sociedade portuguesa, sejam eles quais forem, o que só poderá resultar de uma eficaz articulação entre o Ministério Público e todos os órgãos de polícia criminal, como vem sendo incentivada». Neste particular, esta voz é quase semelhante à da Callas. Boa, excelente.
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Finalmente, o caso BPN e a detenção do seu ex-presidente José Oliveira e Costa, antigo Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais de um governo Cavaco Silva. Foi ouvido na Boa Hora, reza a Comunicação Social, durante cerca de nove horas. E pronunciado por sete crimes. Continua em prisão preventiva. Mas também se acrescenta que quando foi detido, o referido cidadão estava acamado em sua casa. Não se ouviram declarações aos advogados do arguido quando terminou o interrogatório deste. Assim, sem voz.
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Fico por aqui. Ainda pensei em apontar ainda a voz da Dr.ª Manuela Ferreira Leite opinando sobre a suspensão por seis meses da democracia. Mas, de tanto que se tem dito e escrito, nem valia a pena. Não vale. País desafinado, o nosso. Demasiadas vozes e nenhuma harmonia. Musicalmente falando – e não só. Há quanto tempo não usava esta expressão…
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A Quadratura do Circo - Carta Aberta a Carlos Queiroz

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Carlos,
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Meu querido e bom amigo
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Eu avisei-te a tempo. Não ouviste.
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Isto do Futebol depende de toda a tua ciência e de todo o teu estudo, mas também da inspiração do momento e da cabeça fria. A dos dirigentes, do público e dos jogadores. Coisa que, como sabes, há muito pouco em tal mundo à parte. E ainda doutra coisa terrivelmente pragmática - as bolas que entram ou não nas balizas do adversário.
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Que, por sua vez, também é feito de gente, e, por isso, também está a viver o mesmo drama.
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Devo ter sido o único português, segundo lembro, que te disse - em tempos de colegas na Escola de S. João do Estoril, lembras-te? - que te dedicasses a alguma matéria mais pura e inocente, mais cientifica e menos humoral, mais pedagógica e menos brutal.
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- Futebol, Carlos!? – disse eu – tu vais-te especializar em futebol?!
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De facto. Bom aluno e estudioso, podias ter sido um investigador da Fisiologia do esforço, da Metodologia do Treino físico, das virtualidades psicossomáticas por influência do anel gama no tecido muscular estriado, dos mecanismos do gesto ao pensamento e vice-versa. Coisas assim, que este povo não entende. Quer golos. Obviamente.
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Sendo José Augusto seleccionador nacional, precisava de um teórico; um talento com capacidade, conhecimentos e verve para dar a cara. E escolheu-te, pouco depois, para as camadas jovens, onde tiveste o privilégio de deparar com uma geração de ouro de Paulos Sousas, Figos, Joões Pintos, etc. Num pulo, foste campeão do Mundo duas vezes de seguida e maior curriculum não era possível, nem de encomenda.
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Já no futebol profissional, rodearam-te e fizeram-te a cama, quando timidamente comandaste o Sporting, onde percebeste como eram as coisas no mundo dos clubes, saindo depois para uma viagem sem fim, que fui acompanhando de longe - eu músico, tu treinador de futebol - desde a África do Sul, a Américas, Japões, coisas assim.
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Um dia encontrámo-nos no aeroporto e falámos, como se o tempo não nos tivesse afastado e ainda compartilhássemos a mesma secretária. E avisei-te, mais uma vez, como colega mais velho e amigo. Tem cuidado com o Futebol.
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Quando tentaste o Real Madrid, senti que ias meter-te num ninho de víboras e chacais, e que a coisa ia dar para o torto com tanta prima-dona. Mais uma vez, estava certo. Voltaste ao ninho chuvoso de Manchester de asa caída.
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A apetência de ser o Treinador deste país era forte e, se bem que da primeira vez a coisa não fosse brilhante, agora havia Decos e Ronaldos, Nanis e Ricardos Carvalho. Uma tentação.
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Mas os miúdos ricos são quase sempre temperamentais e parvos no momento das grandes escolhas e prioridades. Na vida, e em campo. Torna-se difícil motivar uma manta de retalhos de gente tão vãmente e tão pré-matura-mente idolatrada. E tu lá vais arcando com resultados infelizes, numa espiral sem fim, de infelicidade e descalabro. E o Portugalzito está a jogar cada vez pior, sem alma nem entrega, nem velocidade, nem engenho, nem teia estratégica, nem fogo, mesmo contra dez heróicos albaneses. Desculpa, Carlos, mas tens de ser mais duro. Chicoteia o templo, como fez o outro.
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E mais uma coisa: As vedetas, sejam quais forem, assim, a fazer teatro para a galeria e a terem birras de meninos mimados, não podem ser capitães, de braçadeira ao peito. Capitão? Aquele miúdo? Por muito extraordinário que fosse – e, ao serviço da selecção, não é, ou não tem sabido ser… - dar-lhe aquela braçadeira histórica é, além do mais, ofender todos os outros.
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Que tem ele a mais que os colegas mais internacionais e, logo, mais logicamente indicáveis? É capitão, afinal, porquê?! Eu, se fosse Simão ou Maniche ou Nuno Gomes ou Deco, ou fosse lá quem fosse, pensava isso. Justamente. “Se tenho mais internacionalizações e não sou capitão, é porque o acham melhor que eu”. Isso desestabiliza e irrita. E ele, com todo o vasto repertório de cabriolas inúteis e rodriguinhos para a bancada ainda não o é. Ponto.
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Capitão, aquilo?! Coluna era um Capitão!!! Respeito e saber. Trapio, como se diz dos touros de lide. Ordem na casa. Disciplina. Tarimba. Autoridade. Cabeça fria, mesmo quando todos os outros a perdem. Capacidade de comando natural. Visão global. Aura. Controle dos colegas. Maturidade. Eis tudo o que o jovem Ronaldo ainda não tem.
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Aquele miúdo está precisar de terapeuta. Conheço um tipo que é formado nisso, homem sério e, curiosamente, também licenciado em Educação Física como tu. Pratica preços módicos, só pelo prazer de pôr esses miúdos na ordem, com disciplina e humildade prática. Dou-te o telefone, se ainda não o tiveres.
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Assim, estás a contribuir para o endeusamento de um carburador poderoso, mas que só funciona a pleno gás quando lhe dá na bolha. E demasiado ocupado com o verniz das unhas e o corte do cabelo, para rasgar a roupa e comer a relva, como faz, em sofrimento, qualquer albanês anónimo faminto de fama.
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Põe ordem nas prima-donas e fecha-me a porta daquela capoeira. Pobre Quim. Ele não tem culpa, mas os trincos andam muito desconexos, ferrugentos. E o rapazito da Madeira, o tal habilidoso e maldisposto, se não anda a saber outra vez marcar livres, e se estiverem lá o Deco, o Maniche, o Bruno, o Moutinho, ou o Sabrosa, entre outros, olha que eles ainda pode ser que se lembrem. Monopólios, já o Marquês de Pombal acabou com eles. E dá-me alegria, entrega e criatividade do meio campo para a frente. Ralha. Explica. Expõe. Eu sei. Infelizmente, são tudo coisas que não se compram na farmácia.
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Mas compra tu uma agulha e começa a coser devagar esta manta de retalhos. Se for preciso, vai à segunda divisão arranjar gente peituda e ambiciosa. Pede ao Rui que empreste uns juniores, uns sub-21, qualquer coisa.
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E atalha a direito, pragmático, sem diplomacias. A coisa está preta e eu gostava muito de ter amigos em sítios importantes. E assim…
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Deste que te abraça teu velho amigo
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Professor Pedro Chora Barroso
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Contra o crime de amanhã

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Por Baptista-Bastos
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ESTOU EM CRER que a dr.ª Maria de Lurdes Rodrigues deu um pontapé na maioria absoluta que os disparates políticos da dr.ª Manuela Ferreira Leite presumivelmente garantiam ao eng.º José Sócrates. Como a ministra da Educação não decide, na solidão alcatifada do gabinete, sem escutar, inevitável e antecipadamente, o primeiro-ministro, infere-se que este é o principal responsável da situação. Não há parábola que remova esta sucessão de evidências.
Sócrates está longe de ser um bom governante. Porém, a presidente do PSD ainda seria pior. As perspectivas não são de molde a alegrar-nos. Estes "mandantes desabusados" (para usar uma expressão cara a Aquilino) tornaram insuportável a vida portuguesa. A nossa inalterável ingenuidade cimentou-os no poder.
A verdade é que, depois do PREC, com ligeiras variantes, o descontentamento, a raiva, o desespero causados pelas mentiras sistemáticas e despudoradas converteram o nosso regime numa duvidosa democracia. Direi: numa democracia distanciada, sem alma nem paixão, ausente do "outro", como certos preopinantes quiseram moldar a "modernidade" do jornalismo a essa obscenidade ética e deontológica da "distanciação".
Em todo este comportamento político reside algo de tirânico, resultado de uma educação que se manifesta larvarmente, e cujas origens podem ser encontradas numa Igreja que se não desproveu da rigidez e de uma classe dirigente organizada na mediocridade, no autoritarismo, e destituída de grandeza.
Para essa gente, as declarações de Manuel Alegre, ao Diário de Notícias de domingo, suscitam um leve desdém, um trejeito de enfado ou, então, um trovejar de frases inócuas. "Ele diz sempre o mesmo", formulou um dirigente "socialista", muito adicto à felicidade de ser a voz do dono, qualquer que esse dono seja.
Não é assim. Alegre tem sido um respingão incómodo, ante a inqualificável inércia e o desacrediante desvio ideológico do PS. E há um núcleo central das suas opiniões que se mantém, exactamente porque ele não se deixa pacificar, possui convicções, e, goste-se ou não, tem combatido a lassa indiferença de muitos dos seus "camaradas".
O documento recolhido por João Marcelino e Paulo Baldaia é particularmente importante, porque cria uma declarada ruptura com "este" PS, ao mesmo tempo que o deponente recusa o exílio interior. Penso que a questão dos professores, adicionada a todas as querelas conhecidas, determinou este desabafo, que nada tem de secundário nem de sentimental. Manuel Alegre sente-se embaraçado num partido que se fechou à sociedade e que traiu os testamentos legados, em nome de uma "esquerda moderna" cedo naufragada em soluções parciais e em repugnantes concessões - que permitirão, acaso, o crime de amanhã. Ele é contra.
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«DN» de 19 de Novembro de 2008. Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

terça-feira, 18 de novembro de 2008


Comentário a post publicado no DE RERUM NATURA

Uma outra vista do conjunto afixado em O Carmo e a Trindade

Poderia Deus fazer um Universo diferente?

Por Nuno Crato
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SEGUNDO UM RELATO do matemático Ernst Straus, Einstein dizia que o que realmente lhe interessava era «se Deus poderia ter criado o Universo de maneira diferente; por outras palavras, se a necessidade de simplicidade lógica lhe teria deixado alguma liberdade». Sabe-se que Einstein não era crente. Dizia que acreditava num Deus um pouco à maneira de Spinoza; acreditava que a natureza era regida por uma lógica. Não falava de uma divindade específica no sentido religioso tradicional. Numa carta recentemente descoberta, escrita em Janeiro de 1954, um ano antes da sua morte, tinha sido ainda mais claro: referia-se à ideia de Deus como sendo «um produto da fraqueza humana».
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A concepção de Einstein, de traços panteístas, é partilhada por muitos profissionais da ciência. O grande físico acreditava numa realidade externa que a observação, a experimentação e a razão podem progressivamente assimilar. Via lógica nessa realidade. Nas suas Notas Autobiográficas (1946), repetiu-o: «Lá fora há este mundo imenso, que existe independentemente de nós, seres humanos, e que se ergue perante nós como um grande e eterno mistério, parcialmente acessível à nossa inspecção e pensamento».
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Adoptando uma visão quase platónica, a unidade lógica do mundo físico existiria externamente. Não seríamos nós que daríamos sentido ao Universo. O sentido do Universo estaria à espera de ser descoberto. Naturalmente, esse sentido não era arbitrário. As leis físicas não podiam ser outras.
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Einstein ficaria contente se pudesse conhecer alguns trabalhos de natureza matemática que, nos últimos tempos, têm vindo a tentar desenvolver a teoria da relatividade sem recurso ao célebre postulado da constância da velocidade da luz. Como se sabe, experiências muito rigorosas feitas no fim do século XIX não conseguiram detectar a mudança de velocidade da luz quando o observador se afasta e se aproxima da fonte luminosa. Muitos físicos procuraram explicações ad hoc para este fenómeno surpreendente. Einstein teve a ideia de postular que a velocidade da luz no vazio era uma constante universal e daí tirou um conjunto de conclusões revolucionárias sobre o espaço e o tempo que ainda hoje fascinam cientistas e leigos. Mas há mesmo algo de especial na luz, ou a relatividade deriva de algo de muito profundo na estrutura do espaço e do tempo?
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Mitchell J. Feigenbaum, um físico-matemático da Universidade Rockefeller em Nova Iorque, acaba de mostrar (http://arxiv.org/abs/0806.1234) que todas as conclusões de Einstein se podem deduzir de princípios mais simples.
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Feigenbaum volta a Galileu e ao seu célebre exemplo do navio em movimento. Dizia o físico italiano que, num mar sem ondas e dentro de um navio em movimento uniforme, um observador olharia para o cais e julgaria estar parado, sendo o cais a mover-se. Uma vez fechado na cabina, tudo se passaria como se o navio estivesse parado. Não lhe seria possível distinguir o repouso do movimento uniforme.
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Estendendo este princípio de relatividade de Galileu com recurso a conceitos puramente matemáticos e esquecendo por completo a velocidade da luz, Feigenbaum redescobriu as chamadas transformações de Lorentz, que estão no cerne da relatividade de Einstein. Não é necessário atribuir um papel especial à velocidade da luz. Talvez, afinal, Deus não tivesse podido construir o Universo de outra maneira.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 15 de Novembro de 2008- adapt.
NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

domingo, 16 de novembro de 2008

À desgarrada

Por Nuno Brederode Santos
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ANTES QUE A MEMÓRIA ME SEJA CONFISCADA, recordo aqui o jogo do rato e do gato que todos, em grau maior ou menor, fomos obrigados a travar com a Censura até 1974. Vivíamos vésperas, entre a ironia e a angústia, antecipando aquelas deslocações ao Bairro Alto, as quais, de facto, valiam bem a insónia que causavam. Depois, chegados lá, muitas vezes nos entregavam as prosas arrasadas pelo lápis azul, com grande sobriedade administrativa: era uma mera operação de “guichet”, como a compra de bilhete na estação dos comboios. Porque o desclassificado funcionário que nos atendia nada sabia, nem podia, explicar. Era assim o corte do censor mau. Outras vezes, porém, davam-nos o direito de acesso a um qualquer militar reformado, mas senhor do latinório de bolso que permitia, não discussão, mas algumas – generosas – explicações para as largas manchas azuis nas provas de página. Não esquecerei a surpresa que partilhei com o Mário Sottomayor Cardia, aí por 1964. Pedindo nós explicações para os cortes quase integrais numa série de artigos, sem os quais estaria em risco a publicação atempada de uma edição mensal da “Seara Nova”, fomos conduzidos ao gabinete de um coronel reformado que, enquanto se desdobrava, embaraçado, em argumentos trapalhões, quis provar-nos ser também ele um homem de letras e ofereceu-nos um seu livro de poemas. Um caso comovente de censor bom.
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Duas coisas tinham em comum o censor mau e o censor bom. A primeira é que cumpriam com igual aplicação as directivas para mutilarem o pensamento alheio e matarem no ovo a liberdade de expressão. O que era natural: um censor com problemas de consciência seria ainda mais precário do que um carrasco a recibos verdes. Mas a segunda, convenhamos, era a de confinarem a repressão ao âmbito da nossa iniciativa, ou seja, do que nós seleccionávamos para publicar.
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Vem isto ao caso quando vemos Manuela Ferreira Leite proclamar que “não pode ser a comunicação social a seleccionar aquilo que transmite”. Bom, naquele tempo podia. O que não havia era garantia alguma sobre a extensão do que se podia transmitir. E eu, que conheci esses tempos durante alguns anos menos do que MFL, habituei-me a associar à ditadura a possibilidade de nos calar, mas nunca me ocorreu essa violência maior que teria sido pôr-nos a falar por ela. Claro que nunca a censura deixaria passar um “abaixo Salazar”. Mas não há memória de ter querido que publicássemos um “viva Salazar” em nosso nome.
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Bem me podem dizer que nem pensou o que disse. Eu sei. Se pensasse, até não era mau para o nosso combate ao tédio: um partido do centro-direita com um pensamento nazi converteria esta democracia num parque de folguedos para o mundo inteiro. O problema não é ela pensar. É, sim, dizê-lo, sem se aperceber da enormidade. Ou deixar para a entrevista seguinte, sempre tarde demais, a necessária correcção.
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É certo que já tínhamos feito o tirocínio, quando MFL enunciou o seu pensamento sobre o propósito essencialmente procriador da família, em termos que, nem um patriarca quaker, nem o mais caceteiro homofóbico, ousariam usar. Também aí, não creio que a sua ideia fosse impedir o casamento a um casal previamente conhecedor da sua infertilidade ou a um parzinho de octogenários que decidissem enfim coroar o seu amor platónico de vida inteira. Mas disse-o.
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Isto sugere falta de mundo e de vida. O que ainda piora as coisas quando extravasa para a políticazinha, esse calvário de ser e fazer oposição até depois de o Sol se pôr todos os dias. Porque aí, não se pode dizer que não se apresentam ideias “para os socialistas não as copiarem”. A questão nem é que o risco não exista: os governos têm o péssimo hábito de roubar ideias à oposição, se e quando as acham boas. É, de resto, um comércio respeitável, pois MFL também gosta de proclamar que foi ela quem pôs na agenda as PMEs ou as preocupações sociais – presume-se que a contragosto de uma comunicação social apostada em não deixar passar a mensagem (e com a assinalável excepção da oposição à subida do salário mínimo, que conseguiu pôr em torno do Governo todos os partidos e sindicatos e a Igreja). A questão é que torna absolutamente inverosímil o chavão predilecto da “respeitabilidade” política: pôr sempre os interesses nacionais acima dos interesses partidários. Esse, sim, é um terreno armadilhado. Porque o eleitor interroga-se: se as ideias são boas e instantes para o país, em nome de que bizarro altruísmo é que as guardam para a “altura própria” (ou seja, a campanha eleitoral)? Claro que, também aqui, sabemos que as ideias e as propostas alternativas não existem. O erro é fingir que sim e tentar apresentar como “táctica” a sua retenção.
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«DN» de 16 de Novembro de 2008
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O chuto-na-canela nacional anda «muitíssimo agitadíssimo»

Por Antunes Ferreira
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É A MINHA SINA: adoro o futebol. Aliás gosto (mais ou menos, óbvio) de tudo o que é desporto. Pratiquei, «a sério», rugby e natação. Mas vou a quase todas, desde o atletismo ao snooker. Até já percebo de curling… As vassourinhas entusiasmam-me. Medianamente, é certo, não atingem o grau de deslumbramento com uma boa placagem ou uma melée. Ainda digo assim, tal como aprendi e pratiquei. Hoje, já nem na bancada: no sofá é que é bom.
De resto, é a sina da esmagadora maioria dos Portugueses: adorar o futebol, o que normalmente corresponde a discutir o dito cujo. E aí, é sabido e re-sabido, em cada um de nós há um técnico, em cada um do nós há um crítico, em cada um de nós há um seleccionador. Nisso, somos realmente, especialistas. Natural e normalmente o seríamos – para além da política, o futebol é o outro alvo preferencial do bota-abaixo.
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Esta semana, tem sido um fartote. Desde as declarações de Paulo Bento a propósito da desgraçada actuação do árbitro Bruno Paixão, faz hoje oito dias, em Alvalade, até aos novos contemplados na convocatória de Carlos Queirós para o encontro com o Brasil, um ror de confusões, imbróglios, acusações e destemperos, não faltou nada. De resto, como habitualmente. Ninguém nos bate, em tais «modalidades».
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Sobre o que disse o treinador leonino já correu tanta tinta, já se usaram tantas palavras, já se transmitiram tantas imagens que, na realidade, só tiveram concorrência na manifestação dos professores, curiosamente também no sábado fatídico para o Sporting, fruto principalmente do tsunami da asneira que foi o malfadado juiz de campo.
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Processos vão, processos vêm, órgãos ditos representativos da «arbitragem» acima, órgãos ditos representativos da «arbitragem» abaixo», declarações bombásticas, declarações rasteirinhas, tudo tem resultado num rega-bofe quotidiano que vem nos preenchendo de forma «exaltante» o dia-a-dia da crise vinda dos United States, mas anichada por todo o Mundo.
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Nós já tínhamos, neste particular do chuto-na-canela, motivos mais do que suficientes para a má-língua nacional. A candidatura do expoente máximo do futebol portuga, ou seja, o Cristiano Ronaldo, ou CR7, aos mais altos galardões do Mundo da Bola motivou, inclusive, que se iniciassem campanhas as mais diversas para que tal se concretizasse.
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Admiro-me: falta a peregrinação a pé a Fátima para que se realizem tais aspirações; em menor escala, umas novenas ao Santo Padre Cruz, no mesmo sentido. Ou mesmo a São Judas Tadeu. Mas não se desespere. Há tempo e tempo.
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No meio de todo este estardalhaço, há, no meu modesto entender, uma situação gravíssima, qual é a dos meses diversos de salários em atraso aos futebolistas do Estrela da Amadora. À mistura com as patéticas declarações do presidente do clube, um tal fantasmagórico António Oliveira, mentiroso militante e falcatrueiro praticante. E com outras de um outro senhor Júlio Evangelista, manda-chuva do Sindicato dos Jogadores.
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É sabido. Há atletas e respectivas famílias que estão na penúria, para não dizer na miséria, com dificuldades mesmo na compra de bens alimentares. São profissionais do chamado Desporto-Rei, mas não entendem porque estão a viver sem rei nem roque. O treinador Lito Vidigal demitiu-se por falta de condições – e de remunerações.
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Raio de terra, esta. Várias têm sido as ameaças do recurso à greve por parte dos futebolistas. Agora, parece que ela se irá concretizar. Curioso: só depois do jogo com o Benfica neste fim-de-semana.
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sexta-feira, 14 de novembro de 2008

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O livro «A Morte de Cristo em Verdun» tem 9 capítulos

Cuidado com a língua!

A propósito deste erro de ortografia (ou simples inovação devida ao novo Acordo Ortográfico?), a expressão «Cuidado com a língua!» lembra-me a velha anedota do indivíduo que entra numa farmácia cheia de gente e berra:
- Uma camisa-de-vénus, se faz favor - e depressa!
Fica toda a gente a olhar para ele, e o farmacêutico resmunga, incomodado:
- Ó amigo, cuidado com a língua!
Depois de matutar um pouco, o homem responde:
- Tem toda a razão. É melhor levar duas...

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Vitória eleitoral da estatística

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Por Nuno Crato
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OS RESULTADOS DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS norte-americanas surpreenderam meio mundo. Sem razão. As percentagens de votos obtidos pelos dois principais candidatos estavam exactamente dentro das margens anunciadas pelas sondagens. De que se surpreenderam as pessoas, afinal?
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Barak Obama ganhou uma das eleições mais contestadas e fascinantes da história dos Estados Unidos. Ao longo deste ano, as surpresas foram muitas. Até ao fim, houve quem duvidasse do que as últimas sondagens diziam. Falou-se dos erros de previsões anteriores. Falou-se do chamado «efeito de Bradley», que consiste em os inquiridos darem respostas falsas por terem algum receio de divulgar as suas intenções reais. Os mais prudentes mantiveram até ao último minuto uma incerteza sobre os resultados finais. Toda a imprevisível história política dos últimos meses inspirava dúvidas. As sondagens não.
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Isto significa, julgará muita gente, que as amostras usadas pelos técnicos de sondagens eram representativas. Mas os estatísticos não gostam muito da expressão «amostra representativa» e preferem, habitualmente, designá-la por «amostra aleatória». Como será que uma amostra escolhida ao acaso pode apontar conclusões sobre o que se passa no universo em estudo?
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Imaginemos um problema aparentemente simples. Queremos, por exemplo, estudar os hábitos dos estudantes universitários em Lisboa e saber a percentagem de fumadores nesse universo. Como o faremos? Vamos à porta de uma faculdade e perguntamos aos estudantes que lá estão? Não parece boa ideia, pois com a nova legislação os fumadores concentram-se nas portas dos edifícios públicos. A amostra seria enviesada. E devemos fazer o inquérito de manhã, de tarde ou de noite? Será que os alunos à noite, em horário pós-laboral, são mais velhos e fumam mais? Ou fumam menos? E escolher metade dos alunos de manhã e metade de noite? Mas isso não será dar o mesmo peso a ambos os grupos de alunos e não há muito mais alunos de dia? Não enviesará isso a amostra?
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Procurar uma amostra que, com grande probabilidade e razoável aproximação, reproduza as características do universo em estudo pode ser muito difícil. A estatística matemática inventou a amostragem aleatória. No nosso exemplo poderíamos, por exemplo, aceder a uma listagem dos estudantes universitários e fazer um sorteio ao acaso. Antigamente usavam-se urnas, como as das lotarias. Agora usam-se geradores de números aleatórios em computador. Garante-se que a probabilidade de escolher uma dada amostra é igual à de escolher qualquer outra pelo mesmo processo. A probabilidade de enviesamento reduz-se.
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Nas eleições norte-americanas o processo é mais difícil. Fazem-se estratificações para garantir que se tem um dado número de eleitores de cada sexo e de cada grupo etário. Estudam-se em separado grupos geográficos diferentes. Com isso reduz-se a variabilidade do processo, reduz-se o erro médio esperado. Podem ainda fazer-se correcções para o chamado «efeito Bradley», fazendo perguntas indirectas. As técnicas de amostragem e de sondagem atingiram hoje tal desenvolvimento que os erros elevados são muito pouco prováveis. As eleições norte-americanas foram também uma vitória da estatística matemática.

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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 8 de Novembro de 2008
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Os nossos heróis do 4 de Novembro

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Por Alice Vieira
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TUDO COMEÇOU quando um amigo me telefonou a perguntar: “que fazes esta noite?”, e eu respondi, como devem ter respondido milhões de pessoas por este mundo fora, “fico a ver as eleições americanas na televisão”.
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O amigo passou palavra a outro amigo, que passou a outro, que passou a outro — e de repente eu tinha a casa a abarrotar de amigos, todos simpaticamente a abastecerem-me de tinto alentejano e queijos diversos, preparando-nos para uma maratona televisiva.
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“Lembram-se do sr. Diamantino de Macau?”, perguntou de repente um deles, e ficámos todos a olhar para ele, que fazia Macau naquela anedota, mas ele só se ria e repetia “tenho a certeza que era Diamantino, do apelido é que eu já não me lembro, só me lembro do pobre do Joaquim Letria a aguentar aquilo, horas e horas, porque nunca mais se conheciam outros resultados, só esse, o primeiro deputado a ser eleito, o deputado por Macau, e o Joaquim perfeitamente à rasca, mas sempre a sorrir, horas e horas em directo só com a notícia do sr. Diamantino já eleito!...”
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E, de repente, todos nos lembrávamos.
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E, de repente, tínhamos todos voltado aos idos de setenta.
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E, de repente estávamos nas nossas primeiras eleições, as primeiras do resto da nossa vida, as que demoraram a noite inteira e os nossos olhos já vermelhos do esforço de se colarem ao écran.
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Claro que depois descemos por momentos à terra, fomos deitando os olhos pelos vários canais, rimos à gargalhada com o “Daily Show”, de que todos nos descobrimos fanáticos admiradores, - enquanto as garrafas se esvaziavam e a meia-noite ainda vinha longe.
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E fomos ouvindo comentadores, e correspondentes no Kentucky e em Chicago e em Washington e no Quénia, e no Hard Rock Café ali aos Restauradores, que aqui o pessoal também é gente e merece.
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E fomos abrindo mais uma garrafa, e dando vivas ao Obama, e à avó do Obama, e aos meios-irmãos do Obama - mas depois havia sempre um de nós que dizia “eh pá, a falta que o Joaquim Letria faz nesta televisão!”— e pronto, lá vinha o Sr. Diamantino de Macau, e a risota generalizava-se e já ninguém podia falar doutra coisa e voltávamos ao nosso tempo de há tanto tempo, e tínhamos todos menos trinta anos, e ainda acreditávamos que o mundo ia ser aquilo que sonhávamos que ele fosse.
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Por isso nesta noite de 4 de Novembro, não foi apenas Obama que ganhou. Foi também a recordação do que há cerca de trinta anos esperávamos que ganhasse.
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Obama a ganhar por todos nós. Incluindo, obviamente o Sr. Diamantino de Macau.
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(E as saudades que todos tivemos de ti, Joaquim!)

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«JN» de 9 de Novembro de 2008
Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

domingo, 9 de novembro de 2008

A NOITE AMERICANA (E OUTROS CONTOS)

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Por Nuno Brederode Santos
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COMO TANTA GENTE, vivi entre amigos a noite americana. Uma poltrona, um copo à mão e um cinzeiro que começa imaculado, mas sobre o qual chovem beatas ao ritmo do apuramento dos votos. Em volta, vozes familiares, risos conhecidos, exaltações antigas - ou seja, idiossincrasias da minha colecção pessoal. Não quero chocar ninguém, mas nem James Bond, nem Indiana Jones, nem Rambo: as grandes emoções são sedentárias.
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Vivida a festa, porém, logo na manhã seguinte vemos alguns, dos que era lícito pensar que a celebravam, falando agoiros em nome da prudência, com caras soturnas e olhar sombrio. É deprimente a militância no cinzento. É a recusa do encanto em nome de qualquer desencanto que aí venha. É a recusa dos afectos porque amanhã estaremos todos mortos. Nós sabemos que os valores iluminam o sentido da História e os interesses fazem a gestão do cruzeiro da vida. Mas os valores libertam muitos condenados e assustam muitos carcereiros. Devemos-lhes a literatura, a música, a pintura. Já os interesses, esses, são contas em papel pardo, sem as quais o merceeiro não nos fia. Depende deles o nosso dia. Nós sabemos. E creio que Obama, o "menino magricela com um nome esquisito", saberá que quase sempre os valores desaguam nos interesses e dissolvem-se neles. Mas, que raio!, isto avança por marés. Sigamos esta por agora. Se e quando esmorecer e sobrevier o desencanto, pois também esse é finito e precário - como nós e como o encanto que ele matou. Mas então sobrevirá outra maré alta de valores, trazida por outro alguém que ousou e que subirá um pouco mais no areal dos interesses. Talvez relembrar os interesses seja pôr um frio juízo nos calores da noite americana (ou nesse novo imaginário que mobilizou, de mãos dadas, a maioria de tantas velhas minorias). Mas a ilusão que galvanizou essa noite, por muito que desfaleça, terá deixado na praia alguma verdade irreversível. E a verdade, como as baleias, não tem guelras: mais tarde ou mais cedo, tem de vir à superfície respirar. Depois de Martin Luther King, poucos acreditavam na viabilidade de um caminho entre o Pai Tomás e Malcolm X. Afinal havia um e Obama fez dele uma alameda: subentender as raças, em vez de falar delas. Pressupô-las como experiência e memória, para logo as superar na proposta de uma acção conjunta. Ele sabe e nós sabemos que não há mandato que chegue para endireitar os dois de Bush. E que, mesmo sem Bush, já havia na América muito para endireitar. Mas a aventura ainda mal começou. Deixem tentá-la, porque algo, senão de bom, pelo menos de melhor, irá ficar.
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Um ambiente de rixa de taberna em fim de noite, em tempo de salários em atraso. Um chefe de Governo (e chefe de tudo o mais, de resto), sentado entre a potestade e o escárnio, brada "fascistas!", por cinco ou seis vezes, dirigindo-se aos adversários políticos. Acácios em pose de Estado embrulham, com pompa e latim, inconstitucionalidades, ilegalidades e agressões várias às regras mais rudimentares da coexistência democrática. Há deputados façanhudos que pensam o impensável e dizem o indizível. Uma maioria prepotente que impede o exercício de um mandato popular e que aproveita pretextos para suspender o funcionamento da própria assembleia em que impera. Tudo isto para calar um deputado que à falta de senso comum acrescenta a arreigada convicção de que a política se faz para os media, pelo que nada melhor do que jogar com o circense e o bizarro (e ao qual acabaram por proporcionar um dia fasto). E tudo isto é assegurado por seguranças privados, pelo receio de tais mandantes de que a PSP obedeça à normal cadeia de comando que culmina no "colonizador". Grandes momentos de televisão. Grandes momentos de democracia. Durante tudo isto - e até ao recuo em toda a linha do PSD/M - o PSD nacional não tugiu. Escondeu-se no silêncio e no embaraço. Não sei como vai ser: Jardim não consegue impor-se no continente, mas ninguém, no PSD nacional, consegue refrear os seus abusos na Madeira.
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No passado domingo, escrevi aqui "O parlamento no seu labirinto", brincando com o título de Gabriel Garcia Márquez. Já de madrugada e correndo a blogosfera, encontrei, no "Bicho Carpinteiro", uma prosa de José Medeiros Ferreira sobre o mesmo tema e sob o título "Cavaco Silva no seu labirinto". Logo calculei que haveria quem visse no meu texto a réplica ou a indirecta que ele não era (o que, de facto, viria a suceder). Por isso, logo no domingo, entendi dever explicar-me a JMF, que recebeu o caso com a bonomia que as velhas amizades consentem. Faço aqui este registo, para esclarecimento de todos os que hajam lido ambos os textos.
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«DN» de 9 de Novembro de 2008 - Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sábado, 8 de novembro de 2008

O Drama e a Farsa

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Por J.L. Saldanha Sanches
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TELEJORNAL, 5ª FEIRA 30. Um trabalhador da Delphi, ar pouco feliz, manifesta o seu cepticismo perante notícias sobre a continuação da empresa. Com o estado em que está a General Motors, a vender cada vez menos, tinha razões para estar pouco animado. Temos todos: recordemos o sector dos componentes automóveis, quarenta mil trabalhadores, um dos sectores que exportam e que têm aguentado a economia. Um sector inteiramente dependente da conjuntura internacional e um pilar (oculto) do país.
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O mesmo telejornal, a seguir: um grupo de oficiais do exército, reformados e no activo, de copo na mão, num bar de restaurante, toma os seus aperitivos antes do jantar. Um jantar de luta. Quando chegam as câmaras põem um ar sério e iniciam variações do velho fado “agarrem-me, senão desgraço-me!”. Se alguns dos seus problemas não forem resolvidos, eles têm armas. Também têm armas. Na Fonte da Moura deve haver mais, e actos incontroláveis não faltam por esses lados.
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Portugal está mesmo na Europa? Não haverá por aqui uma indelével marca ibero-americana, sempre pronta surgir sob o verniz frágil do crescimento económico por debaixo de uma frágil superstrutura moderna e actualizada? Aquele grupo de gente que cria pequenas estruturas de excelência na investigação ou certas empresas que conseguem vender para o mundo inteiro - aquela que circula entre Portugal e o mundo, será mesmo de cá ou aconteceu apenas ter nascido aqui?
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Olhamos para o telejornal e, de repente, vemos, vindo do fundo de nós próprios, as tão tradicionais formas do quartelazo, do pronunciamento. Afinal não estamos assim tão longe do tempo em que Salazar fazia com que os nomes dos novos ministros passassem pelos quartéis antes de tomarem posse e ainda todos nos recordamos de ver um general com imensas estrelas (no cânone militar ibero-americano as estrelas compensam a falta das divisões) em Belém.
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Pensando pragmaticamente nas consequências, não é para tomar a sério. Se alguma coisa nos pode tirar o sono não serão os arranques avinhados de qualquer grupo de militares atingidos pela depressão das casernas. O que no deve preocupar é a crise da indústria de componentes automóveis. Mas é profundamente sério, pelo que revela de um arcaísmo profundo, persistente, de uma cultura que temos debaixo da pele e que nenhum euro, nem nenhuma integração europeia consegue remover.
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A actual escassez de recursos que faz com que o Estado trate mal todos os seus servidores (um mau tratamento que parece uma carícia quando o comparamos com a brutalidade com que o mercado trata os que dele dependem) traz à superfície aquelas coisas velhas e repulsivas que julgávamos sepultadas. Afinal estão vivas.
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Militares vociferando para as câmaras, ministros preocupados, comentadores servis a explicar quanto lhes devemos.
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Uma comemoração ao vivo da proclamação da República com os seus golpes militares e os seus militares (talassas ou maçónicos) sobre cujos ombros repousava a tarefa de restabelecer a honra da Pátria, degradada pelos políticos.
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O euro, a integração europeia, a tutela de Bruxelas podem evitar as derrocadas financeiras e manter-nos longe da Argentina: mas não conseguem evitar que sejamos nós próprios.
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Ainda andávamos entretidos com uma guerra colonial quando já toda a Europa se tinha esquecido das colónias. Pouco depois, nós e a Líbia tínhamos um Conselho da Revolução. Agora, ainda temos ameaças de movimentações militares. A que distância está a Europa?

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«Expresso» de 8 de Novembro de 2008 - www.saldanhasanches.pt/
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Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v.
aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

"Very Smart!" - Passatempo-relâmpago (com prémio)

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Esta é uma s1tuação frequente numa das mais concorridas entradas de Lisboa, onde basta um carro para que uma das duas faixas de rodagem fique bloqueada, com as consequências que se imagina.
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Ora, um dia destes, apareceu por lá um carro da PSP com agentes da Divisão de Trânsito...
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... parou atrás do último carro em infracção, e um agente saiu.

Segundos depois, chegou uma senhora ao volante de um Smart branco,...

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... trancou o carro, e foi à vidinha dela - sem, sequer, dizer o habitual «É só um minutinho, senhor guarda»
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(A meio da imagem vê-se, a observar a cena, o agente que pouco antes saíra - para tratar de uma outra situação do outro lado da rua).
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Algum tempo depois, o carro da PSP foi-se embora, e o Smart ficou.
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Pergunta-dupla, com prémio:
O que é que aconteceu à senhora, ao seu carro, e a todos os outros mal estacionados?
E porque é que toda esta cena dá razão a Esopo quando, há mais de 2000 anos, concebeu a fábula O Rei das Rãs?
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NOTA: Este texto é uma extensão do publicado no Sorumbático [v. aqui], onde as respostas deverão ser afixadas.

Os carunchos e os bichos da Madeira

Por Antunes Ferreira
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O EPISÓDIO INQUALIFICÁVEL acontecido no Parlamento madeirense é um bom exemplo de que o caos em que se encontra o PSD já alastrou à Região Autónoma. Por incrível que pareça, a espantosa questão fez renascer das cinzas, qual Fénix estremunhada, um PND que ninguém sabe o que é realmente, nem sequer o seu fundador, agora demissionário, Sr. Manuel Monteiro.
A bandeira nazi agitada pelo deputado regional José Manuel Coelho foi o detonador de uma atitude no mínimo prepotente do PSD – M e, em especial do Presidente da Assembleia, Sr. Miguel Mendonça. O caso conta-se em breves palavras. Na quarta-feira, na tribuna da sessão plenária que decorria, o deputado do Partido da Nova Democracia (PND) Sr. José Manuel Coelho exibiu uma bandeira nazi alegadamente em protesto contra o «regime ditatorial» que vigora na RAM.
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Os sociais-democratas madeirenses deliberaram adiar as sessões seguintes do Parlamento Regional, até que se obtenha uma decisão judicial sobre a ocorrência, já que o Parlamento presidido pelo Sr. Miguel Mendonça apresentou uma queixa-crime contra o Sr. Deputado do PND. Espanto geral.
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As reacções não podiam faltar. Mas, a embrulhar ainda mais o imbróglio, o Sr. Presidente M. Mendonça mandou impedir a entrada do Sr. Deputado J. M. Coelho no Parlamento. Como a PSP não se tivesse prestado a fazê-lo, foi contratado segurança que assim procedeu. O Sr. Deputado Coelho ficou, assim, barrado à porta da Assembleia Regional.
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Desde o BE que pediu ao Presidente da República para intervir no escabroso caso, até ao PCP que considerou tratar-se de «uma grande irresponsabilidade» (terminologia que se vai tornando recorrente, a partir da Sr.ª Dona Manuela Ferreira Leite), passando pelo CDS-PP que considerou que «o Parlamento da Região não se pode substituir aos tribunais». E, ainda que «A atitude do PSD é a mesma que tem há trinta anos, de permanente confronto com as oposições, com todas as instituições e órgãos de soberania» e ainda que «o Parlamento da Madeira bateu no fundo», tendo igualmente apelado à intervenção de Cavaco Silva.
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O Partido Socialista da Madeira contestou também na quinta-feira a suspensão das sessões no Parlamento da Madeira, repudiando o processo e afirmando que os sociais-democratas têm perpetrado «uma postura de ilegalidade» desde que governam a Região. Os socialistas contestam a «decisão» de adiar as sessões, mas repudiam «todo este processo».
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Para os socialistas madeirenses, «não se pode deixar passar em claro a postura da mesa da Assembleia, ou do presidente da mesa, que perante um requerimento ilegal do PSD/M, colocou-o à votação e o fez cumprir ».
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As agências noticiosas que, a espaços, cito, não têm dúvidas sobre o que se verificou: é uma ilegalidade praticada pelos membros do PSD-M, que se supõe e com alguma razão, ter tido o apoio do Sr. Alberto João Jardim. Por cá, e até ao momento em que escrevo este texto, da Rua de Santana à Lapa – nem um pio.
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Os bichos da madeira, como se sabe, são os carunchos. E já há quem diga que o bicho da Madeira é o Sr. Presidente do Governo Regional. As Regiões Autónomas estão, pois, na berlinda. A Madeira por este incrível charivari. Os Açores por mor do malfadado Estatuto. O Atlântico as separa, o Atlântico as une. E, a geografia não mente, ambas estão também unidas pelo mesmo Atlântico ao Continente. E, claro, aos Portugueses a quem os Srs. Alberto João, Jaime Ramos, Miguel Mendonça e outros mais chamam «Cubanos». Afinal quem é e qual é a ilha e os insulares?
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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O peso certo é 1112g

terça-feira, 4 de novembro de 2008

O Peão e a Cidade

Por Manuel João Ramos

CONVITE aos leitores do Sorumbático:

Colóquio Internacional: The Walker and the City - O Peão e a Cidade

Dia 12 de Novembro das 9.45h às 18.00h.

Goethe-Institut Portugal
Campo dos Mártires da Pátria, 37
1169-016 Lisboa

Organizado pela ACA-M, Mestrado em Risco, Trauma e Sociedade - ISCTE, PQN-COST Action 358 e Fundação Friedrich Ebert

Inscrições: Fundação Friedrich Ebert, Tel. 213573375, Fax 213573422, mail: info@feslisbon.org

Mais informações e programa AQUI

Apresentação:

O encontro fortuito entre cidadãos anónimos é a pedra de toque da vida urbana. Os espaços exteriores de atracção de gente são o garante da interacção entre gerações, classes sociais e comunidades, e de construção da "coisa pública". Por toda a Europa, as preocupações ambientais e energéticas, associadas a novas exigências de qualidade na vivência urbana, têm contudo promovido visíveis alterações nos paradigmas ideológicos que balizam o discurso e a prática da gestão urbana.

O presente Colóquio procura reflectir, numa perspectiva comparada e a nível europeu, sobre essa categoria funcional da mobilidade urbana, tão ubíqua e estigmatizada que é o "peão". Para tal, foram convocados especialistas europeus de reconhecido mérito em áreas tão diversas como a engenharia de transportes, o urbanismo e as ciências sociais.

No contexto deste Colóquio Internacional, é também promovida uma Mesa Redonda juntando investigadores e organizações da sociedade civil portuguesa, onde se procurará fazer uma avaliação da situação da pedonalidade em Portugal.

No final do Colóquio será lançado o livro de Aymeric Bôle-Richard, Pedonalidade no Largo do Rato: Micro-poderes. Uma edição ACA-M.
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Passatempo «O que aconteceu à senhora?»

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Esta é uma s1tuação muito frequente na paragem de autocarros junto ao n.º 27 da Av. de Roma, onde basta um carro para que uma das duas faixas de rodagem fique bloqueada
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A partir daqui, a sequência fotográfica dispensa legendas:
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Pergunta:
O que é que aconteceu à senhora do Smart, que chegou logo depois do carro-patrulha e estacionou mesmo atrás dele?
E a todos os outros carros mal estacionados?

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Einstein em xeque

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Por Nuno Crato
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A TEORIA DA RELATIVIDADE foi posta de novo em causa numa experiência conduzida no acelerador de partículas do laboratório Fermilab, perto de Chicago. No entanto, como o relata o astrofísico Stuart Mufson e seus colegas, a teoria foi posta em causa... mas passou o teste.
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Os experimentalistas tentaram refutar a chamada “invariância de Lorentz”, ou seja, uma previsão de Einstein de que partículas com massa e sem massa se comportam de forma idêntica, independentemente da maneira como são aceleradas ou como rodam.
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Conforme relatam num artigo acabado de publicar na revista “Physics Review Letters”, os neutrinos gerados pelo Fermilab portaram-se da maneira prevista por Einstein ao atravessarem o subsolo desde o gerador até um detector mergulhado a 103 metros de profundidade e a 750 metros de distância. Para controle, os físicos compararam as medidas obtidas nesse detector com as registadas num outro, situado no Fermilab.
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Neutrinos são partículas muito curiosas. Viajam a uma velocidade perto da da luz e não são afectados por campos magnéticos nem por campos gravitacionais. Por essa razão, podem atravessar praticamente incólumes o nosso planeta. Habitualmente são detectados, e com grande dificuldade, em instrumentos muito sensíveis mergulhados em minas, como foi o caso nesta experiência. Situados a profundidades razoáveis, esses instrumentos estão protegidos de outras radiações, nomeadamente de raios cósmicos.
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Para produzir os neutrinos, os cientistas fazem incidir uma fonte de protões sobre um alvo de carbono. A colisão provoca a criação de partículas chamadas mesões pi. Algumas destas decaem, criando neutrinos que viajam em direcção aos detectores. Uma vez que a geração de neutrinos é feita sobre a Terra, em rotação sobre si própria, o feixe de partículas também roda.
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Está em causa algo mais do que uma conclusão, entre outras, da teoria da relatividade. Os astrofísicos têm procurado explicações para vários problemas intrigantes na expansão inicial do Universo. Algumas das explicações plausíveis que têm sido avançadas, entre as quais, por exemplo, as de João Magueijo, contradizem vários pressupostos e conclusões da relatividade. Daí o interesse em colocar à prova a teoria de Einstein. Se ela for contraditada pela experiência, as alternativas ganham nova força.
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Tal como afirmou o autor principal do artigo agora publicado, o facto de não se terem detectado violações da dita invariância de Lorentz não significa uma confirmação da sua validade. Pode bem acontecer que os “efeitos de campo sejam tão extraordinariamente pequenos que apenas possam ser detectados com instrumentos muitíssimo mais sensíveis”. Os físicos continuam a procurar experiências que ponham Einstein em xeque.
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Tudo isto pode ser surpreendente. Não se dedicam os cientistas a comprovar as teorias? Ou, segundo uma visão muito propalada por algumas correntes da sociologia, não constitui a comunidade científica um círculo fechado que se defende a si próprio e que recusa a contradição?
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Na realidade, os cientistas estão mais preocupados em destronar teorias do que em defendê-las. Quem conseguir contraditar a relatividade e substituí-la por uma teoria mais potente terá dado uma grande contribuição à ciência. Os físicos continuam a tentar...
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 1 de Novembro de 2008 (adapt.)
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Passatempo Tintin

domingo, 2 de novembro de 2008

O PARLAMENTO NO SEU LABIRINTO

Por Nuno Brederode Santos
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DEIXO AOS CONSTITUCIONALISTAS as hipotéticas implicações do veto a duas normas do Estatuto açoriano. Já vários se pronunciaram num sentido que não alinha com as duas unanimidades parlamentares registadas. Mas houve quem visse no facto de o Presidente da República não ter suscitado a apreciação do Tribunal Constitucional, optando pelo veto político, um sinal de facilidade para uma próxima e terceira votação parlamentar. Não me parece que tenham muita razão. O Presidente não suscitou a questão porque temeu a decisão do TC - incorrendo, de resto, num erro, pois em nada ela o inibia (ou diminuía) de recorrer depois ao veto político. Mas, entretanto, o provedor de Justiça anunciou ir pedir a fiscalização sucessiva da constitucionalidade das normas e o presidente do Tribunal Constitucional, habitualmente parcimonioso em aparições e palavras, veio já declarar que existe um caso análogo - que desconheço - em que o Tribunal se pronunciou pela inconstitucionalidade (e não vivem neste mundo os que afirmam que as fiscalizações sucessivas "levam anos" a apreciar: só revelam não entender a especialíssima natureza desta mobilização de instituições).
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Isto devia bastar para aconselhar temperança àqueles que pensam que tudo é lícito ou que tudo vale a pena, desde que o ganho de causa imediato esteja garantido. Os que esquecem que não basta merecermos as vitórias, porque as vitórias que não nos merecerem virão sempre ensombrar-nos o futuro. Mas há os que gostam de ir mais alto e mais fundo. Além, onde mora a política e o direito é instrumental do bom senso. Porque o problema que enfrentamos é, acima de tudo, político.
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A autonomia insular visa, entre outras coisas, o "reforço dos laços de solidariedade entre todos os portugueses" (na já ingénua fórmula do n.º 2 do art. 225.º). Mas a prática autonomista foi-se progressivamente afastando desse propósito, soprada por ventos cada vez menos solidários e preocupados com a coesão nacional. E as sucessivas revisões constitucionais foram-no consagrando, na lógica perversa do "porque não, se já hoje se faz assim?". Com o PSD a proteger as "suas" ilhas e, mais tarde, com a vitória do PS nos Açores, o PSD a pensar na Madeira e o PS a pensar nos Açores. Depois, no Parlamento, todos os partidos - sem excepção - a pensarem que quem puser água fria nos fervores autonomistas irá, por certo, perder lá as eleições. E daí, e só daí, as tão extraordinárias quão fáceis unanimidades. Assim se chegou à verdade de hoje, com as autonomias a imporem um relacionamento com a República que assenta nisto: ser seu tudo o que produzem e cobram, mais a parte que "lhes cabe" do que os portugueses produzem e o Estado cobra e ainda poderem reivindicar que este pague acriticamente o remanescente, que é o diferencial entre tudo aquilo e os custos finais de políticas, boas ou más, mas que frontalmente recusam qualquer consideração pelo todo nacional e qualquer veleidade da República em se intrometer nas suas decisões. E se os Açores já hoje apresentam números lisonjeiros no ritmo comparado do seu desenvolvimento, a Madeira está já entre as três regiões portuguesas com melhores indicadores. Ora Açores e Madeira têm os chamados custos da insularidade, é certo. Mas também têm menos de 250 mil habitantes cada qual, ou seja menos do que Braga ou Setúbal. Há outros custos: os da interioridade, por exemplo, hoje geradores das maiores assimetrias sociais deste país. Como explicar a alentejanos, transmontanos e beirões a sua obrigação de estarem a pagar, sem um critério que possam entender, os custos que não conhecem e não os deixam ajuizar, das autonomias insulares?
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É por força desta evidência que tantos que acabaram de votar, por duas vezes, o Estatuto anunciam agora que mudam de posição. E a maioria socialista, em vez de se sentir chocada com isso, devia ponderar de novo os interesses do todo nacional e deixar cair uma guerra institucional sem futuro. Até porque A. J. Jardim, que já anunciara ir repegar no processo autonómico no ponto a que os Açores chegassem, veio agora apresentar, no "Madeira Livre", as suas reivindicações para a próxima revisão constitucional: uma delas é a substituição da expressão "Estado unitário". Como já aqui escrevi, o horizonte já nem é o Estado federal. É uma união pessoal em república, com excepção das obrigações financeiras para com os - afinal - "federados". E as complacências de hoje já não travam a reposição, amanhã e em forma agravada, dos problemas.

«DN» de 2 de Novembro de 2008.
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sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Passatempo Mário Lino (31 Out 08)


Mário Lino, o verdadeiro Oráculo do Jamais...

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

A felicidade das doenças

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Por Alice Vieira
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OS AUTOCARROS são o ponto de encontro de todas as mulheres doentes de Lisboa.
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Mesmo que anteriormente vendam saúde, chegam ali e zás!, ele é o reumático, ele é o fígado, ele são os rins, ele é o coração, ele são os nervos.
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Não há como uma bela doença (sobretudo se acompanhada por uma série de análises “que nunca dão nada, mas eu é que me sinto”) para estabelecer uma onda de solidariedade entre quem vai sentada e quem vai de pé. Não sei porquê, mas os homens nunca entram nesta anedota. Olham para elas em silêncio, às vezes encolhem os ombros, mas não mais do que isso. Ali, doença é património feminino.
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E os autocarros transformam-se numa espécie de sala de espera de um centro de saúde ambulante, onde o médico nunca chega e a consulta acaba por ser desmarcada, e cada uma desce na sua paragem — senão curada, pelo menos muito mais reconfortada.
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O pior é quando, no meio de toda a desgraça, surge alguém saudável - ou, pelo menos, relativamente saudável pois, como logo alguém se encarregará de explicar, saudável, saudável nunca se está.
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Foi o que aconteceu comigo, há dias, na carreira do 54. Eu não queria ser desmancha-prazeres, palavra que não queria, mas o dia tinha-me corrido bem, tinha conseguido passar uma manhã inteira sem e-mails apocalípticos sobre a crise, sem correntes tipo e-se-não-mandares-isto-a-80-amigos-engordas-20-quilos-a-tua-melhor-amiga-rouba-te-o-homem-e-o-Obama-apanha-um-balázio, encontrara um amigo que não via desde a minha juventude e me enchera de mimos — enfim, doenças era aquilo que nem me passava pela cabeça.
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De resto, talvez por ter vivido muitos anos entre gente mórbida e sempre à beira da morte (e que, evidentemente, morreu toda para lá dos 90), para quem o maior insulto era alguém dizer-lhes “está hoje com melhor cara!” - nunca tive paciência para quem passa a vida a lastimar-se.
E, não sendo eu sequer do género de meter conversa em autocarro ou táxi, dei por mim a dizer “muitas vezes as doenças estão é na nossa cabeça.”
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Para abreviar a história, e porque os caracteres a que tenho direito se estão a aproximar do limite, digo apenas que saí duas paragens antes, para a discussão não azedar o ambiente mais do que ele já estava: eu cometera o sacrilégio de abalar a profunda convicção de todas elas, de que só na infelicidade se pode ser feliz.
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E, se olhar matasse, apesar de toda a minha saúde, eu não tinha saído dali viva.

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«JN» de 24 de Outubro de 2008
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terça-feira, 28 de outubro de 2008

Prémio do passatempo «Acontece...» de 28 Out 08

Passatempo-relâmpago a propósito de Jorge Amado

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Quanto maior, melhor

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Por Nuno Crato
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JÁ PENSOU COMO SERIA O MUNDO se os seres humanos tivessem o dobro da altura? Poderia pensar-se que nada de especial aconteceria, pois tudo seria construído nessa proporção. Mas isso não é verdade. Não há forma de o nosso corpo aumentar uniformemente. Se a nossa altura fosse multiplicada por dois e o mesmo acontecesse com a largura, a cintura e outras medidas tiradas com fita métrica, a superfície da nossa pele teria de aumentar quatro vezes e o nosso volume oito. Com o nosso volume multiplicado por oito, o mesmo aconteceria ao nosso peso. Então, para os ossos terem a resistência necessária, que é função da área do seu corte transversal, teriam de ser proporcionalmente mais grossos e pesados. Não há maneira de tudo aumentar na mesma proporção. O factor multiplicativo que é aplicado no comprimento aparece ao quadrado para a área e ao cubo para o volume. O expoente é dois para a área e três para o volume.
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Um dos primeiros a perceberem estes factos foi Galileo Galilei. O sábio italiano notou que os animais mais pequenos têm uma estrutura óssea proporcionalmente mais leve. Sabe-se, por exemplo, que os ossos de um gato são aproximadamente 7% do seu peso, os de uma pessoa 8,5%, os de um cavalo 10% e os de um elefante 13%. O peso dos ossos aumenta mais que proporcionalmente com o peso do animal.

Já no século XX, o suíço-americano Max Kleiber estudou vários outros aspectos da fisiologia animal notando, por exemplo, que o metabolismo dos animais cresce menos que a sua massa, com um expoente de 0,75 desta última variável. Como resultado, um elefante com 5 toneladas tem uma taxa metabólica cerca de 5,6 vezes a de um cavalo com meia tonelada. Ou seja, apesar de ter dez vezes o peso do equídeo, gasta apenas 5,6 vezes a energia que este último despende.

O mesmo tipo de análise tem sido recentemente aplicado às sociedades humanas. Uma nova geração de investigadores inspirados na teoria matemática dos grafos e no estudo físico das redes tenta analisar a maneira como algumas coisas mudam com a dimensão das sociedades e com as interacções entre os seus elementos.

Há equipamentos que ganham economias de escala com a dimensão dos aglomerados humanos. É o caso do número de estações de gasolina, que cresce menos que proporcionalmente com o tamanho das cidades (expoente de 0,77). É também o caso do comprimento total de cabos eléctricos (0,87) e da superfície das estradas e ruas (0,83). Tudo isto se percebe, pois esses equipamentos passam a ser usados de forma mais eficaz.

Mas há outros elementos que crescem numa escala superior. Muito recentemente, Luís Bettencourt, um físico português actualmente em Los Alamos, nos Estados Unidos, e os seus colegas, verificaram que as grandes cidades são os maiores geradores de investigação e de invenções com sucesso. O número de patentes e de inventores cresce com o tamanho dos agregados humanos de uma maneira mais que proporcional, com um expoente de cerca de 1,25.
Na semana passada, Samuel Arbesman, um físico de Harvard, e dois colegas seus de Cornell publicaram um modelo matemático de rede que permite explicar este fenómeno. Imaginam as pessoas como nós de uma rede e a produtividade de cada pessoa como função das conexões com outras, do número de pessoas a dada distância e de uma produtividade média por conexão. Com este simples modelo e com alguns pressupostos muito básicos mostram que em redes maiores, correspondentes a cidades maiores, as conexões entre pessoas mais afastadas, que são as mais produtivas em termos criativos, são mais prováveis. Para a investigação e o desenvolvimento, parece que quanto maior melhor.

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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 25 de Outubro de 2008 (adapt.)
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