segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Estas coisas que se dizem

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Por Alice Vieira

- Estas coisas que se dizem…
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Ela repete muitas vezes a frase, e as pessoas no café olham para ela, porque ela não pára de dizer a mesma coisa, como se precisasse de ser desculpada, porque o Natal está à porta e ninguém, no seu perfeito juízo, poderia ter dito o que ela disse.
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Nos outros dias também não, claro, mas então no Natal, que todos dizem ser tempo de entendimento e de paz, tempo das crianças.
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-Desculpa…- murmura baixinho – Não era isso que eu queria dizer… Compro-te um chocolate, queres?
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A criança abana a cabeça, não quer chocolate, não quer nada, ou quer o que, pelos vistos, parece ser impossível, que o pai vá com ela à festa da escola . Abana a cabeça e não consegue dizer mais nada porque os seus ouvidos ainda estão cheios da frase de há bocado, tão curta mas que não vai sair tão depressa da sua cabeça, nem entende como a mãe foi capaz de a dizer.
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As pessoas no café ouvem-na, mesmo sem querer ouvem-na, e ficam a saber que a criança vai tocar piano na festa da escola mas que não tem ninguém para lhe ir bater palmas.
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A mulher marca muitos números no telemóvel mas nunca ninguém atende, e já se está a fazer tarde para ela, que tem hora certa de estar no trabalho, ao próximo atraso o patrão manda-a para a rua, já a ameaçou.
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- Quero o pai – diz a criança, mas o pai não atende o telemóvel, o mais provável é estar fora de Lisboa.
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- Vai o Fernando contigo — diz a mãe.
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- O Fernando não é meu pai — murmura a criança.
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E é então que a frase se lhe escapa da boca, mal acabara de a
dizer e já se arrependera, mas ninguém pode não dizer o que já
disse, e ela, sem pensar, a responder:
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- E para o caso que diferença faz?
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A criança fica a olhar para ela em silêncio, olhos redondos de um enorme espanto.
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E as pessoas do café também a olhar, é natal, e no natal essas coisas são imperdoáveis.
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E, de repente, ela sente os olhos de todos em cima de si, e murmura:
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- Estas coisas que se dizem…
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E abana a cabeça, mas já não resolve nada, está dito, está dito, e a criança começa a chorar muito silenciosamente e não há nada mais gritante do que uma criança que chora sem fazer barulho.
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E de repente ela pega nos sacos de plástico que largara no chão, e arrasta a criança, nem olha para ninguém e diz:
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- Anda lá, vá…
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E empurra a porta do café, e lá fora há cânticos de natal e luzes nas montras e algodão a fingir de neve, e ela tem vontade que tudo acabe depressa, que as pessoas voltem a ser como nos restantes dias do ano, e que não haja festas nas escolas nas horas em que todos estão a trabalhar - e desaparecem as duas numa esquina ao fundo da rua.
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- Estas coisas que se dizem – repete uma mulher, abanando a cabeça e mexendo o café muito devagarinho – estas coisas terríveis que se dizem.
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«JN» de 21 de Dezembro de 2008

domingo, 21 de dezembro de 2008

As nossas culpas

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Por Nuno Brederode Santos
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SE BEM ENTENDI MIGUEL CADILHE, a coisa é esta: a Sociedade Lusa de Negócios perdeu muito com o muito que perdeu o seu Banco Português de Negócios. E este perdeu o que perdeu por má gestão, senão mesmo por gestão criminosa. Por isso – e porque o que a SLN perdeu, perderam-no os seus accionistas – o órgão estatutário máximo da sociedade, que é a sua Assembleia Geral, decidiu-se pela interposição de acções judiciais contra os titulares dos órgãos sociais (anteriores à tomada de posse de Cadilhe) “relativamente aos quais tenham sido ou venham a ser detectadas irregularidades”. Mas Cadilhe vai mais longe, sugerindo aos accionistas que interponham também acções contra o Estado, por erros, insuficiências ou culpas da supervisão da instituição.
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Este é o lado jovial da crise que nos atola. Uma tribo mundial de rendidos aos prazeres da vida – e se ela os tem!... – tomou a “mão invisível” de Adam Smith, prendeu-se à letra das palavras e confundiu a ideia de um funcionamento autónomo, harmonioso e automático do mercado com a compreensível ambição de um carteirista num comboio suburbano. Depois, mundializaram esta ideia (com a prévia e sensata cautela de tornarem o mundo seu) e entregaram o nacionalismo, que entenderam já não ter préstimo, ao desespero afectivo de um proletariado que minguava. Conheceram todos os mimos: a Louis Vuitton, o Aston Martin Lagonda e a trufa branca. Fomentaram outros, mesmo que salvos da nossa inveja: o ouro maciço num Rolex e o pequeno almoço no recato de um seis estrelas ,no Dubai, com a Céline Dion (e direito a fotografia autografada) –ou seja, tudo o que nos faz pele de galinha. Desmaterializaram o dinheiro, para que os pobres, ainda senhores da oponibilidade do polegar aos outros dedos, não o pudessem segurar. E a riqueza das nações tornou-se num murmúrio nocturno, que rumorejava em “overnights”, durante o sono dos justos. Constituíram, nas barbas da nossa inocência um tanto negligente, a versão facinorosa – a que alguns chamaram também ultramontana – do neoliberalismo. Na Europa, só se lhes atravessava no caminho a ideia de regulação. E, por isso, lhe moveram uma guerra sem quartel, não raro apoiada no ressentimento de vários aliados de circunstância. Se olharmos para o nosso próprio umbigo, vê-lo-emos. Pode, sem dúvida haver razões para criticar a Autoridade da Concorrência, a Asae, a ERC, a CMVM, o ISP, o BdP, a REN, a ERSE ou a Anacom. Pode a experiência europeia não ter produzido ainda a excelência regulamentadora. Mas, entre nós, qualquer delas, todas elas, gozam do apreço que o Casal Venoso votava ao polícia de giro. A bem dos interesses da tribo alienígena, mesmo quando é o povo que se queixa. E mesmo quando o faz com razão.
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A crise financeira mundial travou-lhes o passo e abriu os olhos aos gentios. Mas, como na saga do “Terminator”, não lhes pôs cobro. Enquanto não há reforma para o sistema, eles estrebucham e procuram uma nova moral que assenta na eliminação da responsabilidade. Os factos é que mandam: se as consequências são para todos, então o remédio terá de ser de todos também. A moral deixou de ser que o lucro era a contrapartida do risco. Além de sofrerem as consequências, agora querem que os povos as paguem. O Estado, que eles continuam a considerar congenitamente mau gestor, é acolhido e celebrado como um excelente pagador. Já não basta que acorra à protecção dos inocentes, há que vestir os culpados de andrajos e dissimulá-los por entre a multidão gemebunda.
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Por isso, não basta já serem defendidos no seu bom nome, por mero reflexo da defesa dos depositantes. Querem ser inocentados expressamente e indemnizados até ao último tostão por terem perdido a cautela que já todos sabemos branca (se não falsa). As eventuais culpas de Oliveira e Costa e outros não lhes pagam os prejuízos (ou a mera frustração de ganhos), mas se todos acorrerem a pagar isso resolve-se. Não importa que caiba à Assembleia Geral de accionistas escolher os gestores da sociedade e apreciar, em última instância, a sua gestão. Não vem ao caso que tenham aprovado as contas anuais sem fazer perguntas, enquanto o dinheiro afluía. É irrelevante que os Conselhos Fiscais e os auditores que eles escolheram tenham sancionado essa gestão. Mas, sobretudo, não conta que a regulação tenha em vista a defesa dos utentes: clientes, fornecedores, depositantes – todos os que alegadamente a supervisão não terá defendido da sociedade. Houve ali “falha de Estado” e o Estado tem de pagar, até que o último milhão do accionista seja salvo pelo último cêntimo do contribuinte.
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Era interessante que a tese tivesse pés para andar. Isso diria muito sobre o nosso Direito e/ou sobre a nossa Justiça. Mas se Cadilhe acreditasse nisso, era a própria sociedade quem accionava o Estado.
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«DN» de 21 de Dezembro de 2008
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Este post é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sábado, 20 de dezembro de 2008

A impunidade dos banqueiros

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Por J.L. Saldanha Sanches
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A IMPUNIDADE DOS BANQUEIROS delinquentes, o bloqueio da justiça e em especial do Ministério Público e da polícia estão a gerar clima de desconfiança e de revolta, escreve Mário Soares.
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Tem carradas de razão. Mas vale a pena perguntar porquê.
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Recordando apenas factos recentes, ainda há pouco estava a Assembleia da República a aprovar um Código do Processo Penal destinado a tornar mais difícil prender seja quem for. Mais uma norma sobre anti-abuso responsabilidade civil do Estado e seu agentes (incluindo os magistrados que parecia ser especialmente destinada a intimidar os juízes). Notícias do bloqueio, eficientemente completado com estas duas medidas.
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Foi assim conseguida a difícil tarefa de deixar a justiça ainda pior do que já estava (o que não era fácil): mesmo antes do aumento do crime violento e das derrocadas financeiras provocadas pela crise que revelam crimes.
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Mais importante que o funcionamento da justiça teria sido o funcionamento dos mecanismos que impedem a fraude. Só uma pequena parte dos 50 mil milhões de dólares roubados por Madoff como o seu esquema Ponzi (em português, D. Branca) vai ser restituída na acção penal que corre contra, apesar de essa restituição ser a condição primeira para conseguir alguma atenuação de penas dos responsáveis menores.
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Christopher Cox, presidente da SEC (que não pertence à linha Constâncio), já admitiu as suas culpas e promete uma investigação sobre o motivo pelo qual o órgão de polícia financeira não atendeu às informações específicas e dignas de crédito sobre crimes financeiros nos fundos geridos por Madoff, cujo funcionamento só parou quando foram atingidos pela crise. Tudo irá ser investigado incluindo relações pouco claras entre ex-inspectores da SEC e os fundos a funcionar segundo o esquema Ponzi. Normalmente estas falhas clamorosas podem ser explicadas.
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Quando a prevenção falha, resta a acção penal: o lugar dos Madoff é na cadeia e isso é uma condição mínima para que haja um mínimo de confiança no mercado de capitais. É muito mais importante prevenir que remediar e por isso é que temos comissões reguladoras da bolsa, auditores e regulação do mercado financeiro. A acção penal tem como função aumentar a aversão ao risco dos gestores do sistema reduzindo o número dos que estão disponíveis para estas perigosas aventuras.
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Mas desde que haja uma perigo efectivo é essencial que o sistema penal (desde as normas aplicáveis até ao sistema preparado para as aplicar) esteja concebido para tornar possíveis e prováveis condenações como estas.
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Em Portugal, não estão e a política legislativa deste Governo tem sido orientada no sentido de tornar ainda mais improvável que estas condenações possam ser obtidas.
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A impunidade dos banqueiros que suscita a indignação tardia de Mário Soares tem por isso causas e responsáveis.
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É uma escolha política: podemos criar um sistema penal que ao mesmo que consagra as garantias de defesa que permite perseguir com eficácia qualquer tipo de crime (a evolução do Direito Penal norte-americano do séc. XVIII aos nossos dias é o melhor exemplo disso) ou um sistema, típico dos países que chegaram tarde à democracia, onde o discurso garantístico paralisa a acção penal.
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É uma opção democrática: o que é dispensável são as indignações de crocodilo.
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«Expresso» de 20 de Dezembro de 2008; www.saldanhasanches.pt/
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

A crise no Chiado

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Por Antunes Ferreira
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É MESMO NA ESQUINA da Rua da Misericórdia com o Camões. Lá está sedeado o negócio do Senhor Muhamad. Disse-me um empregado da pastelaria que ali existe que o cidadão é do Banga não sabe quê. Ou do Bonga, como os sumos. Dada a cor da epiderme do Senhor Muhamad, o seu cabelo negro escorrido e outros dados antropomórficos, tenho para mim que o país em causa deve ser, sim, o Bangladesh.

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É uma empresa indiscutivelmente comercial. E sazonal. Passo a explicar. O sujeito é o proprietário de uma carrinha de madeira, rodas tipo pneu de bicicleta, sem motor, sequer mesmo auxiliar. A energia é a do marchante, ainda que pareça não ser muita. Quiçá, a suficiente. Para ser mais exacto, do pedalante. O homem enfiou um barrete – de Pai Natal, dando origem a uma curiosa confrontação entre o vermelho e o branco do gorro e a tez morena carregada do utente.
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Na viatura estacionada no passeio, como quase todas as outras mais ou menos motorizadas, avultam os adereços natalícios. As coberturas do Santa Claus estão em maioria multifacetada. Há maiores, menores, de acordo com a vontade e a cabeça do candidato a freguês. Umas possuem um par de tranças obviamente alvas. Cheirou-me a Mãe Natal. Ou Mamãe Noel, em versão com ritmo de samba. Que, dada a época e as festas deve ser de uma nota só. Sei lá: de cinco euros, pode ser que seja. Talvez de dez, não mais.
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Os cintos da farda rubra debruada a algodão falso como judas também fazem um vistaço. Plástico puro, brilhante, até a fivela também é de aço sintético. Não vi botas, mas vi grinaldas de luzinhas, vi sprays de neve, presépios simplesmente honestos, estrelas, bolas policromas e, mesmo uns pinheiros obviamente artificiais, sem grandes pretensões e de tamanhos enfezaditos. E barbas encaracoladas, a fingir.
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Uma parafernália nataleira made in China. Enriquecida por uns quantos brinquedos, modestos, mas aparentando a satisfação do dever cumprido. E comprido, ainda que os dias encurtados acabem cedo. Mas não há como parar os relógios ou arrancar as folhas dos calendários em suporte papel. Do antigamente. Aliás, deixem-me que vos diga que um relógio parado está sempre certo – duas vezes por dia.
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Nas pedrinhas calcárias um cãozito dá saltos mortais de costas e um que outro flique-flaque. Basta ter as pilhas necessárias e suficientes para lhe dar a agilidade e o savoir-faire de ginasta emérito. Não vi o comandante Vicente de Freitas, mas os olímpicos também não andam pelas ruas, muito menos os presidentes de comités.
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Está também presente um palhaço que toca furiosamente pratos. Enquanto lhe duram as pilhas também oriundas da RPC. E um Pai Natal que sobe por uma corda para chegar a todas as chaminés, se não do Mundo, pelo menos de Lisboa. E outro que, o desavergonhado, baixa as calças para exibir umas cuecas brancas com pintinhas amarelas.
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O Senhor Muhamad conta, com alguma apreensão, os réditos do dia. Os automóveis já acenderam os faróis e o comércio parece um tanto às moscas. Desalentado, tira o barrete que enfiou e coça a grenha desalinhada por mor do vento. Um cavalheiro que ali se plantou, ao vê-lo descoroçoado, comenta para ninguém: «É a crise…»
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E o honesto comerciante, que aparentemente se alheara face à exiguidade dos euros: «Crisi flia do puta!» Aprendem depressa e bem o Português, estes imigrantes orientais.
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A Quadratura do Circo - Que mais será preciso, Manuel?

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Por Pedro Barroso
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HÁ MOMENTOS NA VIDA em que, mesmo que não quisermos, ascendemos a um ponto em que já somos mais do que queremos.
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Há momentos em que, com efeito, significamos muito para lá do indivíduo - que tão bem conhecemos de o vermos todos os dias ao espelho, pela manhã - e temos de ser nós a avançar. E temos de dar o exemplo duma dignidade acima de nós mesmos.
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Há momentos na vida em que somos a vontade que nos amarra ao leme de uma ideia, sobretudo quando um mar português conturbado se declara.
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Momentos em que devemos escalar uma escarpa de confiança, mesmo que não tenhamos todo o equipamento e nos falte alguma certeza para o fazermos. Mesmo que seja à revelia do nosso próprio entendimento.
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Há momentos em que a vontade tem de estar para lá de nós, num projecto de alma colectiva.
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Porque é necessário abanar, arejar e ajeitar as coisas. Reconverter, renovar, arriscar o grito. Porque os cinzentos ganharam e tudo mudou.
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Porque a penumbra, meu irmão, derrotou a claridade.
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Nesses momentos, não basta dizer que estamos atentos e que desejamos uma nova ideia de esquerda e uma reflexão sobre os valores da sociedade. E o equacionamento de novas sinergias catalisadoras do pensamento politico no espaço de uma contextualização cívica alternativa. Caramba. Deixemos de perífrases, amigo.
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Não se pode mais querer e não querer ao mesmo tempo.
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Vejamos. Otelo depois das presidenciais inventou os GDUP’s, para não sei quê de vontade popular; Pintassilgo criou Núcleos de trabalho, para não sei quê de reflexão cristã; Eanes depois da presidência criou o PRD, para não sei quê.
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E também tu - da tua enorme e transversal estrada de emoções e multidão - inventaste uma coisa chamada MIC - nome infeliz e triste, a meio caminho entre algum misterioso Ministério e doença de pele - destinado a eficácia dúbia e desgaste rápido. Depois de ti, também a corajosa Helena Roseta congregou lisboetas e catalisou um grupo de acção Cidadãos por Lisboa.
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Ora bem.
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Estive de alma e coração em todas estas lutas. Mas sempre fui muito céptico face a esse tipo de generosas iniciativas de continuação do sonho.
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Não porque não devesse, numa sociedade ideal, ser assim. Não porque os grupos de cidadãos não devam lutar e abrir brechas. Não porque a luta não deva continuar para lá do elã inicial. E também não porque seria injusto deitar fora milhares de votos de um acreditar significativo e entusiasta. No teu caso um milhão.
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Mas passa-se que no espaço português e na nossa lei a intervenção verdadeira ao mais alto nível politico está interdita a grupos autónomos de cidadãos e apenas reservada a Partidos convencionais - mesmo que, quantas vezes, insignificantes e formados sem ideologia nem espaço próprios.
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Por isso as outras soluções, desculpa-me, Manuel, mas são espaços que têm o valor que têm, e nada mais valem que o horizonte limitado de uma acção evocativa, com uma componente cívica híbrida, a meio caminho entre as ONG’s e a tertúlia de café. Destinadas a uma duração efémera, quase diria a um arrastar inglório e triste de uma ideia saudosa, por vezes entusiasta, mas em rota de declínio anunciado.
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Mas tu sabes como ninguém que há espaço de alma na esquerda para este novo rumo. E que é preciso acreditar de novo, pois o partido Socialista que temos desapareceu do mapa da verdade e criou autismos indisfarçáveis face ao Ensino, à Justiça, à Saúde, ao Sindicalismo, à Banca, à Pobreza e à Vida.
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Não se pode dizer que não se avança, quando tudo pede que avancemos. Este partido, com efeito, de socialista nada tem. Um filho nosso, por muito que o tenhamos criado e amado, também pode estar errado. E manda a hombridade que o assumamos, com o desgosto maior mas a alma aberta de desassombro e lhaneza de quem sabe melhor do que ninguém que nada mais há para fazer. Como um médico desliga uma máquina a um doente que faleceu, ou mais, que tinha mandato para viver mas se desviou da vida e que desejou falecer de sua vontade. Em corpo, teoria, propósitos, programa, espírito e inspiração.
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Olha à tua volta, Manuel.
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Cargos e tachos perlando de carteira recheada os conjurados de outrora. Desses estudantes aguerridos, desses intelectuais desassombrados, desses homens de mão destemidos, dessa verve exaltada e desse gosto imenso a liberdade, afinal que nos resta hoje? Onde estão eles?
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Andam aí. Vestem fatos elegantes e são consultores em várias empresas. Aprenderam a mentir e prometer. São a reles imitação do que já foram e da alma enorme que tiveram. Constituem um Circulo central estabelecido de equívocos e serviços, integram uma agradável e blindada tertúlia de favores em eternas e escabrosas promiscuidades entre o poder e a causas públicas. Assim se fazem as cousas, como escreveu o mestre Gil.
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Entre o poder dos cargos e o sofrer dos encargos será que não podemos fazer nada?
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Creio que sim – PODEMOS.
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Porque, se assim ficarmos sempre, eles já ganharam e ganharão sempre, Manuel.
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E nós ficaremos, na fímbria do terreno - muito atentos e solidários, muito construtivos e opiniosos, muito “pensadores e reflexivos” sobre os problemas da esquerda e do Mundo - a observar a injustiça galopante, o autismo, o clientelismo, a corrupção, o fascismo autoritário, a ilusão maquilhada de competência. Vendendo Magalhães ao preço de Guantanamo e comprando empresários ao preço dos milhões que, afinal, nunca valeram.
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Quando os Bancos nos mentem e a Alta Autoridade Constância não sabe, não viu, não deu por isso, não tinha competências nem meios para agir.
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Quando a prioridade é salvar os ricos; os podres de tão ricos; podrissimamente podres de tão podremente ricos. E não o sujeito passivo, o que come uma sopa apressada numa qualquer manjedoura urbana, porque as prestações obrigam a que faça contas, e chegou à triste conclusão de que já não pode almoçar.
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Quando nas escolas se reconverteram funções sagradas e fulcrais de ensino e aprendizagem por trabalhos de secretaria, confundindo, baralhando e ocupando os professores em actividades de autoflagelação e viroses titulares conduzindo a uma guerra sem igual, perante a ferocidade de uma mulher demente.
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Quando, nos media, as playlist, a imbecilidade, o analfabetismo, o compadrio e o relaxe constituem novos modos de censura sem lápis azul; quando a liberdade de opinião e o conhecimento se convertem num handicap de acesso; e quando a grande Cultura incomoda por ainda preservar uma vaga noção moral diluída num universo da culpa perseguida.
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Quando os socialistas todos se interrogam sobre se isto tudo o que estamos a viver é vida; se esta é uma governação socialista; se este não é um acto de intenções a eternizar-se no futuro, perante a inércia e a placidez critica e contemplativa de grande parte da melhor massa cinzenta nacional que, ou se demite, ou emigra, mas acaba por se acobardar no momento do confronto social.
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Quando o bom senso desapareceu. E o governo pensa que é eterno, perfeito e infalível. E esvaziou maiorias absolutas, valores, programas, ideologias e oportunidades. Quando a esquerda pensa, pensa, mas não gera. Quando os comunistas fazem o que sempre souberam fazer, isto é: - comunistam comunistãmente. E a oposição pensa, e ainda julga que é, mas não é, nem contem alternativa. Ou, se calhar, não pensa, não sabe escolher, não é, nem quer ser alternativa…
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Então…
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Não é tempo de pensar, nem repensar, nem reflectir, nem discutir, nem tecer considerandos filosóficos sobre a ideia de socialismo. É tempo de avançar da única forma possível activa e consequente. O resto é o manto diáfano da fantasia cobrindo a nudez forte da verdade. Enquanto temos a memória dos dias vividos e o milhão de pessoas que connosco acreditaram, desculpa que te ponha a coisas deste modo meu caro amigo, mas…
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…porra! … De que mais precisas, Manuel?
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Estamos todos aqui à tua espera.
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O «Sopas de Pedra» e o «Sorumbático» oferecerão um exemplar deste livro ao autor do melhor comentário que, até às 20h do próximo domingo, dia 21 de Dez 08, seja feito à crónica «O execrável 'stôr'» publicada naquele blogue.

UMA QUESTÃO DE ESQUERDA

Por Baptista-Bastos
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AS TELEVISÕES E AS RÁDIOS fizeram, nestes dias, uma pergunta aflita: Portugal precisa de um novo partido à Esquerda? A inquietação provinha da circunstância de um grupo de pessoas se ter reunido na Aula Magna, para confirmar o que toda a gente sabe: o Partido Socialista não é peva socialista. Manuel Alegre foi o rosto do conclave e, um pouco irado, falou "neste" PS como a absurda negação de um "outro." A verdade é que nunca houve "outro." Desde a "fundação", o PS foi uma espécie de elaboração ininteligível, com estuques róseos. Vale a pena recordar: logo no PREC, o grito d'alma dos militantes era: "Partido Socialista, partido marxista!" Depois, o vozear amaciou, até desaparecer numa gaveta onde se guardou, até hoje, o "socialismo."
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Estou em crer que Portugal não precisa de um novo partido à Esquerda. O que Portugal precisa é de que o PS seja, efectivamente, um partido de Esquerda ou que, em definitivo, deixe de dizer uma coisa e faça outra. Em suma: não se trata de argúcia, trata-se de ética.
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A reunião na Aula Magna não prefigurou um país fantomático. Representou, no meu entender, um outro modo de reflectir o descontentamento generalizado. Nenhum dos assistentes era, meramente, decorativo: eles exprimiam uma intenção realmente crítica, com a única legitimação da vida que estamos a viver. A sua reprovação dos métodos e das práticas deste Governo não significa que pensassem na criação de um novo partido de Esquerda. Porque seria não só absurdo como, sobretudo, inútil. As próprias reivindicações ideológicas da assembleia ilustram, apenas, uma fidelidade: às propostas de Abril, sobre as quais o PS tripudiou, miseravelmente. Talvez esta "fé" surja como um patético anacronismo. Talvez corresponda a um imaginário anterior, e já delido. Mas convenciona o mal-estar desesperado e obsidiante que se colou à nossa vida.
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Sabe-se: José Sócrates não serve. Transformou a política numa tagarelice. A imprecisão da sua ideologia confunde-se com a paixão do poder, e a relação entre ambas compromete, irremediavelmente, o nosso futuro e o nosso destino. A sua maneira fisiológica de dizer as coisas é, quase sempre, ocasional. Embora uma análise textual revelasse a natureza rudimentar do discurso. Não há interlocutores para Sócrates, e, acaso, o encontro na Aula Magna fosse a urgência e a necessidade de um largo sector da Esquerda "silenciosa" proclamar outra exigência política.
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Numa manifestação desta índole, o PCP não deveria ausentar-se. Cedeu a um preconceito histórico que tem minado a Esquerda, e não só em Portugal. O que está em causa é a prioridade de se escapar, tanto à hegemonia como à subordinação. O PCP faz parte da Esquerda - mas não é "a" Esquerda.
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«DN» de 17 de Dezembro de 2008.
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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Se telefonar não conduza


Por Nuno Crato
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HÁ UMA DÚZIA DE ANOS, quando um veículo à nossa frente parecia que parava, demorava a reagir ao sinal verde ou fazia uma série de manobras estranhas, suspeitávamos que o condutor se encontrava embriagado. Quando vemos agora o mesmo comportamento desgovernado, suspeitamos que o condutor está a falar ao telemóvel.
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Esta desatenção dos condutores tem sido objecto de muita investigação científica. Alguns dos estudos mais interessantes têm usado as técnicas de imagiologia cerebral. O que mostraram foi que, ao contrário do que muitos pensavam, há limites claros para a capacidade humana de processar informação em paralelo, mesmo quando esta requer capacidades mentais diferentes. Um trabalho liderado por Marcel Adam Just, publicado em 2001 na revista «NeuroImage» (14, pp. 417–426), mostrava que o cérebro reduz a actividade de reconhecimento de objectos em cerca de 30% e a de diálogo em cerca de 50%, quando as duas actividades se processam em simultâneo.
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O mesmo cientista e seus colaboradores, estudaram posteriormente o problema da capacidade de processamento paralelo no caso dos condutores de veículos. Num artigo publicado este ano na revista «Brain Research» (1205, pp. 70–80), explicam que o diálogo pode diminuir a actividade de processamento espacial em cerca de 37%.
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A princípio, pensava-se que o principal problema era o do manuseamento do telemóvel, que impedia que o condutor tivesse as mãos livres para segurar o volante e a alavanca das mudanças. Na América do Norte, em que a maioria dos automóveis têm caixa automática, ficando sempre uma mão livre para pegar no telemóvel e um pé livre para descansar, pensou-se que tanto faria manusear o telemóvel como falar pelos sistemas alta-voz. Na Europa, seria diferente. O problema estaria no manuseamento do aparelho, que ocupa uma mão necessária à condução. Bastaria pois proibir o uso de telemóveis, podendo permitir-se os sistemas «mãos livres». Foi um engano.
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Um novo estudo acabado de publicar no «Journal of Experimental Psychology: Applied» (14–4) mostra que, mesmo com os sistemas «mãos livres», a conversação por telemóvel reduz significativamente a capacidade de reacção dos condutores. Frank Drews, um psicólogo de Utah, e a sua equipa compararam os erros e falhas de condutores em conversa com um passageiro e em conversa telefónica em alta-voz. Segundo relataram, «um passageiro adiciona um segundo par de olhos e ajuda o condutor». Mas uma conversa ao telemóvel, portanto com uma pessoa que não percebe o que se está a passar na viatura e não abranda o diálogo em momentos de condução mais difíceis, distrai perigosamente o condutor.
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O estudo mostrou que a probabilidade de fazer uma mudança inadvertida de faixa, por exemplo, não aumenta quando o motorista começa a falar com um passageiro, mas sobe para quase o dobro quando está ao telemóvel. A capacidade de se manter em distância uniforme à viatura em frente não sofre com o diálogo com um passageiro, mas reduz-se bastante com o uso do telemóvel. Quantificando o conjunto de resultados, os investigadores afirmam que conversar ao telemóvel é tão perigoso como conduzir ligeiramente embriagado. Equivale a um nível de álcool no sangue de 0,8g/l, portanto bem acima do limite legal.
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Se conduzir não beba. Nem fale ao telemóvel.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 13 de Dezembro de 2008. Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

domingo, 14 de dezembro de 2008

COISAS DO DESASSOSSEGO

Por Nuno Brederode Santos
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EM FUNDO, ESCASSOS RECURSOS e grandes necessidades. A crise força os governos a aliviar a rigidez dos seus critérios. Permite às oposições cavalgá-la, exigindo o instante e o adiável, o necessário e o supérfluo. Faz saltar os interesses menores, pelo medo de serem duradouramente preteridos pelos maiores. Acentua - e, em regra, bem - a suspeição, sobre quem pede ou reclama, de o fazer em nome de interesses. Agora, junte-se a isto a iminência de eleições e a ideia, que a experiência dos povos não desmente, de que o poder político costuma sorrir para adoçar o esgar (ou, como disse Narana Coissoró na SIC Notícias, no embalo naïf de uma cumplicidade espúria com a oposição de esquerda de Fernando Rosas e corroborando a crítica à contenção e às restrições do momento: "A nove meses de eleições, este Governo devia ser um governo doce, esbanjador e despesista"). Isto faz-nos o clima, mais do que a chuva do Outono que outoniza. Nem apetece sair de casa.
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Até para não tropeçar no lixo que se acumula, fede e ninguém apanha. Uma greve inesperada apontou-nos, pior do que ao coração, ao Natal. Em calhando, até terá os seus motivos. Não sabemos. Porque o afã de pôr a gritar na rua, em sucessão ininterrupta, tudo o que tiver razões de queixa, leva por vezes a esquecer de explicar, bem explicadinho, o transtorno que causamos a terceiros. Claro que o sindicalismo de sempre conta com esse transtorno, mas costumava ser para explicar e suscitar solidariedades. Agora, parece que não há tempo. Basta dizer que há a suspeita de que a Câmara quer privatizar a recolha do lixo no Chiado e nos Olivais. O Presidente da Câmara diz que nem lhe é possível dialogar, porque nada sabe, a não ser que tem, na secretária, o pré-aviso de outra greve. No meu pacato quotidiano, uma classe média que comigo partilha o atavismo de pensar que talvez não seja indispensável contratar com terceiros a recolha do lixo urbano (a não ser nas improváveis condições de um notório benefício para a cidade), começa a ponderar se fazê-lo não será o melhor modo de acabar com mais um foco de mal-estar.
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Mas ficar em casa não resolve todos os problemas, nem sequer os maiores de entre eles. Porque, ao mesmo tempo que isto ocorre à nossa porta, os media metem-nos lá dentro outra gloriosa arruaça na Assembleia Legislativa da Madeira, culminando com um discurso intimista de Jardim (no qual até aproveitou para explicar por que razão é malcriado). "A figura do Estado unitário não serve", repetiu ele. Para logo acrescentar que "ou a República respeita a Madeira ou (...) assumirá as suas consequências". Acossado pela incompreensão geral quanto ao seu comportamento para com os desmandos de Jardim, o Presidente da República aproveitou um incidente com deputados faltosos em S. Bento para, como quem não quer a coisa, fazer doutrina: o Presidente não interfere no funcionamento interno das Assembleias, seja a da República sejam as das ilhas (cuja equiparação, no caso, não podia ter outro a propósito). Talvez chegue em auto-avaliação. Mas, se me é permitido avaliar também, não chega. Porque o que está em causa não é matéria do regimento da Assembleia Legislativa, nem sequer já a sonora proclamação de princípios contrários à Constituição que nos rege. É, muito mais singelamente - e por estulta que seja -, uma ameaça ao regime. E uma ameaça que cresce perante cada manifestação de fraqueza contemporizadora de Belém. Não se quis ligar aos "cubanos do Continente", porque talvez a expressão fosse galhofeira. Não se quis ouvir os "colonialistas de Lisboa", porque se preferiu levar à conta de um transporte humoral. Então tomem lá a expressão singela e sóbria, rotunda e escorreita, do seu pensamento: ele fala da República. Essa mesma. A que tem uma Constituição por zelar. E se quem pode o mais pode o menos, o Presidente, que ainda tem meios e poderes para intervir na vida das regiões e que, com os olhos postos nos Açores, já se dirigiu ao país inteiro, teria as oportunidades que quisesse para varrer a testada da instabilização, provocatória e permanente.
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Que o PSD não o faça, que nenhum líder nacional tenha coragem (que hoje é já força) para o fazer, é problema dele e dos seus filiados. Mas o respeito pelo património político nacional cabe a quem os portugueses votaram para o efeito. E não há improviso doutrinário que nesta matéria os engane.
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«DN» de 14 de Dezembro de 2008 - Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Convite



14 de Dezembro, domingo, na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa

Vários independentes, entre os quais Helena Roseta, militantes socialistas, comunistas, e bloquistas, reúnem-se no dia 14 para um Fórum sobre Democracia e Serviços Públicos.

Estão convidados todas e todos quantos queiram participar na análise de alternativas para a educação, os direitos do trabalho, a saúde e as cidades. Os debates iniciam-se às 11 horas.

O apelo para a realização deste Forum é subscrito por mais de cinquenta personalidades dos vários quadrantes da esquerda e independentes. Manuel Alegre, a bloquista Ana Drago e a militante socialista e Presidente da Escola Secundária Infanta Dona Maria, Maria do Rosário Gama, encerram os debates, que se distribuirão por cinco painéis: Economia, Educação, Cidades, Trabalho e Saúde.

Independentes como José Castro Caldas, André Freire, Helena Roseta, Licínio Lima ou Jorge Leite participam nos painéis.

Com forte presença, e encabeçados por Manuel Alegre, vão estar diversos militantes socialistas, membros da Corrente Socialista fundada por Alegre, tais como Elísio Estanque, Jorge Bateira, Nuno David e Jorge Martins.

Em força também o Bloco de Esquerda, com Luís Fazenda, Ana Drago, João Teixeira Lopes, Mariana Aiveca.

Vários militantes comunistas, com o secretário-geral da CGTP Carvalho da Silva à cabeça, e o histórico dirigente da Fenprof Paulo Sucena, mas também membros da refundação comunista, como Cipriano Justo.

Nomes como Carlos Brito, Edmundo Pedro, Ana Benavente, João Correia, Luis Moita, António Borges Coelho, Ulisses Garrido, Isabel Allegro de Magalhães, ou Mário de Carvalho subscrevem o apelo.

Para a esquerda, "isto é um ciclo novo", afirma Manuel Alegre. O ex-candidato presidencial espera uma enorme abrangência. "Esperemos (...) que seja um caminho de construção de soluções alternativas, que tenham consequência na vida das pessoas", afirmou ainda Manuel Alegre.

Direitos Humanos (?)

Por Antunes Ferreira
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ONTEM, OS 60 ANOS da Declaração Universal dos Direitos Humanos foram comemorados na sede das Nações Unidas, em Genebra, como um marco na história da Humanidade. Mas, também ali foi referido que muitos de seus princípios ainda não foram alcançados. O secretário-geral Ban Ki-moon afirmou mesmo que "desde a aprovação da Declaração avançámos enormemente. No entanto, a realidade é que, pelo menos até agora, ainda não atingimos muitos dos seus objectivos e das suas intenções".
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“Uma pobreza abjecta, uma vergonhosa discriminação e uma horrível violência continuam a afectar milhões de pessoas", disse ainda, terminando por enfatizar que "ao atingir este marco (o aniversário), também devemos reconhecer a selvagem falta de humanidade enfrentada por muitas pessoas neste nosso mundo. Não podemos baixar a guarda".
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Por outro lado, em Nova Iorque, a organização Human Rights Watch, HRW, afirmou que as autoridades cubanas prenderam mais de 30 pessoas durante a semana, quando foi comemorado o Dia Internacional os Direitos Humanos, citando relatos da imprensa e de grupos cubanos. Havana não comentou estas afirmações.
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Vozes as mais diversas aproveitaram a data para tecerem considerações a propósito dela e foram muitíssimas as referências a muitos outros países, governos e outros detentores do Poder que não respeitam os direitos humanos. Cuba terá sido apenas mais um entre esses que ainda os não praticam, sequer os respeitam.
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Os direitos humanos são o que são e porque devem ser, têm de ser, universais, não se pode admitir que com eles se jogue utilizando subterfúgios e truques para justificar o injustificável. Continua em voga a afirmação de que eles têm de ser considerados e analisados, de acordo com a situação geográfica e cultural. Nada mais falso.
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Quando em 1947 a Declaração foi aprovada, vivia-se, ainda, no rescaldo desse terrível acontecimento que foi a II Guerra Mundial. E se o nazismo e o fascismo a motivaram, foi porque se chegou à conclusão que os crimes gravíssimos deles resultantes não poderiam voltar a acontecer. É óbvio que a sua condenação não bastava. Os homens tinham direitos. Havia que os respeitar. E o documento que daí resultou foi, inegavelmente, um enorme avanço.
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Só que, como infelizmente acontece com frequência quase constante, imediatamente após a sua divulgação começaram a registar-se os atropelos mais diversos e mais graves ao documento – no fundo ao que ele representava com aspiração e desejo da Humanidade. Mas os atentados despudorados não desapareceram, nem desaparecem, nem desaparecerão, só porque existe o texto.
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Se houve campos de concentração e genocídios, eles continuaram a existir. Desde Auschwitz até Sbrenica decorreu meio século. Dia após dia, sem paragens, porque o tempo não pára, mesmo que se parem os relógios ou se deitem para o lixo os calendários. A vida é assim. É dolorosa uma tal constatação. Mas, é. Existe. É real - não é, nem pode ser, virtual.
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Os 60 anos da Declaração dos Direitos do Homem representam um percurso que se desejou, deseja e desejará que seja menos acidentado, que seja menos violado, que seja mais conseguido. Universal foi chamada. Se nós, homens, a desprezarmos quotidianamente e nos mais diferentes lugares do Mundo, desde Pyongyang até Guantanamo, os direitos vilipendiados cada vez menos são - humanos. E ninguém pode lavar pilaticamente as mãos.
Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Solução do passatempo-relâmpago de 12 Dez 08
A resposta certa foi dada por Marco
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Trata-se, de facto, de um 'relógio' que indicava as horas (embora muito grosseiramente) à medida que a coluna de azeite ia descendo. A foto que se vê em baixo foi indicada por Marco.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O PROCESSO DO PARLAMENTO

Por Baptista-Bastos
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PARECE QUE 30 DEPUTADOS do PSD aproveitaram o prolongadíssimo fim-de-semana e descartaram-se do imenso enfado de estar no Parlamento. Como não se duvida do altaneiro patriotismo dos faltosos, talvez se acredite que foram para o remanso do lar desbravar dossiês e estudar as causas da decadência da democracia portuguesa. Porém, a ausência destes abnegados profissionais da política (junte-se mais 13 do PS, três do CDS, um do PCP e outro dos Verdes) permitiu que não fosse suspensa a avaliação dos professores, causa suprema da oposição. Manuela Ferreira Leite, irritadíssima, chamou o líder parlamentar: exigia explicações ante tão infausto acontecimento. No Porto, Marco António Costa exigiu a demissão de Paulo Rangel, por "desmotivador". Grave e severo, Marcelo Rebelo de Sousa pediu as cabeças dos prevaricadores, alguns deles gente de considerável ambição e altos desígnios. "Os nomes! Que sejam publicados os nomes!", intimou.
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Independentemente da pouca-vergonha que o episódio comporta, ele adiciona-se a outros, associados à guerrilha interna do PSD. Este partido acentua a sua cada vez mais nítida semelhança com um conglomerado de verdetes, de vinganças pessoais, de ódios mal resolvidos. Ninguém dá sinais de se abstrair dos argumentos emocionais e, servindo-se da vontade e da inteligência, comprometer-se com a solução dos nossos múltiplos problemas.
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O descrédito do Parlamento resulta do laxismo que se instalou na sociedade, permitindo e até estimulando a complacente indiferença cívica. Já poucos acreditam na bondade dos políticos; e os deputados são objecto de desprezo ou de anedotas devastadoras. Todos conservamos na memória as imagens televisivas de parlamentares a dormir, a ler jornais, revistas e livros; o número surpreendente de cadeiras vazias. Sabemos da "disciplina partidária"; da abdicação da consciência em nome da subordinação às estratégias de momento; da vassalagem; das pequenas trocas de favores. Conhecemos aqueles que nunca falaram, que jamais intervieram, recatados por imposição ou por conveniência própria. E também conhecemos aqueles que falam sem nada dizer.
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Sinto, cada dia que passa, a necessidade de não conciliar, com um mutismo falsamente distraído, o erro e a conivência, a abjecção e a irresponsabilidade. Marcelo Rebelo de Sousa disse, no domingo, que a democracia estava a ser desgastada porque muitos dos que a deviam servir não lhe atribuíam o grau superior exigido pela sua própria natureza. Não sendo novo, o incidente do prolongado fim-de-semana dos 48 deputados dá que pensar. Pensar que a dignidade das funções, quaisquer que elas sejam, depende do carácter e da integridade de quem as exerce. Em torno deste princípio devemo-nos unir ou separar.
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«DN» de 10 de Dezembro de 2008

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Recordações de Novembro


Por Alice Vieira
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TALVEZ TENHA SIDO por causa da chuva, do mau tempo, destes dias cinzentos com a noite a ameaçar às quatro da tarde, ou talvez não tenha sido por nada disso — o certo é que no domingo passado dei comigo a recordar duas datas sempre muito dolorosas para mim.
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Por motivos diferentes, e a magoarem também de maneira diferente.
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No dia 30 de Novembro de 1975 morria, no Brasil, Erico Veríssimo. É provável (é quase certo…) que este nome não diga nada hoje às gerações mais novas — e se calhar muito pouco às outras.

Temos memória curta e, no que toca a nomes de escritores, memória curtíssima. Como aquelas pessoas que dizem “eu, para nomes…”. Erico Veríssimo foi um dos homens da minha vida.
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Não houve escritor nenhum que me tivesse influenciado tanto. Acho mesmo que a vontade de escrever, a descoberta da maravilha que era usar as palavras para contar uma história — e, mais do que isso, para transmitir uma emoção — foi com ele que aprendi.

Porque ele chegou à minha vida quando eu tinha seis anos. Li tudo o que encontrei, percebesse ou não a história mas cativada pela música das palavras — e paixões dessas não acabam nunca.
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Foi-me sempre acompanhando. E em adolescente tive a certeza absoluta de que ele me tinha conhecido, quem sabe se numa outra vida, pois só assim se compreendia que ele tivesse feito o meu retrato em “Clarissa”.
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Paixão tão forte que trago sempre um retrato dele na minha carteira — juntamente com os retratos da família, dos amigos e dos (outros) homens da minha vida.
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É uma fotografia muito bonita, em que ele está debruçado sobre a máquina de escrever, e uma luz incide sobre a sua cabeça, tornando-o no único foco de claridade no meio de uma sala muito escura.
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Foi um dos filhos que me ofereceu a fotografia - igual à que fui encontrar o ano passado numa sala da Universidade de Brasília, e eu a dizer para a professora que me esperava, “olhe, tenho uma igual na carteira!” e ela “sério? “ , e eu a tirá-la e as duas ali em adoração…
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Não me perdoo não ter chorado suficientemente a sua morte.
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Mas ele morreu em pleno ardor revolucionário, o 25 de Abril tinha pouco mais de ano e meio, ninguém tinha tempo então para pensar nessas coisas. Acho mesmo que nem dei por isso — e tenho a certeza de que os jornais de então também não devem ter gasto muito espaço com a notícia.
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Os jornais… Pois... A outra recordação triste que me traz o dia 30 de Novembro tem a ver com jornais: foi nesse dia, há oito anos, que morreu o “Diário de Lisboa”. Que, para mim, foi muito mais do que um jornal: foi o lugar onde se desenhou a minha vida inteira.
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São duas mortes que me hão-de magoar sempre.
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E que não esquecerei nunca.
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«JN» de 7 de Dezembro de 2008. Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados. A foto aqui afixada não é a que a autora refere no texto.

Ecos cósmicos

Por Nuno Crato
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TUDO COMEÇOU há 38 mil anos, ou mais. Não se sabe ao certo. Uma estrela explodiu com o brilho de cinco mil milhões de sóis. Lançou para o espaço os detritos da sua matéria e a luz da explosão seguiu em todas as direcções. Em 11 de Novembro de 1572, chegou à Terra. As pessoas, habituadas à constância do firmamento, repararam que havia uma estrela a mais na Cassiopeia. Ficaram espantadas. Os sábios pensaram que se tratava de um fenómeno meteorológico, que se confundiria com uma estrela. Aristóteles tinha ensinado que os céus eram perfeitos e imutáveis — nada se poderia ter passado no firmamento.

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A luz chegou também aos olhos do maior astrónomo da época, o dinamarquês Tycho Brahe, que fez medidas de paralaxe muito precisas e provou que esse ponto de luz estava para além da Lua. Não podia ser um fenómeno atmosférico. Era uma «estrela nova».

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A nova — ou supernova, como depois veio a ser chamada — começou a perder brilho em fins de Novembro. Em Março de 1574 tinha-se desvanecido. O que ficou foi o eco das observações de Tycho Brahe, que anunciavam o fim da astronomia antiga.
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Nunca se soube que tipo de explosão teria originado a supernova de 1572, que foi uma das mais violentas registadas na história das observações astronómicas. A astrofísica, entretanto, evoluiu muito. Pode-se hoje saber o que anteriormente se considerava para sempre vedado à ciência. Analisando as componentes da luz com uma técnica chamada espectroscopia conseguem-se descobrir os elementos químicos na origem da fonte luminosa. Como seria bom que a luz da supernova de 1572 ainda fosse visível! Se isso acontecesse, pela espectroscopia poder-se-iam detectar os elementos químicos presentes na estrela e, com esses dados, perceber que tipo de estrela tinha explodido. Muito seria acrescentado ao conhecimento do cosmos.
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Surpreendentemente, o desejo dos astrónomos veio a tornar-se realidade. Quando a estrela explodiu, emitiu luz em todas as direcções. Parte dessa luz dirigiu-se directamente para a Terra e foi detectada em 1572. Mas outros raios luminosos dirigiram-se para outras paragens. Umas centenas de anos depois da explosão inicial, alguns desses raios vieram a encontrar uma nuvem extensa de poeira interestelar e a iluminá-la. A luz reflectiu-se. Alguns dos reflexos só agora chegaram à Terra pois fizeram um trajecto mais extenso do que a luz de 1572. Foram detectados pelo telescópio Subaru, no Hawai. São ecos muito fracos da explosão inicial. Curiosamente, parecem mexer-se, pois são resultado de reflexões de luz em partes sucessivamente mais longínquas da nuvem de poeiras, que nos vêm chegando desfasados.
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O astrónomo Oliver Krause e a sua equipa publicaram a descoberta esta semana na «Nature» (456, 617–619). O estudo da luz revelou a presença de silício, enxofre e ferro, elementos que indicam tratar-se de um tipo de explosão denominada «supernova Ia». Sendo assim, o que explodiu foi um sistema binário de anãs brancas. Uma das estrelas aumentou de massa roubando matéria à sua companheira. Quando atingiu o chamado limite de Chandrasekhar (1,4 vezes a massa do nosso Sol), explodiu num evento termonuclear que dispersou luz em todas as direcções. Pelos vistos, os sinais dessa explosão continuam a chegar à nossa velha Terra. E agora sabemos decifrá-los.

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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 6 de Dezembro de 2008 (adapt.).
Para saber mais: ver [aqui]. Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Sós

Por Nuno Brederode Santos
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HÁ UMA NEURASTENIA que deve ser filha do cansaço. É, pelo menos, o que sinto, ao constatar que, com uma folha em branco pela frente, estive meia hora a observar a palmeira do vizinho e, nestes últimos minutos, pareceu-me vê-la crescer. Mas este cansaço é anímico, só afecta a vontade e o optimismo (sendo que, quanto a este, a natureza foi parca e nada esbanjou comigo).
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Eu era seis semanas mais novo quando aqui escrevi sobre o problema, que ao Parlamento se punha, quanto ao estatuto autonómico dos Açores. No essencial, dizia que deixava aos constitucionalistas a discussão sobre os alcances do diploma e que me queria cingir a uma abordagem política. Que a autonomia insular foi concebida como instrumento de combate contra os custos da insularidade e visava, na fórmula - a que chamei "já ingénua" - do n.º 2 do art. 225.º da Constituição, o "reforço dos laços de solidariedade entre todos os portugueses". Que a fórmula provou bem e cumpriu, estando de há muito a Madeira entre as três regiões portuguesas com melhores indicadores e apresentando os Açores números lisonjeiros no ritmo comparado do seu desenvolvimento. Dir-se-ia então estar tudo bem. Não está. A prática autonomista foi-se progressivamente fechando numa atitude cada vez menos solidária e recusando considerar sequer a partilha de qualquer preocupação com os custos da interioridade, nos quais residem hoje os mais clamorosos atentados à coesão nacional. Todos os partidos - com PSD e PS à cabeça (por via das suas hegemonias políticas na Madeira e nos Açores) - foram progressivamente apostando no valor emblemático das eleições regionais e nenhum quer prejudicar os seus resultados com a imposição de uma lógica nacional. O Estado unitário que somos é cada vez mais desmentido na prática (e, no caso da Madeira, claramente no discurso oficial), fazendo-se caminho sorrateiro para um federalismo que os portugueses não votaram. E terminava perguntando como é que o poder central vai explicar a "alentejanos, transmontanos e beirões" a sua obrigação de, sendo mais pobres, estarem a pagar esses custos que não conhecem, nem as regiões autónomas lhes querem dar o direito de discutir. Esta caminhada institucional para o delírio tem sido feita por todos - repito, todos - os partidos na Assembleia da República.
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Há os que agora são contra (desdizendo, de resto, as suas votações anteriores no mesmo caso). Mas fazem-no com o argumento de que não tem sentido ou não é prudente um braço de ferro com o Presidente da República. Ou, no caso do PSD, porque deve ver ali direito divino e entende que nunca se deve contrariá-lo. São variantes tão oportunistas como o seu contrário, porque os regimes não se desenham pelo traço dos humores de seja quem for.
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Há o PS que o trava e pode eventualmente impor-se (por agora, pelo menos). Procuro explicações e só me dão duas. A primeira é a de que Sócrates é um homem de palavra e empenhara-a antes das eleições nos Açores. Será cavalheiresco. Mas por que raio nos havemos de vergar à virtude que possa haver num erro, quando, ainda por cima, somos dez milhões a pagar os custos dele? A segunda, a de que os portugueses (continentais, presume-se) se estão nas tintas para as ilhas, é demasiado deprimente para levar a sério.
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Restar-nos-á o Presidente da República, para quem parecem apontar tantos comentadores? Há meses, cheguei a admitir que talvez. Mas não há. Por que a razão de fundo que agora o move não lhe ditou a conduta em várias situações posteriores, nas quais revelou uma confrangedora dualidade de critérios para com a Madeira e os Açores. Ao aceitar que lhe vedassem o acesso à Assembleia Legislativa da Madeira - ainda por cima com explicações públicas de Jardim que resultavam num insulto soez a toda a oposição regional - e ao vergar-se a convidar para um jantar de consolação os partidos preteridos, Cavaco Silva não representou os portugueses, mas apenas o chefe local, os seus incondicionais e a sua própria fraqueza. Ao proferir, neste mesmo contexto, um ditirambo incontido sobre as excelências da governação local, reincidiu, já não por encobrimento, mas por cumplicidade. Ao omitir qualquer declaração sobre esse carnaval da democracia que foi a suspensão dos plenários parlamentares da Madeira e a interdição física, levada a cabo por seguranças privados, do acesso de um deputado eleito, sob a alegação de que estas coisas se resolvem melhor no silêncio das chancelarias, ele entrou em contradição insanável com as ruidosas mensagens ao país sobre as questões do estatuto açoriano. Depois de tudo isso, o Presidente já não está a defender o regime, mas a sua própria imagem pública. Ora o regime é que é o nosso problema. A defesa da imagem, sendo embora um direito, é com quem julga precisar dela.
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Por maioria que - quero acreditar - sejamos, parece que, nesta matéria, estamos sós. Tem graça. Passou-se mais de uma hora, foi-se a neurastenia e agora vejo melhor: a palmeira não cresceu.
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«DN» de 7 de Dezembro de 2008 - Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sábado, 6 de dezembro de 2008

A Senhora Dona Maria de Jesus

Por Antunes Ferreira
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ISTO DE ESCOLHER TEMA para crónica tem que se lhe diga: Por mim, acho que escrevê-la é muito mais fácil, tendo embora a perfeita consciência de que, por várias vezes, sai prosa intragável que nenhum sujeito de boa-fé e rectas intenções merece. Mas, em tais apertos, juro que é o que se pode arranjar. E quem dá o que tem, a mais não é obrigado. Muito obrigado. Daí que diga que o sarilho está na escolha do assunto.
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Esta semana que hoje finda é complexa, é mesmo labiríntica. Fora eu de Delfos e ainda que sem os encantos da pitonisa (ao que dizem, havendo outros que desmentem) e ajudar-me-iam as fumarolas enxofradas. Mas, ó céus, não passo de um pobre mortal, se bem que com as obrigações fiscais em dia. No que concerne à Segurança Social, são outros quinhentos mil réis: estou reformado.
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Veja-se. O s ataques terroristas em Mumbai, a antiga Bombaim cedida aos ingleses como prenda de casamento da Princesa Beatriz. Não pego. É um exemplo da crueldade criminosa que o terror usa nas suas actuações violentas. É o regresso à barbárie. As declarações do Senhor Mário Nogueira, PP, ou seja, Patrão dos Professores? Muito menos. Aquele bigodinho, entre o cinéfilo e o vilão, já não o posso ver. E a ditadura do não - não se enquadra na minha maneira de estar.
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O nebuloso imbróglio do BPN está cada vez mais intrincado. Até o Senhor Doutor Aníbal Cavaco Silva já deu cavaco – e no site oficial de Belém – declarando-se impoluto e inocente do que lhe teriam já imputado. Talvez por andar distraído, não tinha dado por isso. Ouvira ou lera ou vira, não posso precisar que ele, PR, tinha toda a confiança no Senhor Doutor Dias Loureiro, baseado na palavra de honra que este lhe dera. Neste vespeiro, nem pó.
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Restava-me a enorme solidariedade que se verificou a nível da Segunda Circular. Num rasgo ímpar de generosidade, o Benfica fora à Grécia para se ver grego? Não senhor. Sujeitara-se aos ignominiosos 1-5 só para se irmanar na desdita com os aviltantes 2-5 do Sporting que, para isso, nem precisou de sair de casa. Os catalães chegaram (e sobraram), presentearam os leõezinhos com a meia dezena da ordem e ala que se faz tarde.
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O gesto dos comandados (?) pelo Señor Don Quique Flores será difícil de encontrar nos tempos mais próximos. O Senhor Paulo Bento deve ter-se desfeito em agradecimentos ao seu congénere da águia. Aliás, penso que ele não terá sido o único a manifestar a sua gratidão aos vermelhos (no tempo salazarento eram encarnados, por motivos óbvios). O Senhor Professor Carlos Queirós diz-se que, para além de mail, também terá enviado um ramo de rosas vermelho/encarnadas com um cartão dobrado no canto superior esquerdo. Os homens conhecem-se nas ocasiões. Ná, que me perdoe o Régio, mas sei que não vou por aqui.
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Pois, está escolhido o tal tema. A mais velha mulher do Mundo, pasme-se, é portuguesa. Assim mesmo, sem tirar nem pôr. Em raríssimos casos somos os primeiros. Ultimamente só o Évora, a Vanessa e a Neide (e vamos a ver se o enfatuado, isto é, o Cristiano Ronaldo), e, é verdade, o Saramago, mas noutras latitudes e noutros preparos. Gamas e Cabrais foram, mas há séculos.
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Pois, desta feita, temos a Senhora Dona Maria de Jesus, uma lídima Portuguesa nascida em 1893, vive agora na localidade de Corujo, no concelho de Tomar, e tem 5 filhos, 16 netos, 16 bisnetos e dois trinetos. Era, até quarta-feira, a norte-americana Edna Parker, que tinha ainda conseguido completar 115 anos. Isto é, também viera a este vale de lágrimas em 1893. Só que – morreu. Acontece.
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Dizem os noticiários que a senhora Dona Maria de Jesus já confessou que o seu doce preferido é arroz-doce e também se pela por gelados. E que escolheu sempre o peixe e os legumes, em vez de carne. Mais: conseguiu manter sempre o seu perfeito estado de saúde sem nunca ter bebido café, sem nunca ter fumado e sem nunca ter tocado em álcool. No entanto é cega desde criança de um olho. Segundo Madalena de Jesus, a filha com quem vive, a sua Mãe gosta de ser ela a fazer tudo, gosta muito de tirar fotografias, gosta muito de tomar banho e não gosta que a agarrem. Excelente.
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Valha-me, por conseguinte, a Senhora Dona Maria de Jesus. Que viva por muitos anos. Bem merece. Por nos dar um primeiro lugar e por me ter propiciado a presente crónica. Muito obrigado.

La Fontaine

Adaptação de Couto Guerreiro

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

A INTRIGA E A VELHACARIA

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Por Baptista-Bastos
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NO ÚLTIMO DOMINGO, na RTP, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou ter sido mal interpretado naquilo que dissera, no domingo anterior. E o que dissera, negado agora, constituía a subtil vontade de se candidatar à chefia do PSD. Se há virtude que o famoso professor possui, em abundância, essa é a de jamais, em tempo algum, haver sido "mal interpretado" - a não ser que assim o deseje.
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A verdade é que o sobressalto causado pela "má interpretação" foi suficiente para recomeçar a melancólica aventura dos nomes e os enternecedores movimentos dos apoiantes aos supostos candidatos. São os mesmos. E cada um pior do que o outro.
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O PSD dispõe, certamente, de gente capaz. Não aqueles que a Imprensa calorosamente tem nomeado. Rui Rio? Morais Sarmento? Tantas catástrofes enunciadas! Tantos horrores arrendados numa só hipótese que seja! Mas eles estabelecem um elo entre si: o entendimento abstruso e anacrónico que fazem do mundo e dos portugueses.
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Perante a sombria intriga, chego a ter um estremecido sentimento de compaixão pela dr.ª Manuela Ferreira Leite. Uma gente arquejante de poder e crassamente instigada pelos manobradores do costume vai cercando a senhora, cujas últimas intervenções são reveladoras de uma desorientada mágoa.
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O salomónico "não", com ênfase proferido e repetido por Marcelo Rebelo de Sousa, no último domingo, não aquietou as hostes, antes pelo contrário. O PSD vive da intriga e da fancaria. Marcelo sabe-o melhor do que ninguém.
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No momento. A propósito do falecimento do grande editor Joaquim Figueiredo de Magalhães, o apenas concebível Vasco Pulido Valente escreveu, no Público, um texto mais indigno do que lhe é habitual. Entre omissões, mentiras e pequenas velhacarias, insulta a memória de Augusto Abelaira, intelectual respeitado e admirado, de quem diz ter tido a alcunha de "A Velha". O Vasco PV deveria examinar a gravação das suas intervenções, na TVI, medonha encarnação do apodo que atribui ao grande romancista de A Cidade das Flores. Quanto à revista Almanaque, de que fui redactor a partir de 1962 (vencimento mensal: 800$00), nunca o vi, por exemplo, nas reuniões em casa de João Abel Manta, onde se discutia (Cardoso Pires, Sttau Monteiro, Abelaira, Cutileiro) o tema da revista seguinte. Aliás, nos últimos 40 anos, apenas por quatro ou cinco vezes enxerguei a cara desagradável do cavalheiro - que parece suscitar um temor reverencial, para mim inexplicável, porque o não receio, em nenhuma circunstância ou situação. Desejo, ainda, referir que Augusto Abelaira possuía grande coragem moral e física, o que o levou a enfrentar a PIDE, com rara valentia. Do que nem todos se podem ufanar. Ponto final. Mas voltarei ao assunto, acaso seja chamado à colação.
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«DN» de 3 de Dezembro de 2008

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Linha do Tua - Fotos enviadas por R. da Cunha

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O Regresso de ‘O Independente’

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Por J. L. Saldanha Sanches
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O INDEPENDENTE ERA UM JORNAL malcheiroso com um significado que o ultrapassava: as primeiras páginas que o tornaram famoso eram o sinal mais expressivo do período em que os enriquecimentos ilícitos foram a questão central da política portuguesa.
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No Governo estava Cavaco Silva e o dinheiro jorrava de Bruxelas: era preciso gastá-lo depressa e tolerar algumas irregularidades – constava ser esta a posição de Cavaco – senão o direito de o receber caducava. Foi assim que tudo começou.
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‘O Independente’, com as suas indignações fulminantes, reflectia muito bem o despeito de quem já estava instalado perante a rapidez com que políticos, que vinham para Lisboa com carros a cair aos bocados, passavam para BMW topo-de-gama.
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De vez em quando um deles tinha um processo-crime, apesar de a justiça desse tempo ainda funcionar pior do que a de hoje. Então, quando o processo era arquivado por falta de provas, Cavaco Silva mostrava a sua indignação pelo modo como jornalistas sem escrúpulos e magistrados incompetentes manchavam a reputação de homens impolutos.
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Não é que os jornalistas de ‘O Independente’ fossem muito escrupulosos ou que os magistrados fossem muito competentes. Que os tais homens fossem impolutos é que era mais duvidoso.
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É isso que dá um imperdível odor a dejá vu ao caso BPN. A única diferença e que aqui a conta que vamos pagar por causa das ilicitudes está devidamente contabilizada e temos o caso extraordinário do crime ser cometido à vista de toda a gente: ao que parece, o BPN funcionava sem reuniões do Conselho de Administração e sem actas. Um pormenor insignificante do qual o Banco de Portugal, apesar da aturada vigilância a que submetia o BPN, nunca deu conta.
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Conselho de Administração havia: ainda que nos últimos anos (segundo as informações que obtivemos no site institucional do Banco) estivesse muito reduzido. Actas, é que não. Um estilo de governação societária rodeado de cuidados conspirativos e aprendido na Palermo Business School. Um estilo que em Lisboa pode durar por tempo indefinido: ainda no ano passado o banco anunciava um lucro muito confortável, e, como diziam os últimos auditores (que revelaram uma excelente adaptação à cultura peculiar da instituição) num relatório assinado em Abril de 2008, as suas demonstrações financeiras apresentavam de forma verdadeira e apropriada a posição financeira do BPN.
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Tudo isto é um pouco mais desconfortável para Cavaco Silva que as tais primeiras páginas de ‘O Independente’, mas o seu modo de reagir é mais ou menos o mesmo: não se pode dar demasiada atenção ao que se publica nos jornais, nada está provado, ainda ninguém foi condenado. Provavelmente o Dr. Dias Loureiro anda demasiado agitado para o seu gosto, mas não é fácil passar de repente de king maker do PSD (lembram-se do tom paternal com que eles nos contava as suas conversas com o Pedro para explicar porque não tinha dado mais apoio a Santana Lopes?) para o estado de radioactivo.
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Mesmo assim Cavaco Silva vai continuar apoiá-lo, a menos que ele vá ao Palácio de Belém para confessar que é culpado, o que nos não parece muito provável. Afinal de contas, a respeito de má moeda e de boa moeda, a situação (para mal dos nossos pecados) não é tão clara como parecia há alguns anos.

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«Expresso» de 29 de Novembro de 2008 www.saldanhasanches.pt/
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Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A BELEZA AO MICROSCÓPIO

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Por Nuno Crato
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PARA SURPRESA de muitos leigos, os matemáticos e os cientistas têm em alto apreço a beleza das suas teorias. Jacques Hadamard (1865–1963), que escreveu um estudo sobre a mente inventiva, defendia que a beleza era a motivação mais importante para a descoberta. Esse matemático francês citava, por exemplo, transformações geométricas concebidas pelo seu contemporâneo Élie Cartan (1869–1951). Dizia que a única motivação dessas criações tinha sido a sua simplicidade e coerência, valores estéticos portanto. Mas década e meia depois, experiências físicas com electrões apenas puderam ser interpretadas com os instrumentos criados por Cartan. Interrogava-se pois Hadamard sobre a possibilidade de a beleza matemática funcionar como critério de verdade.
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O físico inglês Paul Dirac (1902–1984) ia ainda mais longe. Dizia que «é mais importante ter beleza numa equação do que ajustá-la ao resultado da experiência». A ideia tem sido referida vezes sem conta. O matemático alemão Hermann Weyl (1885–1955) dizia que quando tinha de escolher entre a verdade e a beleza, «usualmente escolhia a beleza».
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Muito recentemente, os psicólogos têm procurado perceber se o sentido estético é apenas o resultado do amor dos cientistas à sua arte ou se deriva de algo mais profundo na mente humana. Procuraram-se explicações na chamada «fluência de processamento», que representa a velocidade de assimilação da informação. A mente humana teria tendência a considerar mais plausível aquilo que mais facilmente apreenderia. Ora tudo o que revela simetria e simplicidade é habitualmente considerado mais belo que os arranjos informes e complexos. E também mais apreensível.
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Uma explicação da biologia evolutiva para esta preferência pode ser dada pelo facto de o equilíbrio simétrico de um potencial parceiro sexual ser, em geral, um traço característico da sua saúde e, portanto, da sua fecundidade. Mas essa explicação também tem sido posta em causa, pois encontra-se uma preferência pela simetria em muitas áreas não relacionadas com a sexualidade. A biologia moderna, não considera, como o fazia a psicanálise, que o sexo é tudo.
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Três investigadores noruegueses da universidade de Bergen acabam de publicar no número de Dezembro da revista «Psychonomic Bulletin & Review», páginas 1174–8, um estudo empírico que constitui provavelmente a primeira indicação empírica do uso da simetria por via da fluência de processamento no raciocínio matemático. Pediram a voluntários que classificassem como certas ou erradas contas representadas por bolinhas. Verificaram que, à medida que a complexidade das contas aumentava e a velocidade de processamento exigida era maior, as pessoas tendiam a classificar como certas as equivalências em que as bolinhas estavam dispostas de acordo com padrões de simetria facilmente reconhecíveis. Essa tendência não pode ser explicada pela facilidade de fazer as contas com disposições regulares dos objectos — os voluntários tendiam a escolher os arranjos simétricos, mesmo quando ele estavam errados.
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São resultados ainda modestos. Habitualmente é assim. Mas é a primeira indicação estatisticamente controlada da importância dada à beleza como critério indicativo da verdade. Hadamard tinha razão.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 29 de Novembro de 2008 (adapt.); foto de Jacques Hadamard
Este post é uma extensão [deste], onde eventuais comentários poderão ser afixados.

Difícil de entender

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Por Alice Vieira
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A VOZ DA SENHORA, do outro lado do fio (o telemóvel não tem fios, mas a expressão mantém-se...) era, digamos, ligeiramente desagradável: “então agora parece que temos de lhe pagar as viagens”.
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Contei mentalmente até três, para não desatinar logo, e, no tom de voz mais cordato que me foi possível arranjar, respondi que sim: uma vez que eu vivia em Lisboa e a escola ficava a centenas de quilómetros da minha porta, a escola, que tanto insistira na minha ida até lá, teria de me pagar o transporte. E que isso era o mínimo.
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A senhora ficou ligeiramente incomodada, e vá de dizer que não compreendia como podia eu exigir uma coisa daquelas, se eu não sabia que a escola não tinha verbas, se eu não sabia como estavam todas carenciadas, e por aí fora, até eu, muito educadamente, lhe explicar que o problema não era meu, ela então que pensasse melhor e depois me voltasse a contactar, e muito boa tarde.
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Confesso: estou a ficar sem paciência.
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Há cerca de trinta anos que ando nestas correrias, hoje numa escola amanhã noutra, semanas que nem venho a casa, a agenda completamente preenchida até ao princípio de 2009, a escrita atrasada, a família que já quase nem conheço – tudo porque as professoras me telefonam continuamente a pedir que vá às suas escolas, falar com as crianças, motivar as crianças para a leitura, etc, etc... E eu tenho muito gosto nisso, e tento acudir a todas, mas se digo que não posso ficam ofendidas, e acham que estou a privilegiar Lisboa, “pois claro, como toda a gente, não quer saber do interior do país...”
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(Já agora, para que conste: Lisboa é a cidade onde menos escolas se lembram de me convidar...)
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O pior é que os professores, que reivindicam sempre melhores salários — e com toda a razão! -, que reivindicam o pagamento das horas extraordinárias – e com toda a razão! — nunca percebem que eu tenho todo o direito de fazer o mesmo.
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Ou seja, de exigir ser paga pelo meu trabalho.
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Se uma escola me pede que lá vá — e há escolas onde eu chego a fazer seis sessões diárias, e depois meto-me no comboio e no outro dia de manhã já estou noutro lugar a fazer o mesmo...— e depois acha que aquilo não é trabalho, e que nem as deslocações deve pagar, é porque alguma coisa está mal.
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Se os professores não entendem isto — alguma coisa está mesmo muito mal.
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As horas que eu passo a trabalhar com as crianças numa escola são horas em que os professores não estão a dar aulas, e horas em que eu não estou no meu trabalho da escrita.
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Se eu fosse dona de uma editora, ou mulher de um chefe que me assegurasse carro e motorista e mordomias afins — a questão nem se colocava.
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Como também decerto não a colocaria aqui se ela só a mim afligisse.
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O pior é que isto se estende aos meus outros camaradas de profissão, que se vêem doidos para que lhes paguem o que lhes é devido.
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Todo o trabalho tem de ser remunerado.
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Será que isto é assim tão difícil de entender?