terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A melhor profissão do mundo

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Por Nuno Crato
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MUITOS CIENTISTAS CONFESSAM, meio em segredo, que gostam tanto da sua profissão que pagariam para fazer aquilo para que estão a ser pagos. Claro que se trata de um exagero retórico. Poucos poderiam ter uma actividade científica a tempo inteiro se não fossem remunerados. Já passaram os tempos em que os aristocratas faziam alguma ciência como passatempo. A ciência é hoje uma profissão. E uma boa profissão.
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Nos Estados Unidos, pelo menos, as carreiras científicas estão muito bem cotadas. Segundo um estudo divulgado esta semana pela CareerCast.com, uma organização de empregos, as carreiras científicas são as melhores. Exactamente: as melhores.
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Todo o estudo contraria o desdém pelo estudo e qualificação humana que muitas vezes surge, irreflectidamente, em comentários públicos de pessoas responsáveis. É preciso dizer aos jovens que estudar é um investimento valioso no futuro. É preciso dizê-lo e repeti-lo. A qualificação técnica e humana traduz-se em várias vantagens profissionais. Não é só a remuneração. É a qualidade de emprego, a qualidade de vida e a riqueza cultural.
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O estudo agora divulgado conduz a um «ranking», com todas as simplificações que uma listagem ordenada desse tipo traz, mas também com toda a informação comparativa que dele se pode extrair. Incorpora 200 tipos de empregos e classifica-os com base em cinco critérios fundamentais: ambiente de trabalho, remuneração, perspectivas futuras, exigências físicas e desgaste emocional.
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Os critérios procuram ser objectivos. Ao classificar o ambiente de trabalho consideram-se aspectos como as necessidades de posturas incómodas, as possíveis condições tóxicas ou o confinamento em locais exíguos. Ao falar da remuneração considera-se o vencimento e as diversas regalias adicionais. Ao falar das perspectivas futuras consideram-se os riscos de desemprego, a evolução do salário e as hipóteses de promoção.
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Ao abordar o quarto critério, o da exigência física, entra-se num domínio muito caro aos físicos, que têm ajudado os estatísticos oficiais a elaborar medidas sofisticadas. As profissões são aqui ponderadas com várias medidas, incluindo os pesos que têm de ser levantados, o estilo de movimentos (ajoelhar-se, curvar-se, etc) e o trabalho efectuado (no sentido mecânico).
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Finalmente, o estudo entrou em conta com o desgaste emocional das diversas profissões. Considerou efeitos tais como a competitividade, os riscos e a pressão para resposta.
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Ponderando todos estes factores, a profissão pior colocada (lugar 200) foi a de lenhador, que tem riscos físicos enormes e uma remuneração média reduzida, de menos de 32 mil dólares por ano. No fundo da escala ficaram ainda condutores de taxi (198), pescadores (197), colectores do lixo (195) e bombeiros (182). No topo ficaram os meteorologistas (15), físicos (13), contabilistas (10), analistas de sistemas (6) e engenheiros (5) informáticos. Logo depois aparecem os biólogos (4). Acima destes vem a grande surpresa: os matemáticos!
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As três profissões mais bem colocadas foram as de estatístico (3), ou seja, especialista na matemática da inferência e do tratamento de dados, actuário (2), ou seja, especialista em cálculos matemáticos do risco de seguros e de investimentos, e, finalmente, e propriamente dito, matemático (1).
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 10 de Janeiro de 2009

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Qual o autor do melhor comentário ao 'post' «Paranóia ou receios justificados?»

«Paranóia ou (...)?» - Qual o melhor comentário?

Pedro Oliveira

Luís Palma

Alex HAL

Luís Bonito

Carlos Ponte

Free polls from Pollhost.com


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O prémio será um exemplar deste livro

A presente votação, correspondente ao passatempo que se vê [aqui], terminará às 20h de 14 Jan 09. Em caso de empate, prosseguirá por períodos de 24 horas.

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Actualização (14 Jan 09/ 20h05m): às 20h00m o resultado era 1-0-11-0-1, pelo que Alex HAL ganhou o passatempo.

Do BPP ao BPN

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Por J. L. Saldanha Sanches
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O BPP ESTÁ EM DIFICULDADES tal como está o BPN. Talvez o BPP venha exigir, tal como o BPN, financiamentos por parte dos contribuintes. Num e noutro caso, o Estado deverá ajudar os depositantes, mas não os accionistas.
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As semelhanças param aqui.
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Ainda é muito cedo para falar e ninguém deve saber ainda qual a extensão do desastre mas tudo indica que o BPP foi a vítima portuguesa da onda de loucura e irresponsabilidade que varreu a banca mundial.
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Trata-se da nova banca com os novos produtos financeiros muito mais rentáveis que os tradicionais, os produtos estruturados e outras ilusões contabilísticas com a importação do que de mais avançado se ia encontrando por esse mundo fora.
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O Dr. João Rendeiro introduzia gloriosamente em Portugal aquilo que a que o Dr. António Borges chamava a maior invenção do século, pondo-a ao alcance dos seus clientes portugueses.
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Uma ilusória sofisticação financeira que acabou como se sabe. Provavelmente depois dos erros as irregularidades do costume quando tudo começa a correr a mal e se procura manter os ganhos com recurso a produtos ainda mais arriscados, com desrespeito da vontade expressa pelos clientes e violação de contratos.
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Tudo isto é grave e facto de ter acontecido por toda a parte não pode servir de desculpa. Não tem é nenhuma relação com o que passou no BPN.
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O facto de a crise BPN ter acontecido no meio de outras crises não se deve ao facto de o BPN – a julgar pelo que se vai vendo por aí – pertencer a onda da nova banca e dos novos produtos financeiros e de ter à sua frente gente embriagada pelos novos produtos e pelos novos investimentos.
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O contraste com o BPN não poderia ser maior. Aí não temos gestores embriagados com a nova economia. Temos um bando de gente boçal que compra protecção política para cometer crimes sórdidos sem grande disfarce e sustentados apenas pela impunidade garantida.
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Não vemos por lá gestores com excesso de MBA a transplantar para Lisboa uma pequena Wall Street. O que vemos no BPN é uma importante galeria de figuras políticas que ornamentam os seus relatórios e contas (está tudo na net) e dão cobertura às mais inacreditáveis traficâncias.
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A crise do BPN coincide com a crise financeira porque quando esta começa já ninguém investe mais e nesse ambiente as fraudes não podem sobreviver. Quando a maré baixa, o lodo fica a descoberto. Coincide com a do BPP mas é inteiramente diferente desta.
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A actuação dos auditores demonstra isso: no caso do BPP, os auditores têm as culpas genéricas que têm os reguladores norte-americanos ou britânicos que aceitam a contabilização de derivados cujo valor real ninguém conhece ou as empresas de rating que garantem a solidez financeira de empresas à beira da falência. Inocentes, não estão. Contudo, em períodos de loucura generalizada, mais vale discutir métodos do que tentar responsabilizar pessoas.
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No caso do BPN, os auditores fogem em pânico depois de denunciar o que se passa. No BPP os auditores fazem o mesmo que faziam os dos muitos bancos que só são salvos in extremis quando a revolução financeira acaba com um enorme estoiro.
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Com as regras actuais de supervisão bancária, com o recurso sistemático a off-shores e as suas inevitáveis de obscuridade tudo isto era inevitável.
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Só novas regras de supervisão e um regulador menos próximo dos regulados (é urgente uma regulação europeia) podem evitar a repetição.
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Já o BPN só pode comparar-se com o extraordinário caso Madoff: avisos foram ignorados e a SEC neutralizada mediante algumas cumplicidades devidamente obtidas.
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Em Portugal, se uma qualquer estrutura empresarial tiver suficiente protecção política, pode actuar com absoluta impunidade e cometer duradouramente ilícitos na praça pública sem suscitar qualquer reacção. Tudo depende da protecção política de que disponha.
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Fomo-nos acostumando a tudo e as estruturas que nos deveriam proteger são demasiado fracas, o discurso hiper-garantista continua a ter curso. É isso que explica os muitos BPN deste país.
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«Expresso» de 10 de Janeiro de 2009 – www. www.saldanhasanches.pt/
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NOTA (CMR): a imagem-dupla que em cima se afixa (e que já em tempos aqui foi divulgada) foi proposta por mim ao autor da crónica para ilustrar um certo tipo de 'supervisão' bem nosso conhecido. Como ele esteve de acordo, aqui fica, então.

domingo, 11 de janeiro de 2009

O assento e o acento


Lagos - ontem
Estes ambientalistas-da-treta não encontraram melhor sítio para lutar contra o consumísmo (sic) do que este banco de jardim recentemente inaugurado.
Dada a natureza da pedra, a tinta (aplicada com spray ou de outra forma qualquer) entranhou-se o suficiente para não sair tão cedo... a bem do Planeta, evidentemente.

Lagos

BALADA DA NEVE

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Por Nuno Brederode Santos
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NUMA EUROPA ENREGELADA, ainda há dois dias Lisboa era, por uma luxuosa diferença de três graus, a mais quentinha das capitais europeias: onze graus contra oito de Roma, com Madrid e Atenas bem abaixo. Não diz nada mais do que isso: Port-au-Prince é bem mais quente do que Toronto. Mas, nos estritos limites daquilo em que o clima nos envolve, era talvez a boa nova possível. Mas não serviu e não chegou. O frio da noite confinou-nos à legítima defesa das nossas casas, que é onde, às primeiras castanholas da dentição que nos restar, sabemos onde jaz um cobertor suplementar e podemos aquecer à temperatura dos infernos uma sopinha da véspera. Pasmamos, assim, sofá abaixo, sem coragem para brandir livro ou jornal, para que as mãos não congelem. No meu caso, acresce até a singularidade de o frio intenso, tal como o seu putativo adversário que é o calor em excesso, me trazer a sonolência. Penso até que isso demonstra que o sono, em mim, mais do que pretexto, é mesmo ideologia. Mas, voltando ao fado: em frente da nossa tiritante imobilidade, só vive e mexe um televisor, onde, libérrima, infrene, se exercita o melhor da criatividade, privada e pública, de que, velha nação, somos capazes.
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Vai daí, surgem as tão esperadas notícias. Derramam-se estagiários pelo país inteiro, que perguntam aos transeuntes, nas afogueadas horas da corrida para os empregos, o que têm a dizer do frio. Que sim, que é muito, dizem os coitados em trânsito. “E como é que se preveniu?”, perguntam jovens jornalistas, vibrando na paixão do seu futuro múnus. “Trago uma camisola por baixo”, responde o português médio (aquele que até então julgávamos meramente estatístico), impante nos seus minutos de Warhol. “E em casa?”, insiste o jovem. “Em casa ligo o aquecimento”, diz a presa. “Mas é caro…”, sugere o tirocinante. “Pois é, mas tem de ser”, fataliza o cidadão. “E pronto, Fulano”, remata a glória prometida, dirigindo-se ao pivot, “daqui, de Poiares de Mim, onde a neve surpreendeu as pessoas, mas a vida tem de continuar, é tudo. Para o Canal Tal, Cicrano, com imagens de Beltrano”. Volta o pivot, para, enfim, sabermos do parlamento, ou da crise na Europa, ou da empresa em dificuldade, ou do martirológio de Gaza, ou da vaga de fundo de Soares Franco. Mas não: “vamos agora ligar a Fulana, que se encontra em Lugar de Mourejos”. E lá vêem cabras e granitos e xailes negros e cafés de aldeia, onde a bica se serve ao balcão de alumínio a clientes de luva e gorro de lã. A atenção já se esvai, arrasta-se viscosamente pelos objectos que nos circundam o sofá. A quase meia hora que lá vai, somada à certeza de que ainda faltam estradas bloqueadas, limpa-neves e gente simpática que visita idosos, parece-nos - e é – mais longa do que qualquer cerco de Lisboa. As pálpebras descem devagar, como, no último mastro, a bandeira do vencido. A cidadania escoa-se num negrume consentido (e, afinal, libertador).
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Acordamos, aos gritos do festejo de um golo tardio. E percebemos que o parlamento, a crise, as empresas e Gaza, se foram, já lá não estão – pois, no meu caso, para a vaga de fundo, já não sobra a paciência. Passaram-se quarenta e cinco minutos, mas o noticiário seguinte devotará novamente a primeira meia hora ao esplendor da neve e aos rancores das criaturas. Notícias? Lá para a semana. Porque até lá, mesmo que eu veja três noticiários seguidos, continuarei a adormecer com a neve e a acordar com o golo. Nada sei, pois, do que se passa. O que também tem a sua dimensão de serviço público.
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Saio à rua, desafiando este gélido nono círculo do inferno. Penso na crise e na melhor forma de a enfrentar. E tomo uma decisão: a minha estratégia para ela vai ser, com excepção de três eleições em que irei votar, a de me tornar num velhinho intratável. Egoísmo pertinaz, solidariedade zero. Um sociopata, mesmo que não consume violências maiores do que o legítimo resmungo. Encontro, por acaso, o José Duarte. Esse mesmo: “um, dois, três, quatro, cinco minutos de jazz”. “'tás bom?”, pergunta ele. “'tou. Já sei como defender-me da crise. Vou transformar-me num velhinho intratável”, respondo, muito brioso. Nem nos western spaghetti se sacava tão depressa quanto ele o fez: “Isso já és”.
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«DN» de 11 de Janeiro de 2009

sábado, 10 de janeiro de 2009

Lagos, Av. José Afonso

Imagens de arquivo... mas 100% actuais

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Alguns dos muitos parques gratuitos de Lagos


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Muitos condutores (como os 2 que se vêem nos extremos da foto) desprezam os lugares de estacionamento "normais" e preferem os passeios. A foto não mostra outros que optam sistematicamente pelo jardim.
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Repare-se nesta infinidade de lugares vagos (gratuitos, como todos os destas imagens) e veja-se onde o condutor do carro escuro o estaciona
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. . Estão a ser gastos uns milhõezitos para fazer um parque subterrâneo para 900 lugares. Ora, se as pessoas já não usam os gratuitos, irão pagar neste?

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Uma carrinha da Câmara dá o 'exemplo', mesmo ao lado de um parque de estacionamento
Ao fundo, um carro e uma moto bloqueiam completamente o passeio.
Em 1.º plano, a carrinha da foto anterior.

Um frio de rachar pedras

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Por Antunes Ferreira
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NA TORRE ESTÃO 9 negativos. Um vento cortante levanta remoinhos da neve que por ali se encontra, um tanto esparsa, só acumulada com algum volume aqui e ali. Na pista de esqui, de tapete branco sofrível, uma caterva de raparigas e rapazes atiram bolas e deslizam em tobogans de plástico azuis, vermelhos, amarelos e verdes. À mistura com trambolhões e piruetas, entre gargalhadas e gritos de alegria. Jovens.
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Venho (vimos, minha mulher e eu) de Seia, onde abancamos durante três dias. A Meteorologia bem se afadiga a avisar a malta sobre o frio e como combatê-lo e mais isto e aquilo. Um frio de rachar pedras, diz o Povo. Concordo. De repente, há quem se lembre dos sem abrigo e saltam reportagens da solidariedade televisionada. É preciso que o tempo pregue umas partidas para que haja umas tentativas, ténues, do que se diz ser o «amor pelo próximo». Há mesmo quem acrescente: e pelo mais afastado.
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Esta vaga de frialdade extrema (diz quem sabe de tais coisas que se trata de uma massa de ar polar) logo tinha de acontecer no início do annus horribilis. Que todas as pessoas importantes deste triste Mundo e, sobretudo, deste impagável País, têm anunciado com mais sanha e profusão do que agência a publicitar os créditos pessoais/ bancários pelo telefone. Apesar da crise que vai, parece, com vento de popa.
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A gripe, ao que consta, vai deixando de estar na moda, ainda que de forma sorna e miudinha. Aliás, numa terra como a nossa, em que impera a sornice e a “miudinhice”, não admira. Espantaria, sim, se a endemia (assim lhe chamam) abalasse em velocidade, ainda que moderada. No ritmo do alegro ma non tropo, que metronomicamente se usa por aqui. É o que temos e é, principalmente, o que somos.
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Neste contexto, uma circunstância se me afigura – ainda – estranha. Acrescento para melhor elucidação do ainda. Nos dias que vão correndo, já nada admira ninguém, quanto mais estranha. No caso vertente, porém, vejam que ainda consigo estranhar. É simples. Pelo menos até ao momento em que escrevo estas miseráveis linhas, não ouvi ninguém culpar o Sócrates e os seus acompanhantes da eclosão do surto gripal.
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Mais ainda. Tal se passa, igualmente, com o frio. Deixem-me que vos diga que não me parece bem. Há que apontar o dedo aos culpados e mentirosos e esta deveria ter sido uma altura a aproveitar. E, complementarmente, ideal. No meio das calinadas e desatinos – desde um Orçamento falso como Judas, até à desmedida obsessão de impedir o normal funcionamento do ano lectivo (?) – não se pode admitir este silêncio ensurdecedor.
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Ainda que dispondo de maioria para o respaldar, bom seria que o Chefe do Governo fosse ao Parlamenta (quiçá chamado), para especificar porque não confessara atempadamente que, quer a gripe, quer o frio, eram de sua exclusiva responsabilidade. Ou, no mínimo, porque razão não tinha previsto que os dois chegassem. Com algum aviso prévio, há que o dizer, mas, mesmo assim, competia ao Executivo impedir que tal acontecesse.
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Felizmente que as Oposições, ainda que por vezes, escassas, escorreguem, estão atentas aos deslizes governamentais e saltam quando devem em defesa dos cidadãos. E acusam. É para isso mesmo que as Oposições servem: para dar porrada no Governo. Sempre foi assim, sempre é, sempre continuará a ser. Sempre também em defesa dos referidos cidadãos, especialmente os mais desfavorecidos. E, nomeadamente, nestes dias gélidos.
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Quase me permito, assim, afirmar que ainda bem que veio o frio. Já que as Oposições não tiraram proveito dele, pelo menos para justificar essas manifestações diversas – não confundir, sff, com as dos professores - em prol dos que dormem na rua. E que, por via de regra, não tomam atenção aos conselhos televisivos para o combater: roupa leve mas quente, em diversas camadas para que não dificulte os movimentos, alimentos quentes, nada de álcool e aquecimento q.b. De preferência, central.

O Saber Ocupa Lugar

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Por Maria Filomena Mónica
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DEIXEMOS DE LADO as reformas organizativas anunciadas pela Ministra da Educação e a abertura tipo choque tecnológico do ano escolar e concentremo-nos no aspecto mais importante do ensino, isto é, na sua qualidade. Atente-se nestes três factos: o anúncio de que a disciplina de Filosofia deixará de ser necessária para aceder ao Ensino Superior, a estranha mistura entre Literatura e Ciências Sociais e a provável extinção, para acesso a certos cursos, do Latim e do Grego. Sou licenciada em Filosofia, para o que, no final do Secundário, tive de me submeter a exames nestas duas línguas mortas. Por razões que não vêm ao caso, não fui boa aluna, mas sinto a falta de conhecimento destas matérias.
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Há mais de cem anos, no romance «Hard Times», Charles Dickens fazia troça de Mr. Gradgrind, para quem no mundo só havia «factos, factos, factos». Apesar de baseada numa concepção mutiladora do homem, era, e é, uma ideia popular. Mas a escola não pode ficar reduzida à formação de autómatos capazes de meter um «chip» num telemóvel. Se desejo que os estudantes aprendam Filosofia, que saibam apreciar um romance e que alguns até dominem o Latim e o Grego é por pensar que aquilo que, a partir de agora, só estará acessível a uma elite o deveria estar a todos. É verdade que, ao longo dos anos, a vida material dos portugueses melhorou, mas terá acontecido o mesmo, e na mesma extensão, à sua vida intelectual ? A resposta é negativa.
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A responsabilidade reside nos vinte e seis Ministros da Educação que, desde 1974, ocuparam a pasta. Todos, de esquerda e de direita, confundiram elitismo intelectual e exclusivismo social, o que os levou a recusar que a igualdade de oportunidades pudesse ser obtida sem que o nível de exigência do ensino baixasse. Se as disciplinas humanísticas forem extirpadas dos curricula, os nossos filhos e netos terão uma vida mais esquálida do que a nossa, porque lhe teremos dado a ilusão de que eles «sabem», sem lhes termos oferecido os instrumentos necessários à compreensão do mundo. É para isto que serve a Filosofia.
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Junho de 2007

Férias da Pátria

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Por Maria Filomena Mónica
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NO PAÍS QUE ME COUBE EM SORTE, os velhos são tristes, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; os serviços públicos funcionam mal, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; as escolas estão degradadas, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; os transportes são maus, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; as ruas têm buracos, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; os canais de televisão são um estendal de imbecilidades, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; os políticos são medíocres, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; as praias estão poluídas, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; as casas estão arruinadas, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; nas bibliotecas públicas, os livros caem de podres, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; as câmaras são focos de corrupção, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria.
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Quem me leu até aqui deve ter-se apercebido que qualquer coisa não estava a funcionar bem na minha cabeça. De facto, assim era. Na noite consagrada à redacção deste artigo, um amigo oferecera-me uma garrafa, ostentando a marca «Nonino», contendo um líquido transparente que, na minha ingenuidade, pensei ser água. Afinal, era uma coisa a que, em Itália, chamam «grappa», uma bebida de elevado teor alcoólico. Uma vez que era aprazível, enquanto escrevia o que acima podem ler, fui bebericando aquilo. No dia seguinte, o Dia da Pátria, a ressaca desaparecera e, com ela, o ardor nacionalista, substituído agora pelo meu usual pessimismo. Mais uma vez, dei comigo a recitar os versos do Alexandre O´Neill: «Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui,/ na terra onde nasceste e eu nasci?». Chegara o momento, conclui, para tirar férias da Pátria.
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Junho de 2007

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Retail Park - Parque de Estacionamento cheio
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Retail Park - Decathlon
Filas, nas caixas, de 10 e 15 minutos
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Em compensação, noutros lados...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Alzarith tombada na rua

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Por Baptista-Bastos
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AQUI, A MORTE NÃO CONSENTE METÁFORAS. A miúda está estendida na rua, um fio de sangue saiu da nuca e secou no pó da rua, a rua traça um diâmetro com a eternidade. Chamava-se Alzarith, tinha seis anos, e corria - sabe-se lá para onde? Mas corria, penso, atribuindo à modesta ideia a substância improvisada das coisas.
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Os miúdos são feitos para correr e transportar no riso a felicidade dos adultos. Os miúdos não nascem para sujeitos destas fotografias, marcadas pela recôndita obscenidade da morte. Podemos, talvez, reconstituir, mentalmente, o silêncio de depois do tiro fatal. A rua está deserta. Volátil, o pó atribui à cena uma densidade inesperadamente bela, comovente e humilde. Alzarith, os cabelos longos de Alzarith parecem uma estrela no chão; os braços de Alzarith estão abertos, crucificados num espanto sem palavras, num assombro sem piedade; e uma das pernas ergue-se levemente. Jaz.
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A fotografia não é o mudo instante de uma tragédia. É o absoluto da infâmia. É a insuportável humilhação aplicada pela morte. Sem tecto, entre ruínas. Lembro Raul Brandão, pelo desamparo exposto no corpo caído numa rua de prédios cavernosos, fieiras de cavos olhos desorbitados. Nem vivalma - e a rua é longa e larga. Pressente-se o silêncio e a desolação. A quem pertence esta Alzarith, cujo nome o repórter fotográfico apôs na legenda, tirando-o do árabe antigo e cujo ambíguo significado poderá ser: a que ninguém conhece. Mal aplicado o nome: alguém deverá, certamente, conhecer a menina caída na rua. Serão vivos, ainda, os pais? Terá irmãos e irmãs? Quem a chora? Quem a procura? Quem por ela desespera?
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Houve um homem desavisado, e certamente em dia de cólera, que descarregou, em duas frases cruéis e cegas, o secreto desassossego que o perseguia: "Todos somos culpados. Ninguém é inocente." Alzarith é culpada de quê? De ter nascido num mundo concentracionário, de ser cativa de uma época da qual tudo ignoramos ou tudo desejamos ignorar?
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A fotografia evoca a perda de sentido e, também, a teatralização com que a morte se ornamenta, sem arrependimento nem pesar. O conceito de crime (penso agora, examinando, detidamente, a imagem e o que ela oculta) adquire, aqui, uma envergadura difícil de interpretar. A comparência do horror, ei-la, como urgência universal da memória e da auto-acusação. Multiplicam-se as declarações piedosas. As metáforas do arrependimento, da confissão e das desculpas passam a outra escala. E Alzarith está estendida na rua, tornando-se numa outra banalidade da aversão e do ódio. Na gíria, foi reduzida a um bom "boneco", tema de primeira página de jornal ou de capa de revista. Inventaram-lhe um nome. Porém, será sempre ela, a menina morta numa poeirenta rua de Gaza.
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«DN» de 7 de Janeiro de 2009. Este post é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

A Tralha

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Por Alice Vieira
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FILHOS SÃO BICHOS RAROS. Dizemos “são tal qual a minha cara”, ou “são iguais a mim em tudo”— e depois um dia descobrimos que, em (aparentemente) insignificantes pormenores, são verdadeiros estranhos.
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A minha filha, que é das pessoas com quem eu me dou melhor, que é uma cópia de mim em tantas coisas — noutras é diametralmente oposta.
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Uma das coisas que irremediavelmente nos separam é “a tralha”. Ou aquilo a que ela chama “tralha”.
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“Palavra que não sei como consegues viver no meio desta tralha toda”, diz ela muitas vezes quando vem cá a casa.
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Acontece que a minha filha ainda não viveu tempo suficiente para ter a casa dela cheia de tralha e, pior do que isso, para não poder viver sem ela.
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Aquilo a que ela desdenhosamente chama “tralha” são objectos que marcaram a minha vida. Que me foram dados por pessoas muito amadas e que já morreram. Ou que estão vivas mas desapareceram do meu lado. Ou que estão longe e assim parecem mais perto. Ou que aparecem pouco, mas são muito importantes para mim. Coisas que não servem para nada — a não ser para me ajudarem a suportar a vida.
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Não seria capaz de viver numa casa decorada por profissionais—que decerto não iriam encher as minhas mesas de pedras, folhas secas, búzios, postais, desenhos dos netos, frascos cheios de canetas, etc.
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Tudo o que eu tenho em casa—tirando os objectos necessários à nossa vida quotidiana — tem uma história, recorda alguém, lembra um lugar ou marca um tempo.
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Um dos homens da minha vida deu-me esta pedra achada na rua, que é tal qual a cara de uma pessoa a rir. “Quando eu cá não estiver”, disse, “já tens quem se ria como eu”.E como tinha a paixão das folhas, enchia-me a casa com elas. Às vezes abro um livro e lá cai uma folha seca. E eu sei exactamente de que árvore veio, em que dia, e por que razão a guardei.
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Esta coisa estranha de madeira, a tapar um espelho, deu-me a minha amiga Mara em Timor, explicando-me que os espelhos têm de estar sempre bem tapados para que não nos roubem a alma.
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Este postal, com flores a rebentarem pelo meio de pedras, mandou-me a minha amiga Dina, com uma frase que me ajuda sempre nos dias maus.
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Este coração de vidro deu-me a Ana Gabriela, que enfrentou comigo maleitas complicadas, de que nos safámos ambas porque somos difíceis de abater.
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E ao lado está um minúsculo sino de metal que me deu o António, num dia em que chorámos baba e ranho no ombro um do outro.
E que seria eu sem os retratos que me espreitam de todos os cantos? Como poderia andar pela casa se eles não olhassem para mim? Se eu não ouvisse as suas vozes, tão nítidas, rebentando das molduras?
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E agora digam-me lá como é que eu posso chamar “tralha” a isto.
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«JN» de 4 de Janeiro de 2009. Este post é uma extensão do que será publicado no Sorumbático [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

O paradoxo dos sapatinhos

Por Nuno Crato
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O PAI NATAL, toda a gente o sabe, gosta de agradar. Mas também não gosta de desperdiçar presentes. Colocou dinheiro nos meus sapatinhos. Mas fizemos um acordo, ele e eu. Ou melhor, ditou-me ele as regras do jogo.
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Apareceu em minha casa, depois de uma noite em que eu tinha jantado com amigos e tinha bebido bem. Falou-me assim: «Meu caro Nuno, este ano trabalhaste muito e quero-te recompensar. Mas como os matemáticos julgam que sabem tudo, vou-te oferecer uma lição de modéstia, com muito dinheiro à mistura.»
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Esfreguei os olhos, boquiaberto — devia ter bebido mais do que pensava. Voltei a olhar, mas o velhote de barbas brancas ainda lá estava.
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«Vais colocar os teus dois sapatinhos na chaminé» — continuou. «No esquerdo vou pôr mil euros e no da direita ainda não sei; ou ponho um milhão ou não ponho nada. Tu tens duas hipóteses: ou escolhes o sapatinho da direita e deitas fora o da esquerda ou escolhes os dois. Se escolheres apenas o da direita, terei lá colocado um milhão de euros. Se escolheres os dois, não terei posto nada no da direita e ficarás apenas com os mil euros.»
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Fiquei confuso: «Pai Natal! Acho que percebo as regras, mas há uma coisa que não entendo. Tu colocas o dinheiro nos sapatinhos antes de eu fazer a escolha. Como sabes quanto dinheiro vais colocar no sapato direito, se não sabes o que vou fazer?»
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«Pois aí é que te enganas. Eu tenho uma capacidade de previsão portentosa. Prevejo com certeza quase absoluta o que vais escolher. Já joguei esta partida com gente muito mais esperta do que tu e nunca me enganei. Fiz a mesma proposta ao Pedro Nunes, só que não era em euros, pois na altura a moeda era outra.»
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Pensei, pensei, e adormeci. O velhote das barbas brancas não voltou a aparecer. Chegou a véspera de Natal e pus os meus sapatinhos na chaminé. Deitei-me, contente, pensando que tinha descoberto a saída. Era fácil. Bastava-me escolher o segundo sapatinho — lá estaria o milhão de euros à minha espera. Que sorte que eu tinha! O velhote era mesmo fixe!
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Na manhã seguinte, os sapatinhos estavam remexidos. O Pai Natal tinha cumprido a sua promessa. Havia alguma dúvida que ia escolher o da direita e deitar fora o da esquerda!?
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Nesse momento, parei. Sempre fui um bocado forreta e custava-me deitar fora o sapato da esquerda, onde de certeza estariam mil euros. E se ficasse com os dois?
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Estava nesse dilema quando ouvi na minha cabeça a voz do Pai Natal — «já joguei esta partida com gente muito mais esperta do que tu»... Pois era, ele sabia prever. Se eu fosse escolher os dois sapatinhos ele tê-lo-ia previsto e não estaria o milhão no sapato direito. O melhor era não ser sovina e deitar fora o sapato esquerdo.
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Mas, com um raio! Os dois sapatos já lá estavam, com o dinheiro lá dentro. O da esquerda tinha sempre mil euros. E o da direita, ou tinha um milhão ou não tinha. O melhor era ficar com os dois.
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Bloqueei. Se a escolha mais lógica fosse ficar com os dois, o Pai Natal sabia que era isso que eu faria e não teria posto nada no sapato direito. Mas como podia a escolha mais lógica ser aquela em que eu ficaria apenas com mil euros, podendo ficar com um milhão?
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O dia de Natal passou, o Ano Novo entrou, e continuo sem saber o que fazer aos sapatinhos. Apanhou-me bem, o raio do velhote!

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O Pai Natal desta história chama-se William Newcomb. O paradoxo inventado por este físico foi difundido pelo filósofo norte-americano Robert Nozick em 1969 e gerou imediatamente uma discussão acesa. Lógicos, matemáticos, economistas e teólogos têm discutido possíveis soluções para o paradoxo, sem se vislumbrar um consenso.
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O problema tem sido aparentado ao célebre dilema do prisioneiro, à teoria do livre arbítrio face a um ser omnisciente, à irreversibilidade do tempo e a outras questões lógicas e filosóficas cruciais. São as ramificações e dificuldade de solução que fazem a vitalidade de um paradoxo. Não se espante pois, leitor, se ficou surpreso. Bom Ano Novo!
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 3 de Janeiro de 2009 (adapt.)
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domingo, 4 de janeiro de 2009

FRANCISCO FERREIRA GOMES

Por Nuno Brederode Santos
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O ANO DE 2008 JÁ ESTIOLAVA por entre pequenas e rancorosas patetices, quando o Francisco Ferreira Gomes se foi embora daqui. Daqui, do maior aqui que existe. Por azar, foi-se embora horas antes, mas no mesmo dia em que o fez o António Alçada Baptista. Azar nosso, bem entendido, porque a coincidência lhe apagou a partida, mesmo que ele se estivesse bem nas tintas para isso. Mas nós, os seus amigos, teríamos gostado, ao menos, de um breve registo do facto. Três segundos de televisão ou uma soturna local na imprensa. Nada. O Xico que, ainda jovem, incutiu em tanta miudagem universitária algum gosto literário; que fez Direito sem querer ser advogado e, sendo um esteta, arriscou viver como executivo de uma multinacional (em cujo ramo português chegou ao topo). O Xico, cuja "nonchalance" povoou o humor de tanta gente e alimentou pequenas, mas duradouras, tertúlias; e cujas eficácia e entrega levaram Jorge Sampaio a confiar-lhe a direcção da campanha eleitoral para o seu segundo mandato. Esse Xico, o nosso Xico, foi-se como se a pedir licença.
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Quando um amigo se vai, a gente olha-se no espelho. Porque o próprio real é também um espelho, que corrige a imagem que devolve. Conforma-a, se não quisermos dizer que a deforma. Quando o vigor e a pureza nele se miram, o guerreiro vê cansaços e a virgem devassidões. Porque sabemos que não há Dorian Grays que nos roubem tempo ao tempo que já tivemos, nem feições poupadas ao amargo logro em que vivia a madrasta da Gata Borralheira. Mas não podemos impedir-nos de o ter, eliminá- -lo da nossa vida: da casa de banho ao elevador, passando pelo retrovisor do automóvel, ele salta-nos ao caminho, em sucessivas tocaias. E dá-nos o que talvez não queiramos, mas que mais não é do que o produto do que fomos sendo: então uma amizade traída, um desgosto de amor, uma causa sacrificada a circunstâncias menores e até décadas de usos e abusos do que o corpo aguenta, poderiam não turvar os olhos, não talhar sulcos na pele, não levar os cantos da boca à rendição?
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Sobre isto (mesmo que por palavras que não estas) conversei longamente com o Xico, durante uma noite castigadora dos nervos dessa campanha eleitoral, numa cervejaria da Rua das Portas de Santo Antão. Uma conversa em que o Xico foi o melhor de si, harmonizando uma imensa tolerância com os pequenos sarcasmos que o salvavam da santidade. As suas observações de homme du monde sobre os gestos, atitudes e intenções que subjazem aos comportamentos individuais, numa máquina política em pleno movimento, podiam rechear, para ilustração, um tratado sobre as pequenices da natureza humana. À visão de quem trazia vida nos bolsos, o Xico acrescentava a lucidez de não querer nada de um mundo que não desprezava, mas que, nos momentos próprios, para o bem e para o mal, tinha escolhido recusar. E a tudo isto acrescentava uma humildade intelectual que - coisa rara - foi aprendendo com a vida: outros, melhor do que eu, o saberão, mas o Xico que retenho da juventude era bem mais assertivo, e menos sábio e relativista, do que aquele que agora se oferecia aos outros.
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Depois disso e da vitória, foi uma longa ausência mútua, que só viria a ser interrompida, por generosa iniciativa dele, para um ano e meio de almoços quase, mas só quase, regulares, numa estupenda sucessão que a doença viria, sem aviso, interromper. A partir daí, tudo se cingiu a (creio que) duas visitas, de enorme e recíproco constrangimento, em sua casa. Em que o amigo era, cada vez mais, o que ia restando do amigo; e em que ele, cada vez mais longe, dava mostras de que o sabia muito bem.
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Absolvam-me de não me render aos caprichos do calendário, mas, em qualquer síntese do meu 2008, a memória do Francisco Ferreira Gomes estará lá. Este espaço não é um obituário. Mas convenhamos que só a paixão do adjectivo do dia e a volúpia de dissecar as ilusórias entranhas das paramécias da política corrente é que podem explicar o absoluto silêncio que rodeou a morte dele. Porque ele não foi apenas um amigo de todos quantos o mereceram. Foi alguém que, ainda por cima e pelos padrões dessa vulgaridade que é o código de vencedores que se instalou, o foi também.
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«DN» de 4 de Janeiro de 2009
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sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Ao segundo…

Por Antunes Ferreira
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O QUE É UM SEGUNDO? Para quem vive anonimamente a sua vida, não é nada. Poder-se-ia dizer nada de significativo, mas a expressão mais trivial e comezinha é a primeira. Queremos nós lá saber de um segundo? Dado adquirido é que sessenta fazem um minuto. E depois? Sessenta minutos também compõem uma hora e não se batem palmas por isso. Se o Einstein afirmou que tudo é relativo e nós acreditámos, como diria o Senhor de La Palice, tudo o que é relativo é… relativo.
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«Para quem tem pressa para ver o fim de 2008, uma má notícia: na quarta-feira da passagem do ano, à meia-noite, os "donos do tempo" acrescentarão um segundo ao ano que acaba, com o objectivo de ajustar a hora dos relógios ao tempo solar.»
Este é o início do texto distribuído pela France Press no dia 30 do falecido Dezembro de 2008. E foi mesmo assim. A população mundial não se deve ter apercebido, cós diabos, não se apercebeu dessa soma um tanto à sorrelfa que, por decisão de um tal Serviço Internacional da Rotação da Terra e dos Sistemas de Referências (IERS), cujo escritório central fica no Observatório de Paris. Falou e disse.
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Pensando bem, o culpado real deste acerto ao segundo é o movimento de rotação da Terra em torno do seu eixo. Coisa interessante. A ciência tem destas coisas. Pode o comum mortal, quase sempre desatento a estas minudências, estar sossegado. Os cientistas, esses, tal como os caçadores, estão de olho alerta e dedo no gatilho. E não falham, ao contrário dos devotos de Santo Huberto, que tantas vezes erram a pontaria.
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Por isso o acerto do segundo em causa na entrada do corrente. Veio, pois, atrasado, o 2009 que nos caiu em sorte. Toda a gente pressagiara que os 365 dias ora em curso seriam muito difíceis. Até o PR o afirmou na sua mensagem de Ano Novo. Um tanto repetitiva, já que uma quantidade substancial de políticos & correlativos fizera anteriormente o mesmo alerta. De Sócrates a Teixeira dos Santos, pelo menos. Até à hora em que é produzido este textículo, com x, não fora possível ao autor saber qual teria sido a posição do Professor Bambo. Mas, por certo, não desafinaria do tom geral.
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Terá Nostradamus profetizado este segundo metediço e trapalhão? Terá Galileu feito parte da conjura? Será que a Pitonisa, em Delfos, também se terá conluiado com os restantes? Basta de perguntas e de elucubrações. Não se quer aqui desenhar uma associação de malfeitores cujo objectivo foi impedir a chegada atempada do imprevisível 2009. Mas lá que chegou – chegou.
Foi só um segundo. Embora. Coloque-se ao Bolt, ao Phelps, ao Obikwelu, só para citar alguns dos mais interessados, o que significa para eles essa unidade de tempo diminuta e responderão em termos de décimos e de centésimos, no mínimo. Mas, não vamos mais longe: e as partidas e chegadas dos comboios da CP? Terá Paris consultado a REFER? Tudo indica que não. Uma vez mais o anátema de País periférico? Quem sabe?
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Quando o escriba namorava a actual cara-metade, um segundo de atraso ou, até, de adiantamento, não era tido em conta pela destinatária das atenções. Já um conjunto substancial de segundos acumulados era motivo de recriminação e, quiçá, do clássico já não gostas de mim como dantes. Ah grande Albert. Só tu compreendeste estes transes de Cupido atrasado por esquecimento das flechas.Pronto, não se fala mais nisso. Isso, no segundo em causa, minudência não despicienda, mas sem motivo para grandes reparos. Porra! Foi só um segundinho. Já se vêm os informáticos a clamar perante esta insensibilidade cibernética – e as bases de dados? E o espacial (um satélite pode percorrer vários quilómetros num segundo), e as redes de computador, e o GPS e a internet? Foi, por isso, indispensável que o Mundo todo acertasse os seus relógios no mesmo momento. De acordo com a gente do Observatório de Paris, o último reajustamento havia sido feito em 2005, e o próximo deve acontecer em 2012 ou 2013. Ver-se-á no que isto vai dar. Ainda que num País atrasado como é o nosso, um segundo de atraso é para rir a bandeiras despregadas. Que me desculpem os cientistas – mas somos assim.
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quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

E, NO ENTANTO, É PRECISO SONHAR

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Por Baptista-Bastos
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OLHO LÁ PARA BAIXO e há muitas coisas, vozes, rostos e infâmias oblíquas que já foram. O tempo não mata as dores: adormece-as. Nada é para sempre. Chega-se ao fim do ano e os homens antigos e experimentados sabem que as lembranças adquirem uma simplicidade contrária ao ressentimento. Todavia, foi um áspero, infausto e rude ano, este, que vai embora.
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Houve uma época em que, com alvoroço e arfante ansiedade, escrevi: "A esperança tem sempre razão." O sonho andava à solta e eu ainda não aprendera a natureza dos perigos contidos no sonho. Mas havia sempre alguém sorrindo para mim e um horizonte luminoso à nossa espera. Reconheço, com tristeza, que a frase era um pouco imprudente, embora, talvez, nos lavasse moderadamente a alma.
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Chegamos a hoje e, num bulício de fé, repetimos os pedidos do ano passado, embalamos os desejos do último dia do último Dezembro, esquecidos de que a doçura e a clemência deixaram, há muito, de nos visitar. E, no entanto, é preciso não esquecer: este mundo seco, desabrido e falho de ternura, é o nosso chão, limitado pela geometria que traçámos, erguido pela greda com a qual o moldámos.
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O português acalenta um tédio minucioso, acaso desatento e pueril, e evoca, no remate de cada ano, um mundo que lhe foi hostil, na vaga crença de que o novo será melhor. Nunca foi. Entre a mediocridade e a nostalgia de uma falaciosa idade de ouro vivemos nessa ilusão patética gravada numa frase sem sentido: saudades do futuro. E, no entanto, é preciso ter ilusões; sonhar, porque não sonhar?, que, entre as esperas e as ausências, temos de construir a instância do desejo.
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O homem antigo e rodado que vos fala aprendeu que não existe limite de idade para o sonho, e que a volúpia de se estar preso a este mundo corresponde à nossa sede de eternidade. Se há lugar para a tristeza humana, também o há para a aspiração de felicidade que nos acalenta. Em qualquer idade procuramos um qualquer absoluto, uma ilusão fixada no eixo da nossa própria natureza, que tanto suporta a juventude como a velhice.
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No final do ano que aí vem, 2009, as aspirações deste ano, que fecha, serão aspirações velhas, sendo, embora, as mesmas, com ligeiras variantes. Queremos hoje o que quisemos há 12 meses. Um pensamento horrivelmente banal, um pequeno sopro de nostalgia, um meneio cheio de silêncio - e, afinal, um módico favor da vida. O que vai desaparecer é outra forma de morte de nós próprios.
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Olhamos lá para baixo e tudo parece perdido nas sombras e nos sossegos incautos de quem somente ambiciona esquecer, esquecer, esquecer, e dormir na paz sonhada de que o ano seguinte será melhor.
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Porém, ninguém sai inteiro de cada ano que fecha.

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«DN» de 31 de Dezembro de 2008. Este post é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

domingo, 28 de dezembro de 2008

Crónica de D. Manuel I - Damião de Góis





O scanner, como se pode ver, não está a funcionar bem. Por isso, terá de ficar para outra altura a publicação de duas páginas adicionais - Cap. LVI «Negócios que Tristão da Cunha tratou com o papa»

A MANSARDA E O JARDIM

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Por Nuno Brederode Santos
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AJOUJADOS À SERVIDÃO dos fumadores, os "meus" gerontes reúnem-se, pela manhã, na esplanada do café, porque "lá dentro" não se pode fumar. Albardam-se como os índios da reserva, mas sem direito a fogueira comunal. Falo por mim: camisola interior numa fibra mais severa que amianto, camisola lambswhool, casaco, "cachecol" e gabardina. O vento frio corta a direito, em grandes lençóis horizontais que ignoram as lentes dos óculos e libertam lágrimas indesejadas. A mão só sai da luva para brandir a chávena e, mesmo assim, o corpo treme todo, como se levado ao paredão de um pecado ou crime de que não guardo consciência nem memória. Busco refúgio na ideia de que, na véspera do Natal, haverá por certo um stock de temperança e amor pelo desvalido que me irá proteger das culpas que desconheço. E olho para os três jornais que comprei, perguntando-me quantos anos mais resistirei a trazê-los debaixo da camisola. Os vizinhos deram sumiço, acolhidos aos fogos de família do país interior, de onde só voltarão no domingo, carregados de chouriças e azeite "lá de casa". Só mesmo alguns jovens passam, eles e elas na arrogância das camisolinhas de manga curta, a lembrar-nos o que já tivemos e como nos resta merecer os aconchegos da segurança social.
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O empregado é muito jovem, talvez trabalhador-estudante. É educado, afável e solícito. Ao toque para a segunda bica, faz conversa e diz para uma conviva, meio morta de frio: "Fulano conhece-a muito bem. Manda-lhe cumprimentos." Ela parece não se surpreender e pergunta: "Conhece Fulano? É-lhe alguma coisa?" Ao que o rapaz, sempre sóbrio e respeitoso, responde: "Sim, sim. Ele é namorado da minha avó."
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Qualquer coisa de animal e antiquíssimo rugiu em mim. E refugiei-me na tosse tabágica para dissimular o espanto e a gargalhada. Não sei bem o quê nem o porquê. O meu mundo dos avós esvaiu-se há muito, obediente aos ditames naturais. Mas, numa vertigem de imagens em corrupio, no involuntário carrossel que nos sintetiza as memórias, eu coloquei ali, naquela cena, a última avó que se me foi e imaginei-lhe um estupor tão grande que nem lhe deixava espaço à indignação.
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Namorado da avó? Então ela, viúva de tão longe e tantas noites, contida a tricotar desde o lusco-fusco, em frente do televisor, e cujo maior assomo de convivialidade com homens se cingia a retribuir o "boa noite" profissional de Pedro Moutinho e a "despedir-se com amizade" do engenheiro Sousa Veloso, poderia alguma vez admitir - ou até, presumo eu, conceber - a existência do estatuto, social mas a ameaçar o jurídico, de "namorado da avó"? Então a botija de água quente que, na viuvez deitada, lhe aquecia os pés, poderiam outras avós, as desse futuro que é o nosso presente, trocá-la pelo calor original de um corpo de homem? E a abnegação, o sacrifício, a severa mortalha interior que toma o corpo por dentro, precisamente porque nos embrulha a alma? A vontade de Deus agora é questionável? Corrigimos-lhe o traço firme conforme nos apraz, sem que as iras do Velho Testamento nos arrasem? Suponho que a minha avó condenaria os desmandos de outros credos, que sepultam a viúva em vida ou lapidam a de memória ingrata na praça pública. Mas nem por isso teria podido inocentar, nem simplesmente ignorar, um tal desaforo na cristandade.
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Mal o jovem virou costas, os meus parceiros - que não tinham precisado de se esconder cobardemente por detrás de um ataque de tosse provocado e tinham sabido guardar uma cordial sisudez para a circunstância - disseram adeus à compostura e fizeram-se a um carnaval de gargalhadas. Todos tinham, afinal, pensado o mesmo que eu. Naturalmente, todos tinham avós para recordar e encontravam nessa busca um igual tesouro arqueológico.
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Pois é, avó. Parece que o inferno se adapta aos tempos, na exacta medida e ao ritmo com que nós os vamos fazendo. A ameaça também precisa de ser funcional. Não tem sentido ameaçar com o que o ameaçado já nem percebe, porque já cai fora do alcance do seu código de valores. E sabe que mais? Por esquivo que lhe seja este mundo de namorados das avós, o certo é que essa coisa laboriosa que é a felicidade já deixou o bafio de vésperas que era a mansarda do seu tempo e respira o ar sem dono de um pequeno jardim. No meu caso, com buganvílias. Mas também com a mesma ternura por si.
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«DN» de 28 de Dezembro de 2008
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sábado, 27 de dezembro de 2008

Curtas-letragens - Prenda de Natal

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Por Miguel Viqueira
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ALGUÉM ME AVISOU que amanhã era véspera de Natal. Dei comigo a pensar na minha mãe velhinha, nas minhas irmãs, nos miúdos, a sós na humidade da província. Quando pude partir era já noite cerrada, chovia a cântaros, um desses temporais desfeitos que se abatem como a vingar-se de um pecado infame. O trânsito estava impossível, filas intermináveis à saída da cidade, luzes estilhaçadas no vidro em mil gotículas que me toldavam a visão, e subitamente um vulto, negro, espaventoso, que não atropelei por milagre. Estaquei o carro, descortinei um homem de braços abertos à minha frente mandando-me parar, com ar desesperado, e instintivamente abri a porta do passageiro. Antes de que pudesse dizer nada o homem entrava, esbaforido, de aspecto alucinado, ofegante, como a olhar para uma coisa que só ele pudesse ver. Estava tão encharcado que me salpicou quando se deixou cair no assento, o cabelo aciganado a escorrer-lhe pela testa e os olhos, a bichanar algo que me pareceu “que dia, que dia!”. Arrependi-me no mesmo instante mas já não havia nada a fazer, as buzinas protestavam atrás de mim, o trânsito arrancava, seguíamos agora na grande tarasca dos farolins vermelhos. Tinha um aspecto grande e sinistro assim ensopado, um rosto contraído, abrutalhado, que me inspirou receio. Como não dizia nada, não se explicava nem se mexia, só abocanhava o desespero com que o vi e entrou, senti-me na obrigação de dizer eu alguma coisa, de meter conversa a ver se me acalmava acalmando-o. Tentei distraí-lo, falar-lhe do natal. “Natal o caralho!”, replicou mastigando as palavras. Passei para o futebol. “Futebol o caralho!”. Experimentei a chuva, “Chuva o caralho!”; já só me faltavam as mulheres, mas a tanto não chegava a minha ousadia: não disse mais nada, agarrei-me ao volante e que fosse o que Deus quisesse. De esguelha pude ver, pela abertura do casaco enfunado, a coronha gasta de uma pistola ao cinto. Senti que as pernas me falhavam mesmo estando sentado. O homem ciciava de vez em quando, julguei perceber “eu mato, eu mato” e não tive coragem nem de respirar um bocadinho mais fundo. E como tudo estava a correr tão bem, de repente umas guinadas e uns esticões no volante acabaram de arranjar a coisa: um furo, um furo com aquela chuva e com aquele tipo no carro! Fiz-me à berma sem noção do que iria acontecer a seguir, já nem me lembrava de onde estaria o pneu sobressalente, quando o homem disse, grave, “eu trato d’isto”, e antes de que eu pudesse compreender o que ouvira já ele estava no exterior à chuva e ao vento, a bater na mala para que eu a abrisse, o que fiz, quando o que me apetecia fazer era mesmo arrancar a toda a mecha. Ouvi-o a mexer nas minhas coisas, movê-las do lugar, levantar a borracha e extrair o pneu, o macaco. Depois o carro a elevar-se até ficar inclinado e o chirriar da chave nas porcas, o barulho da troca e o carro de novo nivelado no solo, enfim o ruído de arrumação apressada e o estrondo de fechar a mala; depois um curto silêncio, como se nada se tivesse passado, só a chuva furiosa a fustigar os vidros. Do meu lado vi então a sombra imponente dele a debruçar-se sobre a janela. Abri-a dois dedos e ouvi-o dizer-me “Siga! Eu fico por aqui”. A razão, a simples humanidade, quiseram perguntar-lhe se era doido, mas o instinto arrastou-me-me dali para fora sem um pio. Pelo caminho ainda cheguei a pensar se afinal o homem não teria aproveitado para me roubar... Tarde na noite, a sós à lareira de minha mãe, pensei em todas estas coisas, que se sucediam em carrossel na memória, sem sair da minha perplexidade. Vencido, fui deitar-me. Acendi a luz do quarto gelado, sobre a cama a mala ainda por desfazer. Abri-a sem muita vontade, só para tirar o pijama, e os meus olhos ficaram cravados na pistola negra de coronha gasta, deposta sobre as camisas.
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Uma história de Natal para os meus amigos

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Por Luís Bonito

Caros amigos,

Ainda não vos tinha contado uma história de Natal. Vou fazê-lo agora.

Alguns amigos já sabem que o o meu portátil avariou e foi coisa grave, sem deixar opções, mesmo a um praticante com experiência destas coisas nos pcs.

Foi blackout completo. Portátil sem acesso à bios, sem ecrã! Nada. Nichts!

Felizmente que a garantia tem 2 anos e portanto ainda estava coberto pela dita.

Depois de contactado o vendedor (uma firma tipo Worten, cá do sítio) informaram-me que podiam enviá-lo para reparação, mas que eu também podia online reportar o problema e tratar directamente com o fabricante. Talvez assim fosse mais rápido.

Logo, lá no vendedor fiz o registo da avaria online. No mesmo dia recebi um email com os documentos necessários: etiquetas para o correio expresso DHL e formulário para a reparação.

No dia seguinte, a DHL veio buscar o portátil a casa. Isto foi na 6a-feira, dia 19 de Dezembro.

Pensei que com Natal e Ano Novo isto seria coisa para durar 2 a 3 semanas.

Sou português e alentejano, n' é?

Esta noite esteve frio, com temperaturas negativas. Tenho um termómetro exterior que envia o sinal cá para dentro por rádio.

O bichinho fartou-se de tocar alarmes. Apesar de fechado numa gaveta, eu ouvia os bips lá em cima...

E hoje de manhã quando desci e abri as janelas, fui como de costume à porta de entrada que dá para ver o espectáculo do gelo lá fora, porque é toda envidraçada. Qual não foi o meu espanto quando olhei para baixo e vi a caixa do meu portátil!

Lá fora, no frio gélido e húmido, em cima do tapete da entrada, o meu portátil!

Afinal o pai Natal existe!

Acreditei quando era criança, e voltei a acreditar outra vez.

Existe e é educado, porque não incomodou quem dormia.
Existe e acredita que aqui por estas paragens não há ladrões, e por isso colocou a máquina lá fora à porta.

Existe e lá de cima observa tudo e dá aos meninos bonzinhos o que eles gostam.

Existe e não é português, porque levou só uma semana com feriados a devolver o aparelho. (Na Alemanha além do dia 25 de Dezembro o dia 26 também é feriado, chamado o 2.º dia de Natal).

E mandou os técnicos da reparação fazer o trabalho, logo assim que chegou. Presumo que o aparelho entrou para reparação na 2a-feira e saiu no mesmo dia, ou no dia seguinte. Afinal foi coisa fácil: substituiram a motherboard completa, portanto o miolo é todo novo, lol.

Hoje é sábado. Ou seja, em 3 dias e meio (refiro-me ao dia 24) úteis o Pai Natal resolveu o problema.

É preciso objectividade, não deixar para amanhã as coisas que podem ser feitas hoje.

O Pai Natal é um bom técnico, porque a máquina até vinha ligada em modo de suspensão. Foi só tocar no teclado e activou-se. Presumo que o Pai Natal não queria entragar o aparelho sem confirmar que estava tudo ok.

Afinal o pai Natal existe... mas não é português, e não tem asas, tem é ASUS!
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NOTAS: Luís Bonito, como se percebe pelo texto, é um amigo residente na Alemanha...
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sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

2009? O pintão

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Por Antunes Ferreira
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O SAFADO JÁ TEM OS PÉS para a cova. Ali, ao virar da esquina, acaba-se. Mas, tal como sempre acontece, chegará outro, a fingir de novo. Raio de coisa. O Povo diz que depois de mim virá quem bom de mim fará. Logo, as perspectivas não são lisonjeiras, muito pelo contrário. Cuidado, pois, gentes. Se até o Sócrates se deu ao cuidado de alertar os Tugas para o que aí vem – mau será. Mau? Péssimo.
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Costuma ser por esta época que se faz a avaliação do velhote que esperneia. Costume que, desta feita, é difícil, senão mesmo quase impossível. É o fazes!?!?!? Mesmo sem condições, o Senhor Mário Nogueira não deixa. Porque isto de avaliações já deu o que tinha a dar, FENPROF dixit. Donde, nos estertores deste malfadado e decrépito 2008, não as há para ninguém. Quem sabe se no que se aproxima…
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Prognósticos para o vindouro, tal como eternizou o portista João Pinto, só no fim do jogo. Que, no caso vertente, é um viciado; esclareço: o jogo e o ano. Com o argumento da crise, o melhor é, desde já começar a contagem decrescente para cumprir rigorosa e escrupulosamente o alerta e a ordem – aos abrigos!
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Dizia a minha Avó materna, Maria da Ascensão Antunes, mulher de saberes (e de sabores, porque era uma excelentíssima cozinheira) que entre mortos e feridos, alguém há-de escapar. Santa e avisada Senhora. Anos pensei que a expressão era de sua autoria e, quando me apercebi de que não tinha copyright mas se tratava de citação, bem desanimado fiquei. Desanimado e até um tanto ao quanto desiludido. Não se podia acreditar em ninguém, naqueles tempos recuados? Ó diabo; nos dias que vão correndo, muito menos.
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Assim me encontro agora, na expectativa do muito espinhoso 2009 que está por aí a rebentar. Nunca dei, nunca dou e nunca darei conselhos a quem quer que seja. Nem aos meus três filhos, nem aos meus cinco netos, a ninguém. Advertências? Só em casos extremíssimos. Donde, raríssimas. Conto pelos dedos de uma mão e sobram-me, estou quase certo. Mas, o momento é o menos azado para hipóteses. Muito menos para interrogações, ainda pior para advertir o mais pintado. Ou o menos.
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Ocorre-me uma adivinha que vigorava quando era gaiato. Quem é o pior do Mundo? Sabia eu lá quem era o verdadeiro mau da fita, assim me parecia e assim imaginava. É o pintão. O pintão? Quem é esse tipo? E a resposta vinha acompanhada de risada, acentuando o som da palavra.
ning pior do que o pintam…
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Se não pode deixar de ser – e tudo indica que não pode – venha o miserável, que o esperam os miserandos. Porque no horizonte todos dizem que se descortina apenas – a miséria. E nesse particular, nem se pode invocar quem quer que seja. A dona Branca está de cana. E o mister Madoff para lá caminha. A crise, quando nasce, é para todos.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

MEMÓRIA DE UM NATAL

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Por Baptista-Bastos
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FAZ AGORA ANOS. Eu era um tira-picos na Redacção de O Século. A "universidade", a "catedral", diziam uns e outros. Entre receoso e feliz olhava aqueles homens graves, que escreviam o jornal com a vaidade de quem está a retratar o mundo em corpo 8 redondo. Grandes, extraordinários jornalistas, obscuros e anónimos, que sabiam, oh, se sabiam!, que as páginas impressas eram produto dessa paixão viva como o sangue.
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Eu era esgalgado, afirmativo, e queria caber naquela tribo. Por vezes, para "colorir" a notícia, atrevia-me à tolice do adjectivo. Chamavam-me logo: "O menino está a trabalhar num jornal que custa cinco tostões. Não queremos cá Malhoas!" O chefe da Redacção, Acúrsio Pereira, uma lenda da Imprensa. Pequeno, gritador emérito, comentava-se que dormia embrulhado em folhas impressas. Dividia a humanidade em jornalistas e não-jornalistas, sendo O Século a representação do seu império. O Século pertencia à família Pereira da Rosa, mas o jornal era do Acúrsio.
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Faz agora anos: uma noite de frio e de morte. Naufrágio na Nazaré. Fora para lá uma equipa de quatro repórteres, dirigida por Francisco Mata, outro dos grandes, mas o Mata ficara impressionadíssimo com o que observara na praia, e não conseguia organizar a reportagem. Eis o Acúrsio a gritar-me: "Vai imediatamente para a Nazaré!" O pavor tomou-me nos braços. O tira-picos fora mandado sair do túnel e entrar em campo. Percebendo a minha comoção, o Acúrsio ensinou-me: "Abres a reportagem com a primeira cena que te emocionar. E eu estou aos telefones!"
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O barco estava a meia dúzia de metros da praia. A praia era um mar de gente, de imprecações, de preces e de choros. Centenas de mulheres, embiocadas de negro, pareciam os coros das tragédias gregas. O barco não conseguia vencer a força do mar, e elas avançavam por ali adentro, puxando as sirgas, e dialogando com os pescadores. "Eh, Toino: aguenta-te homem do meu coração!" "Tás aí, Amélia?" O barco ia para trás e para a frente, o cansaço acumulava-se, o tempo ia varando o tempo, e elas, de negro, revezavam-se no puxar das sirgas. Até que conseguiram. Correram para o mar, agarraram-se às amuradas. Então, um deles avisou: "Eh, mulheres: cheguem-se para lá, que nós estamos como viemos ao mundo!" O poder das ondas arrancara-lhes a roupa dos corpos. Havia qualquer coisa de extraordinário naquele pudor, porventura absurdo, mas de uma grandiosidade tão humilde como sagrada.
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O episódio foi, depois, aproveitado em livro, por um escritor da época. Com os olhos cheios de lágrimas, telefonei para o jornal. Começava o texto com a frase do pescador. O Acúrsio gritava: "Mais! Diz mais coisas!" Relatava o que via. Eles crucificavam-se em lágrimas, eu não podia ter o coração oco. Faz agora anos. Por um Natal.
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«DN» de 24 de Dezembro de 2008.

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terça-feira, 23 de dezembro de 2008

ENSINE-ME, POR FAVOR!

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Por Nuno Crato
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NAS ÚLTIMAS SEMANAS, tive de ir algumas vezes a uma rua esconsa do Bairro Alto. Na primeira vez que atravessei a pé o emaranhado de ruas, fiz vários erros. Fui tacteando, e só após algumas voltas dei com o lugar. Da segunda, mal confiado na minha experiência e na minha intuição de lisboeta, voltei a errar e só dei com o sítio após várias tentativas inúteis. À terceira, explicaram-me o caminho das pedras: à esquerda aqui e à direita ali. Não voltei a enganar-me.
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As minhas primeiras voltas constituíram uma aprendizagem pela descoberta. Não foram muito eficazes. No final, por instrução directa, memorizei um caminho óptimo e não voltei a falhar. Talvez, se tivesse continuado a procurar às apalpadelas, tivesse conseguido encontrar esse caminho óptimo. Mas o processo teria sido muito ineficiente.
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Lembrei-me das minhas deambulações pelo Bairro Alto ao ler um artigo científico acabado de sair na revista «Cognitive Development» (23, pp. 488–511). Os investigadores que assinam o trabalho, Mari Strand-Cary e David Klahr, do Departamento de Psicologia da Universidade Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, comparam a eficácia de dois processos de aprendizagem que estão no cerne de uma velha polémica pedagógica: a aprendizagem pela descoberta e a instrução directa.
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O filósofo suíço Jean Piaget, um dos defensores da aprendizagem pela descoberta dizia, por exemplo, que, «cada vez que se ensina prematuramente a uma criança algo que ela poderia ter descoberto por si, ela fica impedida de a inventar e, por isso, de a compreender completamente». Várias teorias pedagógicas levaram ao extremo esta ideia, condenando a instrução directa como nociva para a verdadeira aprendizagem e para a criatividade infantil. Mais modernamente, muitos estudos vieram a moderar este ponto de vista, preconizando uma mistura da redescoberta activa, guiada pelo professor, com a instrução directa.
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Os investigadores de Carnegie Mellon atacaram o problema de frente. Estudaram os efeitos dos dois métodos pedagógicos em algumas dezenas de estudantes dos primeiros anos de escolaridade. O objectivo foi ensinar um processo de controlo de variáveis em experimentação científica elementar, portanto algo central ao desenvolvimento do espírito crítico. Em causa estava a capacidade de distinguir duas variáveis (tipo de superfície e inclinação) no estudo da aceleração de esferas num plano inclinado.
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As conclusões do estudo, que vêm confirmar estudos semelhantes feitos nos últimos anos, são reveladoras. A percentagem de sucesso das crianças sujeitas a instrução directa é muito maior que a das crianças entregues a um processo de aprendizagem pela descoberta. Essa percentagem, que depende das medida utilizadas, chega a ser três vezes superior no primeiro grupo.
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Os investigadores procuraram ainda saber como as crianças tinham assimilado a técnica de separação de variáveis e reavaliaram-nas várias vezes mais tarde (uma semana, três meses e três anos). A conclusão é de novo curiosa: não importa o método de ensino, as crianças que apreenderam o método por instrução directa são tão capazes de o aplicar em situações novas como as que o descobriram por si. O ensino directo não parece ser inimigo da criatividade nem do pensamento independente.
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Da próxima vez que procurar uma rua no Bairro Alto, vou pedir que me ensinem o caminho.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 20 de Dezembro de 2008.
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Estas coisas que se dizem

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Por Alice Vieira

- Estas coisas que se dizem…
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Ela repete muitas vezes a frase, e as pessoas no café olham para ela, porque ela não pára de dizer a mesma coisa, como se precisasse de ser desculpada, porque o Natal está à porta e ninguém, no seu perfeito juízo, poderia ter dito o que ela disse.
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Nos outros dias também não, claro, mas então no Natal, que todos dizem ser tempo de entendimento e de paz, tempo das crianças.
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-Desculpa…- murmura baixinho – Não era isso que eu queria dizer… Compro-te um chocolate, queres?
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A criança abana a cabeça, não quer chocolate, não quer nada, ou quer o que, pelos vistos, parece ser impossível, que o pai vá com ela à festa da escola . Abana a cabeça e não consegue dizer mais nada porque os seus ouvidos ainda estão cheios da frase de há bocado, tão curta mas que não vai sair tão depressa da sua cabeça, nem entende como a mãe foi capaz de a dizer.
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As pessoas no café ouvem-na, mesmo sem querer ouvem-na, e ficam a saber que a criança vai tocar piano na festa da escola mas que não tem ninguém para lhe ir bater palmas.
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A mulher marca muitos números no telemóvel mas nunca ninguém atende, e já se está a fazer tarde para ela, que tem hora certa de estar no trabalho, ao próximo atraso o patrão manda-a para a rua, já a ameaçou.
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- Quero o pai – diz a criança, mas o pai não atende o telemóvel, o mais provável é estar fora de Lisboa.
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- Vai o Fernando contigo — diz a mãe.
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- O Fernando não é meu pai — murmura a criança.
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E é então que a frase se lhe escapa da boca, mal acabara de a
dizer e já se arrependera, mas ninguém pode não dizer o que já
disse, e ela, sem pensar, a responder:
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- E para o caso que diferença faz?
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A criança fica a olhar para ela em silêncio, olhos redondos de um enorme espanto.
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E as pessoas do café também a olhar, é natal, e no natal essas coisas são imperdoáveis.
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E, de repente, ela sente os olhos de todos em cima de si, e murmura:
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- Estas coisas que se dizem…
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E abana a cabeça, mas já não resolve nada, está dito, está dito, e a criança começa a chorar muito silenciosamente e não há nada mais gritante do que uma criança que chora sem fazer barulho.
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E de repente ela pega nos sacos de plástico que largara no chão, e arrasta a criança, nem olha para ninguém e diz:
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- Anda lá, vá…
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E empurra a porta do café, e lá fora há cânticos de natal e luzes nas montras e algodão a fingir de neve, e ela tem vontade que tudo acabe depressa, que as pessoas voltem a ser como nos restantes dias do ano, e que não haja festas nas escolas nas horas em que todos estão a trabalhar - e desaparecem as duas numa esquina ao fundo da rua.
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- Estas coisas que se dizem – repete uma mulher, abanando a cabeça e mexendo o café muito devagarinho – estas coisas terríveis que se dizem.
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«JN» de 21 de Dezembro de 2008