sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Mozart - Passatempo-relâmpago
Pede-se, pois, à vencedora que escreva para sorumbatico@iol.pt indicando morada para envio do prémio, que será um livro infanto-juvenil.
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NOTA: As respostas dadas a este passatempo têm uma curiosidade:
A 1.ª a dar uma resposta que se poderá considerar certa foi "Ana".
No entanto, o nome da donzela, com a ortografia correcta (Aloysia e não Aloisia), foi o indicado, depois, por Neusa.
A solução será enviar a ambas livros semelhantes:«Quem incendiou a biblioteca?» irá para Ana e «Um duelo na biblioteca» irá para Neusa.
Encurralados na Escola
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Por Maria Filomena Mónica
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EM VÉSPERAS DAS FÉRIAS GRANDES, o Ministério da Educação tende a entrar em delírio. O presente ano lectivo não foi excepção: basta pensar nas provas de aferição, em que, num teste de Português do 6º ano, os alunos foram autorizados a dar erros de ortografia. Para os pedagogos a soldo do Ministério, a maneira como os meninos se exprimem não tem, pelos vistos, qualquer importância. Habituada a dislates pedagógicos, já não me deveria escandalizar, mas tenho um feitio impossível.
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Embora há muito não trabalhe neste campo, sou doutorada em Sociologia da Educação, o que me dá alguma capacidade para espreitar por detrás das aparências. E o que nos bastidores se passa é horrendo. Sob a retórica igualitária, que pulula nestes círculos, sob os discursos dos pedagogos que dizem ser preciso valorizar os «saberes» que os alunos trazem de casa, sob a máscara de uma escola para todos, estamos a destruir o futuro das crianças mais pobres.
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Não tenham dúvidas: os alunos que mais sofrem com as experiências pedagógicas que o Ministério inventa são os que mais precisariam de que a escola funcionasse bem, porque, para eles, e só para eles, ela é o único caminho para uma vida melhor. Numa escola que minimiza a importância de se escrever (e de se pensar) bem, essa possibilidade fica-lhes vedada. Ora, a escola actual nada lhes dá. Eles pagam-lhe na mesma moeda, ou seja, deixam-na à primeira oportunidade. Não admira que, por essas cidades, encontremos bandos de jovens que, apesar de terem frequentado a escola durante seis, sete ou oito anos, não sabem ler, contar, nem escrever.
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A política educativa tem consistido num plano, certamente inconsciente mas efectivo, para impedir que os jovens que, há apenas uma geração, trabalhavam no campo e nas fábricas, possam subir na vida, entrando em competição com os filhos dos ricos. Enquanto não tivermos uma boa escola pública, a ideia de que existe uma sociedade onde vigora a igualdade de oportunidades é um mito.
A política educativa tem consistido num plano, certamente inconsciente mas efectivo, para impedir que os jovens que, há apenas uma geração, trabalhavam no campo e nas fábricas, possam subir na vida, entrando em competição com os filhos dos ricos. Enquanto não tivermos uma boa escola pública, a ideia de que existe uma sociedade onde vigora a igualdade de oportunidades é um mito.
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Junho de 2007
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FM
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
A GUERRA JUNQUEIRO
Paris, Maio.
Meu Caro Amigo
Meu Caro Amigo
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A sua carta transborda de ilusão poética. Supor, como V. candidamente supõe, que traspassando com versos (ainda mesmo seus, e mais rutilantes que as flechas de Apolo) a Igreja, o Padre, a Liturgia, as Sacristias, o jejum da sexta-feira e os ossos dos Mártires, se pode «desentulhar Deus da aluvião sacerdotal», e elevar o Povo (no Povo V. decerto inclui os conselheiros de Estado) a uma compreensão toda pura e abstracta da Religião - a uma religião que consista apenas numa Moral apoiada numa Fé - é ter da Religião, da sua essência e do seu objecto, uma sonhadora ideia de sonhador teimoso em sonhos!
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Meu bom amigo, uma Religião a que se elimine o Ritual desaparece - porque as Religiões para os homens (com excepção dos raros Metafísicos, Moralistas e Místicos) não passa dum conjunto de Ritos, através dos quais cada povo procura estabelecer uma comunicação íntima com o seu Deus e obter dele favores. Este, só este, tem sido o fim de todos os cultos, desde o mais primitivo, do culto de Indra, até ao culto recente do coração de Maria, que tanto o escandaliza na sua paróquia - oh incorrigível beato do idealismo!
Meu bom amigo, uma Religião a que se elimine o Ritual desaparece - porque as Religiões para os homens (com excepção dos raros Metafísicos, Moralistas e Místicos) não passa dum conjunto de Ritos, através dos quais cada povo procura estabelecer uma comunicação íntima com o seu Deus e obter dele favores. Este, só este, tem sido o fim de todos os cultos, desde o mais primitivo, do culto de Indra, até ao culto recente do coração de Maria, que tanto o escandaliza na sua paróquia - oh incorrigível beato do idealismo!
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Se V. o quer verificar historicamente, deixe Viana do Castelo, tome um bordão, e suba comigo por essa antiguidade fora até um sítio bem cultivado e bem regado que fica entre o rio Indo, as escarpas do Himalaia, e as areias dum grande deserto . Estamos aqui em Septa-Sindhou, no país das Sete Águas, no Vale Feliz, na terra dos Árias. No primeiro povoado em que pararmos, V. vê, sobre um outeiro, um altar de pedra coberto de musgo fresco: em cima brilha palidamente um fogo lento: e em torno perpassam homens, vestidos de linho, com os longos cabelos presos por um aro de ouro fino. São padres, meu amigo! São os primeiros capelães da Humanidade, - e cada um deles está, por esta quente alvorada de Maio, celebrando um rito da missa Ariana. Um limpa e desbasta a lenha que há-de nutrir o lume sagrado; outro pisa dentro dum almofariz, com pancadas que devem ressoar «como tambor de vitória», as ervas aromáticas que dão o Sômma; este, como um semeador, espalha grãos de aveia em volta da Ara; aquele, ao lado, espalmando as mãos ao Céu, entoa um cântico austero. Estes homens, meu amigo, estão executando um Rito que encerra em si toda a Religião dos Árias, e que tem por objecto propiciar Indra - Indra, o Sol, o Fogo, a potência divina que pode encher de ruína e dor o coração do Ária, sorvendo a água das regas, queimando os pastos, desprendendo a pestilência das lagoas, tornando Septa-Sindhou mais estéril que o «coração do mau»; ou pode, derretendo as neves do Himalaia, e soltando com um golpe de fogo «a chuva que jaz no ventre das nuvens», restituir a água aos rios, a verdura aos prados, a salubridade às lagoas, a alegria e abundância à morada do Ária. Trata-se pois simplesmente de convencer Indra a que, sempre propício, derrame sobre Septa-Sindhou todos os favores que pode apetecer um povo rural e pastoral.
Se V. o quer verificar historicamente, deixe Viana do Castelo, tome um bordão, e suba comigo por essa antiguidade fora até um sítio bem cultivado e bem regado que fica entre o rio Indo, as escarpas do Himalaia, e as areias dum grande deserto . Estamos aqui em Septa-Sindhou, no país das Sete Águas, no Vale Feliz, na terra dos Árias. No primeiro povoado em que pararmos, V. vê, sobre um outeiro, um altar de pedra coberto de musgo fresco: em cima brilha palidamente um fogo lento: e em torno perpassam homens, vestidos de linho, com os longos cabelos presos por um aro de ouro fino. São padres, meu amigo! São os primeiros capelães da Humanidade, - e cada um deles está, por esta quente alvorada de Maio, celebrando um rito da missa Ariana. Um limpa e desbasta a lenha que há-de nutrir o lume sagrado; outro pisa dentro dum almofariz, com pancadas que devem ressoar «como tambor de vitória», as ervas aromáticas que dão o Sômma; este, como um semeador, espalha grãos de aveia em volta da Ara; aquele, ao lado, espalmando as mãos ao Céu, entoa um cântico austero. Estes homens, meu amigo, estão executando um Rito que encerra em si toda a Religião dos Árias, e que tem por objecto propiciar Indra - Indra, o Sol, o Fogo, a potência divina que pode encher de ruína e dor o coração do Ária, sorvendo a água das regas, queimando os pastos, desprendendo a pestilência das lagoas, tornando Septa-Sindhou mais estéril que o «coração do mau»; ou pode, derretendo as neves do Himalaia, e soltando com um golpe de fogo «a chuva que jaz no ventre das nuvens», restituir a água aos rios, a verdura aos prados, a salubridade às lagoas, a alegria e abundância à morada do Ária. Trata-se pois simplesmente de convencer Indra a que, sempre propício, derrame sobre Septa-Sindhou todos os favores que pode apetecer um povo rural e pastoral.
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Não há aqui Metafisica, nem Ética - nem explicações sobre a natureza dos deuses, nem regras para a conduta dos homens. Há meramente uma Liturgia, uma totalidade de Ritos, que o Ária necessita observar para que Indra o atenda - uma vez que, pela experiência de gerações, se comprovou que Indra só o escutará, só concederá os beneficios rogados, quando em torno ao seu altar certos velhos, de certa casta, vestidos de linho cândido, lhe erguerem cânticos doces, lhe ofertarem libações, lhe amontoarem dons de fruta, mel e carne de anho. Sem dons, sem libações, sem cânticos, sem anho, Indra, amuado e sumido no fundo do Invisível e do Intangível, não descerá à Terra a derramar-se na sua bondade. E se vier de Viana do Castelo um Poeta tirar ao Ária o seu altar de musgo, o seu pau sacrossanto, o almofariz, o crivo e o vaso do Soma, o Ária ficará sem meios de propiciar o seu Deus, desatendido do seu Deus - e será na Terra como a criancinha que ninguém nutre e a que ninguém ampara os passos.
Não há aqui Metafisica, nem Ética - nem explicações sobre a natureza dos deuses, nem regras para a conduta dos homens. Há meramente uma Liturgia, uma totalidade de Ritos, que o Ária necessita observar para que Indra o atenda - uma vez que, pela experiência de gerações, se comprovou que Indra só o escutará, só concederá os beneficios rogados, quando em torno ao seu altar certos velhos, de certa casta, vestidos de linho cândido, lhe erguerem cânticos doces, lhe ofertarem libações, lhe amontoarem dons de fruta, mel e carne de anho. Sem dons, sem libações, sem cânticos, sem anho, Indra, amuado e sumido no fundo do Invisível e do Intangível, não descerá à Terra a derramar-se na sua bondade. E se vier de Viana do Castelo um Poeta tirar ao Ária o seu altar de musgo, o seu pau sacrossanto, o almofariz, o crivo e o vaso do Soma, o Ária ficará sem meios de propiciar o seu Deus, desatendido do seu Deus - e será na Terra como a criancinha que ninguém nutre e a que ninguém ampara os passos.
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Esta religião primordial é o tipo absoluto e inalterável das Religiões, que todas por instinto repetem - e em que todas (apesar dos elementos estranhos de Teologia, de Metafísica, de Ética que lhe introduzem os espíritos superiores) terminam por se resumir com reverência. Em todos os climas, em todas as raças, ou divinizando as forças da Natureza, ou divinizando a Alma dos mortos, as Religiões, amigo meu, consistiram sempre praticamente num conjunto de práticas, pelas quais o homem simples procura alcançar da amizade de Deus os bens supremos da saúde, da força, da paz, da riqueza. E mesmo quando, já mais crente no esforço próprio, pede esses bens à higiene, à ordem, à lei e ao trabalho, ainda persiste nos ritos propiciadores para que Deus ajude o seu esforço.
Esta religião primordial é o tipo absoluto e inalterável das Religiões, que todas por instinto repetem - e em que todas (apesar dos elementos estranhos de Teologia, de Metafísica, de Ética que lhe introduzem os espíritos superiores) terminam por se resumir com reverência. Em todos os climas, em todas as raças, ou divinizando as forças da Natureza, ou divinizando a Alma dos mortos, as Religiões, amigo meu, consistiram sempre praticamente num conjunto de práticas, pelas quais o homem simples procura alcançar da amizade de Deus os bens supremos da saúde, da força, da paz, da riqueza. E mesmo quando, já mais crente no esforço próprio, pede esses bens à higiene, à ordem, à lei e ao trabalho, ainda persiste nos ritos propiciadores para que Deus ajude o seu esforço.
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O que V. observou em Septa-Sindhou poderá verificar igualmente, parando (antes de recolhermos a Viana, a beber esse vinho verde de Monção, que V. ditirambiza) na Antiguidade Clássica, em Atenas ou Roma, onde quiser, no momento de maior esplendor e cultura das civilizações greco-latinas. Se V. aí perguntar a um antigo, seja um oleiro de Suburra, seja o próprio Flamen Dialis, qual é o corpo de doutrinas e de conceitos morais que compõe a Religião, - ele sorrirá, sem o compreender. E responderá que a Religião consiste em paces deorum quaerere, em apaziguar os Deuses, em segurar a benevolência dos Deuses. Na ideia do antigo isso significa cumprir os ritos, as práticas, as fórmulas, que uma longa tradição demonstrou serem as únicas que conseguem fixar a atenção dos Deuses e exercer sobre eles persuasão ou sedução. E, nesse cerimonial, era indispensável não alterar nem o valor duma sílaba na Prece, nem o valor dum gesto no sacrifício, porque doutro modo o Deus, não reconhecendo o Sacrifício da sua dilecção e a Prece do seu agrado, permanecia desatento e alheio; e a Religião falseava o seu fim supremo - influenciar o Deus. Pior ainda! Passava a ser a irreligião: e o Deus, vendo nessa omissão de liturgia uma falta de reverência, despedia logo das Alturas os dardos da sua cólera. A obliquidade das pregas na túnica do Sacrificador, um passo lançado à direita ou movido à esquerda, o cair lento das gotas da libação, o tamanho das achas do lume votivo, todos esses detalhes estavam prescritos imutavelmente pelos Rituais, e a sua exclusão ou a sua alteração constituíam impiedades. Constituíam verdadeiros crimes contra a pátria - porque atraíam sobre ela a indignação dos deuses. Quantas Legiões vencidas, quantas cidadelas derrubadas, porque o Pontífice deixara perder um grão de cinza da ara - ou porque Auruspice não arrancou lã bastante da cabeça do anho! Por isso Atenas castigava o Sacerdote que alterasse o cerimonial; e o senado depunha os Cônsules que cometiam um erro no sacrifício - fosse ele tão ligeiro como reter a ponta da toga sobre a cabeça, quando ela devia escorregar sobre o ombro. De sorte que V., em Roma, lançando ironias de ouro à Divindade, era talvez um grande e admirado Poeta Cómico: mas satirizando, como na Velhice do Padre Eterno a Liturgia e o Cerimonial, era um inimigo público, um traidor ao Estado, votado às masmorras do Tuliano.
O que V. observou em Septa-Sindhou poderá verificar igualmente, parando (antes de recolhermos a Viana, a beber esse vinho verde de Monção, que V. ditirambiza) na Antiguidade Clássica, em Atenas ou Roma, onde quiser, no momento de maior esplendor e cultura das civilizações greco-latinas. Se V. aí perguntar a um antigo, seja um oleiro de Suburra, seja o próprio Flamen Dialis, qual é o corpo de doutrinas e de conceitos morais que compõe a Religião, - ele sorrirá, sem o compreender. E responderá que a Religião consiste em paces deorum quaerere, em apaziguar os Deuses, em segurar a benevolência dos Deuses. Na ideia do antigo isso significa cumprir os ritos, as práticas, as fórmulas, que uma longa tradição demonstrou serem as únicas que conseguem fixar a atenção dos Deuses e exercer sobre eles persuasão ou sedução. E, nesse cerimonial, era indispensável não alterar nem o valor duma sílaba na Prece, nem o valor dum gesto no sacrifício, porque doutro modo o Deus, não reconhecendo o Sacrifício da sua dilecção e a Prece do seu agrado, permanecia desatento e alheio; e a Religião falseava o seu fim supremo - influenciar o Deus. Pior ainda! Passava a ser a irreligião: e o Deus, vendo nessa omissão de liturgia uma falta de reverência, despedia logo das Alturas os dardos da sua cólera. A obliquidade das pregas na túnica do Sacrificador, um passo lançado à direita ou movido à esquerda, o cair lento das gotas da libação, o tamanho das achas do lume votivo, todos esses detalhes estavam prescritos imutavelmente pelos Rituais, e a sua exclusão ou a sua alteração constituíam impiedades. Constituíam verdadeiros crimes contra a pátria - porque atraíam sobre ela a indignação dos deuses. Quantas Legiões vencidas, quantas cidadelas derrubadas, porque o Pontífice deixara perder um grão de cinza da ara - ou porque Auruspice não arrancou lã bastante da cabeça do anho! Por isso Atenas castigava o Sacerdote que alterasse o cerimonial; e o senado depunha os Cônsules que cometiam um erro no sacrifício - fosse ele tão ligeiro como reter a ponta da toga sobre a cabeça, quando ela devia escorregar sobre o ombro. De sorte que V., em Roma, lançando ironias de ouro à Divindade, era talvez um grande e admirado Poeta Cómico: mas satirizando, como na Velhice do Padre Eterno a Liturgia e o Cerimonial, era um inimigo público, um traidor ao Estado, votado às masmorras do Tuliano.
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E se, já farto destes tempos antigos, V. quiser volver aos nossos filosóficos dias, encontrará nas duas grandes Religiões do Ocidente e do Oriente, no Catolicismo e no Budismo, uma comprovação ainda mais saliente e mais viva de que a Religião consiste intrinsecamente de práticas, sobre as quais a Teologia e a Moral se sobrepuseram, sem as penetrarem, como um luxo intelectual, acessório e transitório - flores pregadas no altar pela imaginação ou pela virtude idealista. O Catolicismo (ninguém mais furiosamente o sabe do que V.) está hoje resumido a uma curta série de observâncias materiais: - e, todavia, nunca houve Religião dentro da qual a Inteligência erguesse mais vasta e alta estrutura de conceitos teológicos e morais. Esses conceitos, porém, obra de doutores e de místicos, nunca propriamente saíram das escolas e dos mosteiros - onde eram preciosa matéria de dialéctica ou de poesia; nunca penetraram nas multidões, para metodicamente governar os juízos ou conscientemente governar as acções. Reduzido a catecismos, a cartilhas, esse corpo de conceitos foi decorado pelo povo: - mas nunca o povo se persuadiu que tinha Religião, e que portanto agradava a Deus, servia a Deus, só por cumprir os dez mandamentos, fora de toda a prática e de toda a observância ritual E só decorou mesmo esses Dez Mandamentos, e as Obras de Misericórdia, e os outros preceitos morais do Catecismo, pela ideia de que esses versículos, recitados com os lábios, tinham, por uma virtude maravilhosa, o poder de atrair a atenção, a bem-querença e os favores do Senhor. Para servir a Deus, que é o meio de agradar a Deus, o essencial foi sempre ouvir missa, esfiar o rosário, jejuar, comungar, fazer promessas, dar túnicas aos santos, etc. Só por estes ritos, e não pelo cumprimento moral da lei moral, se propicia a Deus, - isto é, se alcançam dele os dons inestimáveis da saúde, da felicidade, da riqueza, da paz. O mesmo Céu e Inferno, sanção extra-terrestre da lei, nunca, na ideia do povo, se ganhava ou se evitava pela pontual obediência à lei. E talvez com razão, por isso mesmo que no Catolicismo o prémio e o castigo não são manifestações da justiça de Deus, mas da graça de Deus. Ora a Graça, no pensar dos simples, só se obtém pela constante e incansável prática dos preceitos - a missa, o jejum, a penitência, a comunhão, o rosário, a novena, a oferta, a promessa. De sorte que no catolicismo do Minhoto como na religião do Ária, em Septa-Sindhou como em Carrazeda de Ansiães, tudo se resume em propiciar Deus por meio de práticas que o cativem. Não há aqui Teologia, nem Moral. Há o acto do infinitamente fraco, querendo agradar ao infinitamente forte. E se V., para purificar este Catolicismo, eliminar o Padre, a estola, as galhetas e a água benta, todo o Rito e toda a Liturgia - o católico imediatamente abandonará uma Religião que não tem Igreja visível, e que não lhe oferece os meios simples e tangíveis de comunicar com Deus, de obter dele os bens transcendentes para a alma e os bens sensíveis para o corpo. O Catolicismo nesse instante terá acabado, milhões de seres terão perdido o seu Deus. A Igreja é o vaso de que Deus é o perfume. Igreja partida - Deus volatilizado.
E se, já farto destes tempos antigos, V. quiser volver aos nossos filosóficos dias, encontrará nas duas grandes Religiões do Ocidente e do Oriente, no Catolicismo e no Budismo, uma comprovação ainda mais saliente e mais viva de que a Religião consiste intrinsecamente de práticas, sobre as quais a Teologia e a Moral se sobrepuseram, sem as penetrarem, como um luxo intelectual, acessório e transitório - flores pregadas no altar pela imaginação ou pela virtude idealista. O Catolicismo (ninguém mais furiosamente o sabe do que V.) está hoje resumido a uma curta série de observâncias materiais: - e, todavia, nunca houve Religião dentro da qual a Inteligência erguesse mais vasta e alta estrutura de conceitos teológicos e morais. Esses conceitos, porém, obra de doutores e de místicos, nunca propriamente saíram das escolas e dos mosteiros - onde eram preciosa matéria de dialéctica ou de poesia; nunca penetraram nas multidões, para metodicamente governar os juízos ou conscientemente governar as acções. Reduzido a catecismos, a cartilhas, esse corpo de conceitos foi decorado pelo povo: - mas nunca o povo se persuadiu que tinha Religião, e que portanto agradava a Deus, servia a Deus, só por cumprir os dez mandamentos, fora de toda a prática e de toda a observância ritual E só decorou mesmo esses Dez Mandamentos, e as Obras de Misericórdia, e os outros preceitos morais do Catecismo, pela ideia de que esses versículos, recitados com os lábios, tinham, por uma virtude maravilhosa, o poder de atrair a atenção, a bem-querença e os favores do Senhor. Para servir a Deus, que é o meio de agradar a Deus, o essencial foi sempre ouvir missa, esfiar o rosário, jejuar, comungar, fazer promessas, dar túnicas aos santos, etc. Só por estes ritos, e não pelo cumprimento moral da lei moral, se propicia a Deus, - isto é, se alcançam dele os dons inestimáveis da saúde, da felicidade, da riqueza, da paz. O mesmo Céu e Inferno, sanção extra-terrestre da lei, nunca, na ideia do povo, se ganhava ou se evitava pela pontual obediência à lei. E talvez com razão, por isso mesmo que no Catolicismo o prémio e o castigo não são manifestações da justiça de Deus, mas da graça de Deus. Ora a Graça, no pensar dos simples, só se obtém pela constante e incansável prática dos preceitos - a missa, o jejum, a penitência, a comunhão, o rosário, a novena, a oferta, a promessa. De sorte que no catolicismo do Minhoto como na religião do Ária, em Septa-Sindhou como em Carrazeda de Ansiães, tudo se resume em propiciar Deus por meio de práticas que o cativem. Não há aqui Teologia, nem Moral. Há o acto do infinitamente fraco, querendo agradar ao infinitamente forte. E se V., para purificar este Catolicismo, eliminar o Padre, a estola, as galhetas e a água benta, todo o Rito e toda a Liturgia - o católico imediatamente abandonará uma Religião que não tem Igreja visível, e que não lhe oferece os meios simples e tangíveis de comunicar com Deus, de obter dele os bens transcendentes para a alma e os bens sensíveis para o corpo. O Catolicismo nesse instante terá acabado, milhões de seres terão perdido o seu Deus. A Igreja é o vaso de que Deus é o perfume. Igreja partida - Deus volatilizado.
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Se tivéssemos tempo de ir à China ou a Ceilão, V. toparia com o mesmo fenómeno no Budismo. Dentro dessa Religião foi elaborada a mais alta das Metafísicas, a mais nobre das Morais: mas em todas as raças em que ele penetrou, nas bárbaras ou nas cultas, nas hordas do Nepal ou no mandarinato chinês, ele consistiu sempre para as multidões em ritos, cerimónias, práticas - a mais conhecida das quais é o moinho de rezar. V. nunca lidou com este moinho? É lamentavelmente parecido com o moinho de café em todos os países budistas V. o verá colocado nas ruas das cidades, nas encruzilhadas do campo, para que o devoto ao passar, dando duas voltas à manivela, possa fazer chocalhar dentro as orações escritas e comunicar com o Buda, que por esse acto de cortesia transcendente «lhe ficará grato e lhe aumentará os seus bens».
Se tivéssemos tempo de ir à China ou a Ceilão, V. toparia com o mesmo fenómeno no Budismo. Dentro dessa Religião foi elaborada a mais alta das Metafísicas, a mais nobre das Morais: mas em todas as raças em que ele penetrou, nas bárbaras ou nas cultas, nas hordas do Nepal ou no mandarinato chinês, ele consistiu sempre para as multidões em ritos, cerimónias, práticas - a mais conhecida das quais é o moinho de rezar. V. nunca lidou com este moinho? É lamentavelmente parecido com o moinho de café em todos os países budistas V. o verá colocado nas ruas das cidades, nas encruzilhadas do campo, para que o devoto ao passar, dando duas voltas à manivela, possa fazer chocalhar dentro as orações escritas e comunicar com o Buda, que por esse acto de cortesia transcendente «lhe ficará grato e lhe aumentará os seus bens».
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Nem o Catolicismo, nem o Budismo, vão por este facto em decadência. Ao contrário! Estão no seu estado natural e normal de Religião. Uma Religião, quanto mais se materializa, mais se populariza - e portanto mais se diviniza. Não se espante! Quero dizer que, quanto mais se desembaraça dos seus elementos intelectuais de Teologia, de Moral, de Humanitarismo, etc., repelindo-os para as suas regiões naturais que são a Filosofia, a Ética e a Poesia, tanto mais coloca o povo face a face com o seu Deus, numa união directa e simples, tão fácil de realizar que, por um mero dobrar de joelhos, um mero balbuciar de Padre-Nossos, o homem absoluto que está no Céu vem ao encontro do homem transitório que está na Terra. Ora este encontro é o facto essencialmente divino da Religião. E quanto mais ele se materializa - mais ela na realidade se diviniza.
Nem o Catolicismo, nem o Budismo, vão por este facto em decadência. Ao contrário! Estão no seu estado natural e normal de Religião. Uma Religião, quanto mais se materializa, mais se populariza - e portanto mais se diviniza. Não se espante! Quero dizer que, quanto mais se desembaraça dos seus elementos intelectuais de Teologia, de Moral, de Humanitarismo, etc., repelindo-os para as suas regiões naturais que são a Filosofia, a Ética e a Poesia, tanto mais coloca o povo face a face com o seu Deus, numa união directa e simples, tão fácil de realizar que, por um mero dobrar de joelhos, um mero balbuciar de Padre-Nossos, o homem absoluto que está no Céu vem ao encontro do homem transitório que está na Terra. Ora este encontro é o facto essencialmente divino da Religião. E quanto mais ele se materializa - mais ela na realidade se diviniza.
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V. porém dirá (e de facto o diz): «Tornemos essa comunicação puramente espiritual, e que, despida de toda a exterioridade litúrgica, ela seja apenas como o espírito humano, falando ao espírito divino». Mas para isso é necessário que venha o Milénio - em que cada cavador de enxada seja um filósofo, um pensador. E quando esse Milénio detestável chegar, e cada tipóia de praça for governada por um Mallebranche, terá V. ainda de ajuntar a esta perfeita humanidade masculina, uma nova humanidade feminina, fisiologicamente diferente da que hoje embeleza a Terra. Porque enquanto houver uma mulher constituída física, intelectual e moralmente como a que Jeová, com uma tão grande inspiração de artista, fez da costela de Adão, - haverá sempre ao lado dela, para uso da sua fraqueza, um altar, uma imagem e um padre.
V. porém dirá (e de facto o diz): «Tornemos essa comunicação puramente espiritual, e que, despida de toda a exterioridade litúrgica, ela seja apenas como o espírito humano, falando ao espírito divino». Mas para isso é necessário que venha o Milénio - em que cada cavador de enxada seja um filósofo, um pensador. E quando esse Milénio detestável chegar, e cada tipóia de praça for governada por um Mallebranche, terá V. ainda de ajuntar a esta perfeita humanidade masculina, uma nova humanidade feminina, fisiologicamente diferente da que hoje embeleza a Terra. Porque enquanto houver uma mulher constituída física, intelectual e moralmente como a que Jeová, com uma tão grande inspiração de artista, fez da costela de Adão, - haverá sempre ao lado dela, para uso da sua fraqueza, um altar, uma imagem e um padre.
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Essa comunhão mística do Homem e de Deus, que V. quer, nunca poderá ser senão o privilégio duma elite espiritual, deploravelmente limitada. Para a vasta massa humana, em todos os tempos, pagã, budista, cristã, maometana, selvagem ou culta, a Religião terá sempre por fim, na sua essência, a súplica dos favores divinos e o afastamento da cólera divina; e, como instrumentação material para realizar estes objectos, o templo, o padre, o altar, os ofícios, a vestimenta, a imagem. Pergunte a qualquer mediano homem saído da turba, que não seja um filósofo, ou um moralista, ou um místico, o que é Religião. O inglês dirá: - «É ir ao serviço ao domingo, bem vestido, cantar hinos». O hindu dirá: - «É fazer poojah todos os dias e dar o tributo ao Mahadeo». O africano dirá: - «É oferecer ao Mulungu, a sua ração de farinha e óleo». O minhoto dirá: - «É ouvir missa, rezar as contas, jejuar a sexta-feira, comungar pela Páscoa». E todos terão razão, grandemente! Porque o seu objecto, como seres religiosos, está todo em comunicar com Deus, e esses são os meios de comunicação que os seus respectivos estados de civilização e as respectivas liturgias que deles saíram, lhes fornecem. Voilà! Para V., está claro, e para outros espíritos de eleição, a Religião é outra coisa - como já era outra coisa em Atenas para Sócrates e em Roma para Séneca. Mas as multidões humanas não são compostas de Sócrates e de Sénecas - bem felizmente para elas, e para os que as governam, incluindo V. que as pretende governar!
Essa comunhão mística do Homem e de Deus, que V. quer, nunca poderá ser senão o privilégio duma elite espiritual, deploravelmente limitada. Para a vasta massa humana, em todos os tempos, pagã, budista, cristã, maometana, selvagem ou culta, a Religião terá sempre por fim, na sua essência, a súplica dos favores divinos e o afastamento da cólera divina; e, como instrumentação material para realizar estes objectos, o templo, o padre, o altar, os ofícios, a vestimenta, a imagem. Pergunte a qualquer mediano homem saído da turba, que não seja um filósofo, ou um moralista, ou um místico, o que é Religião. O inglês dirá: - «É ir ao serviço ao domingo, bem vestido, cantar hinos». O hindu dirá: - «É fazer poojah todos os dias e dar o tributo ao Mahadeo». O africano dirá: - «É oferecer ao Mulungu, a sua ração de farinha e óleo». O minhoto dirá: - «É ouvir missa, rezar as contas, jejuar a sexta-feira, comungar pela Páscoa». E todos terão razão, grandemente! Porque o seu objecto, como seres religiosos, está todo em comunicar com Deus, e esses são os meios de comunicação que os seus respectivos estados de civilização e as respectivas liturgias que deles saíram, lhes fornecem. Voilà! Para V., está claro, e para outros espíritos de eleição, a Religião é outra coisa - como já era outra coisa em Atenas para Sócrates e em Roma para Séneca. Mas as multidões humanas não são compostas de Sócrates e de Sénecas - bem felizmente para elas, e para os que as governam, incluindo V. que as pretende governar!
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De resto, não se desconsole, amigo! Mesmo entre os simples há modos de ser religiosos, inteiramente despidos de Liturgia e de exterioridades rituais. Um presenciei eu, deliciosamente puro e íntimo. Foi nas margens do Zambeze. Um chefe negro, por nome Lubenga, queria, nas vésperas de entrar em guerra com um chefe vizinho, comunicar com o seu Deus, com o seu Mulungu (que era, como sempre, um seu avô divinizado) . O recado ou pedido, porém, que desejava mandar à sua Divindade, não se podia transmitir através dos Feiticeiros e do seu cerimonial, tão graves e confidenciais matérias continha... Que faz Lubenga? Grita por um escravo: dá-lhe o recado, pausadamente, lentamente, ao ouvido: verifica bem que o escravo tudo compreendera, tudo retivera: e imediatamente arrebata um machado, decepa a cabeça do escravo, e brada tranquilamente - «parte»! A alma do escravo lá foi, como uma carta lacrada e selada, direita para o Céu, ao Mulungu. Mas daí a instantes o chefe, bate uma palmada aflita na testa, chama à pressa outro escravo, diz-lhe ao ouvido rápidas palavras, agarra o machado, separa-lhe a cabeça, e berra: - «Vai!»
De resto, não se desconsole, amigo! Mesmo entre os simples há modos de ser religiosos, inteiramente despidos de Liturgia e de exterioridades rituais. Um presenciei eu, deliciosamente puro e íntimo. Foi nas margens do Zambeze. Um chefe negro, por nome Lubenga, queria, nas vésperas de entrar em guerra com um chefe vizinho, comunicar com o seu Deus, com o seu Mulungu (que era, como sempre, um seu avô divinizado) . O recado ou pedido, porém, que desejava mandar à sua Divindade, não se podia transmitir através dos Feiticeiros e do seu cerimonial, tão graves e confidenciais matérias continha... Que faz Lubenga? Grita por um escravo: dá-lhe o recado, pausadamente, lentamente, ao ouvido: verifica bem que o escravo tudo compreendera, tudo retivera: e imediatamente arrebata um machado, decepa a cabeça do escravo, e brada tranquilamente - «parte»! A alma do escravo lá foi, como uma carta lacrada e selada, direita para o Céu, ao Mulungu. Mas daí a instantes o chefe, bate uma palmada aflita na testa, chama à pressa outro escravo, diz-lhe ao ouvido rápidas palavras, agarra o machado, separa-lhe a cabeça, e berra: - «Vai!»
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Esquecera-lhe algum detalhe no seu pedido ao Mulungu... O segundo escravo era um pós-escrito...
Esquecera-lhe algum detalhe no seu pedido ao Mulungu... O segundo escravo era um pós-escrito...
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Esta maneira simples de comunicar com Deus deve regozijar o seu coração. Amigo do dito. - FRADIQUE.
Esta maneira simples de comunicar com Deus deve regozijar o seu coração. Amigo do dito. - FRADIQUE.
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Capítulo V de «A Correspondência de Fradique Mendes»
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Prémio do passatempo «Changeling»
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
AS 'REFLEXÕES' DE SAMPAIO
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Por Baptista-Bastos
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O DOCUMENTO QUE JORGE SAMPAIO fez publicar, anteontem, no DN, sob o título de "Cinco Reflexões sobre os Desafios de uma Estratégia Nacional", comporta uma forma de revolta delicada, uma crítica mansa, e um pouco melancólica, aos egoísmos corporativos, e o desejo de que as fracturas sociais crescentes não atinjam zonas irremediáveis. O texto possui a honestidade intelectual do autor e o sentido de um apelo que desemboca em largas inquietações.
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Como se pode mobilizar um povo, convocá-lo para a causa comum, se a classe dirigente tem tripudiado sobre a cultura de relação de que se compõe a democracia avançada? Nada nesse sentido tem sido realizado, sequer tentado. O próprio Sampaio, quando Presidente, ao rejeitar Ferro Rodrigues, e abrir as portas a um intermezzo cómico, participou, activamente, no retrocesso histórico que fez aumentar a indiferença e o desencanto portugueses. As desproporções obscenas entre os sacrifícios impostos e as regalias generosamente distribuídas por uma casta de privilegiados não são de molde a entusiasmar a população. O discurso oficial desloca-se numa falsa euforia e passa para a depressão mais inquietante. Ninguém, de boa fé, acredita nestes "políticos", cuja representação é diariamente demolida pelas evidências dos factos. E Jorge Sampaio bem o sabe.
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As "Reflexões" não eliminam o sentido crucial dos problemas, mas também não indicam, ou sugerem, como seria natural, o combate ideológico contra a ideologia que intimida os governos e os intima a praticar regras unilaterais. Há, em tudo isto, uma perversão moral que condiciona o comportamento ético. O texto de Sampaio é omisso nestes aspectos, e percorre-se em generalidades. E talvez devesse ser, pelo estatuto e pelo passado do autor, nesta desordem e nesta perturbação, um aviso de que as abdicações não são o caminho para o resgate das servidões. A desmobilização cívica do País é uma das consequências da ausência da instância Estado, da falta de comparência de um ideal de libertação (sim, de libertação) que nos empolgue. E é, igualmente, a descaracterização ideológica dos partidos, essa base lógica que explica e justifica as grandes conquistas dos trabalhadores no imediato pós-guerra. Quando um estudo revela que os portugueses são o povo europeu que menos ri ou sorri, o caso pode animar solertes comentadores do óbvio - mas não deixa de ser significativamente pesaroso. Já ninguém vai "contra os canhões marchar, marchar". Estamos marcados pelo mais atroz niilismo e identificados com o mais absoluto indiferentismo.
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O documento de Jorge Sampaio é, certamente, estimável, mas o seu conteúdo não revela a originalidade exigível.
-«DN» de 14 de Janeiro de 2009
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
O discreto treinador da equipa-maravilha de Moçambique que venceu o Mundo em Montreux ( 1958 )
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Por Carlos Pinto Coelho
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Lembro-me bem de uma noite em que o tio Armando se fez esperar mais do que o habitual e minha mãe tinha um empadão a murchar no forno. Ele chegou tarde, desolado, porque tivera de levar um dos seus “miúdos” ao hospital (de resto muito perto do Sindicato), com uma entorse num tornozelo durante o treino. A minha mãe seria uma santa mulher mas flor de estufa não era quanto a pontualidades. De maneira que houve mesmo patanisca, por causa do Bouçós (ou foi o Velasco, já não sei) que se magoou no ringue, naquele fim de tarde.
Por Carlos Pinto Coelho.
De repente, o meu tio Armando era um herói. Fazem ideia do que é ter 14 anos de idade e um tio herói? Pois eu conto.
ESTAVA-SE NA LOURENÇO MARQUES dos anos 50. O irmão de minha mãe Sara chamava-se Armando de Lima Abreu e vivia lá em casa, longe da sua mulher e filha, que tinham ficado em Oeiras. Muito magro, alto, aloirado, de nariz delgado onde se encaixavam uns óculos de aros finos, era o homem mais calmo que jamais conheci. Falava em voz branda, sorria com facilidade e tinha paciência para mim. Eu gostava do tio Armando.
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Pois o tio Armando trabalhava no Sindicato, era lá escriturário, acho eu, que era muito miúdo para saber dessas coisas. Sei que o via sair todas as manhãs cedinho, a tomar o autocarro da carreira 3 que ia da Polana para a Baixa e o deixava mais adiante, na Pinheiro Chagas, que era onde ficava o S.N.E.C.I. (Sindicato Nacional dos Empregados do Comércio e Indústria).
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Ao cair da tarde já toda a gente estava em casa, o meu pai trabalhando processos do Tribunal da Relação, a minha mãe metida na biblioteca lendo ou escrevendo livros, o meu irmão José ouvindo música, eu às voltas com os trabalhos do colégio dos Maristas. Só o tio Armando é que nunca estava. E nós sabíamos porquê: ele andava pelo ringue de patinagem do Sindicato a ensinar os putos a andar de patins e a dar esticadas numa bola pequenina, preta e rija como madeira. Era assim todos os dias, às seis da tarde o meu tio vestia calças compridas brancas e camisa branca de manga curta, impecavelmente engomadas lá em casa, calçava sapatilhas também brancas e ia para a sua paixão, nascida em Paço d’Arcos e nos seus copos com Jesus Correia e Correia dos Santos e sei lá quem mais: o Hóquei em Patins. Acho que o meu tio nunca gostou verdadeiramente de mais nada senão da filha Fátima, que trazia na carteira em fotografia, e do hóquei. Eu achava tudo bem, porque ele tinha paciência para me ouvir.
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Durante mais de uma década aquele homem dedicou integralmente os seus tempos livres, as suas forças e o melhor do seu entusiasmo a ensinar jovens a equilibrarem-se nos patins, a coordenarem movimentos e a usarem a cabeça para se articularem uns com os outros como uma verdadeira equipa deve fazer. Ele era, sem pompas nem cargos, um meticuloso formador, dirigente e treinador. E sem ganhar um tostão! Era tudo amor à camisola, tudo pago do bolso de cada um. Quando saltava uma roda de patim, a malta quotizava-se para comprar outra. As camisolas e os calções eram oferecidos pela fábrica de malhas da cidade e, como só havia uma, ela tinha de dar equipamento para todos os clubes: o Malhangalene, o Desportivo, o Ferroviário… todos.
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Eu tinha 14 anos, como já disse. Para mim o que valia eram o voleibol, onde eu era campeão do meu colégio, e a piscina, onde havia gajas boas. De modo que raras vezes fui ver os treinos do tio Armando, onde em vez de gajas havia uns tipos que não me interessavam a ponta de um chifre, e que se chamavam Fernando Adrião, Amadeu Bouçós, Francisco Velasco, Alberto Moreira e Manuel Carrêlo, entre outros.
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Pois o tio Armando trabalhava no Sindicato, era lá escriturário, acho eu, que era muito miúdo para saber dessas coisas. Sei que o via sair todas as manhãs cedinho, a tomar o autocarro da carreira 3 que ia da Polana para a Baixa e o deixava mais adiante, na Pinheiro Chagas, que era onde ficava o S.N.E.C.I. (Sindicato Nacional dos Empregados do Comércio e Indústria).
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Ao cair da tarde já toda a gente estava em casa, o meu pai trabalhando processos do Tribunal da Relação, a minha mãe metida na biblioteca lendo ou escrevendo livros, o meu irmão José ouvindo música, eu às voltas com os trabalhos do colégio dos Maristas. Só o tio Armando é que nunca estava. E nós sabíamos porquê: ele andava pelo ringue de patinagem do Sindicato a ensinar os putos a andar de patins e a dar esticadas numa bola pequenina, preta e rija como madeira. Era assim todos os dias, às seis da tarde o meu tio vestia calças compridas brancas e camisa branca de manga curta, impecavelmente engomadas lá em casa, calçava sapatilhas também brancas e ia para a sua paixão, nascida em Paço d’Arcos e nos seus copos com Jesus Correia e Correia dos Santos e sei lá quem mais: o Hóquei em Patins. Acho que o meu tio nunca gostou verdadeiramente de mais nada senão da filha Fátima, que trazia na carteira em fotografia, e do hóquei. Eu achava tudo bem, porque ele tinha paciência para me ouvir.
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Durante mais de uma década aquele homem dedicou integralmente os seus tempos livres, as suas forças e o melhor do seu entusiasmo a ensinar jovens a equilibrarem-se nos patins, a coordenarem movimentos e a usarem a cabeça para se articularem uns com os outros como uma verdadeira equipa deve fazer. Ele era, sem pompas nem cargos, um meticuloso formador, dirigente e treinador. E sem ganhar um tostão! Era tudo amor à camisola, tudo pago do bolso de cada um. Quando saltava uma roda de patim, a malta quotizava-se para comprar outra. As camisolas e os calções eram oferecidos pela fábrica de malhas da cidade e, como só havia uma, ela tinha de dar equipamento para todos os clubes: o Malhangalene, o Desportivo, o Ferroviário… todos.
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Eu tinha 14 anos, como já disse. Para mim o que valia eram o voleibol, onde eu era campeão do meu colégio, e a piscina, onde havia gajas boas. De modo que raras vezes fui ver os treinos do tio Armando, onde em vez de gajas havia uns tipos que não me interessavam a ponta de um chifre, e que se chamavam Fernando Adrião, Amadeu Bouçós, Francisco Velasco, Alberto Moreira e Manuel Carrêlo, entre outros.
Lembro-me bem de uma noite em que o tio Armando se fez esperar mais do que o habitual e minha mãe tinha um empadão a murchar no forno. Ele chegou tarde, desolado, porque tivera de levar um dos seus “miúdos” ao hospital (de resto muito perto do Sindicato), com uma entorse num tornozelo durante o treino. A minha mãe seria uma santa mulher mas flor de estufa não era quanto a pontualidades. De maneira que houve mesmo patanisca, por causa do Bouçós (ou foi o Velasco, já não sei) que se magoou no ringue, naquele fim de tarde.
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Até que um dia, tinha eu 14 anos, repito, o meu tio desapareceu de casa durante umas semanas e regressou herói. Tinha ido lá a Portugal com os seus miúdos e depois foram para a Suíça (fui ver no Atlas onde ficava) e ganharam a jogar contra o mundo inteiro. O tio Armando tinha levado as suas sapatilhas e roupa branca e era treinador da equipa de hóquei em patins que vencera o mundo representando Portugal no Torneio de Montreux. Em 1958 isso era deveras importante.
Até que um dia, tinha eu 14 anos, repito, o meu tio desapareceu de casa durante umas semanas e regressou herói. Tinha ido lá a Portugal com os seus miúdos e depois foram para a Suíça (fui ver no Atlas onde ficava) e ganharam a jogar contra o mundo inteiro. O tio Armando tinha levado as suas sapatilhas e roupa branca e era treinador da equipa de hóquei em patins que vencera o mundo representando Portugal no Torneio de Montreux. Em 1958 isso era deveras importante.
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Houve uma multidão à espera deles todos, no aeroporto de Lourenço Marques (chamava-se Aeroporto de Mavalane). E publicaram-lhes fotografias nos jornais “Notícias“ e “Diário “ (ou seja, na Imprensa inteira) eram campeões do mundo, até falaram no Rádio Clube de Moçambique e tudo. Os putos-campeões disseram muitas vezes que deviam tudo ao tio Armando, mas nenhum jornalista quis ouvir o que ele próprio tivesse para dizer. E ele não se importou com isso. Estava mesmo feliz. À maneira dele, calmo e discreto. Mesmo assim, durante uns dias, eu vi como os vizinhos lhe davam abraços, de manhã, quando ele ia apanhar o autocarro para o Sindicato. Por isso, e porque lá em casa foi uma festa pegada de empadões, eu percebi que tinha um tio herói.
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Armando de Lima Abreu ficou por Moçambique depois da independência e dizem-me que por lá morreu, sozinho, sem glória nem fortuna, e sem dar sinal de vida a todos nós, que entretanto tínhamos vindo para Portugal.
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Eu tinha 14 anos nesse ano de 1958, como acho que já disse. Mas agora, que sou mais velho, fui à página que a Federação Portuguesa de Patinagem tem na Internet e pedi para ver a fotografia dessa equipa-maravilha que veio de Moçambique vestir a camisola de Portugal no Torneio de Montreux, com o meu tio Armando como treinador nacional. A fotografia está lá. O Velasco, o Bouçós, eles todos. Mas o meu tio não está na fotografia dos campeões. Acho que é porque ele, na altura, era só um escriturário do Sindicato.
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Gosto muito do meu tio Armando, sabem? Ele tinha paciência para mim.
-Houve uma multidão à espera deles todos, no aeroporto de Lourenço Marques (chamava-se Aeroporto de Mavalane). E publicaram-lhes fotografias nos jornais “Notícias“ e “Diário “ (ou seja, na Imprensa inteira) eram campeões do mundo, até falaram no Rádio Clube de Moçambique e tudo. Os putos-campeões disseram muitas vezes que deviam tudo ao tio Armando, mas nenhum jornalista quis ouvir o que ele próprio tivesse para dizer. E ele não se importou com isso. Estava mesmo feliz. À maneira dele, calmo e discreto. Mesmo assim, durante uns dias, eu vi como os vizinhos lhe davam abraços, de manhã, quando ele ia apanhar o autocarro para o Sindicato. Por isso, e porque lá em casa foi uma festa pegada de empadões, eu percebi que tinha um tio herói.
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Armando de Lima Abreu ficou por Moçambique depois da independência e dizem-me que por lá morreu, sozinho, sem glória nem fortuna, e sem dar sinal de vida a todos nós, que entretanto tínhamos vindo para Portugal.
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Eu tinha 14 anos nesse ano de 1958, como acho que já disse. Mas agora, que sou mais velho, fui à página que a Federação Portuguesa de Patinagem tem na Internet e pedi para ver a fotografia dessa equipa-maravilha que veio de Moçambique vestir a camisola de Portugal no Torneio de Montreux, com o meu tio Armando como treinador nacional. A fotografia está lá. O Velasco, o Bouçós, eles todos. Mas o meu tio não está na fotografia dos campeões. Acho que é porque ele, na altura, era só um escriturário do Sindicato.
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Gosto muito do meu tio Armando, sabem? Ele tinha paciência para mim.
Na foto, vê-se a equipa referida no texto, vencedora da Taça das Nações de Montreux/Suiça em 1958 - Selecção de Moçambique em representação de Portugal. Em 1.º plano: Vasco Romão Duarte, Eduardo Passos Viana, Alberto Moreira, Victor Rodrigues. Em 2.º plano: António Souto, Abílio Moreira, Francisco Velasco, Fernando Adrião, Amadeu Bouçós, Manuel Carrelo.
A melhor profissão do mundo
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Por Nuno Crato
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MUITOS CIENTISTAS CONFESSAM, meio em segredo, que gostam tanto da sua profissão que pagariam para fazer aquilo para que estão a ser pagos. Claro que se trata de um exagero retórico. Poucos poderiam ter uma actividade científica a tempo inteiro se não fossem remunerados. Já passaram os tempos em que os aristocratas faziam alguma ciência como passatempo. A ciência é hoje uma profissão. E uma boa profissão.
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Nos Estados Unidos, pelo menos, as carreiras científicas estão muito bem cotadas. Segundo um estudo divulgado esta semana pela CareerCast.com, uma organização de empregos, as carreiras científicas são as melhores. Exactamente: as melhores.
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Todo o estudo contraria o desdém pelo estudo e qualificação humana que muitas vezes surge, irreflectidamente, em comentários públicos de pessoas responsáveis. É preciso dizer aos jovens que estudar é um investimento valioso no futuro. É preciso dizê-lo e repeti-lo. A qualificação técnica e humana traduz-se em várias vantagens profissionais. Não é só a remuneração. É a qualidade de emprego, a qualidade de vida e a riqueza cultural.
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O estudo agora divulgado conduz a um «ranking», com todas as simplificações que uma listagem ordenada desse tipo traz, mas também com toda a informação comparativa que dele se pode extrair. Incorpora 200 tipos de empregos e classifica-os com base em cinco critérios fundamentais: ambiente de trabalho, remuneração, perspectivas futuras, exigências físicas e desgaste emocional.
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Os critérios procuram ser objectivos. Ao classificar o ambiente de trabalho consideram-se aspectos como as necessidades de posturas incómodas, as possíveis condições tóxicas ou o confinamento em locais exíguos. Ao falar da remuneração considera-se o vencimento e as diversas regalias adicionais. Ao falar das perspectivas futuras consideram-se os riscos de desemprego, a evolução do salário e as hipóteses de promoção.
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Ao abordar o quarto critério, o da exigência física, entra-se num domínio muito caro aos físicos, que têm ajudado os estatísticos oficiais a elaborar medidas sofisticadas. As profissões são aqui ponderadas com várias medidas, incluindo os pesos que têm de ser levantados, o estilo de movimentos (ajoelhar-se, curvar-se, etc) e o trabalho efectuado (no sentido mecânico).
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Finalmente, o estudo entrou em conta com o desgaste emocional das diversas profissões. Considerou efeitos tais como a competitividade, os riscos e a pressão para resposta.
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Ponderando todos estes factores, a profissão pior colocada (lugar 200) foi a de lenhador, que tem riscos físicos enormes e uma remuneração média reduzida, de menos de 32 mil dólares por ano. No fundo da escala ficaram ainda condutores de taxi (198), pescadores (197), colectores do lixo (195) e bombeiros (182). No topo ficaram os meteorologistas (15), físicos (13), contabilistas (10), analistas de sistemas (6) e engenheiros (5) informáticos. Logo depois aparecem os biólogos (4). Acima destes vem a grande surpresa: os matemáticos!
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As três profissões mais bem colocadas foram as de estatístico (3), ou seja, especialista na matemática da inferência e do tratamento de dados, actuário (2), ou seja, especialista em cálculos matemáticos do risco de seguros e de investimentos, e, finalmente, e propriamente dito, matemático (1).
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MUITOS CIENTISTAS CONFESSAM, meio em segredo, que gostam tanto da sua profissão que pagariam para fazer aquilo para que estão a ser pagos. Claro que se trata de um exagero retórico. Poucos poderiam ter uma actividade científica a tempo inteiro se não fossem remunerados. Já passaram os tempos em que os aristocratas faziam alguma ciência como passatempo. A ciência é hoje uma profissão. E uma boa profissão.
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Nos Estados Unidos, pelo menos, as carreiras científicas estão muito bem cotadas. Segundo um estudo divulgado esta semana pela CareerCast.com, uma organização de empregos, as carreiras científicas são as melhores. Exactamente: as melhores.
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Todo o estudo contraria o desdém pelo estudo e qualificação humana que muitas vezes surge, irreflectidamente, em comentários públicos de pessoas responsáveis. É preciso dizer aos jovens que estudar é um investimento valioso no futuro. É preciso dizê-lo e repeti-lo. A qualificação técnica e humana traduz-se em várias vantagens profissionais. Não é só a remuneração. É a qualidade de emprego, a qualidade de vida e a riqueza cultural.
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O estudo agora divulgado conduz a um «ranking», com todas as simplificações que uma listagem ordenada desse tipo traz, mas também com toda a informação comparativa que dele se pode extrair. Incorpora 200 tipos de empregos e classifica-os com base em cinco critérios fundamentais: ambiente de trabalho, remuneração, perspectivas futuras, exigências físicas e desgaste emocional.
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Os critérios procuram ser objectivos. Ao classificar o ambiente de trabalho consideram-se aspectos como as necessidades de posturas incómodas, as possíveis condições tóxicas ou o confinamento em locais exíguos. Ao falar da remuneração considera-se o vencimento e as diversas regalias adicionais. Ao falar das perspectivas futuras consideram-se os riscos de desemprego, a evolução do salário e as hipóteses de promoção.
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Ao abordar o quarto critério, o da exigência física, entra-se num domínio muito caro aos físicos, que têm ajudado os estatísticos oficiais a elaborar medidas sofisticadas. As profissões são aqui ponderadas com várias medidas, incluindo os pesos que têm de ser levantados, o estilo de movimentos (ajoelhar-se, curvar-se, etc) e o trabalho efectuado (no sentido mecânico).
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Finalmente, o estudo entrou em conta com o desgaste emocional das diversas profissões. Considerou efeitos tais como a competitividade, os riscos e a pressão para resposta.
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Ponderando todos estes factores, a profissão pior colocada (lugar 200) foi a de lenhador, que tem riscos físicos enormes e uma remuneração média reduzida, de menos de 32 mil dólares por ano. No fundo da escala ficaram ainda condutores de taxi (198), pescadores (197), colectores do lixo (195) e bombeiros (182). No topo ficaram os meteorologistas (15), físicos (13), contabilistas (10), analistas de sistemas (6) e engenheiros (5) informáticos. Logo depois aparecem os biólogos (4). Acima destes vem a grande surpresa: os matemáticos!
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As três profissões mais bem colocadas foram as de estatístico (3), ou seja, especialista na matemática da inferência e do tratamento de dados, actuário (2), ou seja, especialista em cálculos matemáticos do risco de seguros e de investimentos, e, finalmente, e propriamente dito, matemático (1).
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 10 de Janeiro de 2009
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 10 de Janeiro de 2009
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Qual o autor do melhor comentário ao 'post' «Paranóia ou receios justificados?»
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O prémio será um exemplar deste livro
A presente votação, correspondente ao passatempo que se vê [aqui], terminará às 20h de 14 Jan 09. Em caso de empate, prosseguirá por períodos de 24 horas.
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Actualização (14 Jan 09/ 20h05m): às 20h00m o resultado era 1-0-11-0-1, pelo que Alex HAL ganhou o passatempo.
Do BPP ao BPN
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Por J. L. Saldanha Sanches
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O BPP ESTÁ EM DIFICULDADES tal como está o BPN. Talvez o BPP venha exigir, tal como o BPN, financiamentos por parte dos contribuintes. Num e noutro caso, o Estado deverá ajudar os depositantes, mas não os accionistas.
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As semelhanças param aqui.
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Ainda é muito cedo para falar e ninguém deve saber ainda qual a extensão do desastre mas tudo indica que o BPP foi a vítima portuguesa da onda de loucura e irresponsabilidade que varreu a banca mundial.
As semelhanças param aqui.
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Ainda é muito cedo para falar e ninguém deve saber ainda qual a extensão do desastre mas tudo indica que o BPP foi a vítima portuguesa da onda de loucura e irresponsabilidade que varreu a banca mundial.
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Trata-se da nova banca com os novos produtos financeiros muito mais rentáveis que os tradicionais, os produtos estruturados e outras ilusões contabilísticas com a importação do que de mais avançado se ia encontrando por esse mundo fora.
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O Dr. João Rendeiro introduzia gloriosamente em Portugal aquilo que a que o Dr. António Borges chamava a maior invenção do século, pondo-a ao alcance dos seus clientes portugueses.
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Uma ilusória sofisticação financeira que acabou como se sabe. Provavelmente depois dos erros as irregularidades do costume quando tudo começa a correr a mal e se procura manter os ganhos com recurso a produtos ainda mais arriscados, com desrespeito da vontade expressa pelos clientes e violação de contratos.
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Tudo isto é grave e facto de ter acontecido por toda a parte não pode servir de desculpa. Não tem é nenhuma relação com o que passou no BPN.
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O facto de a crise BPN ter acontecido no meio de outras crises não se deve ao facto de o BPN – a julgar pelo que se vai vendo por aí – pertencer a onda da nova banca e dos novos produtos financeiros e de ter à sua frente gente embriagada pelos novos produtos e pelos novos investimentos.
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O contraste com o BPN não poderia ser maior. Aí não temos gestores embriagados com a nova economia. Temos um bando de gente boçal que compra protecção política para cometer crimes sórdidos sem grande disfarce e sustentados apenas pela impunidade garantida.
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O Dr. João Rendeiro introduzia gloriosamente em Portugal aquilo que a que o Dr. António Borges chamava a maior invenção do século, pondo-a ao alcance dos seus clientes portugueses.
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Uma ilusória sofisticação financeira que acabou como se sabe. Provavelmente depois dos erros as irregularidades do costume quando tudo começa a correr a mal e se procura manter os ganhos com recurso a produtos ainda mais arriscados, com desrespeito da vontade expressa pelos clientes e violação de contratos.
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Tudo isto é grave e facto de ter acontecido por toda a parte não pode servir de desculpa. Não tem é nenhuma relação com o que passou no BPN.
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O facto de a crise BPN ter acontecido no meio de outras crises não se deve ao facto de o BPN – a julgar pelo que se vai vendo por aí – pertencer a onda da nova banca e dos novos produtos financeiros e de ter à sua frente gente embriagada pelos novos produtos e pelos novos investimentos.
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O contraste com o BPN não poderia ser maior. Aí não temos gestores embriagados com a nova economia. Temos um bando de gente boçal que compra protecção política para cometer crimes sórdidos sem grande disfarce e sustentados apenas pela impunidade garantida.
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Não vemos por lá gestores com excesso de MBA a transplantar para Lisboa uma pequena Wall Street. O que vemos no BPN é uma importante galeria de figuras políticas que ornamentam os seus relatórios e contas (está tudo na net) e dão cobertura às mais inacreditáveis traficâncias.
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A crise do BPN coincide com a crise financeira porque quando esta começa já ninguém investe mais e nesse ambiente as fraudes não podem sobreviver. Quando a maré baixa, o lodo fica a descoberto. Coincide com a do BPP mas é inteiramente diferente desta.
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A actuação dos auditores demonstra isso: no caso do BPP, os auditores têm as culpas genéricas que têm os reguladores norte-americanos ou britânicos que aceitam a contabilização de derivados cujo valor real ninguém conhece ou as empresas de rating que garantem a solidez financeira de empresas à beira da falência. Inocentes, não estão. Contudo, em períodos de loucura generalizada, mais vale discutir métodos do que tentar responsabilizar pessoas.
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No caso do BPN, os auditores fogem em pânico depois de denunciar o que se passa. No BPP os auditores fazem o mesmo que faziam os dos muitos bancos que só são salvos in extremis quando a revolução financeira acaba com um enorme estoiro.
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Com as regras actuais de supervisão bancária, com o recurso sistemático a off-shores e as suas inevitáveis de obscuridade tudo isto era inevitável.
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A crise do BPN coincide com a crise financeira porque quando esta começa já ninguém investe mais e nesse ambiente as fraudes não podem sobreviver. Quando a maré baixa, o lodo fica a descoberto. Coincide com a do BPP mas é inteiramente diferente desta.
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A actuação dos auditores demonstra isso: no caso do BPP, os auditores têm as culpas genéricas que têm os reguladores norte-americanos ou britânicos que aceitam a contabilização de derivados cujo valor real ninguém conhece ou as empresas de rating que garantem a solidez financeira de empresas à beira da falência. Inocentes, não estão. Contudo, em períodos de loucura generalizada, mais vale discutir métodos do que tentar responsabilizar pessoas.
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No caso do BPN, os auditores fogem em pânico depois de denunciar o que se passa. No BPP os auditores fazem o mesmo que faziam os dos muitos bancos que só são salvos in extremis quando a revolução financeira acaba com um enorme estoiro.
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Com as regras actuais de supervisão bancária, com o recurso sistemático a off-shores e as suas inevitáveis de obscuridade tudo isto era inevitável.
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Só novas regras de supervisão e um regulador menos próximo dos regulados (é urgente uma regulação europeia) podem evitar a repetição.
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Já o BPN só pode comparar-se com o extraordinário caso Madoff: avisos foram ignorados e a SEC neutralizada mediante algumas cumplicidades devidamente obtidas.
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Já o BPN só pode comparar-se com o extraordinário caso Madoff: avisos foram ignorados e a SEC neutralizada mediante algumas cumplicidades devidamente obtidas.
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Em Portugal, se uma qualquer estrutura empresarial tiver suficiente protecção política, pode actuar com absoluta impunidade e cometer duradouramente ilícitos na praça pública sem suscitar qualquer reacção. Tudo depende da protecção política de que disponha.
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Fomo-nos acostumando a tudo e as estruturas que nos deveriam proteger são demasiado fracas, o discurso hiper-garantista continua a ter curso. É isso que explica os muitos BPN deste país.
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«Expresso» de 10 de Janeiro de 2009 – www. www.saldanhasanches.pt/.
Fomo-nos acostumando a tudo e as estruturas que nos deveriam proteger são demasiado fracas, o discurso hiper-garantista continua a ter curso. É isso que explica os muitos BPN deste país.
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NOTA (CMR): a imagem-dupla que em cima se afixa (e que já em tempos aqui foi divulgada) foi proposta por mim ao autor da crónica para ilustrar um certo tipo de 'supervisão' bem nosso conhecido. Como ele esteve de acordo, aqui fica, então.
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JLSS
domingo, 11 de janeiro de 2009
O assento e o acento
Lagos - ontem
Estes ambientalistas-da-treta não encontraram melhor sítio para lutar contra o consumísmo (sic) do que este banco de jardim recentemente inaugurado.
Dada a natureza da pedra, a tinta (aplicada com spray ou de outra forma qualquer) entranhou-se o suficiente para não sair tão cedo... a bem do Planeta, evidentemente.
BALADA DA NEVE
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Por Nuno Brederode Santos
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NUMA EUROPA ENREGELADA, ainda há dois dias Lisboa era, por uma luxuosa diferença de três graus, a mais quentinha das capitais europeias: onze graus contra oito de Roma, com Madrid e Atenas bem abaixo. Não diz nada mais do que isso: Port-au-Prince é bem mais quente do que Toronto. Mas, nos estritos limites daquilo em que o clima nos envolve, era talvez a boa nova possível. Mas não serviu e não chegou. O frio da noite confinou-nos à legítima defesa das nossas casas, que é onde, às primeiras castanholas da dentição que nos restar, sabemos onde jaz um cobertor suplementar e podemos aquecer à temperatura dos infernos uma sopinha da véspera. Pasmamos, assim, sofá abaixo, sem coragem para brandir livro ou jornal, para que as mãos não congelem. No meu caso, acresce até a singularidade de o frio intenso, tal como o seu putativo adversário que é o calor em excesso, me trazer a sonolência. Penso até que isso demonstra que o sono, em mim, mais do que pretexto, é mesmo ideologia. Mas, voltando ao fado: em frente da nossa tiritante imobilidade, só vive e mexe um televisor, onde, libérrima, infrene, se exercita o melhor da criatividade, privada e pública, de que, velha nação, somos capazes.
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Vai daí, surgem as tão esperadas notícias. Derramam-se estagiários pelo país inteiro, que perguntam aos transeuntes, nas afogueadas horas da corrida para os empregos, o que têm a dizer do frio. Que sim, que é muito, dizem os coitados em trânsito. “E como é que se preveniu?”, perguntam jovens jornalistas, vibrando na paixão do seu futuro múnus. “Trago uma camisola por baixo”, responde o português médio (aquele que até então julgávamos meramente estatístico), impante nos seus minutos de Warhol. “E em casa?”, insiste o jovem. “Em casa ligo o aquecimento”, diz a presa. “Mas é caro…”, sugere o tirocinante. “Pois é, mas tem de ser”, fataliza o cidadão. “E pronto, Fulano”, remata a glória prometida, dirigindo-se ao pivot, “daqui, de Poiares de Mim, onde a neve surpreendeu as pessoas, mas a vida tem de continuar, é tudo. Para o Canal Tal, Cicrano, com imagens de Beltrano”. Volta o pivot, para, enfim, sabermos do parlamento, ou da crise na Europa, ou da empresa em dificuldade, ou do martirológio de Gaza, ou da vaga de fundo de Soares Franco. Mas não: “vamos agora ligar a Fulana, que se encontra em Lugar de Mourejos”. E lá vêem cabras e granitos e xailes negros e cafés de aldeia, onde a bica se serve ao balcão de alumínio a clientes de luva e gorro de lã. A atenção já se esvai, arrasta-se viscosamente pelos objectos que nos circundam o sofá. A quase meia hora que lá vai, somada à certeza de que ainda faltam estradas bloqueadas, limpa-neves e gente simpática que visita idosos, parece-nos - e é – mais longa do que qualquer cerco de Lisboa. As pálpebras descem devagar, como, no último mastro, a bandeira do vencido. A cidadania escoa-se num negrume consentido (e, afinal, libertador).
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Acordamos, aos gritos do festejo de um golo tardio. E percebemos que o parlamento, a crise, as empresas e Gaza, se foram, já lá não estão – pois, no meu caso, para a vaga de fundo, já não sobra a paciência. Passaram-se quarenta e cinco minutos, mas o noticiário seguinte devotará novamente a primeira meia hora ao esplendor da neve e aos rancores das criaturas. Notícias? Lá para a semana. Porque até lá, mesmo que eu veja três noticiários seguidos, continuarei a adormecer com a neve e a acordar com o golo. Nada sei, pois, do que se passa. O que também tem a sua dimensão de serviço público.
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Vai daí, surgem as tão esperadas notícias. Derramam-se estagiários pelo país inteiro, que perguntam aos transeuntes, nas afogueadas horas da corrida para os empregos, o que têm a dizer do frio. Que sim, que é muito, dizem os coitados em trânsito. “E como é que se preveniu?”, perguntam jovens jornalistas, vibrando na paixão do seu futuro múnus. “Trago uma camisola por baixo”, responde o português médio (aquele que até então julgávamos meramente estatístico), impante nos seus minutos de Warhol. “E em casa?”, insiste o jovem. “Em casa ligo o aquecimento”, diz a presa. “Mas é caro…”, sugere o tirocinante. “Pois é, mas tem de ser”, fataliza o cidadão. “E pronto, Fulano”, remata a glória prometida, dirigindo-se ao pivot, “daqui, de Poiares de Mim, onde a neve surpreendeu as pessoas, mas a vida tem de continuar, é tudo. Para o Canal Tal, Cicrano, com imagens de Beltrano”. Volta o pivot, para, enfim, sabermos do parlamento, ou da crise na Europa, ou da empresa em dificuldade, ou do martirológio de Gaza, ou da vaga de fundo de Soares Franco. Mas não: “vamos agora ligar a Fulana, que se encontra em Lugar de Mourejos”. E lá vêem cabras e granitos e xailes negros e cafés de aldeia, onde a bica se serve ao balcão de alumínio a clientes de luva e gorro de lã. A atenção já se esvai, arrasta-se viscosamente pelos objectos que nos circundam o sofá. A quase meia hora que lá vai, somada à certeza de que ainda faltam estradas bloqueadas, limpa-neves e gente simpática que visita idosos, parece-nos - e é – mais longa do que qualquer cerco de Lisboa. As pálpebras descem devagar, como, no último mastro, a bandeira do vencido. A cidadania escoa-se num negrume consentido (e, afinal, libertador).
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Acordamos, aos gritos do festejo de um golo tardio. E percebemos que o parlamento, a crise, as empresas e Gaza, se foram, já lá não estão – pois, no meu caso, para a vaga de fundo, já não sobra a paciência. Passaram-se quarenta e cinco minutos, mas o noticiário seguinte devotará novamente a primeira meia hora ao esplendor da neve e aos rancores das criaturas. Notícias? Lá para a semana. Porque até lá, mesmo que eu veja três noticiários seguidos, continuarei a adormecer com a neve e a acordar com o golo. Nada sei, pois, do que se passa. O que também tem a sua dimensão de serviço público.
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Saio à rua, desafiando este gélido nono círculo do inferno. Penso na crise e na melhor forma de a enfrentar. E tomo uma decisão: a minha estratégia para ela vai ser, com excepção de três eleições em que irei votar, a de me tornar num velhinho intratável. Egoísmo pertinaz, solidariedade zero. Um sociopata, mesmo que não consume violências maiores do que o legítimo resmungo. Encontro, por acaso, o José Duarte. Esse mesmo: “um, dois, três, quatro, cinco minutos de jazz”. “'tás bom?”, pergunta ele. “'tou. Já sei como defender-me da crise. Vou transformar-me num velhinho intratável”, respondo, muito brioso. Nem nos western spaghetti se sacava tão depressa quanto ele o fez: “Isso já és”.
.«DN» de 11 de Janeiro de 2009
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Alguns dos muitos parques gratuitos de Lagos

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Muitos condutores (como os 2 que se vêem nos extremos da foto) desprezam os lugares de estacionamento "normais" e preferem os passeios. A foto não mostra outros que optam sistematicamente pelo jardim..
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.Um frio de rachar pedras
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Por Antunes Ferreira
Por Antunes Ferreira
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NA TORRE ESTÃO 9 negativos. Um vento cortante levanta remoinhos da neve que por ali se encontra, um tanto esparsa, só acumulada com algum volume aqui e ali. Na pista de esqui, de tapete branco sofrível, uma caterva de raparigas e rapazes atiram bolas e deslizam em tobogans de plástico azuis, vermelhos, amarelos e verdes. À mistura com trambolhões e piruetas, entre gargalhadas e gritos de alegria. Jovens.
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Venho (vimos, minha mulher e eu) de Seia, onde abancamos durante três dias. A Meteorologia bem se afadiga a avisar a malta sobre o frio e como combatê-lo e mais isto e aquilo. Um frio de rachar pedras, diz o Povo. Concordo. De repente, há quem se lembre dos sem abrigo e saltam reportagens da solidariedade televisionada. É preciso que o tempo pregue umas partidas para que haja umas tentativas, ténues, do que se diz ser o «amor pelo próximo». Há mesmo quem acrescente: e pelo mais afastado.
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Esta vaga de frialdade extrema (diz quem sabe de tais coisas que se trata de uma massa de ar polar) logo tinha de acontecer no início do annus horribilis. Que todas as pessoas importantes deste triste Mundo e, sobretudo, deste impagável País, têm anunciado com mais sanha e profusão do que agência a publicitar os créditos pessoais/ bancários pelo telefone. Apesar da crise que vai, parece, com vento de popa.
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A gripe, ao que consta, vai deixando de estar na moda, ainda que de forma sorna e miudinha. Aliás, numa terra como a nossa, em que impera a sornice e a “miudinhice”, não admira. Espantaria, sim, se a endemia (assim lhe chamam) abalasse em velocidade, ainda que moderada. No ritmo do alegro ma non tropo, que metronomicamente se usa por aqui. É o que temos e é, principalmente, o que somos.
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Neste contexto, uma circunstância se me afigura – ainda – estranha. Acrescento para melhor elucidação do ainda. Nos dias que vão correndo, já nada admira ninguém, quanto mais estranha. No caso vertente, porém, vejam que ainda consigo estranhar. É simples. Pelo menos até ao momento em que escrevo estas miseráveis linhas, não ouvi ninguém culpar o Sócrates e os seus acompanhantes da eclosão do surto gripal.
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Mais ainda. Tal se passa, igualmente, com o frio. Deixem-me que vos diga que não me parece bem. Há que apontar o dedo aos culpados e mentirosos e esta deveria ter sido uma altura a aproveitar. E, complementarmente, ideal. No meio das calinadas e desatinos – desde um Orçamento falso como Judas, até à desmedida obsessão de impedir o normal funcionamento do ano lectivo (?) – não se pode admitir este silêncio ensurdecedor.
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Ainda que dispondo de maioria para o respaldar, bom seria que o Chefe do Governo fosse ao Parlamenta (quiçá chamado), para especificar porque não confessara atempadamente que, quer a gripe, quer o frio, eram de sua exclusiva responsabilidade. Ou, no mínimo, porque razão não tinha previsto que os dois chegassem. Com algum aviso prévio, há que o dizer, mas, mesmo assim, competia ao Executivo impedir que tal acontecesse.
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Felizmente que as Oposições, ainda que por vezes, escassas, escorreguem, estão atentas aos deslizes governamentais e saltam quando devem em defesa dos cidadãos. E acusam. É para isso mesmo que as Oposições servem: para dar porrada no Governo. Sempre foi assim, sempre é, sempre continuará a ser. Sempre também em defesa dos referidos cidadãos, especialmente os mais desfavorecidos. E, nomeadamente, nestes dias gélidos.
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Quase me permito, assim, afirmar que ainda bem que veio o frio. Já que as Oposições não tiraram proveito dele, pelo menos para justificar essas manifestações diversas – não confundir, sff, com as dos professores - em prol dos que dormem na rua. E que, por via de regra, não tomam atenção aos conselhos televisivos para o combater: roupa leve mas quente, em diversas camadas para que não dificulte os movimentos, alimentos quentes, nada de álcool e aquecimento q.b. De preferência, central.
NA TORRE ESTÃO 9 negativos. Um vento cortante levanta remoinhos da neve que por ali se encontra, um tanto esparsa, só acumulada com algum volume aqui e ali. Na pista de esqui, de tapete branco sofrível, uma caterva de raparigas e rapazes atiram bolas e deslizam em tobogans de plástico azuis, vermelhos, amarelos e verdes. À mistura com trambolhões e piruetas, entre gargalhadas e gritos de alegria. Jovens.
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Venho (vimos, minha mulher e eu) de Seia, onde abancamos durante três dias. A Meteorologia bem se afadiga a avisar a malta sobre o frio e como combatê-lo e mais isto e aquilo. Um frio de rachar pedras, diz o Povo. Concordo. De repente, há quem se lembre dos sem abrigo e saltam reportagens da solidariedade televisionada. É preciso que o tempo pregue umas partidas para que haja umas tentativas, ténues, do que se diz ser o «amor pelo próximo». Há mesmo quem acrescente: e pelo mais afastado.
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Esta vaga de frialdade extrema (diz quem sabe de tais coisas que se trata de uma massa de ar polar) logo tinha de acontecer no início do annus horribilis. Que todas as pessoas importantes deste triste Mundo e, sobretudo, deste impagável País, têm anunciado com mais sanha e profusão do que agência a publicitar os créditos pessoais/ bancários pelo telefone. Apesar da crise que vai, parece, com vento de popa.
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A gripe, ao que consta, vai deixando de estar na moda, ainda que de forma sorna e miudinha. Aliás, numa terra como a nossa, em que impera a sornice e a “miudinhice”, não admira. Espantaria, sim, se a endemia (assim lhe chamam) abalasse em velocidade, ainda que moderada. No ritmo do alegro ma non tropo, que metronomicamente se usa por aqui. É o que temos e é, principalmente, o que somos.
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Neste contexto, uma circunstância se me afigura – ainda – estranha. Acrescento para melhor elucidação do ainda. Nos dias que vão correndo, já nada admira ninguém, quanto mais estranha. No caso vertente, porém, vejam que ainda consigo estranhar. É simples. Pelo menos até ao momento em que escrevo estas miseráveis linhas, não ouvi ninguém culpar o Sócrates e os seus acompanhantes da eclosão do surto gripal.
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Mais ainda. Tal se passa, igualmente, com o frio. Deixem-me que vos diga que não me parece bem. Há que apontar o dedo aos culpados e mentirosos e esta deveria ter sido uma altura a aproveitar. E, complementarmente, ideal. No meio das calinadas e desatinos – desde um Orçamento falso como Judas, até à desmedida obsessão de impedir o normal funcionamento do ano lectivo (?) – não se pode admitir este silêncio ensurdecedor.
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Ainda que dispondo de maioria para o respaldar, bom seria que o Chefe do Governo fosse ao Parlamenta (quiçá chamado), para especificar porque não confessara atempadamente que, quer a gripe, quer o frio, eram de sua exclusiva responsabilidade. Ou, no mínimo, porque razão não tinha previsto que os dois chegassem. Com algum aviso prévio, há que o dizer, mas, mesmo assim, competia ao Executivo impedir que tal acontecesse.
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Felizmente que as Oposições, ainda que por vezes, escassas, escorreguem, estão atentas aos deslizes governamentais e saltam quando devem em defesa dos cidadãos. E acusam. É para isso mesmo que as Oposições servem: para dar porrada no Governo. Sempre foi assim, sempre é, sempre continuará a ser. Sempre também em defesa dos referidos cidadãos, especialmente os mais desfavorecidos. E, nomeadamente, nestes dias gélidos.
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Quase me permito, assim, afirmar que ainda bem que veio o frio. Já que as Oposições não tiraram proveito dele, pelo menos para justificar essas manifestações diversas – não confundir, sff, com as dos professores - em prol dos que dormem na rua. E que, por via de regra, não tomam atenção aos conselhos televisivos para o combater: roupa leve mas quente, em diversas camadas para que não dificulte os movimentos, alimentos quentes, nada de álcool e aquecimento q.b. De preferência, central.
O Saber Ocupa Lugar
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Por Maria Filomena Mónica
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DEIXEMOS DE LADO as reformas organizativas anunciadas pela Ministra da Educação e a abertura tipo choque tecnológico do ano escolar e concentremo-nos no aspecto mais importante do ensino, isto é, na sua qualidade. Atente-se nestes três factos: o anúncio de que a disciplina de Filosofia deixará de ser necessária para aceder ao Ensino Superior, a estranha mistura entre Literatura e Ciências Sociais e a provável extinção, para acesso a certos cursos, do Latim e do Grego. Sou licenciada em Filosofia, para o que, no final do Secundário, tive de me submeter a exames nestas duas línguas mortas. Por razões que não vêm ao caso, não fui boa aluna, mas sinto a falta de conhecimento destas matérias.
DEIXEMOS DE LADO as reformas organizativas anunciadas pela Ministra da Educação e a abertura tipo choque tecnológico do ano escolar e concentremo-nos no aspecto mais importante do ensino, isto é, na sua qualidade. Atente-se nestes três factos: o anúncio de que a disciplina de Filosofia deixará de ser necessária para aceder ao Ensino Superior, a estranha mistura entre Literatura e Ciências Sociais e a provável extinção, para acesso a certos cursos, do Latim e do Grego. Sou licenciada em Filosofia, para o que, no final do Secundário, tive de me submeter a exames nestas duas línguas mortas. Por razões que não vêm ao caso, não fui boa aluna, mas sinto a falta de conhecimento destas matérias.
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Há mais de cem anos, no romance «Hard Times», Charles Dickens fazia troça de Mr. Gradgrind, para quem no mundo só havia «factos, factos, factos». Apesar de baseada numa concepção mutiladora do homem, era, e é, uma ideia popular. Mas a escola não pode ficar reduzida à formação de autómatos capazes de meter um «chip» num telemóvel. Se desejo que os estudantes aprendam Filosofia, que saibam apreciar um romance e que alguns até dominem o Latim e o Grego é por pensar que aquilo que, a partir de agora, só estará acessível a uma elite o deveria estar a todos. É verdade que, ao longo dos anos, a vida material dos portugueses melhorou, mas terá acontecido o mesmo, e na mesma extensão, à sua vida intelectual ? A resposta é negativa.
Há mais de cem anos, no romance «Hard Times», Charles Dickens fazia troça de Mr. Gradgrind, para quem no mundo só havia «factos, factos, factos». Apesar de baseada numa concepção mutiladora do homem, era, e é, uma ideia popular. Mas a escola não pode ficar reduzida à formação de autómatos capazes de meter um «chip» num telemóvel. Se desejo que os estudantes aprendam Filosofia, que saibam apreciar um romance e que alguns até dominem o Latim e o Grego é por pensar que aquilo que, a partir de agora, só estará acessível a uma elite o deveria estar a todos. É verdade que, ao longo dos anos, a vida material dos portugueses melhorou, mas terá acontecido o mesmo, e na mesma extensão, à sua vida intelectual ? A resposta é negativa.
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A responsabilidade reside nos vinte e seis Ministros da Educação que, desde 1974, ocuparam a pasta. Todos, de esquerda e de direita, confundiram elitismo intelectual e exclusivismo social, o que os levou a recusar que a igualdade de oportunidades pudesse ser obtida sem que o nível de exigência do ensino baixasse. Se as disciplinas humanísticas forem extirpadas dos curricula, os nossos filhos e netos terão uma vida mais esquálida do que a nossa, porque lhe teremos dado a ilusão de que eles «sabem», sem lhes termos oferecido os instrumentos necessários à compreensão do mundo. É para isto que serve a Filosofia.
A responsabilidade reside nos vinte e seis Ministros da Educação que, desde 1974, ocuparam a pasta. Todos, de esquerda e de direita, confundiram elitismo intelectual e exclusivismo social, o que os levou a recusar que a igualdade de oportunidades pudesse ser obtida sem que o nível de exigência do ensino baixasse. Se as disciplinas humanísticas forem extirpadas dos curricula, os nossos filhos e netos terão uma vida mais esquálida do que a nossa, porque lhe teremos dado a ilusão de que eles «sabem», sem lhes termos oferecido os instrumentos necessários à compreensão do mundo. É para isto que serve a Filosofia.
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Junho de 2007
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FM
Férias da Pátria
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Por Maria Filomena Mónica
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NO PAÍS QUE ME COUBE EM SORTE, os velhos são tristes, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; os serviços públicos funcionam mal, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; as escolas estão degradadas, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; os transportes são maus, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; as ruas têm buracos, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; os canais de televisão são um estendal de imbecilidades, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; os políticos são medíocres, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; as praias estão poluídas, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; as casas estão arruinadas, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; nas bibliotecas públicas, os livros caem de podres, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; as câmaras são focos de corrupção, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria.
NO PAÍS QUE ME COUBE EM SORTE, os velhos são tristes, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; os serviços públicos funcionam mal, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; as escolas estão degradadas, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; os transportes são maus, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; as ruas têm buracos, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; os canais de televisão são um estendal de imbecilidades, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; os políticos são medíocres, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; as praias estão poluídas, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; as casas estão arruinadas, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; nas bibliotecas públicas, os livros caem de podres, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria; as câmaras são focos de corrupção, mas não me importo porque pertencem à minha Pátria.
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Quem me leu até aqui deve ter-se apercebido que qualquer coisa não estava a funcionar bem na minha cabeça. De facto, assim era. Na noite consagrada à redacção deste artigo, um amigo oferecera-me uma garrafa, ostentando a marca «Nonino», contendo um líquido transparente que, na minha ingenuidade, pensei ser água. Afinal, era uma coisa a que, em Itália, chamam «grappa», uma bebida de elevado teor alcoólico. Uma vez que era aprazível, enquanto escrevia o que acima podem ler, fui bebericando aquilo. No dia seguinte, o Dia da Pátria, a ressaca desaparecera e, com ela, o ardor nacionalista, substituído agora pelo meu usual pessimismo. Mais uma vez, dei comigo a recitar os versos do Alexandre O´Neill: «Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui,/ na terra onde nasceste e eu nasci?». Chegara o momento, conclui, para tirar férias da Pátria.
Quem me leu até aqui deve ter-se apercebido que qualquer coisa não estava a funcionar bem na minha cabeça. De facto, assim era. Na noite consagrada à redacção deste artigo, um amigo oferecera-me uma garrafa, ostentando a marca «Nonino», contendo um líquido transparente que, na minha ingenuidade, pensei ser água. Afinal, era uma coisa a que, em Itália, chamam «grappa», uma bebida de elevado teor alcoólico. Uma vez que era aprazível, enquanto escrevia o que acima podem ler, fui bebericando aquilo. No dia seguinte, o Dia da Pátria, a ressaca desaparecera e, com ela, o ardor nacionalista, substituído agora pelo meu usual pessimismo. Mais uma vez, dei comigo a recitar os versos do Alexandre O´Neill: «Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui,/ na terra onde nasceste e eu nasci?». Chegara o momento, conclui, para tirar férias da Pátria.
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Junho de 2007
Junho de 2007
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Alzarith tombada na rua
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Por Baptista-Bastos
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AQUI, A MORTE NÃO CONSENTE METÁFORAS. A miúda está estendida na rua, um fio de sangue saiu da nuca e secou no pó da rua, a rua traça um diâmetro com a eternidade. Chamava-se Alzarith, tinha seis anos, e corria - sabe-se lá para onde? Mas corria, penso, atribuindo à modesta ideia a substância improvisada das coisas.
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Os miúdos são feitos para correr e transportar no riso a felicidade dos adultos. Os miúdos não nascem para sujeitos destas fotografias, marcadas pela recôndita obscenidade da morte. Podemos, talvez, reconstituir, mentalmente, o silêncio de depois do tiro fatal. A rua está deserta. Volátil, o pó atribui à cena uma densidade inesperadamente bela, comovente e humilde. Alzarith, os cabelos longos de Alzarith parecem uma estrela no chão; os braços de Alzarith estão abertos, crucificados num espanto sem palavras, num assombro sem piedade; e uma das pernas ergue-se levemente. Jaz.
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A fotografia não é o mudo instante de uma tragédia. É o absoluto da infâmia. É a insuportável humilhação aplicada pela morte. Sem tecto, entre ruínas. Lembro Raul Brandão, pelo desamparo exposto no corpo caído numa rua de prédios cavernosos, fieiras de cavos olhos desorbitados. Nem vivalma - e a rua é longa e larga. Pressente-se o silêncio e a desolação. A quem pertence esta Alzarith, cujo nome o repórter fotográfico apôs na legenda, tirando-o do árabe antigo e cujo ambíguo significado poderá ser: a que ninguém conhece. Mal aplicado o nome: alguém deverá, certamente, conhecer a menina caída na rua. Serão vivos, ainda, os pais? Terá irmãos e irmãs? Quem a chora? Quem a procura? Quem por ela desespera?
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Houve um homem desavisado, e certamente em dia de cólera, que descarregou, em duas frases cruéis e cegas, o secreto desassossego que o perseguia: "Todos somos culpados. Ninguém é inocente." Alzarith é culpada de quê? De ter nascido num mundo concentracionário, de ser cativa de uma época da qual tudo ignoramos ou tudo desejamos ignorar?
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A fotografia evoca a perda de sentido e, também, a teatralização com que a morte se ornamenta, sem arrependimento nem pesar. O conceito de crime (penso agora, examinando, detidamente, a imagem e o que ela oculta) adquire, aqui, uma envergadura difícil de interpretar. A comparência do horror, ei-la, como urgência universal da memória e da auto-acusação. Multiplicam-se as declarações piedosas. As metáforas do arrependimento, da confissão e das desculpas passam a outra escala. E Alzarith está estendida na rua, tornando-se numa outra banalidade da aversão e do ódio. Na gíria, foi reduzida a um bom "boneco", tema de primeira página de jornal ou de capa de revista. Inventaram-lhe um nome. Porém, será sempre ela, a menina morta numa poeirenta rua de Gaza.
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«DN» de 7 de Janeiro de 2009. Este post é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
A Tralha
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Por Alice Vieira
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FILHOS SÃO BICHOS RAROS. Dizemos “são tal qual a minha cara”, ou “são iguais a mim em tudo”— e depois um dia descobrimos que, em (aparentemente) insignificantes pormenores, são verdadeiros estranhos.
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A minha filha, que é das pessoas com quem eu me dou melhor, que é uma cópia de mim em tantas coisas — noutras é diametralmente oposta.
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Uma das coisas que irremediavelmente nos separam é “a tralha”. Ou aquilo a que ela chama “tralha”.
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“Palavra que não sei como consegues viver no meio desta tralha toda”, diz ela muitas vezes quando vem cá a casa.
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Acontece que a minha filha ainda não viveu tempo suficiente para ter a casa dela cheia de tralha e, pior do que isso, para não poder viver sem ela.
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Aquilo a que ela desdenhosamente chama “tralha” são objectos que marcaram a minha vida. Que me foram dados por pessoas muito amadas e que já morreram. Ou que estão vivas mas desapareceram do meu lado. Ou que estão longe e assim parecem mais perto. Ou que aparecem pouco, mas são muito importantes para mim. Coisas que não servem para nada — a não ser para me ajudarem a suportar a vida.
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Não seria capaz de viver numa casa decorada por profissionais—que decerto não iriam encher as minhas mesas de pedras, folhas secas, búzios, postais, desenhos dos netos, frascos cheios de canetas, etc.
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Tudo o que eu tenho em casa—tirando os objectos necessários à nossa vida quotidiana — tem uma história, recorda alguém, lembra um lugar ou marca um tempo.
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Um dos homens da minha vida deu-me esta pedra achada na rua, que é tal qual a cara de uma pessoa a rir. “Quando eu cá não estiver”, disse, “já tens quem se ria como eu”.E como tinha a paixão das folhas, enchia-me a casa com elas. Às vezes abro um livro e lá cai uma folha seca. E eu sei exactamente de que árvore veio, em que dia, e por que razão a guardei.
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Esta coisa estranha de madeira, a tapar um espelho, deu-me a minha amiga Mara em Timor, explicando-me que os espelhos têm de estar sempre bem tapados para que não nos roubem a alma.
Por Alice Vieira
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FILHOS SÃO BICHOS RAROS. Dizemos “são tal qual a minha cara”, ou “são iguais a mim em tudo”— e depois um dia descobrimos que, em (aparentemente) insignificantes pormenores, são verdadeiros estranhos.
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A minha filha, que é das pessoas com quem eu me dou melhor, que é uma cópia de mim em tantas coisas — noutras é diametralmente oposta.
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Uma das coisas que irremediavelmente nos separam é “a tralha”. Ou aquilo a que ela chama “tralha”.
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“Palavra que não sei como consegues viver no meio desta tralha toda”, diz ela muitas vezes quando vem cá a casa.
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Acontece que a minha filha ainda não viveu tempo suficiente para ter a casa dela cheia de tralha e, pior do que isso, para não poder viver sem ela.
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Aquilo a que ela desdenhosamente chama “tralha” são objectos que marcaram a minha vida. Que me foram dados por pessoas muito amadas e que já morreram. Ou que estão vivas mas desapareceram do meu lado. Ou que estão longe e assim parecem mais perto. Ou que aparecem pouco, mas são muito importantes para mim. Coisas que não servem para nada — a não ser para me ajudarem a suportar a vida.
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Não seria capaz de viver numa casa decorada por profissionais—que decerto não iriam encher as minhas mesas de pedras, folhas secas, búzios, postais, desenhos dos netos, frascos cheios de canetas, etc.
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Tudo o que eu tenho em casa—tirando os objectos necessários à nossa vida quotidiana — tem uma história, recorda alguém, lembra um lugar ou marca um tempo.
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Um dos homens da minha vida deu-me esta pedra achada na rua, que é tal qual a cara de uma pessoa a rir. “Quando eu cá não estiver”, disse, “já tens quem se ria como eu”.E como tinha a paixão das folhas, enchia-me a casa com elas. Às vezes abro um livro e lá cai uma folha seca. E eu sei exactamente de que árvore veio, em que dia, e por que razão a guardei.
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Esta coisa estranha de madeira, a tapar um espelho, deu-me a minha amiga Mara em Timor, explicando-me que os espelhos têm de estar sempre bem tapados para que não nos roubem a alma.
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Este postal, com flores a rebentarem pelo meio de pedras, mandou-me a minha amiga Dina, com uma frase que me ajuda sempre nos dias maus.
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Este coração de vidro deu-me a Ana Gabriela, que enfrentou comigo maleitas complicadas, de que nos safámos ambas porque somos difíceis de abater.
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E ao lado está um minúsculo sino de metal que me deu o António, num dia em que chorámos baba e ranho no ombro um do outro.
E que seria eu sem os retratos que me espreitam de todos os cantos? Como poderia andar pela casa se eles não olhassem para mim? Se eu não ouvisse as suas vozes, tão nítidas, rebentando das molduras?
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E agora digam-me lá como é que eu posso chamar “tralha” a isto.
Este postal, com flores a rebentarem pelo meio de pedras, mandou-me a minha amiga Dina, com uma frase que me ajuda sempre nos dias maus.
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Este coração de vidro deu-me a Ana Gabriela, que enfrentou comigo maleitas complicadas, de que nos safámos ambas porque somos difíceis de abater.
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E ao lado está um minúsculo sino de metal que me deu o António, num dia em que chorámos baba e ranho no ombro um do outro.
E que seria eu sem os retratos que me espreitam de todos os cantos? Como poderia andar pela casa se eles não olhassem para mim? Se eu não ouvisse as suas vozes, tão nítidas, rebentando das molduras?
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E agora digam-me lá como é que eu posso chamar “tralha” a isto.
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«JN» de 4 de Janeiro de 2009. Este post é uma extensão do que será publicado no Sorumbático [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
«JN» de 4 de Janeiro de 2009. Este post é uma extensão do que será publicado no Sorumbático [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
O paradoxo dos sapatinhos
Por Nuno Crato.
O PAI NATAL, toda a gente o sabe, gosta de agradar. Mas também não gosta de desperdiçar presentes. Colocou dinheiro nos meus sapatinhos. Mas fizemos um acordo, ele e eu. Ou melhor, ditou-me ele as regras do jogo.
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Apareceu em minha casa, depois de uma noite em que eu tinha jantado com amigos e tinha bebido bem. Falou-me assim: «Meu caro Nuno, este ano trabalhaste muito e quero-te recompensar. Mas como os matemáticos julgam que sabem tudo, vou-te oferecer uma lição de modéstia, com muito dinheiro à mistura.»
Apareceu em minha casa, depois de uma noite em que eu tinha jantado com amigos e tinha bebido bem. Falou-me assim: «Meu caro Nuno, este ano trabalhaste muito e quero-te recompensar. Mas como os matemáticos julgam que sabem tudo, vou-te oferecer uma lição de modéstia, com muito dinheiro à mistura.»
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Esfreguei os olhos, boquiaberto — devia ter bebido mais do que pensava. Voltei a olhar, mas o velhote de barbas brancas ainda lá estava.
Esfreguei os olhos, boquiaberto — devia ter bebido mais do que pensava. Voltei a olhar, mas o velhote de barbas brancas ainda lá estava.
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«Vais colocar os teus dois sapatinhos na chaminé» — continuou. «No esquerdo vou pôr mil euros e no da direita ainda não sei; ou ponho um milhão ou não ponho nada. Tu tens duas hipóteses: ou escolhes o sapatinho da direita e deitas fora o da esquerda ou escolhes os dois. Se escolheres apenas o da direita, terei lá colocado um milhão de euros. Se escolheres os dois, não terei posto nada no da direita e ficarás apenas com os mil euros.»
«Vais colocar os teus dois sapatinhos na chaminé» — continuou. «No esquerdo vou pôr mil euros e no da direita ainda não sei; ou ponho um milhão ou não ponho nada. Tu tens duas hipóteses: ou escolhes o sapatinho da direita e deitas fora o da esquerda ou escolhes os dois. Se escolheres apenas o da direita, terei lá colocado um milhão de euros. Se escolheres os dois, não terei posto nada no da direita e ficarás apenas com os mil euros.»
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Fiquei confuso: «Pai Natal! Acho que percebo as regras, mas há uma coisa que não entendo. Tu colocas o dinheiro nos sapatinhos antes de eu fazer a escolha. Como sabes quanto dinheiro vais colocar no sapato direito, se não sabes o que vou fazer?»
Fiquei confuso: «Pai Natal! Acho que percebo as regras, mas há uma coisa que não entendo. Tu colocas o dinheiro nos sapatinhos antes de eu fazer a escolha. Como sabes quanto dinheiro vais colocar no sapato direito, se não sabes o que vou fazer?»
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«Pois aí é que te enganas. Eu tenho uma capacidade de previsão portentosa. Prevejo com certeza quase absoluta o que vais escolher. Já joguei esta partida com gente muito mais esperta do que tu e nunca me enganei. Fiz a mesma proposta ao Pedro Nunes, só que não era em euros, pois na altura a moeda era outra.»
«Pois aí é que te enganas. Eu tenho uma capacidade de previsão portentosa. Prevejo com certeza quase absoluta o que vais escolher. Já joguei esta partida com gente muito mais esperta do que tu e nunca me enganei. Fiz a mesma proposta ao Pedro Nunes, só que não era em euros, pois na altura a moeda era outra.»
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Pensei, pensei, e adormeci. O velhote das barbas brancas não voltou a aparecer. Chegou a véspera de Natal e pus os meus sapatinhos na chaminé. Deitei-me, contente, pensando que tinha descoberto a saída. Era fácil. Bastava-me escolher o segundo sapatinho — lá estaria o milhão de euros à minha espera. Que sorte que eu tinha! O velhote era mesmo fixe!
Pensei, pensei, e adormeci. O velhote das barbas brancas não voltou a aparecer. Chegou a véspera de Natal e pus os meus sapatinhos na chaminé. Deitei-me, contente, pensando que tinha descoberto a saída. Era fácil. Bastava-me escolher o segundo sapatinho — lá estaria o milhão de euros à minha espera. Que sorte que eu tinha! O velhote era mesmo fixe!
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Na manhã seguinte, os sapatinhos estavam remexidos. O Pai Natal tinha cumprido a sua promessa. Havia alguma dúvida que ia escolher o da direita e deitar fora o da esquerda!?
Na manhã seguinte, os sapatinhos estavam remexidos. O Pai Natal tinha cumprido a sua promessa. Havia alguma dúvida que ia escolher o da direita e deitar fora o da esquerda!?
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Nesse momento, parei. Sempre fui um bocado forreta e custava-me deitar fora o sapato da esquerda, onde de certeza estariam mil euros. E se ficasse com os dois?
Nesse momento, parei. Sempre fui um bocado forreta e custava-me deitar fora o sapato da esquerda, onde de certeza estariam mil euros. E se ficasse com os dois?
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Estava nesse dilema quando ouvi na minha cabeça a voz do Pai Natal — «já joguei esta partida com gente muito mais esperta do que tu»... Pois era, ele sabia prever. Se eu fosse escolher os dois sapatinhos ele tê-lo-ia previsto e não estaria o milhão no sapato direito. O melhor era não ser sovina e deitar fora o sapato esquerdo.
Estava nesse dilema quando ouvi na minha cabeça a voz do Pai Natal — «já joguei esta partida com gente muito mais esperta do que tu»... Pois era, ele sabia prever. Se eu fosse escolher os dois sapatinhos ele tê-lo-ia previsto e não estaria o milhão no sapato direito. O melhor era não ser sovina e deitar fora o sapato esquerdo.
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Mas, com um raio! Os dois sapatos já lá estavam, com o dinheiro lá dentro. O da esquerda tinha sempre mil euros. E o da direita, ou tinha um milhão ou não tinha. O melhor era ficar com os dois.
Mas, com um raio! Os dois sapatos já lá estavam, com o dinheiro lá dentro. O da esquerda tinha sempre mil euros. E o da direita, ou tinha um milhão ou não tinha. O melhor era ficar com os dois.
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Bloqueei. Se a escolha mais lógica fosse ficar com os dois, o Pai Natal sabia que era isso que eu faria e não teria posto nada no sapato direito. Mas como podia a escolha mais lógica ser aquela em que eu ficaria apenas com mil euros, podendo ficar com um milhão?
Bloqueei. Se a escolha mais lógica fosse ficar com os dois, o Pai Natal sabia que era isso que eu faria e não teria posto nada no sapato direito. Mas como podia a escolha mais lógica ser aquela em que eu ficaria apenas com mil euros, podendo ficar com um milhão?
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O dia de Natal passou, o Ano Novo entrou, e continuo sem saber o que fazer aos sapatinhos. Apanhou-me bem, o raio do velhote!
O dia de Natal passou, o Ano Novo entrou, e continuo sem saber o que fazer aos sapatinhos. Apanhou-me bem, o raio do velhote!
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O Pai Natal desta história chama-se William Newcomb. O paradoxo inventado por este físico foi difundido pelo filósofo norte-americano Robert Nozick em 1969 e gerou imediatamente uma discussão acesa. Lógicos, matemáticos, economistas e teólogos têm discutido possíveis soluções para o paradoxo, sem se vislumbrar um consenso.
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O problema tem sido aparentado ao célebre dilema do prisioneiro, à teoria do livre arbítrio face a um ser omnisciente, à irreversibilidade do tempo e a outras questões lógicas e filosóficas cruciais. São as ramificações e dificuldade de solução que fazem a vitalidade de um paradoxo. Não se espante pois, leitor, se ficou surpreso. Bom Ano Novo!
O problema tem sido aparentado ao célebre dilema do prisioneiro, à teoria do livre arbítrio face a um ser omnisciente, à irreversibilidade do tempo e a outras questões lógicas e filosóficas cruciais. São as ramificações e dificuldade de solução que fazem a vitalidade de um paradoxo. Não se espante pois, leitor, se ficou surpreso. Bom Ano Novo!
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 3 de Janeiro de 2009 (adapt.)
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 3 de Janeiro de 2009 (adapt.)
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Este post é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
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domingo, 4 de janeiro de 2009
FRANCISCO FERREIRA GOMES
Por Nuno Brederode Santos
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O ANO DE 2008 JÁ ESTIOLAVA por entre pequenas e rancorosas patetices, quando o Francisco Ferreira Gomes se foi embora daqui. Daqui, do maior aqui que existe. Por azar, foi-se embora horas antes, mas no mesmo dia em que o fez o António Alçada Baptista. Azar nosso, bem entendido, porque a coincidência lhe apagou a partida, mesmo que ele se estivesse bem nas tintas para isso. Mas nós, os seus amigos, teríamos gostado, ao menos, de um breve registo do facto. Três segundos de televisão ou uma soturna local na imprensa. Nada. O Xico que, ainda jovem, incutiu em tanta miudagem universitária algum gosto literário; que fez Direito sem querer ser advogado e, sendo um esteta, arriscou viver como executivo de uma multinacional (em cujo ramo português chegou ao topo). O Xico, cuja "nonchalance" povoou o humor de tanta gente e alimentou pequenas, mas duradouras, tertúlias; e cujas eficácia e entrega levaram Jorge Sampaio a confiar-lhe a direcção da campanha eleitoral para o seu segundo mandato. Esse Xico, o nosso Xico, foi-se como se a pedir licença.
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Quando um amigo se vai, a gente olha-se no espelho. Porque o próprio real é também um espelho, que corrige a imagem que devolve. Conforma-a, se não quisermos dizer que a deforma. Quando o vigor e a pureza nele se miram, o guerreiro vê cansaços e a virgem devassidões. Porque sabemos que não há Dorian Grays que nos roubem tempo ao tempo que já tivemos, nem feições poupadas ao amargo logro em que vivia a madrasta da Gata Borralheira. Mas não podemos impedir-nos de o ter, eliminá- -lo da nossa vida: da casa de banho ao elevador, passando pelo retrovisor do automóvel, ele salta-nos ao caminho, em sucessivas tocaias. E dá-nos o que talvez não queiramos, mas que mais não é do que o produto do que fomos sendo: então uma amizade traída, um desgosto de amor, uma causa sacrificada a circunstâncias menores e até décadas de usos e abusos do que o corpo aguenta, poderiam não turvar os olhos, não talhar sulcos na pele, não levar os cantos da boca à rendição?
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Sobre isto (mesmo que por palavras que não estas) conversei longamente com o Xico, durante uma noite castigadora dos nervos dessa campanha eleitoral, numa cervejaria da Rua das Portas de Santo Antão. Uma conversa em que o Xico foi o melhor de si, harmonizando uma imensa tolerância com os pequenos sarcasmos que o salvavam da santidade. As suas observações de homme du monde sobre os gestos, atitudes e intenções que subjazem aos comportamentos individuais, numa máquina política em pleno movimento, podiam rechear, para ilustração, um tratado sobre as pequenices da natureza humana. À visão de quem trazia vida nos bolsos, o Xico acrescentava a lucidez de não querer nada de um mundo que não desprezava, mas que, nos momentos próprios, para o bem e para o mal, tinha escolhido recusar. E a tudo isto acrescentava uma humildade intelectual que - coisa rara - foi aprendendo com a vida: outros, melhor do que eu, o saberão, mas o Xico que retenho da juventude era bem mais assertivo, e menos sábio e relativista, do que aquele que agora se oferecia aos outros.
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Depois disso e da vitória, foi uma longa ausência mútua, que só viria a ser interrompida, por generosa iniciativa dele, para um ano e meio de almoços quase, mas só quase, regulares, numa estupenda sucessão que a doença viria, sem aviso, interromper. A partir daí, tudo se cingiu a (creio que) duas visitas, de enorme e recíproco constrangimento, em sua casa. Em que o amigo era, cada vez mais, o que ia restando do amigo; e em que ele, cada vez mais longe, dava mostras de que o sabia muito bem.
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Absolvam-me de não me render aos caprichos do calendário, mas, em qualquer síntese do meu 2008, a memória do Francisco Ferreira Gomes estará lá. Este espaço não é um obituário. Mas convenhamos que só a paixão do adjectivo do dia e a volúpia de dissecar as ilusórias entranhas das paramécias da política corrente é que podem explicar o absoluto silêncio que rodeou a morte dele. Porque ele não foi apenas um amigo de todos quantos o mereceram. Foi alguém que, ainda por cima e pelos padrões dessa vulgaridade que é o código de vencedores que se instalou, o foi também.
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«DN» de 4 de Janeiro de 2009
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sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Ao segundo…
Por Antunes Ferreira
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O QUE É UM SEGUNDO? Para quem vive anonimamente a sua vida, não é nada. Poder-se-ia dizer nada de significativo, mas a expressão mais trivial e comezinha é a primeira. Queremos nós lá saber de um segundo? Dado adquirido é que sessenta fazem um minuto. E depois? Sessenta minutos também compõem uma hora e não se batem palmas por isso. Se o Einstein afirmou que tudo é relativo e nós acreditámos, como diria o Senhor de La Palice, tudo o que é relativo é… relativo.
O QUE É UM SEGUNDO? Para quem vive anonimamente a sua vida, não é nada. Poder-se-ia dizer nada de significativo, mas a expressão mais trivial e comezinha é a primeira. Queremos nós lá saber de um segundo? Dado adquirido é que sessenta fazem um minuto. E depois? Sessenta minutos também compõem uma hora e não se batem palmas por isso. Se o Einstein afirmou que tudo é relativo e nós acreditámos, como diria o Senhor de La Palice, tudo o que é relativo é… relativo.
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«Para quem tem pressa para ver o fim de 2008, uma má notícia: na quarta-feira da passagem do ano, à meia-noite, os "donos do tempo" acrescentarão um segundo ao ano que acaba, com o objectivo de ajustar a hora dos relógios ao tempo solar.»
Este é o início do texto distribuído pela France Press no dia 30 do falecido Dezembro de 2008. E foi mesmo assim. A população mundial não se deve ter apercebido, cós diabos, não se apercebeu dessa soma um tanto à sorrelfa que, por decisão de um tal Serviço Internacional da Rotação da Terra e dos Sistemas de Referências (IERS), cujo escritório central fica no Observatório de Paris. Falou e disse.
«Para quem tem pressa para ver o fim de 2008, uma má notícia: na quarta-feira da passagem do ano, à meia-noite, os "donos do tempo" acrescentarão um segundo ao ano que acaba, com o objectivo de ajustar a hora dos relógios ao tempo solar.»
Este é o início do texto distribuído pela France Press no dia 30 do falecido Dezembro de 2008. E foi mesmo assim. A população mundial não se deve ter apercebido, cós diabos, não se apercebeu dessa soma um tanto à sorrelfa que, por decisão de um tal Serviço Internacional da Rotação da Terra e dos Sistemas de Referências (IERS), cujo escritório central fica no Observatório de Paris. Falou e disse.
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Pensando bem, o culpado real deste acerto ao segundo é o movimento de rotação da Terra em torno do seu eixo. Coisa interessante. A ciência tem destas coisas. Pode o comum mortal, quase sempre desatento a estas minudências, estar sossegado. Os cientistas, esses, tal como os caçadores, estão de olho alerta e dedo no gatilho. E não falham, ao contrário dos devotos de Santo Huberto, que tantas vezes erram a pontaria.
Pensando bem, o culpado real deste acerto ao segundo é o movimento de rotação da Terra em torno do seu eixo. Coisa interessante. A ciência tem destas coisas. Pode o comum mortal, quase sempre desatento a estas minudências, estar sossegado. Os cientistas, esses, tal como os caçadores, estão de olho alerta e dedo no gatilho. E não falham, ao contrário dos devotos de Santo Huberto, que tantas vezes erram a pontaria.
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Por isso o acerto do segundo em causa na entrada do corrente. Veio, pois, atrasado, o 2009 que nos caiu em sorte. Toda a gente pressagiara que os 365 dias ora em curso seriam muito difíceis. Até o PR o afirmou na sua mensagem de Ano Novo. Um tanto repetitiva, já que uma quantidade substancial de políticos & correlativos fizera anteriormente o mesmo alerta. De Sócrates a Teixeira dos Santos, pelo menos. Até à hora em que é produzido este textículo, com x, não fora possível ao autor saber qual teria sido a posição do Professor Bambo. Mas, por certo, não desafinaria do tom geral.
Por isso o acerto do segundo em causa na entrada do corrente. Veio, pois, atrasado, o 2009 que nos caiu em sorte. Toda a gente pressagiara que os 365 dias ora em curso seriam muito difíceis. Até o PR o afirmou na sua mensagem de Ano Novo. Um tanto repetitiva, já que uma quantidade substancial de políticos & correlativos fizera anteriormente o mesmo alerta. De Sócrates a Teixeira dos Santos, pelo menos. Até à hora em que é produzido este textículo, com x, não fora possível ao autor saber qual teria sido a posição do Professor Bambo. Mas, por certo, não desafinaria do tom geral.
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Terá Nostradamus profetizado este segundo metediço e trapalhão? Terá Galileu feito parte da conjura? Será que a Pitonisa, em Delfos, também se terá conluiado com os restantes? Basta de perguntas e de elucubrações. Não se quer aqui desenhar uma associação de malfeitores cujo objectivo foi impedir a chegada atempada do imprevisível 2009. Mas lá que chegou – chegou.
Foi só um segundo. Embora. Coloque-se ao Bolt, ao Phelps, ao Obikwelu, só para citar alguns dos mais interessados, o que significa para eles essa unidade de tempo diminuta e responderão em termos de décimos e de centésimos, no mínimo. Mas, não vamos mais longe: e as partidas e chegadas dos comboios da CP? Terá Paris consultado a REFER? Tudo indica que não. Uma vez mais o anátema de País periférico? Quem sabe?
Terá Nostradamus profetizado este segundo metediço e trapalhão? Terá Galileu feito parte da conjura? Será que a Pitonisa, em Delfos, também se terá conluiado com os restantes? Basta de perguntas e de elucubrações. Não se quer aqui desenhar uma associação de malfeitores cujo objectivo foi impedir a chegada atempada do imprevisível 2009. Mas lá que chegou – chegou.
Foi só um segundo. Embora. Coloque-se ao Bolt, ao Phelps, ao Obikwelu, só para citar alguns dos mais interessados, o que significa para eles essa unidade de tempo diminuta e responderão em termos de décimos e de centésimos, no mínimo. Mas, não vamos mais longe: e as partidas e chegadas dos comboios da CP? Terá Paris consultado a REFER? Tudo indica que não. Uma vez mais o anátema de País periférico? Quem sabe?
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Quando o escriba namorava a actual cara-metade, um segundo de atraso ou, até, de adiantamento, não era tido em conta pela destinatária das atenções. Já um conjunto substancial de segundos acumulados era motivo de recriminação e, quiçá, do clássico já não gostas de mim como dantes. Ah grande Albert. Só tu compreendeste estes transes de Cupido atrasado por esquecimento das flechas.Pronto, não se fala mais nisso. Isso, no segundo em causa, minudência não despicienda, mas sem motivo para grandes reparos. Porra! Foi só um segundinho. Já se vêm os informáticos a clamar perante esta insensibilidade cibernética – e as bases de dados? E o espacial (um satélite pode percorrer vários quilómetros num segundo), e as redes de computador, e o GPS e a internet? Foi, por isso, indispensável que o Mundo todo acertasse os seus relógios no mesmo momento. De acordo com a gente do Observatório de Paris, o último reajustamento havia sido feito em 2005, e o próximo deve acontecer em 2012 ou 2013. Ver-se-á no que isto vai dar. Ainda que num País atrasado como é o nosso, um segundo de atraso é para rir a bandeiras despregadas. Que me desculpem os cientistas – mas somos assim.
Quando o escriba namorava a actual cara-metade, um segundo de atraso ou, até, de adiantamento, não era tido em conta pela destinatária das atenções. Já um conjunto substancial de segundos acumulados era motivo de recriminação e, quiçá, do clássico já não gostas de mim como dantes. Ah grande Albert. Só tu compreendeste estes transes de Cupido atrasado por esquecimento das flechas.Pronto, não se fala mais nisso. Isso, no segundo em causa, minudência não despicienda, mas sem motivo para grandes reparos. Porra! Foi só um segundinho. Já se vêm os informáticos a clamar perante esta insensibilidade cibernética – e as bases de dados? E o espacial (um satélite pode percorrer vários quilómetros num segundo), e as redes de computador, e o GPS e a internet? Foi, por isso, indispensável que o Mundo todo acertasse os seus relógios no mesmo momento. De acordo com a gente do Observatório de Paris, o último reajustamento havia sido feito em 2005, e o próximo deve acontecer em 2012 ou 2013. Ver-se-á no que isto vai dar. Ainda que num País atrasado como é o nosso, um segundo de atraso é para rir a bandeiras despregadas. Que me desculpem os cientistas – mas somos assim.
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quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
E, NO ENTANTO, É PRECISO SONHAR
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Por Baptista-Bastos
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OLHO LÁ PARA BAIXO e há muitas coisas, vozes, rostos e infâmias oblíquas que já foram. O tempo não mata as dores: adormece-as. Nada é para sempre. Chega-se ao fim do ano e os homens antigos e experimentados sabem que as lembranças adquirem uma simplicidade contrária ao ressentimento. Todavia, foi um áspero, infausto e rude ano, este, que vai embora.
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Houve uma época em que, com alvoroço e arfante ansiedade, escrevi: "A esperança tem sempre razão." O sonho andava à solta e eu ainda não aprendera a natureza dos perigos contidos no sonho. Mas havia sempre alguém sorrindo para mim e um horizonte luminoso à nossa espera. Reconheço, com tristeza, que a frase era um pouco imprudente, embora, talvez, nos lavasse moderadamente a alma.
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Chegamos a hoje e, num bulício de fé, repetimos os pedidos do ano passado, embalamos os desejos do último dia do último Dezembro, esquecidos de que a doçura e a clemência deixaram, há muito, de nos visitar. E, no entanto, é preciso não esquecer: este mundo seco, desabrido e falho de ternura, é o nosso chão, limitado pela geometria que traçámos, erguido pela greda com a qual o moldámos.
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O português acalenta um tédio minucioso, acaso desatento e pueril, e evoca, no remate de cada ano, um mundo que lhe foi hostil, na vaga crença de que o novo será melhor. Nunca foi. Entre a mediocridade e a nostalgia de uma falaciosa idade de ouro vivemos nessa ilusão patética gravada numa frase sem sentido: saudades do futuro. E, no entanto, é preciso ter ilusões; sonhar, porque não sonhar?, que, entre as esperas e as ausências, temos de construir a instância do desejo.
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O homem antigo e rodado que vos fala aprendeu que não existe limite de idade para o sonho, e que a volúpia de se estar preso a este mundo corresponde à nossa sede de eternidade. Se há lugar para a tristeza humana, também o há para a aspiração de felicidade que nos acalenta. Em qualquer idade procuramos um qualquer absoluto, uma ilusão fixada no eixo da nossa própria natureza, que tanto suporta a juventude como a velhice.
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No final do ano que aí vem, 2009, as aspirações deste ano, que fecha, serão aspirações velhas, sendo, embora, as mesmas, com ligeiras variantes. Queremos hoje o que quisemos há 12 meses. Um pensamento horrivelmente banal, um pequeno sopro de nostalgia, um meneio cheio de silêncio - e, afinal, um módico favor da vida. O que vai desaparecer é outra forma de morte de nós próprios.
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Olhamos lá para baixo e tudo parece perdido nas sombras e nos sossegos incautos de quem somente ambiciona esquecer, esquecer, esquecer, e dormir na paz sonhada de que o ano seguinte será melhor.
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Porém, ninguém sai inteiro de cada ano que fecha.
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«DN» de 31 de Dezembro de 2008. Este post é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
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