sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
As Relações entre a Igreja e o Estado
Por Maria Filomena Mónica
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HÁ MUITO QUE AS RELAÇÕES entre a Igreja e o Estado não são pacíficas. No século XIX, depois da expropriação dos bens religiosos, venceu o Estado. A fúria inicial da Santa Sé acabou por ser substituída por um modus vivendi tolerável para ambas as partes. No fim do século, o anti-clericalismo não parou de crescer, um rio de ódio que desembocou na República. Jacobino, o novo regime fez tudo o que pôde para humilhar a Igreja. Esta vingou-se: em 1926, os católicos venceram. O Estado Novo dar-lhes-ia praticamente tudo o que desejavam. Assim se viveu durante quarenta anos. Em 1974, veio o 25 de Abril. Prudentes, os socialistas – com destaque para Mário Soares – tentaram moderar os ímpetos anti-clericais de alguns sectores do partido. Em 1975, com meios legítimos e ilegítimos, a Igreja lutou contra a hegemonia comunista. Mas fomos poupados à violência anti-clerical da I República.
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O Partido Socialista decidiu incluir na sua agenda política algumas «questões fracturantes», de que a mais importante parece ser o casamento entre homossexuais. Não sou partidária do casamento. Na minha opinião, trata-se de uma instituição cuja data de validade tende a ser cada vez mais curta e cujo poder simbólico é patético. Não percebo qual o motivo que leva os «gays» a quererem casar à força.
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Em vez de insistirem neste ponto – que, diga-se, não condeno como tal – penso que, como os outros portugueses, deviam era lutar pela liberdade de testar. É aqui que o problema reside: se os bens são nossos, porque não nos autoriza o Estado a deixá-los a quem nos apetece? Ninguém pensa nisto, mas garanto que fosse outra a legislação, a sociedade portuguesa ganharia.
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Mantendo-me dentro da actualidade, devo ainda declarar que concordo com a revisão da Concordata. Aliás, esta já havia sido revista, em 1975, no que diz respeito a um ponto importante: o da proibição, até então estabelecida, de os cônjuges que se haviam casado na Igreja poderem, uma vez separados, voltar a casar-se pelo civil. Quanto ao ensino da religião, é matéria que deve ser deixada aos pais. A colocação de crucifixos nas salas de aula públicas não é legítima num Estado laico, mas não gostava de ver ressuscitada a histeria à volta da questão, pelo que espero que o assunto seja tratado com delicadeza. Quanto à existência de sacerdotes em hospitais e prisões, estou de acordo, desde que os doentes e presos não sejam sujeitos a pressões indevidas para usarem os serviços religiosos e que as suas crenças sejam respeitadas. Como gostava de lembrar Salazar, Portugal nasceu à sombra do Catolicismo, mas é hoje uma sociedade em que existem fés diversas.
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Finalmente, a secularização da sociedade portuguesa tem muitas causas, de que devemos salientar o rápido desaparecimento do campesinato. Quem saiu das serras dificilmente regressa ao conforto da mensagem religiosa. Desde há muito que a Europa – a que, sem o saber, pertencíamos – deixou de acreditar em Deus. As sociedades avançadas são hedonistas, individualistas e cépticas. Foi aliás por o saber que, em vésperas da adesão de Portugal à CEE, a Conferência Episcopal se pronunciou contra essa opção. Quanto às «vocações» sacerdotais é simples: antes da II Guerra Mundial, a única maneira de uma criança pobre ascender na vida, em Portugal, era através do seminário. Este cenário mudou. Para sorte de nós todos.
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
O Fim do casamento
I'm very happy together
This time it's gonna last
(Sparks)
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COMEÇO POR ESCLARECER que não sou católico, e que a minha profissão – a antropologia - é provavelmente aquela que mais estimula a compreensão das diferenças culturais e a adopção de posturas relativistas. E também esclareço que este esclarecimento não merece ser entendido como um refinamento da frase “Alguns dos meus melhores amigos até são gays, mas...”.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
O Desaparecimento de Maddie
COMO TODA A GENTE, tenho seguido [Set 2007] a história do desaparecimento de Madeleine McCann com um misto de curiosidade e de repulsa. Provavelmente por desconfiarem da qualidade da investigação criminal portuguesa, os McCann promoveram uma campanha mediática para encontrar a filha. A partir desse momento, o mundo não cessou de se interrogar sobre o que teria acontecido a Maddie. Até eu, que resisto a rumores, ouvi explicações que vão da tese de que o rapto fora o resultado das maquinações do Vaticano até outra que dizia ter a mãe, Kate, um amante que matara a criança. De início, o interesse por esta história pareceu-me mórbido. Mas a curiosidade tem raízes profundas.
O desaparecimento de um filho é, para uma mãe, o terror supremo. Recordo um dia, no final da década de 1960, em que fui à Caparica, na companhia dos meus filhos, teria ela seis e ele cinco anos. Devia ser de semana, porque a praia estava deserta. Depois de eu ter recusado o pedido de nos metermos no comboiozinho que atravessava as praias, o meu filho, que era dado a amuos, interrompeu a caminhada. Habituada a este tipo de cenas, continuei a andar, sabendo que, mais tarde ou mais cedo, teria de «desamuar», como eu designava o momento em que seria forçado a ceder.
A certa altura, parei no areal. Dele, não havia a mais leve sombra. Para o mar, não poderia ter ido, porque o teríamos visto passar. Corri, como louca, de um lado para o outro, até que a minha filha reparou em três barracas de lona, daquelas antigas com riscas, tendo uma delas o pano da frente para baixo. A medo, levantámos a cobertura. Dentro, armado em estátua, lá estava ele. O episódio não durara mais do que trinta minutos, mas nunca mais o esqueci. É por a história de Kate McCann ser ao mesmo tempo trágica e banal que nos toca desta forma.
Setembro de 2007.
Homens sem reino
A GOVERNAÇÃO ESTÁ EM BANHO-MARIA e José Sócrates anda pelo País a promover a moção que vai apresentar ao congresso do seu partido. No intervalo inaugura isto e aquilo, sempre coisas sem importância, e avisa que, futuramente, vêm aí toneladas de realizações destinadas à felicidade dos portugueses. Claro que quase ninguém acredita na suave bondade das promessas. Aliás, já quase ninguém acredita em nada. Mas aprendeu que a cupidez tem dado cobertura à mais ignara mediocridade. O panorama parece mavioso. O caso Freeport e as peripécias que envolvem o assunto Casa Pia transformaram as angústias quotidianas em factos desprezíveis. A verdade é que o Governo paralisou e os portugueses são homens sem reino. Despedidos aos milhares, tratados como subalternos, humilhados na mais rudimentar dignidade - sem que os seus gritos de desespero, as suas lágrimas excruciantes consigam congregar um feixe de energias.
Vemo-los e escutamo-los nas televisões, os retábulos modernos que condenam os homens e as mulheres a admitir o mundo tal como ele lhes é apresentado, e aprendemos que o medo impede tomadas de consciência e sufoca as manifestações da razão. Nada tem sido feito para inverter a tendência de uma crise nascida de um sistema em declínio. O Governo obedece, cegamente, às regras que tentam inserir-se no real, a fim de salvar o que sobra dos escombros. Cede à facilidade, e legitima decisões as mais asquerosas e danosas para a generalidade dos portugueses, apoiado numa maioria que, demonstradamente, não merece. Para que o embaraço continue, o ministro Santos Silva desencadeia novo alvoroço no partido, já de si tão ausente de convicções quanto repleto de oportunistas. Lembremo-nos de que o PS não pertence, apenas, ao "arco do poder": é uma agência de empregos, tal como o PSD. O conflito com Manuel Alegre resulta de um acto de má educação, infelizmente comum ao ministro dos Assuntos Parlamentares. Porém, a peça mais relevante deste berbicacho é um artigo do eng. Henrique Neto, publicado no Jornal de Leiria. O conhecido empresário socialista reafirma, claramente, que vivemos na indiferença porque o medo está presente e a presença do medo dá azo à resignação. Mas se o PS não serve, o PSD serve ainda menos. É o nosso drama, porque nos inculcaram a ideia de que não há alternativa. Claro que há. Mas será que isso nos tem sido explicado? A comunicação social, no seu todo, tem cumprido, de facto, as funções para as quais está destinada? Penso o contrário. Todavia, as derivas, os compromissos e as malfeitorias daqueles dois partidos não justificam a nossa atonia cívica, a nossa falta de comparência política e moral, a abjecção da nossa passividade.
«DN» de 11 de Fevereiro de 2009.
NOTA: Este post é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Ouvidos nos dedos
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SE O LEITOR EXPERIMENTAR sentir um cabelo com o tacto, por exemplo rolando-o entre os dois dedos, muito naturalmente conseguirá notá-lo. Feche os olhos e experimente. O diâmetro de um cabelo humano tem poucos centésimos de milímetro e os dedos conseguem senti-lo. Não há mais nenhuma parte do seu corpo capaz de o fazer.
Há muito que os especialistas se têm intrigado com essa capacidade sensorial. As linhas salientes das pontas dos dedos parecem ter um papel decisivo. Essas linhas, habitualmente chamadas cristas, são as projecções na superfície da pele das chamadas papilas dermo-epidérmicas. No seu topo, os ductos das glândulas sudoríparas abrem-se em poros, que são muito densos na ponta dos dedos e que os lubrificam constantemente. Só assim os nossos dedos conseguem desempenhar tão bem as funções de preensão e locomoção a que estamos habituados. Só assim, também, os dedos têm a extrema sensibilidade que o leitor terá acabado de notar.
Ao fazer a experiência, o leitor terá reparado também que é mais fácil sentir o cabelo ou um pequeno objecto se mexer os dedos. Isso acontece pois com esses movimentos a pequena pressão que o objecto faz vai-se fazendo sentir em partes diferentes da pele. Com um pouco de paciência, o leitor notará ainda que os dedos atingem uma sensibilidade óptima movendo-se a certa velocidade. Se rolar de novo o cabelo entre os dedos, reparará que nada consegue sentir se os mexer muito lentamente, tal como nada conseguirá sentir se os mover com grande rapidez.
Nos últimos anos, têm sido feitos grandes progressos na compreensão deste poder táctil. Percebeu-se que há dois mecanismos distintos. A percepção de objectos maiores, digamos, maiores que um quinto de milímetro, usa a variação de pressão sobre a pele e é mediada pela adaptação lenta dos nossos receptores mecânicos. Em contraste, para objectos menores, como é o caso dos cabelos, é necessário que os dedos se mexam, provocando vibrações mecânicas. Aqui entram em campo os chamados corpúsculos de Pacini, descobertos em 1835 pelo anatomista italiano Filippo Pacini (1812–1883). Há poucos anos, percebeu-se que esses finos órgãos sensoriais codificam as vibrações resultantes da passagem das cristas dos dedos pelos objectos, sendo mais sensíveis a oscilações na ordem dos 250 Hz, isto é, 250 oscilações por segundo.
Esta semana, num artigo publicado pela “Science”, quatro cientistas de um laboratório de física estatística da Universidade de Paris, relatam uma série de experiências e de cálculos que clarificam a forma como essa frequência aparentemente tão elevada é obtida pelos nossos dedos. O que acontece é que as cristas das pontas dos dedos, ao roçarem pelos objectos a determinada velocidade óptima, produzem vibrações cutâneas — som — que atingem essa frequência ou suas harmónicas (submúltiplos e múltiplos), entrando em ressonância com os corpúsculos de Pacini. Daí a necessidade de mexer os dedos a determinada velocidade.
De momento, as experiências são apenas feitas com modelos mecânicos e as conclusões tiradas por meio de cálculos típicos da análise matemática de sinal, sobre a possível modulação de frequências. Mas já se percebeu que temos uma espécie de ouvidos nas pontas dos dedos.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 7 de Fevereiro de 2009 (adaptado).
domingo, 8 de fevereiro de 2009
A DAR À CAUDA
«DN» de 8 de Fevereiro de 2009. NOTA: Este post é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
O Aquecimento Global
1.º - Matrioska ... 0 - BINGO!!!!
2.º - Ana ... 32
3.º - Do Ar ... 35
4.º - João Gaspar ... 56
5.º - Bernardo Moura ... 76
6.º - Miguel SCP ... 94
7.º - Susana ... 102
8.º - Sofia ... 114
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Procedimento seguinte:
Cada um dos leitores atrás referidos deverá, nas próximas 48h, escrever para sorumbatico@iol.pt listando, por ordem decrescente, os livros que lhe interessam (Matrioska, como ganhou, só precisa de indicar um...). Em seguida, eles serão atribuídos por ordem de preferência.
Os títulos são:
Vinhos e Queijos Portugueses
Cenas da Vida Conjugal (Ingmar Bergman)
Em Banho-Manel (Manuel L. Goucha)
Pequeno Roteiro Gastronómico de Portugal (F. H. Raposo)
O Desequilibrista (M.S. Lourenço)
Lauro António Apresenta...
Análise de "As Aventuras de Huckleberry Finn"
Operação Quac (W. Disney)
Actualização (7 Fev 09/21h29m): Neste momento, já só falta a escolha do livro e a morada de "Matrioska". Dado que o prazo termina amanhã à noite, os livros serão enviados, de qualquer forma, na segunda-feira de manhã (de acordo com os dados que houver nessa altura).
«A TROCA»
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O percurso de C.E. é admirável. Como actor, primeiro nos westerns-spaguetti de Sergio Leone, depois sobretudo nos filmes de Siegel, cujo ponto mais alto é a criação do inspector “Dirty” Harry, cujo papel lhe vai render mais três filmes, C.E. afirma-se como o último dos primitivos – numa galeria onde cabem John Wayne, Gary Cooper e Randolph Scott -, actores lacónicos e sóbrios, que viviam do magnetismo da sua presença e onde o acting era limitado ao essencial. Em 67 cria a sua própria companhia de produção, a Malpaso;, e, em 71, ano em que morre o pai, lança-se finalmente na realização, assinando westerns ou filmes de intriga policial onde só retrospectivamente é possível vislumbrar uma coerência e uma ambição.
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E, finalmente, aos 58 anos, com “Bird”, que lhe dá a possibilidade de ilustrar a vida de Charlie Parker, C.E. dá largas ao que são as duas grandes paixões da sua vida: o cinema e o jazz, e atrai definitivamente as atenções da crítica. Daí para a frente, ganha direito a escolher os temas que quer e constrói uma obra.
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Hoje é fácil perceber que este percurso, mesmo se não foi planeado, revela um desejo: o de fazer o ”seu” retrato da América, um retrato pós-fordiano, ou seja, o retrato da América depois da conquista do oeste e a da consolidação da União, uma América da miscigenação e também das perversões da “law and order”, do desprezo dos direitos, da paranóia do patriotismo, dos abusos imperialistas e das ameaças à liberdade; uma América da corrupção, do racismo, da violência e daquilo que é a sua obsessão maior: o abuso do poder.
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Mas o que faz do cinema americano o mais importante do mundo, e de C.E. o mais importante dos cineastas vivos é, como cidadão, a luta inabalável pela matriz liberal dos valores fundadores da nação americana e, como cineasta, a sua fé, também inabalável, na matriz aristotélica da ficção ocidental. Mas sobre isso, proponho-me falar para a semana, até porque C.E. e “A Troca” justificam que lhes dediquemos um pouco mais de atenção.
«Sol» de 17 de Janeiro de 2009
Vamos à primeira: porque é que o cinema americano é o mais importante do mundo (apesar de alguns extraordinários autores que povoaram a cinematografia europeia ou da crescente importância do cinema asiático)? Porque Hollywood manteve sempre uma fé inabalável na tradição republicana dos seus pais fundadores e na matriz liberal do seu sistema democrático: a liberdade, a justiça e o equilíbrio dos poderes, aquilo a que Lincoln chamou “o governo do povo pelo povo e para o povo”. .
Mesmo nos períodos de maior intervenção social, a denúncia das perversões e injustiças do funcionamento das instituições foram sempre feitos em nome desses valores. Capra, depois Brooks, Rossen, Dassin, ou seja, a geração dos anos 50, mais tarde Lumet e a “geração do Vietnam”, mais recentemente os cineastas do final da era Bush, assinaram filmes onde denunciavam os abusos do poder, a violência racista, a opressão social, as perversões da justiça ou a arrogância imperialista do seu país. O melhor exemplo e o mais recente desse cinema é precisamente CE. Mas (com excepção de um ou outro realizador comunista que, nos anos 50, atacando as raízes do capitalismo, pretendia abalar os alicerces da democracia liberal) nunca esses filmes puseram em causa o próprio sistema. Há uma espécie de consenso em Hollywood, que reflecte e consolida a consciência do homem comum, de que a liberdade é o valor supremo e a Declaração dos Direitos a Bíblia do sistema democrático. .
A segunda afirmação era que a popularidade do cinema americano está ligada ao facto de nunca ter contestado a sua origem aristotélica, o que implica o respeito pela estrutura dramática que o filósofo grego enunciou de uma vez por todas (os famosos três actos): um filme, como qualquer obra de ficção, tem necessariamente “um princípio, um meio e um fim” (e por esta ordem). Também nesse aspecto, CE é hoje o mais americano dos cineastas, na medida em que é o mais aristotélico. A ideia de que o cinema, e em geral a “arte moderna”, puseram em questão esta regra, é um embuste. No caso do cinema, tomemos o exemplo de dois cineastas - Welles e Rossellini - aos quais o epíteto de “moderno” é aplicado a torto e a direito, quando são, um e outro, dois dos mais sólidos cineastas aristotélicos. .
Mas há outra razão para evocar Aristóteles no caso de CE: nas palavras do autor da “Poética”, o espectáculo dramático deve provocar no espectador dois sentimentos propícios à catarsis: o terror e a compaixão. Quem não os reconhece em cada filme de CE?Eis um tema que me é caro: o autor como demiurgo. Mas isso, que me desculpe o leitor, terá ainda que ficar para a próxima semana. .
«Sol» de 24 de Janeiro de 2009
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QUE ME DESCULPEM OS LEITORES se eu já vou na terceira semana a escrever sobre “A Troca”, de Clint Eastwood (CE), mas o filme merece mais do que isso. CE filma a uma velocidade alucinante (já terminou outro filme, “Gran Torino”, que, diz-me quem o viu, é uma obra-prima), o que só pode acontecer, ou com um realizador comercial (que despacha encomendas com rapidez e eficácia), ou com os grandes autores quando atingem a maturidade, isto é, quando dominam os seus meios e encontraram o olhar justo sobre o mundo à sua volta. Tal como os grandes primitivos - Ford, Walsh, Hawks, Vidor -, que foram os primeiros a saber conviver com o sistema, CE conseguiu adquirir uma margem ilimitada de liberdade, respeitando as regras do jogo: um filme é um produto que se destina a satisfazer o máximo de espectadores no máximo de continentes..
Dizia eu na semana passada que CE, como qualquer grande cineasta, tinha atingido o estatuto do demiurgo. O realizador, como qualquer ficcionista, ocupa o lugar de Deus: não só cria os seus personagens e lhes atribui um papel num drama em que se jogam as grandes paixões - o amor e o ódio, o medo e o desejo, a vida e a morte -, como, sobretudo, é o senhor dos seus destinos. Diria mesmo que o que caracteriza os verdadeiros autores é essa capacidade de fazer justiça aos seus personagens: decidir, no final, quem merece salvar-se e quem merece ser condenado, quem não tem perdão, quem merece uma segunda chance, quem merece compaixão, quem merece ser exaltado e dado como exemplo. Numa palavra, como fez Dante na “Divina Comédia”, quem merece ir para o Inferno, para o Purgatório e para o Céu..
Durante anos interroguei-me sobre as razões que me levavam a admirar certos autores e certos filmes, e não outros: Preminger, Hawks, o Orson Welles tardio, o Renoir depois de “A Regra do Jogo” ou agora Clint Eastwood. E a razão é simples: um grande filme é aquele onde, a partir de um conflito irreparável, todos os personagens têm o que merecem. Não é esse, afinal, o segredo de “Casablanca”? .
Em “A Troca”, a partir do que é talvez o mais terrível dos conflitos - a perda de um filho – CE descreve-nos uma galeria de personagens cujo comportamento nos provoca horror e repulsa: mas, enquanto os polícias e o médico do Hospital não merecem perdão, porque a sua maldade é o resultado de uma escolha livre, o assassino das crianças é olhado como ininputável, pelo modo como CE dirige o actor e nos faz assistir ao lento calvário da sua morte na forca, e suscita, por isso, uma espécie de compaixão. .
Pela mão de CE, a mãe torna-se um personagem digno dos trágicos gregos. Que, no meio do seu desespero inconsolável, ela descubra, no fim, que o filho porventura morreu por ter tentado salvar o companheiro, eis uma bênção que CE lança, como um Deus misericordioso, sobre a sua heroína. O que é um grande filme senão um Juízo Final?
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«SOL» de 31 de Janeiro de 2009
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A Quadratura do Circo - Os tristíssimos portugueses
Por Pedro Barroso
O CENÁRIO JÁ É HABITUAL. Passa-se no meu bairro mas poderia acontecer em qualquer ponto do país. Música de fado em fundo. Coisa canalha, de faca e alguidar.
Abre o pano. A senhora que conversa ao balcão com o último e moribundo merceeiro de bairro não tem outra conversa, outra matéria. Ela lamenta-se. Choraminga, funga e expõe a sua vida sem pudor.
Não tem motivos, de resto, conforme pode ver-se, para se vangloriar de nada. A vida está difícil; a reforma não dá para os medicamentos; os filhos labutam lá longe; a neta, apesar de licenciada em não sei quê de recursos humanos, está desempregada; a casa está a cair mas o senhorio está mais pobre que ela e não tem dinheiro para fazer nada. As paredes da casa onde vive estão rachadas e os esgotos sem arranjo.
Enfim, a senhora tem razão. O seu ar triste e descuidado adivinha abluções matinais resumidas talvez motivadas pelo receio da conta do gás. A raiz dos cabelos revela o verdadeiro envelhecimento, mal disfarçado por um produto barato que tenta dar colorido ao penteado. A roupa é desabrigada para o frio que se faz sentir, e a pobre, além de lamuriar, pinga do nariz, curtindo uma imensa constipação. O quadro humano é triste, deprimente.
Por sua vez, o merceeiro está ao balcão, também ele tiritando, de luz apagada, pois conforme me confessou no outro dia, já não ganha nem para a luz estar acesa. Sem luz acesa, eu sinceramente, quando entro de fora não vejo nada dentro da mercearia e duvido que alguém assim tope o que quer que seja e se lembre, de repente, que já não tem água ou fósforos em casa. No outro dia explicou-me, entre lágrimas secas de um chorar de vida que já nem tem expressão nem consciência, que a máquina de cortar o fiambre avariou e já não vai encomendar mais nenhuma. Desistiu.
O povo do bairro, obviamente, por muita pena que sinta dele, também já desistiu de ir lá buscar o que quer que seja. Começou a não haver fruta de jeito, depois fiambre, um dia requeijão. Essa do requeijão, eu lembro. Era só à terça-feira e tinha de se encomendar. Um dia, um senhor bem-posto apareceu e encomendou dois para a terça-feira seguinte. Acontece que no dia aprazado não apareceu e o Sr. Saavedra, coitado, ficou com o prejuízo, pois na vizinhança ninguém se interessou por tal produto. Ainda hoje ele reconta a história, já lá vão 4 anos. Por aí se vê quanto foi importante para ele a perda de tão aparentemente insignificante negócio.
Mas do bairro passamos à cidade. Amarga a face dos comerciantes, em risco de fechar a porta. Triste o semblante dos utentes, enlatados nos autocarros da manhã. Amargo o humor dos intelectuais, fechados num beco entre a revolta e a incerteza. Ácida a reacção de governantes aos governados e ainda mais ácida a reacção dos governados aos governantes.
Por toda a parte gente maldisposta e contando histórias de desgraças. Os telejornais, um paradigma de infelicidades classificadas. O fogo no Verão; a neve no Inverno. A impotência dos Bombeiros num e noutro caso e um imbecil alto posto da Protecção Civil que diz que a culpa das estradas estarem cortadas pela neve é por estar a nevar demasiado.
Pois. Tussa! - Dizia o médico novato. - Tussa mais! E sentenciou com um ar sério: Pois; o seu problema é que o senhor está com muita tosse.
Um qualquer La Palisse de camuflado não diria melhor. Com efeito, os problemas que estamos a sentir são devidos ao mau tempo. E o mau tempo é devido, ao que parece, às grandes quantidades de precipitação, gelo, frio, neve e granizo e ao mau estado do mar. Que poderão classificar-se na generalidade como mau tempo. Brilhante círculo. Infelicidade, também.
Estamos, portanto, envolvidos por um pensar de crise, limitado, trágico, redondo e inútil mas inelutavelmente infeliz.
O senhor do Restaurante já não atende com aquele sorriso de antes. O segurança embirra com as chaves, o corta-unhas, o pente, tudo. As firmas e Ministérios, desconfiados, põem antipáticos torniquetes para controlo do pessoal. Outras firmas fecham sem autorização, em falências inesperadas e mandam fora o pessoal, sem justificação que se compreenda. Os desempregados, também eles, vão engrossar a fila dos infelizes. O tempo entristece. As guitarras gemem, mas o povo já não canta. Cala-se acabrunhado e sonha os impossíveis que hão-de vir.
Ser português, hoje, na cara deste país que não comprei, é o paradigma de um fado menor. Mal tocado, modorrento, baço. Vil, injusto, amargurado, dorido, farto de ser assim.
Garganta rouca de sofrer. Sem jeito.
Gozamos na lama de um viver sem alegrias, nem luxos, nem fantasia, nem excentricidade. À espera que o euromilhões no-la traga, um dia, conforme ajustado, numa manhã de nevoeiro.
Não contem comigo. Se me sair, emigro para um país alegre. Fica prometido.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
CRÓNICA DAS PALAVRAS
«DN» de 4 de Fevereiro de 2009. Este post é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Metro em hora de ponta
Por Alice Vieira
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“ACHAS que ele é o meu destino?”
A carruagem do metro vai cheia e eu penso que é bom - neste tempo de desgraças diárias, de fraudes verdadeiras e inventadas a rebentarem a toda a hora – haver alguém que, numa tarde de chuva, esteja mais interessado nos desígnios dos astros do que nas chatices terrenas.
“Achas que ele é o meu destino?”, repete, mas a amiga limita-se a encolher os ombros e então ela desata num discurso perfeitamente ininteligível, com números e mapas e conjunções de planetas e, com o ar sério das verdades indiscutíveis, garante à outra que nunca sabe em que tempo está, há alturas em que de repente é levada para 2034 (não sei se a data terá algum significado), e depois volta e depois recua séculos, sempre, sempre assim.
Mas agora o que verdadeiramente a aflige é saber se ele é ou não o seu destino. A conjunção astral diz-lhe que não, mas a dúvida persiste.
“Porque não lhe contas?”, pergunta.
Então a outra explode, contar como, ela não pode contar a ninguém o que sente, o que se passa com ela, ela tem aquele dom, “porque isto é um dom”, repete, “ viajar pelo tempo é um dom que muito poucos têm, e se eu contasse quem é que me acreditava?, ainda diziam que eu era doida”.
A outra até estremece, “credo!”, mas ela continua, “podes crer, por isso é que eu ando aqui tão calada, mas olha, há bocado tu não deste por nada mas eu não estava aqui! tu a falares comigo e eu sem te ouvir, muito longe!, mas depois voltei, tás a ver, agora estou aqui, mas não sei até quando”.
As pessoas estão todas a olhar para ela, que fala muito alto, e é claro que o segredo, que quer tão guardado, já está espalhado pela carruagem inteira, mas ela não percebe, ela continua naquela angústia, será ele o seu destino?
Porque se não for, diz, então tem de fugir, “não posso partilhar com ele um dom que é só de eleitos, e ele não é eleito”.
“Eleito por quem?”
A amiga decididamente está noutra onda, e ela irrita-se, “não percebes nada, pega mas é nos sacos, que saímos agora”.
Os que continuam viagem olham uns para os outros com aquele ar de cumplicidade que estas coisas geram sempre.
“Anda tudo doido…”, diz então um velho.
“O meu marido é que sabe”, murmura uma senhora ao seu lado, “ele diz que as pessoas andam assim por causa de uma coisa que há no ar e que a gente respira sem dar por isso…”
“Também já ouvi falar”, diz o velhote. “ Acho que é o buraco do ozono.”
”Isso”, diz ela, encostando a cabeça ao vidro, e fechando os olhos.
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«JN» de 1 de Fevereiro de 2009
O Regresso do FMI
Por J. L. Saldanha Sanches
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No entanto das duas vezes que interveio em Portugal o tosco diagnóstico do FMI e as medidas simplistas que nos obrigaram a aplicar resultaram. As mesmas medidas poderiam ter sido tomadas mais cedo, com menor intensidade e muito menores custos, mas não foram e tivemos que nos contentar com a consulta ambulante do FMI. À custa do aumento temporário do desemprego, da descida dos salários reais e da estagnação do produto, mas com resultados.
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Apenas porque o nosso sistema político não conseguiu tomar medidas mais adequadas e mais bem pensadas.
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As intervenções externas vêm quando a incapacidade de mudar de rumo e de adoptar políticas mais prudentes as torna indispensáveis. Nos acordos com o FMI eram as perturbações pós-25 de Abril. Agora os desequilíbrios têm a sua origem no aumento da despesa pública iniciada com Cavaco e o auge nos Governos Guterres. No falhanço estrondoso das políticas Barroso/Ferreira Leite para a redução do défice e da insuficiência das reformas – mais a crise internacional – do Governo Sócrates.
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A dificuldade de obter mais créditos para financiar a balança de pagamentos é a causa da intervenção: a família gastou demasiado e só resta a visita à casa de penhores e a ajuda amável e desinteressada do penhorista.
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Podemos consolarmo-nos a recordar o falhanço miserável da Standard & Poor’s na avaliação do risco da banca. Mas aquela gente do FMI ou dessas agências são apenas a face visível do mercado de capitais internacional a recordar que as dívidas têm que ser pagas e o consumo de bens e serviços do exterior tem que ser reduzido.
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Mesmo quando o escudo não pode ser desvalorizado porque já não existe: aquele corte brusco dos salários, dos lucros, dos juros e do valor de todos os activos expressos em escudos já não é possível, a cura vai ser mais lenta mas o endividamento não pode prosseguir.
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Contra nós e a nosso favor está o ambiente internacional: é muito mais difícil exportar na situação actual mas uma dívida elevada não é um problema muito original. É bom e mau para Portugal que haja situações ainda mais críticas e mais pigs (o I agora quer dizer Itália+Irlanda) do que se pensava. O Reino Unido não está muito longe. A Alemanha - o país sensato e aforrador - vai-se opor a qualquer solução que lhe pareça constituir o triunfo dos porcos mas precisa de mercados para exportar. A situação é má mas uma saída acabará por se desenhar. Tal como sucedeu nas crises do FMI.
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Adenda: se há coisa que não nos fazia falta é o nosso primeiro-ministro a braços com o Freeport. Em vez da satisfação perversa que costuma acompanhar estes casos o que vemos desta vez é um sentimento geral de depressão pela inoportunidade desta distracção.
Um Rapaz da Província
Por Maria Filomena Mónica
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NÃO SEI SE O ACTUAL Primeiro-Ministro está envolvido nas peripécias ligadas à construção do Freeport, mas estou ciente de três coisas: de entre os processos da Agência Portuguesa do Ambiente, a aprovação do último estudo ambiental deste empreendimento foi o mais rápido de sempre; os ingleses enviaram uma carta rogatória às autoridades portuguesas com base em que o eng. Sócrates é suspeito de ter «facilitado, pedido ou recebido» o pagamento de subornos; o eng. Cravinho, que pertence ao mesmo partido que o Primeiro-Ministro, quer saber o que terá levado um governo de gestão a tomar tal decisão, o que seria anti-constitucional.
Só agora, ao ter-me sido pedida uma opinião, comecei a juntar as peças de um puzzle. A primeira coisa que notei, quando o Primeiro-Ministro tomou posse, foi a opacidade do seu olhar. Em parte, pensei que tal se devia ao facto de viver num limbo em que aquilo que diziam os seus documentos nem sempre ser real. Sócrates nasceu no Porto, mas os pais decidiram registá-lo em Vilar de Maçada; o seu apelido não é Sócrates, mas Carvalho Pinto de Sousa. Até aqui, só tangencialmente tem culpa e muito menos é responsável pela família materna – tio e primos – saída de uma telenovela latino-americana.
Sócrates teve menos contacto com esta parte da família do que com a paterna. Em 1955, o pai casara com Adelaide de Carvalho Monteiro, cujos ascendentes tinham ganho algum dinheiro com a venda de volfrâmio. Devido à vida nómada do marido, os pais separaram-se, tendo este filho ficado a viver na Covilhã. O rapaz não tardou a considerar que a província era demasiado pacata. Mesmo as madrugadas em que comia chouriços assados, de pernas cruzadas no chão, o enchiam de tédio. Isto para não falar dos estudos: terminou o liceu com 13 valores.
Em Coimbra, matriculou-se no recém-criado Instituto Superior de Engenharia de Coimbra (ISEC), por onde viria a obter, mais uma vez com nota medíocre, o grau de bacharel. Como diria: «Aos vinte e um anos, eu tinha tirado o sétimo ano, tinha estado quatro anos em Engenharia, também não queria ser muito engenheiro, mas era melhor ser engenheiro do que não ser», após o que acrescentava: «Eu esperei que a vida me surpreendesse, esperei pelo meu Sol».
Antes, teve de assinar projectos de construção feitos por outros, com o objectivo de transformar barracões horrendos em mansões ainda mais horrendas. Ao que me dizem, trata-se de um costume nacional, o que nada explica nem desculpa, uma vez que nunca se devem assinar coisas que não são da nossa autoria. Começavam as trafulhices. Vieram outras. Embora o seu «curriculum» fosse confuso e mais confusa ainda a Universidade que lhe dera o diploma, resolveu promover-se a engenheiro.
Na política, fez parte da geração criada em redoma dentro dos aparelhos partidários. A sua única experiência profissional era a de técnico da Câmara da Covilhã, para onde, na década de 1980, havia sido levado pelo pai. Depois, foi deputado, Secretário de Estado e Ministro do Ambiente e, a 15 de Julho de 2004, candidatou-se, com êxito, à liderança do Partido Socialista. A 12 de Março do ano seguinte, era convidado a formar governo. Por fim, o Sol alumiava-o. Até hoje. Já agora, agradeço que não pensem que tenho ilusões sobre os meus compatriotas: os que berram contra a corrupção são, por vezes, os que mais a praticam. Simplesmente, não gostam que «eles», os de cima, também o façam. Pode parecer injusto, mas é assim a vida.
«Jornal de Negócios», de 30 de Janeiro de 2009
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Já que falámos dos CTT...
Livros não reclamados (e outros seis)

Até às 20h próximo dia 6 serão aqui sorteados (pelo infalível processo do "quanto pesam?") os livros-prémio que não foram reclamados pelos seus vencedores, acrescidos de cinco oferecidos pelo leitor Carlos Antunes e de um outro (que se vê em cima) alusivo a um famoso tio - não menos prodigioso do que o do passatempo de ontem.Palavras
domingo, 1 de fevereiro de 2009
O GRITO E A VOZ
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sábado, 31 de janeiro de 2009
«O Tio Prodigioso» e outros títulos
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Marchar, marchar
Por Antunes Ferreira
(…) UM HOMEM QUE TINHA PELO MENOS quatro filhos em três anos!... Era quase um partido! As palavras são de Gervásio Lobato, no seu «Lisboa em Camisa» de 1890. A tradição do anátema sobre os partidos políticos vem de longe, em Portugal. Poder-se-á dizer – e muito correctamente – que não é só no nosso País. Mas, como disse Clement Attle no Parlamento britânico, respondendo ao primeiro-ministro Churchill, «com o mal dos Alemães, não impedimos que nos bombardeiem». Ou seja, o ditado «com o mal dos outros podemos nós» nem é inédito, nem é original.
O ditador de Santa Comba tinha ódio aos partidos – e afirmava do alto da cátedra de São Bento, que os Portugueses estavam completamente desiludidos com eles. E revoltados contra eles. Este é apenas um exemplo do que nos habituámos a ouvir dizer – e a dizer. Estar contra os partidos é estar contra a Democracia. Porque, por piores que sejam ou estejam, sem eles não existe.
Veja-se: em 1851, o duque de Saldanha, esse mesmo, o da praça, fundou com mais uns quantos políticos o Partido Regenerador. O rotativismo da monarquia constitucional portuguesa tinha nele um dos pólos da política. O outro era o Partido Progressista. Consultem-se as actas da Câmara de então e ver-se-á o que cada um dizia do outro. E pode-se também ler o que os cidadãos diziam de ambos. Para quê mais referências?
Neste momento de aperto – estamos certificados e diplomados neste particular – a tecla é repetidamente batida: os culpados disto tudo são os políticos e os partidos. Isto apesar de não nos termos, todos, apercebido do que é uma verdadeira crise. Ou, pior: os que dela têm consciência (e não são tão poucos assim) agem como se ela não existisse. Ou fingem.
Será que no fingir é que está o gato? Sim, e a todos os níveis. Pessoa escreveu que «o poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir a dor, a dor que deveras sente». Dando de barato que somos um país de poetas, por que bulas na política não haveria de cumprir-se esta sentença? Andamos todos a fingir? Sim, é assim. Os que fingem que sabem – e os que fingem que não sabem. Que raio de gente tínhamos de ser…
Dentre os diversos casos que decorrem, uma vez mais se diz haver motivo para se acusar partidos e políticos. José Sócrates é um mentiroso total e permanente, e, agora, sabe-se, corrupto - afirma-se. Que põe em causa o PS, pelo menos. E o partido com sede no Rato é um ninho de víboras que escolheu para o chefiar um tal crápula – acusa-se.
Manuela Ferreira Leite é uma inconveniente praticante que, de cada vez que abre a boca, dá tiros diversos nos próprios pés, mas igualmente no PSD – comenta-se. E, cós diabos, andavam a dormir os militantes laranjas quando a levaram a presidente do partido? – pergunta-se? A tese do Morfeu partidário é chefiada pelo antecessor da economista, o médico Luís Filipe Menezes – relembra-se.
Mas parece que os dorminhocos são espécie que recheia os partidos. Com algumas, poucas excepções? No PCP? No BE? Nestes, o que se diz sobre os sonos e eventuais ressonares não sai a terreiro – constata-se. São, tão só, dois exemplos. Se confirmam a regra, ou não, é questão a avaliar oportunamente, com as devidas cautelas e de posse dos elementos comprovativos. A este propósito, cartas rogatórias are not welcome.
Sendo assim, continuamos com o folhetim de Alcochete em velocidade acelerada. A pool position já foi há uns anitos. A bandeira axadrezada é que ainda não foi agitada. Nem se sabe quando será. Somos assim, contra os partidos. E contra os políticos. Marchar, marchar.













