sábado, 14 de fevereiro de 2009

O mau uso do português

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Por Alice Vieira
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PRONTO, LÁ VOU EU BATER OUTRA VEZ no ceguinho do costume, mas que é que querem, estas questões do mau uso da nossa língua, ou de um certo desamor com que ela é tratada - a sério que me tiram do sério (como se diria certamente numa qualquer telenovela brasileira onde, regra geral, se fala bem melhor português do que nas nossas…)
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Eu sei que para a maior parte das pessoas isto não tem importância rigorosamente nenhuma, não nos vai tirar da crise, não vai resolver o problema do desemprego, nem sequer nos protege do buraco do ozono.
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Mas a língua portuguesa é património nacional — e se andamos sempre todos tão entusiasmados em votações para eleger o melhor monumento, ou a maior maravilha do mundo, por que não nos lembramos de defender com igual vigor a utilização correcta da língua que, afinal, é o que a todos nos une?
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Basta ler os jornais e revistas, basta ouvir o que se diz nas televisões, basta ler legendas em filmes ou séries, basta ouvir o discurso de pessoas com responsabilidades na matéria para percebermos a que ponto vai o descalabro.
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Ainda há dias o jornalista Joaquim Vieira, provedor dos leitores do “Público”, enchia uma página inteira só de reparos a mau português usado naquele jornal. É caso para dizer, nunca as mãos lhe doam…
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Foi exactamente o que eu pensei há dias quando, sentada na plateia do Coliseu, no intervalo da “Giselle” interpretada pelo Ballet Nacional da Moldávia, comecei a folhear o programa do espectáculo.
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Papel couché, brilhante, oito folhas com meia dúzia de fotografias e pouco texto.
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Quem quis o programa, teve de dar por ele 4 euros, que a vida está difícil para todos.
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Claro que o programa de um espectáculo não tem as mesmas responsabilidades de um jornal, mas, caramba!, tínhamos pago 4 euros por ele (mais do que por um programa habitual dos concertos da Gulbenkian, e esses sempre com muita , e cuidada, informação), o mínimo que devíamos exigir era um texto em português escorreito.
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Infelizmente não encontrei em lado algum o nome do seu autor, e tive pena.
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Logo a começar, Adolphe Adam é-nos apresentado como “um proliferado compositor”, o que não augura nada de bom…
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Depois, no libreto, ficamos a saber que o príncipe se transforma em camponês ”sobre o pseudónimo de Loys”.
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Uma das personagens — dizem-nos também - é descoberta “no linear da meia-noite”.
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A qual, no fim de tudo, acaba por sucumbir de “exaustam”.
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Dir-me-ão: ah, afinal há só quatro erros…
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Respondo: não devia haver nenhum.
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Dir-me-ão outra vez: ah, se calhar o texto estava escrito em moldavo …
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Respondo: se calhar estava mas, uma vez que tinha de ser traduzido, a tradução devia ter sido feita com rigor.
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E, já agora, com um revisor competente.
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«JN» de 15 de Fevereiro de 2009. NOTA: Este post é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

A bomba da festa

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Por Antunes Ferreira
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«O ANTIGO DIRIGENTE DO PSD, Ângelo Correia, disse hoje (quinta-feira) que, se dependesse dele, a presidente do partido, Manuela Ferreira Leite, saía já amanhã da direcção social-democrata. Ainda assim, em entrevista ao Rádio Clube, sustentou que se devem cumprir as regras internas que definem os prazos a cumprir pela direcção (dois anos), pelo que pede apenas à actual líder que avalie se tem condições para se manter no cargo».
«Ângelo Correia, no programa Politicamente, apelou a Ferreira Leite que analise se tem condições para continuar à frente do PSD, na sequência nas sondagens negativas publicadas este mês e que apontam para uma nova descida do partido e da popularidade da líder».
«Para o antigo dirigente “é fundamental um líder ter uma boa equipa” e a actual não tem “virtualidades políticas suficientes”:
“Quem tem virtualidades políticas nesta equipa está silencioso e quem não tem fala de mais e estão outros que não têm nem uma coisa nem outra”, sublinhou. Segundo Ângelo Correia, Ferreira Leite “não beneficia com isso e a direcção do partido ressente-se”».
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Declaro, desde já e em abono da verdade, que o texto que antecede não foi escrito, muito menos publicado, por mim. É do Público. Mais declaro que, como é natural, não alinho com o Eng. Ângelo Correia. Declaro ainda que, como também é sabido, nada tenho a ver com o PPD/PSD, dado que sou militante do PS – ainda que, actualmente, sem grande nem pequena militância. Aliás, sem nenhuma.
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Sem pretender transformar este escrito num auto de declarações – e muito menos em auto de fé… - tenho ainda de aditar que não simpatizo com a Dr.ª Manuela Ferreira Leite. Vejam lá, desde os meus anos de liceu e, naturalmente, os dela, ainda que frequentássemos escolas diferentes, pois naquele tempo o chamado Estado Novo impunha a discriminação sexual no ensino. Tenho de ser mais objectivo: não gosto mesmo nada da Senhora. É dos livros: gostos não se discutem. Sim ou não, afasto o talvez.
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Mas, com mil macacos, a gente lá pelas bandas da Rua de São Caetano à Lapa podia abrandar os ataques à sua própria a líder (ainda?). Há tão pouco tempo que a elegeram e já parece que foi há séculos, dados o constante tiroteio interno que lhe é apontado. Manuela Ferreira Leite, para o Partido laranja, é um alvo. Precisando: é o alvo.
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Desde Luís Filipe Menezes até Ângelo Correia, passando por Marcelo Rebelo de Sousa e Pedro Passos Coelho, ela tornou-se, para além do alvo, a verdadeira bomba da festa dos sociais-democratas (?). Sem pretender copiar o ministro Augusto Santos Silva, «malham» nela, a torto e a direito. Um real «é fartar vilanagem», com todas as letras.
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O Baptista-Bastos acaba de escrever uma análise em que apelida Marcelo Rebelo de Sousa de lança-chamas. E os outros? Ia para escrever todos os outros, mas não pretendo ser mais papista do que o Papa. Há indefectíveis, como em toda a parte. Por vezes, poucos. Mas, bons. Serão bombardeiros de napalm?
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Dir-me-ão que também pelos frequentadores do largo do Rato as coisas não andam melhor. Que o Edmundo Pedro inclusive falou em medo dentro do partido. Penso que também não vão bem muitos dos meus camaradas socialistas. Mas, neste particular, limito-me a fazer minhas as palavras do Descartes – cogito, ergo sum. Que o mesmo é dizer - penso, logo existo.
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Porém, pelo andar da carruagem, no PSD é mais o dubito, ergo cogito, ergo sum. As dúvidas são incontáveis.
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NOTA: Este post é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Passatempo «O Livro das Superstições» - Solução

A pág. 13 de «O Livro das Superstições» tem 73 palavras

As Relações entre a Igreja e o Estado

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Por Maria Filomena Mónica
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HÁ MUITO QUE AS RELAÇÕES entre a Igreja e o Estado não são pacíficas. No século XIX, depois da expropriação dos bens religiosos, venceu o Estado. A fúria inicial da Santa Sé acabou por ser substituída por um modus vivendi tolerável para ambas as partes. No fim do século, o anti-clericalismo não parou de crescer, um rio de ódio que desembocou na República. Jacobino, o novo regime fez tudo o que pôde para humilhar a Igreja. Esta vingou-se: em 1926, os católicos venceram. O Estado Novo dar-lhes-ia praticamente tudo o que desejavam. Assim se viveu durante quarenta anos. Em 1974, veio o 25 de Abril. Prudentes, os socialistas – com destaque para Mário Soares – tentaram moderar os ímpetos anti-clericais de alguns sectores do partido. Em 1975, com meios legítimos e ilegítimos, a Igreja lutou contra a hegemonia comunista. Mas fomos poupados à violência anti-clerical da I República.
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O Partido Socialista decidiu incluir na sua agenda política algumas «questões fracturantes», de que a mais importante parece ser o casamento entre homossexuais. Não sou partidária do casamento. Na minha opinião, trata-se de uma instituição cuja data de validade tende a ser cada vez mais curta e cujo poder simbólico é patético. Não percebo qual o motivo que leva os «gays» a quererem casar à força.
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Em vez de insistirem neste ponto – que, diga-se, não condeno como tal – penso que, como os outros portugueses, deviam era lutar pela liberdade de testar. É aqui que o problema reside: se os bens são nossos, porque não nos autoriza o Estado a deixá-los a quem nos apetece? Ninguém pensa nisto, mas garanto que fosse outra a legislação, a sociedade portuguesa ganharia.
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Mantendo-me dentro da actualidade, devo ainda declarar que concordo com a revisão da Concordata. Aliás, esta já havia sido revista, em 1975, no que diz respeito a um ponto importante: o da proibição, até então estabelecida, de os cônjuges que se haviam casado na Igreja poderem, uma vez separados, voltar a casar-se pelo civil. Quanto ao ensino da religião, é matéria que deve ser deixada aos pais. A colocação de crucifixos nas salas de aula públicas não é legítima num Estado laico, mas não gostava de ver ressuscitada a histeria à volta da questão, pelo que espero que o assunto seja tratado com delicadeza. Quanto à existência de sacerdotes em hospitais e prisões, estou de acordo, desde que os doentes e presos não sejam sujeitos a pressões indevidas para usarem os serviços religiosos e que as suas crenças sejam respeitadas. Como gostava de lembrar Salazar, Portugal nasceu à sombra do Catolicismo, mas é hoje uma sociedade em que existem fés diversas.
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Finalmente, a secularização da sociedade portuguesa tem muitas causas, de que devemos salientar o rápido desaparecimento do campesinato. Quem saiu das serras dificilmente regressa ao conforto da mensagem religiosa. Desde há muito que a Europa – a que, sem o saber, pertencíamos – deixou de acreditar em Deus. As sociedades avançadas são hedonistas, individualistas e cépticas. Foi aliás por o saber que, em vésperas da adesão de Portugal à CEE, a Conferência Episcopal se pronunciou contra essa opção. Quanto às «vocações» sacerdotais é simples: antes da II Guerra Mundial, a única maneira de uma criança pobre ascender na vida, em Portugal, era através do seminário. Este cenário mudou. Para sorte de nós todos.

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Blogue «Sorumbático» – 13 Fevereiro de 2009
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Passatempo «Os 200 Anos de Darwin» - Solução

É na página 101 que o nome de Lamarck aparece na 20.ª linha e o de Darwin na 21.ª

O Fim do casamento

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Por Manuel João Ramos
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I married myself
I'm very happy together

This time it's gonna last

(Sparks)
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COMEÇO POR ESCLARECER que não sou católico, e que a minha profissão – a antropologia - é provavelmente aquela que mais estimula a compreensão das diferenças culturais e a adopção de posturas relativistas. E também esclareço que este esclarecimento não merece ser entendido como um refinamento da frase “Alguns dos meus melhores amigos até são gays, mas...”.
A minha apreensão em relação a toda a polémica em torno do chamado “casamento gay” deriva sobretudo do facto de parecer haver uma conspiração de silêncio colectiva em relação ao princípio da universalidade, basilar em qualquer edifício legislativo, que recomenda que se legisle o interesse particular em conformidade com o interesse geral e com outros interesses particulares.
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Há treze anos, o ensaísta Charles Krauthammer escreveu um interessante artigo na revista Time, onde considerava juridicamente indefensável discriminar positivamente a união homossexual no momento de alargar as fronteiras conceptuais do casamento. Isto porque, lembrava ele, a consequência lógica da extensão do âmbito legal de forma a abarcar os interesses de casais homossexuais, em nome do direito à não discriminação de opções individuais ou culturais, em sociedades “multi” ou “pós” culturais, deveria ser a abolição dos princípios de monogamia e de proibição de incesto.
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Dito de outro modo, ao pormos em causa a concepção de que o casamento tradicional ocidental é uma união entre duas pessoas de sexo oposto sem laços familiares próximos, em nome do reconhecimento de direitos particulares, estaremos a discriminar arbitrariamente entre uniões homossexuais e uniões polígamas e incestuosas.
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Mais recentemente, Krauthammer escreveu outro artigo no Washington Post, desta vez a propósito das actuais polémicas envolvendo as pretensões de legalização da poligamia nos Estados Unidos. Aí, afirma que o surgimento destas novas fórmulas de casamento são o sintoma, e não a causa, do esboroar do matrimónio tradicional perante a prevalência de ideologias individualistas radicais.
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Seguindo esta linha de raciocínio, aquilo que os legisladores, opinadores e políticos portugueses deveriam actualmente estar discutir não é a legitimidade do casamento gay mas sim se este deve ser autorizado sem legalizar também a união incestuosa entre parentes de primeiro grau e a união poligâmica (ou melhor, poliamorosa). A razão é a seguinte, e foi sublinhada por Krauthammer: a justificação mais geralmente aceite para a primeira proibição é a eventualidade de dele resultar uma prole geneticamente anómala. Já a premissa monogâmica assenta numa justificação cultural e não biológica: a poligamia não só carece de fundamento normativo no mundo ocidental por não ser suportada por preceitos religiosos, ao contrário da lei islâmica, mas exprime uma assimetria estatutária entre homens e mulheres, inadmissível no direito ocidental. Assim, preceitos e crenças religiosas à parte, os defensores do casamento gay deverão, por maioria de razão e em nome do princípio de universalidade do direito, defender toda a união incestuosa de que não resulte uma prole geneticamente enfraquecida e toda a união poliamorosa que não promova assimetria entre sexos.
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A legalização do casamento gay implica contestar o princípio do casamento tradicional, definido como uma união entre dois indivíduos de sexos opostos e sem laços consanguíneos. Então, a lei resultante não deverá distinguir entre o direito de dois indivíduos do mesmo sexo, não aparentados entre si, a casar e adoptar filhos, e o direito de três indivíduos consanguíneos e do mesmo sexo à união matrimonial e à adopção. Dito de outro modo, será lógica e juridicamente inadmissível a legalização do casamento homossexual, caso se recuse o seu corolário mais extremo – nomeadamente, o casamento homossexual incestuoso poligâmico.
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Se colocamos em causa um dos critérios definidores da noção de casamento (o facto de ser uma união entre sexos opostos), então que justificação lógica e jurídica haverá para não descartarmos todos os outros (nomeadamente, o facto de ser uma união restrita a dois indivíduos não consanguíneos)?
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O mais curioso, e diríamos paradoxal, em toda esta polémica é a insistência com que as ideologias individualistas radicais, subjacentes ao casamento gay, se afirmam como bandeiras da esquerda, e não da direita.
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NOTA: Este post é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

Passatempo «Polvo Negro» - solução

A resposta é "Q", da palavra "quase".

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

200 anos de Darwin - Prémio alternativo


Prémio alternativo para o Passatempo 200 anos de Darwin

200 anos de Darwin - Passatempo com prémio

Contracapa do livro-prémio anunciado no Sorumbático
A propósito de cabalas, urdiduras, conspirações, cruzadas, campanhas negras...
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Um exemplar deste livro será enviado ao primeiro leitor que acerte na resposta à seguinte pergunta: qual a 1.ª letra da 2.ª palavra do 3.º parágrafo do 4.º capítulo?
Cada leitor poderá dar uma única resposta, terminando o passatempo (que não tem data-limite) quando a resposta certa for dada.
O passatempo terminou, dado que a resposta certa (letra "Q") acaba de ser dada por Catarina - ver [aqui] -, que tem agora 48h para escrever para sorumbatico@iol.pt indicando morada para envio do livro. Obrigado a todos/as!

O Desaparecimento de Maddie

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Por Maria Filomena Mónica
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COMO TODA A GENTE, tenho seguido [Set 2007] a história do desaparecimento de Madeleine McCann com um misto de curiosidade e de repulsa. Provavelmente por desconfiarem da qualidade da investigação criminal portuguesa, os McCann promoveram uma campanha mediática para encontrar a filha. A partir desse momento, o mundo não cessou de se interrogar sobre o que teria acontecido a Maddie. Até eu, que resisto a rumores, ouvi explicações que vão da tese de que o rapto fora o resultado das maquinações do Vaticano até outra que dizia ter a mãe, Kate, um amante que matara a criança. De início, o interesse por esta história pareceu-me mórbido. Mas a curiosidade tem raízes profundas.
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O desaparecimento de um filho é, para uma mãe, o terror supremo. Recordo um dia, no final da década de 1960, em que fui à Caparica, na companhia dos meus filhos, teria ela seis e ele cinco anos. Devia ser de semana, porque a praia estava deserta. Depois de eu ter recusado o pedido de nos metermos no comboiozinho que atravessava as praias, o meu filho, que era dado a amuos, interrompeu a caminhada. Habituada a este tipo de cenas, continuei a andar, sabendo que, mais tarde ou mais cedo, teria de «desamuar», como eu designava o momento em que seria forçado a ceder.
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A certa altura, parei no areal. Dele, não havia a mais leve sombra. Para o mar, não poderia ter ido, porque o teríamos visto passar. Corri, como louca, de um lado para o outro, até que a minha filha reparou em três barracas de lona, daquelas antigas com riscas, tendo uma delas o pano da frente para baixo. A medo, levantámos a cobertura. Dentro, armado em estátua, lá estava ele. O episódio não durara mais do que trinta minutos, mas nunca mais o esqueci. É por a história de Kate McCann ser ao mesmo tempo trágica e banal que nos toca desta forma.
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Setembro de 2007.
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Homens sem reino

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Por Baptista-Bastos
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A GOVERNAÇÃO ESTÁ EM BANHO-MARIA e José Sócrates anda pelo País a promover a moção que vai apresentar ao congresso do seu partido. No intervalo inaugura isto e aquilo, sempre coisas sem importância, e avisa que, futuramente, vêm aí toneladas de realizações destinadas à felicidade dos portugueses. Claro que quase ninguém acredita na suave bondade das promessas. Aliás, já quase ninguém acredita em nada. Mas aprendeu que a cupidez tem dado cobertura à mais ignara mediocridade. O panorama parece mavioso. O caso Freeport e as peripécias que envolvem o assunto Casa Pia transformaram as angústias quotidianas em factos desprezíveis. A verdade é que o Governo paralisou e os portugueses são homens sem reino. Despedidos aos milhares, tratados como subalternos, humilhados na mais rudimentar dignidade - sem que os seus gritos de desespero, as suas lágrimas excruciantes consigam congregar um feixe de energias.
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Vemo-los e escutamo-los nas televisões, os retábulos modernos que condenam os homens e as mulheres a admitir o mundo tal como ele lhes é apresentado, e aprendemos que o medo impede tomadas de consciência e sufoca as manifestações da razão. Nada tem sido feito para inverter a tendência de uma crise nascida de um sistema em declínio. O Governo obedece, cegamente, às regras que tentam inserir-se no real, a fim de salvar o que sobra dos escombros. Cede à facilidade, e legitima decisões as mais asquerosas e danosas para a generalidade dos portugueses, apoiado numa maioria que, demonstradamente, não merece. Para que o embaraço continue, o ministro Santos Silva desencadeia novo alvoroço no partido, já de si tão ausente de convicções quanto repleto de oportunistas. Lembremo-nos de que o PS não pertence, apenas, ao "arco do poder": é uma agência de empregos, tal como o PSD. O conflito com Manuel Alegre resulta de um acto de má educação, infelizmente comum ao ministro dos Assuntos Parlamentares. Porém, a peça mais relevante deste berbicacho é um artigo do eng. Henrique Neto, publicado no Jornal de Leiria. O conhecido empresário socialista reafirma, claramente, que vivemos na indiferença porque o medo está presente e a presença do medo dá azo à resignação. Mas se o PS não serve, o PSD serve ainda menos. É o nosso drama, porque nos inculcaram a ideia de que não há alternativa. Claro que há. Mas será que isso nos tem sido explicado? A comunicação social, no seu todo, tem cumprido, de facto, as funções para as quais está destinada? Penso o contrário. Todavia, as derivas, os compromissos e as malfeitorias daqueles dois partidos não justificam a nossa atonia cívica, a nossa falta de comparência política e moral, a abjecção da nossa passividade.
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«DN» de 11 de Fevereiro de 2009.

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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Ouvidos nos dedos

Por Nuno Crato
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SE O LEITOR EXPERIMENTAR sentir um cabelo com o tacto, por exemplo rolando-o entre os dois dedos, muito naturalmente conseguirá notá-lo. Feche os olhos e experimente. O diâmetro de um cabelo humano tem poucos centésimos de milímetro e os dedos conseguem senti-lo. Não há mais nenhuma parte do seu corpo capaz de o fazer.
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Há muito que os especialistas se têm intrigado com essa capacidade sensorial. As linhas salientes das pontas dos dedos parecem ter um papel decisivo. Essas linhas, habitualmente chamadas cristas, são as projecções na superfície da pele das chamadas papilas dermo-epidérmicas. No seu topo, os ductos das glândulas sudoríparas abrem-se em poros, que são muito densos na ponta dos dedos e que os lubrificam constantemente. Só assim os nossos dedos conseguem desempenhar tão bem as funções de preensão e locomoção a que estamos habituados. Só assim,
também, os dedos têm a extrema sensibilidade que o leitor terá acabado de notar.
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Ao fazer a experiência, o leitor terá reparado também que é mais fácil sentir o cabelo ou um pequeno objecto se mexer os dedos. Isso acontece pois com esses movimentos a pequena pressão que o objecto faz vai-se fazendo sentir em partes diferentes da pele. Com um pouco de paciência, o leitor notará ainda que os dedos atingem uma sensibilidade óptima movendo-se a certa velocidade. Se rolar de novo o cabelo entre os dedos, reparará que nada consegue sentir se os mexer muito lentamente, tal como nada conseguirá sentir se os mover com grande rapidez.
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Nos últimos anos, têm sido feitos grandes progressos na compreensão deste poder táctil. Percebeu-se que há dois mecanismos distintos. A percepção de objectos maiores, digamos, maiores que um quinto de milímetro, usa a variação de pressão sobre a pele e é mediada pela adaptação lenta dos nossos receptores mecânicos. Em contraste, para objectos menores, como é o caso dos cabelos, é necessário que os dedos se mexam, provocando vibrações mecânicas. Aqui entram em campo os chamados corpúsculos de Pacini, descobertos em 1835 pelo anatomista italiano Filippo Pacini (1812–1883). Há poucos anos, percebeu-se que esses finos órgãos sensoriais codificam as vibrações resultantes da passagem das cristas dos dedos pelos objectos, sendo mais sensíveis a oscilações na ordem dos 250 Hz, isto é, 250 oscilações por segundo.
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Esta semana, num artigo publicado pela “Science”, quatro cientistas de um laboratório de física estatística da Universidade de Paris, relatam uma série de experiências e de cálculos que clarificam a forma como essa frequência aparentemente tão elevada é obtida pelos nossos dedos. O que acontece é que as cristas das pontas dos dedos, ao roçarem pelos objectos a determinada velocidade óptima, produzem vibrações cutâneas — som — que atingem essa frequência ou suas harmónicas (submúltiplos e múltiplos), entrando em ressonância com os corpúsculos de Pacini. Daí a necessidade de mexer os dedos a determinada velocidade.
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De momento, as experiências são apenas feitas com modelos mecânicos e as conclusões tiradas por meio de cálculos típicos da análise matemática de sinal, sobre a possível modulação de frequências. Mas já se percebeu que temos uma espécie de ouvidos nas pontas dos dedos.

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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 7 de Fevereiro de 2009 (adaptado).
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domingo, 8 de fevereiro de 2009

A DAR À CAUDA

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Por Nuno Brederode Santos
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PARECE O CACIMBO AFRICANO, mas não é. É um capacete de humidade que abafa e que o paisano não estranha, tanta é a chuvinha que nos vai gelando os ossos. Mas acresce-lhe uma espécie de fuligem, daquela que nos devorava a garganta, quando, no Verão, a Malveira ardia. Não tenho explicação, mas incomoda. Só que, como tantos outros percalços da existência, não tem remédio ao nosso alcance.
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Sondei a Sara, o canídeo iluminado que devotou prazenteiramente a oportunidade, que a vida é, a disfrutar a sucessão dos seus momentos. Há entre nós uma afinidade filosófica. Mas foi em vão. Ansiosa e obsessiva, ela grudou-se ao fluir do tempo, à espera da eventual entrada de uma prima de sangue na Casa Branca. (Digo "prima" porque um senhor vizinho que, prudentemente, transferiu para a criação canina os rigores do sangue azul, asseverou que a Sara é a versão andaluza da eleita. Por mim, está bem. Porque, com Cervantes e Unamuno e outras prendas, a tanto monta o meu iberismo). Levantou os olhos por entre a franja preta e despejou em mim o antiquíssimo enfado dos animais domésticos perante donos que, para eles, o são também. Decidi, por isso, resignar-me. Porque é esse o exercício de que mais sólida tarimba guarda esta velha linhagem de rei, capitão, soldado, ladrão, menina bonita e os demais, em que me incluo. E deixei-a nos seus milenares langores mediterrânicos.
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Mas, se ouvir um médico, diz-me que saia de casa. E que ande muito e coma bróculos e deixe de fumar. Nada de novo, além de que nunca entenderei por que hei-de ser eu a pagar as más notícias. Se fizer um protesto oficial, ainda é pior. Desde logo, porque Deus não me ouve (e eu não posso censurá-lO, porque não sou um retribuinte exemplar). Depois, porque me sujeitava a tomadas de posição públicas da meteorologia, do Governo, dos partidos da oposição, do site de Santana Lopes e, com sorte, de um despacho-editorial de Alberto João Jardim. Se não merecesse até uma atroadora ambiguidade do Presidente da República, que logo me prantaria na mesa dos programas televisivos de debate. De ideias, creio.
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Perdido por mil, passei aos jornais. E dei com "PSD acusa sondagens de manipulação política". No texto de Paula Sá, "o PSD tinha prometido que não iria reagir a sondagens. Mas não resistiu" perante a da SIC e RR de sexta-feira, também publicada no Expresso de sábado. Agostinho Branquinho, "director executivo das campanhas do partido," reage, em jeito varonil: "Ou há manipulação ou essas campanhas não são de confiança." Claro que já meio mundo assinalou a consistência desses números da Eurosondagem - ou da tendência que revelam - com os demais, da Aximagem e da Intercampus, revelados na mesma mãozinha cheia de quarenta e oito horas (fora da qual, até se lhe podiam juntar outros números e indícios). Mas o mais surpreendente é aquela disjuntiva. Ou há manipulação ou não são de confiança. À primeira vista, poder-se-ia até pensar que, havendo manipulação, seriam de confiança. Ou que só havendo a confiança, que é do seu pessoalíssimo e discricionário critério, é que uma sondagem está isenta de suspeitas de manipulação. O critério, reconheço, é tentador: tivesse-me eu lembrado dele e já me teria feito muito jeito nos cruzamentos anónimos da minha vida privada. Mas o facto é que nem me ocorreu e o mérito vai inteirinho para esse olhar vigilante de rapace com que Agostinho Branquinho observa o mundo à nossa volta. A coisa tem tradição: Santana Lopes, na campanha eleitoral em que o PSD se atolou e perdeu, chegou a notificar a humanidade de que iria processar judicialmente as agências que davam números parecidos. E só o imenso fair-play que o partido assumiu na derrota é que as livrou do cumprimento da ameaça. Felizmente, a democracia vive muito de sabermos perdoar os factos irreversíveis. Mas tudo isto, repito, é à primeira vista. Só que eu não tenho aqui espaço, nem agora tempo, para uma segunda.
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Por isso, voltei atrás e contei à Sara. Sem mexer a cabeça, ela levantou os olhos, no mesmo jeito displicente com que me ouvira há bocado. Mas, agora, fez-se Lassie, Milou ou Rim-Tim-Tim, e deu à cauda.
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«DN» de 8 de Fevereiro de 2009. NOTA: Este post é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O Aquecimento Global

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Por Maria Filomena Mónica
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NÃO HÁ MELHOR MANEIRA de acreditar numa teoria do que sentir os seus efeitos na pele. De cada vez que alguém me falava de aquecimento global, respondia que isso mais não era do que o substituto ideológico para quem tinha perdido a fé em Deus. Foi neste espírito que li a recente notícia de que a União Europeia, pela voz de José Sócrates, pretendia chegar, até 2012, a um acordo pós-Quioto, penalizando a emissão dos GEE (gases de efeito de estufa). Os EUA e a China não recuarão provavelmente na sua vontade de fazer o que lhes apetece. O mesmo não sucede comigo.
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Perguntar-me-ão qual a razão desta epifania. A resposta é simples: a presença de traças em casa. Há alguns meses, fui a uma entrevista na televisão, envergando uma camisola preta de que me orgulhava. Quando lá cheguei, a maquilhadora de serviço fez-me notar as dezenas de pequenos orifícios que tinham transformado aquela peça numa renda. Ao chegar a casa, verifiquei que as minhas camisolas - as melhores - tinham sido todas atacadas. Para além do desperdício, irritou-me a snobeira dos insectos, patente no facto de desprezarem o acrílico, concentrando-se na cashemira.
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De início, atribui o facto ao meu desleixo. De facto, não colocara cânfora, nem naftalina, nem sacos de lavanda nos armários. Eis que, depois de ter enchido a casa de produtos químicos, a invasão prosseguiu, pelo que tive de recorrer a uma empresa da especialidade. Mas a coisa não resultou. Estava já desesperada quando, por acaso, li um artigo em que se afirmava que, devido ao aquecimento global do planeta, as traças haviam entrado num processo de crescimento exponencial: em vez de se reproduzirem apenas uma vez por ano, fazem-no agora a triplicar. Estou portanto num dilema: ou convivo com as traças, o que é impossível, ou aqueço ainda mais o planeta com o uso do spray, o que é indesejável. Antes de me penalizar, o engº Sócrates tem de resolver o problema das traças.
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Setembro de 2007
Peso: 1856 g
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O nome dos 8 leitores que mais se aproximaram desse valor será aqui indicado em breve, juntamente com a forma de atribuir os prémios. Até já!
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Actualização (22h00m): Se não me enganei nas contas, a classificação foi a seguinte (indicam-se, a seguir aos nomes, os valores dos erros, em gramas):

1.º - Matrioska ... 0 - BINGO!!!!

2.º - Ana ... 32

3.º - Do Ar ... 35

4.º - João Gaspar ... 56

5.º - Bernardo Moura ... 76

6.º - Miguel SCP ... 94

7.º - Susana ... 102

8.º - Sofia ... 114

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Procedimento seguinte:

Cada um dos leitores atrás referidos deverá, nas próximas 48h, escrever para sorumbatico@iol.pt listando, por ordem decrescente, os livros que lhe interessam (Matrioska, como ganhou, só precisa de indicar um...). Em seguida, eles serão atribuídos por ordem de preferência.

Os títulos são:

Vinhos e Queijos Portugueses

Cenas da Vida Conjugal (Ingmar Bergman)

Em Banho-Manel (Manuel L. Goucha)

Pequeno Roteiro Gastronómico de Portugal (F. H. Raposo)

O Desequilibrista (M.S. Lourenço)

Lauro António Apresenta...

Análise de "As Aventuras de Huckleberry Finn"

Operação Quac (W. Disney)

Actualização (7 Fev 09/21h29m): Neste momento, já só falta a escolha do livro e a morada de "Matrioska". Dado que o prazo termina amanhã à noite, os livros serão enviados, de qualquer forma, na segunda-feira de manhã (de acordo com os dados que houver nessa altura).

«A TROCA»

Por António-Pedro Vasconcelos
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TODA A GENTE DEVIA TIRAR DUAS HORAS na sua vida para ir ver o último opus de Clint Eastwood (C.E.): “A Troca”. O antigo cow-boy dos filmes de Sergio Leone tornou-se o último grande autor do cinema americano - como Almodovar é o último grande autor do lado de cá do Atlântico. Há dias, escrevi nesta coluna um artigo onde questionava o que é um mestre. É altura de discorrer sobre o que é um autor. Não há mestres que não sejam autores, mas há autores que não são mestres. C.E. pode não ser um mestre; o seu estilo não se distingue em muito do estilo de Ford, que, juntamente com Hawks, fixou os códigos do clacissismo americano, ou mesmo de Don Siegel, com quem ele aprendeu a filmar. Mas C.E. é indiscutivelmente um autor, porque tem uma obra: cada filme é uma peça num conjunto a partir do qual é possível identificar um estilo e um discurso.
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O percurso de C.E. é admirável. Como actor, primeiro nos westerns-spaguetti de Sergio Leone, depois sobretudo nos filmes de Siegel, cujo ponto mais alto é a criação do inspector “Dirty” Harry, cujo papel lhe vai render mais três filmes, C.E. afirma-se como o último dos primitivos – numa galeria onde cabem John Wayne, Gary Cooper e Randolph Scott -, actores lacónicos e sóbrios, que viviam do magnetismo da sua presença e onde o acting era limitado ao essencial. Em 67 cria a sua própria companhia de produção, a Malpaso;, e, em 71, ano em que morre o pai, lança-se finalmente na realização, assinando westerns ou filmes de intriga policial onde só retrospectivamente é possível vislumbrar uma coerência e uma ambição.
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E, finalmente, aos 58 anos, com “Bird”, que lhe dá a possibilidade de ilustrar a vida de Charlie Parker, C.E. dá largas ao que são as duas grandes paixões da sua vida: o cinema e o jazz, e atrai definitivamente as atenções da crítica. Daí para a frente, ganha direito a escolher os temas que quer e constrói uma obra.
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Hoje é fácil perceber que este percurso, mesmo se não foi planeado, revela um desejo: o de fazer o ”seu” retrato da América, um retrato pós-fordiano, ou seja, o retrato da América depois da conquista do oeste e a da consolidação da União, uma América da miscigenação e também das perversões da “law and order”, do desprezo dos direitos, da paranóia do patriotismo, dos abusos imperialistas e das ameaças à liberdade; uma América da corrupção, do racismo, da violência e daquilo que é a sua obsessão maior: o abuso do poder.
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Mas o que faz do cinema americano o mais importante do mundo, e de C.E. o mais importante dos cineastas vivos é, como cidadão, a luta inabalável pela matriz liberal dos valores fundadores da nação americana e, como cineasta, a sua fé, também inabalável, na matriz aristotélica da ficção ocidental. Mas sobre isso, proponho-me falar para a semana, até porque C.E. e “A Troca” justificam que lhes dediquemos um pouco mais de atenção.
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«Sol» de 17 de Janeiro de 2009
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NA SEMANA PASSADA, deixei em aberto duas questões, a propósito do mais recente filme de Clint Eastwood (CE): “A Troca”. Uma dizia respeito à eminência do cinema americano, a outra à importância da obra de CE. .

Vamos à primeira: porque é que o cinema americano é o mais importante do mundo (apesar de alguns extraordinários autores que povoaram a cinematografia europeia ou da crescente importância do cinema asiático)? Porque Hollywood manteve sempre uma fé inabalável na tradição republicana dos seus pais fundadores e na matriz liberal do seu sistema democrático: a liberdade, a justiça e o equilíbrio dos poderes, aquilo a que Lincoln chamou “o governo do povo pelo povo e para o povo”. .

Mesmo nos períodos de maior intervenção social, a denúncia das perversões e injustiças do funcionamento das instituições foram sempre feitos em nome desses valores. Capra, depois Brooks, Rossen, Dassin, ou seja, a geração dos anos 50, mais tarde Lumet e a “geração do Vietnam”, mais recentemente os cineastas do final da era Bush, assinaram filmes onde denunciavam os abusos do poder, a violência racista, a opressão social, as perversões da justiça ou a arrogância imperialista do seu país. O melhor exemplo e o mais recente desse cinema é precisamente CE. Mas (com excepção de um ou outro realizador comunista que, nos anos 50, atacando as raízes do capitalismo, pretendia abalar os alicerces da democracia liberal) nunca esses filmes puseram em causa o próprio sistema. Há uma espécie de consenso em Hollywood, que reflecte e consolida a consciência do homem comum, de que a liberdade é o valor supremo e a Declaração dos Direitos a Bíblia do sistema democrático. .

A segunda afirmação era que a popularidade do cinema americano está ligada ao facto de nunca ter contestado a sua origem aristotélica, o que implica o respeito pela estrutura dramática que o filósofo grego enunciou de uma vez por todas (os famosos três actos): um filme, como qualquer obra de ficção, tem necessariamente “um princípio, um meio e um fim” (e por esta ordem). Também nesse aspecto, CE é hoje o mais americano dos cineastas, na medida em que é o mais aristotélico. A ideia de que o cinema, e em geral a “arte moderna”, puseram em questão esta regra, é um embuste. No caso do cinema, tomemos o exemplo de dois cineastas - Welles e Rossellini - aos quais o epíteto de “moderno” é aplicado a torto e a direito, quando são, um e outro, dois dos mais sólidos cineastas aristotélicos. .

Mas há outra razão para evocar Aristóteles no caso de CE: nas palavras do autor da “Poética”, o espectáculo dramático deve provocar no espectador dois sentimentos propícios à catarsis: o terror e a compaixão. Quem não os reconhece em cada filme de CE?Eis um tema que me é caro: o autor como demiurgo. Mas isso, que me desculpe o leitor, terá ainda que ficar para a próxima semana. .

«Sol» de 24 de Janeiro de 2009

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QUE ME DESCULPEM OS LEITORES se eu já vou na terceira semana a escrever sobre “A Troca”, de Clint Eastwood (CE), mas o filme merece mais do que isso. CE filma a uma velocidade alucinante (já terminou outro filme, “Gran Torino”, que, diz-me quem o viu, é uma obra-prima), o que só pode acontecer, ou com um realizador comercial (que despacha encomendas com rapidez e eficácia), ou com os grandes autores quando atingem a maturidade, isto é, quando dominam os seus meios e encontraram o olhar justo sobre o mundo à sua volta. Tal como os grandes primitivos - Ford, Walsh, Hawks, Vidor -, que foram os primeiros a saber conviver com o sistema, CE conseguiu adquirir uma margem ilimitada de liberdade, respeitando as regras do jogo: um filme é um produto que se destina a satisfazer o máximo de espectadores no máximo de continentes..

Dizia eu na semana passada que CE, como qualquer grande cineasta, tinha atingido o estatuto do demiurgo. O realizador, como qualquer ficcionista, ocupa o lugar de Deus: não só cria os seus personagens e lhes atribui um papel num drama em que se jogam as grandes paixões - o amor e o ódio, o medo e o desejo, a vida e a morte -, como, sobretudo, é o senhor dos seus destinos. Diria mesmo que o que caracteriza os verdadeiros autores é essa capacidade de fazer justiça aos seus personagens: decidir, no final, quem merece salvar-se e quem merece ser condenado, quem não tem perdão, quem merece uma segunda chance, quem merece compaixão, quem merece ser exaltado e dado como exemplo. Numa palavra, como fez Dante na “Divina Comédia”, quem merece ir para o Inferno, para o Purgatório e para o Céu..

Durante anos interroguei-me sobre as razões que me levavam a admirar certos autores e certos filmes, e não outros: Preminger, Hawks, o Orson Welles tardio, o Renoir depois de “A Regra do Jogo” ou agora Clint Eastwood. E a razão é simples: um grande filme é aquele onde, a partir de um conflito irreparável, todos os personagens têm o que merecem. Não é esse, afinal, o segredo de “Casablanca”? .

Em “A Troca”, a partir do que é talvez o mais terrível dos conflitos - a perda de um filho – CE descreve-nos uma galeria de personagens cujo comportamento nos provoca horror e repulsa: mas, enquanto os polícias e o médico do Hospital não merecem perdão, porque a sua maldade é o resultado de uma escolha livre, o assassino das crianças é olhado como ininputável, pelo modo como CE dirige o actor e nos faz assistir ao lento calvário da sua morte na forca, e suscita, por isso, uma espécie de compaixão. .

Pela mão de CE, a mãe torna-se um personagem digno dos trágicos gregos. Que, no meio do seu desespero inconsolável, ela descubra, no fim, que o filho porventura morreu por ter tentado salvar o companheiro, eis uma bênção que CE lança, como um Deus misericordioso, sobre a sua heroína. O que é um grande filme senão um Juízo Final?
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«SOL» de 31 de Janeiro de 2009

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NOTA: Este post é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

A Quadratura do Circo - Os tristíssimos portugueses

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Por Pedro Barroso

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O CENÁRIO JÁ É HABITUAL. Passa-se no meu bairro mas poderia acontecer em qualquer ponto do país. Música de fado em fundo. Coisa canalha, de faca e alguidar.
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Abre o pano. A senhora que conversa ao balcão com o último e moribundo merceeiro de bairro não tem outra conversa, outra matéria. Ela lamenta-se. Choraminga, funga e expõe a sua vida sem pudor.
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Não tem motivos, de resto, conforme pode ver-se, para se vangloriar de nada. A vida está difícil; a reforma não dá para os medicamentos; os filhos labutam lá longe; a neta, apesar de licenciada em não sei quê de recursos humanos, está desempregada; a casa está a cair mas o senhorio está mais pobre que ela e não tem dinheiro para fazer nada. As paredes da casa onde vive estão rachadas e os esgotos sem arranjo.
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Enfim, a senhora tem razão. O seu ar triste e descuidado adivinha abluções matinais resumidas talvez motivadas pelo receio da conta do gás. A raiz dos cabelos revela o verdadeiro envelhecimento, mal disfarçado por um produto barato que tenta dar colorido ao penteado. A roupa é desabrigada para o frio que se faz sentir, e a pobre, além de lamuriar, pinga do nariz, curtindo uma imensa constipação. O quadro humano é triste, deprimente.
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Por sua vez, o merceeiro está ao balcão, também ele tiritando, de luz apagada, pois conforme me confessou no outro dia, já não ganha nem para a luz estar acesa. Sem luz acesa, eu sinceramente, quando entro de fora não vejo nada dentro da mercearia e duvido que alguém assim tope o que quer que seja e se lembre, de repente, que já não tem água ou fósforos em casa. No outro dia explicou-me, entre lágrimas secas de um chorar de vida que já nem tem expressão nem consciência, que a máquina de cortar o fiambre avariou e já não vai encomendar mais nenhuma. Desistiu.
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O povo do bairro, obviamente, por muita pena que sinta dele, também já desistiu de ir lá buscar o que quer que seja. Começou a não haver fruta de jeito, depois fiambre, um dia requeijão. Essa do requeijão, eu lembro. Era só à terça-feira e tinha de se encomendar. Um dia, um senhor bem-posto apareceu e encomendou dois para a terça-feira seguinte. Acontece que no dia aprazado não apareceu e o Sr. Saavedra, coitado, ficou com o prejuízo, pois na vizinhança ninguém se interessou por tal produto. Ainda hoje ele reconta a história, já lá vão 4 anos. Por aí se vê quanto foi importante para ele a perda de tão aparentemente insignificante negócio.
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Mas do bairro passamos à cidade. Amarga a face dos comerciantes, em risco de fechar a porta. Triste o semblante dos utentes, enlatados nos autocarros da manhã. Amargo o humor dos intelectuais, fechados num beco entre a revolta e a incerteza. Ácida a reacção de governantes aos governados e ainda mais ácida a reacção dos governados aos governantes.
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Por toda a parte gente maldisposta e contando histórias de desgraças. Os telejornais, um paradigma de infelicidades classificadas. O fogo no Verão; a neve no Inverno. A impotência dos Bombeiros num e noutro caso e um imbecil alto posto da Protecção Civil que diz que a culpa das estradas estarem cortadas pela neve é por estar a nevar demasiado.
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Pois. Tussa! - Dizia o médico novato. - Tussa mais! E sentenciou com um ar sério: Pois; o seu problema é que o senhor está com muita tosse.
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Um qualquer La Palisse de camuflado não diria melhor. Com efeito, os problemas que estamos a sentir são devidos ao mau tempo. E o mau tempo é devido, ao que parece, às grandes quantidades de precipitação, gelo, frio, neve e granizo e ao mau estado do mar. Que poderão classificar-se na generalidade como mau tempo. Brilhante círculo. Infelicidade, também.
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Estamos, portanto, envolvidos por um pensar de crise, limitado, trágico, redondo e inútil mas inelutavelmente infeliz.
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O senhor do Restaurante já não atende com aquele sorriso de antes. O segurança embirra com as chaves, o corta-unhas, o pente, tudo. As firmas e Ministérios, desconfiados, põem antipáticos torniquetes para controlo do pessoal. Outras firmas fecham sem autorização, em falências inesperadas e mandam fora o pessoal, sem justificação que se compreenda. Os desempregados, também eles, vão engrossar a fila dos infelizes. O tempo entristece. As guitarras gemem, mas o povo já não canta. Cala-se acabrunhado e sonha os impossíveis que hão-de vir.
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Ser português, hoje, na cara deste país que não comprei, é o paradigma de um fado menor. Mal tocado, modorrento, baço. Vil, injusto, amargurado, dorido, farto de ser assim.
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Garganta rouca de sofrer. Sem jeito.
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Gozamos na lama de um viver sem alegrias, nem luxos, nem fantasia, nem excentricidade. À espera que o euromilhões no-la traga, um dia, conforme ajustado, numa manhã de nevoeiro.
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Não contem comigo. Se me sair, emigro para um país alegre. Fica prometido.
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Imagem obtida [aqui].
Este post é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

CRÓNICA DAS PALAVRAS

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Por Baptista-Bastos
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HÁ MUITO SE PERDEU a noção de que as palavras têm honra. Políticos servem-se delas para mentir, ocultar, dissimular a verdade dos factos e as evidências da realidade. Mas também escritores e jornalistas as debilitam e as entregam às suas pessoais negligências. Não é, somente, uma questão de gramática e de estilo; mas é, também, uma questão de gramática e de estilo. Há escritores e jornalistas que o não são à força de o querer ser. A confusão instalou-se, com a cumplicidade leviana de uma crítica pedânea e de um noticiário predisposto a perdoar a mediocridade e a fraude.
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As palavras possuem cores secretas, odores subtis, densidades ignoradas. O discurso político conduz-nos ao nojo da frase. Pessoalmente, tento limpar o reiterado registo da aldrabice e da ignorância com a releitura dos nossos clássicos. Recomendo o paliativo. Eis-me às voltas com as Viagens na Minha Terra. Garrett não era, propriamente, uma flor imaculada. Mas foi um mestre inigualável na arte da escrita. Lembro-o porque, a seguir, revisitei o terceiro volume de As Farpas, onde Ramalho reproduz uma conversa com Herculano. O historiador retratou assim o seu companheiro das lutas liberais: "Por cem ou 200 moedas, num dia de apuro, o Garrett seria capaz de todas as porcarias que quiserem, menos de pôr num papel, a troco de todo o ouro do mundo, uma linha mal escrita."
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Desaprendeu-se (se é que, vez alguma, foi seriamente aprendido) o vocabulário da língua. Lê-se o por aí publicado e a pobreza lexical chega a ser confrangedora. Não se trata de simplicidade; antes, desconhecimento, incultura, ausência de estudo. "Foge de palavras velhas; mas não receies o uso de palavras antigas." Recomendava Garrett. Palavras velhas, travestidas de "modernidade", são, por exemplo: expectável, incontornável, enfatizar, implementar, recorrente, elencar, factível, plafonamento, exequível, checar, fracturante, imperdível, abrangente, atempadamente, alavancar, empolamento - e há mais.
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Reconheço o meu verdete por certas palavras e expressões. Não é embirração de caturra, nem rabugice de um recta-pronúncia. Será o gosto da palavra, a alegria de com elas trabalhar há longuíssimos anos, a circunstância de ser um leitor com fôlego, o facto de ter tido professores como o gramático e linguista Emílio Menezes, goês paciente, sábio e afável; e de haver frequentado alguns dos maiores escritores do século passado, para os quais o acto de escrever representava moral em acção. Lembro, com emoção e orgulho, Aquilino, José Gomes Ferreira, Miguéis, Sena, Mário Dionísio, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Abelaira.
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Esta crónica foi, também, um pretexto para os lembrar.
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«DN» de 4 de Fevereiro de 2009. Este post é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Metro em hora de ponta

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Por Alice Vieira
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“ACHAS que ele é o meu destino?”
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A carruagem do metro vai cheia e eu penso que é bom - neste tempo de desgraças diárias, de fraudes verdadeiras e inventadas a rebentarem a toda a hora – haver alguém que, numa tarde de chuva, esteja mais interessado nos desígnios dos astros do que nas chatices terrenas.
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“Achas que ele é o meu destino?”, repete, mas a amiga limita-se a encolher os ombros e então ela desata num discurso perfeitamente ininteligível, com números e mapas e conjunções de planetas e, com o ar sério das verdades indiscutíveis, garante à outra que nunca sabe em que tempo está, há alturas em que de repente é levada para 2034 (não sei se a data terá algum significado), e depois volta e depois recua séculos, sempre, sempre assim.
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Mas agora o que verdadeiramente a aflige é saber se ele é ou não o seu destino. A conjunção astral diz-lhe que não, mas a dúvida persiste.
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A amiga não está com muita paciência para a conversa, devem interessar-lhe problemas mais corriqueiros, se calhar a perspectiva de desemprego, se calhar a renda atrasada, enfim, coisas comezinhas que não se podem comparar a altas dissertações astrais.
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“Porque não lhe contas?”, pergunta.
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Então a outra explode, contar como, ela não pode contar a ninguém o que sente, o que se passa com ela, ela tem aquele dom, “porque isto é um dom”, repete, “ viajar pelo tempo é um dom que muito poucos têm, e se eu contasse quem é que me acreditava?, ainda diziam que eu era doida”.
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A outra até estremece, “credo!”, mas ela continua, “podes crer, por isso é que eu ando aqui tão calada, mas olha, há bocado tu não deste por nada mas eu não estava aqui! tu a falares comigo e eu sem te ouvir, muito longe!, mas depois voltei, tás a ver, agora estou aqui, mas não sei até quando”.
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As pessoas estão todas a olhar para ela, que fala muito alto, e é claro que o segredo, que quer tão guardado, já está espalhado pela carruagem inteira, mas ela não percebe, ela continua naquela angústia, será ele o seu destino?
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Porque se não for, diz, então tem de fugir, “não posso partilhar com ele um dom que é só de eleitos, e ele não é eleito”.
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“Eleito por quem?”
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A amiga decididamente está noutra onda, e ela irrita-se, “não percebes nada, pega mas é nos sacos, que saímos agora”.
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Os que continuam viagem olham uns para os outros com aquele ar de cumplicidade que estas coisas geram sempre.
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“Anda tudo doido…”, diz então um velho.
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“O meu marido é que sabe”, murmura uma senhora ao seu lado, “ele diz que as pessoas andam assim por causa de uma coisa que há no ar e que a gente respira sem dar por isso…”
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“Também já ouvi falar”, diz o velhote. “ Acho que é o buraco do ozono.”
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”Isso”, diz ela, encostando a cabeça ao vidro, e fechando os olhos.
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«JN» de 1 de Fevereiro de 2009
Ao fundo, muito ao fundo... e já a sumir-se no Bairro de S. Miguel, talvez se consiga ver a carrinha da Emel...

O Regresso do FMI

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Por J. L. Saldanha Sanches
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AS AGÊNCIAS DE NOTAÇÃO DE CRÉDITO são hoje aquilo que os homens sem rosto do FMI eram entre 76 e os anos 80: um receituário económico ultra-esquemático e raramente adequado, uma espécie de agiotas internacionais subservientes perante os erros dos poderosos e implacáveis para com os que estão em dificuldades.
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No entanto das duas vezes que interveio em Portugal o tosco diagnóstico do FMI e as medidas simplistas que nos obrigaram a aplicar resultaram. As mesmas medidas poderiam ter sido tomadas mais cedo, com menor intensidade e muito menores custos, mas não foram e tivemos que nos contentar com a consulta ambulante do FMI. À custa do aumento temporário do desemprego, da descida dos salários reais e da estagnação do produto, mas com resultados.
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Apenas porque o nosso sistema político não conseguiu tomar medidas mais adequadas e mais bem pensadas.
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As intervenções externas vêm quando a incapacidade de mudar de rumo e de adoptar políticas mais prudentes as torna indispensáveis. Nos acordos com o FMI eram as perturbações pós-25 de Abril. Agora os desequilíbrios têm a sua origem no aumento da despesa pública iniciada com Cavaco e o auge nos Governos Guterres. No falhanço estrondoso das políticas Barroso/Ferreira Leite para a redução do défice e da insuficiência das reformas – mais a crise internacional – do Governo Sócrates.
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A dificuldade de obter mais créditos para financiar a balança de pagamentos é a causa da intervenção: a família gastou demasiado e só resta a visita à casa de penhores e a ajuda amável e desinteressada do penhorista.
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Podemos consolarmo-nos a recordar o falhanço miserável da Standard & Poor’s na avaliação do risco da banca. Mas aquela gente do FMI ou dessas agências são apenas a face visível do mercado de capitais internacional a recordar que as dívidas têm que ser pagas e o consumo de bens e serviços do exterior tem que ser reduzido.
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Mesmo quando o escudo não pode ser desvalorizado porque já não existe: aquele corte brusco dos salários, dos lucros, dos juros e do valor de todos os activos expressos em escudos já não é possível, a cura vai ser mais lenta mas o endividamento não pode prosseguir.
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Contra nós e a nosso favor está o ambiente internacional: é muito mais difícil exportar na situação actual mas uma dívida elevada não é um problema muito original. É bom e mau para Portugal que haja situações ainda mais críticas e mais pigs (o I agora quer dizer Itália+Irlanda) do que se pensava. O Reino Unido não está muito longe. A Alemanha - o país sensato e aforrador - vai-se opor a qualquer solução que lhe pareça constituir o triunfo dos porcos mas precisa de mercados para exportar. A situação é má mas uma saída acabará por se desenhar. Tal como sucedeu nas crises do FMI.
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Adenda: se há coisa que não nos fazia falta é o nosso primeiro-ministro a braços com o Freeport. Em vez da satisfação perversa que costuma acompanhar estes casos o que vemos desta vez é um sentimento geral de depressão pela inoportunidade desta distracção.
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«Expresso» de 31 de Janeiro de 2009 - www.saldanhasanches.pt
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

Um Rapaz da Província

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Por Maria Filomena Mónica
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NÃO SEI SE O ACTUAL Primeiro-Ministro está envolvido nas peripécias ligadas à construção do Freeport, mas estou ciente de três coisas: de entre os processos da Agência Portuguesa do Ambiente, a aprovação do último estudo ambiental deste empreendimento foi o mais rápido de sempre; os ingleses enviaram uma carta rogatória às autoridades portuguesas com base em que o eng. Sócrates é suspeito de ter «facilitado, pedido ou recebido» o pagamento de subornos; o eng. Cravinho, que pertence ao mesmo partido que o Primeiro-Ministro, quer saber o que terá levado um governo de gestão a tomar tal decisão, o que seria anti-constitucional.
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Só agora, ao ter-me sido pedida uma opinião, comecei a juntar as peças de um puzzle. A primeira coisa que notei, quando o Primeiro-Ministro tomou posse, foi a opacidade do seu olhar. Em parte, pensei que tal se devia ao facto de viver num limbo em que aquilo que diziam os seus documentos nem sempre ser real. Sócrates nasceu no Porto, mas os pais decidiram registá-lo em Vilar de Maçada; o seu apelido não é Sócrates, mas Carvalho Pinto de Sousa. Até aqui, só tangencialmente tem culpa e muito menos é responsável pela família materna – tio e primos – saída de uma telenovela latino-americana.
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Sócrates teve menos contacto com esta parte da família do que com a paterna. Em 1955, o pai casara com Adelaide de Carvalho Monteiro, cujos ascendentes tinham ganho algum dinheiro com a venda de volfrâmio. Devido à vida nómada do marido, os pais separaram-se, tendo este filho ficado a viver na Covilhã. O rapaz não tardou a considerar que a província era demasiado pacata. Mesmo as madrugadas em que comia chouriços assados, de pernas cruzadas no chão, o enchiam de tédio. Isto para não falar dos estudos: terminou o liceu com 13 valores.
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Em Coimbra, matriculou-se no recém-criado Instituto Superior de Engenharia de Coimbra (ISEC), por onde viria a obter, mais uma vez com nota medíocre, o grau de bacharel. Como diria: «Aos vinte e um anos, eu tinha tirado o sétimo ano, tinha estado quatro anos em Engenharia, também não queria ser muito engenheiro, mas era melhor ser engenheiro do que não ser», após o que acrescentava: «Eu esperei que a vida me surpreendesse, esperei pelo meu Sol».
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Antes, teve de assinar projectos de construção feitos por outros, com o objectivo de transformar barracões horrendos em mansões ainda mais horrendas. Ao que me dizem, trata-se de um costume nacional, o que nada explica nem desculpa, uma vez que nunca se devem assinar coisas que não são da nossa autoria. Começavam as trafulhices. Vieram outras. Embora o seu «curriculum» fosse confuso e mais confusa ainda a Universidade que lhe dera o diploma, resolveu promover-se a engenheiro.
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Na política, fez parte da geração criada em redoma dentro dos aparelhos partidários. A sua única experiência profissional era a de técnico da Câmara da Covilhã, para onde, na década de 1980, havia sido levado pelo pai. Depois, foi deputado, Secretário de Estado e Ministro do Ambiente e, a 15 de Julho de 2004, candidatou-se, com êxito, à liderança do Partido Socialista. A 12 de Março do ano seguinte, era convidado a formar governo. Por fim, o Sol alumiava-o. Até hoje. Já agora, agradeço que não pensem que tenho ilusões sobre os meus compatriotas: os que berram contra a corrupção são, por vezes, os que mais a praticam. Simplesmente, não gostam que «eles», os de cima, também o façam. Pode parecer injusto, mas é assim a vida.
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«Jornal de Negócios», de 30 de Janeiro de 2009

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Peso dos 5 livros («O Tio Prodigioso» + 4)

537 gramas

Já que falámos dos CTT...



RECENTEMENTE, em Lagos, dirigi-me a uma estação dos CTT para comprar um selo. Faltavam poucos minutos para a tiragem (que era às 17h30m), pelo que fiquei furioso quando me deparei com a indicação que se vê na foto de cima.
Entrei, dirigi-me à máquina existente no interior (foto do meio)... Nada feito, também.
Fui para a longa fila, e é claro que, entretanto, perdi a tiragem do dia!
Decidi reclamar nos impressos existentes para o efeito: impressos esgotados (foto de baixo)!
Resolvi, então, já depois de atendido (demorou mais de meia-hora!) pedir o livro de reclamações... Só que já passava das 18h e estavam a fechar a chafarica...
Mais adianto que já reclamei várias vezes do serviço dessa estação. A resposta veio sempre:
«Agradecemos a sua contribuição para a melhoria dos serviços...»

Livros não reclamados (e outros seis)


Até às 20h próximo dia 6 serão aqui sorteados (pelo infalível processo do "quanto pesam?") os livros-prémio que não foram reclamados pelos seus vencedores, acrescidos de cinco oferecidos pelo leitor Carlos Antunes e de um outro (que se vê em cima) alusivo a um famoso tio - não menos prodigioso do que o do passatempo de ontem.
Cada leitor poderá dar 2 "palpites" (no mesmo comentário ou não), e os prémios serão atribuídos de acordo com a "pontaria" de cada um. E já podem começar!
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Actualização (6 Fv 09/22h15m): OS RESULTADOS ESTÃO [aqui]. Espero não me ter enganado nas contas...
Actualização (7 Fev 09): Neste momento, só falta a escolha do livro e a morada de "Matrioska". Dado que o prazo para essas indicações termina amanhã, às 22h, os livros serão enviados, de qualquer forma, na segunda-feira.

Palavras

Por João Paulo Guerra
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FUTEBOL FOI A PALAVRA mais escrita no conjunto dos jornais portugueses de informação geral em 2008.
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Curiosamente, isto coincide com a publicação de outros dados que revelam que os jogos do campeonato de futebol estão a perder este ano uma média de mil espectadores por encontro, em relação ao ano anterior. A outra curiosidade é que a palavra futebol só não é a mais escrita nos jornais desportivos, onde é ultrapassada pelas palavras Benfica e Porto.
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E é melhor parar por aqui a citação dos dados do estudo sobre utilização das palavras nos jornais, pois cada novo elemento contribui para acentuar mais ainda os tons do retrato de um país deprimido, e deprimente, que sublima as suas frustrações a ler tricas sobre o mundo do futebol. Ou, melhor dizendo, o submundo da opacidade e da impunidade institucionalizadas.
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Os portugueses, que cada vez vão menos à bola, cada vez lêem mais sobre os casos do futebol. Evidentemente. Têm que se preparar para as grandes discussões intelectuais ao seu alcance. Ou será que os portugueses haviam de discutir no café o último livro que não leram, a última ideia que não tiveram, o último sonho de que já acordaram? Portugal arrasta pela História a fatalidade do seu destino: 500 anos de Inquisição, 50 anos de salazarismo, uma fugaz ilusão de Liberdade e uma espécie de democracia, em que o povo não governa mas muitos se governam em seu nome.
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E perante este quadro trágico que hão-de ler e sobre que hão-de conversar os portugueses? Sobre futebol caseiro, que não é bem o mesmo que o grande espectáculo do jogo da bola. O futebol em Portugal tem uma enorme originalidade: nem a bola é redonda nem são apenas onze de cada lado. O que é sempre um grande motivo de conversa.
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«DE» de 2 de Fevereiro de 2009

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Passatempo «O 31 de Janeiro de 1891»

A página onde vem a frase referida no Sorumbático é a 85

O GRITO E A VOZ

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Por Nuno Brederode Santos
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ACHA QUE AINDA TEM CONDIÇÕES para governar?", pergunta sempre quem mais se empenhou em destruir as condições para governar. Como que a pedir um insuspeito atestado de desempenho. "Todo este alarido em torno do caso está a distrair a atenção dos portugueses para os reais problemas da crise e da governação" é a versão dominante entre os que fomentam o alarido sobre o caso, distraindo a atenção dos portugueses para os reais problemas da crise e da governação. Como que a explicar o plano B, que é o de, se "isto" não for a lufadas de escândalo, ao menos paralisa-se o Estado, na sua desesperada defesa da cidadela que os votos construíram. De caminho, também se vende melhor. Porque o mercado da pequena infâmia existe. Só que é atípico: o rancor não se vende porque o rancor se compre. Há é quem o compre desde que ele esteja à venda.
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Claro que talvez isto não fosse possível se a condição do sistema judicial fosse outra. Como ainda agora a inauguração do Ano Judicial exuberantemente demonstrou, a máquina é prisioneira de guerras que ninguém tem já forças para vencer. Uns, passam as responsabilidades à falta de meios, tomam a autonomia (técnica) de que gozam pela independência que só a outros toca, reclamam das leis que lhes cabe cumprir e dão-se a prerrogativa de propor melhor legislação (nem sempre apenas qual, às vezes como). Outros, endossam a culpa também à falta de meios, reclamam melhorias da condição profissional (que não tem já equivalente, deixados que estão para trás diplomatas e militares), tomam o seu dever de independência pela sua (necessária) tradução em direitos puramente instrumentais e não raro roçam o propósito de legislar aquilo mesmo que só lhes cumpre aplicar. Outros ainda, fazendo das questões salariais o seu único objectivo, tecem políticas de alianças em que apoiam ou não as reivindicações dos demais, mesmo que elas os transcendam por completo - sob condição de serem por eles apoiados. Enfim, os que supostamente seriam os mais livres, resistem à mais pequena tentativa de os submeter a um regime comum e geral, alegando - como os representantes dos médicos, ou dos engenheiros ou dos farmacêuticos - a natureza superior do seu papel e a feliz (e quase mística) coincidência dele com os interesses colectivos: o que é bom para a General Motors é bom para os Estados Unidos. Todos eles, porém, convergem no método: procuram fazer valer os seus interesses pela via mediática. Houve tempos em que a careta era a amarga derrapagem de um sorriso. Isso acabou. Hoje, à vista de uma câmara, a careta refloresce no sorriso.
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Voltemos à tese geral. Pese embora às convicções de quem neles votou, pode suceder que um dia se descubra e se comprove a corrupção de um Presidente, um primeiro-ministro ou qualquer alto mandatário. Já aconteceu a outros, não há dogma que disso nos isente. Mas a questão é: e a lei previu? Previu. Então aplique-se, de cada vez que quem de direito entender haver razões para tal. Ninguém tem mais interesse nisso do que os que mais enganados se sentirem, ou seja, os que tiverem dado a cara. Só que, para isso há regras, que a mesma lei acolheu. Não há que entrar em regime de excepção, no qual ninguém votou. Nem instaurar a gritaria e o código sumário de vigilantes que nunca ousaram sufragar-se como tal. Nem induzir a confusão entre denunciante, polícia, juiz e carrasco. Nem fazer da opinião mediatizada - que nem sequer é certo que chegue a pública - o tribunal plenário de um regime que quisemos democrático.
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O contrário é fazer da "busca insana da verdade" o álibi malsão que legitima a irresponsabilidade. É agravar as aflições de um aparelho de investigação, até agora pouco convincente, a dar mostras de isenção, não para a resolução de um problema, mas para o suscitar de outros, tantos quantos os necessários a fazer "prova" pública dela. E é espalhar, em voz baixinha, pelas ruas e vielas da cidade - que desespera aos solavancos da crise - o rumor catastrofista que é o caldo de cultura donde emergem todas as aventuras autoritárias: se há magistrados ou juízes que não conseguem enfrentar os media, acabe-se com a sua não exercida independência e sujeitem-se à cadeia de um funcionalismo hierárquico rigoroso; se há jornalistas que mentem ou manipulam, instaure-se uma censura prévia que responsavelmente acautele o "interesse geral"; se chegam à rua opiniões maliciosas, troque-se a liberdade de opinião por um seu patriótico controlo; se há políticos eleitos que são corruptos, substituam-se por aqueles que gente sábia e séria designar; e se as instituições democráticas não forem capazes de comportar tudo disto, instaurem-se outras que o sejam.
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Mal com a política por amor da economia, mal com a economia por amor da sociedade. Um dia, muito mais tarde, os historiadores discutirão quais, de entre nós, foram os culpados.
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«DN de 1 de Fevereiro de 2009