domingo, 8 de março de 2009
À catanada
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Por Nuno Brederode Santos
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O CHEFE DO ESTADO-MAIOR-GENERAL das Forças Armadas da Guiné-Bissau, máxima expressão operacional do poder militar local, foi assassinado. Horas depois, o seu adversário político (!) e Presidente da República foi-o também. Na própria casa e à vista da mulher. A golpes de catana e tiros à queima-roupa. Raiava o dia e a cidade fechou-se nos medos dos seus habitantes: nos medos em que ninguém é solidário.
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De manhã, porém, nada mais aconteceu. As autoridades que restam lamentam, com litúrgica e descoroçoante rapidez, o sucedido e logo anunciam a boa nova: não houve golpe de Estado. Em Portugal, pai conflituoso de pesados ontens que os realismos da vida - CPLP incluída - foram tentativamente reaproximando, responsáveis de todos os partidos proclamaram também, por entre alívios: não houve golpe de Estado.
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No dia 10, Nino Vieira vai a soterrar, com os adereços do calculismo da sua República. Por isso, ninguém dirá que desce à campa o guerrilheiro que se foi tornando no telúrico e iracundo destruidor das melhores promessas do futuro dos sonhos de Amílcar Cabral. Entre muitos dos seus, como entre nós, leva as saudades com ele. Parece que o que agora importa é que a situação regresse à normalidade, e não repensar a normalidade da situação que regressa. Também ninguém quererá pôr a nu a evidência: se não houve golpe de Estado, não foi por falta de golpe, mas só por falta de Estado.
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Praticamente desde sempre - um sempre reportado à independência - que a Guiné-Bissau emigrou da lógica e da prática institucionais que nós por cá partilhamos. E este sangrento episódio só confirma que, por lá, o mandato político é uma autorização de desempenho de uma gestão orientada para a satisfação das reivindicações dos militares. Por isso mesmo, o mandato não é o cruzeiro entre dois sufrágios. O mandato tem por limite, entre cada dois sufrágios, a duração da paciência dos militares. O resto é menor. A catana e a pistola suprem a vitalícia gratidão do povo aos que se arrogam méritos antigos de uma libertação que já poucos podem recordar. A fatia dos lucros que as rotas atlânticas da droga deixam nos seus entrepostos é magra, não dá para todos. Custa tudo em soberania, em desenvolvimento, em saúde e em bem- estar. E só chega para dar condições de felicidade a uns quantos bravos mal fardados se entretanto eles se forem liquidando entre si.
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Passaram mais de três décadas. Não há nostalgia ou remorso coloniais que razoavelmente nos envolvam nas actuais rotinas do sangue e da pobreza. Estivemos lá quando Portugal não vinculava os portugueses e saímos de lá logo que os portugueses passaram a vincular Portugal. Não somos grande potência, militar ou económica. Não somos vizinhos geográficos, como a Guiné ou o Senegal. Temos, é certo, pessoas e interesses a defender, mas isso temo-lo também no Brasil, na Venezuela ou em França. É, por isso, positiva a recolocação de um embaixador em Bissau. Mas há que pisar com cuidado o terreno bilateral, para que não nos sejam pedidas responsabilidades a que não poderemos corresponder. A boa consciência da comunidade internacional gosta de se servir do primeiro voluntário néscio, como alguns accionistas gostam de ter um otário por gestor. É certo que não nos está na natureza ver morrer na Guiné pessoas e liberdades, com a displicência snobe com que se inauguram as corridas de Ascott. É verdade que ainda nos atrapalham os ecos de um Benfica-Sporting em Bissau. Há muito de solidariedade e cooperação por fazer - e isso deve ser feito. No político, no económico, no cultural, no social. Mas deve sê-lo usando os instrumentos multilaterais, num delicado exercício de juízo sábio e mãos treinadas na microcirurgia. Sem protagonismos que permitam à comunidade internacional isentar-se ou aos candidatos a um mau protagonismo instalarem-se. Sem as paixões que cegam (e que sobreviveram aos tempos do "amor de mãe") e sem o cinismo de esquecer que temos cá muitos filhos de quantos por lá ficaram.
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Até ver, parece ser esta a postura política do MNE e ser este o sentido da missão de João Gomes Cravinho, por via da actual presidência da CLP. Oxalá seja. Porque, se o não for, só encontraremos riscos e problemas. E porque, para além dessa fronteira, só há pasto para as saudades do império. Um investimento caro e sem retorno. Que deve ser pago por quem as tiver.
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«DN» de 8 de Março de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
sábado, 7 de março de 2009
Parlamentar para lamentar
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Por Antunes Ferreira
Por Antunes Ferreira
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BANDALHO! Entre outros insultos este terá sido o que mais burburinho causou no hemiciclo de São Bento, quinta-feira. O autor foi o deputado do Partido Social Democrata, José Eduardo Martins, e os mimos tiveram como alvo Afonso Candal que faz parte do Grupo Partido Socialista. Uma cena parlamentar que, para mim, melhor se caracteriza como para lamentar.
BANDALHO! Entre outros insultos este terá sido o que mais burburinho causou no hemiciclo de São Bento, quinta-feira. O autor foi o deputado do Partido Social Democrata, José Eduardo Martins, e os mimos tiveram como alvo Afonso Candal que faz parte do Grupo Partido Socialista. Uma cena parlamentar que, para mim, melhor se caracteriza como para lamentar.
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O representante social-democrata, que já fora Secretário de Estado nos Governos presididos por Durão Barroso (XV) e Santana Lopes (XVI), reconheceu que tinha errado e prejudicado essencialmente a sua bancada e o debate. Pelo que pediu desculpas aos restantes pares – menos ao que o provocara, no seu entender. Por isso quanto ao deputado Afonso Candal, afirmou que «com franqueza não retiro nada do que disse». E acrescentou em declarações à Comunicação Social «Não é qualquer um que pretende insultar-me, ainda que o faça com a manha que o fez, porque eu não sou de meias tintas».
O representante social-democrata, que já fora Secretário de Estado nos Governos presididos por Durão Barroso (XV) e Santana Lopes (XVI), reconheceu que tinha errado e prejudicado essencialmente a sua bancada e o debate. Pelo que pediu desculpas aos restantes pares – menos ao que o provocara, no seu entender. Por isso quanto ao deputado Afonso Candal, afirmou que «com franqueza não retiro nada do que disse». E acrescentou em declarações à Comunicação Social «Não é qualquer um que pretende insultar-me, ainda que o faça com a manha que o fez, porque eu não sou de meias tintas».
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Ora muito bem. A Assembleia da I República registou inúmeros episódios como este. Em variadíssimos casos, com uma terminologia ainda pior. Tribunos houve que usaram o insulto como arma de arremesso frequente. Um exemplo, apenas: Brito Camacho. Mas, muitos outros. A Assembleia Nacional do Estado Novo foi muito diferente. A moral, os bons costumes e os desígnios mais elevados ao serviço da Pátria conduziram a uma linguagem suave, moderada, subtil, idílica.
Ora muito bem. A Assembleia da I República registou inúmeros episódios como este. Em variadíssimos casos, com uma terminologia ainda pior. Tribunos houve que usaram o insulto como arma de arremesso frequente. Um exemplo, apenas: Brito Camacho. Mas, muitos outros. A Assembleia Nacional do Estado Novo foi muito diferente. A moral, os bons costumes e os desígnios mais elevados ao serviço da Pátria conduziram a uma linguagem suave, moderada, subtil, idílica.
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Enquanto as sessões primo republicanas eram aliciantes, frementes, até mesmo empolgantes, as da Velha Senhora eram medíocres, insossas, entediantes. A herança para o Parlamento de hoje é, portanto, complexa. Quais terão sido as sequelas de um e do outro sistema? A esgrima atacante da Primeira República ou o gamão sonífero da Velha Senhora? A ousadia ou o marasmo?
Enquanto as sessões primo republicanas eram aliciantes, frementes, até mesmo empolgantes, as da Velha Senhora eram medíocres, insossas, entediantes. A herança para o Parlamento de hoje é, portanto, complexa. Quais terão sido as sequelas de um e do outro sistema? A esgrima atacante da Primeira República ou o gamão sonífero da Velha Senhora? A ousadia ou o marasmo?
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Neste actual São Bento ainda há quem recorde o cerco feito por trabalhadores e a discriminação concomitante dos deputados, consoante as cores partidárias. O dedo comunista apontado a todos os que não representavam o Partido pode ter sido um exemplo significativo do que teria sido uma vitória do leninismo/estalinismo em Portugal. Há mesmo quem considere que foi uma vacina para os que pensavam que o País fosse uma nova Cuba.
Neste actual São Bento ainda há quem recorde o cerco feito por trabalhadores e a discriminação concomitante dos deputados, consoante as cores partidárias. O dedo comunista apontado a todos os que não representavam o Partido pode ter sido um exemplo significativo do que teria sido uma vitória do leninismo/estalinismo em Portugal. Há mesmo quem considere que foi uma vacina para os que pensavam que o País fosse uma nova Cuba.
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Aliás, o episódio é ainda recordado quando se refere a figura estranha do almirante Pinheiro de Azevedo e o sonoro badamerda que proferiu durante a ocorrência. Isso é uma das alíneas mais conhecidas do folclore revolucionário entre nós. O PREC sem esse tipo de Cóias não teria tido a piada que teve.
Aliás, o episódio é ainda recordado quando se refere a figura estranha do almirante Pinheiro de Azevedo e o sonoro badamerda que proferiu durante a ocorrência. Isso é uma das alíneas mais conhecidas do folclore revolucionário entre nós. O PREC sem esse tipo de Cóias não teria tido a piada que teve.
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Agora, o caricato incidente que decorreu no hemiciclo legislador traz de novo à superfície aquilo que nós somos. Encaixamos coisas que ninguém poderia imaginar. Engolimos sapos vivíssimos da costa, como diria o meu Amigo Augusto Ferreira do Amaral. Intrigamos com mestria, dando de barato que é habilidade inata. E, sobretudo, assobiamos para disfarçar. Nisso, somos especialistas. E desenrascados.
Agora, o caricato incidente que decorreu no hemiciclo legislador traz de novo à superfície aquilo que nós somos. Encaixamos coisas que ninguém poderia imaginar. Engolimos sapos vivíssimos da costa, como diria o meu Amigo Augusto Ferreira do Amaral. Intrigamos com mestria, dando de barato que é habilidade inata. E, sobretudo, assobiamos para disfarçar. Nisso, somos especialistas. E desenrascados.
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É por isso que o desbocado deputado laranja interpretou um episódio que soube a reprise do Parlamento da Primeira República, mas que ultrapassou a modorra da Assembleia Nacional. Sem curar de culpas, só por isso, o nome de José Eduardo Martins ficará nos anais de São Bento. A má educação tem um preço; mas, por vezes, dá a eternidade a quem a pratica.
É por isso que o desbocado deputado laranja interpretou um episódio que soube a reprise do Parlamento da Primeira República, mas que ultrapassou a modorra da Assembleia Nacional. Sem curar de culpas, só por isso, o nome de José Eduardo Martins ficará nos anais de São Bento. A má educação tem um preço; mas, por vezes, dá a eternidade a quem a pratica.
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
sexta-feira, 6 de março de 2009
Foi para isto?
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Por Maria Filomena Mónica
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FOI PARA ISTO que se fez o 25 de Abril? De tão usada a frase está gasta, mas nunca como agora foi tão adequado inscrevê-la num título. O que mais me alegrou quando os capitães de Abril derrubaram o governo de Marcelo Caetano foi o estabelecimento de um Estado de Direito. Nada e criada sob um regime em que as pessoas apenas podiam ler jornais censurados, não podiam pensar nem escrever livremente, não podiam falar ao telefone sem medo de estarem a ser escutadas pela polícia, exultei. A partir de então, pensei, as liberdades fundamentais estavam garantidas.
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Mas eis que acabo de ter conhecimento que, na sequência do escândalo causado pelo chamado «envelope 9» (respeitante a uma real ou suposta rede pedófila), num só dia, o da data em que a comissão parlamentar visitou a Policia Judiciária, esta andava a «escutar» 1.600 chamadas. Entre 2003 e 2005, realizaram-se 26.000 escutas legais (as ilegais permanecem claro fora de qualquer contabilidade). Como se aquele relatório não bastasse, existem as declarações que o Procurador-Geral da República fez anteontem na Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais de Direitos, Liberdades e Garantias e que resumiu em três palavras: «Não tenho poderes». Se nem ele pode garantir que as suas conversas estão fora das escutas que por aí pululam, incontroláveis, o que se passará connosco?
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No meio da crise económica, da falência do sistema de ensino, do aumento do desemprego, temo que os portugueses se não tenham apercebido da gravidade do que se passa. Portugal é, sei-o há muito, um país sem tradições liberais, mas nada me preparara para o choque destas revelações. Que devemos fazer: conversar em linguagem cifrada?; comunicar à PT que prescindimos do aparelho telefónico?; emigrar? Mesmo se a mais apetecível, a última solução é, no meu caso, tardia, pelo que exijo que alguém - o Presidente da República, o Parlamento, eu sei lá - me assegure que tenho a liberdade de falar ao telefone sem ser espiada. Caso isso não aconteça, a única solução é proibir toda e qualquer escuta, o que causará o desespero da PJ, mas que nos garantirá a nós, cidadãos – e é isso que importa – que podemos falar ao telefone em paz.
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Outubro de 2007
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quarta-feira, 4 de março de 2009
Socialismo do nada de novo
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Por Baptista-Bastos
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O CHAMADO CONGRESSO do PS não foi carne, nem peixe, nem arenque vermelho. E José Sócrates age como um sedativo e é presa da sua própria ansiedade. Os habituais comentadores do habitual reagiram como habitualmente: em flagrante delito de incompreensão. Também, pouco havia para compreender: les jeux sont faits e Sócrates preparou a apoteose com a minúcia e a frieza de um jogador de póquer. Mas ele não desconhece que o chinfrim é só fumaça, e que o retumbante resultado de quase cem por cento, nas "directas", não representa nenhuma vantagem definitiva.
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A rudeza do combate já se adivinha. Como ele não falou para o exterior, como nada disse depois de muito falar, como demonstrou um silencioso desprezo pelos males gerais da sociedade - este político medíocre, que tem alta ideia de si próprio, retoma-a, para uma plateia de ombros caídos e lugubremente submissa. Porém, aquela plateia não é o País, nem sequer expressiva do PS. Tenham lá paciência e haja Freud!
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Vital Moreira, troféu de última hora, não me parece capaz de conquistar um só voto. A Esquerda olha-o de viés; ele é um abjurante do comunismo e os comunistas nunca perdoam a quem abandona as suas fileiras, reclamando-se de uma hipotética "independência". E a Direita, muito naturalmente, olha para o catedrático como um adventício suspeitoso. Vital, um pouco imprudentemente, presumiu fazer graça com esta tosca confissão: "Sou um socialista free-lancer." Quer dizer: socialista intermitente. Nessa doce intermitência não deixou de escrever eloquentes hossanas a Sócrates e enérgicos artigos laudatórios à acção governamental.
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Enquanto o curioso sinédrio foi transformado em divertida cerimónia, a ausência de Manuel Alegre (e de João Cravinho, não o esqueçamos) pesou como um remorso mal emendado. Alegre pode abusar do seu senso teatral, mas não é uma personagem patética. Há algo de genuíno neste homem de desafios, que podem ser interpretados como vacuidades, mas reflectem o carácter de um político. Nunca como agora ele levou o enfrentamento tão longe. Adivinhava-se tudo: desde a expulsão sucinta até à punição estatutária.
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Porém, Alegre possui um poder que conduz os dirigentes socialistas a tratar do seu "caso" com pinças e com uma prudência a que ninguém ousa subir o registo de voz. A unanimidade no silêncio corresponde à unanimidade em torno de José Sócrates. E em ambas reside qualquer coisa de farsa, de expectativa desconfortável e de receio recíproco. Alegre e o PS são duas personagens que dormem na mesma cama, incomodadas pelas ruínas dos mesmos sonhos, que se amam e se detestam - mas não conseguem viver uma sem a outra.
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«DN» de 4 de Março de 2009
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terça-feira, 3 de março de 2009
Dito & Feito
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Por José António Lima
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UMA INVESTIGAÇÃO que se arrastou ao longo de oito anos, desde 2000, detectou depósitos de 2,9 milhões de euros nas 34 contas bancárias de Mesquita Machado, presidente da Câmara de Braga há 32 anos, e seus familiares, quando os rendimentos por eles declarados em pouco ultrapassam os 1,6 milhões de euros. Mas o processo às suspeitas de corrupção envolvendo o património acumulado pela família Mesquita Machado foi arquivado por «carência de provas», com o procurador do Ministério Público de Braga a queixar-se, no despacho de arquivamento, de «falta de meios» e ausência de «recursos humanos».
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Na investigação judicial, que o Correio da Manhã consultou e reproduziu em várias edições, são também referidos elementos próximos de Mesquita Machado, funcionários da Câmara de Braga, apresentando sinais de riqueza incompatíveis com os salários que recebiam, como o vice-presidente ou o chefe do Urbanismo. E são mencionados depósitos nas contas bancárias da família Mesquita Machado de cheques de empreiteiros do concelho. Entre os quais Domingos Névoa, conhecido administrador da Bragaparques. Cheques justificados como prendas de casamento, empréstimos e outras explicações do mesmo tipo.
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DOMINGOS Névoa que, por sinal, foi esta semana condenado no Tribunal da Boa-Hora por corrupção activa, devido à tentativa de subornar o vereador José Sá Fernandes com 200 mil euros. A pena a que foi condenado, por se ter considerado que a corrupção fora para a prática de ‘acto lícito’, resumiu-se a uma multa de cinco mil euros. O mesmo valor de um cheque que Névoa colocou na conta da filha de Mesquita Machado como prenda de casamento.
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AS LEIS existentes favorecem a corrupção, afirma a coordenadora do DIAP, Maria José Morgado. O PS, partido a que pertence Mesquita Machado, voltou a impedir em 2007 a criminalização na lei portuguesa do ‘enriquecimento ilícito’, como propunha João Cravinho. E PSD e PS continuam a impor a distinção na lei entre acto lícito e ilícito, que favorece a corrupção mas alivia muito a classe política. Corruptores activos e passivos podem, pois, dormir descansados com o actual poder político.
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Processos de enriquecimento ilícito arquivados por falta de provas e carência de meios? Condenações por corrupção activa com penas de 5 mil euros? Não haja dúvidas de que, em Portugal, há um certo tipo de crime que compensa. E muito.
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«Sol» de 28 de Fevereiro de 2009
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Autor convidado,
jal
JOSÉ SÓCRATES, O CRISTO DA POLÍTICA PORTUGUESA
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Por João Miguel Tavares
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VER JOSÉ SÓCRATES apelar à moral na política é tão convincente quanto a defesa da monogamia por parte de Cicciolina. A intervenção do secretário-geral do PS na abertura do congresso do passado fim-de-semana, onde se auto-investiu de grande paladino da "decência na nossa vida democrática", ultrapassa todos os limites da cara de pau. A sua licenciatura manhosa, os projectos duvidosos de engenharia na Guarda, o caso Freeport, o apartamento de luxo comprado a metade do preço e o também cada vez mais estranho caso Cova da Beira não fazem necessariamente do primeiro-ministro um homem culpado aos olhos da justiça. Mas convidam a um mínimo de decoro e recato em matérias de moral.
VER JOSÉ SÓCRATES apelar à moral na política é tão convincente quanto a defesa da monogamia por parte de Cicciolina. A intervenção do secretário-geral do PS na abertura do congresso do passado fim-de-semana, onde se auto-investiu de grande paladino da "decência na nossa vida democrática", ultrapassa todos os limites da cara de pau. A sua licenciatura manhosa, os projectos duvidosos de engenharia na Guarda, o caso Freeport, o apartamento de luxo comprado a metade do preço e o também cada vez mais estranho caso Cova da Beira não fazem necessariamente do primeiro-ministro um homem culpado aos olhos da justiça. Mas convidam a um mínimo de decoro e recato em matérias de moral.
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José Sócrates, no entanto, preferiu a fuga para a frente, lançando-se numa diatribe contra directores de jornais e televisões, com o argumento de que "quem escolhe é o povo porque em democracia o povo é quem mais ordena". Detenhamo-nos um pouco na maravilha deste raciocínio: reparem como nele os planos do exercício do poder e do escrutínio desse exercício são intencionalmente confundidos pelo primeiro-ministro, como se a eleição de um governante servisse para aferir inocências e o voto fornecesse uma inabalável imunidade contra todas as suspeitas. É a tese Fátima Felgueiras e Valentim Loureiro - se o povo vota em mim, que autoridade tem a justiça e a comunicação social para andarem para aí a apontar o dedo? Sócrates escolheu bem os seus amigos.
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Partindo invariavelmente da premissa de que todas as notícias negativas que são escritas sobre a sua excelentíssima pessoa não passam de uma campanha negra - feitas as contas, já vamos em cinco: licenciatura, projectos, Freeport, apartamento e Cova da Beira -, José Sócrates foi mais longe: "Não podemos consentir que a democracia se torne o terreno propício para as campanhas negras." Reparem bem: não podemos "consentir". O que pretende então ele fazer para corrigir esse terrível defeito da nossa democracia? Pôr a justiça sob a sua nobre protecção? Acomodar o procurador-geral da República nos aposentos de São Bento? Devolver Pedro Silva Pereira à redacção da TVI?
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À medida que se sente mais e mais acossado, José Sócrates está a ultrapassar todos os limites. Numa coisa estamos de acordo: ele tem vergonha da democracia portuguesa por ser "terreno propício para as campanhas negras"; eu tenho vergonha da democracia portuguesa por ter à frente dos seus destinos um homem sem o menor respeito por aquilo que são os pilares essenciais de um regime democrático. Como político e como primeiro-ministro, não faltarão qualidades a José Sócrates. Como democrata, percebe-se agora porque gosta tanto de Hugo Chávez.
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«DN» de 3 de Março de 2009.
NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
Acesso livre
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Por Nuno Crato
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APESAR DE OS MEIOS DIGITAIS e a Internet terem introduzido novas soluções, a transmissão de informação na ciência continua a ter por base um processo inventado há cerca de 250 anos, quando apareceram as primeiras revistas científicas. O sistema generalizou-se e diversificou-se, tornando-se uma autêntica indústria.
Por Nuno Crato
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APESAR DE OS MEIOS DIGITAIS e a Internet terem introduzido novas soluções, a transmissão de informação na ciência continua a ter por base um processo inventado há cerca de 250 anos, quando apareceram as primeiras revistas científicas. O sistema generalizou-se e diversificou-se, tornando-se uma autêntica indústria.
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Ao se falar de revistas científicas fala-se hoje, acima de tudo, nas revistas internacionais, que publicam resultados novos e que seguem um sistema de garantia de qualidade conhecido como “peer review” ou “referee” — o que se pode traduzir por revisão ou arbitragem pelos pares. Os artigos submetidos a uma revista são primeiramente revistos por outros especialistas, convidados pelos directores, que dão a sua opinião tanto quanto possível independente, fazendo uma crítica impiedosa aos erros e imprecisões dos trabalhos e verificando se os resultados são de facto novos e estão sustentados por observações, experiências ou demonstrações feitas com rigor. Para maximizar a independência, os revisores não são conhecidos dos autores (“blind review”), e muitas vezes não os conhecem, pois é-lhes apenas fornecido um texto anónimo (“double blind referee”).
Ao se falar de revistas científicas fala-se hoje, acima de tudo, nas revistas internacionais, que publicam resultados novos e que seguem um sistema de garantia de qualidade conhecido como “peer review” ou “referee” — o que se pode traduzir por revisão ou arbitragem pelos pares. Os artigos submetidos a uma revista são primeiramente revistos por outros especialistas, convidados pelos directores, que dão a sua opinião tanto quanto possível independente, fazendo uma crítica impiedosa aos erros e imprecisões dos trabalhos e verificando se os resultados são de facto novos e estão sustentados por observações, experiências ou demonstrações feitas com rigor. Para maximizar a independência, os revisores não são conhecidos dos autores (“blind review”), e muitas vezes não os conhecem, pois é-lhes apenas fornecido um texto anónimo (“double blind referee”).
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Os revisores fazem habitualmente sugestões e os directores decidem, caso a caso, se devem aceitar os artigos tal como estão (o que é raro), se devem enviá-los para os autores, para estes os reverem de acordo com as sugestões dos revisores, ou se os devem simplesmente rejeitar. As melhores revistas têm taxas de rejeição muito altas, rondando por vezes os 90% ou mais. Os artigos revistos são resubmetidos e todo o processo pode demorar anos.
Os revisores fazem habitualmente sugestões e os directores decidem, caso a caso, se devem aceitar os artigos tal como estão (o que é raro), se devem enviá-los para os autores, para estes os reverem de acordo com as sugestões dos revisores, ou se os devem simplesmente rejeitar. As melhores revistas têm taxas de rejeição muito altas, rondando por vezes os 90% ou mais. Os artigos revistos são resubmetidos e todo o processo pode demorar anos.
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Nos últimos 15 anos, tudo se simplificou. As revistas adoptaram sistemas electrónicos de gestão das submissões e revisões. E quase todas complementaram o tradicional papel com uma edição na Internet. Para aceder a esses artigos, no entanto, é necessária uma assinatura digital da revista, que pode ser custosa.
Nos últimos 15 anos, tudo se simplificou. As revistas adoptaram sistemas electrónicos de gestão das submissões e revisões. E quase todas complementaram o tradicional papel com uma edição na Internet. Para aceder a esses artigos, no entanto, é necessária uma assinatura digital da revista, que pode ser custosa.
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Mais recentemente, surgiu um movimento a favor da publicação aberta. Os artigos deveriam ter acesso livre (“open access”), pois isso seria favorável ao desenvolvimento da ciência. As editoras e sociedades proprietárias das revistas não estão de acordo, naturalmente, pois sem as receitas das vendas e das assinaturas electrónicas não poderiam subsistir. O debate está aberto.
Mais recentemente, surgiu um movimento a favor da publicação aberta. Os artigos deveriam ter acesso livre (“open access”), pois isso seria favorável ao desenvolvimento da ciência. As editoras e sociedades proprietárias das revistas não estão de acordo, naturalmente, pois sem as receitas das vendas e das assinaturas electrónicas não poderiam subsistir. O debate está aberto.
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Num artigo acabado de publicar na “Science”, dois académicos de Chicago (323, p. 1025) estudaram o problema, analisando uma amostra de 26 milhões de artigos, e chegaram a algumas conclusões interessantes. Como é natural, quando as revistas passaram a estar disponíveis electronicamente, os artigos nelas contidos passaram a ser mais lidos e mais citados. Mas, não muito; apenas cerca de 10%. Também ao contrário do que seria de esperar, quando o acesso electrónico é pago, o uso sobe mais (12%) do que quando o acesso é livre (8%). Parece que os cientistas, tal com muita gente, valorizam mais o que é pago do que o que lhes é oferecido.
Num artigo acabado de publicar na “Science”, dois académicos de Chicago (323, p. 1025) estudaram o problema, analisando uma amostra de 26 milhões de artigos, e chegaram a algumas conclusões interessantes. Como é natural, quando as revistas passaram a estar disponíveis electronicamente, os artigos nelas contidos passaram a ser mais lidos e mais citados. Mas, não muito; apenas cerca de 10%. Também ao contrário do que seria de esperar, quando o acesso electrónico é pago, o uso sobe mais (12%) do que quando o acesso é livre (8%). Parece que os cientistas, tal com muita gente, valorizam mais o que é pago do que o que lhes é oferecido.
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Há uma excepção, contudo. Nos países menos desenvolvidos, onde mesmo as universidades têm dificuldade em fazer assinaturas electrónicas das revistas, os artigos disponíveis gratuitamente são muito mais usados que os outros. No cômputo global, esta vantagem pode aparecer diluída, mas não deixa de revelar um aspecto muito positivo do acesso livre na difusão do conhecimento científico.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 28 de Fevereiro de 2009
Há uma excepção, contudo. Nos países menos desenvolvidos, onde mesmo as universidades têm dificuldade em fazer assinaturas electrónicas das revistas, os artigos disponíveis gratuitamente são muito mais usados que os outros. No cômputo global, esta vantagem pode aparecer diluída, mas não deixa de revelar um aspecto muito positivo do acesso livre na difusão do conhecimento científico.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 28 de Fevereiro de 2009
NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
domingo, 1 de março de 2009
Espinho e a rosa
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Por Nuno Brederode Santos
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UNS É PORQUE O SPORTING vai ao Dragão. Outros é porque o PS se celebra em Espinho. A verdade é que as baixas na tertúlia deste fim-de-semana excedem o habitual e talvez até o razoável. Podia aqui argumentar que não sabia do jogo, mas nem por isso me via livre das suspeitas de que, no que toca a baixas, tenho o poder de previsão de George W. Bush.
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É certo que a semana já se rarefazia à minha volta. Quando o mundo se sintetiza no cão-d'água que ascendeu à Casa Branca e no meu país é notícia que uma carrinha da EMEL apanhou com o chumbo de uma espingarda de pressão de ar, só uma sólida formação filosófica, moral e cívica é que nos pode pôr a salvo das mais excruciantes interrogações acerca do sentido da vida.
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Aos que por cá ficaram, só resta apascentar os afectos com a conversa mole dos inquilinos do tempo. Até porque, por razões mais duradouras, estou pouco preocupado com o que se vai passar no Dragão. Guardo, por isso, a atenção e a curiosidade para o que vier a ser o congresso do PS (mesmo que, em tese, fosse mais apropriado guardar o tema para o próximo domingo).
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O congresso cumpre a função que a adopção das "directas" lhe reservou. Teoricamente, o que havia a debater já lá vai (mesmo que saibamos que tal nunca foi feito cabalmente, em partido algum) e agora há que escolher: pessoas, papéis, propósitos. Isto, quanto aos chamados "partidos de poder" - que o mesmo é dizer todos os partidos que se não excluírem a si próprios. Mas sofistica-se (ou complica-se) quando, mais do que partido(s) de poder, estamos perante o partido no poder. Porque, sendo o poder o fim aglutinador do grosso de quem milita, a sua defesa difere do seu assalto como num cerco militar. Ninguém lá vai para questionar um líder já consagrado, há apenas quem lá vá tentar condicioná-lo no detalhe das opções (e sobretudo nas escolhas de pessoas). Tudo isto é ainda mais gritantemente assim num ano de três eleições de escala nacional. Quem o entende sujeita-se às regras. Creio que todos, sem excepção, se sujeitam, mesmo que consigam convencer do contrário os sitiantes.
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Não condeno as razões dos que quereriam ver debatidas algumas questões cruciais. Eu também lamento algumas omissões: desde a aprovação da regionalização sem uma prévia normalização conceptual das autonomias regionais até à formulação de políticas sociais, que ainda não deixaram cair o ideal da igualdade de oportunidades e contudo mantêm a abolição do imposto sucessório. Para já não falar em alguns e candentes problemas, pelo menos na área da justiça. Mas o ponto é que os actuais congressos não servem para isso. Pressupõem isso. Quando o congresso chega, está-se já no território, desejavelmente comum, da grande batalha contra o cerco. Consagra-se um chefe, mesmo que se fuja ao one man show.
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Aos sitiantes compete depreciar a capacidade de resistência da cidadela. Quanto mais não seja para que a soldadesca não desmoralize. E já que, lá dentro, a liturgia é virada para o País, pois é com os olhos no eleitorado que vão tentando captar as atenções. Daí que cada qual se sirva do que tem à mão. Já vi Louçã a distribuir folhetos e recados sedutores à porta de uma estação de caminho-de-ferro; Jerónimo numa afadigada reunião com esse interlocutor sempre difícil que lhe é a CGTP; e Portas entre idosas ou numa fábrica de calçado exemplar. Mas também Alexandre Relvas, na Amadora, defendendo a "líder legítima" (o que, no PSD actual, parece não ser tautológico) contra Passos Coelho, que, em Carcavelos, denuncia a incapacidade da oposição que Manuela Ferreira Leite faz e que só "alimenta a fantochada". Mas vi também Manuela, a propriamente dita, a tentar explorar a ausência de Sócrates numa reunião em Bruxelas e constatei novamente o império da táctica que vai na Rua de S. Caetano. É que se queriam - ou ao menos admitiam - vir a utilizar esta linha de argumentos, não deviam ter feito tanto marketing à volta de um parto familiar em Londres quando o País parecia subjugado à desordem desencadeada por transportadores rodoviários. Entre a escolha que então fez - humaníssima, de resto - e a escolha que agora fez o adversário vai a distância de esta não ter nada de civicamente criticável.
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Segue-se uma semana de pousio. Ruidoso, é certo. Com sitiados e sitiantes a esvaírem-se em entrevistas e declarações. Mas o congresso terá sido cumprido. "É a vida." Não existimos fora dela e quase todos gostamos dela.
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«DN» de 1 de Março de 2009
NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Violência
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Por Alice Vieira
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AINDA HOJE ME LEMBRO dos gritos dela. Vivia no andar acima do meu, mas mal a conhecia. Eu chegava tarde do jornal; ela chegava ainda muito mais tarde de um qualquer trabalho que eu não sabia qual era; eu saía muito cedo para apanhar o comboio para Lisboa, ela ainda ficava.
Por Alice Vieira
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AINDA HOJE ME LEMBRO dos gritos dela. Vivia no andar acima do meu, mas mal a conhecia. Eu chegava tarde do jornal; ela chegava ainda muito mais tarde de um qualquer trabalho que eu não sabia qual era; eu saía muito cedo para apanhar o comboio para Lisboa, ela ainda ficava.
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Havia noites em que o choro e os gritos se ouviam na praceta inteira. Nós vínhamos à janela, olhávamos uns para os outros, e não sabíamos o que fazer.
Havia noites em que o choro e os gritos se ouviam na praceta inteira. Nós vínhamos à janela, olhávamos uns para os outros, e não sabíamos o que fazer.
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A polícia, sempre tão presente quando os clientes do bar ao fundo faziam mais barulho do que deviam, inexplicavelmente estava sempre distraída quando, daquele terceiro andar, rebentavam os gritos, as imprecações dele, e o barulho de vidros e louça que se partia.
A polícia, sempre tão presente quando os clientes do bar ao fundo faziam mais barulho do que deviam, inexplicavelmente estava sempre distraída quando, daquele terceiro andar, rebentavam os gritos, as imprecações dele, e o barulho de vidros e louça que se partia.
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Numa das noites em que tudo foi (ainda mais) insuportável, no patamar da escada eu disse aos outros vizinhos, parados às suas portas, que ia telefonar para a polícia.
Numa das noites em que tudo foi (ainda mais) insuportável, no patamar da escada eu disse aos outros vizinhos, parados às suas portas, que ia telefonar para a polícia.
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Iam-me matando.
Iam-me matando.
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Se eu não sabia que aquilo era zanga de marido e mulher.
Se eu não sabia que aquilo era zanga de marido e mulher.
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Se eu não sabia que não tinha nada que me meter pelo meio.
Se eu não sabia que não tinha nada que me meter pelo meio.
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Se eu não via os dois sempre juntos, e com ar muito feliz .
Se eu não via os dois sempre juntos, e com ar muito feliz .
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Se ela quisesse denunciar, que denunciasse ela, isto é assim mesmo, nunca se sabe o que se passa dentro das casas dos outros.
Se ela quisesse denunciar, que denunciasse ela, isto é assim mesmo, nunca se sabe o que se passa dentro das casas dos outros.
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E rematavam sempre com aquela frase que justifica todo o nosso egoísmo:
E rematavam sempre com aquela frase que justifica todo o nosso egoísmo:
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“ Cada um sabe de si.”
“ Cada um sabe de si.”
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Se calhar eu não lhes devia ter dado ouvidos e devia mesmo ter chamado a polícia.
Se calhar eu não lhes devia ter dado ouvidos e devia mesmo ter chamado a polícia.
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Nunca chamei.
Um dia o casal desapareceu, nunca soubemos para onde.
Nunca chamei.
Um dia o casal desapareceu, nunca soubemos para onde.
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Recordava eu esta história há dias entre amigos quando, para surpresa minha, um deles veio outra vez com essa ideia de “eles lá sabem, não nos devemos meter, não temos nada com isso”.
Recordava eu esta história há dias entre amigos quando, para surpresa minha, um deles veio outra vez com essa ideia de “eles lá sabem, não nos devemos meter, não temos nada com isso”.
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Pelos vistos, nem todos os cartazes, nem toda a publicidade, nem todas as campanhas chegam para chamar a atenção sobre o dever de denunciar a violência doméstica — que aumenta assustadoramente, e se esconde, e se mascara, e tantas vezes se nega a si própria.
Pelos vistos, nem todos os cartazes, nem toda a publicidade, nem todas as campanhas chegam para chamar a atenção sobre o dever de denunciar a violência doméstica — que aumenta assustadoramente, e se esconde, e se mascara, e tantas vezes se nega a si própria.
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Denunciar a violência que se exerce contra as mulheres - não!
Denunciar a violência que se exerce contra as mulheres - não!
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Até porque temos de poupar as nossas forças para denunciarmos — e aí sim, com toda a nossa energia! os que ao nosso lado contam anedotas contra o governo, ou os que lançam imagens no “Magalhães” em tempo de Carnaval, ou os que a medo rapam de um cigarrito envergonhado, ou os que põem à venda livros com capas que não agradam ao pacato chefe de família que vai a passar e que, se calhar, no remanso do seu lar, até vê sites que não devia …
Até porque temos de poupar as nossas forças para denunciarmos — e aí sim, com toda a nossa energia! os que ao nosso lado contam anedotas contra o governo, ou os que lançam imagens no “Magalhães” em tempo de Carnaval, ou os que a medo rapam de um cigarrito envergonhado, ou os que põem à venda livros com capas que não agradam ao pacato chefe de família que vai a passar e que, se calhar, no remanso do seu lar, até vê sites que não devia …
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Nesses, sim. Nesses é malhar, vilanagem!
«JN» de 28 de Fevereiro de 2009 - NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
Nesses, sim. Nesses é malhar, vilanagem!
«JN» de 28 de Fevereiro de 2009 - NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
As linhas com que se cose
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Por Antunes Ferreira
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ESTIVE DOIS DIAS EM MADRID, mais precisamente segunda e terça, para, como habitualmente faço, dar umas aulas na Carlos III, a Nova da capital espanhola. Na terça, abri um diário, para ler a notícia que fazia a cabeça da primeira página : «Dimitió Bermejo». Ou seja, demitiu-se Bermejo. Até então era o Ministro da Justiça do Governo presidido por José Luís Zapatero.
ESTIVE DOIS DIAS EM MADRID, mais precisamente segunda e terça, para, como habitualmente faço, dar umas aulas na Carlos III, a Nova da capital espanhola. Na terça, abri um diário, para ler a notícia que fazia a cabeça da primeira página : «Dimitió Bermejo». Ou seja, demitiu-se Bermejo. Até então era o Ministro da Justiça do Governo presidido por José Luís Zapatero.
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Transcrevo o texto da portada:«Mariano Bermejo, ministro de justicia, dimitió de su cargo ayer, tras recibir numerosas críticas por participar sin disponer de la licencia necesaria en una cacería organizada por Bartolomé Molina, secretario general del Partido Popular en Torres (Jaén), junto a otras 50 personas, entre las que se encontraba el juez de la audiencia nacional, Baltasar Garzón, [] en el momento en el que éste instruía un sumario contra el Partido Popular por supuesta corrupción».
Transcrevo o texto da portada:«Mariano Bermejo, ministro de justicia, dimitió de su cargo ayer, tras recibir numerosas críticas por participar sin disponer de la licencia necesaria en una cacería organizada por Bartolomé Molina, secretario general del Partido Popular en Torres (Jaén), junto a otras 50 personas, entre las que se encontraba el juez de la audiencia nacional, Baltasar Garzón, [] en el momento en el que éste instruía un sumario contra el Partido Popular por supuesta corrupción».
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Sacudi a cabeça. Por um qualquer fenómeno de osmose espacial, estaria eu em Lisboa, a ler um jornal em Espanhol? Dúvida realmente preocupante. Que logo se desvaneceu. Não podia ser. Geográfica e casuisticamente. Em Portugal, ninguém se demite assim, recordo apenas o Jorge Coelho por mor da ponte de Entre-os-Rios, o Vitorino por força duma trapalhada imobiliária e… E ainda se diz que a culpa morre virgem.
Sacudi a cabeça. Por um qualquer fenómeno de osmose espacial, estaria eu em Lisboa, a ler um jornal em Espanhol? Dúvida realmente preocupante. Que logo se desvaneceu. Não podia ser. Geográfica e casuisticamente. Em Portugal, ninguém se demite assim, recordo apenas o Jorge Coelho por mor da ponte de Entre-os-Rios, o Vitorino por força duma trapalhada imobiliária e… E ainda se diz que a culpa morre virgem.
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Mais tarde, já na Universidade, um bom Amigo, também professor, deu-me um texto da autoria de Daniel González, publicado no seu blogue El Bloc de Notas de Daniel González. Muito seguido por aqueles lados, informou-me, ainda, o docente. Nele confirmei a minha distorção mental de pouco antes. O comentador, evidente militante do PSOE, usa uma terminologia que muito dificilmente encontro em Portugal. Se é que encontro. Uns trechos, a esmo.
Mais tarde, já na Universidade, um bom Amigo, também professor, deu-me um texto da autoria de Daniel González, publicado no seu blogue El Bloc de Notas de Daniel González. Muito seguido por aqueles lados, informou-me, ainda, o docente. Nele confirmei a minha distorção mental de pouco antes. O comentador, evidente militante do PSOE, usa uma terminologia que muito dificilmente encontro em Portugal. Se é que encontro. Uns trechos, a esmo.
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«Me parece triste la decisión de dimitir de este ministro socialista a raíz de las fotografías en las que aparece en una cacería junto con el juez Baltasar Garzón. Es más, me parece injusto que un hombre que ha dado lo que ha dado por su país tenga que abandonar su puesto por una polémica generada por aquellos que querían tapar su propia mierda (…).
«Me parece triste la decisión de dimitir de este ministro socialista a raíz de las fotografías en las que aparece en una cacería junto con el juez Baltasar Garzón. Es más, me parece injusto que un hombre que ha dado lo que ha dado por su país tenga que abandonar su puesto por una polémica generada por aquellos que querían tapar su propia mierda (…).
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El Partido Popular no supo encajar que el juez Garzón destapara una trama de corrupción que salpica a gran parte de la ejecutiva de Esperanza Aguirre e implica directamente a Francisco Camps, líder del PP valenciano y presidente de la Generalitat. La trama de Francisco Correa era un lastre para un momento culminante como son las elecciones en Galicia y País Vasco (...)
El Partido Popular no supo encajar que el juez Garzón destapara una trama de corrupción que salpica a gran parte de la ejecutiva de Esperanza Aguirre e implica directamente a Francisco Camps, líder del PP valenciano y presidente de la Generalitat. La trama de Francisco Correa era un lastre para un momento culminante como son las elecciones en Galicia y País Vasco (...)
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Lo que han conseguido (Rajoy estará satisfecho) es que un hombre integro, que estuvo en el momento menos oportuno en el lugar menos adecuado, haya dejado su puesto. Motivo de celebración entre los que en sus filas alimentan la corrupción. Y momento de pena para los que creemos en la justicia.
Lo que han conseguido (Rajoy estará satisfecho) es que un hombre integro, que estuvo en el momento menos oportuno en el lugar menos adecuado, haya dejado su puesto. Motivo de celebración entre los que en sus filas alimentan la corrupción. Y momento de pena para los que creemos en la justicia.
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En esta dimisión no hay justicia. En el juego de la manipulación, en el juego de la mentira del PP no hay justicia. Ya no puede un ministro disfrutar de sus momentos de ocio, por miedo a encontrarse con alguien que no deba.
En esta dimisión no hay justicia. En el juego de la manipulación, en el juego de la mentira del PP no hay justicia. Ya no puede un ministro disfrutar de sus momentos de ocio, por miedo a encontrarse con alguien que no deba.
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Solo nos queda decirle adiós al señor Mariano Bermejo y desearle toda la suerte del mundo. Y desear que en este caso se haga justicia con estos corruptos del PP».
Solo nos queda decirle adiós al señor Mariano Bermejo y desearle toda la suerte del mundo. Y desear que en este caso se haga justicia con estos corruptos del PP».
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Dispenso-me de traduzir, penso que se entende perfeitamente. E creio que tem mais sabor – em Castellano. Muito menos me permito tirar ilações. Comparações com situações que alegadamente se verificam cá por casa? Vade retro, Satanas. Contenho-me, portanto. Apenas me limito a aditar que cada um sabe das linhas com que se cose. Mais correctamente – com que é cozido. Isso mesmo, com z.
Dispenso-me de traduzir, penso que se entende perfeitamente. E creio que tem mais sabor – em Castellano. Muito menos me permito tirar ilações. Comparações com situações que alegadamente se verificam cá por casa? Vade retro, Satanas. Contenho-me, portanto. Apenas me limito a aditar que cada um sabe das linhas com que se cose. Mais correctamente – com que é cozido. Isso mesmo, com z.
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Os costumes rurais
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Por Maria Filomena Mónica
Por Maria Filomena Mónica
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O MUNDO MODERNO tem tendência para considerar o passado como um paraíso perdido. Os citadinos olham o campo, onde aliás raramente põem os pés, como se de uma Arcádia se tratasse: segundo eles, a vida rural é povoada por lindas pastoras, burrinhos fazendo toque-toque-toque e velhinhas a fiar na soleira da porta. Durante a minha infância, passei o tempo suficiente numa aldeia para saber que nada disto corresponde à realidade.
O MUNDO MODERNO tem tendência para considerar o passado como um paraíso perdido. Os citadinos olham o campo, onde aliás raramente põem os pés, como se de uma Arcádia se tratasse: segundo eles, a vida rural é povoada por lindas pastoras, burrinhos fazendo toque-toque-toque e velhinhas a fiar na soleira da porta. Durante a minha infância, passei o tempo suficiente numa aldeia para saber que nada disto corresponde à realidade.
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Há dias, fui a Lamego. Ao almoço, falou-se de «abafadores», uma personagem que desconhecia. Foi-me explicado que se tratava de umas pessoas chamadas para colocarem uma almofada sobre a cara de um velho, quando este estava a incomodar a família com os seus gemidos, ou, na melhor hipótese, quando se encontrava em processo de sofrimento. O «abafador» procedia ao que hoje chamaríamos eutanásia. A morte de um inútil fazia parte da cultura aldeã.
Há dias, fui a Lamego. Ao almoço, falou-se de «abafadores», uma personagem que desconhecia. Foi-me explicado que se tratava de umas pessoas chamadas para colocarem uma almofada sobre a cara de um velho, quando este estava a incomodar a família com os seus gemidos, ou, na melhor hipótese, quando se encontrava em processo de sofrimento. O «abafador» procedia ao que hoje chamaríamos eutanásia. A morte de um inútil fazia parte da cultura aldeã.
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Mas não era apenas o fim dos velhos que era aceite. Depois do almoço, fomos até a uma adega, povoada por tonéis de carvalho, iguais aos que eu tantas vezes vira na quinta do meu avô, situada perto de Tomar. Lembrei-me das advertências do meu pai no sentido de ser perigoso entrar dentro do recipiente vazio – proeza que eu tentara em mais de uma ocasião – porque os vapores que ali existiam eram venenosos. Imaginei tratar-se de uma mentira destinada a fazer com que não manchasse o bibe de rendas que sempre usava. Chegara o momento de saber a verdade.
Mas não era apenas o fim dos velhos que era aceite. Depois do almoço, fomos até a uma adega, povoada por tonéis de carvalho, iguais aos que eu tantas vezes vira na quinta do meu avô, situada perto de Tomar. Lembrei-me das advertências do meu pai no sentido de ser perigoso entrar dentro do recipiente vazio – proeza que eu tentara em mais de uma ocasião – porque os vapores que ali existiam eram venenosos. Imaginei tratar-se de uma mentira destinada a fazer com que não manchasse o bibe de rendas que sempre usava. Chegara o momento de saber a verdade.
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Gentilmente, o dono da adega explicou-me ser o perigo real, acrescentando que, por vezes, no Douro, era assim que se faziam abortos. Não estando a ver como conseguiria uma grávida meter-se por a pequena frecha aberta na parte fronteira do tonel, quis saber pormenores: não, não era a mãe que por ali entrava, mas o recém-nascido. Do que estávamos, por conseguinte, a falar era de infanticídio. Como no caso dos «abafadores», os vizinhos fechavam os olhos. A vida rural era dura e duros eram, são, os seus costumes.
Gentilmente, o dono da adega explicou-me ser o perigo real, acrescentando que, por vezes, no Douro, era assim que se faziam abortos. Não estando a ver como conseguiria uma grávida meter-se por a pequena frecha aberta na parte fronteira do tonel, quis saber pormenores: não, não era a mãe que por ali entrava, mas o recém-nascido. Do que estávamos, por conseguinte, a falar era de infanticídio. Como no caso dos «abafadores», os vizinhos fechavam os olhos. A vida rural era dura e duros eram, são, os seus costumes.
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Outubro de 2007
Outubro de 2007
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Auto do desempregado
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Por Baptista-Bastos
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E AGORA, QUE VOU FAZER? Ando vazio, a caminhar no interior de dias vazios. Há duas semanas. E ainda não reuni a força necessária para dizer à minha mulher que fui um dos 180 despedidos. Mas suspeito de que ela adivinha qualquer coisa. Não será, propriamente, a situação em si que lhe desperta a desconfiança; mas algo, um pressentimento obscuro, tenaz e desconfortável começa a invadi-la. Conheço-a muito bem. Passámos muitas coisas juntos. Era uma rapariga de grandes olhos luminosos num rosto alevantado que transpirava confiança e coragem. Quando estive gravemente doente manteve-se à minha beira, vigiando-me, tomando-me o pulso, observando a febre. "Nem te atrevas a deixar-me!", exclamou, certo fim de tarde, presumindo, pelo meu aspecto, que a doença se agravara. Fui agitado por estranho solavanco. Olhei-a e ela sorriu: "Eu sabia. Eu sabia que me não deixavas!" É um pouco grotesco, lembrar-me de estas coisas; mas são estas coisas humildes e modestas que formam a consistência das pessoas. Curioso!, há quanto tempo não lhe digo que a amo, há quanto tempo? Quantas vezes lho disse? Não dá muito jeito, reconheço; mas certamente lho disse, embora em português não soe bem; em inglês talvez sim. Talvez. Como fui parar a esta rua? Acontece-me agora isto. Ando por aí à toa, um impulso irresistível e secreto leva-me a caminhar pelas ruas da cidade onde outrora só raramente ia.
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Deixa-me ver as horas. Este relógio foi-me por ela oferecido, quando fiz 45 anos, há mês e meio. Nessa altura já havia rumores, no escritório, de que as coisas não caminhavam bem, gente a mais, encomendas a menos. Nada lhe disse. Apenas boatos; no entanto, começámos a olhar uns para os outros, aquele é mais velho, quantos anos tem ele de casa?, 30, ena, pá!, e de idade?, ena pá! Sou mais novo. Mas há mais novos do que eu. E se pintasse um pouco o cabelo? As brancas dão-me um aspecto mais pesado. Apesar de tudo, tenho fé. Mas manter a fé é difícil, tendo em conta o que por aí se vê. Tenho vergonha de vaguear pela cidade. Tenho vergonha de dizer em casa que fui despedido, "dispensado temporariamente", como me informou a menina da administração, examinando-me com a pesada compaixão de quem nada sabe sobre dor e sofrimento. Tenho vergonha de ser reconhecido por algum vizinho. Tenho vergonha de nada ter para fazer. Tenho vergonha de ainda não ter a coragem de revelar à minha mulher a situação em que me encontro. Tenho vergonha de admitir que não voltarei a arranjar trabalho. Tenho vergonha de ter de me inscrever no Desemprego. Tenho vergonha de ter desejado que fossem outros os nomeados para ir para a rua.
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Tenho vergonha de ser quem sou. Tenho vergonha de ser velho.
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«DN» de 25 de Fevereiro de 2009
NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Curtas-letragens - “Carrnaváu”
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Por Miguel Viqueira
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“OLHA SÓ dona Marrta...!” era o remoque favorito a propósito de tudo e de nada da “faxinêra” da dona Marta, “nega” carioca de grande pandeiro, que mais que andar se contornava ao deslocar-se, risonha mesmo quando não ria, de grandes dentes alvos e olhar fundo debaixo do lenço atado na nuca e que passava o dia nestas e noutras lamentações que mais pareciam já uma cantilena amável, um traço de identidade inconfundível.
“OLHA SÓ dona Marrta...!” era o remoque favorito a propósito de tudo e de nada da “faxinêra” da dona Marta, “nega” carioca de grande pandeiro, que mais que andar se contornava ao deslocar-se, risonha mesmo quando não ria, de grandes dentes alvos e olhar fundo debaixo do lenço atado na nuca e que passava o dia nestas e noutras lamentações que mais pareciam já uma cantilena amável, um traço de identidade inconfundível.
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Um dia chegou acabrunhada, olha só dona Marrta, e não parou de se lamentar, a fazer tudo ainda em marcha mais lenta, até que para o fim do dia a dona Marta lhe arrancou o olha só. O pai estava doente, muito doente. E logo agora, vésperas do “carrnaváu”...! Conselhos, recomendações, promessas de que tudo se comporia, você vai ver, conseguiram arrebitar a “faxinêra” que voltou para a favela um pouco menos olha só dona Marrta.
Um dia chegou acabrunhada, olha só dona Marrta, e não parou de se lamentar, a fazer tudo ainda em marcha mais lenta, até que para o fim do dia a dona Marta lhe arrancou o olha só. O pai estava doente, muito doente. E logo agora, vésperas do “carrnaváu”...! Conselhos, recomendações, promessas de que tudo se comporia, você vai ver, conseguiram arrebitar a “faxinêra” que voltou para a favela um pouco menos olha só dona Marrta.
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Na manhã seguinte apareceu de rastos: olha só dona Marrta...! Papai piorou! E o carrnaváu aí chegando, minha nossa...! A coisa parecia séria, o velho estaria mesmo nas últimas, e a olha só desesperava por causa de ter de ir bailar o carnaval com o pai moribundo, olha mesmo só!
Na manhã seguinte apareceu de rastos: olha só dona Marrta...! Papai piorou! E o carrnaváu aí chegando, minha nossa...! A coisa parecia séria, o velho estaria mesmo nas últimas, e a olha só desesperava por causa de ter de ir bailar o carnaval com o pai moribundo, olha mesmo só!
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O carnaval chegou enfim, a olha só desapareceu como fizera sempre com ou sem papai doente, e a dona Marta bazou do Rio, que é o que fazem nessas alturas críticas as pessoas de bom gosto. Passada a festa, todo o mundo de volta ao Rio, a faxineira reapareceu enfim, chorosa, completamente destroçada. A ressaca, talvez? Olha só dona Marrta... Papai morreu mêmo. Logo logo no mêmo dia que saí daqui, olha só...! Então mas... e o carnaval? Oh o carrnaváu fô o maó barato, dona Marrta olha só...!
O carnaval chegou enfim, a olha só desapareceu como fizera sempre com ou sem papai doente, e a dona Marta bazou do Rio, que é o que fazem nessas alturas críticas as pessoas de bom gosto. Passada a festa, todo o mundo de volta ao Rio, a faxineira reapareceu enfim, chorosa, completamente destroçada. A ressaca, talvez? Olha só dona Marrta... Papai morreu mêmo. Logo logo no mêmo dia que saí daqui, olha só...! Então mas... e o carnaval? Oh o carrnaváu fô o maó barato, dona Marrta olha só...!
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Contou à estupefacta dona Marta que quando chegara à favela dera com grande carpidação familiar: o velho morrera essa mesma tarde, ao que parece desconsolado por não poder já ir viver o carnaval iminente. Deixaram-no na cama onde falecera, amortalhado e bem tapadinho, fecharam a porta do quarto, trancaram bem a casota da favela e lá se foram todos bailar o carnaval. Três dias e muito samba depois reabriram o quarto, alertaram as autoridades, chamaram de urgência o padre, e procederam ao velório e ao enterro cristão, como era de rigor. E ali estava ela, compungida e chorosa na aflição do luto, olha só dona Marrta...!
.Contou à estupefacta dona Marta que quando chegara à favela dera com grande carpidação familiar: o velho morrera essa mesma tarde, ao que parece desconsolado por não poder já ir viver o carnaval iminente. Deixaram-no na cama onde falecera, amortalhado e bem tapadinho, fecharam a porta do quarto, trancaram bem a casota da favela e lá se foram todos bailar o carnaval. Três dias e muito samba depois reabriram o quarto, alertaram as autoridades, chamaram de urgência o padre, e procederam ao velório e ao enterro cristão, como era de rigor. E ali estava ela, compungida e chorosa na aflição do luto, olha só dona Marrta...!
NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
O Caso Mesquita Machado
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Por J.L. Saldanha Sanches
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UMA LONGA INVESTIGAÇÃO (oito anos) aos inexplicáveis sinais exteriores de riqueza do presidente vitalício da Câmara Municipal de Braga e aos seus familiares e amigos teve o resultado habitual: arquivamento por falta de provas.
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Sem cadáver nem flagrante delito estes processos estão para lá das forças da nossa justiça: mas vamos admitir que não havia mesmo provas e o arquivamento foi a única solução possível. E as questões fiscais?
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O processo penal no Estado de Direito põe o dever de prova a cargo do Estado. O processo fiscal não.
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No processo fiscal, o sujeito passivo deverá convencer a Administração e o juiz (se o processo for para tribunal) que as suas casas ou os seus carros cabem dentro dos rendimentos declarados. A discussão sobre a inversão do ónus da prova no caso do enriquecimento de políticos é ociosa. Por meios fiscais pode obter-se quase o mesmo efeito.
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Se no processo se prova que um empresário conhecido pelos seus actos de benemerência chamado Domingos Névoa ofereceu 10.000 euros à filha do Sr. Mesquita Machado no casamento desta (lembrando-nos uma célebre cena de um filme de Coppola) pode não se provar que haja aqui qualquer crime ou motivação condenável.
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O Sr. Mesquita Machado é um corifeu da democracia socialista e o Sr. Domingos Névoa provavelmente partilha estes nobres ideais. É um sentimento que só o enobrece.
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Mas a nobreza de sentimentos não influencia as empedernidas qualificações fiscais. O fisco tem pêlos no coração. Não será esta desinteressada dádiva uma doação? Terá sido tributada em imposto do selo?
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O Sr. Mesquita Machado pode ter admiráveis qualidades de poupança que expliquem o património que tem acumulado. Mas terá esta poupança passado pelas declarações de IRS?
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Será possível que em Braga haja inúmeras penhoras de contas bancárias dos empresários que não entregaram o IRS e se comunique ao Ministério Público os abusos de confiança fiscal dos falidos que ficaram a dever o IVA e nada se faça em relação a estes casos? Que o Ministério Público investigue durante oito anos sem a colaboração da Inspecção Geral de Finanças ou da DGI?
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Quando um praça da GNR com um enorme património é levado a tribunal por extorsão a automobilistas, a pergunta que deve ser feita é saber por que motivo não detectou a DGI a distância entre património e rendimento num alvo tão fácil como um praça da GNR. Porquê? Como pode a Administração deixar escapar situações como estas?
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Já passou o tempo em que Administração era um corpo corroído pela corrupção, um corpo impotente e inerme. Hoje funciona, e se pode ser acusada de alguma coisa (em relação aos que cumprem) é de excessos.
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E em relação aos marginais sem declaração ou com declarações ridiculamente falseadas? Aos políticos que acumulam fortunas em ninguém perceber como?
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Seria bem mais importante reagir a tais situações (se isso não for incompatível com a política deste Governo) do que redistribuir, por meio de um novo regime de deduções no IRS, uns magros tostões entre as várias camadas de contribuintes.
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Adenda: a Defesa e os serviços secretos portugueses estão sempre no limiar da farsa: aquela história dos livres-trânsitos para os espiões (para irem ao futebol? Para andarem de comboio?) demonstra que ao lado dos generais de opereta temos os espiões de livre-trânsito.
.Por J.L. Saldanha Sanches
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UMA LONGA INVESTIGAÇÃO (oito anos) aos inexplicáveis sinais exteriores de riqueza do presidente vitalício da Câmara Municipal de Braga e aos seus familiares e amigos teve o resultado habitual: arquivamento por falta de provas.
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Sem cadáver nem flagrante delito estes processos estão para lá das forças da nossa justiça: mas vamos admitir que não havia mesmo provas e o arquivamento foi a única solução possível. E as questões fiscais?
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O processo penal no Estado de Direito põe o dever de prova a cargo do Estado. O processo fiscal não.
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No processo fiscal, o sujeito passivo deverá convencer a Administração e o juiz (se o processo for para tribunal) que as suas casas ou os seus carros cabem dentro dos rendimentos declarados. A discussão sobre a inversão do ónus da prova no caso do enriquecimento de políticos é ociosa. Por meios fiscais pode obter-se quase o mesmo efeito.
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Se no processo se prova que um empresário conhecido pelos seus actos de benemerência chamado Domingos Névoa ofereceu 10.000 euros à filha do Sr. Mesquita Machado no casamento desta (lembrando-nos uma célebre cena de um filme de Coppola) pode não se provar que haja aqui qualquer crime ou motivação condenável.
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O Sr. Mesquita Machado é um corifeu da democracia socialista e o Sr. Domingos Névoa provavelmente partilha estes nobres ideais. É um sentimento que só o enobrece.
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Mas a nobreza de sentimentos não influencia as empedernidas qualificações fiscais. O fisco tem pêlos no coração. Não será esta desinteressada dádiva uma doação? Terá sido tributada em imposto do selo?
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O Sr. Mesquita Machado pode ter admiráveis qualidades de poupança que expliquem o património que tem acumulado. Mas terá esta poupança passado pelas declarações de IRS?
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Será possível que em Braga haja inúmeras penhoras de contas bancárias dos empresários que não entregaram o IRS e se comunique ao Ministério Público os abusos de confiança fiscal dos falidos que ficaram a dever o IVA e nada se faça em relação a estes casos? Que o Ministério Público investigue durante oito anos sem a colaboração da Inspecção Geral de Finanças ou da DGI?
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Quando um praça da GNR com um enorme património é levado a tribunal por extorsão a automobilistas, a pergunta que deve ser feita é saber por que motivo não detectou a DGI a distância entre património e rendimento num alvo tão fácil como um praça da GNR. Porquê? Como pode a Administração deixar escapar situações como estas?
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Já passou o tempo em que Administração era um corpo corroído pela corrupção, um corpo impotente e inerme. Hoje funciona, e se pode ser acusada de alguma coisa (em relação aos que cumprem) é de excessos.
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E em relação aos marginais sem declaração ou com declarações ridiculamente falseadas? Aos políticos que acumulam fortunas em ninguém perceber como?
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Seria bem mais importante reagir a tais situações (se isso não for incompatível com a política deste Governo) do que redistribuir, por meio de um novo regime de deduções no IRS, uns magros tostões entre as várias camadas de contribuintes.
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Adenda: a Defesa e os serviços secretos portugueses estão sempre no limiar da farsa: aquela história dos livres-trânsitos para os espiões (para irem ao futebol? Para andarem de comboio?) demonstra que ao lado dos generais de opereta temos os espiões de livre-trânsito.
«Expresso» de 21 de Fevereiro de 2009 http://www.saldanhasanches.pt/
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
domingo, 22 de fevereiro de 2009
SUPOSTOS INDÍCIOS DE UM ALEGADO CARNAVAL
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Por Nuno Brederode Santos
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JÁ OS MEUS AMIGOS DEBANDAM, na pequenina diáspora que os assalta aos primeiros rumores de Carnaval. Por mim, menos dado a tais folguedos, nunca é seguro: espero sempre até ver se a frondosa senhora morena da madeixa loura reaparece no disfarce fantasista do costume: uma Jane Fonda a cujos braços, peito e ancas sobra Barbarella por todos os lados (sendo que a espada curta e o escudo de plástico prateado não são mais do que crédito malparado da princesa Zena ou adereço de uma qualquer amazona insurgente). A seu lado, cumpridor e tristonho, virá o marido, vergado, não só à calvície prematura dos 40, mas sobretudo às enormes responsabilidades sociais que visivelmente se atribui. Esse, porque o orçamento é de crise ou porque a imaginação só lhe proporciona o voo da galinha, trará um chapéu preto de larguíssima aba (coisa de cineasta inconformado, mas que os lojistas chineses que o vendem sempre imputam ao Indiana Jones). Esta gente é que é fiável: só descem ao meu horizonte se e quando for Carnaval. Nem compro serpentinas antes de os ver. Andamos todos, neste vale de lágrimas e sorrisos, a toque de caixa: acorremos ao osso que nos é lançado e alçamos as patas da frente para o devolver a quem o lança. Muitas vezes, quem mais ladra é quem mais corre e quem mais alça. A minha atitude não me vexa: faço como os outros. Entretanto, formalista e respeitoso, só no domingo à tarde saberei, de ciência rija, se na terça-feira é Carnaval.
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Mais forte é a convicção do Ministério Público em Torres Vedras. Aí, uma mãe de Bragança descaída no mapa lobrigou pecado gordo nas fotos de umas senhoras carenciadas, pelo menos daquele mínimo de roupa que assegura uma razoável dose de Islão na Cristandade. Cidadã vigil, queixou-se ao Ministério Público local, reclamando que fôssemos todos poupados à irredimível afronta da "pornografia" (numa extensão conceptual que nos torna todos culpados na banheira). Tiro e queda: proibindo a infâmia no escassíssimo tempo disponível, o pescoço da nossa virtude foi subtraído à guilhotina da nossa luxúria. Realista e folião, o autarca responsável disse aos media da sua surpresa, alimentou o folhetim e, muito institucionalmente, barafustou por requerimento. De um dia para o outro, um (ou uma?) jornalista tentou em vão contactar a ministra da Educação e eu próprio não consegui um comentário, nem do sócio mais antigo da Academia Almadense, nem sequer do dr. Vale e Azevedo. Só que a opinião pública fora já mordida pela cascavel da crítica mordaz. Pelo que o pronto recuo da autoridade - que o autarca, com cifrões no lugar das meninas (e falo das dos olhos) - se desnudou no que era: o baixar da ponte levadiça ao sitiante. Mas o procurador-geral, que foi à Madeira asseverar, para nossa tranquilidade, não haver lá mais corrupção do que no resto do País, explicou que o caso, afinal, era o MP estar em campanha eleitoral - coisa mística em que é melhor não interferir (mesmo quando ela interfere connosco). Mesmo sem a Barbarella, o episódio sugere que é Carnaval.
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Mas já antes disso alguém tinha querido arear as pratas ao brio do pachola português. Ao que parece com origem na Lusa, foi-nos servido o pedido de ajuda a Portugal que Barack Obama terá endereçado a Cavaco Silva (no dia seguinte, foi-nos revelada idêntica diligência junto de José Sócrates). Por vazia que a barriga possa estar, o nosso ego insuflado tomou-lhe os espaços. O episódio demonstra que uma boa educação compensa. A resposta, feita em linha de montagem, do Presidente americano aos telegramas de felicitações das autoridades políticas do mundo inteiro, sendo uma formalidade cortês para todos os outros, era afinal a admissão de que, sem nós, a América soçobraria no mercado do escândalo, do vício e da desregulação dos costumes. E de que os herdeiros políticos do xerife Fontoura levariam Newark a salvar os Estados Unidos. Perante a boa recepção que o facto teve entre nós, o Congresso suspirou de alívio e a Casa Branca abriu Mateus Rosé. Assim é que está bem, porque temos de ser uns para os outros. Mais um indício de que o Carnaval está aí. Mas a vida fez-me céptico e eu continuo a esperar pela Barbarella.
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Se na terça-feira for, de facto, Carnaval, então eu alinho: durmo a sesta de fato e gravata.
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«DN» de 22 de Fevereiro de 2009.
NOTA: Este 'post' é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
O Enterro do PSD
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Por Maria Filomena Mónica
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QUEM PENSE QUE O DR. LUÍS FILIPE MENEZES se referia ao Dr. Balsemão, ao Dr. Pacheco Pereira ou ao Dr. Marcelo Rebelo de Sousa, quando, a 18 de Fevereiro de 1995, designou os «sulistas, elitistas e liberais» como os seus principais inimigos, engana-se. A fálica flecha era-me dirigida: aquelas características – que eu tomo como virtudes e ele como defeitos – aplicam-se-me que nem uma luva. Não sou do PSD, mas no estado em que os cadernos eleitorais se encontram – e provavelmente sempre se encontraram – ele não tinha forma de o saber.
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Como quem não se sente não é filho de boa gente, passei a seguir a sua carreira com atenção. Na Sexta-Feira de madrugada, quando soube os resultados da guerra interna do PSD – ou antes os pseudo-resultados uma vez que ninguém sabe quem foi metido ou riscado das listas – a sua vitória não me espantou. Como o nome indica, nada é mais popular do que o populismo. Felizmente que não penso que o homenzinho de Gaia chegue ao poder: o que conseguiu foi enterrar o PSD.
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Lembrei-me então de um empreendimento por ele prometido antes de férias: um novo cemitério. Após ter constatado que os vinte e quatro cemitérios existentes em Gaia estavam a abarrotar, pôs a concurso público a concepção e gestão de outro, o qual albergaria quarenta e uma mil sepulturas, contando com dois fornos crematórios, uma igreja aberta a todos os credos e um parque de estacionamento, num investimento ascendendo a 20 milhões de euros. Logo houve quem – as agências funerárias – questionasse a decisão, com base no favoritismo da autarquia por uma multinacional. Imaginei que a privatização da morte provocasse uma fúria, mas, pelos vistos, os ecos da revolução da «Maria da Fonte» esfumaram-se. Verificou-se, é certo, alguma agitação, mas esta foi provocada pela hipótese de serem os espanhóis a lucrar com o negócio. Por fim, sabemos tudo: é em Gaia que o líder do novo partido, evidentemente nortenho, anti-liberal e anti-elitista, pensa enterrar o PSD: requiescat in pace.
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Outubro de 2007
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Migrações e Relações Internacionais
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Por António Barreto
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O TEMA SUGERE IMEDIATAMENTE uma pergunta: quais são os nexos, as causas, os efeitos e as implicações existentes entre as migrações e as relações internacionais? A minha resposta simples é a seguinte: podem ser de toda a espécie, de intensas a inexistentes. As migrações podem, ou não, influenciar as relações internacionais. Estas podem, ou não, ter consequências nas migrações. Uma observação da história revela a existência de várias relações, de causa e efeito, num ou noutro sentido. Relações internacionais, entre dois ou mais países, dentro de uma ou mais regiões, podem conduzir a migrações casuais ou permanentes, como podem não ter especial influência nesses movimentos de população. Países ou grupo de países com relações intensas, nomeadamente económicas, ou até políticas, podem ser também o ponto de partida ou de chegada de fluxos migratórios volumosos, como podem desconhecer esse movimento de população. Inversamente, migrações humanas entre vários países e diversas regiões podem forjar um certo tipo de relações internacionais, de cooperação, como podem estar na origem de outros tipos de relações internacionais, de conflito. Como também podem ter reduzida influência no modo como se constroem e praticam as relações entre Estados. Em poucas palavras, posso concluir que não existe regra ou lei que estabeleça efeitos ou características permanentes e necessárias entre as migrações e as relações internacionais. Esta, a resposta simples. Como veremos mais adiante, a resposta pode ser bem mais complexa.
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Todavia, antes de avançar, convém, em poucas palavras, definir os termos em causa, ou pelo menos definir o entendimento que deles tenho, para os efeitos desta exposição. Por relações internacionais entendo o modo como se organizam as relações entre Estados, ou entre grupos de Estados, sejam elas próximas ou distantes, de cooperação ou conflito. Por migração, quero referir-me a todos os movimentos de população entre dois ou mais países, com carácter de longa duração, permanente ou definitivo, independentemente dos motivos ou das circunstâncias que lhes estão na origem. Excluo as viagens de negócios, o turismo, o recreio e as estadias de curta duração com objectivos limitados e específicos, como o do estudo. São definições simples, mas úteis para o propósito. Tenhamos, no entanto, consciência de que estas “viagens”, que não incluo na definição de “migrações”, representam hoje a quantidade colossal de cerca de 500 milhões de pessoas que anualmente se deslocam de um país para outro. Vista do espaço, a Terra é um planeta habitado por uma população em permanente movimento!
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Vale a pena acrescentar algo à definição do termo de migração. Nos tempos modernos, falar de migrações significa quase sempre falar de migrações económicas. Isto é, fluxos de pessoas que abandonam um país para, de modo durável ou definitivo, se instalarem noutro país, a fim de aí trabalharem, residirem e viverem. Estas são, sem dúvida, as migrações mais conhecidas e as que atingem volumes mais relevantes. Constituem aliás um movimento de população que se transformou em traço estrutural da maior parte dos países. As últimas décadas criaram uma situação nova: a da possibilidade de emigrar de quase todos os países para uma grande variedade de outros. É certo que já houve grandes migrações no passado. Sem ir até aos tempos bíblicos, nem aos da colonização ou da escravatura, basta referir o século XIX, durante o qual milhões de europeus se deslocaram para os chamados novos continentes. Mas, enquanto na maior parte do século XX, muitos países se “fecharam”, no tempo actual, com a globalização, com os novos arranjos internacionais (como a União Europeia, por exemplo), com o turismo e com novas políticas de controlo de fronteiras, começámos a viver um ciclo de relativa abertura.
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A maior parte dos países do mundo não é estranha às migrações. Ou porque recebem trabalhadores estrangeiros, ou porque deles saem pessoas para trabalhar noutros horizontes. A maioria dos países vive com a migração como um facto natural e permanente. Não era assim há cinquenta anos. Ou, pelo menos, há cinquenta anos, o fenómeno tinha pouco significado. Isto, com excepção de alguns países ou Estados modernos, como os Estados Unidos da América, o Canadá, a Austrália, a Venezuela e o Brasil que se fizeram, desde os séculos XVIII e XIX, a partir dos migrantes que receberam (o que não exclui o facto de todos esses países terem antes populações autóctones). Para esses chamados novos países, ou novos mundos, a imigração é um factor genético da sua constituição.
O TEMA SUGERE IMEDIATAMENTE uma pergunta: quais são os nexos, as causas, os efeitos e as implicações existentes entre as migrações e as relações internacionais? A minha resposta simples é a seguinte: podem ser de toda a espécie, de intensas a inexistentes. As migrações podem, ou não, influenciar as relações internacionais. Estas podem, ou não, ter consequências nas migrações. Uma observação da história revela a existência de várias relações, de causa e efeito, num ou noutro sentido. Relações internacionais, entre dois ou mais países, dentro de uma ou mais regiões, podem conduzir a migrações casuais ou permanentes, como podem não ter especial influência nesses movimentos de população. Países ou grupo de países com relações intensas, nomeadamente económicas, ou até políticas, podem ser também o ponto de partida ou de chegada de fluxos migratórios volumosos, como podem desconhecer esse movimento de população. Inversamente, migrações humanas entre vários países e diversas regiões podem forjar um certo tipo de relações internacionais, de cooperação, como podem estar na origem de outros tipos de relações internacionais, de conflito. Como também podem ter reduzida influência no modo como se constroem e praticam as relações entre Estados. Em poucas palavras, posso concluir que não existe regra ou lei que estabeleça efeitos ou características permanentes e necessárias entre as migrações e as relações internacionais. Esta, a resposta simples. Como veremos mais adiante, a resposta pode ser bem mais complexa.
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Todavia, antes de avançar, convém, em poucas palavras, definir os termos em causa, ou pelo menos definir o entendimento que deles tenho, para os efeitos desta exposição. Por relações internacionais entendo o modo como se organizam as relações entre Estados, ou entre grupos de Estados, sejam elas próximas ou distantes, de cooperação ou conflito. Por migração, quero referir-me a todos os movimentos de população entre dois ou mais países, com carácter de longa duração, permanente ou definitivo, independentemente dos motivos ou das circunstâncias que lhes estão na origem. Excluo as viagens de negócios, o turismo, o recreio e as estadias de curta duração com objectivos limitados e específicos, como o do estudo. São definições simples, mas úteis para o propósito. Tenhamos, no entanto, consciência de que estas “viagens”, que não incluo na definição de “migrações”, representam hoje a quantidade colossal de cerca de 500 milhões de pessoas que anualmente se deslocam de um país para outro. Vista do espaço, a Terra é um planeta habitado por uma população em permanente movimento!
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Vale a pena acrescentar algo à definição do termo de migração. Nos tempos modernos, falar de migrações significa quase sempre falar de migrações económicas. Isto é, fluxos de pessoas que abandonam um país para, de modo durável ou definitivo, se instalarem noutro país, a fim de aí trabalharem, residirem e viverem. Estas são, sem dúvida, as migrações mais conhecidas e as que atingem volumes mais relevantes. Constituem aliás um movimento de população que se transformou em traço estrutural da maior parte dos países. As últimas décadas criaram uma situação nova: a da possibilidade de emigrar de quase todos os países para uma grande variedade de outros. É certo que já houve grandes migrações no passado. Sem ir até aos tempos bíblicos, nem aos da colonização ou da escravatura, basta referir o século XIX, durante o qual milhões de europeus se deslocaram para os chamados novos continentes. Mas, enquanto na maior parte do século XX, muitos países se “fecharam”, no tempo actual, com a globalização, com os novos arranjos internacionais (como a União Europeia, por exemplo), com o turismo e com novas políticas de controlo de fronteiras, começámos a viver um ciclo de relativa abertura.
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A maior parte dos países do mundo não é estranha às migrações. Ou porque recebem trabalhadores estrangeiros, ou porque deles saem pessoas para trabalhar noutros horizontes. A maioria dos países vive com a migração como um facto natural e permanente. Não era assim há cinquenta anos. Ou, pelo menos, há cinquenta anos, o fenómeno tinha pouco significado. Isto, com excepção de alguns países ou Estados modernos, como os Estados Unidos da América, o Canadá, a Austrália, a Venezuela e o Brasil que se fizeram, desde os séculos XVIII e XIX, a partir dos migrantes que receberam (o que não exclui o facto de todos esses países terem antes populações autóctones). Para esses chamados novos países, ou novos mundos, a imigração é um factor genético da sua constituição.
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Mas as migrações económicas, tal como as conhecemos hoje, não incluem toda a realidade das migrações. Outros fenómenos estiveram na origem de grandes movimentos de população. A chamada descoberta, a colonização, a conquista, a reconquista, a deportação e a fuga traduzem-se em situações ou estão na origem de factos que podem ser equiparados às migrações. Repare-se, por exemplo, como os grandes impérios, tanto os ultramarinos como os continentais, se fizeram sempre graças também a movimentos de populações. O império romano, o otomano, o português, o germânico, o britânico e o russo organizaram-se a partir de grandes migrações ou exigiram grandes migrações para se estabelecerem. Conforme os casos, as migrações ficaram ligadas a guerras ou conquistas políticas, a administração pacífica ou a deslocações violentas de pessoas, a decisões voluntárias ou a movimentos compulsivos.
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Neste momento da minha exposição, sinto quase a necessidade de fazer uma espécie de declaração de interesses: tenho simpatia pelas migrações. Independentemente das suas circunstâncias (que podem ser dramáticas), das suas consequências (que podem ser trágicas), dos problemas que provocam (que são numerosos e complexos), considero que as migrações dão um valioso contributo para o desenvolvimento da humanidade e dos povos. Sei que das migrações podem resultar violência e preconceito, mas creio que são um insubstituível factor de aproximação dos povos. Sei que as migrações podem resultar de guerras e opressões, de genocídios e fomes, mas tenho a certeza de que já salvaram as vidas de milhões de pessoas. Sei que as migrações modernas resultam, as mais das vezes, de situações de carência e privação, mas também são o modo como as pessoas lutam contra esses mesmos fenómenos.
Mas as migrações económicas, tal como as conhecemos hoje, não incluem toda a realidade das migrações. Outros fenómenos estiveram na origem de grandes movimentos de população. A chamada descoberta, a colonização, a conquista, a reconquista, a deportação e a fuga traduzem-se em situações ou estão na origem de factos que podem ser equiparados às migrações. Repare-se, por exemplo, como os grandes impérios, tanto os ultramarinos como os continentais, se fizeram sempre graças também a movimentos de populações. O império romano, o otomano, o português, o germânico, o britânico e o russo organizaram-se a partir de grandes migrações ou exigiram grandes migrações para se estabelecerem. Conforme os casos, as migrações ficaram ligadas a guerras ou conquistas políticas, a administração pacífica ou a deslocações violentas de pessoas, a decisões voluntárias ou a movimentos compulsivos.
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Neste momento da minha exposição, sinto quase a necessidade de fazer uma espécie de declaração de interesses: tenho simpatia pelas migrações. Independentemente das suas circunstâncias (que podem ser dramáticas), das suas consequências (que podem ser trágicas), dos problemas que provocam (que são numerosos e complexos), considero que as migrações dão um valioso contributo para o desenvolvimento da humanidade e dos povos. Sei que das migrações podem resultar violência e preconceito, mas creio que são um insubstituível factor de aproximação dos povos. Sei que as migrações podem resultar de guerras e opressões, de genocídios e fomes, mas tenho a certeza de que já salvaram as vidas de milhões de pessoas. Sei que as migrações modernas resultam, as mais das vezes, de situações de carência e privação, mas também são o modo como as pessoas lutam contra esses mesmos fenómenos.
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Esta minha preferência não é apenas uma crença. Nem só uma opinião de carácter político ou moral. Sabe-se, cada vez mais e melhor, que as migrações trazem consigo crescimento económico e desenvolvimento; ajudam à renovação demográfica e à mistura de populações; e promovem a aproximação de culturas e a convivência entre diferentes. Na verdade, as migrações não são apenas pessoas em movimento. Com elas, viajam as ideias, os produtos, as culturas e as crenças.
As mais actualizadas investigações arqueológicas, históricas, antropológicas e linguísticas vão revelando que o movimento e a mistura de populações, por vias pacíficas ou não, estão na origem de enormes progressos da humanidade. A agricultura, a indústria e o comércio desenvolveram-se mais e mais rapidamente naquelas áreas onde era fácil ou foi tornada fácil a movimentação de pessoas e a divulgação de técnicas. E não foram apenas os progressos económicos e materiais: também as culturas, a escrita, as ciências, a organização das sociedades, a administração pública, a saúde e a educação desenvolveram-se mais e melhor nos continentes propícios ao movimento e às migrações. São também cada vez em maior número os estudos de economistas e historiadores económicos que tendem a sublinhar, para o tempo contemporâneo, as grandes vantagens puramente económicas que resultam da imigração de trabalhadores estrangeiros.
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Como em tudo na vida, não há só a face brilhante das migrações. Há também o lado negro, o do sofrimento. Quando as migrações estão ligadas a actos de guerra, de opressão ou de conquista, acabam por acrescentar drama e tragédia ao que já era dor e conflito. Ou quando as migrações, por via das questões políticas, religiosas e sociais, acabam por desencadear perturbações maiores nas sociedades, também aí assistimos a esse reverso da medalha. Será necessário recordar exemplos? Só entre os mais recentes, pensemos na Palestina, no Uganda, na Libéria, no Sudão, nos restos da União Soviética, na Somália, no Zaire, em Angola... Mas não se pense que estas situações mais dramáticas pertencem a outros continentes. A Europa está directamente envolvida nelas. Ou porque também conheceu há bem pouco tempo movimentos desesperados de pessoas à procura de abrigo, paz e trabalho, como quando assistimos ao desmoronamento da federação jugoslava e vimos milhares de pessoas, em barcos irreais, à procura de bom porto. Ou porque uma parte importante dos que fogem, como os africanos da costa ocidental, dirigem-se para o Mediterrâneo e para os países europeus, onde aliás nem sempre chegam e donde, tantas vezes, são recambiados.
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É a altura de falar um pouco de nós. Portugal tem uma velha história de migração. Deixo de lado os tempos idos das migrações que fizeram o povo e a nação, ou das que levaram os portugueses aos outros continentes. Bastam-nos os séculos XIX e XX. Só o último século seria suficiente para demonstrar que Portugal conheceu quase todas as experiências possíveis de migração económica e social. Conhecemos bem a emigração para as colónias africanas e latino-americana e para a ex-colónia brasileira. Também vivemos a emigração para os chamados países novos de povoamento ou estabelecimento europeu, como os Estados Unidos, o Canadá, a Venezuela e a África do Sul. Foram estes os padrões migratórios até aos anos sessenta do século XX. Eram, em certo sentido, um factor estrutural da demografia portuguesa. A emigração era o recurso natural de muitas populações a fim resolver os seus problemas de carência económica. Desempenhou o papel de válvula de segurança, de fonte de rendimento para muitas famílias e de equilíbrio relativo nas contas externas. A emigração desses tempos ficou inscrita na história do país, na literatura e nas representações populares. A emigração dessa altura deixou, pelas segundas e terceiras gerações, uma diáspora portuguesa espalhada por vários continentes e que se avalia hoje a vários milhões de descendentes.
Esta minha preferência não é apenas uma crença. Nem só uma opinião de carácter político ou moral. Sabe-se, cada vez mais e melhor, que as migrações trazem consigo crescimento económico e desenvolvimento; ajudam à renovação demográfica e à mistura de populações; e promovem a aproximação de culturas e a convivência entre diferentes. Na verdade, as migrações não são apenas pessoas em movimento. Com elas, viajam as ideias, os produtos, as culturas e as crenças.
As mais actualizadas investigações arqueológicas, históricas, antropológicas e linguísticas vão revelando que o movimento e a mistura de populações, por vias pacíficas ou não, estão na origem de enormes progressos da humanidade. A agricultura, a indústria e o comércio desenvolveram-se mais e mais rapidamente naquelas áreas onde era fácil ou foi tornada fácil a movimentação de pessoas e a divulgação de técnicas. E não foram apenas os progressos económicos e materiais: também as culturas, a escrita, as ciências, a organização das sociedades, a administração pública, a saúde e a educação desenvolveram-se mais e melhor nos continentes propícios ao movimento e às migrações. São também cada vez em maior número os estudos de economistas e historiadores económicos que tendem a sublinhar, para o tempo contemporâneo, as grandes vantagens puramente económicas que resultam da imigração de trabalhadores estrangeiros.
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Como em tudo na vida, não há só a face brilhante das migrações. Há também o lado negro, o do sofrimento. Quando as migrações estão ligadas a actos de guerra, de opressão ou de conquista, acabam por acrescentar drama e tragédia ao que já era dor e conflito. Ou quando as migrações, por via das questões políticas, religiosas e sociais, acabam por desencadear perturbações maiores nas sociedades, também aí assistimos a esse reverso da medalha. Será necessário recordar exemplos? Só entre os mais recentes, pensemos na Palestina, no Uganda, na Libéria, no Sudão, nos restos da União Soviética, na Somália, no Zaire, em Angola... Mas não se pense que estas situações mais dramáticas pertencem a outros continentes. A Europa está directamente envolvida nelas. Ou porque também conheceu há bem pouco tempo movimentos desesperados de pessoas à procura de abrigo, paz e trabalho, como quando assistimos ao desmoronamento da federação jugoslava e vimos milhares de pessoas, em barcos irreais, à procura de bom porto. Ou porque uma parte importante dos que fogem, como os africanos da costa ocidental, dirigem-se para o Mediterrâneo e para os países europeus, onde aliás nem sempre chegam e donde, tantas vezes, são recambiados.
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É a altura de falar um pouco de nós. Portugal tem uma velha história de migração. Deixo de lado os tempos idos das migrações que fizeram o povo e a nação, ou das que levaram os portugueses aos outros continentes. Bastam-nos os séculos XIX e XX. Só o último século seria suficiente para demonstrar que Portugal conheceu quase todas as experiências possíveis de migração económica e social. Conhecemos bem a emigração para as colónias africanas e latino-americana e para a ex-colónia brasileira. Também vivemos a emigração para os chamados países novos de povoamento ou estabelecimento europeu, como os Estados Unidos, o Canadá, a Venezuela e a África do Sul. Foram estes os padrões migratórios até aos anos sessenta do século XX. Eram, em certo sentido, um factor estrutural da demografia portuguesa. A emigração era o recurso natural de muitas populações a fim resolver os seus problemas de carência económica. Desempenhou o papel de válvula de segurança, de fonte de rendimento para muitas famílias e de equilíbrio relativo nas contas externas. A emigração desses tempos ficou inscrita na história do país, na literatura e nas representações populares. A emigração dessa altura deixou, pelas segundas e terceiras gerações, uma diáspora portuguesa espalhada por vários continentes e que se avalia hoje a vários milhões de descendentes.
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A partir dos anos sessenta, uma mudança radical fez com que os fluxos migratórios quase abandonassem o Brasil e se virassem, maioritariamente, para a Europa. Esta precisava de trabalhadores, Portugal tinha-os em quantidade, sofrendo, ao mesmo tempo, de uma situação de atraso económico e de incipiente industrialização. O período que vai de 1960 a 1975 é o período de maior emigração da história portuguesa. Talvez um milhão e meio de trabalhadores foram viver alhures, nomeadamente em França. As consequências, para Portugal, foram notáveis. Atingiu-se o pleno emprego. Aumentaram os salários dos que aqui ficaram. As mulheres passaram a integrar a população activa com emprego. As famílias rurais ganharam mais uma fonte de rendimento. Muitos puderam finalmente construir a sua casa e aceder a um módico de conforto. As contas públicas alcançaram um equilíbrio de pagamentos bastante para compensar os défices comerciais. A população, directa ou indirectamente, conheceu outros mundos e preparou-se para uma abertura mental e material sem precedentes.
A partir dos anos sessenta, uma mudança radical fez com que os fluxos migratórios quase abandonassem o Brasil e se virassem, maioritariamente, para a Europa. Esta precisava de trabalhadores, Portugal tinha-os em quantidade, sofrendo, ao mesmo tempo, de uma situação de atraso económico e de incipiente industrialização. O período que vai de 1960 a 1975 é o período de maior emigração da história portuguesa. Talvez um milhão e meio de trabalhadores foram viver alhures, nomeadamente em França. As consequências, para Portugal, foram notáveis. Atingiu-se o pleno emprego. Aumentaram os salários dos que aqui ficaram. As mulheres passaram a integrar a população activa com emprego. As famílias rurais ganharam mais uma fonte de rendimento. Muitos puderam finalmente construir a sua casa e aceder a um módico de conforto. As contas públicas alcançaram um equilíbrio de pagamentos bastante para compensar os défices comerciais. A população, directa ou indirectamente, conheceu outros mundos e preparou-se para uma abertura mental e material sem precedentes.
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Ao mesmo tempo, talvez pela primeira vez, a população decresceu em termos absolutos ao longo de vários anos, sem que tal se deva a guerras ou epidemias. Por si só, a emigração bastaria para mudar grande parte da sociedade portuguesa. Continuaram portugueses a partir para a América do Norte (sobretudo madeirenses e açorianos) e para África. Mas a segunda metade do século XX é sem dúvida o tempo da emigração europeia. O que traduz também a reorganização da economia e da política, tanto nacionais como internacionais. Esta emigração acompanhou as novas tendências das relações internacionais. Em certo sentido, precedeu essas novas tendências. Muito antes da integração europeia, da adesão formal de Portugal à Comunidade Europeia, já a população tinha procedido a essa integração. A integração europeia de Portugal começou por ser humana e social, só depois foi política e económica.
Ao mesmo tempo, talvez pela primeira vez, a população decresceu em termos absolutos ao longo de vários anos, sem que tal se deva a guerras ou epidemias. Por si só, a emigração bastaria para mudar grande parte da sociedade portuguesa. Continuaram portugueses a partir para a América do Norte (sobretudo madeirenses e açorianos) e para África. Mas a segunda metade do século XX é sem dúvida o tempo da emigração europeia. O que traduz também a reorganização da economia e da política, tanto nacionais como internacionais. Esta emigração acompanhou as novas tendências das relações internacionais. Em certo sentido, precedeu essas novas tendências. Muito antes da integração europeia, da adesão formal de Portugal à Comunidade Europeia, já a população tinha procedido a essa integração. A integração europeia de Portugal começou por ser humana e social, só depois foi política e económica.
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Depois desse ciclo, Portugal regista novo facto inédito: o regresso, para uns, a chegada, para outros, de 500.000 a 600.000 portugueses de África. Foi acontecimento único na história recente da Europa. Em menos de dois anos, a população aumentou 6 a 7 por cento. O que poderia ter sido fonte de perturbações, de problemas e de conflitos muito sérios, acabou por se processar de modo geralmente pacífico (o que não quer dizer sem esforço, sem drama e sem dificuldades) e se transformar numa colossal renovação da população. Também neste caso, as relações internacionais marcaram e influenciaram as migrações.
Depois desse ciclo, Portugal regista novo facto inédito: o regresso, para uns, a chegada, para outros, de 500.000 a 600.000 portugueses de África. Foi acontecimento único na história recente da Europa. Em menos de dois anos, a população aumentou 6 a 7 por cento. O que poderia ter sido fonte de perturbações, de problemas e de conflitos muito sérios, acabou por se processar de modo geralmente pacífico (o que não quer dizer sem esforço, sem drama e sem dificuldades) e se transformar numa colossal renovação da população. Também neste caso, as relações internacionais marcaram e influenciaram as migrações.
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Logo a seguir, novos episódios inéditos na história do país: a chegada de emigrantes estrangeiros em grandes quantidades. A ponto de a demografia portuguesa ter mudado, agora com qualquer coisa como 6 ou 7 por cento de estrangeiros residentes. Primeiro, habitantes das mais recentes ex-colónias africanas, com relevo para Cabo Verde, Guiné e, menos, Angola. Depois, novidade também, a chegada de brasileiros, que aliás constituem hoje a principal comunidade de estrangeiros a residir em Portugal. A seguir, um surto de novos imigrantes dos países europeus, nomeadamente espanhóis, mas também ingleses e franceses. As actividades económicas, as ligações empresariais e a migração de terceira idade são responsáveis por esta situação. Em todos estes casos, estamos perante fluxos migratórios estreitamente relacionados com a história e a tradição, ou com a nova configuração internacional de Portugal, como país pertencendo à União Europeia.
Logo a seguir, novos episódios inéditos na história do país: a chegada de emigrantes estrangeiros em grandes quantidades. A ponto de a demografia portuguesa ter mudado, agora com qualquer coisa como 6 ou 7 por cento de estrangeiros residentes. Primeiro, habitantes das mais recentes ex-colónias africanas, com relevo para Cabo Verde, Guiné e, menos, Angola. Depois, novidade também, a chegada de brasileiros, que aliás constituem hoje a principal comunidade de estrangeiros a residir em Portugal. A seguir, um surto de novos imigrantes dos países europeus, nomeadamente espanhóis, mas também ingleses e franceses. As actividades económicas, as ligações empresariais e a migração de terceira idade são responsáveis por esta situação. Em todos estes casos, estamos perante fluxos migratórios estreitamente relacionados com a história e a tradição, ou com a nova configuração internacional de Portugal, como país pertencendo à União Europeia.
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Finalmente, de modo inesperado, em menos de uma década, mais de uma centena de milhares de oriundos da Europa de Leste, especialmente ucranianos, mas também moldavos, romenos e russos. Nunca, no princípio dos anos noventa, os melhores analistas, sociólogos, geógrafos ou demógrafos tinham sequer sonhado com essa eventualidade. De países longínquos e, para nós, estranhos, com os quais Portugal nunca tinha tido qualquer relação densa ou intensa, chegavam dezenas de milhares de trabalhadores que rapidamente se espalharam por todo o país. A contrariar os fenómenos anteriores, eis um caso de migrações que parecem, à primeira vista, independentes das relações internacionais. Evidentemente, se olharmos bem e quisermos mostrar como “isto anda tudo ligado”, será possível encontrar na pertença de Portugal à União Europeia e ao Espaço Schengen, assim como num comportamento deliberado da Alemanha, nossa parceira na União, as razões que explicam o caminho tomado pelos ucranianos, russos e moldavos. Mas isso já será um esforço intelectual excessivo. Esta chegada de migrantes a Portugal não tem, efectiva e imediatamente, relação com a história ou com a actividade internacional de Portugal. Poderá, eventualmente, assistir-se ao inverso: relações entre dois Estados que se estabelecem e desenvolvem com base em movimentos populacionais prévios. De qualquer maneira, não esqueçamos que estamos, no caso dos ucranianos, perante a segunda maior comunidade de estrangeiros, depois da brasileira e antes da cabo-verdiana. Pouco sabemos ainda sobre os seus projectos de vida. Querem ficar definitivamente entre nós? Fazem casa e educam os seus filhos em Portugal? Procuram, um dia, a naturalização? Ou, pelo contrário, consideram este apenas como um episódio de vida, uma migração temporária, e alimentam o plano de poupar para regressar mais tarde ao seu país, tal como, a propósito, tantos portugueses fizeram em França? É o que saberemos melhor dentro de uma ou duas décadas.
Finalmente, de modo inesperado, em menos de uma década, mais de uma centena de milhares de oriundos da Europa de Leste, especialmente ucranianos, mas também moldavos, romenos e russos. Nunca, no princípio dos anos noventa, os melhores analistas, sociólogos, geógrafos ou demógrafos tinham sequer sonhado com essa eventualidade. De países longínquos e, para nós, estranhos, com os quais Portugal nunca tinha tido qualquer relação densa ou intensa, chegavam dezenas de milhares de trabalhadores que rapidamente se espalharam por todo o país. A contrariar os fenómenos anteriores, eis um caso de migrações que parecem, à primeira vista, independentes das relações internacionais. Evidentemente, se olharmos bem e quisermos mostrar como “isto anda tudo ligado”, será possível encontrar na pertença de Portugal à União Europeia e ao Espaço Schengen, assim como num comportamento deliberado da Alemanha, nossa parceira na União, as razões que explicam o caminho tomado pelos ucranianos, russos e moldavos. Mas isso já será um esforço intelectual excessivo. Esta chegada de migrantes a Portugal não tem, efectiva e imediatamente, relação com a história ou com a actividade internacional de Portugal. Poderá, eventualmente, assistir-se ao inverso: relações entre dois Estados que se estabelecem e desenvolvem com base em movimentos populacionais prévios. De qualquer maneira, não esqueçamos que estamos, no caso dos ucranianos, perante a segunda maior comunidade de estrangeiros, depois da brasileira e antes da cabo-verdiana. Pouco sabemos ainda sobre os seus projectos de vida. Querem ficar definitivamente entre nós? Fazem casa e educam os seus filhos em Portugal? Procuram, um dia, a naturalização? Ou, pelo contrário, consideram este apenas como um episódio de vida, uma migração temporária, e alimentam o plano de poupar para regressar mais tarde ao seu país, tal como, a propósito, tantos portugueses fizeram em França? É o que saberemos melhor dentro de uma ou duas décadas.
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Neste capítulo de imigração de estrangeiros, há ainda a mencionar, última em data e sem relações com a presença de Portugal em Macau, a chegada de alguns milhares de chineses. Numa década, sobretudo através do comércio, começou a criar-se uma já significativa comunidade chinesa, outro facto inédito na nossa sociedade.
Neste capítulo de imigração de estrangeiros, há ainda a mencionar, última em data e sem relações com a presença de Portugal em Macau, a chegada de alguns milhares de chineses. Numa década, sobretudo através do comércio, começou a criar-se uma já significativa comunidade chinesa, outro facto inédito na nossa sociedade.
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Mas esta rica história, na qual Portugal experimentou quase todos os tipos de migrações, não acaba aqui. Depois de, em meados da década de noventa, Portugal se ter transformado num país de imigração predominante, isto é, que recebia mais estrangeiros do que portugueses partiam, eis que, no início do século XXI, a emigração de portugueses para o estrangeiro, que nunca cessou completamente, parece retomar. Nos últimos anos, o número de emigrantes portugueses atingiu novamente valores elevados, com médias na ordem dos 30.000 por ano, sendo no entanto verdade que talvez haja mais emigrantes temporários ou sazonais do que permanentes. O destino, além da tradicional América do Norte, é ainda preferencialmente europeu, mas surgiram já novas alterações. Parece não ser a França o primeiro destino, nem a Alemanha, mas sim a Espanha, a Inglaterra e a Suíça. Os casos mais curiosos podem ser o da Espanha, outro facto novo na história, e o da Inglaterra, cuja comunidade portuguesa cresceu a um ritmo muito acelerado para atingir valores estimados próximos dos 400.000. Esta nova emigração, ou esta nova vaga de uma velha emigração para a Europa, não surge por causa da pertença de Portugal à União. Nem neste caso, nem no da Espanha ou da Suíça, tal como também não fora o da França dos anos sessenta. As razões fundamentais são, como no passado, as dificuldades económicas portuguesas, a procura de mão-de-obra naqueles países e a notável diferença de salários e oportunidades. É certo que a pertença à União ajuda (o que não é o caso da Suíça). Mas não foi esse facto que desencadeou o movimento migratório. Apenas o permitiu, dado que as leis e as directivas europeias facilitam a deslocação e o estabelecimento.
Mas esta rica história, na qual Portugal experimentou quase todos os tipos de migrações, não acaba aqui. Depois de, em meados da década de noventa, Portugal se ter transformado num país de imigração predominante, isto é, que recebia mais estrangeiros do que portugueses partiam, eis que, no início do século XXI, a emigração de portugueses para o estrangeiro, que nunca cessou completamente, parece retomar. Nos últimos anos, o número de emigrantes portugueses atingiu novamente valores elevados, com médias na ordem dos 30.000 por ano, sendo no entanto verdade que talvez haja mais emigrantes temporários ou sazonais do que permanentes. O destino, além da tradicional América do Norte, é ainda preferencialmente europeu, mas surgiram já novas alterações. Parece não ser a França o primeiro destino, nem a Alemanha, mas sim a Espanha, a Inglaterra e a Suíça. Os casos mais curiosos podem ser o da Espanha, outro facto novo na história, e o da Inglaterra, cuja comunidade portuguesa cresceu a um ritmo muito acelerado para atingir valores estimados próximos dos 400.000. Esta nova emigração, ou esta nova vaga de uma velha emigração para a Europa, não surge por causa da pertença de Portugal à União. Nem neste caso, nem no da Espanha ou da Suíça, tal como também não fora o da França dos anos sessenta. As razões fundamentais são, como no passado, as dificuldades económicas portuguesas, a procura de mão-de-obra naqueles países e a notável diferença de salários e oportunidades. É certo que a pertença à União ajuda (o que não é o caso da Suíça). Mas não foi esse facto que desencadeou o movimento migratório. Apenas o permitiu, dado que as leis e as directivas europeias facilitam a deslocação e o estabelecimento.
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E gostaria ainda de referir que, nestas novas migrações, um outro caso merece atenção: o da migração pendular, diária ou semanal, de trabalhadores portugueses para Espanha. São já milhares os que, das regiões fronteiriças, se dirigem regularmente para o seu emprego na Galiza ou na Estremadura. É incerto o futuro deste movimento de trabalhadores. Mas, tendo em conta a dinâmica económica dos dois países, é de prever que aumente e se desenvolva.
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Este é o resumo breve da história das migrações em Portugal. Teve efeitos felizes, como o da melhoria dos rendimentos e do bem-estar. Momentos infelizes, como o da separação das famílias. E teve episódios dolorosos, como o da viagem “a salto” ou o dos bairros da lata da região parisiense. Teve também situações insuportáveis, como as do trabalho clandestino e da multiplicação de ilegais em Portugal. Mas o balanço geral é o de um formidável contributo para a mudança social e para um relativo progresso. Em pouco mais de quarenta anos, cerca de dois milhões de portugueses saíram para o estrangeiro, quase um milhão e meio de pessoas vieram viver para cá. Temos de convir que foi muito. Em pouco tempo. Mais uma vez, esses fenómenos bastavam, por si próprios, para ter mudado a sociedade.
E gostaria ainda de referir que, nestas novas migrações, um outro caso merece atenção: o da migração pendular, diária ou semanal, de trabalhadores portugueses para Espanha. São já milhares os que, das regiões fronteiriças, se dirigem regularmente para o seu emprego na Galiza ou na Estremadura. É incerto o futuro deste movimento de trabalhadores. Mas, tendo em conta a dinâmica económica dos dois países, é de prever que aumente e se desenvolva.
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Este é o resumo breve da história das migrações em Portugal. Teve efeitos felizes, como o da melhoria dos rendimentos e do bem-estar. Momentos infelizes, como o da separação das famílias. E teve episódios dolorosos, como o da viagem “a salto” ou o dos bairros da lata da região parisiense. Teve também situações insuportáveis, como as do trabalho clandestino e da multiplicação de ilegais em Portugal. Mas o balanço geral é o de um formidável contributo para a mudança social e para um relativo progresso. Em pouco mais de quarenta anos, cerca de dois milhões de portugueses saíram para o estrangeiro, quase um milhão e meio de pessoas vieram viver para cá. Temos de convir que foi muito. Em pouco tempo. Mais uma vez, esses fenómenos bastavam, por si próprios, para ter mudado a sociedade.
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Ao contrário do que se passava até aos anos sessenta, hoje, em Portugal, nas ruas das cidades e vilas, até nos campos, ouvem-se falar todas as línguas. Ucranianos pisam uvas nos lagares, russos arrancam cortiça no montado, cabo-verdianos trabalham na construção civil, moldavos servem em restaurantes, brasileiros atendem nos comércios e espanhóis tratam nos hospitais. Vêem-se pessoas com todas as cores de pele e vestidas de todos os feitos. Reza-se a todos os deuses. Comem-se e bebem-se todos os produtos de todo o mundo. Vêem-se filmes ou televisão e lêem-se jornais nas mais inesperadas línguas. Se acrescentarmos a isso as liberdades políticas e culturais, podemos concluir que a sociedade portuguesa é hoje aberta e plural. Para o que as migrações, tanto as partidas como as chegadas, foram determinantes. São causa e consequência do pluralismo. São causa e consequência da liberdade. É esta história que permite hoje esperar que os portugueses não tenham a memória curta e que defendam e pratiquem, para os estrangeiros que vivem connosco, políticas iguais àquelas que sempre quisemos que fossem as dos outros países para com os nossos concidadãos emigrados. Nem mais, nem menos.
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Deixemos Portugal e voltemos à Europa e ao mundo. As migrações, as suas causas e as suas consequências, constituem hoje um dos mais sérios e complexos problemas de todas as sociedades. Muito mais do que no passado, as relações internacionais estão condicionadas, em parte, pelas migrações, sejam as realizadas, sejam as previsíveis. A organização da União Europeia, por exemplo, é particularmente sensível a este ponto, como se verificou com a adesão de novos membros (Bulgária e Roménia), com a candidatura de outros (Turquia) e com as relações com terceiros (África do Norte). As relações dos Estados Unidos com os países latino-americanos estão igualmente marcadas pelo problema das migrações.
Ao contrário do que se passava até aos anos sessenta, hoje, em Portugal, nas ruas das cidades e vilas, até nos campos, ouvem-se falar todas as línguas. Ucranianos pisam uvas nos lagares, russos arrancam cortiça no montado, cabo-verdianos trabalham na construção civil, moldavos servem em restaurantes, brasileiros atendem nos comércios e espanhóis tratam nos hospitais. Vêem-se pessoas com todas as cores de pele e vestidas de todos os feitos. Reza-se a todos os deuses. Comem-se e bebem-se todos os produtos de todo o mundo. Vêem-se filmes ou televisão e lêem-se jornais nas mais inesperadas línguas. Se acrescentarmos a isso as liberdades políticas e culturais, podemos concluir que a sociedade portuguesa é hoje aberta e plural. Para o que as migrações, tanto as partidas como as chegadas, foram determinantes. São causa e consequência do pluralismo. São causa e consequência da liberdade. É esta história que permite hoje esperar que os portugueses não tenham a memória curta e que defendam e pratiquem, para os estrangeiros que vivem connosco, políticas iguais àquelas que sempre quisemos que fossem as dos outros países para com os nossos concidadãos emigrados. Nem mais, nem menos.
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Deixemos Portugal e voltemos à Europa e ao mundo. As migrações, as suas causas e as suas consequências, constituem hoje um dos mais sérios e complexos problemas de todas as sociedades. Muito mais do que no passado, as relações internacionais estão condicionadas, em parte, pelas migrações, sejam as realizadas, sejam as previsíveis. A organização da União Europeia, por exemplo, é particularmente sensível a este ponto, como se verificou com a adesão de novos membros (Bulgária e Roménia), com a candidatura de outros (Turquia) e com as relações com terceiros (África do Norte). As relações dos Estados Unidos com os países latino-americanos estão igualmente marcadas pelo problema das migrações.
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Há, como se sabe, muita discussão sobre as políticas possíveis. Mas também há muita especulação, geralmente alarmista. Ainda há bem poucos anos se receavam, por toda a Europa, as enxurradas de imigrantes com origem na Europa central e de Leste, vindos dos novos membros da União ou dos países que se afastaram da antiga União Soviética ou da Comunidade de Estados Independentes. Eram frequentes as certezas sobre as consequências nefastas que se verificariam. Mas ninguém previa, por exemplo, que só a Grã-Bretanha seria capaz de, em poucos anos, absorver meio milhão de Europeus de Leste; que Portugal receberia cerca de 100.000 cidadãos das mesmas origens; e que valores de idêntica ordem proporcional se verificariam em Espanha, na Itália e em França.
Há, como se sabe, muita discussão sobre as políticas possíveis. Mas também há muita especulação, geralmente alarmista. Ainda há bem poucos anos se receavam, por toda a Europa, as enxurradas de imigrantes com origem na Europa central e de Leste, vindos dos novos membros da União ou dos países que se afastaram da antiga União Soviética ou da Comunidade de Estados Independentes. Eram frequentes as certezas sobre as consequências nefastas que se verificariam. Mas ninguém previa, por exemplo, que só a Grã-Bretanha seria capaz de, em poucos anos, absorver meio milhão de Europeus de Leste; que Portugal receberia cerca de 100.000 cidadãos das mesmas origens; e que valores de idêntica ordem proporcional se verificariam em Espanha, na Itália e em França.
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Apesar das histórias de sucesso, a opinião pública continua a pensar que as migrações trazem problemas. Por um lado, é verdade. Por outro, tal sentimento é exagerado. Perante qualquer notícia menos agradável ou diante de uma tendência económica negativa, como por exemplo o desemprego, logo se esquecem as inegáveis vantagens da imigração de estrangeiros, para rapidamente se lhes atribuírem culpas e responsabilidades. Neste quadro, o preconceito cresce a uma velocidade impressionante. Reparemos como certos povos estão indelevelmente ligados a preconceitos inadmissíveis. Dispenso-me de referir os nomes próprios, mas há povos que foram quase equiparados a um certo tipo de malfeitores. De uns, logo se pensa que são terroristas. Outros são evidentemente traficantes de droga. De uma nacionalidade se tem a certeza que estão todos entregues à prostituição e ao proxenetismo. Uns são evidentemente criminosos, outros contrabandistas; uns são naturalmente violentos e especialistas no crime organizado, enquanto outros dedicam-se todos ao comércio ilegal. Pensem em fazer, em voz baixa, estas equiparações e verão que o preconceito é bem real.
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Além disso, mais fundo e mais persistente, há o racismo. O racismo está frequentemente associado às migrações. O que agrava aquela que é já uma complexa questão social. Há certos fenómenos que, quase inevitavelmente, acompanham as migrações em massa. Como por exemplo o trabalho ilegal, as redes de tráfico e colocação de mão-de-obra, o desenraizamento, a marginalidade ou as condições de habitação segregada. Se a todos estes factos, perturbantes e de difícil resolução, acrescentarmos as manifestações de racismo, como é infelizmente frequente, então temos diante de nós situações realmente explosivas.
Apesar das histórias de sucesso, a opinião pública continua a pensar que as migrações trazem problemas. Por um lado, é verdade. Por outro, tal sentimento é exagerado. Perante qualquer notícia menos agradável ou diante de uma tendência económica negativa, como por exemplo o desemprego, logo se esquecem as inegáveis vantagens da imigração de estrangeiros, para rapidamente se lhes atribuírem culpas e responsabilidades. Neste quadro, o preconceito cresce a uma velocidade impressionante. Reparemos como certos povos estão indelevelmente ligados a preconceitos inadmissíveis. Dispenso-me de referir os nomes próprios, mas há povos que foram quase equiparados a um certo tipo de malfeitores. De uns, logo se pensa que são terroristas. Outros são evidentemente traficantes de droga. De uma nacionalidade se tem a certeza que estão todos entregues à prostituição e ao proxenetismo. Uns são evidentemente criminosos, outros contrabandistas; uns são naturalmente violentos e especialistas no crime organizado, enquanto outros dedicam-se todos ao comércio ilegal. Pensem em fazer, em voz baixa, estas equiparações e verão que o preconceito é bem real.
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Além disso, mais fundo e mais persistente, há o racismo. O racismo está frequentemente associado às migrações. O que agrava aquela que é já uma complexa questão social. Há certos fenómenos que, quase inevitavelmente, acompanham as migrações em massa. Como por exemplo o trabalho ilegal, as redes de tráfico e colocação de mão-de-obra, o desenraizamento, a marginalidade ou as condições de habitação segregada. Se a todos estes factos, perturbantes e de difícil resolução, acrescentarmos as manifestações de racismo, como é infelizmente frequente, então temos diante de nós situações realmente explosivas.
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Não creio exagerar. O racismo é um traço permanente da civilização ocidental. Talvez o seja também de outras, é-o seguramente. Mas é a nossa civilização que me interessa aqui. Não esqueço que também há no Ocidente o seu contrário, a tolerância e a miscigenação. Como não esqueço que muita gente, na Europa, não é racista; nem que a luta contra o racismo e pela igualdade tem tido, neste continente, pontos altos no pensamento, na acção e na lei. Mas não vale a pena esconder aquele que é também um facto relevante, quase uma tradição histórica: há séculos que o racismo é um traço permanente nas sociedades e nos hábitos ocidentais e europeus. E nem é preciso recuar até aos tempos da escravatura e das primeiras colonizações: o século XX é farto em exemplos de acções, hábitos, leis e comportamentos racistas, tanto neste como noutros continentes.
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Vivemos hoje e viveremos no futuro tempos de globalização. De abertura das sociedades. De movimento e deslocação dos povos. De liberdade de circulação e de derrube de alfândegas. Mas também, paradoxalmente, de criação de novas fronteiras. O estabelecimento de disciplinas severas para impedir ou controlar os movimentos de população está, em muitos países, na ordem do dia. A mistura de populações acelera-se em todo o mundo, seja por mestiçagem, seja por habitação e vizinhança. Mas, ao mesmo tempo, surgem novos conflitos e novas manifestações de segregação. Creio ser difícil admitir a total liberdade de circulação: nenhum país, nenhum Estado a admite. Mas esse não é motivo suficiente para reforçar os impedimentos, as proibições e as separações. Até porque tais atitudes e políticas não evitam hoje, como se sabe, a clandestinidade e o trabalho ilegal, nos quais tanto colaboram os estrangeiros como os nacionais de qualquer país. Não é por eles, pelos estrangeiros, que devemos ser mais racionais nas políticas. É por nós, por todos nós, dado que, para além da circulação, do trabalho e da sobrevivência, estão em causa direitos humanos, a participação na vida pública e a integração de todos na vida colectiva.
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A Europa tem receio das migrações. Tanto os Estados europeus como as suas populações. Tempos houve, há não muitas décadas, em que a migração era considerada necessária, desejada ou, pelo menos, tolerada sem ressentimentos. Hoje, parece que estamos a viver tempos diferentes. Ao mesmo tempo que as fronteiras se abriram, que as alfândegas quase desapareceram, que o turismo, os negócios ou simplesmente a liberdade de circulação florescem, uma espécie de sentimento de receio começou a desenvolver-se. Uma das mais complexas questões que ocupam actualmente as instituições da União, assim como os governos dos Estados membros, é a da imigração, em todas as suas vertentes. A Europa tem receio dos europeus de Leste, dos turcos, dos árabes e dos africanos...
Não creio exagerar. O racismo é um traço permanente da civilização ocidental. Talvez o seja também de outras, é-o seguramente. Mas é a nossa civilização que me interessa aqui. Não esqueço que também há no Ocidente o seu contrário, a tolerância e a miscigenação. Como não esqueço que muita gente, na Europa, não é racista; nem que a luta contra o racismo e pela igualdade tem tido, neste continente, pontos altos no pensamento, na acção e na lei. Mas não vale a pena esconder aquele que é também um facto relevante, quase uma tradição histórica: há séculos que o racismo é um traço permanente nas sociedades e nos hábitos ocidentais e europeus. E nem é preciso recuar até aos tempos da escravatura e das primeiras colonizações: o século XX é farto em exemplos de acções, hábitos, leis e comportamentos racistas, tanto neste como noutros continentes.
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Vivemos hoje e viveremos no futuro tempos de globalização. De abertura das sociedades. De movimento e deslocação dos povos. De liberdade de circulação e de derrube de alfândegas. Mas também, paradoxalmente, de criação de novas fronteiras. O estabelecimento de disciplinas severas para impedir ou controlar os movimentos de população está, em muitos países, na ordem do dia. A mistura de populações acelera-se em todo o mundo, seja por mestiçagem, seja por habitação e vizinhança. Mas, ao mesmo tempo, surgem novos conflitos e novas manifestações de segregação. Creio ser difícil admitir a total liberdade de circulação: nenhum país, nenhum Estado a admite. Mas esse não é motivo suficiente para reforçar os impedimentos, as proibições e as separações. Até porque tais atitudes e políticas não evitam hoje, como se sabe, a clandestinidade e o trabalho ilegal, nos quais tanto colaboram os estrangeiros como os nacionais de qualquer país. Não é por eles, pelos estrangeiros, que devemos ser mais racionais nas políticas. É por nós, por todos nós, dado que, para além da circulação, do trabalho e da sobrevivência, estão em causa direitos humanos, a participação na vida pública e a integração de todos na vida colectiva.
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A Europa tem receio das migrações. Tanto os Estados europeus como as suas populações. Tempos houve, há não muitas décadas, em que a migração era considerada necessária, desejada ou, pelo menos, tolerada sem ressentimentos. Hoje, parece que estamos a viver tempos diferentes. Ao mesmo tempo que as fronteiras se abriram, que as alfândegas quase desapareceram, que o turismo, os negócios ou simplesmente a liberdade de circulação florescem, uma espécie de sentimento de receio começou a desenvolver-se. Uma das mais complexas questões que ocupam actualmente as instituições da União, assim como os governos dos Estados membros, é a da imigração, em todas as suas vertentes. A Europa tem receio dos europeus de Leste, dos turcos, dos árabes e dos africanos...
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Do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos e o Canadá têm receio das migrações. Estes países, feitos pela emigração, receiam hoje os imigrantes do mundo inteiro, especialmente da América Latina. Está em estudo e em curso de construção uma barreira detectora de imigrantes! Existe a convicção de que é possível controlar a emigração e de que razoável que um país só deixe entrar dentro das suas fronteiras as pessoas de que necessita para o seu mercado de trabalho!
Do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos e o Canadá têm receio das migrações. Estes países, feitos pela emigração, receiam hoje os imigrantes do mundo inteiro, especialmente da América Latina. Está em estudo e em curso de construção uma barreira detectora de imigrantes! Existe a convicção de que é possível controlar a emigração e de que razoável que um país só deixe entrar dentro das suas fronteiras as pessoas de que necessita para o seu mercado de trabalho!
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Em África, é o contrário. A emigração parece ser o desejo, o horizonte e a ambição de muitos povos, a ponto de se estabelecerem vias de transporte ilegais, arriscadas e perigosas, onde todos os meses morrem dezenas ou centenas de candidatos à emigração. Hoje em África, mais do que em qualquer outro continente, as migrações estão ligadas a situações de carência absoluta, a conflitos e guerras de enorme crueldade e a movimentos de deslocação compulsiva e violenta de centenas de milhares ou milhões de pessoas.
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Finalmente, há realidades novas, ou com novos contornos, que obrigam a uma firme atenção. Nos países de acolhimento, criam-se fenómenos de não integração das segundas e terceiras gerações que cada vez mais perturbam a paz social. Muitos dos que recebem estrangeiros pensam que compete apenas aos outros adaptarem-se aos seus costumes. Mas também há muitos estrangeiros que não estão disponíveis para fazer o esforço de adaptação. Daqui resultam conflitos e incompreensões que têm envenenado as relações entre etnias. E também existem Estados que, para as suas políticas internas e externas, tentam utilizar as suas comunidades da diáspora.
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Termino com uma profissão de fé nas migrações. O que não impede que tenha consciência da dimensão dos problemas que lhes estão associados. Há enormes pressões, seja para aumentar as migrações, seja para as conter e limitar. Associados às migrações, há fenómenos de extrema complexidade, nem sempre fáceis de resolver. Mais do que no passado, com a globalização, as migrações entram directamente no domínio das relações internacionais. Por isso, não são só a humanidade dos nossos comportamentos e a tolerância das nossas leis que estão em causa. Estão também a paz e o desenvolvimento.
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Sociedade de Geografia de Lisboa
Lisboa, Janeiro de 2006Em África, é o contrário. A emigração parece ser o desejo, o horizonte e a ambição de muitos povos, a ponto de se estabelecerem vias de transporte ilegais, arriscadas e perigosas, onde todos os meses morrem dezenas ou centenas de candidatos à emigração. Hoje em África, mais do que em qualquer outro continente, as migrações estão ligadas a situações de carência absoluta, a conflitos e guerras de enorme crueldade e a movimentos de deslocação compulsiva e violenta de centenas de milhares ou milhões de pessoas.
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Finalmente, há realidades novas, ou com novos contornos, que obrigam a uma firme atenção. Nos países de acolhimento, criam-se fenómenos de não integração das segundas e terceiras gerações que cada vez mais perturbam a paz social. Muitos dos que recebem estrangeiros pensam que compete apenas aos outros adaptarem-se aos seus costumes. Mas também há muitos estrangeiros que não estão disponíveis para fazer o esforço de adaptação. Daqui resultam conflitos e incompreensões que têm envenenado as relações entre etnias. E também existem Estados que, para as suas políticas internas e externas, tentam utilizar as suas comunidades da diáspora.
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Termino com uma profissão de fé nas migrações. O que não impede que tenha consciência da dimensão dos problemas que lhes estão associados. Há enormes pressões, seja para aumentar as migrações, seja para as conter e limitar. Associados às migrações, há fenómenos de extrema complexidade, nem sempre fáceis de resolver. Mais do que no passado, com a globalização, as migrações entram directamente no domínio das relações internacionais. Por isso, não são só a humanidade dos nossos comportamentos e a tolerância das nossas leis que estão em causa. Estão também a paz e o desenvolvimento.
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Sociedade de Geografia de Lisboa
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NOTA: Este post é uma extensão do que está afixado no Jacarandá, onde eventuais comentários deverão ser afixados
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