segunda-feira, 16 de março de 2009

Dito & Feito

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Por José António Lima
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COMO É QUE Manuel Alegre se pode sentir de bem com a sua consciência ao manter-se num partido com o qual está em frontal divergência, exigindo «a revogação do Código laboral, a suspensão do modelo de avaliação dos professores, a abolição das taxas moderadoras, serviços públicos sem a lógica de parcerias público-privadas»? Afinal, o que lhe resta como base de acordo com o Governo e o PS: a distribuição de ‘Magalhães’ às criancinhas, os casamentos de homossexuais, a cor da bandeira do partido?
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E como é que Alegre pode afirmar que «não ia entrar na mercearia de disputar» o lugar de presidente do Parlamento a Jaime Gama, mas se dispõe a que um entendimento com Sócrates se traduza na colocação de uns tantos deputados alegristas em lugares elegíveis nas listas do PS? «Em reconhecimento do espaço próprio que eu represento», explica, para justificar essas contas de mercearia.
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COMO é que o PS diz, pela autorizada voz de António Costa, que o Bloco de Esquerda, força política com a qual Manuel Alegre tem andado festivamente de braço dado em fóruns e outras tertúlias anti-Governo, «é um partido oportunista que parasita a desgraça alheia e incapaz de assumir responsabilidades» e, ao mesmo tempo e pela voz do mesmo António Costa, nos quer convencer que «a casa de Manuel Alegre, a família dele é a família do PS»? De que lado ficam, então, os parasitas?
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E como é que José Sócrates estende a mão para um entendimento nas listas do PS a alguém que, a cada entrevista, arrasa todas as bandeiras políticas e, uma a uma, as reformas do seu Governo? Alguém que anda em alegre campanha com «oportunistas» e «parasitas da desgraça»?
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ALEGRE precisa do PS de Sócrates para o seu desígnio de ter uma votação histórica, como candidato unificador de toda a esquerda, nas presidenciais de 2011. E Sócrates precisa de Alegre para evitar um rombo eleitoral ainda maior à esquerda e manter acesa a trémula chama de uma nova maioria absoluta.
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Mas, ao ponto a que o confronto e as divergências chegaram, a insinuada promessa de uma união de facto entre ambos tresanda a hipocrisia política. E a uma negociata partidária sem princípios nem valores. Que não dignifica Alegre. Nem Sócrates. Nem o PS.
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«Sol» de 14 de Março de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

domingo, 15 de março de 2009

Mistérios de Lisboa

A FOTO DE CIMA mostra dois veículos em infracção na esquina da Av. de Roma com a R. Frei Amador Arrais.
A foto de baixo mostra um funcionário da EMEL a "dar atenção" a um deles.
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A pergunta que toda a gente, por aquelas bandas, faz é a seguinte:
Porque é que os carros, carrinhas e camionetas (que, nessa esquina, estacionam em cima do passeio - chegando a estar lá às meias-dúzias de cada vez! ) nunca-por-nunca são verdadeiramente incomodados - nem pela EMEL, nem pela Polícia Municipal nem pela DT da PSP?!
Ou, sendo mais explícito: já alguém viu algum deles a ser rebocado ou sequer bloqueado?!
Se um dia alguém vir, está de parabéns: como o local é um dos abrangidos pelos fabulosos Prémios António Costa, tire uma foto da cena, e mande-a de imediato para medinaribeiro@iol.pt (com indicação de data e hora), e poderá ganhar, sem mais perguntas, um almoço de lagosta no Gambrinus - oferta renovada todos os meses, válida até às próximas eleições autárquicas!

Por estes pingos da crise

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Por Nuno Brederode Santos
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GOSTO DESTE SOL impúbere. Precoce, educado e tímido, sem fanatismos nem farroncas. 22 a 24º. Não há melhor. Até eu quero estar na rua, vasculhando em círculos lentos os que passam, as janelas alheias e o chão que piso. Em casa, as buganvílias já espreitam e os limões estão absolutamente imperiais. Filmo em mim a vida que faço e ainda dou aos outros, como brinde, a garantia de que o filme não é para exibir. Sinto que algo rumina, sem pressas, o que quer que possa haver na minha caixa craniana. É óptimo. E é o estado de espírito asado para olhar o pequeno mundo que me foi dado fruir.
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José Eduardo dos Santos veio a Lisboa em visita de Estado, porque (e quando) lhe e nos interessou. "Portugal tem relações diplomáticas e económicas com Angola e deve receber e conversar com os seus representantes" é o enunciado de princípio que o facto mereceu a Francisco Louçã e que eu aceito. Só que daí decorrem consequências, a não menor das quais é a normalidade protocolar: ressalvada a independência estatutária dos tribunais, o visitante celebra os três órgãos soberanos em que a (nossa) democracia assenta (Presidente, Assembleia e Governo). O bom senso não é macro nem é micro, não é fino nem é grosso. Ora, invocar um "festim neo-colonial", revelador dos "tiques da economia e da política portuguesas" e criticar o "deslumbramento", a "vertigem do negócio" e o "cinismo" de (ou seria "dos"?) empresários portugueses, para justificar a ausência de deputados no parlamento, não é razoável. Não se sacrifica um princípio político a contingências e rigorismos processais. Nem se sujeitam os nossos interesses à suspeição de maus benefícios alheios. O "festim" nem decorrera quando a decisão foi tomada. Se a oposição fosse de princípio, tudo se resolvia - ainda que, concedo, com prejuízo do espectáculo - com um comunicado ou um discurso a advogar o corte das tais relações. Sem necessidade do exibicionismo mediático, nem de esperar pela consumação da visita. Já tínhamos tido idêntico (e lamentável) episódio com o Rei de Espanha. É imaturo, é o "sol na eira e chuva no nabal" dos radicalismos puritanos, que fogem às responsabilidades do poder para - ao que julgam - consolidarem o seu crescimento eleitoral. Mas é sobretudo a incapacidade de entender que isso de só ter expressão de Estado na Assembleia da República tem custos, mas imputáveis ao eleitorado soberano. O Bloco tem de resolver primeiro o problema da sua implantação a todos os níveis do Estado - e não apenas no Parlamento - e só depois arrogar-se o exercício das subtilezas diplomáticas. Caso contrário, continuará a reagir de escopeta em riste contra pulgas no humor, carraças no remorso histórico e contratempos da agenda política. E a embaraçar-nos a todos. E a julgar que uma autocrítica tardia - como a feita com o caso do Rei de Espanha - virá resolver os problemas que agora pretendeu criar. E a deitar a perder o esforço, tão recente quanto insano, para demonstrar a todos nós que até tem ministro das finanças.
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Em Aveiro, um pai deixou o seu bebé, durante três horas, fechado no carro. Ao que parece, na ansiedade de acudir a uma reunião profissional, em tempos de emprego funambulesco. Esquecida, a criança morreu. Oiço as vozes dos vigilantes de primeiro instinto pedindo castigo severo para o monstro. Mas pode haver castigo mais severo do que o homem ter de viver com o que fez, muito antes do que lhe for feito em nome de todos nós? E logo oiço outros que, em nome desta razoabilíssima pergunta, não admitem que ele possa ser punido pela lei. Não se enjeita explicitamente a lei, mas sublinham-se todas as especificidades circunstanciais do episódio. E há psicólogos que proferem penetrantes considerações científicas sobre o caso. Por isso, ocorre sempre perguntar: mas nós não tínhamos, há trinta e tal anos, combinado que este agora seria um Estado de Direito, no qual as leis, uma vez por nós pactuadas, ganhariam sentido e vida própria e seriam aplicadas, no seu normativo geral e abstracto, aos casos concretos, por um juiz de Direito independente? Podemos, é claro, exprimir todas as opiniões: esse mesmo Estado também nos assegura essa liberdade. Mas apelos e abaixo-assinados é que já talvez não façam muito sentido.
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Agora volto à vidinha, que este belo dia ainda guarda 19 graus para me dar.
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«DN» de 15 de Março de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sábado, 14 de março de 2009

Só alegrias…

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Por Alice Vieira
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HÁ ALGUMAS semanas que só tenho tido alegrias.
A sério.
Os patrões têm-se portado bem, as crianças nas escolas têm-se portado bem, até o tempo se tem portado bem.
Se calhar é já o efeito-primavera, que adoça sempre tudo.
Ou se calhar sou eu que, desde que vim da Escola de Santa Catarina, ando com este ar beatífico de quem encontrou o Senhor no caminho de Damasco.
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Deixem-me contar a história.
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A Escola EBI de Santa Catarina fica na região das Caldas da Rainha. Escola pública, que nem deve entrar naqueles rankings que de vez em quando por aí se publicam.
Recentemente o Conselho Executivo decidiu que iria haver um dia em que toda a gente na escola iria parar durante 45 minutos — e estaria a ler durante esses 45 minutos.
Ninguém podia fazer outra coisa que não fosse ler.
Durante 45 minutos.
E toda a gente significava toda a gente: desde o funcionário da entrada, até às empregadas, professores, alunos.
Toda a gente.
O que se chama mesmo toda a gente.
Escolheram o dia, cada um trouxe o livro que quis e, à hora marcada, do dia marcado, a escola parou.
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Durante 45 minutos toda a gente esteve a ler.
A professora contava-me tudo isto e ainda se emocionava.
“O mais impressionante de tudo”, dizia ela, “era o silêncio. Foram 45 minutos de um silêncio absoluto! Não se ouvia o mínimo ruído, toda a gente estava, realmente, absorvida na leitura.”
O êxito da iniciativa foi tal que já todos pedem que ela se repita em breve.
E, ao que parece, essa paragem de 45 minutos não interferiu em nada no bom andamento da escola: não houve desacatos, a papelada foi preenchida, a comida esteve pronta a horas, os programas não se atrasaram, os alunos não falaram ao telemóvel.
Foram 45 minutos de paz.
Possivelmente algumas das pessoas que nesse dia leram durante 45 minutos há muito que não pegavam num livro.
Possivelmente algumas das pessoas que nesse dia leram durante 45 minutos eram daquelas que constantemente repetem “eu tenho lá tempo para ler!”
Possivelmente algumas das pessoas que nesse dia leram durante 45 minutos até pertenceriam àquele grupo dos que afirmam “eu não gosto de ler”…
Possivelmente algumas das pessoas que nesse dia leram durante 45 minutos… mudaram de opinião.
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Muitas vezes, iniciativas destas, aparentemente tão simples, têm mais força e são mais eficazes do que muitas campanhas anunciadas por aí com pompa, circunstância — e televisões acopladas…

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«JN» de 14 de Março de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

Prédio e escada - desenho à escala

O desenho que inicialmente fiz (com a casa amarela) era meramente indicativo e, como não estava à escala, podia induzir em erro. Aqui fica, então, em papel quadriculado, "à moda antiga".
NOTA: a 2ª solução (simétrica, com x=4 e y=12) tem apenas um interesse de curiosidade matemática.

Receita para a crise

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Por Antunes Ferreira
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DE ACORDO COM A CGTP, a manifestação que ontem decorreu em Lisboa teve mais de 200 mil pessoas, o que, no entender da Central Sindical, foi a maior que alguma vez se verificou. No momento em que escrevo esta crónica, ainda não são conhecidos os números da PSP e do Governo. Mas, pelas imagens que as televisões já deram, (eu não estive lá) não custa a crer que a afirmação dos sindicalistas esteja, no mínimo, muito próxima da verdade.
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No seu habitual discurso final destas movimentações de massas, o eterno Carvalho da Silva não quis comentar sobre o merecimento ou não de um nova maioria absoluta para os socialistas. Limitou-se a dizer: “O povo que escolha, mas uma coisa que é clara - este Governo tem cinco traços da sua governação que são muito maus: mais desemprego, mais precariedade, uma sociedade com mais promiscuidade entre os poderes e corrupção, quebras dos salários reais e uma degradação do modelo de desenvolvimento do país”. Foi, sem margem para dúvidas, o gato escondido com o rabo de fora.
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Uma das constatações mais interessantes que pude retirar da manifestação, foi o secretário-geral da Intersindical ter referido o apelo recente de Cavaco Silva, tendo no entanto acrescentado que “mais do que solidariedade, é preciso acção”. E acrescentou que, como a CGTP não actua “pela negativa”, vai apresentar uma proposta, a 1 de Maio, para ajudar Portugal a sair da crise. Curioso. Quem ousaria prever o facto antes inconcebível de ver juntas duas personalidades tão distintas.
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As coisas são o que são. A Central esmagadoramente comunista sabe, pois, como vencer a crise e salvar o País. Ou, pelo menos, sabe com ajudar a fazê-lo. O que, convenhamos, é excelente. Para Portugal, obviamente, mas – quem sabe? – a sua fórmula poderá aplicar-se ao Mundo inteiro. Quase diria que ela se pode comparar à poção mágica que dá força sobre humana ao famoso Astérix.
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Mas, num caso de enorme gravidade como é este que vivemos, ironias como a que acabei de fazer podem perfeitamente ser qualificadas de estúpidas. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Só que não acredito nessa descoberta, que, a ser real e verdadeira, levaria de novo, o nome dos Portugueses ao pináculo da glória. Mais, até, do que se verificou na época dos Descobrimentos. Com tanta gente – não quis dizer toda a gente, mas quase – a viver com as calças na mão, bendita seria a CGTP.
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Desde Obama até à senhora Merkel, passando por Sarkozy, Putine, e muitíssimos mais dirigente políticos, todos elevariam um hossana em honra de Carvalho da Silva e seus camaradas. Até Bento XVI, no Vaticano. Seria obra! É que por mais que queiram ou não queiram as Oposições deste nosso País, a crise é global. Disseminou-se pelo Mundo fora. Não é da culpa deste ou daquele. É de todos. E, entretanto, o gratuito Meia Hora titulava na quinta-feira, a toda a largura da sua primeira página: «“Cowboy” Sócrates festeja quatro anos como senhor do faroeste».
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A sociedade em que vamos vivendo está um verdadeiro caos. Mas não nos podemos esquecer de que foram os homens, ao longo dos milénios, os seus autores. Desde as cavernas até à actualidade, todos nós temos de assumir as nossas responsabilidades. A ninguém é permitido assobiar para o ar. A humanidade não é constituída por compartimentos estanques. É a mesma desde que o seu primeiro elemento, fosse ele qual fosse, começou a viver. Acentuo o pleonasmo: é humana.
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sexta-feira, 13 de março de 2009

Casa e escada - Problema

NOTA: os passarinhos foram metidos para disfarçar a má qualidade do desenho que - evidentemente!! - não está à escala...
Quanto à cor da casa, quem é que dizia «Se todos os gostos fossem iguais, o que seria do amarelo?

A escada - Solução

Altura da casa=12m é a solução apresentada pelo criador do problema.

No entanto, pelo menos matematicamente, há uma outra resposta possível. Qual é?

«Uma boa 4ª classe faz muita falta!» - Prémio

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quinta-feira, 12 de março de 2009

Obras em Casa

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Por Maria Filomena Mónica
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SOU CONTRA OBRAS EM CASA pelo mesmo motivo que sou contra a utilização da cirurgia plástica: as rachas das paredes são tão bonitas quanto as rugas na cara. Sei que não é uma posição popular, mas é aquela que adoptei. Em 1974, quando aluguei a casa pombalina onde vivo, já não estaria nas melhores condições, mas pareceu-me lindíssima: apreciei os desvios do soalho, as portadas que rangiam, a assimetria das janelas. Em 1981, o senhorio obrigou-me a comprá-la.
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Durante doze anos, não mexi uma palha. Até que, em 1993, o esgoto de grés rebentou. Não havia alternativa se não substituí-lo. De um dia para o outro, o andar foi inundado por engenheiros, arquitectos, pedreiros, carpinteiros, electricistas e até fiscais da Câmara. O pesadelo durou dois anos. Para me consolar, convenci-me que nunca mais teria de me maçar com problemas de construção civil. Eis que, depois das recentes chuvadas, os azulejos da fachada começaram a cair: não todos de uma vez, mas um aqui, outro acolá.
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Apesar de ser a gestora do condomínio, armei-me em esperta, fingindo que nada se passava. Igualmente preguiçosos, os outros fizeram o mesmo. Estava eu a meditar no que conviria reparar – uma fachada de onde faltam bocados parece uma boca desdentada – quando uma vizinha da frente me bateu à porta, queixando-se de que um azulejo do 3º andar do meu prédio aterrara sobre a sua cabeça (por sorte horizontalmente). Chamei os bombeiros e a polícia, os quais selaram a rua. Em dois dias, uns alpinistas brasileiros detectaram os azulejos em vias de se descolarem e recolocaram os que estavam em falta.
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Desconfiei logo que isto bastasse. Um mestre-de-obras confirmou as minhas piores suspeitas. Por muito que considerasse belas as casas decadentes, o meu prédio estava em vias de ruir. Eis o motivo por que estou a redigir esta crónica diante de uns matulões colocando andaimes em frente da minha secretária. O seu bom humor contrasta com a minha tristeza. Porque sei que por muito seguro que o meu prédio fique, adquirirá um arzinho novo-rico. Sem rachas, uma casa não tem personalidade.

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Outubro de 2007
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quarta-feira, 11 de março de 2009

Salto de cavalo 11 Mar 09 - Solução

Contra esta 'estabilidade'

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Por Baptista-Bastos
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NAS ÚLTIMAS SEMANAS temos ouvido e lido uma palavra que, de repetida, se torna numa fastidiosa obstinação: "estabilidade." Há uma falsa serenidade, uma ilusória mansuetude no bojo desta palavra solitária. Lembrou-me, com as distâncias que a sensatez recomenda, a famosa "paz dos cemitérios", de António Sérgio. A sua utilização sempre me sugeriu, por associação de ideias, algumas frases intranscendentes que, rigorosamente, a explicam e justificam: "tenha paciência", "coma e cale-se", "quietinho no seu cantinho".
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Talvez esta modesta reflexão pareça, aos olhos dos meus leitores, arbitrária e até delirante. Não o é. Vejam vocês: o que se nos pede e, subtilmente, se nos propõe é o voto no partido que, segundo os seus trompetistas, garante a calmaria social, a tranquilidade nos espíritos, o sossego nas reclamações. Tem-se visto. Batucam esta tecla com intimidante teimosia. O próprio dr. Cavaco introduziu, no seu habitual e insípido discurso, a palavra obsessivamente repisada, acaso presumindo que ela detém uma irredutível integridade.
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Há um tédio recíproco entre o partido que nos pede o voto na "estabilidade" e nós, amolgados pelo triste horror do dia-a-dia, e desalentados com a nossa própria imprevidência, que, um pouco levianamente, lhe deu, há quatro anos, a maioria absoluta. Por outro lado, no conclave de Espinho foi demonstrado que existe um fervor militante espantoso, o qual permitiu, à maneira de Kim Jong-il, um unanimismo jubiloso e compacto a apoiar o líder.
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A "estabilidade" não resolve problema algum, num "país embebedado pela classe política", como disse, anteontem, na SIC, o prof. Medina Carreira. A "estabilidade", contida na tal maioria absoluta, é a escora de um edifício moralmente doente, socialmente inepto, politicamente vazio, desinteressado do bem comum. Esta maioria absoluta em que sobrevivemos dramaticamente pode servir de lição às nossas decisões próximas e futuras. A "estabilidade" é redutora: inibe o debate, impõe as regras de um jogo de antemão falsificado, e apenas consente quem obedece ao suserano.
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O apelo à "estabilidade" pressupõe, praticamente, o confinamento das vozes dissentes. Cujas reivindicações só encontram limitado eco no Parlamento e numa que outra das televisões. E o espectro da "desestabilização" serve para atemorizar aqueles que pensam não haver alternativa. A verdade é que podemos proceder à alteração deste rotativismo, de tão exangues exemplos no século XIX. Portugal é governável sem maiorias absolutas. Os políticos têm, somente, de atender ao espírito de missão. O que me parece arredio dos cálculos desta gente.
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«DN» de 11 de Março de 2009
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terça-feira, 10 de março de 2009

Licor darwiniano

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Por Nuno Crato
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JULGAVA QUE ERA BRINCADEIRA do passado e que o cartaz de propaganda ao Anís del Mono já não existia. Também... quem se lembraria de anunciar um Anis do Macaco?! Mas ele lá está, bem perto do centro de Barcelona, num estabelecimento de vinhos, licores e produtos regionais, na esquina das ruas Llúria e Valencia. Vale a pena passar pela loja e admirar o vitral com o cartaz concebido por Ramon Casas. Foi com essa pintura que o artista catalão ganhou em 1898 o concurso publicitário lançado pelas distilarias que fabricavam o famoso licor. É gigantesco. Mostra uma senhora de fim de século levando pela mão um mono. O animal leva debaixo do braço uma garrafa de anis.

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O mais engraçado é o rótulo da bebida. Para o ver com cuidado é preciso comprar uma garrafa. Entra-se na loja, que está aberta até tarde: «Anís del Mono, por favor!» O empregado, imperturbável, passa-nos um talão e chama uma senhora — também ela de fim de século. Apesar de haver menos clientes do que empregados, é preciso esperar que a empregada venha para que lhe paguemos a mercadoria na caixa e que recolhamos a garrafa noutro balcão. Saímos e apreciamos-lhe o rótulo. Nele, um mono de cauda longa está sentado num caixote de bebidas. Há várias garrafas em volta e um copo. O animal tem uma cara humana, com uma careca redonda e umas barbas brancas. É uma óbvia caricatura de Darwin. Segura numa mão uma garrafa, noutra um letreiro onde se pode ler «Es el mejor, la ciencia lo dijo y yo no miento».
Não sei se é o melhor, imagino que a ciência não se pronuncie sobre a qualidade do licor, e duvido que os macacos falem verdade. Mas Darwin costumava dizer o que pensava. De entre as várias obras à venda neste ano comemorativo do grande naturalista inglês, uma das mais interessantes é a sua autobiografia. Vale a pena lê-la. Alcança apenas a centena de páginas e é comovente pela simplicidade com que está escrita.
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Toda a mensagem do rótulo é curiosa e contraditória. Retratar Charles Darwin como um macaco era uma das sátiras em voga no século XIX para ridicularizar as suas teorias. Darwin nunca disse que o homem provém do macaco, mas sim que as espécies existentes, incluindo a nossa e as dos símios, têm prováveis origens comuns e que se transformaram por um processo longo, que durou muitos milhões de anos.
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Ao mesmo tempo que se ridiculariza o cientista inglês, dá-se-lhe a autoridade máxima para recomendar o anis. É um rótulo publicitário — e tudo se perdoa na publicidade.
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É curioso, venho depois a saber, que o sucesso do licoroso macaco tenha levado outros fabricantes a usarem imagens de outros animais. Surgiu na época o Anís del Tigre, que se anunciava como melhor que o do símio. Era a sobrevivência do mais forte.
O darwinismo, contudo, não fala do mais robusto em abstracto, mas sim do mais apto a sobreviver num dado meio. A publicidade do mono foi a mais apta e aniquilou a do felino alcoólico.
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Saímos da loja e passeamo-nos pela cidade velha. Entramos no museu Picasso, um dos mais interessantes dos muitos da capital catalã. São os últimos dias de uma exposição temporária intitulada «Objectos Vivos». Nela se mostram desenhos e pinturas do artista espanhol, em que objectos inanimados se transformam em seres vivos. Entre eles há um óleo de 1915, vindo directamente de Detroit para esta mostra. No centro está uma garrafa que parece transformar-se e dançar com um arlequim. O rótulo: «Anís del Mono»!

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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 7 de Março de 2009 (adapt.)
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domingo, 8 de março de 2009

À catanada

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Por Nuno Brederode Santos
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O CHEFE DO ESTADO-MAIOR-GENERAL das Forças Armadas da Guiné-Bissau, máxima expressão operacional do poder militar local, foi assassinado. Horas depois, o seu adversário político (!) e Presidente da República foi-o também. Na própria casa e à vista da mulher. A golpes de catana e tiros à queima-roupa. Raiava o dia e a cidade fechou-se nos medos dos seus habitantes: nos medos em que ninguém é solidário.
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De manhã, porém, nada mais aconteceu. As autoridades que restam lamentam, com litúrgica e descoroçoante rapidez, o sucedido e logo anunciam a boa nova: não houve golpe de Estado. Em Portugal, pai conflituoso de pesados ontens que os realismos da vida - CPLP incluída - foram tentativamente reaproximando, responsáveis de todos os partidos proclamaram também, por entre alívios: não houve golpe de Estado.
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No dia 10, Nino Vieira vai a soterrar, com os adereços do calculismo da sua República. Por isso, ninguém dirá que desce à campa o guerrilheiro que se foi tornando no telúrico e iracundo destruidor das melhores promessas do futuro dos sonhos de Amílcar Cabral. Entre muitos dos seus, como entre nós, leva as saudades com ele. Parece que o que agora importa é que a situação regresse à normalidade, e não repensar a normalidade da situação que regressa. Também ninguém quererá pôr a nu a evidência: se não houve golpe de Estado, não foi por falta de golpe, mas só por falta de Estado.
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Praticamente desde sempre - um sempre reportado à independência - que a Guiné-Bissau emigrou da lógica e da prática institucionais que nós por cá partilhamos. E este sangrento episódio só confirma que, por lá, o mandato político é uma autorização de desempenho de uma gestão orientada para a satisfação das reivindicações dos militares. Por isso mesmo, o mandato não é o cruzeiro entre dois sufrágios. O mandato tem por limite, entre cada dois sufrágios, a duração da paciência dos militares. O resto é menor. A catana e a pistola suprem a vitalícia gratidão do povo aos que se arrogam méritos antigos de uma libertação que já poucos podem recordar. A fatia dos lucros que as rotas atlânticas da droga deixam nos seus entrepostos é magra, não dá para todos. Custa tudo em soberania, em desenvolvimento, em saúde e em bem- estar. E só chega para dar condições de felicidade a uns quantos bravos mal fardados se entretanto eles se forem liquidando entre si.
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Passaram mais de três décadas. Não há nostalgia ou remorso coloniais que razoavelmente nos envolvam nas actuais rotinas do sangue e da pobreza. Estivemos lá quando Portugal não vinculava os portugueses e saímos de lá logo que os portugueses passaram a vincular Portugal. Não somos grande potência, militar ou económica. Não somos vizinhos geográficos, como a Guiné ou o Senegal. Temos, é certo, pessoas e interesses a defender, mas isso temo-lo também no Brasil, na Venezuela ou em França. É, por isso, positiva a recolocação de um embaixador em Bissau. Mas há que pisar com cuidado o terreno bilateral, para que não nos sejam pedidas responsabilidades a que não poderemos corresponder. A boa consciência da comunidade internacional gosta de se servir do primeiro voluntário néscio, como alguns accionistas gostam de ter um otário por gestor. É certo que não nos está na natureza ver morrer na Guiné pessoas e liberdades, com a displicência snobe com que se inauguram as corridas de Ascott. É verdade que ainda nos atrapalham os ecos de um Benfica-Sporting em Bissau. Há muito de solidariedade e cooperação por fazer - e isso deve ser feito. No político, no económico, no cultural, no social. Mas deve sê-lo usando os instrumentos multilaterais, num delicado exercício de juízo sábio e mãos treinadas na microcirurgia. Sem protagonismos que permitam à comunidade internacional isentar-se ou aos candidatos a um mau protagonismo instalarem-se. Sem as paixões que cegam (e que sobreviveram aos tempos do "amor de mãe") e sem o cinismo de esquecer que temos cá muitos filhos de quantos por lá ficaram.
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Até ver, parece ser esta a postura política do MNE e ser este o sentido da missão de João Gomes Cravinho, por via da actual presidência da CLP. Oxalá seja. Porque, se o não for, só encontraremos riscos e problemas. E porque, para além dessa fronteira, só há pasto para as saudades do império. Um investimento caro e sem retorno. Que deve ser pago por quem as tiver.
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«DN» de 8 de Março de 2009
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sábado, 7 de março de 2009

Parlamentar para lamentar

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Por Antunes Ferreira
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BANDALHO! Entre outros insultos este terá sido o que mais burburinho causou no hemiciclo de São Bento, quinta-feira. O autor foi o deputado do Partido Social Democrata, José Eduardo Martins, e os mimos tiveram como alvo Afonso Candal que faz parte do Grupo Partido Socialista. Uma cena parlamentar que, para mim, melhor se caracteriza como para lamentar.
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O representante social-democrata, que já fora Secretário de Estado nos Governos presididos por Durão Barroso (XV) e Santana Lopes (XVI), reconheceu que tinha errado e prejudicado essencialmente a sua bancada e o debate. Pelo que pediu desculpas aos restantes pares – menos ao que o provocara, no seu entender. Por isso quanto ao deputado Afonso Candal, afirmou que «com franqueza não retiro nada do que disse». E acrescentou em declarações à Comunicação Social «Não é qualquer um que pretende insultar-me, ainda que o faça com a manha que o fez, porque eu não sou de meias tintas».
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Ora muito bem. A Assembleia da I República registou inúmeros episódios como este. Em variadíssimos casos, com uma terminologia ainda pior. Tribunos houve que usaram o insulto como arma de arremesso frequente. Um exemplo, apenas: Brito Camacho. Mas, muitos outros. A Assembleia Nacional do Estado Novo foi muito diferente. A moral, os bons costumes e os desígnios mais elevados ao serviço da Pátria conduziram a uma linguagem suave, moderada, subtil, idílica.
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Enquanto as sessões primo republicanas eram aliciantes, frementes, até mesmo empolgantes, as da Velha Senhora eram medíocres, insossas, entediantes. A herança para o Parlamento de hoje é, portanto, complexa. Quais terão sido as sequelas de um e do outro sistema? A esgrima atacante da Primeira República ou o gamão sonífero da Velha Senhora? A ousadia ou o marasmo?
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Neste actual São Bento ainda há quem recorde o cerco feito por trabalhadores e a discriminação concomitante dos deputados, consoante as cores partidárias. O dedo comunista apontado a todos os que não representavam o Partido pode ter sido um exemplo significativo do que teria sido uma vitória do leninismo/estalinismo em Portugal. Há mesmo quem considere que foi uma vacina para os que pensavam que o País fosse uma nova Cuba.
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Aliás, o episódio é ainda recordado quando se refere a figura estranha do almirante Pinheiro de Azevedo e o sonoro badamerda que proferiu durante a ocorrência. Isso é uma das alíneas mais conhecidas do folclore revolucionário entre nós. O PREC sem esse tipo de Cóias não teria tido a piada que teve.
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Agora, o caricato incidente que decorreu no hemiciclo legislador traz de novo à superfície aquilo que nós somos. Encaixamos coisas que ninguém poderia imaginar. Engolimos sapos vivíssimos da costa, como diria o meu Amigo Augusto Ferreira do Amaral. Intrigamos com mestria, dando de barato que é habilidade inata. E, sobretudo, assobiamos para disfarçar. Nisso, somos especialistas. E desenrascados.
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É por isso que o desbocado deputado laranja interpretou um episódio que soube a reprise do Parlamento da Primeira República, mas que ultrapassou a modorra da Assembleia Nacional. Sem curar de culpas, só por isso, o nome de José Eduardo Martins ficará nos anais de São Bento. A má educação tem um preço; mas, por vezes, dá a eternidade a quem a pratica.
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sexta-feira, 6 de março de 2009

Não consegui resistir a fotografar esta simpática velhinha a comprar castanhas...

Foi para isto?

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Por Maria Filomena Mónica
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FOI PARA ISTO que se fez o 25 de Abril? De tão usada a frase está gasta, mas nunca como agora foi tão adequado inscrevê-la num título. O que mais me alegrou quando os capitães de Abril derrubaram o governo de Marcelo Caetano foi o estabelecimento de um Estado de Direito. Nada e criada sob um regime em que as pessoas apenas podiam ler jornais censurados, não podiam pensar nem escrever livremente, não podiam falar ao telefone sem medo de estarem a ser escutadas pela polícia, exultei. A partir de então, pensei, as liberdades fundamentais estavam garantidas.
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Mas eis que acabo de ter conhecimento que, na sequência do escândalo causado pelo chamado «envelope 9» (respeitante a uma real ou suposta rede pedófila), num só dia, o da data em que a comissão parlamentar visitou a Policia Judiciária, esta andava a «escutar» 1.600 chamadas. Entre 2003 e 2005, realizaram-se 26.000 escutas legais (as ilegais permanecem claro fora de qualquer contabilidade). Como se aquele relatório não bastasse, existem as declarações que o Procurador-Geral da República fez anteontem na Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais de Direitos, Liberdades e Garantias e que resumiu em três palavras: «Não tenho poderes». Se nem ele pode garantir que as suas conversas estão fora das escutas que por aí pululam, incontroláveis, o que se passará connosco?
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No meio da crise económica, da falência do sistema de ensino, do aumento do desemprego, temo que os portugueses se não tenham apercebido da gravidade do que se passa. Portugal é, sei-o há muito, um país sem tradições liberais, mas nada me preparara para o choque destas revelações. Que devemos fazer: conversar em linguagem cifrada?; comunicar à PT que prescindimos do aparelho telefónico?; emigrar? Mesmo se a mais apetecível, a última solução é, no meu caso, tardia, pelo que exijo que alguém - o Presidente da República, o Parlamento, eu sei lá - me assegure que tenho a liberdade de falar ao telefone sem ser espiada. Caso isso não aconteça, a única solução é proibir toda e qualquer escuta, o que causará o desespero da PJ, mas que nos garantirá a nós, cidadãos – e é isso que importa – que podemos falar ao telefone em paz.
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Outubro de 2007
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quarta-feira, 4 de março de 2009

Livros não reclamados em Fev 09 - Solução

1821 gramas

Socialismo do nada de novo

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Por Baptista-Bastos
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O CHAMADO CONGRESSO do PS não foi carne, nem peixe, nem arenque vermelho. E José Sócrates age como um sedativo e é presa da sua própria ansiedade. Os habituais comentadores do habitual reagiram como habitualmente: em flagrante delito de incompreensão. Também, pouco havia para compreender: les jeux sont faits e Sócrates preparou a apoteose com a minúcia e a frieza de um jogador de póquer. Mas ele não desconhece que o chinfrim é só fumaça, e que o retumbante resultado de quase cem por cento, nas "directas", não representa nenhuma vantagem definitiva.
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A rudeza do combate já se adivinha. Como ele não falou para o exterior, como nada disse depois de muito falar, como demonstrou um silencioso desprezo pelos males gerais da sociedade - este político medíocre, que tem alta ideia de si próprio, retoma-a, para uma plateia de ombros caídos e lugubremente submissa. Porém, aquela plateia não é o País, nem sequer expressiva do PS. Tenham lá paciência e haja Freud!
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Vital Moreira, troféu de última hora, não me parece capaz de conquistar um só voto. A Esquerda olha-o de viés; ele é um abjurante do comunismo e os comunistas nunca perdoam a quem abandona as suas fileiras, reclamando-se de uma hipotética "independência". E a Direita, muito naturalmente, olha para o catedrático como um adventício suspeitoso. Vital, um pouco imprudentemente, presumiu fazer graça com esta tosca confissão: "Sou um socialista free-lancer." Quer dizer: socialista intermitente. Nessa doce intermitência não deixou de escrever eloquentes hossanas a Sócrates e enérgicos artigos laudatórios à acção governamental.
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Enquanto o curioso sinédrio foi transformado em divertida cerimónia, a ausência de Manuel Alegre (e de João Cravinho, não o esqueçamos) pesou como um remorso mal emendado. Alegre pode abusar do seu senso teatral, mas não é uma personagem patética. Há algo de genuíno neste homem de desafios, que podem ser interpretados como vacuidades, mas reflectem o carácter de um político. Nunca como agora ele levou o enfrentamento tão longe. Adivinhava-se tudo: desde a expulsão sucinta até à punição estatutária.
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Porém, Alegre possui um poder que conduz os dirigentes socialistas a tratar do seu "caso" com pinças e com uma prudência a que ninguém ousa subir o registo de voz. A unanimidade no silêncio corresponde à unanimidade em torno de José Sócrates. E em ambas reside qualquer coisa de farsa, de expectativa desconfortável e de receio recíproco. Alegre e o PS são duas personagens que dormem na mesma cama, incomodadas pelas ruínas dos mesmos sonhos, que se amam e se detestam - mas não conseguem viver uma sem a outra.
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«DN» de 4 de Março de 2009
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terça-feira, 3 de março de 2009

Dito & Feito

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Por José António Lima
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UMA INVESTIGAÇÃO que se arrastou ao longo de oito anos, desde 2000, detectou depósitos de 2,9 milhões de euros nas 34 contas bancárias de Mesquita Machado, presidente da Câmara de Braga há 32 anos, e seus familiares, quando os rendimentos por eles declarados em pouco ultrapassam os 1,6 milhões de euros. Mas o processo às suspeitas de corrupção envolvendo o património acumulado pela família Mesquita Machado foi arquivado por «carência de provas», com o procurador do Ministério Público de Braga a queixar-se, no despacho de arquivamento, de «falta de meios» e ausência de «recursos humanos».
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Na investigação judicial, que o Correio da Manhã consultou e reproduziu em várias edições, são também referidos elementos próximos de Mesquita Machado, funcionários da Câmara de Braga, apresentando sinais de riqueza incompatíveis com os salários que recebiam, como o vice-presidente ou o chefe do Urbanismo. E são mencionados depósitos nas contas bancárias da família Mesquita Machado de cheques de empreiteiros do concelho. Entre os quais Domingos Névoa, conhecido administrador da Bragaparques. Cheques justificados como prendas de casamento, empréstimos e outras explicações do mesmo tipo.
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DOMINGOS Névoa que, por sinal, foi esta semana condenado no Tribunal da Boa-Hora por corrupção activa, devido à tentativa de subornar o vereador José Sá Fernandes com 200 mil euros. A pena a que foi condenado, por se ter considerado que a corrupção fora para a prática de ‘acto lícito’, resumiu-se a uma multa de cinco mil euros. O mesmo valor de um cheque que Névoa colocou na conta da filha de Mesquita Machado como prenda de casamento.
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AS LEIS existentes favorecem a corrupção, afirma a coordenadora do DIAP, Maria José Morgado. O PS, partido a que pertence Mesquita Machado, voltou a impedir em 2007 a criminalização na lei portuguesa do ‘enriquecimento ilícito’, como propunha João Cravinho. E PSD e PS continuam a impor a distinção na lei entre acto lícito e ilícito, que favorece a corrupção mas alivia muito a classe política. Corruptores activos e passivos podem, pois, dormir descansados com o actual poder político.
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Processos de enriquecimento ilícito arquivados por falta de provas e carência de meios? Condenações por corrupção activa com penas de 5 mil euros? Não haja dúvidas de que, em Portugal, há um certo tipo de crime que compensa. E muito.
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«Sol» de 28 de Fevereiro de 2009
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JOSÉ SÓCRATES, O CRISTO DA POLÍTICA PORTUGUESA

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Por João Miguel Tavares
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VER JOSÉ SÓCRATES apelar à moral na política é tão convincente quanto a defesa da monogamia por parte de Cicciolina. A intervenção do secretário-geral do PS na abertura do congresso do passado fim-de-semana, onde se auto-investiu de grande paladino da "decência na nossa vida democrática", ultrapassa todos os limites da cara de pau. A sua licenciatura manhosa, os projectos duvidosos de engenharia na Guarda, o caso Freeport, o apartamento de luxo comprado a metade do preço e o também cada vez mais estranho caso Cova da Beira não fazem necessariamente do primeiro-ministro um homem culpado aos olhos da justiça. Mas convidam a um mínimo de decoro e recato em matérias de moral.
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José Sócrates, no entanto, preferiu a fuga para a frente, lançando-se numa diatribe contra directores de jornais e televisões, com o argumento de que "quem escolhe é o povo porque em democracia o povo é quem mais ordena". Detenhamo-nos um pouco na maravilha deste raciocínio: reparem como nele os planos do exercício do poder e do escrutínio desse exercício são intencionalmente confundidos pelo primeiro-ministro, como se a eleição de um governante servisse para aferir inocências e o voto fornecesse uma inabalável imunidade contra todas as suspeitas. É a tese Fátima Felgueiras e Valentim Loureiro - se o povo vota em mim, que autoridade tem a justiça e a comunicação social para andarem para aí a apontar o dedo? Sócrates escolheu bem os seus amigos.
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Partindo invariavelmente da premissa de que todas as notícias negativas que são escritas sobre a sua excelentíssima pessoa não passam de uma campanha negra - feitas as contas, já vamos em cinco: licenciatura, projectos, Freeport, apartamento e Cova da Beira -, José Sócrates foi mais longe: "Não podemos consentir que a democracia se torne o terreno propício para as campanhas negras." Reparem bem: não podemos "consentir". O que pretende então ele fazer para corrigir esse terrível defeito da nossa democracia? Pôr a justiça sob a sua nobre protecção? Acomodar o procurador-geral da República nos aposentos de São Bento? Devolver Pedro Silva Pereira à redacção da TVI?
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À medida que se sente mais e mais acossado, José Sócrates está a ultrapassar todos os limites. Numa coisa estamos de acordo: ele tem vergonha da democracia portuguesa por ser "terreno propício para as campanhas negras"; eu tenho vergonha da democracia portuguesa por ter à frente dos seus destinos um homem sem o menor respeito por aquilo que são os pilares essenciais de um regime democrático. Como político e como primeiro-ministro, não faltarão qualidades a José Sócrates. Como democrata, percebe-se agora porque gosta tanto de Hugo Chávez.
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«DN» de 3 de Março de 2009.
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Acesso livre

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Por Nuno Crato
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APESAR DE OS MEIOS DIGITAIS e a Internet terem introduzido novas soluções, a transmissão de informação na ciência continua a ter por base um processo inventado há cerca de 250 anos, quando apareceram as primeiras revistas científicas. O sistema generalizou-se e diversificou-se, tornando-se uma autêntica indústria.
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Ao se falar de revistas científicas fala-se hoje, acima de tudo, nas revistas internacionais, que publicam resultados novos e que seguem um sistema de garantia de qualidade conhecido como “peer review” ou “referee” — o que se pode traduzir por revisão ou arbitragem pelos pares. Os artigos submetidos a uma revista são primeiramente revistos por outros especialistas, convidados pelos directores, que dão a sua opinião tanto quanto possível independente, fazendo uma crítica impiedosa aos erros e imprecisões dos trabalhos e verificando se os resultados são de facto novos e estão sustentados por observações, experiências ou demonstrações feitas com rigor. Para maximizar a independência, os revisores não são conhecidos dos autores (“blind review”), e muitas vezes não os conhecem, pois é-lhes apenas fornecido um texto anónimo (“double blind referee”).
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Os revisores fazem habitualmente sugestões e os directores decidem, caso a caso, se devem aceitar os artigos tal como estão (o que é raro), se devem enviá-los para os autores, para estes os reverem de acordo com as sugestões dos revisores, ou se os devem simplesmente rejeitar. As melhores revistas têm taxas de rejeição muito altas, rondando por vezes os 90% ou mais. Os artigos revistos são resubmetidos e todo o processo pode demorar anos.
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Nos últimos 15 anos, tudo se simplificou. As revistas adoptaram sistemas electrónicos de gestão das submissões e revisões. E quase todas complementaram o tradicional papel com uma edição na Internet. Para aceder a esses artigos, no entanto, é necessária uma assinatura digital da revista, que pode ser custosa.
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Mais recentemente, surgiu um movimento a favor da publicação aberta. Os artigos deveriam ter acesso livre (“open access”), pois isso seria favorável ao desenvolvimento da ciência. As editoras e sociedades proprietárias das revistas não estão de acordo, naturalmente, pois sem as receitas das vendas e das assinaturas electrónicas não poderiam subsistir. O debate está aberto.
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Num artigo acabado de publicar na “Science”, dois académicos de Chicago (323, p. 1025) estudaram o problema, analisando uma amostra de 26 milhões de artigos, e chegaram a algumas conclusões interessantes. Como é natural, quando as revistas passaram a estar disponíveis electronicamente, os artigos nelas contidos passaram a ser mais lidos e mais citados. Mas, não muito; apenas cerca de 10%. Também ao contrário do que seria de esperar, quando o acesso electrónico é pago, o uso sobe mais (12%) do que quando o acesso é livre (8%). Parece que os cientistas, tal com muita gente, valorizam mais o que é pago do que o que lhes é oferecido.
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Há uma excepção, contudo. Nos países menos desenvolvidos, onde mesmo as universidades têm dificuldade em fazer assinaturas electrónicas das revistas, os artigos disponíveis gratuitamente são muito mais usados que os outros. No cômputo global, esta vantagem pode aparecer diluída, mas não deixa de revelar um aspecto muito positivo do acesso livre na difusão do conhecimento científico.

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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 28 de Fevereiro de 2009
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domingo, 1 de março de 2009

Quem foi que disse...?

António Sérgio «Notas de Política - 1927-1929»

(Esta está datada de Paris, 1927)

Espinho e a rosa

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Por Nuno Brederode Santos
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UNS É PORQUE O SPORTING vai ao Dragão. Outros é porque o PS se celebra em Espinho. A verdade é que as baixas na tertúlia deste fim-de-semana excedem o habitual e talvez até o razoável. Podia aqui argumentar que não sabia do jogo, mas nem por isso me via livre das suspeitas de que, no que toca a baixas, tenho o poder de previsão de George W. Bush.
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É certo que a semana já se rarefazia à minha volta. Quando o mundo se sintetiza no cão-d'água que ascendeu à Casa Branca e no meu país é notícia que uma carrinha da EMEL apanhou com o chumbo de uma espingarda de pressão de ar, só uma sólida formação filosófica, moral e cívica é que nos pode pôr a salvo das mais excruciantes interrogações acerca do sentido da vida.
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Aos que por cá ficaram, só resta apascentar os afectos com a conversa mole dos inquilinos do tempo. Até porque, por razões mais duradouras, estou pouco preocupado com o que se vai passar no Dragão. Guardo, por isso, a atenção e a curiosidade para o que vier a ser o congresso do PS (mesmo que, em tese, fosse mais apropriado guardar o tema para o próximo domingo).
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O congresso cumpre a função que a adopção das "directas" lhe reservou. Teoricamente, o que havia a debater já lá vai (mesmo que saibamos que tal nunca foi feito cabalmente, em partido algum) e agora há que escolher: pessoas, papéis, propósitos. Isto, quanto aos chamados "partidos de poder" - que o mesmo é dizer todos os partidos que se não excluírem a si próprios. Mas sofistica-se (ou complica-se) quando, mais do que partido(s) de poder, estamos perante o partido no poder. Porque, sendo o poder o fim aglutinador do grosso de quem milita, a sua defesa difere do seu assalto como num cerco militar. Ninguém lá vai para questionar um líder já consagrado, há apenas quem lá vá tentar condicioná-lo no detalhe das opções (e sobretudo nas escolhas de pessoas). Tudo isto é ainda mais gritantemente assim num ano de três eleições de escala nacional. Quem o entende sujeita-se às regras. Creio que todos, sem excepção, se sujeitam, mesmo que consigam convencer do contrário os sitiantes.
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Não condeno as razões dos que quereriam ver debatidas algumas questões cruciais. Eu também lamento algumas omissões: desde a aprovação da regionalização sem uma prévia normalização conceptual das autonomias regionais até à formulação de políticas sociais, que ainda não deixaram cair o ideal da igualdade de oportunidades e contudo mantêm a abolição do imposto sucessório. Para já não falar em alguns e candentes problemas, pelo menos na área da justiça. Mas o ponto é que os actuais congressos não servem para isso. Pressupõem isso. Quando o congresso chega, está-se já no território, desejavelmente comum, da grande batalha contra o cerco. Consagra-se um chefe, mesmo que se fuja ao one man show.
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Aos sitiantes compete depreciar a capacidade de resistência da cidadela. Quanto mais não seja para que a soldadesca não desmoralize. E já que, lá dentro, a liturgia é virada para o País, pois é com os olhos no eleitorado que vão tentando captar as atenções. Daí que cada qual se sirva do que tem à mão. Já vi Louçã a distribuir folhetos e recados sedutores à porta de uma estação de caminho-de-ferro; Jerónimo numa afadigada reunião com esse interlocutor sempre difícil que lhe é a CGTP; e Portas entre idosas ou numa fábrica de calçado exemplar. Mas também Alexandre Relvas, na Amadora, defendendo a "líder legítima" (o que, no PSD actual, parece não ser tautológico) contra Passos Coelho, que, em Carcavelos, denuncia a incapacidade da oposição que Manuela Ferreira Leite faz e que só "alimenta a fantochada". Mas vi também Manuela, a propriamente dita, a tentar explorar a ausência de Sócrates numa reunião em Bruxelas e constatei novamente o império da táctica que vai na Rua de S. Caetano. É que se queriam - ou ao menos admitiam - vir a utilizar esta linha de argumentos, não deviam ter feito tanto marketing à volta de um parto familiar em Londres quando o País parecia subjugado à desordem desencadeada por transportadores rodoviários. Entre a escolha que então fez - humaníssima, de resto - e a escolha que agora fez o adversário vai a distância de esta não ter nada de civicamente criticável.
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Segue-se uma semana de pousio. Ruidoso, é certo. Com sitiados e sitiantes a esvaírem-se em entrevistas e declarações. Mas o congresso terá sido cumprido. "É a vida." Não existimos fora dela e quase todos gostamos dela.

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«DN» de 1 de Março de 2009

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sábado, 28 de fevereiro de 2009

Policiais - Solução

1989 gramas

Violência

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Por Alice Vieira
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AINDA HOJE ME LEMBRO dos gritos dela. Vivia no andar acima do meu, mas mal a conhecia. Eu chegava tarde do jornal; ela chegava ainda muito mais tarde de um qualquer trabalho que eu não sabia qual era; eu saía muito cedo para apanhar o comboio para Lisboa, ela ainda ficava.
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Havia noites em que o choro e os gritos se ouviam na praceta inteira. Nós vínhamos à janela, olhávamos uns para os outros, e não sabíamos o que fazer.
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A polícia, sempre tão presente quando os clientes do bar ao fundo faziam mais barulho do que deviam, inexplicavelmente estava sempre distraída quando, daquele terceiro andar, rebentavam os gritos, as imprecações dele, e o barulho de vidros e louça que se partia.
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Numa das noites em que tudo foi (ainda mais) insuportável, no patamar da escada eu disse aos outros vizinhos, parados às suas portas, que ia telefonar para a polícia.
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Iam-me matando.
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Se eu não sabia que aquilo era zanga de marido e mulher.
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Se eu não sabia que não tinha nada que me meter pelo meio.
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Se eu não via os dois sempre juntos, e com ar muito feliz .
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Se ela quisesse denunciar, que denunciasse ela, isto é assim mesmo, nunca se sabe o que se passa dentro das casas dos outros.
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E rematavam sempre com aquela frase que justifica todo o nosso egoísmo:
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“ Cada um sabe de si.”
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Se calhar eu não lhes devia ter dado ouvidos e devia mesmo ter chamado a polícia.
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Nunca chamei.
Um dia o casal desapareceu, nunca soubemos para onde.
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Recordava eu esta história há dias entre amigos quando, para surpresa minha, um deles veio outra vez com essa ideia de “eles lá sabem, não nos devemos meter, não temos nada com isso”.
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Pelos vistos, nem todos os cartazes, nem toda a publicidade, nem todas as campanhas chegam para chamar a atenção sobre o dever de denunciar a violência doméstica — que aumenta assustadoramente, e se esconde, e se mascara, e tantas vezes se nega a si própria.
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Denunciar a violência que se exerce contra as mulheres - não!
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Até porque temos de poupar as nossas forças para denunciarmos — e aí sim, com toda a nossa energia! os que ao nosso lado contam anedotas contra o governo, ou os que lançam imagens no “Magalhães” em tempo de Carnaval, ou os que a medo rapam de um cigarrito envergonhado, ou os que põem à venda livros com capas que não agradam ao pacato chefe de família que vai a passar e que, se calhar, no remanso do seu lar, até vê sites que não devia …
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Nesses, sim. Nesses é malhar, vilanagem!


«JN» de 28 de Fevereiro de 2009 - NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

As linhas com que se cose

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Por Antunes Ferreira
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ESTIVE DOIS DIAS EM MADRID, mais precisamente segunda e terça, para, como habitualmente faço, dar umas aulas na Carlos III, a Nova da capital espanhola. Na terça, abri um diário, para ler a notícia que fazia a cabeça da primeira página : «Dimitió Bermejo». Ou seja, demitiu-se Bermejo. Até então era o Ministro da Justiça do Governo presidido por José Luís Zapatero.
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Transcrevo o texto da portada:«Mariano Bermejo, ministro de justicia, dimitió de su cargo ayer, tras recibir numerosas críticas por participar sin disponer de la licencia necesaria en una cacería organizada por Bartolomé Molina, secretario general del Partido Popular en Torres (Jaén), junto a otras 50 personas, entre las que se encontraba el juez de la audiencia nacional, Baltasar Garzón, [] en el momento en el que éste instruía un sumario contra el Partido Popular por supuesta corrupción».
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Sacudi a cabeça. Por um qualquer fenómeno de osmose espacial, estaria eu em Lisboa, a ler um jornal em Espanhol? Dúvida realmente preocupante. Que logo se desvaneceu. Não podia ser. Geográfica e casuisticamente. Em Portugal, ninguém se demite assim, recordo apenas o Jorge Coelho por mor da ponte de Entre-os-Rios, o Vitorino por força duma trapalhada imobiliária e… E ainda se diz que a culpa morre virgem.
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Mais tarde, já na Universidade, um bom Amigo, também professor, deu-me um texto da autoria de Daniel González, publicado no seu blogue El Bloc de Notas de Daniel González. Muito seguido por aqueles lados, informou-me, ainda, o docente. Nele confirmei a minha distorção mental de pouco antes. O comentador, evidente militante do PSOE, usa uma terminologia que muito dificilmente encontro em Portugal. Se é que encontro. Uns trechos, a esmo.
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«Me parece triste la decisión de dimitir de este ministro socialista a raíz de las fotografías en las que aparece en una cacería junto con el juez Baltasar Garzón. Es más, me parece injusto que un hombre que ha dado lo que ha dado por su país tenga que abandonar su puesto por una polémica generada por aquellos que querían tapar su propia mierda (…).
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El Partido Popular no supo encajar que el juez Garzón destapara una trama de corrupción que salpica a gran parte de la ejecutiva de Esperanza Aguirre e implica directamente a Francisco Camps, líder del PP valenciano y presidente de la Generalitat. La trama de Francisco Correa era un lastre para un momento culminante como son las elecciones en Galicia y País Vasco (...)
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Lo que han conseguido (Rajoy estará satisfecho) es que un hombre integro, que estuvo en el momento menos oportuno en el lugar menos adecuado, haya dejado su puesto. Motivo de celebración entre los que en sus filas alimentan la corrupción. Y momento de pena para los que creemos en la justicia.
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En esta dimisión no hay justicia. En el juego de la manipulación, en el juego de la mentira del PP no hay justicia. Ya no puede un ministro disfrutar de sus momentos de ocio, por miedo a encontrarse con alguien que no deba.
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Solo nos queda decirle adiós al señor Mariano Bermejo y desearle toda la suerte del mundo. Y desear que en este caso se haga justicia con estos corruptos del PP».
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Dispenso-me de traduzir, penso que se entende perfeitamente. E creio que tem mais sabor – em Castellano. Muito menos me permito tirar ilações. Comparações com situações que alegadamente se verificam cá por casa? Vade retro, Satanas. Contenho-me, portanto. Apenas me limito a aditar que cada um sabe das linhas com que se cose. Mais correctamente – com que é cozido. Isso mesmo, com z.

Mistérios de Lisboa - Solução

SEM COMENTÁRIOS

Os costumes rurais

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Por Maria Filomena Mónica
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O MUNDO MODERNO tem tendência para considerar o passado como um paraíso perdido. Os citadinos olham o campo, onde aliás raramente põem os pés, como se de uma Arcádia se tratasse: segundo eles, a vida rural é povoada por lindas pastoras, burrinhos fazendo toque-toque-toque e velhinhas a fiar na soleira da porta. Durante a minha infância, passei o tempo suficiente numa aldeia para saber que nada disto corresponde à realidade.
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Há dias, fui a Lamego. Ao almoço, falou-se de «abafadores», uma personagem que desconhecia. Foi-me explicado que se tratava de umas pessoas chamadas para colocarem uma almofada sobre a cara de um velho, quando este estava a incomodar a família com os seus gemidos, ou, na melhor hipótese, quando se encontrava em processo de sofrimento. O «abafador» procedia ao que hoje chamaríamos eutanásia. A morte de um inútil fazia parte da cultura aldeã.
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Mas não era apenas o fim dos velhos que era aceite. Depois do almoço, fomos até a uma adega, povoada por tonéis de carvalho, iguais aos que eu tantas vezes vira na quinta do meu avô, situada perto de Tomar. Lembrei-me das advertências do meu pai no sentido de ser perigoso entrar dentro do recipiente vazio – proeza que eu tentara em mais de uma ocasião – porque os vapores que ali existiam eram venenosos. Imaginei tratar-se de uma mentira destinada a fazer com que não manchasse o bibe de rendas que sempre usava. Chegara o momento de saber a verdade.
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Gentilmente, o dono da adega explicou-me ser o perigo real, acrescentando que, por vezes, no Douro, era assim que se faziam abortos. Não estando a ver como conseguiria uma grávida meter-se por a pequena frecha aberta na parte fronteira do tonel, quis saber pormenores: não, não era a mãe que por ali entrava, mas o recém-nascido. Do que estávamos, por conseguinte, a falar era de infanticídio. Como no caso dos «abafadores», os vizinhos fechavam os olhos. A vida rural era dura e duros eram, são, os seus costumes.
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Outubro de 2007
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

«Mistérios de Lisboa» - Solução

SEM COMENTÁRIOS