sábado, 9 de maio de 2009

Fazer farinha

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Por Antunes Ferreira
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Para:
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Excelentíssimo Senhor Professor Doutor Manuel Pinho, digníssimo Ministro da Economia e da Inovação
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Cc:
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Excelentíssimo Senhor Doutor Paulo Rangel, ilustre Deputado e cabeça de lista do Partido Social Democrata às eleições europeias
Excelentíssima Senhora Doutora Manuela Ferreira Leite, insigne Presidente do Partido Social Democrata
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Excelência
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Em nome da Associação dos Antigos Consumidores das Farinhas Amparo, 33 e de Trigo Torrada (*), venho apresentar a Vossa Excelência (V. Ex.ª no seguimento deste documento) o nosso mais veemente protesto e o nosso mais sublinhado repúdio pelas palavras que endereçou ao Senhor Deputado Paulo Rangel sobre as papas de farinha Maizena.
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Tenho, antes do mais, e sempre na qualidade de representante devidamente mandatado da AACFA33TT, de reprovar a citação a um produto dito alimentar originário dos EUA e proveniente de multinacional bem conhecida. É, por isso, e logo de início, que acentuo o espanto e a indignação nacionalista que me traz junto de V. Ex.ª.
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A Associação que me honro de representar pasmou perante a inconcebível afirmação de V. Ex.ª. Em meu (e nosso) entender teria tido muito mais cabimento a referência à Farinha Amparo, à Farinha 33 ou à farinha de Trigo Torrada, de produção portuguesa, de resto bem conhecidas dos nossos concidadãos e respondendo cabalmente aos seus gostos e paladares. E, sobretudo, fabricadas a partir do trigo.
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Ao arrepio dessa norma elementar (e alimentar), nunca V.Ex.ª se deveria ter referido a uma «coisa» resultante da farinação de milho, cereal nativo da América, aliás consumido originariamente pelos peles-vermelhas autóctones. Ainda por cima vermelhos, à semelhança dos energúmenos que insultaram e agrediram um outro candidato ao Parlamento Europeu. Atente V.Ex.ª nas conotações da supra-citada Maizena.
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Não falando já no que poderia indagar de V.Ex.ª sobre possíveis insinuações publicitárias subliminares – e num País em que se refere multi-quotidianamente o cancro da corrupção – politicamente foi um erro que lhe poderia custar bem caro, não fora o permanente apoio que lhe é dado solidariamente por Sua Excelência o Senhor Primeiro Ministro.
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Deixe-me que lhe diga, Excelência, que penso que o Chefe do Governo não terá nada a ver com publicidades encobertas, nomeadamente neste triste caso. A responsabilidade da afirmação é, creio, única e exclusivamente de V.Ex.ª E se vier a dar-se o caso do Partido Socialista vir a perder as Europeias? Será V.Ex.ª o principal causador do terramoto político? A ser assim, que lhe sucederá?
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Neste Portugal em que a culpa morre habitualmente solteira, muitas dúvidas tenho a tal respeito. E fundadas, estou certo. Oxalá isso não venha a acontecer, principalmente porque a AACFA33TT aguarda despacho de requerimento oportunamente apresentado para ser considerada ONG e, nestas coisas, mais vale prevenir atempadamente.
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Dou, repito, em nome da nossa Associação, conhecimento deste protesto/repúdio aos dignos representantes do PSD nesta lamentável ocorrência, ainda que os considere, de alguma forma, coniventes. É que não bastam os protestos de não se confundir o Executivo com o Partido. É necessário que tragam para a praça pública o desrespeito de V. Ex.ª da defesa intransigente dos produtos nacionais, especialmente num momento tão delicado como é este de uma crise tão grave. Felizmente que de origem mundial.
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Sem outro assunto
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(*) Naturalmente que a nossa Associação não engloba a Nestlé.
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Um Natal Ecuménico

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Por Maria Filomena Mónica
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ESTÁ O LEITOR A PAR do dia exacto em que nasceu o Menino Jesus? Se a sua resposta for afirmativa, provavelmente está enganado. A descrição da Natividade aparece, sem data, nos Evangelhos de S. Mateus e de S. Lucas. Até ao século IV D.C., em toda o mundo cristão, a festividade era celebrada na Epifania (6 de Janeiro) como ainda o é nos círculos ortodoxos. A data em que os portugueses celebram o Natal, 25 de Dezembro, deve-se ao desejo da Igreja Romana substituir um ritual devasso, as saturnais, festejado por esta altura. Por razões que a seguir explicarei, esta indefinição cronológica do Natal convém-me.
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Quando era menina e moça, só havia um Natal, o da Missa do Galo. À mesa, sentavam-se avós, tias e até primas afastadas. A minha mãe, que adorava a festa, costumava montar uma árvore gigantesca e um presépio sumptuoso. Hoje, o panorama alterou-se, não só devido à sua morte, mas à evolução da sociedade. Os casamentos deixaram de ser até à eternidade, o que levou a que os meus netos tenham não quatro, mas aí uma dezena de avós, lutando por os ter junto de si na noite da Consoada. Todos os anos me vejo aflita para conseguir obter um buraquinho no calendário. De tal forma se multiplicaram os festejos que eles mal dispõem de tempo para abrir os presentes que coloco debaixo da árvore tailandesa mandada vir do Canadá. A polémica sobre o dia aumentou não só porque o meu actual marido é do Porto - e legitimamente considera que a sua família também conta – mas por a minha filha ter um varão do seu segundo casamento.
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Depois de reflexão individual e de um debate com a descendência, optei por organizar, não um, mas dois Natais: os que adoptarem a tese de Sextus Julius Africanus, virão a 24 de Dezembro; os que preferirem seguir o costume instaurado em Constantinopla, fá-lo-ão a 6 de Janeiro. Pela primeira vez, vou celebrar um Natal ecuménico.
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Dezembro de 2007
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

No Reino do Absurdo - Passatempo com prémio

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Acabei de receber, enviado por um velho amigo, o texto que adiante se transcreve. A cena relatada passou-se há menos de uma semana, numa cidade portuguesa com pretensões a destino turístico de qualidade, e, dado o papel de destaque que as Taxas Moderadoras têm nesta história, merece ser 'comemorada' com mais um prémio da série «No Reino do Absurdo».

Os leitores são, pois, desafiados a comentar o acontecido, havendo um prémio para o melhor comentário afixado até às 20h da próxima 2ª-feira, 11 de Maio.

Ah!, terão preferência os que usarem uma (ou mais) das expressões que constituem os títulos dos livros disponíveis para prémio(s) e cujas capas aqui se mostram.
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NOTA: até 30m antes da hora limite, aceitam-se comentários enviados para sorumbatico@iol.pt
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«O episódio de polícia que vou relatar talvez não seja novidade para quem jogue ao boxe, mas, para um cidadão pacífico como eu, foi grande a surpresa com que acolhi os incidentes que me caíram em cima esta semana.
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Indo para casa a horas relativamente decentes, fui abordado e agredido por um homem que nunca tinha visto. Não foi nada de especial: apenas um murro bem dado que me deitou ao chão e que não cheguei a perceber porque foi aplicado.
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Embora não tivesse muito para contar, por certa ingenuidade cívica, achei que a polícia devia tomar conhecimento do sucedido e dirigi-me à esquadra. Estive longe de ser bem atendido e explicaram-me que não havia nada a fazer sem uma ida minha ao hospital. Sem mais a lamentar que os óculos tortos e a falta de sono, definitivamente, não precisava de cuidados médicos; preferia ir para casa do que enfrentar as urgências do hospital, mas, bem mandado, lá dei por mim num diálogo bilingue com o médico de serviço.
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Saí do hospital com duas facturas para pagar: uma taxa de €8,40 (para que eu me modere...) e um outra de €108 que, tal como o murro, não percebi porque é que foi aplicada, mas que doeu um bocadinho mais...
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Na próxima semana, terei de faltar ao emprego para prestar declarações e, quer-me parecer, ainda terei muito com que me entreter.
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As boas notícias são que, como o mês está no início, ainda tenho dinheiro na conta para levar mais uns sopapos...»
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NOTA: Os eventuais comentários deverão ser afixados no Sorumbático [aqui].

Farinha

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Por João Paulo Guerra
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Antes de mais um esclarecimento, o seu a seu dono: não foi Manuel Pinho o pioneiro da farinha de mistura com a política.
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FOI MARCELO REBELO DE SOUSA, em As Escolhas de Marcelo, RTP, 22 de Abril de 2007, disponível no YouTube, ao declarar que já se tinha percebido que determinado "canudo", muito badalado na época, era "uma licenciatura tipo Farinha Amparo". Portanto, "trigo limpo", agora coube então a vez ao ministro da Economia: numa tirada que vai certamente enfarinhar a política portuguesa por muitos e bons, Manuel Pinho disse de Paulo Rangel que "ainda tem que comer muita papa Maizena".
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A tirada do ministro veio lançar nova receita para a campanha das europeias: talvez não esclareça nada os eleitores mas com farinhas, papas e bolos se esclarecem os tolos. A Maizena, pelas reminiscências de infância que suscita, poderá contribuir para identificar os eleitores com os eleitos, desígnio sempre perseguido pela classe política. Acontece, porém, que o ministro introduziu na campanha um problema de concorrência e lealdade. É que se o ministro da Economia promove a Maizena, outros dos seus pares terão que vir a público, em acções de campanha, propagandeando a Milupa ou a Cerelac, a Nestlé ou a Nutriton, assim alardeando a isenção do Governo.
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A menos que os outros partidos, estimulados por este original modo de fazer política, decidam meter também as mãos na massa. Já estamos a ver os cartazes: "Vota Farinha 33 e comerás por 3"; "Com Farinha Predilecta, vota pela avó e pela neta"; "Com Farinha Pensal, mais Bloco Central".
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Manuel Pinho fez a sua original prestação eleitoral em Ponte de Lima, colocada no mapa da política por via do queijo. Agora chegou a rota da papa. Come a papa, eleitor, come a papa.
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«DE» de 7 de Maio de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Do livro de J. Paulo Guerra «Diz que é uma espécie de democracia»

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Os ausentes da indignação

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Por Baptista-Bastos
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EM DEZ ANOS, João Ubaldo Ribeiro foi duas vezes censurado, no nosso País, por um zeloso vigilante da moral. O grupo proprietário da cadeia de supermercados Jumbo, voltou a pôr, no seu Índex privado, A Casa dos Budas Ditosos, por sinal um belíssimo romance. Acusação: o livro "é um produto pornográfico". Ubaldo é baiano, escritor importante, viveu em Portugal, e já foi distinguido com o Prémio Camões, valha isso o que valer. Em condições outras, a extraordinária proibição suscitaria, entre os "intelectuais" portugueses, um alarido de protestos, de abaixo-assinados, de repulsa, e a comunicação social seria levada a transformar a vergonha em causa.
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Nada disso aconteceu. Os "intelectuais" portugueses andam tão exaustos de escrever livros maus, de participar em colóquios ridículos, debates patéticos, conferências inúteis no estrangeiro, que são indiferentes às minudências da solidariedade para com os seus camaradas. Neste caso, a João Ubaldo Ribeiro.
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Que abstrusos critérios levaram alguém do Jumbo a apontar à execração o romance do brasileiro? Que conceito de "pornografia" possui o pequeno Torquemada de supermercado? E de que extraordinário poder dispõe, que iluminada noção de valores contém, com que espírito superior foi bafejado para assim atirar pedras a uma obra literária editada em numerosos idiomas? E, sobretudo, quem é ele? Esse "ele" não tem nome, como aqueles blogues que insultam, injuriam, mentem, caluniam com absoluta impunidade. Esse alguém, misterioso e, certamente, crudelíssimo, de olho feroz e ânimo comprometido com as trevas, usa uma "agência de comunicação" para revelar as suas tristes decisões. Não dá a cara: é um esboço de pessoa, um ser vago, estéril, arfante de gozo como todo o censor que se preza.
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O romance foi proibido no supermercado e - insisto - que fizeram os nossos desenvoltos "intelectuais"? Limitaram-se ao silêncio que tem sido a capa da cobardia na qual se envolvem. Nelson de Matos, o editor, diz que tem recebido solidariedade de "gente grada". Ninguém sabe, ninguém viu, como se canta no samba. Essa "gente grada" também não tem nome? Protesta por sussurro? Telefona-se com cauta indignação e voz baixinha? Então, e a APE, e a SPA, também andam meio aladas?
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Ao longo dos últimos vinte anos temos assistido à mais vil das demissões daqueles que deveriam arriscar o ónus da sua pretendida importância. Habita, neste mutismo miseravelmente defensivo, uma viscosa e esgueirada indignidade. Claro que é uma imprudência, um perigo, um desafio alguém afrontar os poderes que se constituíram como as estruturas da sociedade. Porém, há ocasiões em que os "intelectuais" têm de estar à altura das circunstâncias - as próprias e as históricas.
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«DN» de 6 de Maio de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

terça-feira, 5 de maio de 2009


O prémio será atribuído a quem mais se tiver aproximado da resposta certa (pág. 275), havendo ainda um prémio-surpresa para quem mais se tiver afastado!
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Actualização (20h03m): os vencedores são, pois, Sofia (erro=2) e Vital Sassoon (erro=274)
Têm agora 48h para contactar sorumbatico@iol.pt
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Chama-se a atenção que o livro A Dança da Realidade é grande, pelo que o envelope em que seguirá pode não caber numa caixa-de-correio normal.
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Obrigado a todos(as)!

Vale a pena estudar matemática?

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Por Nuno Crato
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OS PROFESSORES DE MATEMÁTICA estão habituados a ouvir queixumes dos seus alunos. Um dos mais frequentes é o lamento de que para nada serve o que se está a aprender. O problema não é exclusivamente português, e talvez o que esteja em causa seja outra coisa. Um dos grandes divulgadores contemporâneos da matemática, o britânico Ian Stewart, descreveu a questão de maneira muito incisiva. «Comecei a observar que, habitualmente, quando as pessoas perguntam se algo é necessário, isso acontece porque não se sentem à vontade com o assunto, e têm esperanças de se poderem libertar da tarefa.»
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Estas palavras foram escritas nas Cartas a uma Jovem Matemática, um livro de 2006 que está traduzido pela Relógio D’Água. Nele, Stewart explica-se com a sua habitual energia: «Um estudante que saiba construir demonstrações nunca pergunta para que elas servem. Um estudante que consegue fazer multiplicações de cabeça enquanto faz o pino também nunca pergunta se o cálculo mental é necessário. Quem faz facilmente e com gosto uma determinada actividade não se questiona sobre o seu valor; o gosto é suficiente. Por isso, um estudante que pergunta para que servem as demonstrações está provavelmente com problemas em compreendê-las ou com dificuldade em construí-las.»
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Tudo isto, que é óbvio para qualquer professor experimentado, tem sido, no nosso país como noutros, fonte de confusões. Procuram-se explicações para as dificuldades dos alunos e tomam-se à letra o que são apenas lamentações e pretextos, para os transformar em justificações racionais. A aumentar a confusão, difundiram-se várias ideias pedagógicas antiquadas, inspiradas no que há mais de dois séculos escreveu Rousseau sobre a motivação, no que há século e meio escreveu Herbert Spencer sobre a adaptação do estudo às necessidades profissionais imediatas, e no que há quase cem anos William H. Kilpatrick escreveu sobre o ensino por projectos e a pretensa inutilidade do ensino abstracto.
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Uma teoria pedagógica mais recente, que não é mais que uma formulação moderna das ideias de Spencer, tem feito tudo para desvalorizar o conhecimento, dizendo que apenas interessa o saber em acção, o saber aplicado, as chamadas «competências». Tudo tem servido de pretexto para simplificar os conteúdos, simplificar os exames e simplificar a progressão nas carreiras. Com isso, as estatísticas podem melhorar, mas a realidade não.
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No decorrer de um roteiro da ciência dedicado à matemática, o bastonário da Ordem dos Engenheiros denunciou o facto de o exame de matemática não ser obrigatório para a entrada em quase metade dos cursos de engenharia existentes no país. O Presidente da República fez eco do alerta e o ministro Mariano Gago anunciou mudanças, tornando obrigatório o exame de matemática para cursos de Economia, Engenharia, Informática e Matemática. É uma medida muito positiva, que esperemos que não seja contrariada por uma ainda maior simplificação dos conteúdos e dos exames.
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A matemática é necessária por ser uma disciplina de base, que se tornou a linguagem da natureza e da acção sobre a natureza, a linguagem da ciência e do estudo da sociedade. A matemática é um corpo estruturado de conhecimentos e não uma colecção de truques de que se poderiam escolher apenas os que têm aplicabilidade imediata. Tal como o trabalhador leva consigo uma caixa de ferramentas, mesmo sabendo que nesse dia apenas irá precisar de uma meia dúzia de instrumentos, assim o que se estuda não pode ser limitado ao que se julga ser de utilidade imediata
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«Passeio Aleatório» - «Expresso de 30 de Abril de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

domingo, 3 de maio de 2009

Terra de quem?

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Por Nuno Brederode Santos
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CONHECI-LHE O VIÇO,
o rubor natural e as formas generosas. Não de ser moça, pois bem mais moço era eu. Mas por respirar segurança, convicção, civilidade. Agora, que tão raramente a vejo, está magrinha. Parece que o mundo exterior a aperta e lhe traça, rente à pele, uma fronteira intransponível. Um mundo exterior povoado, não só por políticos, mas por todo o tipo de agentes de intervenção política. Um mundo que, dia após dia, a vai comprimindo mais. É a tolerância, mãe e filha de uma revolução que se fez libertadora e que tantos intolerantes acabam de celebrar. Uma criatura cultural e cívica que se conforma e vai minguando, a cada proclamação veemente de que o acto e a palavra do outro nos são “intoleráveis”. Não receio que se extinga. Desde logo, porque um dos seus mais firmes redutos defensivos está no próprio intolerante, que tem de a usar – e sempre a usa com largueza – para consigo mesmo. Depois, porque na intolerância habita o medo e a impotência: só não tolera quem não consegue impedir. Enfim, porque nem a pior tirania conseguiu a proeza de mergulhar tão fundo na alma de todos os homens. Mas, pese embora a tudo isto, é também certo que se vai tornando difícil aos que a prezam virem a merecer o epitáfio: “viveu entre intolerantes e nem assim conheceu o intolerável”. Porque a última legítima defesa da tolerância continua a residir em não tolerar a intolerância.
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Uma delegação partidária desloca-se ao local da cidade onde se encontra a direcção da maior central sindical portuguesa, no cumprimento da prática recorrente de apresentação de cumprimentos. Consumado o propósito, o seu responsável é atacado, verbal e fisicamente, por alguns manifestantes. O que os próximos dias vão trazer é a deliberada confusão do costume. O sofrimento em que os agressores se encontram. A culpa alheia na escolha da pessoa que encabeça a representação. Os sibilinos propósitos eleitorais da mesma. Etc. Tudo matérias em que devemos recusar liminarmente entrar. A questão é simples e simples devia ficar.
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Quem recebe, respeita. Porque responde pelo que vai na sua própria casa. Sobretudo se esta é emprestada, por se tratar de via pública da Lisboa de tantos mais. Se quem recebe não tem mão na sua própria casa, tenta prevenir eventuais desmandos (que se vão tornando habituais). Se, de todo, os não puder impedir, cabe-lhe uma reparação capaz junto dos ofendidos – representante e representado - o que necessariamente inclui a demonstração mínima de um esforço honesto para que tais factos se não possam repetir. Este dever deve ser cumprido de um modo que tranquilize a cidade, em cujo espaço comum (a via pública) a desordem ocorreu. E o país, cuja serenidade perturbou, para lhe assegurar o carácter anómalo, excepcional e irrepetível de acontecimentos similares.
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Estas obrigações são cívicas (e políticas, portanto). Das jurídicas não cuido aqui, porque para isso existem autoridades com competência específica e os media deram do facto testemunho. Para já não falar dos cidadãos que lá estavam, dos vizinhos à janela, dos imigrantes e dos turistas que passavam. O que importa aqui é não calar que os ofendidos são múltiplos e nenhum deles pode falar pelos outros. O cidadão agredido, o partido representado, a cidade cuja tranquilidade (e cujo espaço) foi perturbada, o país cujos sistema e valores foram postos em causa. E a palavra de reparação compete, antes de mais, a quem recebia e, mesmo que em espaço alheio, era o anfitrião. Porque lhe cabe assegurar as condições necessárias a que nada disto aconteça.
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É óbvio que um outro juízo popular se vai fazer (independentemente até de consequências, tão circunstanciais quanto incertas, nas urnas de um próximo voto – que é onde sempre reside o último juízo político). Pela notória razão de que vem sendo feito, à medida que tão desbragados “precedentes” se acumulam. E esse abraçará o círculo maior da ocorrência, pois levará todos e cada um a reflectirem sobre se querem uma cidade e um país onde possa campear o que politica, cultural e socialmente já tantas vezes recusámos: o incivil, o descortês e o anti-cívico.
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E, se tudo isto for piedoso, não faz mal. Também o sou quando quero.
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«DN» de 3 de Maio de 2009
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sábado, 2 de maio de 2009

Quem desenhou...?

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Primeiro de Maio engripado... e a política da chapada

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Por Antunes Ferreira
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FOI UM PRIMEIRO DE MAIO ENGRIPADO, um pouco por todo o Mundo. Aqui, neste País encantado, graças, penso, à intercessão do nosso recém-promovido São Nuno (ainda que sem grande entusiasmo da parte do Governo e, singularmente, do Povo) as coisas parecia que iam correr bem. O que infelizmente não aconteceu. Não por causa da gripe, mas sim pela justificação da política da chapada. Isto porque a já famosa gripe A – antes mexicana, ab initio porcina – ainda não atacava. Um caso, um apenas, motivava interrogação. Nestes preparos, nós, os Portugueses, somos uns privilegiados.
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Antes de tudo, temos um Condestável, especialista na trolha aos castellanos, já graduado em Beato, que subiu à corte celestial. Nada mais justo, nada mais salutar. Desde o Bulhões que não nos saía este euromilhões abençoado. Ainda que haja dois pastorinhos prestes a ocupar a poole position, o que se me afigura uma discriminação à irmã Lúcia. Porém, nestas passagens etéreas quem sou eu para comentar, que fui católico, mas curei-me?
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Muito se tem-se comentado por aí a ajuda que o neo-virtuoso recebeu do peixe frito. Mais precisamente do óleo utilizado pela Dona Guilhermina de Castelo de Ourém para a fritura do peixe, cujo nome não foi divulgado, quiçá por ser de menor idade. E da córnea afectada na ocorrência. Umas quantas bocas maldizentes atreveram-me mesmo a dizer que se tratava de glosa ao pela boca morre o peixe. Ingratos, provocadores e acintosos - sempre os houve e sempre os haverá.
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Recordo, neste contexto, a abnegada e piedosa mas determinada actuação do doutor Oliveira Baltazar (ou seria…?) que nos livrou da II Guerra Mundial. Acompanhado, permito-me sublinhar, pela Virgem de Fátima, o que não é, de modo nenhum, despiciendo. Já na Grande, os iconoclastas da I República não foram capazes de o fazer. Claro, até tinham suspeitado das aparições, para não dizer mesmo, negado. Ímpios.
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Não admira, portanto, este facto um tanto singular, de estarmos, pelo menos até hoje, imunes ao pandemónio da pandemia. Somos um Povo e um País singulares e tal como o nosso afilhado Brasil, abençoados por Deus e bonitos por natureza. E solidários no Carnaval, em que estamos por estas bandas em perene comemoração. E não se venha citar o pobretes mas alegretes. Somos o que somos – e pronto. Ponto.
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Esta praga quase mundial, por conseguinte, está a originar consequências impensáveis mas pertinentes. A produção de máscaras anti poluição e anti contaminação subiu em flecha, não havendo já gráfico que a aguente. Os empresários garantem mesmo que a gripe é a primeira medida conseguida e razoável contra a crise. Outras decorrências se puderam constatar, como é o caso do país dos mariachis.
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O puente do Primeiro de Maio correrá até terça-feira, para que o período alargado possa servir de tampão ao contágio e, portanto, à disseminação da doença. Manter-se em casa, durante esses dias é remédio que não se avia nas farmácias e, alem disso, mais barato. A população que saia à rua – e muita terá de ser e certamente foi – deve usar sempre a máscara. Nos países orientais, em que o apetrecho é de uso regular, as pessoas não se admiram. No México resignam-se, mas torcem o nariz.
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Pelos locais em que as comemorações do Dia do Trabalhador são habituais e interventivas, constatou-se que manifes maiores ou «menos grandes», por melhor organizadas que tenham sido, dificilmente venceram a gripe. A balança inclinou-se um tanto para o lado dos miasmas preocupantes. Pode dizer-se que entre o risco do contágio e a vontade dos que trabalham, as coisas penderam para os primeiros. Infelizmente.
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Entre nós, tocou-se outra música, porque era também outra a partitura. CGTP e UGT desfilaram nas ruas, o que é muito pouco vulgar no caso da sedeada na Rua de Buenos Aires. As intervenções centraram-se, nos respectivos comícios – como sempre, separados, tais como as marchas citadinas –, no desemprego e no seu combate. Os números são preocupantes.
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Se os compararmos com os que se registam aqui ao nosso lado, somos, novamente, uns quase felizardos. E mesmo no ranking dos países do euro, pasme-se, não ocupamos a nossa habitual e triste condição de sermos os primeiros… a contar do fim. Fraca consolação, mas, mesmo assim, é melhor que nada. Com o mal dos outros…
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Mas – malditos mas que não desarmam – eis que no Martim Moniz, Vital Moreira (que ali se deslocara para cumprimentar a Intersindical à frente de uma delegação do PS) foi vítima de impropérios, tentativas de agressão e alguma concretização delas. E, espanto dos espantos, perante a declaração dos socialistas de que lhes eram devidas desculpas, Manuel Carvalho da Silva, o longevo chefe máximo daquela Central Sindical, fez declarações.
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Eu vi e ouvi o que ele disse, frente à câmara da SIC. Não me contaram, podia ter acontecido, mas vi e ouvi, repito. Li, depois, que ele lamentara o ocorrido, o que não constatei da reportagem televisiva, mas falou de acto isolado de alguns trabalhadores «em sofrimento e no desemprego». E ainda afirmou que os políticos que estão na base de tais situações, deviam tomar cuidado para que coisas dessas não acontecessem.
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Os cabeças de lista às europeias do PPD e do CDS-PP condenaram o acontecido. Já Jerónimo de Sousa, pela sua parte, não quis fazer comentários «ao que não presenciara». São Tomé não teria dito melhor. Claro que, com tal fogueira, o PS veio responsabilizar a CGTP e o PCP pelo ódio que dirigem contra o partido e, por isso mesmo, pelo que acontecera. Achas e mais achas.
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Vitalino Canas, em conferência de Imprensa no largo do Rato, referiu que Carvalho da Silva «procurou desculpar agressões» e «insinuou que quem deve reflectir sobre estas agressões é o agredido e não o agressor», declarações que considerou serem «absolutamente lamentáveis».
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Ou seja, penso que no Primeiro de Maio à portuguesa, como antes escrevi, até houve a justificação da política da chapada. Não é mau, é péssimo.
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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Racismo e Liberdade de Expressão

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Por Maria Filomena Mónica
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A 29 DE NOVEMBRO [2007], os trinta e seis arguidos do processo skinheads foram pronunciados pela juíza de instrução criminal, a qual subscreveu a acusação deduzida pelo DIAP (Departamento de Investigação e Acção Penal). Aparentemente, estes jovens pertencem a uma organização de extrema-direita internacional, a Hammerskin Nation, tendo sido acusados de vários crimes, entre os quais o de «discriminação racial». A investigação, que esteve a cargo da DGCB (Direcção Geral de Combate ao Banditismo), terá focado «mecanismos de difusão e o teor das mensagem públicas com carácter racista, xenófobo e anti-semita» divulgados nos media, em concertos e em manifestações. Nas buscas domiciliárias, a PJ apreendeu armas, algumas de calibre proibido. Há ainda a acusação de terem sido praticadas agressões a movimentos anti-racistas.
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Este processo suscita questões complexas. Antes de continuar, vale a pena afirmar que me considero de esquerda, que odeio a violência e que sou ateia, o que me leva a desprezar o racismo, a homofobia e o fascismo. Dito isto, prezo as liberdades, entre as quais a de expressão. Estou a par do que estipulam os artigos 46º da Constituição Portuguesa e o 240º do Código Penal, ambos redigidos, na minha opinião, em termos demasiado imprecisos, interditando, no primeiro caso, «organizações (…) que perfilhem a ideologia fascista», o que me parece obsoleto.
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Reconheço que se obtivesse o poder, a extrema-direita me liquidaria, mas isso não altera a minha posição. Longamente criticámos a ditadura salazarista por não nos deixar exprimir o que pensávamos. Agora, deveríamos ser capazes, não de nos submeter, mas de conviver com ideias odiosas, lutando contra elas no campo ideológico: remetê-las para a clandestinidade só servirá para as fortalecer. Considero execráveis os energúmenos que, há alguns meses, desfilaram no Parque Eduardo VII. Não penso contudo que devam ser julgados pelas suas ideias, mas pelos seus actos.
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Dezembro de 2007
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quinta-feira, 30 de abril de 2009

Mas a EMEL não dorme!

Que se saiba, este foi o único carro multado nesta esquina...
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28 Abr 09 (junto à entrada do metro - Roma)
. 29 Abr 09 (traseiras do Centro Roma)
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Continuam a não chegar fotos, semelhantes a estas, mas que podem dar direito a almoços de lagosta no Gambrinus - ver [aqui]!!

Sem novidades de cá

Por Baptista Bastos
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A RTP1 RESOLVEU, anteontem, "pensar Portugal". É uma ideia comovente, tanto mais que o maciço conceito que lhe subjaz seria sugestivo, acaso, no nosso país, alguém pensasse no País. A política, aliás, porque de política se tratou, no programa de Fátima Campos Ferreira -, a política é uma actividade que sempre foi dirigida a um restrito número de homens. Nada de novo foi dito. Todos sabemos o lodaçal em que vamos sobrevivendo mas, ao que parece, ninguém sabe como nos vamos libertar.
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Foram repisados, com maior ou menor veemência, os problemas sufocantes, que estão a corroer o frágil edifício democrático português. E deveria, talvez, ser dito que a "importação da crise" resulta da natureza escabrosa do sistema, e de que a esquerda não encontrou, até agora, resposta para a superar, criando alternativas às que têm vigorado. A esquerda, essa que se diz "livre e democrática", não tem sido mais do que cúmplice e esteio do mais feroz capitalismo.
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A "credibilização das instituições", expressão utilizada por um dos convidados de Fátima Campos Ferreira, perdeu qualquer espécie de sentido. Há 30 anos que desfilam as mesmas caras, se ouvem as mesmas vozes, se lêem as mesmas frases com monótona aridez. O País é domado por um grupo sem prestígio mas com poder. Esperávamos um sistema, emergiu um domínio. A erupção do "bloco central de interesses" (ou seja: a divisão do bolo entre PS e PSD) assinala a degenerescência de Abril num atoleiro. Deixou de haver afinidades ideológicas e as convicções foram substituídas por uma cronologia contínua, destinada ao enriquecimento de alguns, e que encobre, afinal, as ausências de carácter e as trapalhadas das mudanças de partido.
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Os quatro presentes nos Prós e Contras são figuras com experiências próprias: Mário Soares, Anacoreta Correia, o reitor António Nóvoa e Leonor Beleza. Não percebi muito bem o que ali fazia aquela senhora. Mas isso não é relevante; talvez seja um equívoco. De todos, Soares foi o menos confuso em exprimir a sua actual cosmovisão política; Anacoreta, formal, cristão, exemplar, não ocultou a infinita tristeza que o percorre, ao discretear sobre o Portugal dos nossos dias; Nóvoa, talvez, o mais preocupado em denunciar o processo de mistificação em que vivemos; e Beleza, pessoalmente magoada com a justiça, contou umas historietas.
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De uma forma ou de outra foram graciosamente simpáticos. Os estudantes, na plateia, actuaram como possibilistas e admitiram, no todo, que a cultura dominante se baseava na repressão e na comédia dramática. A seguir, e agilmente, fui dormir, imbuído de limpidíssima serenidade.
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«DN» de 29 de Abril de 2009

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Dito & Feito

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Por José António Lima
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À MEDIDA que o ano 2009 avança, o retrato da crise em Portugal vai-se definindo com números cada dia mais negros: o desemprego pode atingir os 9,6% no final do ano e subir a 600 mil trabalhadores sem emprego em 2010, o défice público vai disparar para uns impensáveis e preocupantes 6% do PIB, arrasando o esforço de contenção dos últimos 4 ou 5 anos, a economia recua para menos 4,1% (Vítor Constâncio ainda tentou dourar a pílula, mas o FMI não deixou...).
E o Orçamento do Estado que o Governo aprovou para 2009 é já um exercício de pura ficção. O Executivo socialista previa no OE, por exemplo, uma quebra de receitas de 1,5 mil milhões de euros e já perdeu 955 milhões só nos primeiros três meses do ano. Apesar desse desajustamento, o ministro das Finanças acusa os que o criticam de «excitação e nervosismo», enquanto garante que a despesa e a receita no OE estão «perfeitamente controladas». Surrealista.
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MUHAMED al-Sahaf, lembram-se? O delirante ministro da Informação de Saddam Hussein que assegurava, à beira do desastre: «Posso dizer, e sou responsável pelo que estou a dizer, que os soldados americanos começam a suicidar-se às portas de Bagdade». Que garantia, em tom alucinado: «Têmo-los cercados nos seus tanques», «Já os repelimos», «Temos o controlo total da situação». E que, já a verem-se em cenário de fundo as tropas dos EUA nas ruas da capital iraquiana, jurava com o seu ar lunático: «Dou-vos triplamente a garantia de que não há soldados americanos em Bagdade».
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Teixeira dos Santos afiança, com idêntico autismo, que mantém o controlo total da execução do Orçamento. A cobrança de IRC cai 150 milhões de euros em três meses? As receitas do IVA desabam mais de 700 milhões aos pés do ministro? O imposto automóvel regista um desmoronamento de 25% e o imposto sobre combustíveis é amputado em 14%? O responsável das Finanças não se deixa perturbar e assevera: «No que respeita ao Governo, a receita fiscal também está controlada» e «não há qualquer derrapagem na receita, tendo em conta os estabilizadores automáticos». O extravagante ministro da Propaganda de Saddam não diria melhor.
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Houve, neste trimestre, um aumento da despesa de 54,4 milhões de euros (mais 13,8%) com os subsídios de desemprego? O ministro das Finanças não se sobressalta: «A despesa está perfeitamente controlada. O Governo está a gastar onde planeou gastar». A sério?
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Teixeira dos Santos está a converter-se, rapidamente, no Muhamed al-Sahaf da política portuguesa.
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«Sol» de 24 de Abril de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

terça-feira, 28 de abril de 2009

O homem útil e o génio

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Por Nuno Crato
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QUEM ESTEJA A APROVEITAR os eventos do Ano Internacional da Astronomia para observar o Sol em segurança terá notado que a nossa estrela se apresenta agora sem as famosas manchas escuras. Assim tem acontecido há já algum tempo. Em 2008, o Sol apresentou-se limpo 266 dos 366 dias desse ano. E, em 2009, o número total de dias limpos ultrapassa já 90, ou seja, cerca de 90% dos dias decorridos. É vulgar o Sol apresentar-se sem manchas. Mas não é habitual observar uma pausa tão prolongada. Desde 1913 que tal não acontecia.
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As manchas solares são tempestades magnéticas gigantescas que originam erupções de matéria, provocam aumentos bruscos do campo magnético e emitem uma radiação intensa, nomeadamente nos ultravioletas. As manchas são escuras, mas a actividade solar é mais intensa nos seus bordos, de forma que a radiação total libertada pelo Sol aumenta. O facto de registarmos neste momento um mínimo mais longo do que o normal significa pois que a radiação solar que nos atinge é menor, o que terá certamente efeitos no clima.
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Para observar manchas solares é preciso ter cuidados extremos. É perigosíssimo, podendo provocar a cegueira imediata, observar o Sol com binóculos ou telescópios. Só usando filtros profissionais essa observação é segura. O mais simples e prático é fazer a projecção de uma imagem do Sol sobre uma superfície branca — usando, por exemplo, um óculo invertido — e observar essa imagem. Existindo manchas, é fácil então detectá-las.
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Passada a emoção da sua descoberta por Galileu, as manchas solares tornaram-se uma curiosidade sem grande relevo para a astronomia. Mas, em 1844, Heinrich Schwabe, um farmacêutico alemão tornado astrónomo amador, notou uma regularidade: descobriu que as manchas aumentavam e diminuíam seguindo ciclos de cerca de 10 anos. O director do Observatório de Berna, Johann Rudolf Wolf, reparou na observação de Schwabe e meteu mãos ao estudo. Passou o resto da vida a contar as manchas solares, o que fez dia após dia sempre que as condições meteorológicas o permitiam. Recolheu observações dispersas do passado e inventou um método ainda hoje em uso para a medida das manchas. Iniciou a produção de uma série longa, que hoje continua a ser completada, e que revela as oscilações da actividade solar. Em 1852, mediu a periodicidade solar por um método elementar e encontrou um período de 11,11 anos.
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Uma vida dedicada a contar manchas pode parecer pouco para um cientista, mas conforme diria Wolf mais tarde, “sempre me consolei por saber que uma pessoa como eu, que não é um génio, pode tornar-se útil se escolher bem o objecto do seu trabalho e se o trabalho se talhar aos seus talentos”.
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Passados 62 anos, nos princípios do século XX, um jovem físico alemão estudou as observações deste homem útil e inventou um outro método para estimar a sua periodicidade. Baseou-se num instrumento matemático sofisticado: a chamada transformada de Fourier. Praticou pela primeira vez aquilo a que hoje se chama “análise de séries temporais no domínio frequência”.
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O jovem físico chamava-se Albert Einstein e o período que calculou para o ciclo solar foi também de 11,11 anos. Encontramo-nos apenas no fim de um desses ciclos. Sabemo-lo graças a um homem útil e a um homem de génio.

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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 25 de Abril de 2009 (adapt.). Imagem obtida [aqui]. Ver outras [aqui], [aqui] e [aqui].

NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Passatempo «O Banqueiro Anarquista» - Solução

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Haverá 4 prémios, a atribuir da seguinte forma:
1.º prémio - o livro que se vê na imagem, para quem mais se aproximar da resposta certa.
2.º e 3.º prémio - livros-surpresa, para os seguintes.
4.º Prémio (surpresa) - também um livro-surpresa, mas para quem der a última resposta de todas (até às 20h00m, inclusive).
Nota:
É possível que, à hora a que este post ficar visível (20h01m), eu ainda não tenha rgressado da FNAC, onde irei assistir ao lançamento do livro do João Paulo Guerra.
No entanto, e mesmo que haja ainda um empate, o 1.º prémio vai para Maria Manuel, com erro = 0 gramas! Veremos se Tiago Pinheiro vai manter o 2.º lugar (1977 .. erro = 1 grama) e Susana o 3.º (1980 .. erro = 2 gramas). Veremos, finalmente, quem ganhará o 4.º prémio! Até logo!
Comentário às respostas dadas:
Os valores dos pesos que constam na fotografia são bem visíveis: 1000, 500, 250 e 100g.
Ora, sendo a sua soma igual a 1850g, como é que pôde haver tantas respostas abaixo desse valor (para já não falar num fora da faixa referida na "dica"...)?
Actualização final (20h02m):
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Confirma-se: 1.º Maria Manuel; 2.º Tiago Pinheiro; 3.º Susana - a que se junta Musicólogo, em 4.º.
Pede-se agora aos 4 que, nas próximas 48h, escrevam para sorumbatico@iol.pt indicando morada para envio dos prémios.

O Caso Mesquita Machado (II)

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Por J.L. Saldanha Sanches
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O MINISTRO DAS FINANÇAS quer criar uma taxa especial de 60% contra os rendimentos não declarados nem declaráveis? Já há uma igual no IRC e, em princípio, nada impede que se seja criada uma outra no IRS.
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Mas quem a irá pagar?
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As leis fiscais são aplicadas por uma estrutura administrativa que está na dependência directa o Ministro das Finanças. Acreditamos que o Sr. Ministro quer aplicar a lei com a imparcialidade que a Constituição proclama e usar o dever de pagar impostos como uma arma contra a economia paralela e a corrupção.
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Contudo, a lei nem sequer é nova, a única novidade é a taxa agravada. Por isso, mesmo antes da sua entrada, tem quando ser demonstrado que há uma intenção séria de aplicar as normas que permitem a tributação quando se prova que o rendimento existe e que não foi devidamente declarado.
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O Senhor Ministro afirmou também, e com toda a razão, que basta olhar para os jornais (“nem imaginam o que se pode saber através da internet, revistas ou da imprensa”) para saber contra quem a Administração fiscal deveria actuar. Ora, há muito pouco tempo um jornal diário publicou os resultados de uma investigação ao Presidente da Câmara de Braga (depois de ter cessado o segredo de justiça) que mostrava o vasto património acumulado por este autarca e pela sua família.
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O Ministério Público arquivou-a. E a Administração fiscal o que fez?
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Por isso, Senhor Ministro das Finanças, se pretende que tomemos a sério a intenção de atacar a sério os acréscimos patrimoniais não justificados, deve-nos uma explicação.
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E o caso Mesquita Machado? Foi devidamente investigado e concluiu-se que tudo está bem?
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Bem sabemos que há o segredo fiscal. Mas o direito ao segredo fiscal é um direito disponível. O Sr. Mesquita Machado, que anunciou há pouco a sua recandidatura à Câmara Municipal de Braga, há-de estar interessado que tudo se esclareça e que o seu bom nome seja restabelecido.
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Se isto não for feito, e a taxa especial de 60% for criada, a quem é que vai ser aplicada? A suspeita de que os poderes discricionários da Administração irão conseguir que os destinatários da norma sejam apenas os inimigos do Governo vai ser confirmada. Ou que nem isso, que a nova norma seja apenas um faz de conta para tentar mostrar ao eleitorado que o Governo pretende combater a corrupção por meio do combate à fraude fiscal.
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O caso Mesquita Machado transformou-se assim num teste à seriedade das intenções do Governo: a investigação pelo Ministério Público, a detecção de um importante património, de depósitos bancários e de doações, mesmo sem a necessária colaboração da Administração fiscal exige uma clarificação.
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Adenda: a eliminação do segredo bancário para fins fiscais exige a adopção das melhores práticas. Controlo global (por meios informáticos) e não discricionário e atenção às entradas na conta (como propôs António Lobo Xavier) e não às saídas.
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A Administração fiscal não tem de saber como gasto o meu dinheiro, mas apenas como o adquiro.

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«Expresso» de 25 de Abril de 2009 - http://www.saldanhasanches.pt/

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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

domingo, 26 de abril de 2009

Lisboa e a “nova moeda”

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Por Helena Roseta
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ESCREVI EM 2002 que se estava a assistir ao florescimento de uma “nova moeda”: os metros quadrados de construção permitidos ou admissíveis, um verdadeiro “mercado de futuros” que estava a dar cabo do ordenamento do território.
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Em Portugal a “nova moeda” tem sido utilizada pelo próprio Estado para pagar obras para as quais não há capacidade orçamental. Foi com ela que se pagou, por exemplo, grande parte dos estádios do Euro 2004, através de direitos de edificabilidade cedidos a clubes de futebol, muitas vezes por simples protocolo. O governo, através da Secretaria de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades, acaba de aprovar um decreto regulamentar que irá limitar a passagem de solos rurais a solos urbanos. Sabe-se que é nesta mudança de uso que se constroem mais-valias urbanísticas mirabolantes. É por isso que a pressão sobre autarquias e entidades públicas que decidem ou dão pareceres sobre o ordenamento do território é tão forte. O caso Freeport é apenas um exemplo desta pressão.
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O pior é que o Governo é muitas vezes o primeiro a embarcar no negócio milionário das mais- valias urbanísticas. Noticiou o Expresso, semanas atrás, que o Secretário de Estado do Tesouro e das Finanças estaria a pressionar a Câmara de Lisboa para valorizar imóveis que o Estado quer pôr ou já pôs à venda. Na capital, o solo é praticamente todo urbano. As mais-valias urbanísticas aqui fazem-se através de mudanças de uso – de usos públicos, como equipamentos colectivo ou espaço verde, para usos privados - ou de aumento dos índices de construção. São estes mecanismos que determinam, no geral de forma bem opaca, a “valorização” de alguns terrenos. É assim que se cunha a “nova moeda”.
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Sucede que é à autarquia que cabe decidir, através do Plano Director Municipal, os usos e os índices de construção admissíveis. A revisão do PDM de Lisboa, que data de 1994, não teve até à data, no actual mandato, qualquer desenvolvimento público. No entanto, as zonas em transformação que podem estar na mira da “nova moeda” são muitas, a começar pelas que pertencem ao Estado: hospitais, instalações prisionais, quartéis e tribunais, para já não falar do aeroporto da Portela, estão anunciados pelo governo como equipamentos a deslocalizar. O que vai suceder nessas zonas? Vão manter-se como espaços de uso público ou vão transformar-se em condomínios privados de luxo? A questão é decisiva para o futuro de Lisboa. Porque todos os cidadãos têm o direito de saber o destino de edifícios e zonas que fazem parte da nossa memória e imaginário colectivos, como os velhos hospitais de S. José, Santa Marta, Capuchos, Estefânia e Curry Cabral, o IPO, a Penitenciária ou o Tribunal da Boa-Hora. E porque a “nova moeda”, mesmo antes de as decisões estarem tomadas, actua no imobiliário envolvente gerando grandes expectativas, que acabam por se reflectir em novas subidas de preços.
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É por isso que as diligências do Governo junto da CML não podem ficar no segredo dos gabinetes. É também por isso que nem o vereador do urbanismo nem o Presidente da CML podem responder sozinhos a quaisquer solicitações de valorização dos terrenos do Estado - o PDM depende da Assembleia Municipal e não pode ser alterado sem debate público. E é também por isso que é importante a comunicação social trazer estes temas para a agenda. Não podemos cobrir défices orçamentais excessivos com uma “nova moeda” totalmente desregulada. Nem pode o Governo, directamente ou através da Sagestamo, vender gato por lebre, anunciando para os terrenos e edifícios que põe à venda edificabilidades impossíveis ou inaceitáveis.
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O papel regulador do Estado, de que agora tanto se fala, também passa por aqui.

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«Expresso» de 25 de Abril de 2009

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sábado, 25 de abril de 2009

Os retratos

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Por Alice Vieira
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ANA DAVA AULAS numa escola no meio do nada, para lá do sol posto, sem as mínimas condições para nela se ensinar fosse o que fosse. Ana dizia muitas vezes que aquilo devia ser o Ministério a testar as suas capacidades pedagógicas e a sua resistência física.
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A escola não tinha nada, absolutamente nada, do mínimo que uma escola devia ter: não tinha mapas, não tinha a caixa de sólidos para ensinar geometria, não tinha nenhuma espécie de material, até mesmo o quadro preto já se limpava com dificuldade, tantos os anos de uso.
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Mas a Ana foi sempre de um optimismo inquebrantável: todos os meses, aliando uma perseverança notável a uma ainda mais notável caligrafia, escrevia uma carta ao Ministério, pedindo material, dizendo que era impossível ensinar fosse o que fosse - acrescentando, para ver se os comovia - que a escola nem sequer tinha na parede os retratos do Senhor Presidente da República nem do Senhor Presidente do Conselho, e que aquilo era uma vergonha.
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A D. Cândida, que de manhãzinha limpava a escola, até se ria, “eu nem sei para que é que gasta tanto dinheiro em selos se eles não ligam nenhuma”.
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Mas todos os meses Ana escrevia a carta, e todos os meses o Ministério respondia com o mais profundo silêncio.
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Até que um dia, ao chegar à escola, Ana viu D. Cândida numa imensa euforia, correndo até ela, gritando que o material tinha chegado, milagre!, ela nem queria acreditar mas a verdade é que estava ali um caixote, vindo do Ministério, que uns homens tinham largado logo de manhã.
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Ana também não queria acreditar, finalmente ia ser professora a sério e ensinar a sério.
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Feliz diante do milagre, D. Cândida não parava de falar, dizendo que a única coisa esquisita tinha sido a pressa dos homens, nem tinham saído da carrinha,” abriram a porta e zás!, atiraram com o caixote”, e ela a perguntar “então não é preciso assinar uma guia nem nada?”, e eles a berrarem que depois se via, que aquilo em Lisboa ia uma grande confusão, que eles nem sabiam bem o que era, mas não devia ser nada de bom e o melhor era porem-se a andar depressa.
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D. Cândida ria e quase jurava que eles tinham falado em revolução. Ana deu uma gargalhada, “ó D. Cândida, revoluções em Lisboa?”, mas logo deixou de rir: no caixote, o único “material escolar” que o Ministério lhe mandava eram os retratos do Senhor Presidente da República e do Senhor Presidente do Conselho. Nem um mapa, nem sequer um pauzinho de giz. Os retratos, mais nada.
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E é por isso que hoje, quando lhe perguntam “onde é que estava no 25 de Abril?”, Ana responde sempre: “ a olhar para dois retratos, que nunca foram pendurados.”

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«JN» de 25 de Abril de 2009
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sexta-feira, 24 de abril de 2009

Não se queixe muito

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Por Pedro Lomba
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TERÇA À NOITE, sintonizo a RTP para mais hora e meia da vida gloriosa de José Sócrates. O primeiro-ministro nunca surpreende. Números avulsos para o ar, odes à governação e uma mensagem que só passa na medida em que ninguém o confronte a sério. É assim com a crise. Sócrates não pode negar que Portugal já vivia em crise antes da crise financeira e continuará em crise depois dessa crise terminar. Mas a crua verdade do facto não importa muito a Sócrates, que responsabiliza prosaicamente o mundo por todos os males que nos assolam.
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De qualquer maneira, a entrevista inócua que deu à RTP teve, pelo menos, um mérito: mostrou o quanto os jornalistas irritam o primeiro-ministro. Aquela tremura pelas mandíbulas, o humor seco, a arrogância de estatuto com que tratou os dois jornalistas presentes como ignorantes (tirando Alberto João Jardim, confesso que nunca vi nada igual), chegando a perguntar-lhes se eles percebiam as perguntas que estavam a fazer, numa inversão de entrevistado para entrevistador, não enganavam. O primeiro-ministro anda nervoso. A vida não lhe corre bem. Convenhamos que o caso Freeport é um desconchavo, que há uma investigação em curso e jornalistas metediços fazendo perguntas. Para não falar do telejornal da TVI das sextas-feiras que manifestamente não aprecia Sócrates e que, segundo este, promove o seu "assassínio de carácter". Só razões para lamúrias.
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Mas eu penso que há talvez uma maneira de ajudar o primeiro-ministro. De lhe transmitir paz e tranquilidade. Ele que pense num conjunto de políticos bem mais importantes do que ele. Bill Clinton. Alguém ainda se lembra da virulência jornalística que destruiu a reputação do ex-presidente americano, que o defenestrou publicamente como um mentiroso compulsivo e um psicomaníaco? E Tony Blair: tanto quis controlar a imprensa que acabou várias vezes por ser vítima dessa mesma imprensa, na guerra do Iraque ou em inúmeros escândalos que rodearam o seu governo. Bush até podia ter a Fox News em campanha permanente por ele, mas o New York Times não tinha autorização para entrar no avião de Dick Cheney tal era a oposição que fazia ao poder republicano.

A questão é esta: durante décadas, os políticos portugueses, sobretudo no governo, existiram num ambiente fechado, sem grande tradição de liberdade de imprensa (o século XIX, comparado com o presente, era uma selvajaria), sem jornais e televisões agressivas, sem concorrência entre meios de comunicação social, sem blogosfera, sem obrigações várias de informação. Esse mundo acabou um pouco por todo o lado. Hoje a vida de um primeiro-ministro é, por fatalidade das circunstâncias, mais difícil e desgastante. Sócrates que não se queixe e, sobretudo, não queira ele ter boa imprensa precisamente por ter boa imprensa. Não funciona assim.
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«DN» de 23 de Abril de 2009
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Quero ter o meu deputado

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Por Maria Filomena Mónica
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«O MEDO é que guarda a vinha»: o provérbio pode ter alguma base, mas por muito intactas que as videiras se mantenham sob cativeiro acabarão sempre por esmorecer. Vem isto a propósito da lei eleitoral portuguesa: elaborada em 1974, num momento de desconfiança em relação aos eleitores, está a destruir o regime. Com receio dos cidadãos, os políticos congeminaram um esquema que permite retirar aos eleitores parte do poder de decisão. Na prática, apenas vamos às urnas para escolher entre as listas de nomes cozinhadas pelos partidos. Assim se evitariam,
pensou o legislador, os dislates do caciquismo.
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Dou de barato que o medo talvez se justificasse, mas, passados trinta anos é aberrante que continuemos a não poder seleccionar o nome do indivíduo que gostaríamos de ver como representante no Parlamento. Mesmo tendo em conta que o método uninominal – ou seja a possibilidade de votar num nome – possui inconvenientes (deturpa a representatividade), é superior ao actual, porque neste estou limitada a escolher entre as pessoas que os Secretários Gerais optam por designar como candidatos, geralmente devido a qualidades tão desprezíveis quanto a subserviência. Se já se admiraram de ver, no hemiciclo, aqueles rostos anónimos não gastem tempo a tentar encontrar o fundamento desta triste realidade: ele está na legislação eleitoral.
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Há dez anos que o PS tem vindo a prometer uma reforma da lei no sentido da adopção de círculos uninominais (mantendo, por razões constitucionais, um círculo nacional), mas até agora nada foi feito, aparentemente porque o PSD insistia em reduzir o número de deputados. Por razões conjunturais, Menezes acaba de anunciar que abdica desta reivindicação. De uma só penada, deu cabo do álibi do PS para nada mudar. Uma vez que todas as máquinas partidárias odeiam a reforma (ninguém gosta de perder os seus privilégios) duvido que algum partido ouse pôr em pratica a alteração. Deus queira que me engane.
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Novembro de 2007

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quarta-feira, 22 de abril de 2009

A revolução que falhou

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Por Baptista-Bastos
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QUE VAMOS COMEMORAR no sábado? O "dia inicial inteiro e limpo" [Sophia de Mello Breyner]? Mas que resta desse dia? As ruínas de uma história que se perdeu nela própria. A avenida encher-se-á, como de hábito, e os discursos, no Rossio, alegres e decididos, dissimulam a melancólica gravidade de uma peregrinação que se faz por uma memória feliz, tornada triste e antiga.
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Ocultamos a dor do que perdemos, é isso. A multidão reflui, gritando estribilhos antigos, miméticos e elementares. "Fascismo nunca mais!" "O poder está no povo!" "Os ricos que paguem a crise!" Animamos a nossa profunda descrença, com a ressurreição nostálgica de um tempo delido que vai ficando efeméride.
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Fomos envelhecendo e agarramo-nos à data como quem não quer extraviar-se da irremediável perda da juventude. Porque éramos todos muito novos; ou, pelo menos, muito mais novos. Olhamo-nos, saudamo-nos uns aos outros, joviais e excessivos. Porém, pertencemos a outra história. Festejamos o dia como se o dia representasse a rapariga, a festa, a alacridade e as cores da adolescência. A rapariga já não possui segredos, a festa emudeceu, a alacridade acabrunhou-se, as cores oscilam entre a metáfora e o que imaginamos.
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Mas vamos, estamos, elementares e claros, porque ir, estar, desfilar, sorrir, acenar, partilhar, enriquece mais do que a reticência e fortalece mais do que a indiferença. Talvez o dia seja um marco denso e, acaso, desmesurado para a cruel realidade do momento. Talvez. No entanto, acreditamos que há algo de transcendente desespero em celebrarmos uma revolução que falhou.
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Velhos fantasmas, pontuais e exactos, emergem da nossa cultura caótica e da nossa vocação para o submisso. A ordem, a segurança nas ruas, a obediência à autoridade, a uniformização reaparecem nas conversas avulsas, como que por casualidade. As coisas encadeiam-se nas coisas numa espécie de pensamento figurativo. E, no entanto, há trinta e cinco anos, todos e cada um de nós posava de leão indomesticável. As nossas fragilidades congénitas e os nossos ressentimentos ancestrais tapávamo-los com gritos, com frases rimadas, com gestos incoerentes porém vitais. Éramos, afinal, ostensivamente livres e acintosamente exibicionistas.
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Sabe-se quem travou a marcha ruidosa e feliz. Conhece-se os nomes daqueles que, na sombra e no silêncio, isolaram e subjugaram, de novo, as nossas emoções. "Acabou a tua festa, pá!", cantou Chico Buarque de Holanda. O epitáfio definia o cansaço e a derrota. Aí estão as sobras demoradas da nossa juventude. Aí está o refugo de um sonho que tinha a dimensão do homem.
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Afinal, vamos comemorar a nostalgia.
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«DN» de 22 de Abril de 2009. NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

domingo, 19 de abril de 2009

Idades do mundo para todos os gostos...

Clicar nas imagens, para as ampliar
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NOTA: alguns números estão referidos à data de 1915...

Dito & Feito

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Por José António Lima
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PELO ATRASO COM QUE APRESENTOU o seu candidato às europeias – mais de um mês depois de o PS ter colocado o seu cabeça-de-lista no terreno e quando falta pouco mais de mês e meio para as eleições – a líder do PSD parece não ter valorizado devidamente a importância e as consequências que este primeiro acto eleitoral de 2009 terá para o seu partido. E para a sua liderança.
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Acontece que as eleições do Parlamento Europeu se apresentam como as mais incómodas para Sócrates e para o PS, pois são tradicionalmente aquelas em que os eleitores mais fácil e descomprometidamente expressam o seu voto de protesto com o Governo em funções. E o clima de crise acentuada e de desemprego crescente potencia ainda mais esse voto de descontentamento.
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Acresce que José Sócrates se viu forçado a ir buscar uma figura de segundo plano, com perfil académico mas reduzida visibilidade política e limitado impacto eleitoral. Vital Moreira não é o tipo de candidato que empolgue a militância do PS, que convença o eleitorado moderado e central a dar-lhe o seu voto ou que mobilize alguém na larga fatia de abstencionistas.
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Neste contexto, face às fragilidades da candidatura do PS e às delongas do PSD em avançar, esperava-se que Manuela Ferreira Leite apresentasse um nome com indiscutível projecção nacional, com alargado e fácil reconhecimento público. Ora, a líder do PSD escolheu o seu líder parlamentar, Paulo Rangel, contra a opinião da maioria dos vice-presidentes da sua direcção, que apostavam em Marques Mendes.
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Paulo Rangel, apesar dos meses que leva à frente da bancada em S. Bento, é uma figura mal conhecida pela maioria dos portugueses, não tem a dimensão política ou o prestígio nacional de Mendes. Nem a capacidade deste para mobilizar as distritais e as bases laranjas. Manuela Ferreira Leite preferiu, pois, um candidato com menos hipóteses de vencer, mas que não lhe fizesse sombra. Com Marques Mendes em campanha, poder-se-ia perguntar quem era, afinal, o verdadeiro líder do PSD.
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Com a escolha de Paulo Rangel, Ferreira Leite acrescentou ainda um problema para Outubro: o de o PSD ter que encontrar um novo líder parlamentar. Mas fê-lo, porventura, com a convicção de que esse já não será um problema seu. Nem da sua liderança.

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«Sol» de 18 de Abril de 2009

NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

Visto, está conforme

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Por Nuno Brederode Santos
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POR MUITO DISTRAÍDO que eu andasse, era impossível deixar de reparar na sucessão, em quarenta e oito horas, do discurso de Cavaco Silva na abertura do 4.º Congresso da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE) e mais uma entrevista de Luís Filipe Menezes à SIC Notícias. Não para sugerir um nexo entre os dois factos, mas porque ambos formalizam, segundo os meus subjectivíssimos critérios, o arranque da pré-campanha das próximas eleições europeias. Não está mal: quer porque o último cabeça de lista (o do PSD) foi finalmente revelado, quer porque eu tenho sempre a original atitude de gostar muito das campanhas até ao limite fisiológico de me fartar delas.
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Vai ser curioso assistir às ondas de choque provocadas pelo discurso de Cavaco. Como sei que a notícia está no excesso, não me fiquei pelas manchetes e fui fazer uma primeira leitura do texto ao sítio da Presidência da República na "net". Como é de regra, pouco importa a substância do que lá está (o que é bem diferente de dizer que a não tem). É um conjunto de ideias sobre a crise, económica e financeira, mundial; com imputações genéricas de culpas, mais duras (e mais moralistas) para empresários e gestores e algo mais políticas para com os decisores dos países que nos são deixados facilmente adivinhar. Segue-se um "vademecum" para ambos esses grupos. Passando depois a Portugal, são equacionados "desafios" que se apresentam à nossa economia e instam-se políticos, empresários e gestores a novas atitudes e condutas, que implicam (ou sugerem) críticas à sua actuação anterior e (ou) actual. Tudo isto vem envolto numa abordagem que, sendo ideológica, é no entanto a que maior receptividade deveria obter junto dos presentes (sendo o exemplo mais berrante a alusão às políticas "que favorecem o enfraquecimento dos laços familiares"). Chamemos-lhe social-cristã. Pela televisão pudemos ver que o tom é firme, mas quem quiser chame-lhe duro. De resto, várias vezes aqui assinalei que é característico do nosso Presidente manietar-se antes de falar forte e grosso: é que depois, quando vierem reivindicar consequências, ele pode dizer com verdade que está manietado.
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Só os ainda mais distraídos do que eu é que não terão notado como, poucos dias antes, muitos "media" assinalavam a habitual não notícia: "a partir de hoje, o Presidente da República já não pode dissolver o Parlamento". Notícia é saber-se a animação que isso sempre desencadeia para os tempos seguintes.
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Mas a substância, escolhida como é para ser pacífica, importa menos do que o facto de estes discursos se sucederem quase iguais, convidando assim à busca minuciosa das pequenas diferenças. São estas que, dramatizadas ou banalizadas, suscitarão todas as atenções, moldarão as atitudes e irão até impregnar (odiosa palavra, esta) o discurso oficial dos vários agentes, políticos, económicos e sociais. Mas sobretudo - e para nossa desdita - darão azo a torrenciais manifestações de inteligência em filigrana, por parte dos treinadores de sofá que se (nos) pretendem(os) fazedores de opinião. Duríssima será também a habitual competição entre os que se insinuam como intérpretes autênticos, para já não dizer fantasmáticos autores da prosa em causa. A vida ensina, a gente aprende: vamos ser bombardeados com tempos verbais, escolhas entre sinónimos possíveis, substantivos mais usados por um partido do que por outro. E com os "não é por acaso" de uma fé intangível, que não poderemos combater. A generalidade ou a abstracção de uma frase será o volúvel corcel de quem quiser montá-la. O governo explicará que não é com ele e, perante um caso ou outro mais difícil, dirá que a crítica é para quem empata a governação. As oposições proclamarão exactamente o contrário: que tudo é contra o governo. Mas terão de travar entre si alguns duelos, abrangendo na crítica os demais: é a mim que ele dá razão. Todos parecerão acreditar no princípio segundo o qual o melhor argumento é o mais ruidoso, pelo que a gritaria que se segue terá a vantagem cultural de nos mandar a todos para o cinema.
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Menezes, um estudioso das agendas alheias, esperou e bem. Depois chegou e poisou no galho alto. Descontado um pequeno ajuste de contas, detalhado nome a nome, foi gentil. Voltou a protestar lealdade e a declarar-se pronto para a primeira linha do combate partidário. O pior vem a seguir e é sempre mais rápido do que se julga. É quando ele desce: primeiro ao galho baixo, depois ao chão. Se o aproveitarem, dá sarilho. Se o ignorarem, também. Vimos este filme mais vezes do que A Túnica. Boa noite e boa sorte.
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«DN» de 19 de Abril de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sábado, 18 de abril de 2009

Cantigas, leva-as o vento

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Por Antunes Ferreira
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PARA COMEMORAR os seus 30 anos de carreira, os Xutos & Pontapés editaram um novo disco. Tim e os seus acompanhantes tornaram-se uma referência da música portuguesa e o seu estilo continua a defender bravamente o rock da pesada. Isto não teria nada de especial, seria mais uma notícia a juntar às milhentas que o grupo tem coleccionado.
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Porém, do álbum consta uma canção intitulada Sem eira nem beira, expressão que, é bem sabido, rotula normalmente situações muito desagradáveis em especial no que diz respeito ao desgoverno em que muita gente vive. Não ter eira nem beira é motivo para a piedade, mas também para a reprovação de quem não… sabe por onde vai e, pior, para onde vai.
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Durante o salazarismo surgiu em Portugal a canção de intervenção, que tinha absoluta razão de ser. Vivia-se numa ditadura, a maioria dos Portugueses (como é nossa característica principal) estava agarrada ao fatalismo. De tal sorte que nem um Dom Sebastião era buscado, tamanho era o nevoeiro. Somos, real e infelizmente, assim: passivos e resignados.
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O aparecimento de lutadores através do canto, Francisco Fanhais, José Mário Branco, Adriano Correia de Oliveira e tantos outros, encabeçados por José Afonso, o Zeca, veio dar o maior abanão ao que era o que então vingava – e que seria apelidado como o nacional-canconetismo, exemplo do nosso aberrante nacional-porreirismo.
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É nessa corrente que os Xutos se pretendem integrar. Ainda que, felizmente, não vivamos sob a pata de um qualquer ditador de meia-tijela. Mas, memo assim, o grupo nortenho entende que a canção de intervenção e de protesto tem justificação. O seu a seu dono. Em Democracia – quer se queira, quer não, é nela que vivemos – a opinião não é crime. Os Pontapés têm o direito de a ter. Ponto.
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Sem eira nem beira está a motivar uma polémica que vem subindo de tom na nossa sociedade. Apontada com ataque ao primeiro-ministro, ela já originou o esclarecimento do grupo de que era, na verdade, uma forma de protesto contra a maneira como vão as coisas em Portugal – mas não contra José Sócrates. No fundo, ainda que não o tenham dito, só gente de má-fé ou de raciocínio lento, poderá fazer tal associação.
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O certo é que a letra da canção parece ser suficiente para que uma esmagadora fatia dos Portugueses entenda que se trata de um ataque ad homine. Tome-se apenas o refrão: «Senhor engenheiro; Dê-me um pouco de atenção; Há dez anos que estou preso; Há trinta que sou ladrão; Não tenho eira nem beira; Mas ainda consigo ver; Quem anda na roubalheira; E quem me anda a comer».
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Coincidência? Os Xutos admitem-na, mas continuam a afirmar que não se trata de personalizar a crítica veiculada pela canção. Vistas bem as coisas, tudo indica que no entender deles, nós, os Portugueses, para além de sermos estúpidos por incapazes de entender o verdadeiro sentido e a intenção da Sem eira nem beira, ainda somos piores, ou seja, vemos o diabo onde apenas existe um protesto angélico. Somos, na verdade, intriguistas militantes.
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Não sejamos ingénuos. Ontem mesmo, o primeiro-ministro foi recebido em Viseu, onde se deslocara para inaugurar uma nova Pousada, por uns quantos manifestantes, professores e enfermeiros que entoavam a canção como bandeira do protesto que faziam. Os membros do grupo continuarão a negar a ligação? Contestem, protestem, insurjam-se – mas sejam coerentes.
Um assessor do chefe do Governo tinha vindo, antes, declarar que Sócrates não processaria os Xutos, o que, sendo simpático, é redundante. Ainda que o recurso à via judicial já tenha sido utilizado pelo titular de São Bento – em meu entender mal, como já neste blogue o expressei face ao caso do jornalista João Miguel Tavares – parece-me obviamente bem que o não seja utilizado agora. É a danada da Democracia.
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Temos, portanto, mais um motivo de mexericos e outros ditos neste triste quotidiano que é a nosso. Em meio de uma crise que cada vez mais se acentua e a que os números do Banco de Portugal vieram dar tonalidade muito próxima do negro. Mas, a memória dos homens, bem como a política, é curta, melhor, é curtíssima. Já ninguém parece lembrar-se, neste nosso País, do Lehman Brothers. Que foi o detonador de tudo o que vem acontecendo.
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Se calhar, já ninguém se quer lembrar de que a caixa de Pandora não foi aberta em Portugal. Anda muita gente mais preocupada com o Sem eira nem beira. O Povo, que cheirava mal dos sovacos e dos pés, diz que cantigas, leva-as o vento. Levará?

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Passatempo "dressing code" - Prémio

O Tratado de Lisboa e o Referendo

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Por Maria Filomena Mónica
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DEPOIS DE UM LONGO CICLO ditatorial, sofrendo os traumas de uma descolonização apressada, a Europa foi a salvação do nosso país. Nem tudo correu bem, mas os percalços ficaram a dever-se mais às características indígenas do que às imposições externas. Agora, fala-se muito da necessidade de um referendo sobre as mudanças constitucionais europeias: uma Europa a 27 necessita evidentemente de regras diferentes das que vigoravam quando apenas uma dúzia de países dela faziam parte, mas o que está sobre a mesa não me agrada, porque as instituições centrais da União Europeia são irresponsáveis, burocráticas e corruptas.
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Ao reflectir sobre isto, lembrei-me do que Tocqueville escreveu em De la Démocracie en Amerique: «Depois da concepção de um poder único e central, a ideia que mais espontaneamente se apresenta ao espírito dos homens nos séculos da igualdade é a de uma legislação uniforme, uma vez que cada um dos indivíduos se vê como relativamente semelhante ao vizinho, compreende mal a razão pela qual a regra que é aplicável a um homem não o seja igualmente a todos os outros». É por me sentir diferente do vizinho e por pensar que a isso tenho direito que odeio a burocracia da EU.
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Uma vez que a população portuguesa está grata a Bruxelas pelos «fundos» que de lá têm vindo, a nossa participação na UE não é polémica. Todos sabemos que Portugal não se pode dar ao luxo de exibir estados de alma: os eurocépticos são aqui um bando de excêntricos. Outros galos cantam lá fora. Em 2005, depois do «não» da França e da Holanda, o Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, afirmou despudoradamente que faria os povos votar as vezes necessárias até obter um «sim». Mais uma razão para eu ser contra a realização de um referendo sobre o chamado tratado de Lisboa. Se «eles» querem mandar em mim seja de que maneira for, não me venham antes perguntar o que desejo.
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Novembro de 2007

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