sábado, 16 de maio de 2009

Dito & Feito

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Por José António Lima
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A NOTÍCIA de que o inquérito a alegadas pressões sobre os magistrados que investigam o caso Freeport ia dar origem a um processo disciplinar ao procurador Lopes da Mota foi uma novidade mal recebida pelo PS. Que reagiu com um silêncio gélido e preocupado. Só quebrado, depois, pelo porta-voz Vitalino Canas para responder, na defensiva, aos outros partidos que pediam o afastamento de Lopes da Mota da presidência do Eurojust. «Procurar retirar quaisquer ilações políticas é puro oportunismo», limitou-se a considerar Vitalino. Sem impedir que qualquer eleitor atento e informado vá retirando cada vez mais ilações políticas de todo este processo.
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MAS a novidade do inquérito disciplinar a Lopes da Mota, além de mal recebida, foi também mal digerida por alguns sectores do PS. O ex-ministro e advogado António Arnaut apareceu a dizer que este caso «só foi possível por delação de dois magistrados do Ministério Público». Delação?! Arnaut não mede as palavras? Confunde os órgãos da magistratura democrática com uma qualquer polícia política?
O ex-ministro do PS explica-se: «Qualquer magistrado que se preze, e é uma condição sine qua non para exercer a magistratura, quer judicial, quer do Ministério Público, não pode dizer que foi pressionado». Não pode?! Ora essa. Não só pode como deve. O que não pode, pelas funções que exerce, é deixar-se pressionar. Mas deve denunciar pressões ilegítimas, tentativas de condicionamento antidemocráticas, ameaças inaceitáveis e interferências indevidas do poder político – como parece, cada vez mais, ser o caso em apreço. E deve fazê-lo em nome da separação de poderes e da transparência da vida democrática.
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DELAÇÃO?! António Arnaut, que foi há pouco grão-mestre do Grande Oriente Lusitano, parece sofrer a síndrome do secretismo, dos círculos fechados e da informação reservada que são apanágio da maçonaria. Uma «organização discreta», como caracteriza Arnaut. Pelos vistos, a opacidade maçónica não convive facilmente com notícias pouco discretas. Como as das pressões no caso Freeport. Ou com «notícias arrepiantes», nas palavras de José Sócrates, esta semana, a propósito do BPN e do BPP.
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«Sol» de 16 de Maio de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

Embaraço

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Por João Paulo Guerra
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Mais uma originalidade do situacionismo português: Portugal está de momento a ser representado na Unidade Europeia de Cooperação Judiciária por um magistrado sob suspeita no seu país e que, por sinal, até preside a esse órgão da União Europeia.
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POIS O PRESIDENTE do Eurojust, um português, está a ser alvo de um processo disciplinar em Portugal por suspeita de exercer pressões sobre outros magistrados para que arquivassem um processo. Como diria o falecido general Galvão de Melo, a respeito de outra instituição e em outro tempo, a justiça portuguesa deixou de ser uma vergonha nacional. Agora é uma vergonha internacional.
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Claro que um cidadão sob suspeita é inocente até prova em contrário. Mas seria de bom tom e do mais elementar bom-senso que se evitasse que Portugal, por via do seu representante que preside ao Eurojust, fosse olhado de soslaio pelos parceiros europeus. É a representação externa do Estado que está em causa neste caso, mas isso parece não perturbar o ramerrame de interesses, conveniências, compadrios que vigora em Portugal. Escrevo ao princípio da tarde de quarta-feira admitindo que ainda reste algum laivo suficiente de sensatez que aconselhe ou leve o senhor procurador-geral adjunto a demitir-se, a suspender o mandato, a meter férias, entrar de baixa, vir visitar a família, de modo a evitar a Portugal uma situação de completo embaraço.
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O que já não é evitável é o falatório que vai no país e irá na Europa em redor do perfil do presidente português do Eurojust. Pelo seu passado e casos do seu currículo, o procurador é sem dúvida um homem de absoluta confiança e total fidelidade ao partido. O magistrado poderá ser o homem certo para o Governo. Mas para o país está no sítio errado.
«DE» de 14 de Maio de 2009

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Fazer amor

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Por Antunes Ferreira
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HÁ ANGLICISMOS que até nem são maus. Há, porém, outros, que nem sequer são bons. O amigo Banana não diria melhor. Aqui, apenas abordo a linguística, nada de política. Fora essa a ideia e logo viria à baila o Mapa Cor-de-Rosa, o Ultimato e o Guerra Junqueiro com o «ó cínica Inglaterra, ó bêbada impudente» contrapondo-se à conquista de Lisboa aos mouros, à aliança mais velha da Europa, à Dona Filipa de Lencastre e ao Wellington. Já para não elencar na economia a Anglo-Portuguese Thelephone, a Carris, os vinhos do Porto e da Madeira, os tecidos da Covilhã, enfim.
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Fique-me, portanto, pelo que são os registos vocabulares da nossa Língua Portuguesa provindos da Inglesa e, sobretudo, dos arrevesadamente adoptados. E é o caso do fazer amor. Expressão que não existia no vocabulário lusitano, até há bastante pouco tempo. Entretanto, com o advento do make love, lá fomos apressadamente incluí-la no corriqueiro dia-a-dia.
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Somos - apesar de em tempos apelidados e bem de colonialistas – estruturalmente uns colonizados. Volto a acentuar que me escapou a pena para a política, que, para o caso, não deve ser tida nem achada. Mas, é. Antes de tal invasão, usava-se, em bastas situações, terminologia a cair no calão. Hoje, por exemplo e só, ninguém está a ver um sujeito apostrofar outro vigorosamente sem o vernáculo.
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Quando se falava em paixão eterna, em almas juntas até à eternidade, ou se chegava mesmo ao Noivado do Sepulcro, as pessoas amavam-se, não faziam amor. É claro que faziam, mas não usavam o anglicismo. Utilizavam outros termos ainda que as práticas fossem as mesmas. E não falo do recato, mentira piedosa que era apenas disfarce para actuação atrás da porta. Falo no coito, para não falar noutra coisa semelhante mas menos publicável.
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No chiqueiro que foi o Vietname, ficou célebre a asserção make love, not war. Os hippies foram os seus principais criadores, de flor em punho, mas outros houve. Muitos. Não me posso esquecer da Jane Fonda, entre o coerente e o contraditório, pois a sua Barbarella conjugava o amor e a guerra, aliás de forma muito aliciante. Mas nem toda a gente nasceu para tais compromissos. Adiante.
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Não descortinei, pelo menos até à data, nenhuma unidade fabril que faça amor. Isto é que o produza, industrialmente falando. Nem sequer um artesão que seja. E pergunto-me se existe alguém que saiba tricotar amor, que ou que o saiba cozinhar de mil e uma maneiras como acontece com o bacalhau, ou que o saiba alinhavar, à maneira das costureiras em vias de desaparecimento.
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Apesar da intenção inicial, ocorre-me o acontecimento político de ontem, que foi a visita relâmpago do primeiro-ministro à Madeira. Onde Alberto João Jardim o recebeu «de braços abertos», tal como anunciara previamente. Não se veja aqui qualquer soez insinuação sobre o tema. Declaro, sob palavra de honra e devidamente ajuramentado – na dúvida, e em processo, ajuramenta-se o declarante – que não se trata disso.
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Mas não me admirava que, após os encontros no Palácio de S. Lourenço e a partida do chefe do Governo, o Sr. Dr. Alberto João desabafasse para Miguel Mendonça que reafirmava o que dissera, isto é, Sócrates era o pior primeiro-ministro de sempre. E que acrescentasse «ele que se vá f…azer amor… para Lisboa.
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Fama

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Por João Paulo Guerra
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O turco Mehmet Ali Agca, que cumpriu pena de prisão por tentativa de assassínio do papa João Paulo II, em 1981, pena acrescida por outra respeitante ao homicídio de um jornalista, em 1979, anunciou que já meteu os papéis para obter a nacionalidade portuguesa.
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VEJAM BEM A FAMA de Portugal, da situação e da Justiça portuguesas. Que honra!
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Ali Agca, antigo membro do bando terrorista nazi "Lobos Cinzentos", cumpriu 19 anos de prisão efectiva em Itália e mais cinco na Turquia, saindo em liberdade condicional em 2006. Em Portugal e sendo português, se tivesse alguma vez chegado a ser preso, nunca teria cumprido tanto tempo de prisão. As penas para os crimes mais medonhos são de 25 anos, que também é o tecto do cúmulo jurídico, e não deve haver um único caso de cumprimento integral de uma pena de cadeia. Por essa e por outras razões, o cadastrado Mehmet Ali Agca descobriu agora a sua irreprimível vocação portuguesa.
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De facto, para alguns espíritos tão mal formados como mal informados, Portugal pode parecer um paraíso na Terra, onde alguns delinquentes financeiros recebem chorudos apoios do Estado, certos processos judiciais hibernam ou prescrevem à pressão, há crimes que compensam e compensações, como o enriquecimento ilícito, que nem sequer são crimes, a justiça exerce-se em segredo e o segredo de justiça tem fugas perfeitamente organizadas e controladas, o tráfico de influências e a cumplicidade são modalidades instaladas para escapatórias e delongas, as leis têm mais buracos que um queijo suíço, os polícias prendem para as estatísticas e depois deixam os criminosos em paz. E, como se tudo isto não bastasse, há sempre a hipótese da cereja no cimo do bolo: um convite para um patusco congresso num destino exótico.
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«DE» de 15 de Maio de 2009
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sexta-feira, 15 de maio de 2009

Surpresa!
Aqui, o "C" de "Constructora" justifica-se, porque é o nome da empresa, espanhola.
Prémio do passatempo a realizar em breve, no Sorumbático,
a propósito do filme «Anjos e Demónios»

A minha saúde mental

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Por Maria Filomena Mónica
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HÁ DIAS, UM CONJUNTO de circunstâncias levou-me a pensar que deveria ingressar rapidamente na ordem da Cartuxa, onde, como se sabe, o silêncio é a regra de oiro. Até cheguei a indagar da possibilidade junto de uns amigos que conhecem esta congregação religiosa por dentro, mas eles logo me preveniram que uma das condições, a obediência, se não adequava ao meu temperamento. Perguntar-me-ão o que levou uma ateia como eu a pensar em tal hipótese. A resposta é simples: a poluição sonora crescente das sociedades contemporâneas.
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Raro é o restaurante de luxo onde, enquanto tento almoçar, não tenha que suportar música de fundo; não há sala de espera de clínicos, por mais famosos, onde não seja forçada a conviver com seres, aparentemente civilizados, falando ao telemóvel aos berros; não há jantares com amigos que não sejam interrompidos por um intervalo em que um deles sente a necessidade urgente de enviar um SMS; não há sala de espera VIP de um aeroporto em que não seja forçada a ouvir o bipbipbip dos mails recebidos pelos yuppies que passaram a habitar estes espaços; não há elevador de um prédio elevado que não nos ofereça uma musiquinha pateta: não há serviço, público ou privado, que antes de nos pôr em contacto com quem desejamos falar, não nos obrigue a escutar um disco qualquer; não há lanche de crianças em que se não ouça obrigatoriamente os ringringring dos Nitendos que hoje parecem fazer parte da anatomia infantil.
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Isto se mencionar apenas os meios privilegiados. Descendo na escala social, temos as televisões eternamente ligadas nas tascas, as gritarias das vizinhas que gostam de intrigar à janela, os nininini das máquinas registadores dos hipermercados e os cães encarcerados nos logradouros de Lisboa que passam o dia e a noite a ladrar furiosamente na tentativa de que alguém os salve daquele calvário.
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Se exceptuarmos a sala de leitura da Biblioteca Nacional – e mesmo esta sabe Deus! - o quotidiano moderno está a ser invadido por uma multiplicidade de ruídos que, permanentes, passam contudo desapercebido. Tem-se publicado muitos e desvairados estudos sobre as causas da criminalidade, mas em nenhum deles foi incluído a variável ruído, o que é surpreendente. A actual ASAE tem como fim vigiar a segurança alimentar. Sugiro ao governo que alargue rapidamente o seu âmbito, de forma a que a instituição persiga ainda todos aqueles que, no espaço público, quebrem o silêncio, visto ser este um bem necessário ao nosso bem-estar psíquico.
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Dezembro de 2007
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quinta-feira, 14 de maio de 2009

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Os homens incertos

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Por Baptista Bastos
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OS INCIDENTES no Bairro da Bela Vista repõem, de novo, a questão da identidade instável. Não é só a fome, a miséria, o desemprego, a promiscuidade, a ausência de perspectivas, o conceito de cerco que criaram as tensões e os conflitos. Embora essas formas de agressão social fossem mais do que suficientes para os explicar. Aqueles jovens, em última instância, não sabem quem são, e moldaram novas dimensões identitárias.
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Quem são os excluídos? Quem se excluiu? Nós. Abandonámo-los. Nasceram em Lisboa mas não são lisboetas; têm a pele escura mas não se sentem africanos; as músicas de que gostam procedem dos Estados Unidos; vestem-se, falam e comportam-se de molde a reivindicarem a "diferença" a que os temos obrigado. A sua comunidade é "outra" porque essa escolha foi-lhes rudemente imposta pela nossa escabrosa indiferença.
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Não nos queremos aproximar, descomprometemo-nos das responsabilidades que nos cabem, toleramo-los sem tentar compreendê-los e muito menos lhes manifestar a menor dose de afecto. Os gritos histéricos, e as poses, afinal grotescas, de Paulo Portas, a reclamar mais fortes intervenções policiais, seriam apenas repugnantes, não fossem extremamente perigosas. Elas reflectem a desprezível ignorância de quem deseja, unicamente, conservar o domínio sobre a diferença. Ou, parafraseando D. Manuel Martins, colocar uns de um lado e outros do outro.
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As explosões sociais que se avizinham, devido ao acumular dos ressentimentos, e a que o Governo parece alheio, são acirradas por uma comunicação social mal preparada, pouco culta e, até, terrorista. Basta reparar nas perguntas formuladas, no enquadramento (ou na falta dele), para se perceber a distorção da "realidade" e a total vacuidade do conhecimento histórico. A informação que nos servem peca por leviandade, favorece sentimentos xenófobos e racistas, e exala um forte cheiro a retaliação. O pior é que somos impotentes para inverter esta tendência maléfica. Sem compreendermos a complexidade do assunto, a natureza delicada do problema, somos empurrados para a tirania da emoção, a qual nos coage a tomar o "outro" como assassino, ausentando-nos de culpa - como se nada tivéssemos a ver com "aquilo." E "aquilo" é, no fundo, a busca de uma expressão pessoal, entre uma cultura que se defende, por desconhecimento e receio do "outro."
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Em que raio de gente nos tornámos? Fomos sempre assim, centralizando-nos num egoísmo tão feroz e num tão gelado desprezo pela humanidade? A simplificação dos elementos, a crise dos laços sociais, procria, diariamente, novas formas de indignação e movimentos irracionais de resultados imprevisíveis. "Uma fogueira preparada para incendiar o País", na acertada expressão de D. Manuel Martins.
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«DN» de 13 de Maio de 2009
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terça-feira, 12 de maio de 2009

Paradoxos dos Jogos

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Por Nuno Crato
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IMAGINE QUE ENTRAMOS num casino que nos propõe o seguinte jogo. Colocamos 100 euros em cima da mesa e ganhamos ou perdemos atirando uma moeda ao ar. Se cair caras ganhamos 40 euros; se cair coroas perdemos 30 euros. Devemos aceitar o jogo?
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Se a moeda estiver equilibrada e a lançarmos honestamente, as probabilidades são as mesmas. Ganhamos 40 euros com probabilidade 1/2 e perdemos 30 euros com probabilidade 1/2. O valor esperado deste jogo é 40/2-30/2, ou seja, 5 euros. Isto significa que, se pusermos muitas vezes 100 euros em cima da mesa e repetirmos o jogo, ao fim de um número grande de lançamentos teremos ganho, aproximadamente, 5 euros por cada lançamento. Ao fim de mil jogadas deveremos acumular uns 5000 euros. Vale a pena ir a este casino. Para nós, é uma máquina de fazer dinheiro.
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O funcionário, contudo, sabe que é uma maçada estar sempre a colocar 100 euros em cima da mesa e resolve simplificar-nos a vida. Em vez de ganharmos, de cada vez, 40%, ou perdemos 30%, sobre 100 euros, como ao princípio, colocamos os 100 euros em cima da mesa e repetimos o jogo ganhando de cada vez 40% ou perdendo 30% do que tiver ficado em cima da mesa. Assim, por exemplo, se sair “caras, caras, coroas”, os 100 euros transformam-se em 140, a que se somam 40% de 140, ficando 196, a que se retira 30% de 196, ficando 137,20, e assim por diante.
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O funcionário do casino parece estar a facilitar-nos a vida. Por que não? Pomos a máquina de fazer dinheiro a rolar e vamos dar uma volta, satisfeitos. Aproveitamos para jantar bem e beber melhor. É à conta do jogo.
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Passadas duas horas passamos pela mesa para recolher o nosso dinheiro. Entretanto, a moeda foi lançada ao ar 100 vezes. Quanto dinheiro esperamos recolher? Vários milhares de euros, não?
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Ficamos surpreendidos, pois o funcionário dá-nos apenas 36 euros. E as nossas testemunhas dizem-nos que, caso extraordinário, “caras” apareceu 50 vezes e “coroas” outras tantas. O jogo foi equilibrado. Como pode isto ter acontecido?
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Pode! Ao fazer o jogo sequencialmente, o resultado é o produto de 100 euros por 140%, 50 vezes, e por 70%, outras 50 vezes. Faça o leitor as contas. Sobram-nos 36 euros. É que 140% vezes 70% é 98%, ou seja, por cada sequência “caras-coroas” perdemos 2% do dinheiro em cima da mesa.
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Este paradoxo, que afinal se percebe bem fazendo contas simples, é uma curiosidade simples da chamada Matemática Recreativa, tema que na semana passada trouxe a Portugal vários peritos internacionais da área. Realizou-se um colóquio em Évora, por iniciativa da Associação Ludus, e houve várias pequenas conferências em Lisboa. Numa delas, organizada pelo centro de investigação Cemapre, o matemático David Wolfe teve oportunidade de discutir este pequeno paradoxo dos jogos, que vale sobretudo pelo que sugere noutras áreas. Uma coisa é somar valores esperados outra coisa é multiplicá-los.
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Transponha o leitor o problema para o seu cálculo de juros bancários. Se um banco lhe fizer um empréstimo cobrando 4% de juros em cada semestre e o remunerar em 8% ao ano pelos seus depósitos a prazo, quem fica a ganhar?
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 9 de Maio de 2009
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segunda-feira, 11 de maio de 2009

Pode o crime ajudar a combater o desemprego?

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O autor de tão estranhas palavras foi Karl Marx, tendo o texto sido traduzido de «Matériaux pour l' économie», in «Économie II», La Pléiade, Paris, pp.399-400.
As imagens aqui afixadas foram extraídas do saboroso livro «Cadáveres Esquisitos», de Ernst Mandel Ed. Cotovia, pág. 29 e 30.

Livros para deitar fora

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Por Alice Vieira
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CONFESSO: não sou capaz de deitar livros fora.
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De resto, eu pertenço a uma geração que tem muita dificuldade em deitar fora seja o que for. Por isso os objectos se vão acumulando e eu perguntando-me “o que é que faço a isto?” Já pensei em fazer uma trouxa e ir vendê-los para a Feira da Ladra, mas os meus horários não me permitem ficar lá uma data de horas à espera de ver aparecer multidões interessadas em galhardetes, quadros com o brasão de juntas de freguesia de terras que nem sei onde ficam, frascos de perfume há muito vazios, amostras de tecidos, restos de lãs que nem para quadrados de mantas de patchwork já servem, etc.
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Mesmo assim, de vez em quando tapo a vista com a mão, encho-me de coragem, e reúno sacos a abarrotar de lixarada, e venho colocá-los à noite ao lado dos contentores, não vá passar alguém que ainda lhes descubra serventia.
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Mas livros é que não.
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Livros não sou mesmo capaz.
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O pior é que, para lá de receber muitos livros (os meus amigos pertencem quase todos ao ramo…), eu ainda sou uma compradora compulsiva! Compro livros porque são de autores de que eu gosto, ou porque li uma crítica que me entusiasmou, ou até — assumo…- porque têm capas que são um espanto… Mas às vezes, prometem muito e dão pouco.
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Então, periodicamente, encho caixotes de livros que vou enviando para bibliotecas ou escolas: livros que sei que nunca mais vou reler, livros que tenho em várias reedições, ou até livros de que eu, pessoalmente, até posso não gostar mas entendo que outros amem de paixão.
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Mas não é desses que estou a falar: refiro-me àqueles que não mereceriam (se eu fosse capaz…) outro destino a não ser o lixo. Tão maus, ou tão inúteis, ou tão fora de prazo que não me passa pela cabeça dá-los nem ao meu pior inimigo.
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Nos primeiros tempos da revolução, quando, de repente, descobrimos que podíamos viajar para os países até então proibidos da Europa de Leste, era fatal: regressávamos todos de lá vergados ao peso de toneladas de volumes encadernados com todas as intervenções dos camaradas nos diversos órgãos de soberania dos seus países. E – requinte dos requintes! - muitos deles na língua original.
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Lembro-me de ter tido de comprar um saco só para nele enfiar os discursos do camarada Jivkov, que me ofereceram na minha primeira ida à Bulgária.
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Digam-me: o que é que eu lhes faço?
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Contava o meu querido Alçada Baptista que uma das suas tias, ao ver-se confrontada com a pergunta de uma das criadas (“o que é que eu faço às listas velhas do telefone?”) terá respondido: “dê a um pobrezinho.”
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Se calhar, vou seguir-lhe o exemplo. Tal como eu, ela também era de um tempo em que não se deitava nada fora.

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«JN» de 9 de Maio de 2009
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domingo, 10 de maio de 2009

As convicções no baloiço

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Por Nuno Brederode Santos
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AO AVANÇARMOS NA VERTIGEM pré-eleitoral, acentuam-se as confusões de ideias e as habilidades verbais, os truques para os media verem, as tentações populistas, a manipulação da rua, os ataques pessoais e as excepcionalidades administrativas de curtíssimo prazo. Mantenho que nada disto seria importante se às crianças de hoje só viesse a chegar, como no futebol, o resultado histórico final. Mas como é muito duvidoso que o resultado final seja assim tão histórico, o mais certo é que, na pedra, só fique gravado o anedotário e aquela atitude impensada ou a palavrinha traiçoeira que, no calor de um debate ou no destempero de uma pose para a televisão, o actor político (ou económico ou social) deixa escapar para a eternidade possível. Como o - esse sim, histórico – voo sem rede de um deputado que se preocupava com relações sexuais sem intuitos de procriação e que Natália Correia estatelou a tiros tribunícios, com o famoso e poético “truca-truca”.
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Os últimos dias trouxeram disto exemplos vários. Como, de resto, sempre trazem. Eu pego neste. Porque gosto.
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Todos os partidos – numa unanimidade que um voto contra, uma abstenção e (creio que) três declarações de voto, por muito que honrem, não desmentem – votaram a nova versão da lei sobre o seu financiamento. Dos mais temperados pelo exercício do poder aos mais remetidos ao apostolado moralista por insuficiência de votos. Por boas e más razões, todos eles despertaram com isso hostilidades e dúvidas, não sei se generalizadas, mas, pelo menos, excessivas. Pela parte que me toca, mantenho as reservas que manifestei aquando da primeira versão: mesmo que não fosse a altura de acentuar a componente pública sobre a privada nesse financiamento, não se deveria ter aberto a porta a um retrocesso. E haverá retrocesso desde que, como é inteiramente previsível, for impossível uma fiscalização convincente e eficaz. Mas a minha posição é inteiramente irrelevante para o caso. Ao contrário do que parece ser um recuo do PSD. Dias depois da votação, ainda tão fresca – e após Paulo Rangel ter dado a cara pela decisão do parlamento e do seu partido – já Manuela Ferreira Leite recuava na colagem que fez às palavras de Cavaco e sugeria que o PSD pode mudar de posição (se vierem a surgir “efeitos perversos”, é claro). A gente sabe que toda a legislação é testada através da sua aplicação (que é o seu cotejo com o real). Mas sabe também que isso abre para a possibilidade de tal avaliação ser feita após as eleições que se perfilam, remetendo assim a apreciação final para depois delas. Por outro lado, sublinhá-lo em cima da decisão e aos primeiros embates com a hostilidade e a descrença só contribui para a insegurança do direito, o que não honra quem tanto diz preocupar-se com a ineficácia do nosso sistema de justiça. O “vamos a ver se a lei pega”, que os brasileiros reivindicam para si, é um dos maiores contributos para que a justiça não funcione. Mas a lógica eleiçoeira e populista de, em período eleitoral, tergiversar ao sopro das vozes inorgânicas é isso e mais qualquer coisa de pior. Além de que se baseia num preconceito infantilizador do eleitorado que ainda não deu grandes provas. (Declaração de interesses: cá por mim, ainda bem. Em coincidência, se não de alma, pelo menos de circunstância, com Rui Rio e Marques Mendes, mais uma listagem onomástica que não tenho aqui à mão).
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O que vale é que o cidadão eleitor já sabe. Destas e de tantas outras tropelias da razão e da vontade. E julgo que já escolhe o que mais lhe apraz para a quadra festiva que aí vem. Pode sofrer e arrancar os cabelos agarrado à televisão. Pode ser displicente e aliviar a paixão e a atenção na leitura diária dos jornais. E pode preferir recolher a um “bunker” da consciência, ajustando o despertador para as 17 horas do dia sete de Junho. Aí, levanta-se, lava-se, sai de casa e vai votar. Como responsavelmente lho mandarem a convicção, a experiência, os interesses e a livre vontade. Porque é exactamente a essa hora que ninguém pode impedi-lo de ser o dono do mundo. Do mundo que mais lhe importa, pelo menos.

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«DN» de 10 de Maio de 2009
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sábado, 9 de maio de 2009

Capa de Lima de Freitas

Fazer farinha

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Por Antunes Ferreira
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Para:
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Excelentíssimo Senhor Professor Doutor Manuel Pinho, digníssimo Ministro da Economia e da Inovação
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Cc:
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Excelentíssimo Senhor Doutor Paulo Rangel, ilustre Deputado e cabeça de lista do Partido Social Democrata às eleições europeias
Excelentíssima Senhora Doutora Manuela Ferreira Leite, insigne Presidente do Partido Social Democrata
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Excelência
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Em nome da Associação dos Antigos Consumidores das Farinhas Amparo, 33 e de Trigo Torrada (*), venho apresentar a Vossa Excelência (V. Ex.ª no seguimento deste documento) o nosso mais veemente protesto e o nosso mais sublinhado repúdio pelas palavras que endereçou ao Senhor Deputado Paulo Rangel sobre as papas de farinha Maizena.
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Tenho, antes do mais, e sempre na qualidade de representante devidamente mandatado da AACFA33TT, de reprovar a citação a um produto dito alimentar originário dos EUA e proveniente de multinacional bem conhecida. É, por isso, e logo de início, que acentuo o espanto e a indignação nacionalista que me traz junto de V. Ex.ª.
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A Associação que me honro de representar pasmou perante a inconcebível afirmação de V. Ex.ª. Em meu (e nosso) entender teria tido muito mais cabimento a referência à Farinha Amparo, à Farinha 33 ou à farinha de Trigo Torrada, de produção portuguesa, de resto bem conhecidas dos nossos concidadãos e respondendo cabalmente aos seus gostos e paladares. E, sobretudo, fabricadas a partir do trigo.
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Ao arrepio dessa norma elementar (e alimentar), nunca V.Ex.ª se deveria ter referido a uma «coisa» resultante da farinação de milho, cereal nativo da América, aliás consumido originariamente pelos peles-vermelhas autóctones. Ainda por cima vermelhos, à semelhança dos energúmenos que insultaram e agrediram um outro candidato ao Parlamento Europeu. Atente V.Ex.ª nas conotações da supra-citada Maizena.
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Não falando já no que poderia indagar de V.Ex.ª sobre possíveis insinuações publicitárias subliminares – e num País em que se refere multi-quotidianamente o cancro da corrupção – politicamente foi um erro que lhe poderia custar bem caro, não fora o permanente apoio que lhe é dado solidariamente por Sua Excelência o Senhor Primeiro Ministro.
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Deixe-me que lhe diga, Excelência, que penso que o Chefe do Governo não terá nada a ver com publicidades encobertas, nomeadamente neste triste caso. A responsabilidade da afirmação é, creio, única e exclusivamente de V.Ex.ª E se vier a dar-se o caso do Partido Socialista vir a perder as Europeias? Será V.Ex.ª o principal causador do terramoto político? A ser assim, que lhe sucederá?
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Neste Portugal em que a culpa morre habitualmente solteira, muitas dúvidas tenho a tal respeito. E fundadas, estou certo. Oxalá isso não venha a acontecer, principalmente porque a AACFA33TT aguarda despacho de requerimento oportunamente apresentado para ser considerada ONG e, nestas coisas, mais vale prevenir atempadamente.
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Dou, repito, em nome da nossa Associação, conhecimento deste protesto/repúdio aos dignos representantes do PSD nesta lamentável ocorrência, ainda que os considere, de alguma forma, coniventes. É que não bastam os protestos de não se confundir o Executivo com o Partido. É necessário que tragam para a praça pública o desrespeito de V. Ex.ª da defesa intransigente dos produtos nacionais, especialmente num momento tão delicado como é este de uma crise tão grave. Felizmente que de origem mundial.
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Sem outro assunto
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(*) Naturalmente que a nossa Associação não engloba a Nestlé.
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sexta-feira, 8 de maio de 2009

Um Natal Ecuménico

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Por Maria Filomena Mónica
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ESTÁ O LEITOR A PAR do dia exacto em que nasceu o Menino Jesus? Se a sua resposta for afirmativa, provavelmente está enganado. A descrição da Natividade aparece, sem data, nos Evangelhos de S. Mateus e de S. Lucas. Até ao século IV D.C., em toda o mundo cristão, a festividade era celebrada na Epifania (6 de Janeiro) como ainda o é nos círculos ortodoxos. A data em que os portugueses celebram o Natal, 25 de Dezembro, deve-se ao desejo da Igreja Romana substituir um ritual devasso, as saturnais, festejado por esta altura. Por razões que a seguir explicarei, esta indefinição cronológica do Natal convém-me.
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Quando era menina e moça, só havia um Natal, o da Missa do Galo. À mesa, sentavam-se avós, tias e até primas afastadas. A minha mãe, que adorava a festa, costumava montar uma árvore gigantesca e um presépio sumptuoso. Hoje, o panorama alterou-se, não só devido à sua morte, mas à evolução da sociedade. Os casamentos deixaram de ser até à eternidade, o que levou a que os meus netos tenham não quatro, mas aí uma dezena de avós, lutando por os ter junto de si na noite da Consoada. Todos os anos me vejo aflita para conseguir obter um buraquinho no calendário. De tal forma se multiplicaram os festejos que eles mal dispõem de tempo para abrir os presentes que coloco debaixo da árvore tailandesa mandada vir do Canadá. A polémica sobre o dia aumentou não só porque o meu actual marido é do Porto - e legitimamente considera que a sua família também conta – mas por a minha filha ter um varão do seu segundo casamento.
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Depois de reflexão individual e de um debate com a descendência, optei por organizar, não um, mas dois Natais: os que adoptarem a tese de Sextus Julius Africanus, virão a 24 de Dezembro; os que preferirem seguir o costume instaurado em Constantinopla, fá-lo-ão a 6 de Janeiro. Pela primeira vez, vou celebrar um Natal ecuménico.
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Dezembro de 2007
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

No Reino do Absurdo - Passatempo com prémio

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Acabei de receber, enviado por um velho amigo, o texto que adiante se transcreve. A cena relatada passou-se há menos de uma semana, numa cidade portuguesa com pretensões a destino turístico de qualidade, e, dado o papel de destaque que as Taxas Moderadoras têm nesta história, merece ser 'comemorada' com mais um prémio da série «No Reino do Absurdo».

Os leitores são, pois, desafiados a comentar o acontecido, havendo um prémio para o melhor comentário afixado até às 20h da próxima 2ª-feira, 11 de Maio.

Ah!, terão preferência os que usarem uma (ou mais) das expressões que constituem os títulos dos livros disponíveis para prémio(s) e cujas capas aqui se mostram.
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NOTA: até 30m antes da hora limite, aceitam-se comentários enviados para sorumbatico@iol.pt
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«O episódio de polícia que vou relatar talvez não seja novidade para quem jogue ao boxe, mas, para um cidadão pacífico como eu, foi grande a surpresa com que acolhi os incidentes que me caíram em cima esta semana.
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Indo para casa a horas relativamente decentes, fui abordado e agredido por um homem que nunca tinha visto. Não foi nada de especial: apenas um murro bem dado que me deitou ao chão e que não cheguei a perceber porque foi aplicado.
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Embora não tivesse muito para contar, por certa ingenuidade cívica, achei que a polícia devia tomar conhecimento do sucedido e dirigi-me à esquadra. Estive longe de ser bem atendido e explicaram-me que não havia nada a fazer sem uma ida minha ao hospital. Sem mais a lamentar que os óculos tortos e a falta de sono, definitivamente, não precisava de cuidados médicos; preferia ir para casa do que enfrentar as urgências do hospital, mas, bem mandado, lá dei por mim num diálogo bilingue com o médico de serviço.
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Saí do hospital com duas facturas para pagar: uma taxa de €8,40 (para que eu me modere...) e um outra de €108 que, tal como o murro, não percebi porque é que foi aplicada, mas que doeu um bocadinho mais...
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Na próxima semana, terei de faltar ao emprego para prestar declarações e, quer-me parecer, ainda terei muito com que me entreter.
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As boas notícias são que, como o mês está no início, ainda tenho dinheiro na conta para levar mais uns sopapos...»
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NOTA: Os eventuais comentários deverão ser afixados no Sorumbático [aqui].

Farinha

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Por João Paulo Guerra
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Antes de mais um esclarecimento, o seu a seu dono: não foi Manuel Pinho o pioneiro da farinha de mistura com a política.
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FOI MARCELO REBELO DE SOUSA, em As Escolhas de Marcelo, RTP, 22 de Abril de 2007, disponível no YouTube, ao declarar que já se tinha percebido que determinado "canudo", muito badalado na época, era "uma licenciatura tipo Farinha Amparo". Portanto, "trigo limpo", agora coube então a vez ao ministro da Economia: numa tirada que vai certamente enfarinhar a política portuguesa por muitos e bons, Manuel Pinho disse de Paulo Rangel que "ainda tem que comer muita papa Maizena".
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A tirada do ministro veio lançar nova receita para a campanha das europeias: talvez não esclareça nada os eleitores mas com farinhas, papas e bolos se esclarecem os tolos. A Maizena, pelas reminiscências de infância que suscita, poderá contribuir para identificar os eleitores com os eleitos, desígnio sempre perseguido pela classe política. Acontece, porém, que o ministro introduziu na campanha um problema de concorrência e lealdade. É que se o ministro da Economia promove a Maizena, outros dos seus pares terão que vir a público, em acções de campanha, propagandeando a Milupa ou a Cerelac, a Nestlé ou a Nutriton, assim alardeando a isenção do Governo.
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A menos que os outros partidos, estimulados por este original modo de fazer política, decidam meter também as mãos na massa. Já estamos a ver os cartazes: "Vota Farinha 33 e comerás por 3"; "Com Farinha Predilecta, vota pela avó e pela neta"; "Com Farinha Pensal, mais Bloco Central".
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Manuel Pinho fez a sua original prestação eleitoral em Ponte de Lima, colocada no mapa da política por via do queijo. Agora chegou a rota da papa. Come a papa, eleitor, come a papa.
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«DE» de 7 de Maio de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Do livro de J. Paulo Guerra «Diz que é uma espécie de democracia»

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Os ausentes da indignação

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Por Baptista-Bastos
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EM DEZ ANOS, João Ubaldo Ribeiro foi duas vezes censurado, no nosso País, por um zeloso vigilante da moral. O grupo proprietário da cadeia de supermercados Jumbo, voltou a pôr, no seu Índex privado, A Casa dos Budas Ditosos, por sinal um belíssimo romance. Acusação: o livro "é um produto pornográfico". Ubaldo é baiano, escritor importante, viveu em Portugal, e já foi distinguido com o Prémio Camões, valha isso o que valer. Em condições outras, a extraordinária proibição suscitaria, entre os "intelectuais" portugueses, um alarido de protestos, de abaixo-assinados, de repulsa, e a comunicação social seria levada a transformar a vergonha em causa.
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Nada disso aconteceu. Os "intelectuais" portugueses andam tão exaustos de escrever livros maus, de participar em colóquios ridículos, debates patéticos, conferências inúteis no estrangeiro, que são indiferentes às minudências da solidariedade para com os seus camaradas. Neste caso, a João Ubaldo Ribeiro.
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Que abstrusos critérios levaram alguém do Jumbo a apontar à execração o romance do brasileiro? Que conceito de "pornografia" possui o pequeno Torquemada de supermercado? E de que extraordinário poder dispõe, que iluminada noção de valores contém, com que espírito superior foi bafejado para assim atirar pedras a uma obra literária editada em numerosos idiomas? E, sobretudo, quem é ele? Esse "ele" não tem nome, como aqueles blogues que insultam, injuriam, mentem, caluniam com absoluta impunidade. Esse alguém, misterioso e, certamente, crudelíssimo, de olho feroz e ânimo comprometido com as trevas, usa uma "agência de comunicação" para revelar as suas tristes decisões. Não dá a cara: é um esboço de pessoa, um ser vago, estéril, arfante de gozo como todo o censor que se preza.
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O romance foi proibido no supermercado e - insisto - que fizeram os nossos desenvoltos "intelectuais"? Limitaram-se ao silêncio que tem sido a capa da cobardia na qual se envolvem. Nelson de Matos, o editor, diz que tem recebido solidariedade de "gente grada". Ninguém sabe, ninguém viu, como se canta no samba. Essa "gente grada" também não tem nome? Protesta por sussurro? Telefona-se com cauta indignação e voz baixinha? Então, e a APE, e a SPA, também andam meio aladas?
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Ao longo dos últimos vinte anos temos assistido à mais vil das demissões daqueles que deveriam arriscar o ónus da sua pretendida importância. Habita, neste mutismo miseravelmente defensivo, uma viscosa e esgueirada indignidade. Claro que é uma imprudência, um perigo, um desafio alguém afrontar os poderes que se constituíram como as estruturas da sociedade. Porém, há ocasiões em que os "intelectuais" têm de estar à altura das circunstâncias - as próprias e as históricas.
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«DN» de 6 de Maio de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

terça-feira, 5 de maio de 2009


O prémio será atribuído a quem mais se tiver aproximado da resposta certa (pág. 275), havendo ainda um prémio-surpresa para quem mais se tiver afastado!
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Actualização (20h03m): os vencedores são, pois, Sofia (erro=2) e Vital Sassoon (erro=274)
Têm agora 48h para contactar sorumbatico@iol.pt
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Chama-se a atenção que o livro A Dança da Realidade é grande, pelo que o envelope em que seguirá pode não caber numa caixa-de-correio normal.
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Obrigado a todos(as)!

Vale a pena estudar matemática?

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Por Nuno Crato
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OS PROFESSORES DE MATEMÁTICA estão habituados a ouvir queixumes dos seus alunos. Um dos mais frequentes é o lamento de que para nada serve o que se está a aprender. O problema não é exclusivamente português, e talvez o que esteja em causa seja outra coisa. Um dos grandes divulgadores contemporâneos da matemática, o britânico Ian Stewart, descreveu a questão de maneira muito incisiva. «Comecei a observar que, habitualmente, quando as pessoas perguntam se algo é necessário, isso acontece porque não se sentem à vontade com o assunto, e têm esperanças de se poderem libertar da tarefa.»
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Estas palavras foram escritas nas Cartas a uma Jovem Matemática, um livro de 2006 que está traduzido pela Relógio D’Água. Nele, Stewart explica-se com a sua habitual energia: «Um estudante que saiba construir demonstrações nunca pergunta para que elas servem. Um estudante que consegue fazer multiplicações de cabeça enquanto faz o pino também nunca pergunta se o cálculo mental é necessário. Quem faz facilmente e com gosto uma determinada actividade não se questiona sobre o seu valor; o gosto é suficiente. Por isso, um estudante que pergunta para que servem as demonstrações está provavelmente com problemas em compreendê-las ou com dificuldade em construí-las.»
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Tudo isto, que é óbvio para qualquer professor experimentado, tem sido, no nosso país como noutros, fonte de confusões. Procuram-se explicações para as dificuldades dos alunos e tomam-se à letra o que são apenas lamentações e pretextos, para os transformar em justificações racionais. A aumentar a confusão, difundiram-se várias ideias pedagógicas antiquadas, inspiradas no que há mais de dois séculos escreveu Rousseau sobre a motivação, no que há século e meio escreveu Herbert Spencer sobre a adaptação do estudo às necessidades profissionais imediatas, e no que há quase cem anos William H. Kilpatrick escreveu sobre o ensino por projectos e a pretensa inutilidade do ensino abstracto.
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Uma teoria pedagógica mais recente, que não é mais que uma formulação moderna das ideias de Spencer, tem feito tudo para desvalorizar o conhecimento, dizendo que apenas interessa o saber em acção, o saber aplicado, as chamadas «competências». Tudo tem servido de pretexto para simplificar os conteúdos, simplificar os exames e simplificar a progressão nas carreiras. Com isso, as estatísticas podem melhorar, mas a realidade não.
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No decorrer de um roteiro da ciência dedicado à matemática, o bastonário da Ordem dos Engenheiros denunciou o facto de o exame de matemática não ser obrigatório para a entrada em quase metade dos cursos de engenharia existentes no país. O Presidente da República fez eco do alerta e o ministro Mariano Gago anunciou mudanças, tornando obrigatório o exame de matemática para cursos de Economia, Engenharia, Informática e Matemática. É uma medida muito positiva, que esperemos que não seja contrariada por uma ainda maior simplificação dos conteúdos e dos exames.
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A matemática é necessária por ser uma disciplina de base, que se tornou a linguagem da natureza e da acção sobre a natureza, a linguagem da ciência e do estudo da sociedade. A matemática é um corpo estruturado de conhecimentos e não uma colecção de truques de que se poderiam escolher apenas os que têm aplicabilidade imediata. Tal como o trabalhador leva consigo uma caixa de ferramentas, mesmo sabendo que nesse dia apenas irá precisar de uma meia dúzia de instrumentos, assim o que se estuda não pode ser limitado ao que se julga ser de utilidade imediata
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«Passeio Aleatório» - «Expresso de 30 de Abril de 2009
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domingo, 3 de maio de 2009

Terra de quem?

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Por Nuno Brederode Santos
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CONHECI-LHE O VIÇO,
o rubor natural e as formas generosas. Não de ser moça, pois bem mais moço era eu. Mas por respirar segurança, convicção, civilidade. Agora, que tão raramente a vejo, está magrinha. Parece que o mundo exterior a aperta e lhe traça, rente à pele, uma fronteira intransponível. Um mundo exterior povoado, não só por políticos, mas por todo o tipo de agentes de intervenção política. Um mundo que, dia após dia, a vai comprimindo mais. É a tolerância, mãe e filha de uma revolução que se fez libertadora e que tantos intolerantes acabam de celebrar. Uma criatura cultural e cívica que se conforma e vai minguando, a cada proclamação veemente de que o acto e a palavra do outro nos são “intoleráveis”. Não receio que se extinga. Desde logo, porque um dos seus mais firmes redutos defensivos está no próprio intolerante, que tem de a usar – e sempre a usa com largueza – para consigo mesmo. Depois, porque na intolerância habita o medo e a impotência: só não tolera quem não consegue impedir. Enfim, porque nem a pior tirania conseguiu a proeza de mergulhar tão fundo na alma de todos os homens. Mas, pese embora a tudo isto, é também certo que se vai tornando difícil aos que a prezam virem a merecer o epitáfio: “viveu entre intolerantes e nem assim conheceu o intolerável”. Porque a última legítima defesa da tolerância continua a residir em não tolerar a intolerância.
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Uma delegação partidária desloca-se ao local da cidade onde se encontra a direcção da maior central sindical portuguesa, no cumprimento da prática recorrente de apresentação de cumprimentos. Consumado o propósito, o seu responsável é atacado, verbal e fisicamente, por alguns manifestantes. O que os próximos dias vão trazer é a deliberada confusão do costume. O sofrimento em que os agressores se encontram. A culpa alheia na escolha da pessoa que encabeça a representação. Os sibilinos propósitos eleitorais da mesma. Etc. Tudo matérias em que devemos recusar liminarmente entrar. A questão é simples e simples devia ficar.
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Quem recebe, respeita. Porque responde pelo que vai na sua própria casa. Sobretudo se esta é emprestada, por se tratar de via pública da Lisboa de tantos mais. Se quem recebe não tem mão na sua própria casa, tenta prevenir eventuais desmandos (que se vão tornando habituais). Se, de todo, os não puder impedir, cabe-lhe uma reparação capaz junto dos ofendidos – representante e representado - o que necessariamente inclui a demonstração mínima de um esforço honesto para que tais factos se não possam repetir. Este dever deve ser cumprido de um modo que tranquilize a cidade, em cujo espaço comum (a via pública) a desordem ocorreu. E o país, cuja serenidade perturbou, para lhe assegurar o carácter anómalo, excepcional e irrepetível de acontecimentos similares.
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Estas obrigações são cívicas (e políticas, portanto). Das jurídicas não cuido aqui, porque para isso existem autoridades com competência específica e os media deram do facto testemunho. Para já não falar dos cidadãos que lá estavam, dos vizinhos à janela, dos imigrantes e dos turistas que passavam. O que importa aqui é não calar que os ofendidos são múltiplos e nenhum deles pode falar pelos outros. O cidadão agredido, o partido representado, a cidade cuja tranquilidade (e cujo espaço) foi perturbada, o país cujos sistema e valores foram postos em causa. E a palavra de reparação compete, antes de mais, a quem recebia e, mesmo que em espaço alheio, era o anfitrião. Porque lhe cabe assegurar as condições necessárias a que nada disto aconteça.
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É óbvio que um outro juízo popular se vai fazer (independentemente até de consequências, tão circunstanciais quanto incertas, nas urnas de um próximo voto – que é onde sempre reside o último juízo político). Pela notória razão de que vem sendo feito, à medida que tão desbragados “precedentes” se acumulam. E esse abraçará o círculo maior da ocorrência, pois levará todos e cada um a reflectirem sobre se querem uma cidade e um país onde possa campear o que politica, cultural e socialmente já tantas vezes recusámos: o incivil, o descortês e o anti-cívico.
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E, se tudo isto for piedoso, não faz mal. Também o sou quando quero.
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«DN» de 3 de Maio de 2009
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sábado, 2 de maio de 2009

Quem desenhou...?

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Primeiro de Maio engripado... e a política da chapada

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Por Antunes Ferreira
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FOI UM PRIMEIRO DE MAIO ENGRIPADO, um pouco por todo o Mundo. Aqui, neste País encantado, graças, penso, à intercessão do nosso recém-promovido São Nuno (ainda que sem grande entusiasmo da parte do Governo e, singularmente, do Povo) as coisas parecia que iam correr bem. O que infelizmente não aconteceu. Não por causa da gripe, mas sim pela justificação da política da chapada. Isto porque a já famosa gripe A – antes mexicana, ab initio porcina – ainda não atacava. Um caso, um apenas, motivava interrogação. Nestes preparos, nós, os Portugueses, somos uns privilegiados.
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Antes de tudo, temos um Condestável, especialista na trolha aos castellanos, já graduado em Beato, que subiu à corte celestial. Nada mais justo, nada mais salutar. Desde o Bulhões que não nos saía este euromilhões abençoado. Ainda que haja dois pastorinhos prestes a ocupar a poole position, o que se me afigura uma discriminação à irmã Lúcia. Porém, nestas passagens etéreas quem sou eu para comentar, que fui católico, mas curei-me?
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Muito se tem-se comentado por aí a ajuda que o neo-virtuoso recebeu do peixe frito. Mais precisamente do óleo utilizado pela Dona Guilhermina de Castelo de Ourém para a fritura do peixe, cujo nome não foi divulgado, quiçá por ser de menor idade. E da córnea afectada na ocorrência. Umas quantas bocas maldizentes atreveram-me mesmo a dizer que se tratava de glosa ao pela boca morre o peixe. Ingratos, provocadores e acintosos - sempre os houve e sempre os haverá.
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Recordo, neste contexto, a abnegada e piedosa mas determinada actuação do doutor Oliveira Baltazar (ou seria…?) que nos livrou da II Guerra Mundial. Acompanhado, permito-me sublinhar, pela Virgem de Fátima, o que não é, de modo nenhum, despiciendo. Já na Grande, os iconoclastas da I República não foram capazes de o fazer. Claro, até tinham suspeitado das aparições, para não dizer mesmo, negado. Ímpios.
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Não admira, portanto, este facto um tanto singular, de estarmos, pelo menos até hoje, imunes ao pandemónio da pandemia. Somos um Povo e um País singulares e tal como o nosso afilhado Brasil, abençoados por Deus e bonitos por natureza. E solidários no Carnaval, em que estamos por estas bandas em perene comemoração. E não se venha citar o pobretes mas alegretes. Somos o que somos – e pronto. Ponto.
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Esta praga quase mundial, por conseguinte, está a originar consequências impensáveis mas pertinentes. A produção de máscaras anti poluição e anti contaminação subiu em flecha, não havendo já gráfico que a aguente. Os empresários garantem mesmo que a gripe é a primeira medida conseguida e razoável contra a crise. Outras decorrências se puderam constatar, como é o caso do país dos mariachis.
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O puente do Primeiro de Maio correrá até terça-feira, para que o período alargado possa servir de tampão ao contágio e, portanto, à disseminação da doença. Manter-se em casa, durante esses dias é remédio que não se avia nas farmácias e, alem disso, mais barato. A população que saia à rua – e muita terá de ser e certamente foi – deve usar sempre a máscara. Nos países orientais, em que o apetrecho é de uso regular, as pessoas não se admiram. No México resignam-se, mas torcem o nariz.
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Pelos locais em que as comemorações do Dia do Trabalhador são habituais e interventivas, constatou-se que manifes maiores ou «menos grandes», por melhor organizadas que tenham sido, dificilmente venceram a gripe. A balança inclinou-se um tanto para o lado dos miasmas preocupantes. Pode dizer-se que entre o risco do contágio e a vontade dos que trabalham, as coisas penderam para os primeiros. Infelizmente.
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Entre nós, tocou-se outra música, porque era também outra a partitura. CGTP e UGT desfilaram nas ruas, o que é muito pouco vulgar no caso da sedeada na Rua de Buenos Aires. As intervenções centraram-se, nos respectivos comícios – como sempre, separados, tais como as marchas citadinas –, no desemprego e no seu combate. Os números são preocupantes.
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Se os compararmos com os que se registam aqui ao nosso lado, somos, novamente, uns quase felizardos. E mesmo no ranking dos países do euro, pasme-se, não ocupamos a nossa habitual e triste condição de sermos os primeiros… a contar do fim. Fraca consolação, mas, mesmo assim, é melhor que nada. Com o mal dos outros…
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Mas – malditos mas que não desarmam – eis que no Martim Moniz, Vital Moreira (que ali se deslocara para cumprimentar a Intersindical à frente de uma delegação do PS) foi vítima de impropérios, tentativas de agressão e alguma concretização delas. E, espanto dos espantos, perante a declaração dos socialistas de que lhes eram devidas desculpas, Manuel Carvalho da Silva, o longevo chefe máximo daquela Central Sindical, fez declarações.
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Eu vi e ouvi o que ele disse, frente à câmara da SIC. Não me contaram, podia ter acontecido, mas vi e ouvi, repito. Li, depois, que ele lamentara o ocorrido, o que não constatei da reportagem televisiva, mas falou de acto isolado de alguns trabalhadores «em sofrimento e no desemprego». E ainda afirmou que os políticos que estão na base de tais situações, deviam tomar cuidado para que coisas dessas não acontecessem.
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Os cabeças de lista às europeias do PPD e do CDS-PP condenaram o acontecido. Já Jerónimo de Sousa, pela sua parte, não quis fazer comentários «ao que não presenciara». São Tomé não teria dito melhor. Claro que, com tal fogueira, o PS veio responsabilizar a CGTP e o PCP pelo ódio que dirigem contra o partido e, por isso mesmo, pelo que acontecera. Achas e mais achas.
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Vitalino Canas, em conferência de Imprensa no largo do Rato, referiu que Carvalho da Silva «procurou desculpar agressões» e «insinuou que quem deve reflectir sobre estas agressões é o agredido e não o agressor», declarações que considerou serem «absolutamente lamentáveis».
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Ou seja, penso que no Primeiro de Maio à portuguesa, como antes escrevi, até houve a justificação da política da chapada. Não é mau, é péssimo.
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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Racismo e Liberdade de Expressão

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Por Maria Filomena Mónica
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A 29 DE NOVEMBRO [2007], os trinta e seis arguidos do processo skinheads foram pronunciados pela juíza de instrução criminal, a qual subscreveu a acusação deduzida pelo DIAP (Departamento de Investigação e Acção Penal). Aparentemente, estes jovens pertencem a uma organização de extrema-direita internacional, a Hammerskin Nation, tendo sido acusados de vários crimes, entre os quais o de «discriminação racial». A investigação, que esteve a cargo da DGCB (Direcção Geral de Combate ao Banditismo), terá focado «mecanismos de difusão e o teor das mensagem públicas com carácter racista, xenófobo e anti-semita» divulgados nos media, em concertos e em manifestações. Nas buscas domiciliárias, a PJ apreendeu armas, algumas de calibre proibido. Há ainda a acusação de terem sido praticadas agressões a movimentos anti-racistas.
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Este processo suscita questões complexas. Antes de continuar, vale a pena afirmar que me considero de esquerda, que odeio a violência e que sou ateia, o que me leva a desprezar o racismo, a homofobia e o fascismo. Dito isto, prezo as liberdades, entre as quais a de expressão. Estou a par do que estipulam os artigos 46º da Constituição Portuguesa e o 240º do Código Penal, ambos redigidos, na minha opinião, em termos demasiado imprecisos, interditando, no primeiro caso, «organizações (…) que perfilhem a ideologia fascista», o que me parece obsoleto.
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Reconheço que se obtivesse o poder, a extrema-direita me liquidaria, mas isso não altera a minha posição. Longamente criticámos a ditadura salazarista por não nos deixar exprimir o que pensávamos. Agora, deveríamos ser capazes, não de nos submeter, mas de conviver com ideias odiosas, lutando contra elas no campo ideológico: remetê-las para a clandestinidade só servirá para as fortalecer. Considero execráveis os energúmenos que, há alguns meses, desfilaram no Parque Eduardo VII. Não penso contudo que devam ser julgados pelas suas ideias, mas pelos seus actos.
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Dezembro de 2007
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quinta-feira, 30 de abril de 2009

Mas a EMEL não dorme!

Que se saiba, este foi o único carro multado nesta esquina...
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28 Abr 09 (junto à entrada do metro - Roma)
. 29 Abr 09 (traseiras do Centro Roma)
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Continuam a não chegar fotos, semelhantes a estas, mas que podem dar direito a almoços de lagosta no Gambrinus - ver [aqui]!!

Sem novidades de cá

Por Baptista Bastos
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A RTP1 RESOLVEU, anteontem, "pensar Portugal". É uma ideia comovente, tanto mais que o maciço conceito que lhe subjaz seria sugestivo, acaso, no nosso país, alguém pensasse no País. A política, aliás, porque de política se tratou, no programa de Fátima Campos Ferreira -, a política é uma actividade que sempre foi dirigida a um restrito número de homens. Nada de novo foi dito. Todos sabemos o lodaçal em que vamos sobrevivendo mas, ao que parece, ninguém sabe como nos vamos libertar.
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Foram repisados, com maior ou menor veemência, os problemas sufocantes, que estão a corroer o frágil edifício democrático português. E deveria, talvez, ser dito que a "importação da crise" resulta da natureza escabrosa do sistema, e de que a esquerda não encontrou, até agora, resposta para a superar, criando alternativas às que têm vigorado. A esquerda, essa que se diz "livre e democrática", não tem sido mais do que cúmplice e esteio do mais feroz capitalismo.
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A "credibilização das instituições", expressão utilizada por um dos convidados de Fátima Campos Ferreira, perdeu qualquer espécie de sentido. Há 30 anos que desfilam as mesmas caras, se ouvem as mesmas vozes, se lêem as mesmas frases com monótona aridez. O País é domado por um grupo sem prestígio mas com poder. Esperávamos um sistema, emergiu um domínio. A erupção do "bloco central de interesses" (ou seja: a divisão do bolo entre PS e PSD) assinala a degenerescência de Abril num atoleiro. Deixou de haver afinidades ideológicas e as convicções foram substituídas por uma cronologia contínua, destinada ao enriquecimento de alguns, e que encobre, afinal, as ausências de carácter e as trapalhadas das mudanças de partido.
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Os quatro presentes nos Prós e Contras são figuras com experiências próprias: Mário Soares, Anacoreta Correia, o reitor António Nóvoa e Leonor Beleza. Não percebi muito bem o que ali fazia aquela senhora. Mas isso não é relevante; talvez seja um equívoco. De todos, Soares foi o menos confuso em exprimir a sua actual cosmovisão política; Anacoreta, formal, cristão, exemplar, não ocultou a infinita tristeza que o percorre, ao discretear sobre o Portugal dos nossos dias; Nóvoa, talvez, o mais preocupado em denunciar o processo de mistificação em que vivemos; e Beleza, pessoalmente magoada com a justiça, contou umas historietas.
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De uma forma ou de outra foram graciosamente simpáticos. Os estudantes, na plateia, actuaram como possibilistas e admitiram, no todo, que a cultura dominante se baseava na repressão e na comédia dramática. A seguir, e agilmente, fui dormir, imbuído de limpidíssima serenidade.
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«DN» de 29 de Abril de 2009

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Dito & Feito

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Por José António Lima
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À MEDIDA que o ano 2009 avança, o retrato da crise em Portugal vai-se definindo com números cada dia mais negros: o desemprego pode atingir os 9,6% no final do ano e subir a 600 mil trabalhadores sem emprego em 2010, o défice público vai disparar para uns impensáveis e preocupantes 6% do PIB, arrasando o esforço de contenção dos últimos 4 ou 5 anos, a economia recua para menos 4,1% (Vítor Constâncio ainda tentou dourar a pílula, mas o FMI não deixou...).
E o Orçamento do Estado que o Governo aprovou para 2009 é já um exercício de pura ficção. O Executivo socialista previa no OE, por exemplo, uma quebra de receitas de 1,5 mil milhões de euros e já perdeu 955 milhões só nos primeiros três meses do ano. Apesar desse desajustamento, o ministro das Finanças acusa os que o criticam de «excitação e nervosismo», enquanto garante que a despesa e a receita no OE estão «perfeitamente controladas». Surrealista.
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MUHAMED al-Sahaf, lembram-se? O delirante ministro da Informação de Saddam Hussein que assegurava, à beira do desastre: «Posso dizer, e sou responsável pelo que estou a dizer, que os soldados americanos começam a suicidar-se às portas de Bagdade». Que garantia, em tom alucinado: «Têmo-los cercados nos seus tanques», «Já os repelimos», «Temos o controlo total da situação». E que, já a verem-se em cenário de fundo as tropas dos EUA nas ruas da capital iraquiana, jurava com o seu ar lunático: «Dou-vos triplamente a garantia de que não há soldados americanos em Bagdade».
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Teixeira dos Santos afiança, com idêntico autismo, que mantém o controlo total da execução do Orçamento. A cobrança de IRC cai 150 milhões de euros em três meses? As receitas do IVA desabam mais de 700 milhões aos pés do ministro? O imposto automóvel regista um desmoronamento de 25% e o imposto sobre combustíveis é amputado em 14%? O responsável das Finanças não se deixa perturbar e assevera: «No que respeita ao Governo, a receita fiscal também está controlada» e «não há qualquer derrapagem na receita, tendo em conta os estabilizadores automáticos». O extravagante ministro da Propaganda de Saddam não diria melhor.
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Houve, neste trimestre, um aumento da despesa de 54,4 milhões de euros (mais 13,8%) com os subsídios de desemprego? O ministro das Finanças não se sobressalta: «A despesa está perfeitamente controlada. O Governo está a gastar onde planeou gastar». A sério?
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Teixeira dos Santos está a converter-se, rapidamente, no Muhamed al-Sahaf da política portuguesa.
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«Sol» de 24 de Abril de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

terça-feira, 28 de abril de 2009

O homem útil e o génio

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Por Nuno Crato
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QUEM ESTEJA A APROVEITAR os eventos do Ano Internacional da Astronomia para observar o Sol em segurança terá notado que a nossa estrela se apresenta agora sem as famosas manchas escuras. Assim tem acontecido há já algum tempo. Em 2008, o Sol apresentou-se limpo 266 dos 366 dias desse ano. E, em 2009, o número total de dias limpos ultrapassa já 90, ou seja, cerca de 90% dos dias decorridos. É vulgar o Sol apresentar-se sem manchas. Mas não é habitual observar uma pausa tão prolongada. Desde 1913 que tal não acontecia.
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As manchas solares são tempestades magnéticas gigantescas que originam erupções de matéria, provocam aumentos bruscos do campo magnético e emitem uma radiação intensa, nomeadamente nos ultravioletas. As manchas são escuras, mas a actividade solar é mais intensa nos seus bordos, de forma que a radiação total libertada pelo Sol aumenta. O facto de registarmos neste momento um mínimo mais longo do que o normal significa pois que a radiação solar que nos atinge é menor, o que terá certamente efeitos no clima.
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Para observar manchas solares é preciso ter cuidados extremos. É perigosíssimo, podendo provocar a cegueira imediata, observar o Sol com binóculos ou telescópios. Só usando filtros profissionais essa observação é segura. O mais simples e prático é fazer a projecção de uma imagem do Sol sobre uma superfície branca — usando, por exemplo, um óculo invertido — e observar essa imagem. Existindo manchas, é fácil então detectá-las.
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Passada a emoção da sua descoberta por Galileu, as manchas solares tornaram-se uma curiosidade sem grande relevo para a astronomia. Mas, em 1844, Heinrich Schwabe, um farmacêutico alemão tornado astrónomo amador, notou uma regularidade: descobriu que as manchas aumentavam e diminuíam seguindo ciclos de cerca de 10 anos. O director do Observatório de Berna, Johann Rudolf Wolf, reparou na observação de Schwabe e meteu mãos ao estudo. Passou o resto da vida a contar as manchas solares, o que fez dia após dia sempre que as condições meteorológicas o permitiam. Recolheu observações dispersas do passado e inventou um método ainda hoje em uso para a medida das manchas. Iniciou a produção de uma série longa, que hoje continua a ser completada, e que revela as oscilações da actividade solar. Em 1852, mediu a periodicidade solar por um método elementar e encontrou um período de 11,11 anos.
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Uma vida dedicada a contar manchas pode parecer pouco para um cientista, mas conforme diria Wolf mais tarde, “sempre me consolei por saber que uma pessoa como eu, que não é um génio, pode tornar-se útil se escolher bem o objecto do seu trabalho e se o trabalho se talhar aos seus talentos”.
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Passados 62 anos, nos princípios do século XX, um jovem físico alemão estudou as observações deste homem útil e inventou um outro método para estimar a sua periodicidade. Baseou-se num instrumento matemático sofisticado: a chamada transformada de Fourier. Praticou pela primeira vez aquilo a que hoje se chama “análise de séries temporais no domínio frequência”.
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O jovem físico chamava-se Albert Einstein e o período que calculou para o ciclo solar foi também de 11,11 anos. Encontramo-nos apenas no fim de um desses ciclos. Sabemo-lo graças a um homem útil e a um homem de génio.

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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 25 de Abril de 2009 (adapt.). Imagem obtida [aqui]. Ver outras [aqui], [aqui] e [aqui].

NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.