quarta-feira, 10 de junho de 2009

Os mesmos à mesa

Por Baptista-Bastos

"OS RESULTADOS estão muito aquém das nossas expectativas. São decepcionantes", disse Sócrates, rosto compacto e voz pesada. Já suspeitava de que o primeiro-ministro tem vivido num universo plano, no qual é inexistente a espessura das coisas e a evidência dos factos. A prova forneceu-a ele próprio, com a taciturna confissão. Que esperava da sua rude teimosia, da sua obtusa empáfia, ele, mais propenso às volúpias do mando do que às obediências da ideologia?

Sócrates perdeu para quem? A admitir, como júbilo, a selvagem alegria de Paulo Rangel, e como declaração de impostos a fúnebre catadura de Vital, Sócrates perdeu para toda a gente. Mas o PSD vence quem? O PS e o Governo? Se a verdade enriquece mais do que a reticência, o Bloco Central sai incólume deste imbróglio. O Bloco Central é uma instância de poder, desprovida de convicções, e, sobretudo, destinada a distribuir empregos. O PS não é "socialista" (creio que nunca o foi) e o PSD foge espavorido da "social-democracia".

É verdade que o Bloco subiu, o PCP aumentou o número de votantes, e o CDS sacudiu a letargia com a qual desejavam amortalhá-lo. Mas as coisas estão rigorosamente na mesma: elementares e antigas. A mesa está posta para os mesmos. E não é preciso restaurar a frase de Lampedusa; basta reler, por exemplo, o "Portugal Contemporâneo", do Oliveira Martins, para se entender quem manda e sempre aqui mandou.

Paulo Rangel saiu-se menos-mal de uma contenda de mediocridades. No PSD é olhado de viés. O baronato acha-o levemente patusco e um pouco ridículo. Pelejou sozinho, ou quase, contra desdéns e omissões. Ao contrário do que afirma o cada vez mais enfatuado e fatigante Pacheco Pereira, o candidato do PSD não seguiu a "estratégia" da dr.ª Manuela, pela simples razão de que essa "estratégia" não existe. A vitória nestas eleições cabe, por inteiro, a Paulo Rangel, o qual atribuiu a si próprio a defesa de um castelo cercado, cujos paladinos haviam debandado. Que fazer com esta vitória? Os senhores do PSD começaram, já, a assenhorear-se de uma glória que lhes não pertence; Rangel vai para Bruxelas mas, antes, será crestado em fogo brando; e, com maior ou menor fortuna, passada a increpação nervosa do momento, a dr.ª Manuela continuará alvo de conspirações e objecto de pequenas deslealdades. É o PSD, tal o caracterizou Sá Carneiro.

Em todo o caso, acentua-se a decadência do PS, esse projecto sem projecto, esse "socialismo" desacreditado e desacreditante. Mas poderá José Sócrates inverter a tendência para o abismo? Fará pequenos remendos como um remorso sobressaltado. Apenas isso. Nada de substancial que sacuda a leve rotina das coisas

«DN» de 10 de Junho de 2009. Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Passatempo-relâmpago de 8 Jun 09 - Solução

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DURANTE uma batalha, há um visconde que é atingido por um tiro de canhão e literalmente rachado de meio-a-meio. Um habilidoso cirurgião consegue, no entanto, pegar em metade dele e pô-lo a fazer uma vida quase normal.
O homem, porém, é "mau como as cobras", e por onde passa só faz maldades.
A certa altura, há uma grande confusão lá na terra, pois, aparentemente, ele transforma-se num poço de bondade - ou é, alternadamente, uma coisa e outra!
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Vem-se a saber, lá para o fim da história, que o que sucedeu foi que a outra metade tinha também sido recuperada, pelo que havia, a certa altura, um meio-visconde bom, e outro meio-visconde mau.

Por fim (e essa é a "moralidade" da história) a metade esquerda e a direita encontram-se, coligam-se, e dão origem a uma pessoa normal.
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Pode achar-se que a metáfora foi um pouco forçada para fazer este passatempo.
Mas não faz mal. Serviu, pelo menos, para falarmos de bons livros - e o prémio O Barão Trepador vai para 'Nunormg', que deu a resposta O Visconde Cortado ao Meio.
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Já agora: O Cavaleiro Inexistente, O Barão Trepador e O Visconde Cortado ao Meio formam uma trilogia deliciosa.

Clive Granger: matemático, estatístico, Nobel

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Por Nuno Crato

FALECEU a semana passada em San Diego, na Califórnia, uma das pessoas mais brilhantes mas também mais tranquilas e simples que tive o privilégio de conhecer. Nascera no País de Gales em 1934 e começara por estudar matemática em Nottingham, onde se veio a doutorar na área de séries temporais. Tinha então 25 anos e logo partiu para Princeton, onde trabalhou com o matemático John Tukey e com o economista Oskar Morgenstern, co-fundador da teoria matemática dos jogos.

Em Princeton, Granger aplicou a séries económicas a chamada análise espectral, originada em matemática pura e em física-matemática pelo francês Jean Baptiste Fourier. Desenvolveu uma abordagem diferente para dados económicos, fazendo a sua decomposição em ciclos sobrepostos. Pela mesma altura, notando a dificuldade em tirar conclusões sobre as influências recíprocas de variáveis em evolução, definiu um teste simples para o que veio a ser chamado “causalidade à Granger”. Imagine-se, por exemplo, uma empresa com vendas que crescem ao longo dos anos e com despesas em publicidade também crescentes. Será que é a publicidade que causa o aumento das vendas ou que são as receitas que incrementam a publicidade?

O teste de Granger é de uma simplicidade desarmante. Como diria em 1997 numa entrevista ao Expresso, «A minha definição é operacional. Não falo em termos de causa e efeito absolutos, mas baseio-me em dois postulados muito fortes. Primeiro, a causa aparece antes do efeito; segundo, a causa contém uma informação prévia sobre o efeito que nenhuma outra variável possui. Quer isto dizer que a definição de causalidade que perfilho é passível de teste, através da comparação de previsões.»

Não seria essa a única entrevista deste investigador ao Expresso. A segunda correu em Janeiro deste ano, quando esteve em Portugal pela segunda vez, de novo a convite do centro de investigação Cemapre, do ISEG. Nessa altura, já Clive Granger tinha recebido o Nobel de Economia de 2003, em conjunto com o norte-americano Rob Engle. Para trás tinha décadas de descobertas criativas que marcaram a estatística, a econometria e a análise dos mercados financeiros. Clive Granger foi um dos dois ou três matemáticos aplicados que mais influenciaram o estudo quantitativo da economia. Como gostava de dizer, como que a desculpar-se, «sempre quis utilizar a matemática para ser útil».
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 5 de Junho de 2009. Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
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NOTA (CMR): na foto, um pouco atrás do laureado, pode ver-se... o nosso Nuno Crato!

domingo, 7 de junho de 2009

Votações - A "Contagem de Borda"





Do livro «O Mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias», de Jorge Buescu, Ed. Gradiva

sábado, 6 de junho de 2009

Av. Almirante Reis
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Rua Morais Soares
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Em nenhum destes prédios de Lisboa se vê roupa a secar à janela. O motivo é simples: os estendais são para as traseiras...
Ah!, e também não têm marquises de alumínio.

Rua Frei Amador Arrais, 6 Jun 09, sábado, pelas 14h

«Por onde é que vamos passar?»
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Sai um jipe, entra um carro.
Ainda bem, pois sempre é mais pequeno...
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... e ainda se arranja lugar, ali ao pé, para outro jipe (que, por sinal, vai impedir a saída do carro que está por detrás, em cima do passeio...)
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Há quem garanta que acabar com isto era a «Promessa N.º 9» de António Costa. Ou essa era acabar com o estacionamento em cima dos passeios?
Deixá-lo!, já nem ele deve saber!

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A partir das 14h de sábado, a EMEL, como já não pode cobrar, desaparece de vista. Até aí, tudo bem (mesmo sabendo-se que, nas outras alturas, também não toca nesta gente...).
Mas onde estão os agentes da Polícia Municipal e os seiscentos-e-tal da D. T. da PSP?!

Estarei enganado, ou nós pagamos o ordenado a todas essas pessoas para evitarem estas coisas?
Enfim, vamos fartar-nos de rir quando, em Outubro, António Costa e Santana Lopes nos vierem pedir o votinho!

Solução do Passatempo-relâmpago de 6 Jun 09, no 'Sorumbático'

Domingo à mesa


Por Alice Vieira

NO DOMINGO PASSADO fui com as minhas crianças ao Jardim Zoológico. Acho que a última vez que lá entrei ainda havia um professor (“de cor”, como me lembro de então ouvir dizer às minha tias) que ensinava a miudagem toda a andar de patins.

Estava um calor de torrar as meninges, e a fila para a bilheteira tinha mais de um quilómetro. Estive quase tentada a propor que desandássemos dali e fôssemos apanhar sol para o Fun Center do Colombo — quando me apercebi de que a fila avançava vertiginosamente. Em menos de um quarto de hora estávamos todos lá dentro, a louvar a simpatia da menina que nos calhara no guichet e que, mesmo no meio daquela multidão, e a escorrer suor, coitadinha, ainda tinha conseguido sorrir, e lançar uma piada a um dos meus netos, que levava uma t-shirt a dizer “Benfica, minha vida!”

Estávamos, por isso, muito bem dispostos.

E bem dispostos continuámos na visita guiada dentro do minúsculo comboio, com a guia a contar tudo por palavras que as crianças entendiam. E no teleférico, e no reptilário, e nessas atracções todas.

Até que — como era fatal…- deu a fome ao pessoal menor. Dissemos adeus aos bichos, prometemos voltar e apadrinhar um deles, e saímos para o recinto público dos restaurantes. Entrámos no maior e quase vazio, e imediatamente encomendámos o almoço, prato do dia para não demorar. Meia hora depois, sem comida à vista, perguntámos se, pelo menos, não teríamos direito a pão. Deram-nos um minúsculo cesto com duas carcaças — o que, para seis pessoas, nem mesmo a crise justificaria… Mais meia hora depois, enquanto um solícito fotógrafo nos tirava a fotografia da praxe, (e eu já tinha ido buscar mais pão) perguntámos pelas bebidas, e elas lá vieram.

Da comida, nem rasto.

De cada vez que alguém passava, eu perguntava o que tinha acontecido mas todos viravam as costas e desandavam. Quando faltavam dez minutos para se completarem as duas horas de espera (o fotógrafo já tinha vindo com os negativos, já tínhamos escolhido, pago e recebido a foto), bati as palmas e disse: pessoal, vamos embora!

E fomos mesmo.

“Sem pagar o pão, nem a manteiga nem as cocacolas?”, riam as crianças. “Era o que mais faltava!”, ria eu em resposta, explicando o mais pedagogicamente que me era possível, que tudo se teria resolvido com uma explicação, mas nunca com o virar de costas como resposta.

O Zoo não tem nada a ver com isto, mas é pena: poderia emprestar a empregada que na bilheteira aguenta, horas e horas, com a avalanche dos visitantes e com o calor sem perder o sorriso e a paciência - para dar umas liçõezitas de profissionalismo a quem, pelos vistos, dele está tão necessitado.

«JN» de 6 de Junho de 2009
NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

A verdadeira amizade - Passatempo-relâmpago

NO PASSATEMPO do Sorumbático em que os leitores são desafiados a adivinhar os títulos completos destes dois livros, a leitora Manuela respondeu «Coração Frágil» e «Marcelino Calhau».
Em relação a este, não há qualquer dúvida; em relação àquele, passa-se uma coisa curiosa:
O conto existe, em tradução portuguesa, com o nome que a leitora referiu.
No entanto, nesta edição que aqui se mostra, há uma pequena diferença...
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Resumindo e concluindo:

1 - Pede-se a Manuela que, nas próximas 24h, escreva para sorumbatico@iol.pt indicando morada para receber o prémio - que acho que merece.

2 - Um segundo exemplar do livro de Dostoievki será enviado ao primeiro leitor que indicar a palavra que esta editora (a "quasi") adoptou. Pede-se a Manuela que se abstenha de participar nesta 2ª fase, pois o prémio, se o ganhasse, seria repetido...
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Actualização (13h33m): a resposta certa já foi dada, pelo que o passatempo terminou. A palavra usada por esta editora (e que aqui se encontra tapada) é "débil".

quinta-feira, 4 de junho de 2009

O Testamento Vital


Por Maria Filomena Mónica

NA ECONOMIA COMO NA CULTURA, a Espanha está uns cinco séculos à nossa frente. No 37.º Congresso do PSOE, o qual teve lugar no princípio deste mês, [Jan 2008] discutiram-se os problemas éticos relacionados com a vida e a morte. Naquele país, o testamento vital, a sedação terminal e a recusa de tratamento são legais. A «Lei da Autonomia do Paciente», de 2002, que recebeu a aprovação da direita, permite a qualquer doente tomar sobre si decisões que, até então, eram deixadas nas mãos dos médicos. Portugal deveria começar a debater estes problemas.

Em 2005, decidi redigir um testamento vital. Algumas das decisões que se tinham revelado necessárias aquando da doença da minha mãe, e o caso, noticiado na altura, de Terri Shciavo (a americana cujo marido, embora ela nada tivesse deixado escrito, optara por a deixar morrer) determinaram-me a não adiar o projecto. Eis, ipsis verbis, o que escrevi: «Se ficar paralisada totalmente, se ocorrer uma situação em que os médicos só me possam manter viva através de alimentação por via gastro-nasal ou do estômago, se sofrer de uma doença incurável e estiver em sofrimento, se a minha vida se tornar vegetativa, isto é, sem possibilidade de voltar a recuperar o meu estatuto de ser humano, racional e detentora de memória, não quero que a prolonguem». Há tempos, numa entrevista ao Diário de Notícias (17.1.2008), o Presidente da Associação Portuguesa de Bioética pronunciou-se sobre as linhas orientadoras relativas à suspensão de tratamento em doentes terminais. Uma das suas afirmações – a de que se deveria tentar «alguma convergência com a família» - deixou-me inquieta. A decisão de morrer com dignidade é um gesto individual e, como tal, deve ser respeitado.

A morte é, ou era, a coisa mais natural do mundo. Mais do que o fim temo o que as tecnologias clínicas me podem fazer. O problema é, reconheço-o, complicado. De qualquer forma, aqueles que, como eu, pretendem escolher não podem ser impedidos de o fazer devido ao receio do Estado em enfrentar o lobby «pró vida». Não esqueçamos que, ao lado da cristã, existem tradições igualmente respeitáveis, como a estóica.

Janeiro de 2008
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

Nas próximas eleições, não se esqueçam de votar em quem permite isto! (*)

Esta rua, a Frei Amador Arrais, é de sentido único, da direita para a esquerda - quem diria?!
No canto inferior direito, assinalada com um raminho, vê-se uma caixa-de-visita da EPAL, devidamente destruída.

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«Qual destes dois foi multado?»:
Resposta: o
Smart - «evidentemente!», acrescentará quem conhece o local.
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A IDEIA deste passatempo foi reforçar, com uma foto fresquinha, o que já se sabe que sucede nesta famigerada esquina da Av. de Roma com a Rua Frei Amador Arrais, em Lisboa:
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Os veículos estacionados em cima deste passeio nunca - mas ABSOLUTAMENTE NUNCA! - são verdadeiramente incomodados (muito menos bloqueados ou rebocados), nem mesmo os jipes, carrinhas e camionetas que, de caminho e à vista de todos, aproveitam para dar cabo do pavimento (ver a vergonhosa sequência da recente destruição de uma caixa-de-visita da EPAL aqui).
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Seja qual for o motivo para isso, o certo é que já há mais de 13 meses que decorrem os fabulosos os Prémios António Costa (um deles é alusivo a este mistério, e dá direito a um almoço de lagosta no Gambrinus!) mas até à data nunca foi - sequer - reclamado um único!
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(*) - O título deste post justifica-se porque estas situações só são possíveis devido a um concentrado de incúria diluída em incompetência de alguns eleitos:
Desde a Junta de Freguesia (que podia colocar ali 1 ou 2 pilaretes e não o faz), até ao MAI (com a sua PSP, que tem mais de 600 agentes afectos ao trânsito mas que ninguém vê por ali), passando pela CML (com a sua Polícia Municipal e a sua EMEL), todos eles, por omissão, contribuem para o caos o melhor que sabem.

Vermiosa, Paróquia Excomungada

Por C. Barroco Esperança

A VERMIOSA É UMA POVOAÇÃO na periferia do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, freguesia a que se segue a de Malpartida, já no município de Almeida.

As pessoas sempre aí trataram a fé e a terra com esmero, afeitas a cuidar da alma e do corpo, da devoção cristã e do amanho da terra, encontrando no vinho o mais rentável dos produtos com que o húmus generoso fez a aldeia farta antes da crise que arruinou a lavoura, fez abalar os jovens e transformou a povoação em reserva da terceira idade.

Durante anos o padre José Joaquim Coelho, que paroquiava a aldeia, ganhou a simpatia local e a das paróquias de Mata de Lobos, Almofala e Escarigo, onde também exercia o múnus, porque a escassez de vocações adicionou freguesias ao cuidado de um só pastor.

Uma súbita decisão do bispo da Guarda afastou o padre das paróquias onde era querido e despachou-o para Penamacor, sentença sem apelo a que os sacerdotes se submetem na ordenação. O serviço de Deus promove a sujeição ao arbítrio do bispo, mas o povo tem da vontade divina concepções próprias e da inviolabilidade episcopal uma leve ideia.

Os paroquianos elegeram a comissão que pediu audiência ao bispo e obteve uma recusa, primeiro, e uma recepção descortês, depois, onde o prelado lhe fez saber que não devia explicações. As pessoas desoladas com a saída do padre que ia à caça e à pesca com os fregueses, gestos que os simples preferem às homilias, afectos que tocam mais fundo do que o martírio de Deus, sentiram revolta e raiva pela ofensa. Sofriam o exílio do padre José Joaquim e o bispo Manuel Felício feriu sentimentos, achando que a mitra, o báculo e o anelão o exoneravam de explicações.

No dia 18 de Setembro do ano da graça de 2005, para aquietar os ânimos, o bispo foi dizer missa a Almofala e à Vermiosa, acolitado pelo arcipreste de Figueira de Castelo Rodrigo, António Espinha Monteiro, nado na Vermiosa, e pelo padre Vítor, acólito do arcipreste.

Começou em Almofala onde o povo o recebeu em silêncio, como combinado nas quatro paróquias pelos órfãos do padre José Joaquim, uma manifestação de mágoa pela saída do sacerdote e pela descortesia com que recebeu a delegação das paróquias. Os clérigos que escoltavam o bispo quiseram evitar outra recepção igual e, para lhe fazerem a festa, recrutaram beatos em Figueira a troco de indulgências ou de facilidades no Paraíso para os acompanharem à Vermiosa e contagiarem a paróquia.

A esperteza pia acirrou os paroquianos da maior e mais inconformada das aldeias. Em vez do silêncio combinado, o prelado entrou na igreja matriz seguido de impropérios, insultos e vaias, com linguagem que o cronista, por pudor, se abstém de reproduzir.

Na igreja matriz começou a missa com os fiéis que entraram e, no adro, agitavam-se outros com os que vieram de Almofala, sendo precisa a GNR para os acalmar enquanto desapareciam os apoiantes vindos de Figueira de Castelo Rodrigo. Na igreja, o bispo era impedido de dizer a missa e, em vez dos canónicos améns, os paroquianos reincidiram nos insultos e vaias que o faziam elevar os olhos para o céu e implorar amiudadas vezes «pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem», antes de desistir e de se refugiar no carro que o pôs a salvo após deixar o solidéu nas mãos de quem gostaria de o escalpar e levando consigo o sacrário da igreja matriz e os clérigos que o acolitaram.

Do carro, já em grande velocidade, o padre Vítor, sentindo-se a salvo, fez para o povo que insultava o bispo as armas de S. Francisco, expressão que por essas bandas designa o gesto com que Rafael Bordalo Pinheiro imortalizou o Zé Povinho. A senhora que zelava o altar entrou em aflição e foi parar ao hospital da Guarda. O arcipreste viria a escrever um artigo em que censurava os conterrâneos e exaltava o bispo. Este, porque o “pai” não tivesse perdoado a injúria de que ele, bispo, foi vítima ou porque admitiu que o povo soube o que fez, excomungou a paróquia da Vermiosa, privando-a de ministro do culto, sacramentos e qualquer acto religioso.

A gente da Vermiosa tem traquejo em decepções pias. Há muitos anos uma paroquiana a quem o Dr. Montezuma de Carvalho, de Coimbra, tinha restituído a saúde com a ajuda de orações a Santa Filomena, ofertou a tempo, antes de se finar, sã, a imagem da santa com quem repartia a fé no Dr. Montezuma. Foi colocada na capela do Divino Senhor Santo Cristo a ladear o Cristo crucificado do lado oposto ao de Nossa Senhora da Silva mas quando esta e o seu divino filho vão em procissão, todos os anos, Santa Filomena, após a humilhação da despromoção papal, permanece só. Não mais teve direito a andor, preces, esmolas ou outras manifestações piedosas.

Mas uma coisa é perder uma santa, embora com prestígio no ramo dos milagres, e outra é a ausência da assistência espiritual, a falha da água benta na cova que recebe o féretro, a privação da eucaristia aos devotos e a falta dos santos óleos a um moribundo ávido da extrema-unção.

Com o andar do tempo foram-se atenuando as razões da excomunhão e a raiva do bispo. Este esqueceu os insultos e as palavras que os castos ouvidos não terão entendido bem, solidéus há muitos, e na Páscoa de 2006 D. Manuel Felício deu por finda a expiação. Foi duro o tempo em que o diácono que supriu o padre era forçado a viajar com o cálice a caminho da Guarda para recolher na alfaia partículas consagradas e as levar de volta.

Hoje, a fé e a saudade do padre José Joaquim Coelho continuam vivas, ainda não passou um lustro, as pessoas é que são menos e agora vem de Espanha o padre. Os dramas de uma região que vai morrendo não têm cronistas, não interessam às gazetas, não lhes dá guarida a agência Ecclésia ou a Rádio Renascença.

Por isso fui ouvir a gente e avaliar a experiência amarga desprezada por réprobos, que hilaria os urbanos e enxofrou o bispo da Guarda. São gritos de alma que não encontram eco, lágrimas de revolta que não secam, mágoas que acompanham à cova.

NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Esta democracia é uma miséria

Por Baptista-Bastos

NÃO GOSTO DESTA democracia. Uma democracia que sobrevive através de subterfúgios, que se não preveniu contra as desigualdades sociais, antes as estimula, autoriza-nos a combatê-la sem tréguas, como imperativo de consciência e necessidade histórica. Desejava-a equânime, fortemente representativa, sem a moral indecisa e sem a implícita conspiração de uma classe que me repugna e se julga acima do mal e do bem. A democracia não é isto que a violência simbólica tem promovido, e a ausência de debate tem consolidado.

O discurso político é inassimilável, embora seja definível pelos traços essenciais das semelhanças de uns com os outros. Esse discurso apropriou-se, sobretudo, do lugar-comum, fruto de antigas e cediças tradições. Nada do que dizem Ilda Figueiredo, Miguel Portas, Paulo Rangel, Vital Moreira ou Nuno Melo suscita a mais escassa emoção ou o mais módico entusiasmo. O pessoal a quem se dirigem não os conhece, ou mediocremente dá por eles. A nitidez crescente desta ignorância popular faz dos "políticos" algo de criminosos, porque a eles cumpre não só esclarecer como evitar o declínio acentuado da democracia e a degenerescência de um regime que têm de ocupar o espaço mais amplo de definição.

Esta democracia é uma desgraça. E os protagonistas são pessoas inadequadas à construção da sua desejável e inequívoca grandeza. O que dizem reactiva, permanentemente, a colonização das mentes, porque o que dizem é baseado em velhos conceitos de exclusão do "outro". Esta democracia reflecte a debilidade de convicções morais de quem dela se diz paladino. O que por aí se vê de corrupção, de mentira, de fraqueza dos mecanismos institucionais, de hipocrisia, de inquietação social, resulta das enormes variações de carácter e de ideologia daqueles que abandonaram a defesa das específicas identidades partidárias.

O desfile de nulidades e de apparatchiks de que as televisões são palco constitui a afirmação de um tribalismo generalizado, que não comporta a esperança mas a resignação. Esta democracia é uma desgraça porque espicaça o desprezo, alimenta o ressentimento, incrementa o rancor e não conseguiu, em 35 anos, extirpar os odiosos fantasmas do racismo e da xenofobia.

Tudo isto é muito mau: a mediocridade dos dirigentes; a incultura e a ignorância dos quadros intermédios; o culto da competitividade como modo e forma de triunfo; o apagamento da cidadania; a liturgia do dinheiro como expressão única de ascensão. A natureza profunda do envilecimento do regime encontra-se na péssima qualidade dos seus dirigentes. Esta democracia é uma miséria. Mas é minha. Também eu a construí. Lá estarei a votar.

«DN» de 3 de Junho de 2009

NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O inventor de Monte Carlo

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Por Nuno Crato
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IMAGINE O LEITOR que tem uma folha de papel com um recorte estranho. Em vez de ser rectangular, como costume, a folha tem uns contornos sinuosos, de forma que é difícil saber qual a sua área. Se a pretender calcular terá dificuldades — mesmo que seja um bom matemático, mesmo que consiga desenhar bem o contorno da folha e exprimi-lo rigorosamente como uma função matemática, pode estar metido em grandes trabalhos.
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Pode tentar um meio de cálculo aproximado, um pouco tosco, um pouco à engenheiro, como diriam alguns matemáticos puros. Comece por colocar a folha de papel no chão. Coloque ao lado uma folha de papel A4, que tem como área 1/16 do metro quadrado. Salpique agora com tinta, ao acaso, mas tão uniformemente quanto possível, as folhas e o chão em redor. Conte depois o número de pingos que caíram em cada uma das folhas e faça uma proporção. Se, por exemplo, a folha de recorte estranho tiver metade do número de pingos dos da folha A4 isso quererá dizer que ela deve ter, aproximadamente, metade da sua área.
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Pois este método de cálculo de áreas (ou, em matemática, cálculo de integrais) não foi desenvolvido por nenhum engenheiro, mas sim por um dos matemáticos de alma mais abstracta do século XX. Chamava-se Stanislaw Ulam, tinha nascido na Polónia, e emigrara para os Estados Unidos, onde trabalhara no projecto Manhattan, que construíra a bomba atómica. Em 1946, quando convalescia de uma doença grave, teve a ideia de recorrer ao acaso para fazer cálculos que, de outra maneira, seriam muito complexos ou mesmo impossíveis. Aos métodos que inventou veio a chamar-se «métodos de Monte Carlo», em óbvia referência à capital da sorte.
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Na sua autobiografia, Ulam explica como tudo aconteceu. «A ideia para o que mais tarde se chamou método de Monte Carlo ocorreu-me quando estava a jogar solitária durante a minha doença. Reparei que podia ser muito mais prático deitar as cartas, para avaliar a probabilidade de sucesso num jogo de solitária (…), ou fazer experiências do processo e simplesmente tomar nota do número de sucessos, em vez de tentar calcular todas as probabilidades combinatórias». Dias depois, Stan Ulam conversou com o seu amigo John von Neumann, o matemático mais versátil da época, e os dois pensaram em formas de desenvolver este método de cálculo aproximado. Adaptaram-no a um problema muito complexo, que era a difusão de neutrões numa reacção de fissão nuclear. Os computadores digitais, que tinham acabado de estar disponíveis para a investigação, tornaram possíveis os cálculos. «Uma característica do método de Monte Carlo é que nunca fornece uma solução exacta», explicou Ulam, «mas fornece estimativas dos valores procurados».
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São palavras curiosas na boca de um matemático puro, um homem que, quando se juntou ao esforço de guerra, se ria de si próprio dizendo que «agora, até faço cálculos com números».
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Ao longo de uma vida dedicada à matemática, Ulam deixou um legado extenso em áreas puras, como a topologia e a análise funcional. As suas criações mais conhecidas, contudo, são eminentemente práticas. Uma é o método de Monte Carlo. Outra é a formulação matemática que obteve para a fissão nuclear e que permitiu a construção da chamada «bomba H».
Stanislaw Ulam nasceu há cem anos, em 1909, em Lwow, na Polónia.

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 30 de Maio de 2009
NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

Passatempo 'Dia Mundial da Criança' - Solução


Se não me enganei nas contas (mas agradeço que confiram), o resultado é o seguinte:

1.º - Susana .. erro = 5 gramas (receberá o livro de Alice Vieira)
2.º - Carluz .. erro = 14 gramas (indicar qual o livro que pretende, de entre os que estão na balança)
3.º - 'Mg' .. erro = 15 gramas (idem, indicar 2, por ordem decrescente de interesse).
4.º - Moralitos ebic .. erro = 32 gramas (idem, indicar 2 ou 3, por ordem decrescente de interesse).
5.º - Joana Luz .. erro = 58 gramas (idem, indicar 3 ou 4, por ordem decrescente de interesse).

Caso se confirme, pede-se aos concorrentes que, nas próximas 24h, escrevam para sorumbatico@iol.pt indicando morada para envio.

ATENÇÃO: além das moradas para onde os livros deverão ser enviados, será necessário indicar os nomes dos/as jovens a quem eles se destinam (para figurarem nas dedicatórias).
Quanto ao 1.º prémio: atenção ao seu tamanho (23cmx31cm). Terá de seguir num envelope dos maiores, que pode não caber numa caixa-de-correio normal.
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Correcção (2 Jun 09/14h15m): já depois de enviados os 5 prémios, descobriu-se um erro: o 5.º lugar pertence a CNS (com erro = 52 gramas), descendo Joana Luz para 6.º. Assim, o número de prémios foi acrescido de uma unidade...

Um exemplo a seguir





Estação da CP do Pinhão - Douro
Páscoa de 2009
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Esta estação, além de ter as funções para que foi feita, tem ainda uma simpática loja de venda de produtos da região - com destaque para os vinhos, naturalmente.

sábado, 30 de maio de 2009


sexta-feira, 29 de maio de 2009

Provador – ou provador?

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Por Antunes Ferreira

QUE RAIO DE PALHAÇADA é esta? Depois, venham queixar-se. Quem? Os partidos políticos que tentam jogar desesperadamente na Assembleia da República o tema do Provedor de Justiça. Principalmente o PS e o PSD; mas também os outros que disfarçadamente assobiam para o lado, criticam os dois e fingem que têm solução – quiçá na manga. Mas, não têm.
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O Provedor tem de ser eleito por 147 deputados. Não há volta a dar. Para tanto, os dois «maiores» têm de chegar a um entendimento. A que não chegaram, pelo menos até ontem. Cada um puxa a brasa à sua sardinha. E Henrique Nascimento Rodrigues já há dez meses e picos que devia ter sido substituído. Dizia, ontem ainda, que ele iria renunciar, depois de conversas com Cavaco Silva e Jaime Gama. Já não lhe basta a espera inqualificável. Ainda por cima, está doente.
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Muitas vozes se têm erguido contra esta caricatura parlamentar e para lamentar. A última foi a do Presidente da República que não desaproveitou a oportunidade: o impasse «atinge a dignidade das instituições democráticas». O recado foi direitinho ao Parlamento e, bem assim, às forças políticas. É muito mais do que o meio caminho andado dos CTT. No caso, para chegar ao(s) destinatário(s) não é preciso o Código Postal.
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Cavaco usou assim o ditado que diz que «cá se fazem, cá se pagam». E vai ser muito difícil a São Bento encontrar uma saída airosa. Nem resposta aceitável, até porque Cavaco teve o cuidado de acrescentar que lamentava que os esforços que fez no sentido de uma solução para esta questão «não tenham dado resultado». E terminou: «vamos agora esperar a decisão do Parlamento». O hemiciclo ficou com a batata quente nas mãos.
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O que, pelo andar da carruagem, não quer dizer grande coisa, muito antes pelo contrário. Já aumentaram os decibéis usados por uns quantos (não tão poucos assim, infelizmente) para dizerem que os Portugueses – bem dizia o saudoso Senhor Doutor Oliveira Salazar – não sabem viver em democracia, não gostam do parlamentarismo, que é um perfeito entrave à ordem e ao progresso que devem reinar no País. Ou, melhor, em Portugal, expressão que é mais nacionalista.
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Se a Assembleia da República é desde há muito objecto de críticas, mas principalmente de troça, não será qualquer defensor que nomeie que lhe conseguirá retirar o estigma. Aquilo é uma bandalheira – afirmação que vem sendo frequente acompanhada as mais das vezes pela galhofa. Donde, o regime também é, a democracia idem e a liberdade, aspas.
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Estarão, então, em perigo estas três componentes? Será, então, necessária a intervenção providencial que redima este pecado capital, senão mesmo original, de nós Portugueses? Mas – qual? Quem? O espantalho do Senhor Dom Sebastião será mesmo um espanta-pássaros? Ou antes – um espanta-partidos? A bruma e o cavalo branco são desnecessárias. Basta o Messias.
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Penso que não, felizmente. Ainda que gostemos de mirar o passado e nele apoiar as nossas infantilidades, as nossas incapacidades e as nossas demissões, a Liberdade e a Democracia (aqui com caixas altas) têm o vigor bastante para ultrapassar este quiproquó. Mas, ai das bancadas parlamentares se não forem capazes de chegar a bom porto. O Provedor de Justiça não pode ser o provador de comportamentos no mínimo estranhíssimos.
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Lagos - O velho e o novo

Em 1.º plano, a estação da CP desactivada (porquê?)
Ao fundo, a nova...
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Repare-se no relógio de parede desaparecido e na cama do sem-abrigo.
As imagens daqui para baixo mostram aspectos da estação nova
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Perdoem-se os erros de ortografia, mas não o vandalismo nem a incúria.
Estes grafitos estão aqui há anos.
Só as lages quebradas é que são novidade da época balnear 2009.




O Estado-Providência

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Por Maria Filomena Mónica
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AO LONGO DESTA SEMANA, terminei a missão de dirigir, como «cabeça da família», o processo de partilhas após a morte da minha mãe. No meio das previsíveis polémicas, deparei-me com um facto inesperado: o subsídio (equivalente a seis salários mínimos) que o Estado concedeu à minha família para o enterro. Apesar da ruína do meu pai, pertencemos à alta classe média. Três dos quatro filhos são licenciados: uma filha é doutorada, a outra completou o mestrado e ele é advogado. Ironicamente, a única que não completou o Ensino Secundário é hoje a mais rica.
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Criado após a II Guerra Mundial em Inglaterra por Attlee, Bevin e Bevan, o Estado Providência moderno destinava-se a dar a todos, «do berço ao túmulo», condições de vida minimamente dignas. Os ideais eram nobres e, durante várias décadas, o sistema suscitou admiração. Em Portugal, no país do «pobres sempre os tereis entre vós», nada aconteceu, mas a elite sabia de onde sopravam os ventos. O marcelismo e, depois, a Revolução distribuiu algumas regalias. Acontece que, entretanto, as sociedades haviam mudado. De um triângulo – em que no topo havia poucos ricos, no meio uma classe média reduzida e na base uma multidão de pobres – passara-se para uma bola de râguebi, em que as classes médias haviam crescido substancialmente. Embora isto devesse ter levado o poder político a rever as políticas sociais, por temor do eleitorado mais numeroso e articulado, isto é, as classes médias, em nada tocou.
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Esta covardia teve um efeito: os pobres ficaram mais desprotegidos do que o necessário. Enquanto a minha família, que dele não carece, recebe um subsídio de enterro, as pensões dos velhos portugueses – as mais reduzidas da Europa - não podem aumentar, por o Estado carecer de receitas para o fazer. O dinheiro que o Ministério da Segurança Social nos entregou para o enterro da minha mãe é uma prova da iniquidade do actual Estado-Providência. A universalidade dos subsídios tem de acabar.
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Janeiro de 2008
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O grau zero da política


Por J.L. Saldanha Sanches

A DISCUSSÃO sobre o bloco central tem esquecido o mais importante: o PS e o PSD só se coligarão se o país se encontrar de novo sob tutela, com um programa de reequilíbrio imposto de fora e em estado de necessidade financeira, tal como sucedeu no tempo de Mário Soares/Mota Pinto.
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A má vontade do PS e do PSD em relação a qualquer possível coligação explícita é uma característica central na nossa cena política. A acrimónia patológica da actual dirigente do PSD para com o primeiro-ministro pode ser doentia, mas tem raízes muito fortes no seu partido.

Contudo, como a própria já reconheceu para desmentir a seguir, naqueles avanços e recuos desastrados que marcam o seu estilo de actuação, essa aversão não impede nada.

Se a Europa sair da crise e Portugal continuar instalado na sua eterna crise com o défice externo sempre a subir, a dívida pública com problemas de refinanciamento e a necessitar de novas e mais radicais reduções da despesa pública, um governo minoritário não pode funcionar.
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O primeiro governo de Cavaco Silva tomou posse imediatamente a seguir ao bloco central ter suportado o odioso da redução do défice externo, dispôs de boas condições financeiras e durou pouco. Da sua existência nada se pode concluir.

O longo governo minoritário de Guterres só se pôde manter no poder com concessões a todos os interesses especiais, sem necessidade de decisões duras que em minoria nunca poderia ter tomado e só durou enquanto foi possível adiar estas decisões. O tal pântano que justificou a sua demissão era a apenas a necessidade de mudar de rumo sem que uma maioria qualquer o permitisse.

Governar em minoria negociando tudo e dando tudo a toda a gente, pressupõe um orçamento confortável com receitas fiscais a subir sem penhoras, nem aumentos de taxa. Na economia nunca se pode prever nada, mas será possível que isso se repita?

Além disso, o pior bloco central, com a sua merecida má reputação - o bloco central dos tráficos de influência e da corrupção – existe para além das coligações políticas e não depende delas. O bloco central governativo depende de uma não-existência da margem de decisão: uma solução única na política que é exigida pela existência de uma solução única na economia.
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As caras da solução podem ser várias: o bloco central não é um casamento, é uma convergência de políticas imposta pela situação de tutela exterior em que os desequilíbrios crónicos das balanças de pagamentos deixam um país: quando começam as negociações para financiamentos de emergência estas têm de ser feitas com uma maioria que possa pôr em prática as medidas desagradáveis que as acompanham.

Por isso o bloco central é o grau zero da política, acompanhado da descrença generalizada na coisa pública e na morte das ideologias: PS e PSD unem-se porque o eleitorado e o estado da economia não foi capaz de escolher e não lhes deixa outra alternativa. Os eleitores não escolhem porque não conseguem confiar em nenhum dos programas e, por isso, nem mesmo afastam o Governo em funções; a sua indecisão conduz a uma solução que lhes repugna e os afasta ainda mais da política.
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Nesse sentido o bloco central é a incapacidade de escolher e de decidir: a crise política a acompanhar a crise económica.
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«Expresso» de 23 de Maio de 2009- http://www.saldanhasanches.pt/

NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

CONVITE
Conferência sobre o livro «Morte na Picada», de Antunes Ferreira
28 Mai 09 / 19h
Biblioteca-Museu República e Resistência/Grandella
Estrada de Benfica, 419 - Lisboa.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Resposta: 1938

Há 90 anos, na ilha de Príncipe

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Por Nuno Crato
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EM 1919, A TEORIA da relatividade de Einstein, formulada em 1905 na sua versão restrita e em 1916 na sua forma geral, era já famosa entre os investigadores, mas era ainda desconhecida do público e ainda muito pouco referida nas universidades. Era então, em grande parte, uma formulação matemática que explicava fenómenos paradoxais sobre o comportamento da luz, mas que não tinha sido objecto de nenhum teste decisivo. A ocasião surgiu em 1919, com um eclipse total que permitiria registar a luz das estrelas passando perto do Sol. Nesse alinhamento, as estrelas tornam-se invisíveis para nós, pois o muito maior brilho do Sol esconde-as.
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Mas durante um eclipse total passam a ser visíveis, pois a Lua esconde completamente a nossa estrela. Fotografando as estrelas no limbo do Sol, pensaram os cientistas, seria possível medir o seu deslocamento aparente. Esse deslocamento seria devido à deflexão da luz na passagem por perto de um objecto de grande massa: o Sol. Ora a teoria de Newton previa um afastamento diferente do previsto pela teoria de Einstein. Era altura de pôr à prova a teoria da relatividade geral.
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Organizaram-se duas expedições para fotografar o eclipse. Uma à ilha de Príncipe e outra a Sobral, no Brasil, dois locais situados na faixa de totalidade do eclipse e dois territórios de língua portuguesa. O astrónomo britânico Arthur Eddington, figura central na comprovação e divulgação da relatividade, esteve em Príncipe, numa expedição atribulada. Outros astrónomos britânicos deslocaram-se a Sobral. Os resultados das medidas, que essencialmente corroboraram a relatividade, deram a Einstein uma notoriedade internacional.
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Tudo isto, e a introdução da relatividade em Portugal, foi discutido esta semana em animadas sessões na Sociedade de Geografia de Lisboa e na Biblioteca Nacional. Nesta última, decorre actualmente a magnífica exposição "Estrelas de Papel", dedicada à astronomia, onde se mostram as obras mais emblemáticas dos séculos XIV a XVIII, incluindo o período da revolução astronómica. A mostra é complementada com alguns instrumentos científicos da época.
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Quinta-feira 28 de Maio, no Observatório Astronómico de Lisboa, à Ajuda, a partir das 14h30, há um outro evento público comemorativo dos 90 anos da expedição de Eddington. Nele se fala do papel dos astrónomos portugueses no acompanhamento das novidades científicas que Einstein e outros trouxeram ao mundo.
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Os interessados, além de seguirem as sessões, podem ler um artigo (doi:10.1017/S0007087408001568) recentemente publicado no "British Journal for the History of Science", onde Elsa Mota, Paulo Crawford e Ana Simões explicam o desinteresse das instituições portuguesas na revolução einsteiniana, mas sublinham o papel de alguns astrónomos, nomeadamente de Manuel S. Melo e Simas (1870-1934), que tentou uma verificação observacional da teoria da relatividade. Este cientista procurou medir a deflexão da luz ao passar perto de Júpiter, o planeta de maior massa do sistema solar, de forma a complementar as observações do eclipse de 1919.
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Quem for ao observatório da Ajuda terá ainda ocasião, no final, de fazer uma visita guiada ao próprio observatório. É uma oportunidade, infelizmente rara, de ver uma das maiores preciosidades científicas do nosso país.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 23 de Maio de 2009
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segunda-feira, 25 de maio de 2009

Amor virtual

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Por Alice Vieira
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OS COMPUTADORES E A NET dominam cada vez mais a nossa vida.
E o jeito que nos fazem…
Já se ama e se desama através da net.
Rápido, eficaz e indolor.
Em vez de chorarmos no ombro do homem que nos deixou implorando-lhe que volte, clicamos para o Youtube, escolhemos uma cantiga daquelas que o vão pôr — esperamos…- de rastos, e não pensamos mais no assunto.
Aznavour é óptimo porque tem cantigas para todas as ocasiões e poupa-nos o esforço de arranjarmos palavras nossas.
É claro que há também quem responda aos ataques e se queira defender, deixar-te, eu?, sabes que se não fosse a minha mulher eras tu a mulher da minha vida! Para esses recomenda-se o recurso aos e-cards (convém misteriosamente assiná-los “Alguém”…) : tem muita saída aquele com dois ursinhos de peluche abraçados, e de dentro do peito de ambos explodem dezenas e dezenas de coraçõezinhos vermelhos, tantos que o écran até parece montra de loja de chinês em Dia dos Namorados.
Se não se trata de namorados mas de simples amigos ou familiares, as possibilidades são infinitas.
Nunca mais teremos remorsos por passarmos meses e meses sem falarmos com a tia Carlota, ou com a Prima Felisbela que é tão nossa amiga, coitadinha, mas também tão chata e, se a gente cai em ligar-lhe, acabamos por perder o episódio da “Anatomia de Gray” em que, pela 500ª vez, a Meredith manda o Dr. Sheppard às malvas.
Há uma gama infinita de textos que só querem o nosso bem.
Podemos escolher textos clássicos ou recorrer a autores contemporâneos (e já agora: se escolherem umas imagens de Paris com palavras de Garcia Marquez, pelo menos avisem que aquele texto é uma aldrabice, e que o pobre está careca de explicar que nunca escreveu uma piroseira daquelas).
E há textos muito jeitosos, com música de fundo tipo “El Condor Pása”, ao melhor estilo Rua Augusta, e que explicam o que é um amigo e para que serve.
E ficamos a saber que um amigo é aquela pessoa para quem tu vens sempre em primeiro lugar, para quem podes ligar a qualquer hora da manhã, da tarde, da noite e da madrugada porque está sempre disponível e, viva onde viver, vem a voar se sonha que precisas dele. E então a gente clica e manda aquilo para todos os que estão na nossa lista de contactos, sem esquecer de os separar por vírgulas, e por isso no espaço de segundos todos recebem exactamente o mesmo texto mas não faz mal – e embora a gente não tenha tempo de fazer um simples telefonema para dizer “olá”, garantimos, por interpostas pessoas, que estamos disponíveis para tudo e para todos.
E que, virtualmente, amamos o mundo inteiro.

«JN» de 23 de Maio de 2009

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sábado, 23 de maio de 2009

Entrevista empolgante

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Por Antunes Ferreira
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O QUE SE PASSOU ONTEM no Jornal de Sexta da TVI foi uma cena inqualificável. A entrevista feita por Manuela Moura Guedes a Marinho Pinto foi a demonstração perfeita do que por aquelas bandas televisivas acontece no «tempo de informação» do penúltimo dia de cada semana. Pior é difícil que volte a acontecer. Isto, se José Eduardo Moniz não voltar a aparecer no ecrã a defender o que é indefensável: a esposa e o (dito) noticiário. De resto, volto atrás na intenção de não qualificar o ocorrido: foi uma peixeirada, sem adjectivos, aliás desnecessários.
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Não pretendo vir aqui lavar roupa suja, com a qual – a existir – nada tenho que ver. Não me arvoro em juiz do que quer que seja, não me considero um moralista ou um puritano, não alinho em julgamentos televisivos, como não o faço perante os (mal) chamados julgamentos populares. Defendo, como sempre defendi e defenderei, o Estado de Direito. Que, por vezes, se me afigura um tanto esquecido entre nós – e por nós.
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O Bastonário da Ordem dos Advogados explodiu face ao interrogatório da apresentadora. A Santa Inquisição e, em especial, Tomás de Torquemada nada teriam a aprender com o procedimento de Manuela Moura Guedes. Quando muito, pôr-se-iam em dia com o que se verifica pela TVI às sextas-feiras. Obviamente sem Autos de Fé, nem fogueiras. Mas a actualização, essa, estava lá no estúdio.
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É sobejamente conhecido o feitio de António Marinho Pinto e o que ele tem motivado, sobretudo da parte de colegas que se sentem atingidos pelas afirmações dele. É um tanto estranho que causídicos, natural e normalmente caracterizados pelo conhecimento das leis e dos processos, se confessem enganados por um que elegeram para seu Bastonário. Implicitamente, está bem de ver, porque ainda não o disseram com todas as letras.
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Porém, o que é facto é que muitos advogados pedem a cabeça de Marinho Pinto. Por motivos diversos, alegam. Mas, penso eu – e penso também que tenho o direito de o pensar – pelo que o Bastonário tem de incómodo quando se pronuncia sobre muitos dos seus pares. As coisas são o que são: os que dizem o que pensam ser a verdade são sempre considerados inconvenientes. No tempo salazarento, a expressão usada era serem uns perigosos subversivos. Eu fui assim apelidado. Entre outros mimos que me endereçaram.
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O que ontem aconteceu em Queluz de Baixo deu azo a que o qualificativo geográfico dos estúdios tivesse sido completamente justificado: baixo. Na entrevista, Marinho Pinto, ao ser apelidado de «bufo» pela jornalista Moura Guedes, respondeu-lhe afirmando que ela «não tem autoridade nenhuma para emitir juízos de valor acerca do que se passa na justiça», e continuando no mesmo tom, acusou-a de fazer um «péssimo jornalismo» que «viola sistematicamente o código deontológico».
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A entrevista não acabou sem o Bastonário da Ordem dos Advogados afirmar que «se você me quiser fazer uma entrevista decente eu estarei disponível, mas… esta estação devia ter aqui uma jornalista decente e não alguém que deturpa constantemente as regras do jornalismo».
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Já não me restam quaisquer dúvidas: por vezes a TVI e a sua directora-adjunta da Informação fornecem-me motivos de sobra para usar o termo – são empolgantes.
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sexta-feira, 22 de maio de 2009

Isto não tem remédio!

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Por Maria Filomena Mónica
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ONTEM [7 Jan 08], RECEBI UM MANIFESTO intitulado «Cidadãos de Portugal», em que se apelava aos portugueses para retirarem o seu dinheiro do BCP, com base em que este iria ser controlado pelo PS, e da CGD, a qual iria passar para as mãos do PSD. Não sei como arranjaram o meu endereço electrónico, nem qual o motivo que terá levado os organizadores a pensar que teria conta numa destas organizações.
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Há muitos anos, estava o BCP em processo de parto, apareceu cá em casa um rapazola, declarando que iria ser criado um estabelecimento financeiro que se deslocaria até mim. Radiante com o serviço a domicilio, entreguei-lhe a minha poupança, mas a felicidade não durou. Pouco depois, soube que o tal banco não recrutava mulheres, o que me levou a retirar o pecúlio do mealheiro machista. Quanto à CGD, outros galos cantaram. Durante décadas, fui obrigada a receber o meu salário através do dito, com base em que era assim desde tempos imemorais. Na companhia do meu amigo Manuel Lucena, pensámos resistir, mas acabámos por nada fazer, até descobrirmos, com prazer, que o Estado abdicara do direito de pernada. Foi então que juntei as minhas contas num banco situado a dois minutos de casa, o Fonsecas&Burnay, hoje BPI.
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Apesar das peripécias da dupla CGD-BCP não me afectarem directamente, o espectáculo é deprimente, porque prova que trinta e quatro anos depois do 25 de Abril e vinte e dois após a adesão à Europa, não avançámos um milímetro. Como no século XIX e, mais tarde, no Estado Novo, é o poder político quem faz e desfaz fortunas. Durante a Monarquia Constitucional, era o contrato do tabaco – um monopólio que o Estado entregava ao seu favorito – que enchia os bolsos dos ricos (incluindo os de Henry Burnay, o fundador do meu banco), como, após o advento de Salazar, só enriquecia quem era abrangido pelo chamado condicionamento industrial. Fez-se uma revolução, houve saneamentos, nacionalizaram-se empresas, mas lá em cima, eterno e omnipotente, está, ainda e sempre, o Estado. O monstro não é o défice, mas o poder tal qual está organizado.

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Janeiro de 2008
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quarta-feira, 20 de maio de 2009

Rumsfeld vai ao teatro

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Por Baptista Bastos
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DONALD RUMSFELD, vestido a preceito, desce a escada, acompanhado da mulher. Estão sorridentes e, aparentemente, muito felizes. Vão assistir a um espectáculo. Rumsfeld, alto, elegante, delgado, é um homem rodeado de serenidade, feito de vagares, de andar plácido, e de leve sombra no olhar. A cena parece elementar e trivial. Eis senão quando entra em campo nova figura: uma mulher ainda nova, indignada, aos gritos, apopléctica, cuja voz se multiplica mil vezes: "Criminoso de guerra! Criminoso de guerra!" Abre as mãos molhadas em vermelho, e quase as enfia no rosto do cavalheiro: "Tem-las cheias de sangue!"
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O casal de elegantes está nos limites da perplexidade. São uns módicos segundos, mas pesam como os tormentos de um pesadelo. A mulher nova só pára de gritar quando a câmara faz um corte de plano. Sabemos, mais tarde, ser militante dos direitos cívicos, empenhada em acusar Bush, Rumsfeld, Dick Cheney e Condoleezza Rice de indignidade nacional e de crimes contra a humanidade.O episódio adquire outra espessura se o associarmos ao facto de, dias antes, havermos sido informados da existência de centenas de fotografias de torturas hediondas, a juntar às conhecidas, cometidas em Abu Ghraib. O cavalheiro calculado e tranquilo foi um dos acima nomeados que deram o nihil obstat às inomináveis atrocidades praticadas no Iraque.
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Nada vai acontecer a esta gente, nem sequer o sussurro de um remorso. Em causa não está apenas a repulsa moral. Mas sim a reiteração de um fenómeno totalitário que, periodicamente, se reacende nos Estados Unidos. Progride ou retrocede, segundo a conjuntura, aparece ou desaparece, é variável, e está latente na grande nação. A máscara ocultou o horror; este emerge quando a História procede a processos de desestruturação. Bush e os seus não são raridades. Resultam das armadilhas da política de última fronteira, tão comum a republicanos como a democratas. Houve a Coreia, o mcchartismo, Cuba, o Vietname, a Guerra das Estrelas, a cumplicidade com ditadores sanguinários. E há, sobretudo, o abissal desconhecimento que os americanos possuem de si próprios. O atrevimento do pobre Bush, em abrir a caixa de Pandora, reafirma uma identidade nacional muito bem expressa pelo cinema e pela televisão.Volto a Rumsfeld, tão cristão, tão tranquilo, tão imaculado, a caminho de uma festa. É a impunidade em marcha, momentaneamente sobressaltada pela gritaria da mulher em revolta. Rumsfeld sorri. Sombriamente, mas sorri. Arrasta atrás de si um cortejo de horrores, mas está protegido por um montão de privilégios abusivos. Os gritos são acusações densas, como o sangue que simbolizam.
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Sem maior segredo, enigma ou pesar, Rumsfeld sorri.

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«DN» de 20 de Maio de 2009
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segunda-feira, 18 de maio de 2009

Duas culturas

Por Nuno Crato
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DECORRERAM 5O ANOS desde o dia em que uma figura pesada subiu os degraus da vetusta Casa do Senado, na Universidade de Cambridge, e se dirigiu ao pódio para proferir uma conferência. Não era uma ocasião qualquer. Tratava-se da prestigiada palestra Rede, proferida anualmente nessa universidade inglesa perante uma vasta plateia de professores, alunos e convidados. Não se tratava também de um orador qualquer. Na altura com 54 anos, Charles Percy Snow, tinha já sido um cientista brilhante, tinha já sido um administrador do esforço de guerra e tinha-se já destacado como político. Além de tudo isso, desenvolvera uma carreira paralela como romancista. Alcançara o estatuto de figura pública, igualmente respeitada como homem de ciência e como literato. Seria certamente alguém indicado para falar sobre a unidade entre as ciências e as humanidades.
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Decorrida uma hora, no fim da sua palestra, C.P. Snow tinha lançado uma expressão - "duas culturas" - e iniciado uma controvérsia que duraria décadas. Hoje, 50 anos depois, a polémica continua e a expressão entrou no nosso vocabulário. Fala-se de duas culturas como descrevendo duas visões inconciliáveis de ver o mundo: a das humanidades e a das ciências. C.P. Snow, apesar de particularmente qualificado para estabelecer harmonia entre essas duas culturas, é considerado por alguns críticos actuais como o homem que não teria compreendido como a ciência seria também culturalmente construída, portanto parte integrante das humanidades, cabalmente explicada pela filosofia e pela sociologia literária. Para estes críticos, a unidade dos mundos deve produzir-se a partir de uma presumida superioridade de certa cultura filosófica.
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C.P. Snow tinha opiniões contrárias. Relendo-o, pode imaginar-se que intuía a vinda da descrença pós-moderna. Na sua alocução, começou por relatar um cisma entre a "intelectualidade literária", como ele a classificava, e o mundo da ciência. Referiu-se a "um abismo de incompreensão mútua" que gerava por vezes "hostilidade e aversão". Não poupou críticas às figuras da ciência que se desinteressavam da literatura e das artes e que presumiam que a filosofia era apenas uma divagação ociosa. Mas assestou as maiores investidas contra as incompreensões da cultura científica. Os "intelectuais literários designando-se apenas a si próprios como 'intelectuais', estão a presumir que não há outros", afirmou. Citando o matemático G.H. Hardy, um autor sensível de que vale a pena ler a "Apologia de Um Matemático" (SPM/Gradiva, 2008), reproduzia o seu espanto: "Já reparou como a palavra 'intelectual' é usada hoje em dia? Parece-me que há uma nova definição que, decerto, não me inclui, nem a Rutherford, Eddington, Dirac ou Adrian. Tudo isto é bastante estranho, não acha?".
Passados 50 anos, vale a pena reler a obra de Snow. E vale a pena nela reler as suas menos conhecidas preocupações com a educação. Revoltando-se contra a prematura escolha entre as áreas científicas e de humanidades que a educação britânica na altura impunha os jovens, C.P. Snow considera que esse erro educativo tinha repercussões gravíssimas, produzindo gerações desprovidas de uma das culturas. Essas gerações estariam privadas de grande parte do mundo futuro.
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Algumas das suas frases finais são arrepiantes: "Não será tempo de começarmos? O perigo está em que fomos educados a pensar como se dispuséssemos de todo o tempo do mundo." Tê-lo-emos?

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«Passeio Aleatório» - Expresso» de 16 de Maio de 2009

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