sábado, 18 de julho de 2009

Às escuras vê-se melhor

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Por Nuno Crato

ESTE SÁBADO À NOITE tem lugar uma das mais espectaculares acções do Ano Internacional da Astronomia. Um pouco por todo o país, em locais como a zona de Belém, a Escola Politécnica, a Baía de Cascais, o Bom Jesus de Braga e o Palácio de Cristal no Porto, as luzes vão-se apagar a partir das 22h (veja a programação completa em www.astronomia2009.org). Nos locais em que isso acontece, estarão presentes astrónomos profissionais e amadores para mostrar ao público as maravilhas do céu.

O apagão não será total, pelo que não será possível reproduzir o céu negro de que ainda há algumas décadas se podia disfrutar. Mas os citadinos terão oportunidade para ver muitos astros que habitualmente lhes escapam.

Quem nos roubou o céu foi o exagero de iluminação artificial que hoje existe nas cidades. As luzes, além de ofuscarem as estrelas e se reflectirem nos prédios em redor, iluminam as poeiras atmosféricas e as nuvens, dificultando a visão dos astros. Em vez de negro, marcando um contraste com as estrelas, o céu torna-se acinzentado, escondendo da nossa vista a maior parte dos astros que, de outra forma, seriam visíveis. A diferença é esmagadora. Em vez de observar vários milhares de estrelas, uma via láctea marcada e um ou outro sinal de nebulosa, vê-se apenas uma dúzia de astros no céu. As constelações deixam de ser nítidas, a coloração de estrelas e planetas deixa de se distinguir, e apenas se vêem alguns pontos de luz pálida.

Para muitos jovens, e para muitos outros menos jovens, não é só o céu que é mais pobre. Há muitas referências culturais que não fazem sentido. Assim, quando se lê «Os Lusíadas», não se pode perceber como se vê «de Cassiopeia a fermosura/ E do Orionte o gesto turbulento» ou a surpresa que é ver «as Ursas [...] banharem-se nas águas de Neptuno». Quando se lê Aquilino, não se pode imaginar o que sejam as «Três Marias». Quando se ouve falar de «perder o norte», não se pode compreender que isso tenha algo a ver com as estrelas. Quando se vêem referências à via láctea em Virgílio Ferreira, não se percebe a importância de uma e de outra, nem se consegue imaginar a origem do qualificativo «láctea». Quando se ouve dizer que «subaru» é a designação japonesa das «Plêiades», essa curiosidade também nada diz a quem não conhece esse grupo de estrelas.

Perder o contacto com o firmamento é também perder o contacto com uma das ciências mais antigas e mais belas que a humanidade criou: a astronomia. Enquanto os nossos antepassados viam as estações do ano a desfilar no céu, viam Sírio levantar-se no princípio do Inverno e Escorpião anunciar o Estio, temos hoje dificuldade em reconhecer as constelações mais evidentes, confundimos estrelas com planetas e só raramente observamos meteoros.

Perder o céu não é, contudo, totalmenteinevitável. Os exageros de iluminação pública são desnecessários, tal como é desnecessário ter candeeiros de rua que apontem para o céu, em vez de concentrar a luz no solo. Esta noite vai-nos relembrar o que perdemos e vai-nos mostrar o que podemos recuperar. Será uma grande noite.

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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 18 de Julho de 2009 (adaptado).

NOTA (CMR): normalmente, as crónicas de Nuno Crato são aqui afixadas à terça-feira. A de hoje, excepcionalmente (e por motivos evidentes) aparece no mesmo dia da edição em papel.

Na mó de baixo


Por Alice Vieira

NÃO SEI SE SE LEMBRAM de uma imagem televisiva que ficou famosa, no tempo em que o nosso (quase) completamente consensual Presidente da República era ainda o nosso (quase) completamente anti-consensual Primeiro-Ministro.
Não, não é a da fatia de bolo-rei.
Nem a do coqueiro.
É aquela em que, durante uma cerimónia pública, ao falar à comunicação social, ele se deixou ir abaixo.
Ali, diante dos nossos olhos, tínhamos, ao vivo e a cores, um desmaio de quem mandava em nós.
Desmaio não muito longo, convenhamos, mas, mesmo assim, desmaio.
E se nunca mais esqueci essa imagem não foi porque ela tivesse tido grandes consequências: o senhor, felizmente, recuperou bem e está de boa saúde; e acho que a política portuguesa não se ressentiu por aí além dessa breve indisposição.

Foi por uma coisa completamente diferente.

É que no dia seguinte a esse episódio encontrei a minha amiga Lena lavada em lágrimas.
A minha amiga Lena, que era uma anti-cavaquista primária, lavada em lágrimas por causa de um desmaio do nosso Primeiro.
Aquilo, palavra, tocou-me fundo.
Estava já a começar um brilhante discurso de elogio às suas qualidades humanas que, diante de um problema de saúde, a faziam esquecer antipatias políticas para ficar apenas, humanamente, preocupada — quando ela olha para mim e exclama “estás parva ou quê?”

Depois explicou: ela estava era zangada, muito, muito zangada com um Primeiro-Ministro que se deixava adoecer.
“Porque”, dizia a Lena, “eu não posso embirrar com uma pessoa que está doente! Eu não posso atacar, provocar uma pessoa que não está bem de saúde! Não me dá gozo nenhum! Aquilo de que eu gosto, mas gosto mesmo a sério, é vê-lo ali de pé, forte, muito saudável, e eu aqui a embirrar, a embirrar com ele, e a chamar-lhe nomes, e a odiá-lo por tudo o que ele faz! Ele ali a destilar saúde, todo direito, a apanhar tudo, e eu a berrar contra ele e a fazer tudo para o tirar do poleiro!”
Fez uma pausa e concluiu: “agora se o homem está doente, acabou-se, não consigo atacá-lo, lá se vai o meu gozo todo…”

Lembro-me muitas vezes desta história e da minha amiga Lena, sobretudo quando vejo aqui o maralhal desatar aos pinotes e aos berros quando o alvo dessa gritaria e excitação não se encontra, digamos, nos seus melhores momentos. Quando está, para usar uma expressão bem popular, na mó de baixo.
É facílimo insultar quem está na mó de baixo.
É facílimo contar anedotas, reencaminhar mails, mandar cartas ao director, blogar a torto e a direito.
Não serve de nada mas sempre são os tais 15 segundos de fama a que todo o mortal tem direito desde Andy Warhol.
Camões escreveu, há muitos anos, que “é fraqueza entre ovelhas ser leão”.
O pior é que já ninguém lê Camões.

«JN» de 18 de Julho de 2009

Pedofilia e pena de morte

Por Antunes Ferreira

SOU CONTRA A PENA DE MORTE. Natural e obviamente. E, claro, contra a de Talião. Abomino-as. Mas, por vezes, assaltam-me umas quantas dúvidas que sempre rejeito. Castigos corporais e/ou execuções, nada os justifica. Só que, perante crimes hediondos, se não fosse esta convicta rejeição, sei lá…

Um sujeito de 61 anos mantém os seus hábitos sexuais mas, agora que os ex-parceiros são adultos, faz negócio com estes para que o deixem violar os seus filhos, meninos de dez, onze anos, relatou o Correio da Manhã na sua edição de ontem. O que é uma afronta à dignidade humana, um atentado inqualificável, a demonstração de que a lei da selva ainda faz parte – e, pelos vistos, fará – do nosso quotidiano. Um troglodita não faria pior.

O pedófilo, que a PSP deteve para apresentar a juiz, está reformado de um banco, e terá sido ouvido pois a Divisão de Investigação Criminal, DIC, da Polícia já tem provas de, pelo menos, uma situação do medonho negócio de carne humana, infantil, que vem fazendo com os desgraçados pais dessas desgraçadas vítimas menores.

Segundo, ainda, o matutino, os abusos sexuais foram fazendo parte do dia-a-dia do monstro que terá violado na sua casa, em Queluz, dezenas de meninos dessa faixa etária, alguns dos quais alunos da Colégio Maria Pia, da Casa Pia. Esta situação chegou a ser denunciada, ainda em 2007, por Catalina Pestana aos serviços do Departamento de Investigação e Acção Penal de Lisboa, que remeteu o caso à Judiciária. A ex-provedora da Casa Pia diz que lhe contaram «que um homem ia lá buscar crianças».

Disse ainda o CM que o homem se encontrava com a maior parte das crianças num supermercado da zona de Queluz, onde reside. A investigação apurou ainda que ele os aliciava com brinquedos, outros presentes e refeições, e há pelo menos um caso em que a contrapartida era dinheiro para os pais das vítimas, também eles violados na infância pelo pedófilo.

Mas, também de acordo com o tablóide, o procurador da República João Guerra (que acusou nomeadamente Carlos Cruz, Jorge Ritto e Bibi, no processo Casa Pia) optou por nem apresentar o bancário ao juiz, deixando-o à solta com termo de identidade e residência. Terá sido assim? Até agora nada foi desmentido.

É mais um dramático episódio da história maldita da pedofilia à portuguesa. Mas também da história incrível da Justiça à lusitana. Num país que foi o terceiro da Europa a abolir a pena de morte, surgem casos como este que me levam a pensar duas vezes. Seria, então, de a aplicar? Repito o que antes escrevi: no final delas continuo a ser contra ela. Dito de outra maneira: a não ser assim - renegar-me-ia.

Em 1876 escreveu Victor Hugo: «Está pois a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma grande história. (...) Felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo à Europa. Desfrutai de antemão essa imensa glória. A Europa imitará Portugal. Morte à morte! Guerra à guerra! Viva a vida! Ódio ao ódio. A liberdade é uma cidade imensa da qual todos somos concidadãos».

Mas, perante uma enormidade criminosa como esta de mais um pedófilo descoberto, poderá perguntar-se se a condenação à pena capital… Claro que não. Mas, por demasiadas vezes o diabo tece-as. Cuidado.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Passatempo-relâmpago - 17 Jul 09 - Solução

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Publicado no «A. B.» de 1936, como se pode ver no cabeçalho da pág. 324

A Ministra e os Professores


Por Maria Filomena Mónica

ALGUNS COMENTADORES QUE RESPEITO têm defendido a avaliação proposta por Maria de Lurdes Rodrigues com base em que é preciso acabar com a bandalheira que se vive nas escolas, a qual teria contribuído para que o país apareça num lugar vergonhoso nas estatísticas internacionais. Para eles, alguém que diz, com ar firme, ser necessário avaliar os professores tem necessariamente razão. Mas avaliar professores é diferente de emitir juízos sobre empregados de empresa, funcionários públicos ou gestores de topo. Nestes casos, há objectivos definidos – vender cadeiras, carimbar papéis ou arrecadar lucros – o que não se passa no caso das escolas. Estas servem para transmitir conhecimentos e, numa perspectiva optimista, contribuir para a formação de homens e mulheres mais cultos, o que não é mensurável. A visão mecanicista da escola - como se de um conjunto de peças de Lego se tratasse – é errónea.

Há ainda – e isto é crucial – o problema da competência pedagógica. É fácil conferir se os docentes faltam, se chegam atrasados ou se corrigem os testes. O mesmo se não pode dizer dessa qualidade, mais ou menos mística, a capacidade para ensinar, que as faculdades de Ciência da Educação – uma das pragas dos tempos modernos – são supostas transmitir. Não é através da observação directa, nem, muito menos, de grelhas imbecis que lá se chegará.

Depois de ter assistido à manifestação de Sábado– sim, fui lá, embora na qualidade de repórter – discuti a questão com algumas pessoas. A maioria estava atónita que eu, desde há muito vista como uma meritocrata a outrance, defendesse aquela cambada de preguiçosos manipulados pelos sindicatos. Além de isto ser uma caricatura, é irrelevante. O que está em discussão não é a existência de maus professores, mas se é possível detectá-los com a engenharia que a ministra montou. Não, não é.

Março de 2008

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Exposição de "quadros" feitos a partir dos recortes em papel criados por Hans Christian Andersen.

quarta-feira, 15 de julho de 2009


A razão da história


Por Baptista-Bastos

PARECE QUE O MANUEL ALEGRE escreveu um artigo apelando ao despertar do PS. O artigo foi publicado num semanário que por aí se edita. Há anos, com um curto intervalo de duas semanas, em Outubro passado, que não frequento a distinta publicação. Socorro-me dos recortes de outros jornais para discretear, amenamente, sobre as apoquentações do meu velho amigo.

Não é aquele partido que tem de despertar. Já não há mal que lhe não venha, parafraseando o outro. É o País, somos todos nós, que temos de sacudir esta nefasta letargia. Permitimos tudo quanto nos tem acontecido. Em matéria política, como em matéria social, caracterizamo-nos por uma indiferença, uma total renúncia a pensar que nos torna fáceis títeres de gente sem escrúpulos. Éramos taciturnos; somos cabisbaixos. Portugal está "portugalizado", para recuperar, tristemente, o triste adjectivo com que Roger Vailland nos cauterizou no romance La Loi. Pior: subtraíram-nos a confiança, potenciando os nossos desgostos para uma deformidade que transformou as forças de cada um de nós numa agressividade fratricida.

Inculcaram-nos a ideia da inevitabilidade de um modelo e de um sistema, sem respeito pela diferença, desprezando o que pensamos, tripudiando sobre os nossos sonhos mais asseados. Não admitem a acção criadora em mulheres e homens sofredores. E, no entanto, é deste grupo vastíssimo que, tarde ou cedo, nascerão as soluções mais acertadas e os valores mais qualificados. Não se trata de uma questão de fé: é a razão da história que o explica e justifica.

Nenhum partido, nem um, sequer, é susceptível de se reformar por dentro. E a impossibilidade não incide, somente, nos partidos comunistas. O Manuel Alegre sabe, tão bem como eu, que está esgotado este arquétipo económico, condutor de crises e de tragédias, e protagonizado, em Portugal, pelo PS e pelo PSD, com os resultados conhecidos. Os remendos cerzidos por diligentes funcionários não autorizam a olhar o problema como assunto arrumado. Exactamente porque a sociedade, o movimento das ideias, as exigências históricas não constituem factores inanes. Embora não conheçamos a amplitude e a pertinência da crise, e a natureza profunda das suas repercussões, temos de recusar, em todas as circunstâncias, que só esta "alternância" é "alternativa". O carácter redutor desta concepção leva-nos, cada vez mais, a múltiplas incertezas.

As pequenas questões do PS e do PSD são minudências, cujas equações éticas roçam a mediocridade, e suscitam uma espessa indiferença geral. Pertencem à mesma galáxia, com os mesmos buracos negros. Incapazes de criar o imprevisto, estão suspensos nas flutuações dos mais obscuros compromissos.

«DN» de 15 de Julho de 2009

terça-feira, 14 de julho de 2009


A imagem de cima mostra a cena vista de outro ângulo, numa foto tirada à tarde:
Em 1.º plano, a habitual «moto das terças-feiras», da Polícia Municipal.
Mais atrás, o mini-pilarete que foi pretexto para o passatempo.
Ao fundo, o edifício da AML.

A imagem de baixo mostra dois agentes da Polícia Municipal a cumprirem o seu dever, interpelando o passageiro de um carro mal estacionado ali na zona (o condutor nem sequer estava ali...).
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Tudo perfeito - fica apenas a questão principal: quando é que vamos ver o mesmo empenho e profissionalismo por toda a cidade e em todos os dias?

Dito & Feito

Por José António Lima

AS CANDIDATURAS de Elisa Ferreira ao Porto e de Ana Gomes a Sintra sofreram um golpe fatal quando o eleitorado percebeu que as duas candidatas do PS não abdicavam de permanecer, também, na lista ao Parlamento Europeu – retaguarda segura, muito cosmopolita e bem remunerada para um eventual desaire na compita autárquica. Com as inevitáveis críticas, que se adivinhavam, a tal duplicidade eleitoral, as propostas camarárias de Ana Gomes e Elisa Ferreira saíram da campanha das europeias já em estado muito agonizante. Agora, ao impor a proibição de candidaturas duplas nas listas do PS, em nome da ética e da transparência política, José Sócrates deu o passo que faltava: passou a certidão de óbito às pretensões autárquicas das duas isoladas (mas duplas) candidatas.

Esta reviravolta de princípios à última hora, contrariando para as legislativas o que o PS há menos de um mês considerava natural e aceitável para as europeias, desencadeou reacções contraditórias, sonoras e politicamente ilustrativas nas hostes socialistas. Cerca de uma dúzia de deputados socialistas que se disponibilizaram para concorrer à presidência de câmaras, como Leonor Coutinho ou Sónia Sanfona, sentem-se enganados por Sócrates e queixam-se, com razão, de este ter «mudado as regras a meio do jogo». Mas esquecem, porque eram esses os hábitos da casa, que as duplas candidaturas representam falta de seriedade para com os eleitores, défice de credibilidade para os partidos, oportunismo e calculismo de quem as protagoniza. Já Elisa Ferreira e Ana Gomes, que viram o PS tirar-lhes o tapete debaixo dos pés quando o chão já lhes fugia, responderam em uníssono ao repto de Manuel Alegre: «Ou renunciam já ao mandato de eurodeputadas ou deixam de ser candidatas autárquicas». Gomes não considera que Alegre «tenha autoridade moral» para fazer tal exigência. Elisa completa: «De moral não deve falar para mim». Deixando de lado a moral, as palavras de Alegre resumem-se a uma questão de sensatez e decência política. Que só Elisa Ferreira e Ana Gomes parecem não querer ver.

Sócrates proibiu as duplas candidaturas mais por razões de emergência eleitoral do que por convicção de princípios. Com isso conseguiu, para já, fazer de médico legista e certificar a morte política de duas candidaturas do PS. Às Câmaras do Porto e de Sintra.

«SOL» de 10 de Julho de 2009

Suponho que isto deve estar incluído nos motivos da auto-satisfação de António Costa

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14 Jul 09, às 13h

As primeiras 6 fotos mostram o habitual caos junto à esquina do Santander-Totta, na Av. de Roma, zona que hoje foi 'enriquecida' com um pedinte-residente (como se vê na 1ª).

As 2 de baixo mostram alguns dos lugares vagos, ali ao pé; e na Travessa Henrique Cardoso, ali ao lado, havia mais uns quantos...

Perante isto, julgo que a auto-satisfação demostrada por António Costa só é ultrapassada, em termos de ridículo, com o anúncio da EMEL de que, um dia destes, VAI FAZER GREVE!!- ver [aqui].

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Passeio Quântico


Por Nuno Crato

SE O LEITOR TIVER BOA MEMÓRIA talvez se lembre da origem deste título invulgar: «Passeio Aleatório». No início desta série de crónicas dissemos que iríamos percorrer, um pouco ao acaso, temas da ciência e da técnica. Dissemos ainda que a expressão «passeio aleatório» designa um conceito científico importante, cujo seu estudo tem ocupado matemáticos, físicos e outros cientistas.

O exemplo mais engraçado de introdução a este conceito é o de um passeio de um homem embriagado. Imagine o leitor um cavalheiro, já muito tocado pelo álcool, que sai do bar onde passou a noite a acabar com o stock de aguardente. À porta, avança pela rua e tem de escolher entre dar um passo em frente ou um atrás. Como os vapores não o deixam fazer qualquer escolha racional, escolhe uma das duas direcções perfeitamente ao acaso. Começa. Dá um passo. Pára. Completamente toldado pelos eflúvios, dá novo passo, ou para a frente ou para trás, completamente ao acaso. Pára e dá novo passo, de novo ao acaso. A história repete-se ao longo da noite. Onde irá parar o cavalheiro?

Esta paródia pode servir de exemplo a um passeio aleatório em uma dimensão. Em cada momento, a variável X, que representa a posição do cavalheiro, é incrementada ou subtraída de uma unidade, conforme dê um passo em frente ou um passo para trás. Qualquer das escolhas tem probabilidade 1/2.

Podemos fazer alguns cálculos. Ao fim de 100 passos onde está o nosso herói? É pouco provável que esteja 100 passos à frente. Para isso teria de escolher a direcção fronteira 100 vezes seguidas. A probabilidade de isso acontecer é 1/2 elevado a 100. É uma probabilidade muito pequena. Tão pequena como a de se ter deslocado 100 passos para trás. Já a probabilidade de regressar ao local de onde partiu será a de se deslocar um total de 50 passos para a frente e 50 para trás. É cerca de 0,08, mesmo assim uma probabilidade pequena. Mas trata-se do valor mais provável.

É fácil perceber que o nosso herói estará algures entre 100 passos para a frente e 100 passos para trás, sendo plausível que dê quase tantos passos num sentido como no outro, pelo que o mais certo é não se encontrar muito longe do local de partida. Também é fácil perceber que estar 20 passos atrás é tão provável como estar 20 passos à frente. A distribuição de probabilidades resultante, que tem o nome técnico de binomial, aproxima-se de uma normal, a célebre distribuição de Gauss com um gráfico que relembra um sino de abas alongadas.

Tudo isto pode parecer estrambólico, mas imagine o leitor que somos transportados ao mundo quântico. Aí, é tudo tão difuso e estranho que o nosso embriagado ficará surpreendido, parecendo lúcido por comparação. As partículas que vivem nesse mundo minúsculo não têm uma posição definida e podem estar numa sobreposição de vários estados. Tudo se passa como se o nosso embriagado ficasse super-embriagado e pudesse simultaneamente dar um passo em frente e um passo para trás, ficando nos dois lugares ao mesmo tempo. Só quando forçado o sistema define uma posição, adoptando um estado preciso. Imagine-se que se acorda o cavalheiro duplamente alcoolizado. Aí ele fica numa posição determinada.

Um movimento deste tipo chama-se «passeio quântico». Nos últimos anos tem sido objecto de estudo matemático intenso, tendo-se criado grandes expectativas sobre a sua utilidade prática. Espera-se que o passeio quântico possa servir de base a novo tipo de computadores, capazes de fazer cálculos muito rápidos. Estando simultaneamente em vários estados, as partículas podem procurar simultaneamente as diversas sobreposições possíveis e, assim, resolver mais rapidamente alguns problemas matemáticos muito difíceis. O matemático norte-americano Peter Schor demonstrou, em 1994, que a computação quântica tornaria possível um algoritmo muito rápido de factorização de números nos primos que os compõem (6, por exemplo, decompõe-se no produto de 2 por 3). No momento em que isto for posto em prática o nosso mundo mudará, pois todos os processos de segurança de transacções na Internet se baseiam na impossibilidade prática de factorizar rapidamente números muito grandes. Serão então criados algoritmos quânticos de criptografia, que serão muito mais seguros.

Há, contudo, um pequeno obstáculo. Até agora ninguém conseguiu construir um computador quântico. Todos os pequenos passos nessa direcção se têm revelado muito difíceis. Por isso, gerou muito entusiasmo a notícia esta semana, na «Science», da construção de um aparelho capaz de manipular um passeio quântico. Um grupo de físicos da Universidade de Bona, na Alemanha, conseguiu arrefecer átomos de Césio e bloqueá-los numa rede de luz. Os átomos perfizeram um passeio quântico e foram comprovadas várias das deduções teóricas sobre este fenómeno. Assim, a distribuição final de resultados não foi simétrica, como no caso do passeio aleatório, e mostrou-se sensível ao estado inicial (DOI: 10.1126/science.1174436). A propagação do átomo foi também mais volátil do que a do passeio aleatório (proporcional ao número de passos e não à sua raiz, como no passeio clássico).

À partida, não parece que o passeio aleatório do nosso cavalheiro embriagado possa ter alguma utilidade para procurar a sua casa, por exemplo. Seria mais eficiente percorrer a rua de forma sistemática. O mesmo não se passa com o passeio quântico. Se o passeante super-embriagado estiver ao mesmo tempo por toda a rua, pode encontrar imediatamente a porta em causa. A computação quântica pode ser a nova grande revolução do século XXI. Só que não se faz com álcool.

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 11 de Julho de 2009
Para indicação da medida do raio, a representação da direita é a mais correcta (e nem sequer é necessário escrever R=25). No entanto, no problema em causa optou-se pela outra representação para que a resposta ao problema não fosse evidente.

NOTA: Em ambos os casos, o número 25 devia ficar paralelo à linha, mas este desenho está feito em Paint e não consigo fazer melhor...

Passatempo-relâmpago de 13 Jul 09 - solução da 1ª e 2ª fases


Resposta à 1ª fase
(Vê-se, à direita, a loja de chaves que vai ser a resposta da 2ª fase)
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Resposta à 2ª fase

domingo, 12 de julho de 2009

Passatempo-relâmpago - 10 Jul 09 - Solução

Página 109

Este post aparecerá automaticamente às 20h01m de 12 Jul 09. Os 2 leitores que mais se tiverem aproximado da resposta certa deverão escrever, nas 24h seguintes, para sorumbatico@iol.pt indicando moradas para envio dos prémios.
Como habitualmente, em caso de empate terá prioridade o 1.º "apostador".
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Actualização (21h50m): Se não me enganei nas contas, o 1.º prémio vai para Joana Luz (erro=1) e o 2.º para Nunormg (erro=4).

Passatempo-relâmpago - 12 Jul 09 - Prémio

Passatempo Calimero de 11 Jul 09 - Solução

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sábado, 11 de julho de 2009

O caso Tavares Moreira


Por J. L. Saldanha Sanches

O DR. TAVARES MOREIRA, ex-governador do Banco de Portugal, depois presidente de uma instituição bancária ligada às caixas de Crédito Agrícola, foi um dos primeiros banqueiros portugueses a encontrar-se a contas com a justiça.

Sujeito a um processo do Banco de Portugal (que desta vez actuou) viu a decisão do Banco ser confirmada pela primeira instância. Recorrendo para o Tribunal da Relação, este resolveu anular a decisão e mandar repetir o julgamento.

Hoje, segundo nos informa o interessado, o delito encontra-se prescrito. O dr. Tavares Moreira, segundo afirmou ao prestante "Público", pondera a possibilidade de processar o Banco de Portugal.

Uma das especificidades do nosso processo penal é que, além de existir, como por toda a parte, uma presunção de inocência antes da condenação em relação a crimes de colarinho branco, essa presunção é iniludível.

Se tudo correr de acordo com a intenção do legislador penal, se houver algum processo contra este tipo de actuação criminosa depois de alguma agitação, o processo será arquivado.

Se por acaso chegar à primeira instância, em princípio, o juiz terá dúvidas e o acusado absolvido. Se por acaso isso não acontecer, há sempre a possibilidade de recorrer para os tribunais superiores e conseguir que estes mandem repetir o julgamento.

Se mesmo assim se não tiver acabado com o processo, ainda há a possibilidade de ir para o Tribunal Constitucional.

Em suma, se não se obtiver uma absolvição ou um arquivamento pode sempre conseguir-se uma prescrição. Foi assim na Caixa Faialense, foi assim no presente caso.

No caso Tavares Moreira, como este afirma gravemente na sua entrevista, tudo se deveu a uma conspiração.

Pode mesmo aventar-se que tudo se deveu ao conhecido fundamentalismo do Banco de Portugal e à intransigência doentia com que se persegue em Portugal qualquer fumo de corrupção. No entanto, se não dermos isto como provado, surge uma questão desagradável.

Com esta regulação e com esta justiça (mesmo quando a regulação funciona, a justiça anula as suas decisões) como podemos ter actividade bancária em Portugal? A banca assenta numa relação fiduciária com os clientes. Na confiança (fiducia) do mercado: sem ela ou não funciona ou funciona com mais elevados custos de transacção.

A dureza da condenação de Madoff recorda-nos a importância que as economias de mercado dão a estas questões.

A comparação da velocidade dos dois sistemas (o deles e o nosso) deveria ser um motivo de contrição nacional.

Mas isso não vai acontecer:

Primeiro, porque ainda há alguns tolos que acham que o nosso sistema é óptimo e o mais importante é manter tudo. O nosso sistema é um exemplo para o mundo, o que é verdade.

Por exemplo a separação de carreiras entre juízes e ministério público faz parte do plano de Berlusconi para a reforma da justiça em Itália.

Depois, porque não se pode comparar a importância como factor de depressão nacional da verificação destes bloqueios que parecem intransponíveis com os que seriam provocados, por exemplo, pela eliminação da selecção nacional do próximo campeonato do mundo.

«Expresso» de 4 de Julho de 2009 - http://www.saldanhasanches.pt/

NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

À espera da gripe A

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Por Antunes Ferreira

VIVEMOS ESTES DIAS num País à espera de apanhar a gripe. A modelo A, está bem de ver, que antes se chamou mexicana e porcina. A vulgar, a que se trata com a trilogia dos AAA, não é, por mais que se verifique o contra-senso, não é só de um único A. Explico-me. A trindade que alguns até podem considerar santíssima pelos efeitos curativos verdadeiramente milagrosos, é a tradicional receita: Abafe-se. Abife-se. Avinhe-se. Muito melhor do que um qualquer comezinho Tamiflu. Incomparavelmente.

Entre nós, se há prática retintamente indígena, ela é a má-língua, as mais das vezes acolitada pela coscuvilhice e pela inveja. De tão pequeninos que somos, e normalmente habituados ao final da tabela, esse diletântico procedimento avoluma-se e atinge dimensões que à partida seriam inimagináveis. Dizer mal a torto e a direito dá-nos, aos Portugas, um consolo acentuado. Nisso – não somos os últimos, nem mesmo dos últimos.

Donde, a expectativa da pandemia não parece ser suficiente motivo de precauções, somente de umas quantas preocupações. Algumas delas posso enumerá-las sem receio de falhar muitas. Mas, a anteriori, uma primeira indignação. Lamentavelmente, a gripe A não começou em Portugal, por isso não se pode culpar o Poder por tal ter acontecido. Mas, cuidado. Há toda a legitimidade no apontar-lhe o dedo acusador por não ter conseguido que assim tivesse… acontecido.

Deixar fugir uma tal oportunidade de visibilidade internacional foi profundamente lamentável. Permitir que o início da endemia se tivesse verificado no México – foi, no mínimo, desleixo reprovável do Executivo de São Bento. Nisto, não pode haver meias-tintas. Ou somos capazes de o fazer, ou não somos. No caso vertente – não fomos. Por incompetência? Por inépcia? Por inércia? Certo é que não fomos. Consolamo-nos com a indignação face à impotência governativa. Valha-nos isso. Isso e a apresentação do Cristiano Ronaldo no Santiago Bernabéu.

Daí que decorram de tal incapacidade sequelas que se vão acumulando em sequência imparável. Não temos vacinas para prevenir a doença. Não temos, está tudo dito, o Ministério que nos devia tratar da saúde - não trata. Diz-se por aí à boca pequena que tal vacina ainda não existe neste infectado Mundo ou, se a há, ainda não foi aprovada, nem mesmo nos Estados Unidos. Estranho. Estranhíssimo. Em tal circunstância tem de se questionar de novo o Executivo: por que bulas não a descobriram, desenvolveram e testaram oportunamente? Mais uma demonstração da carência quase total da investigação científica entre nós.

E os contágios? E os locais onde os nossos compatriotas a têm conseguido apanhar? E as transmissões laterais, que o mesmo é dizer, locais? Falta uma vez mais uma atitude firme do Governo. Um decreto-lei já devia ter sido oportuna e previdentemente produzido, através do qual seria proibida a famigerada A. Ou, pelo menos, a sua transmissão. Hoje já somos 71; amanhã seremos milhões. Sem pílula que nos valha. Com um articulado preciso mas suficientemente amplo para permitir as mais diversas e antagónicas interpretações; mas com penas estipuladas com força dissuasora suficiente. E democrática, obviamente.

Haverá meios de prevenção e combate para 30 % da população, diz a ministra. O que é isso, 30 %? Peanuts. Neste País do faz-de-conta, os números deveriam ultrapassar os 130 %, no mínimo. E a matemática? Quero lá saber dessa malfadada questão que todos os anos serve para amesquinhar os examinandos com os péssimos resultados das raízes quadradas, das equações, dos algoritmos, das tangentes e dos cálculos de probabilidades. Na mouche: 130 %.

Fosse outro o Poder e também outro galo cantaria. Assim, na constância da nossa apagada e vil tristeza, estamos a sofrer a ignominiosa quarentena lançada sobre a fragata Bartolomeu Dias. Falha gravíssima do Ministério da Defesa. Então a bordo de um navio da Armada Portuguesa permite-se um tripulante com a gripe A? Despautério perfeito, inexistência de medidas disciplinares, é o que é. E o bom nome de Portugal?

Por estas e por outras, não admira que sejamos um País uma vez mais à espera. Desta feita da gripe A. Isto enquanto não vierem a B, a C e sabe-se lá quantas mais. O alfabeto tem uma porrada de letras.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Passatempo-relâmpago - 6 Jul 09 - Solução

Página 108

Caros amigos,

Quando esta solução aparecer, não estarei perto de nenhum computador, e só terei acesso à Internet no dia seguinte, e a uma hora tardia.

No entanto, quem tiver vencido o passatempo poderá constatar que isso sucedeu e, para ganhar tempo, escrever para sorumbatico@iol.pt, indicando morada para envio do(s) livro(s).

Recorda-se que só haverá 2 prémios se alguém tiver dado a resposta «108». De contrário, só haverá um prémio («O Regimento dos Espectros») - para quem mais se aproximou.

Olhem bem para os olhos dela

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Por Baptista-Bastos
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ESVOAÇA, EMBORA DISCRETO e módico, o perfume do poder e já o alvoroço se instalou nos militantes do PSD. Nos fóruns das rádios e das televisões, nos debates, nos artigos, nas preposições do Pacheco Pereira os sentimentos dominantes medeiam entre a glória do mando e o revanchismo. A euforia nunca foi boa conselheira. O próprio significado da palavra suscita precauções. Mas é preciso conhecer o significado da palavra.

O PSD, como se sabe, é constituído por uma série de ilhas, num oceano de atritos. O recente golpe de karaté aplicado pela dr.ª Manuela ao pobre Passos Coelho é paradigmático. O homem não foi, somente, afastado; foi vexado sem clemência. A senhora não abole distâncias: cria-as. Funcionando por exclusões, interdita, primeiro, qualquer veleidade de ascensão daqueles que a ela se opuseram; depois, cultiva o tribalismo, que desencoraja a mínima hipótese de dissenção. Naturalmente, esta prática despreza a ética.

O que se prepara, no caso (pouco provável) de José Sócrates perder as eleições é a aplicação de uma teia reticular de interesses particulares sobre o edifício do Estado. O PSD não dispõe de nenhuma estratégia de Governo. As soluções que vagamente expõe são as tradicionais da Direita. Qualquer preocupação de justiça é eliminada; as privatizações multiplicar-se-ão; a Saúde pertencerá às seguradoras com intervenção mínima do Estado, que será reduzido em todos os sectores da sociedade; aumento de impostos, mais repressão no mundo do trabalho. Nada de novo.

A dr.ª Manuela não alimenta o segredo das paixões. Nada promete que nos alivie do rude peso que, sabe-se lá como?!, tem sobrevivido a todas as penúrias impostas. Porque não haverá alterações de fundo, nem sequer remendos mal cerzidos, às avarias sociais de que temos sido vítimas. A responsabilidade do que nos acontece também terá de ser assacada ao PSD. Não há inocentes neste drama. O PS talvez tenha um comportamento menos brutal; porém, nunca concebeu ou estimulou uma consciência ética e estética que se prolongasse para além de si mesmo. Não é de estranhar que a dr.ª Manuela ameace rasgar um número ainda desconhecido, mas certamente vultoso, de decisões tomadas pelo Executivo Sócrates, caso seja "distinguida com o Governo" [sic].

Se há, manifestamente, uma tendência nos jornais, nas rádios, nas televisões e nas sondagens para se inflectir no PSD, isso deve-se mais ao desencanto que o PS provocou do que a méritos da dr.ª Manuela. A senhora é, rigorosamente, o que aparenta. E nada de bom se adivinha nessa aparência: algo de anacrónico, de deformado, incapaz de esboçar os contornos de uma sociedade mais justa.

Olhem bem para os olhos dela. Está lá tudo o que assusta.
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«DN» de 8 de Julho de 2009

terça-feira, 7 de julho de 2009

Primos misteriosos


Por Nuno Crato

CONHECEMO-LOS DA ESCOLA: dizem-se primos os números inteiros maiores que a unidade e que apenas são divisíveis por si próprios e por um — 2, 3, 5 e 7 são primos, enquanto 4, 6 e 8 não o são. Dizem-se primos, não por nenhum parentesco especial, mas sim por serem primordiais, por serem os tijolos a partir dos quais se constroem todos os outros números. O teorema fundamental da aritmética diz precisamente que todos os inteiros são decomponíveis de maneira única, aparte a ordem, no produto de primos. O número 12, por exemplo, é o resultado do produto de 2 por 2 e por 3, e não há nenhuma outra colecção de primos capaz de o obter.

Sendo tão elementares que recebem esse curioso nome, pensar-se-ia que os números primos são triviais para os matemáticos, e que estes andariam à procura de segredos em matérias mais complexas. Na realidade, os primos têm-nos intrigado durante séculos e continuam a ser objecto de investigação.

Três séculos antes de Cristo já se sabia que há um número infinito de primos, mas não se lhes conhece nenhuma fórmula geradora. Distribuem-se aleatoriamente entre os números inteiros, mas fazem-no de forma muito regular. À medida que progredimos na contagem, a sua percentagem entre os inteiros reduz-se de acordo com uma lei simples. Quando procuramos perto do número dez mil, por exemplo, aproximadamente um em cada nove números é primo; quando estamos perto mil milhões, apenas um em cada 21 números o é.

O estudo estatístico dos primos tem-se desenvolvido nas últimas décadas, mercê de meios computacionais cada vez mais eficientes. Sabe-se, por exemplo, que os primeiros dígitos significativos dos primos se distribuem uniformemente. Assim, há aproximadamente tantos primos começados pelo dígito 1, como começados com o dígito 2, como 3, e assim sucessivamente até se chegar a 9 (o dígito zero nunca pode ser primeiro significativo).

Há poucos dias, dois matemáticos espanhóis acabaram de descobrir outro facto surpreendente. Se é verdade que os primeiros dígitos significativos dos primos têm todos igual probabilidade, o mesmo não se passa para sequências finitas. Se pegarmos nos primeiros mil primos, por exemplo, encontramos 149 começando com o dígito 1 e apenas 15 começando com o 9. É uma distribuição semelhante à da chamada lei de Benford, que tem sido encontrada em muitos exemplos reais, tais como a contabilidade de empresas, os números de porta de rua e os índices de preços. Os matemáticos Bartolo Luque e Lucas Lacasa, da Universidade Politécnica de Madrid, num artigo publicado na revista «Proceedings of the Royal Society A» (DOI: 10.1098/rspa.2009.0126), mostram que uma lei de Benford generalizada, que se aproxima da uniforme à medida que o número de casos aumenta, se ajusta bastante bem aos primos conhecidos. É uma lei descoberta por físicos, no decorrer do estudo de processos naturais aleatórios. Reaparece agora no estudo de um tema de matemática pura. O grande mistério do mundo é o da unidade da matemática.

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 4 de Julho de 2009

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Sete anos depois


Por Alice Vieira

VIVI EM CASCAIS alguns dos melhores anos da minha vida. Anos que me marcaram profundamente: escrevi uma peça para o TEC e acompanhei os ensaios e todo o trabalho do teatro; escrevi um livro sobre a história da vila, que me fez praticamente “viver” meses na lindíssima biblioteca do Museu Castro Guimarães; entrevistei meio mundo para o “DN” ; corri as escolas todas da terra - e ainda tinha tempo para ouvir as histórias que o Sr. António, do bar da Praia da Duquesa, tinha para me contar de manhãzinha, quando eu acabava a volta pelo paredão e a freguesia ainda não tinha chegado.

Lisboa ficava no final da linha do comboio, que eu apanhava às 9 para ir para o jornal, e aonde regressava pelas sete da tarde.

A vila era luminosa, passeava-se pelas suas ruas, havia espaço para as pessoas.

Mas para mim os lugares nunca valem só por si: estão sempre intimamente ligados às pessoas que neles vivem comigo. E eu, que me gabo de ser racional, cabeça fria, pés na terra, a partir do momento em que a minha vida afectiva se desfez — fiquei absolutamente incapaz de voltar à vila.
Há sete anos que não entro naquela casa.

Há sete anos que não entrava em Cascais.

Até ontem.

Infringindo, não sei como, aquela regra de oiro que o Rui Veloso tão bem canta numa das suas canções—“nunca voltes ao lugar/ onde já foste feliz”— deixei-me levar pelo entusiasmo de um amigo, que achava que eu “precisava de espairecer”, e de repente vi-me enfiada num carro que corria pela marginal fora (desde que há auto-estrada, quem é que vem pela marginal?!), e a entrar em Cascais.

No centro de Cascais.

Sete anos depois.

Confesso: senti-me perfeitamente na pele de um emigrante que regressa à terra depois de 30 anos de ausência, queixos caídos, olhos esbugalhados, e uma porção de ”oh!” e “ah!” a saírem da boca (“que é do coreto?”, “coreto? qual coreto?”,”o que ficava ao pé da junta de freguesia!”, “ ó tempo que foi abaixo!”,“ah!”)

Cascais está a abarrotar de edifícios, de estruturas de vidro ou plástico no meio do jardim, de centros comerciais, de hotéis e mais hotéis e ainda mais hotéis, não deve haver palmo de terra que não tenha um hotel em cima, até a casa do ex-rei de Itália é um hotel!, só me espantei que o Museu dos Condes de Castro Guimarães não estivesse também já transformado num “Village” qualquer, mas não deve faltar muito.

Dizem-me que há óptimas coisas, o paredão arranjado, a ciclovia até não sei onde. Pois deve haver.

Mas olhamos, olhamos - , e não estamos em Cascais.

Olhamos, olhamos e de repente descobrimos que estamos, sei lá, em Marbella! E isto não é um elogio!

E volto a Lisboa, repetindo o verso de um poema de Manoel Bandeira: “Diabo leve quem pôs bonita a minha terra!”

«JN» de 4 de Julho de 2009

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Pilaretes do lado do Chimarrão e CPP

Dois pares de cornos


Por Antunes Ferreira

APARENTEMENTE a semana ia andando aos solavancos o que nada tem de especial no País que somos. É certo que o caso tripartido PT/TVI/PSD em que o Presidente da República e o Governo estavam metidos viera agitar um tanto as águas. De igual modo a constituição de Manuel Dias Loureiro como arguido também tivera o picante q.b.

Mas, de repente, os Portugueses – que já não o deviam fazer – espantaram-se com os corninhos do ministro Manuel Pinho. Não dele, esclareço, mas que pretendeu pôr ao deputado comunista Bernardino Soares. A foto insólita, anedótica e inconcebível de um ministro malcriado, saiu nas primeiras páginas dos jornais espanhóis, pelo menos até esta quinta-feira, 2 de Julho, em que escrevo esta crónica. Mas, pelo andar da carruagem, deverá já ter começado a correr o Mundo.

É o mesmo governante da papa Maizena, bem como é o que referiu que a crise já tinha passado – em Portugal, claro, porque no resto do orbe terráqueo não se notara nada, bem pelo contrário. E muitas outras inconveniências a que, agora, se usa chamar gaffes. Pinho pediu, naturalmente, a demissão e Sócrates, que o zurzira em plena sessão parlamentar, aceitou-a de imediato e fez avançar Teixeira dos Santos para a pasta da Economia e da Inovação, mantendo as Finanças e o cargo de Ministro de Estado. O portuense é, agora, um superministro.

Manuel Pinho veio, posteriormente declarar que «naturalmente» se arrependia, que é «uma pessoa educada» mas que «há certas situações que são muito difíceis de gerir quando alguém sente a sua honra atingida». No seu entender, a sua extemporânea e infeliz actuação, verificara-se porque o deputado do PCP estava a fazer «graçolas».

Pinho «explicou» ainda que ficou sobretudo ofendido com o facto de Bernardino Soares, num aparte, ter dito que ele tinha estado em Aljustrel «a passar um cheque» à equipa de futebol, sobretudo quando uma pessoa passa «noites sem dormir só para salvar postos de trabalho». Ali, disse ainda, os trabalhadores das minas «mostraram-se muito agradecidos», mas o PCP «não desculpa o sucesso que o Governo teve numa região que considera sua».

Estava-se nisto na madrugada de sexta-feira quando se concretizou o rebentamento da bomba que são as eleições do Benfica. Outro par de cornos, desta vez postos pelo demissionário presidente da Assembleia Geral dos da Luz, Manuel Vilarinho, ao Conselho Superior de Magistratura (CSM) que veio esclarecer a decisão do juiz do Tribunal Cível de Lisboa que admitiu a providência cautelar destinada a suspender o acto eleitoral dos encarnados.

Outra foi a leitura de Manuel Vilarinho, que manteve a lista de Luís Filipe Vieira nas eleições de hoje: o presidente da Assembleia-Geral do Benfica considera que a não há qualquer ilegalidade na lista do presidente demissionário, que se recandidata ao lugar. Para aumentar a confusão, uma fonte oficial do CSM, órgão máximo dos juízes, disse ontem ao DN que a providência cautelar admitida pelo Tribunal Cível de Lisboa suspende a lista de Vieira. «Foi entregue uma providência cautelar que foi aceite. Sendo assim, decorre da lei que o acto que se pretende impugnar está suspenso até à decisão final».

Se uma semana com um par de cornos já agita o pessoal e a atitude do ministro Pinho era suficiente para agitar a malta neste tempo de crise, o que dizer da segunda armação córnea? Só posso retirar a conclusão de que ela ainda veio dar mais salero a estes sete dias. Falando de cornos, há forçosamente que terminar com salero. Y olé! Ou de maridos enganados, está bem de ver…

A Liberdade de Expressão na Universidade do Minho

Por Maria Filomena Mónica

DANIEL LUÍS É ASSISTENTE de Sociologia na Universidade do Minho. Desde há anos que tem um blogue, «Dissidências», onde coloca brincadeiras satíricas, incluindo textos e vídeos. Há dias [Mar 2008], o director do seu departamento, Carlos Estêvão, declarou que o conteúdo do blogue – onde se brincava com a política, a religião e o desporto – era desprestigiante e que, por isso, aquele deveria acabar. O docente acabou por ceder ou, antes, por semi-ceder: continuaria a escrever, mas deixaria de pôr no ar os vídeos, uma vez que os colegas consideravam que «a sua linguagem, imagens e tom jocoso e desrespeitoso» eram atentatórios da dignidade da instituição.

Vale a pena salientar dois aspectos: o primeiro diz respeito ao facto de o docente ser contratado a prazo, ou seja, sem base material para se revoltar contra os superiores; o segundo, que o blogue não se debruçava sobre a Universidade, mas sobre temas gerais. Há uns meses, a London School of Economics censurou um docente que nas horas vagas se entretinha, através de um blogue, a denegrir a instituição, declarando que ninguém ali se deveria matricular, visto os professores serem uma cambada de tontos. Neste caso, percebo a indignação dos responsáveis. Mas não foi isto que se passou na Universidade do Minho, a qual, pura e simplesmente, se arrogou o direito de exercer censura. Apesar de o negar, é disto que se trata: o Dr. Carlos Estevão chamou à pedra alguém que nada mais fazia do que escrever sobre os traços sociais que lhe pareciam ridículos.

Por muitos serem anónimos, devo dizer que não vejo blogues – um dia até disse que os considerava o equivalente das frases apostas nos urinóis dos postos de gasolina – que não conheço o docente e que nada me move contra esta Universidade. Mas o gesto simboliza o clima que parece estar a instalar-se nas escolas portuguesas. É por odiar o velho princípio do «respeitinho» que, independentemente da qualidade do seu blogue, apoio Daniel Luís.

Março de 2008

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Dar pérolas a PORCOS

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Rua dos Moinhos - Casal da Granja - Várzea de Sintra
1 Jul 09 (ou qualquer outro dia...)

De há 28 anos a esta parte, passo aqui várias vezes por semana, e o aspecto é sempre este - ou pior.
Repare-se no pormenor da placa avisadora, que levou um tiro de caçadeira. E repare-se também que um engraçadinho apagou a palavra NÃO logo a seguir às palavras LINHA VERDE, alterando o sentido da frase.
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NOTA: Seria interessante perguntar, a 'quem de direito', quantas coimas foram, até hoje, aplicadas, até porque, em muitos casos (talvez até a maioria), a origem do lixo é perfeitamente identificável. Mas, pensando melhor... valeria a pena o trabalho?!

Passatempo-relâmpago - 2 Jul 09 - Solução

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Afinal, que quer o PS?

Por Baptista-Bastos

NÃO É DE ESTRANHAR que uma sondagem recente atribua "empate técnico" ao PS e ao PSD, nas legislativas. A prática governamental, nestes últimos anos, é um empreendimento de confronto com sectores sociais decisivos, e uma construção de poder (direi pessoal) que repousa em imprevisíveis decisões individuais. O modelo não se rege por princípios; obedece a reflexos. Chamado de "reformas", foi elogiado pelas faixas mais retrógradas da nossa sociedade. E a sociedade está em fanicos.

Notoriamente, o orgulho de Sócrates foi amolgado com a derrota nas "europeias". Até hoje engole em seco, mas continua a combinar os mesmos elementos modulares que têm feito a sua perdição. Parece que não consegue definir o corpo social português e delimitar as fronteiras entre as classes. Sabe-se que nada tem a ver com "socialismo" como instância histórica, ideológica e ética. Também se sabe que conseguiu domesticar aqueles dos seus camaradas que, tenuemente embora, ainda agitavam as bandeiras de uma específica identidade política. A derrocada de 7 de Junho alarga-se em vergonhosas cumplicidades. Nenhum "socialista" se rebelou. Talvez porque já não haja socialistas. Talvez porque o socialismo nunca existiu. Talvez. Uma única certeza: José Sócrates nunca foi socialista.

Ele próprio dá vivo testemunho dessa evidência. Há dias resolveu convidar um grupo de pessoas para o ajudar a reflectir sobre o País, e procurar as soluções adequadas. Os vigorosos pensadores não eram gente de Esquerda, ou afins. Nada disso. T'arrenego, Satanás! Alguns pertenciam àquele agrupamento de estilistas conhecido pelo Compromisso Portugal. A notícia correu fértil. Logo a seguir, o dr. Carrapatoso, corrigindo o que semelhava ser a natureza dos signos, veio afobadamente dizer que nada tinha a ver com os desígnios da amena reunião. Uma selecta jantarada, de duvidosa eficácia.

Cada vez mais desarvorado com os sucessivos dislates, José Sócrates decidiu, agora, consultar os "magos" que ajudaram Barack Obama a conquistar o poder. Uma mistura de marquetingue e de Alvin Tofler. E, embora um técnico português de publicidade, altamente qualificado, tenha dito que não há nenhum génio que consiga, hoje, vender fruta bichada, Sócrates não abdicou de escutar os americanos. Atingimos a era do desequilíbrio e da alucinação. O Estado é entendido como uma empresa, não como a configuração de um corpo político, social e administrativo.

Afinal, que deseja de nós o secretário-geral do PS? Ambiciona os votos de quem? Enquanto esta espessa mediocridade sem alma e sem valores campeia infrene, que nos espera? Manuela Ferreira Leite? Dá que pensar.

«DN» de 1 de Julho de 2009

Há 90 anos, sabíamos menos sobre o passado

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Por Nuno Crato

«EU DIGO-TE, apesar de a história já ser velha quando a ouvi. E o homem que ma contou já não era novo. Tinha na altura 90 anos» — é assim que Crítias começa a explicar a famosa história da Atlântida, relatada por Platão no seu diálogo Timeu. Afirma que o caso tinha sido primeiramente contado a Sólon por um «sacerdote muito velho». E que tudo se tinha passado nove mil anos antes.

Quem tenha lido o célebre diálogo de Platão não terá esquecido estas páginas sugestivas e fantásticas. Um homem velho fala de uma história que em jovem lhe tinha contado um velho, que por sua vez em jovem a tinha ouvido de um outro ainda mais velho. A idade aparece como abonatória da sabedoria e aproxima o evento histórico. Assim é habitualmente na ficção: os idosos estão mais perto do passado.

Mas é absurdo pensar que umas décadas de memória, mesmo que muitas para uma vida humana, possam trazer para mais perto de nós acontecimentos que se teriam passado há centenas ou milhares de anos. Se assim fosse, a história ir-se-ia destruindo. Cada vez saberíamos menos sobre o passado. E, em muito do que verdadeiramente importa, cada vez sabemos mais.
Há pouco tempo tivemos oportunidade de ficar a saber mais sobre um período e um homem sobre que decorrem agora mais de 400 anos. Foi finalmente reeditada com tradução para português moderno um conjunto de trabalhos de Pedro Nunes que até agora apenas se podiam encontrar em fac-símile, sem tradução e sem comentários explicativos.

Os trabalhos em causa são conhecidos como os tratados latinos de navegação, e foram publicados pela primeira vez em Basileia em 1566, num volume intitulado Petri Nonii Salaciensis Opera (Obra de Pedro Nunes de Alcácer do Sal). Estavam em latim, como se depreende do título, e constituíam um esforço do nosso matemático para divulgar pela Europa as suas descobertas matemáticas.

Fala-se hoje muito em internacionalização da ciência. E fala-se bem, pois a ciência é um esforço internacional que não se pode fazer em isolamento. O nosso maior cientista de sempre, como muitos historiadores de ciência se lhe referem, escrevia em português quando fazia obras para ensinar os seus alunos, os pilotos ou os professores de pilotos, mas escrevia em castelhano quando queria ser entendido pelos algebristas espanhóis e em latim quando queria ser lido na Europa. Se fosse hoje vivo, certamente escreveria em inglês, que substituiu o latim como língua científica internacional, com a vantagem de ser um idioma vivo, que além de servir para a comunicação entre cientistas, serve também para o mundo de negócios e para o turismo.

Os tratados de navegação agora publicados são uma obra maior. Como escreveu a comissão científica que procedeu à sua edição, constituem «o mais importante legado científico de Pedro Nunes e, como tal, são dos mais importantes e significativos documentos da história da ciência portuguesa». A inexistência de uma edição moderna, «era uma das maiores lacunas da cultura portuguesa, repetidamente denunciada por muitos. Esse problema fica agora resolvido.»

O volume, que constitui o tomo IV das Obras de Pedro Nunes em edição pela Academia das Ciências e pela Fundação Gulbenkian, tem um total de 805 páginas, das quais quase 300 são notas explicativas feitas pelo professor Henrique Leitão. Os historiadores estão agora prontos a saber muito mais sobre Pedro Nunes do que antes sabiam. A memória viva que é este volume não é uma história velha, contada por velhos a outros velhos. É o resultado do sangue fresco instilado à nossa história da ciência por uma nova geração de investigadores. Uma geração onde há cada vez mais jovens.

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 27 de Junho de 2009 (adapt.)