quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Pais e filhos - Passatempo-relâmpago - Solução

Pág. 151

Quem mais se tenha aproximado deste valor tem 24h para escrever para sorumbatico@iol.pt, indicando morada para envio do prémio. Em caso de empate, o vencedor será quem deu o 1.º "palpite".

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Uma história simples


Por Baptista-Bastos

DESÇO A AJUDA até à Madragoa. É sábado, vou dançar à Guilherme Cossoul, calhou desta vez. Não há atenuações nem imposições: são os rituais. Cabelo com popa, brilhantina a preceito, camisa da tabela, sapato de tacão alto, calça afiambrada. Vou para o baile. Ainda não sei, mas vou saber que, mais do que ir para o baile, vou arranjar um amigo para toda a vida. Foi amizade à primeira vista, com o Raul Solnado.

A partir daí não nos deixámos de ver, de almoçar, de jantar, de ir aos bares, de falar de mulheres, de telefonar com frequência. Quando sofreu um enfarte violentíssimo, em Caracas («um enfarte do caraças», como gracejava), ralhou-me porque me atrasara na chamada telefónica. O que nos uniu, durante cinquenta anos, foi a certeza da constante presença do outro, em qualquer circunstância ou situação. Escolher esta fraternidade, ou por ela ser tocado, assenta, sem outra justificação, em cumplicidades de tipo comunitário. Modéstia à parte, éramos de Lisboa. Pertencíamos aos bairros, sempre o reivindicámos, e havia, no mais íntimo dos nossos corações, um compromisso que designava a origem comum. Um dia, no Rio de Janeiro, perguntaram-lhe de onde ele era. Respondeu: «De Lisboa!» E o interlocutor: «Sim; mas de onde?» E ele, abrindo os braços: «De toda!»

Arranjou-me empregos extraordinários em épocas de aperto e de perigo. Viajei com ele para o Brasil, na qualidade de secretário, quando assinou um contrato fabuloso com a TV-Rio e cobrou um êxito incomum. Tínhamos a paixão do samba, dançáramos com belas raparigas, pelos Santos Populares, ao som de troupes-jazz que tocavam canções de Dick Farney e de Lúcio Alves, e Copacabana não era uma praia era o paraíso sonhado. «O primeiro que for ao Brasil, leva o outro», eis o acordo. Não havia fronteiras flutuantes nesta identidade que a amizade assegurava. «Então, pá, como é que vai isso?» E ele: «Bem, muito bem. E tu?» «Estou a aguentar-me.» Quando nasceu o Zé Renato, amanhecemos numa noitada de bares e de copos. E fomos à clínica, com dois ramos de flores comprados na Ribeira Nova. Quando nasceu o meu primeiro filho, o Pedro, fui ao teatro dar-lhe a notícia e comemorar com uns uísques.

Cada um era o próprio, e não precisávamos de muitas palavras para exprimir a convivência, resultante de uma longa história comum. A amizade exige a eleição e uma confiança que se não elabora, porque genuína. Penso agora: antes de nos fazer rir, ele passou a vida a ouvir-nos para nos contar - com uma ternura inextinguível e um afecto magoado e melancólico. «Nenhuma morte é natural», disse-o Jorge de Sena. E esta é a menos natural de todas as mortes. O vazio alarga-se, tenebroso, cavo, oco, inelutável.

E agora, Raul, peço-te adeus.

«DN» de 12 de Agosto de 2009

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Passatempo-relâmpago de 10-11 Ago 09 - Solução


Página 59


domingo, 9 de agosto de 2009

Do plágio à fraude científica


Por Nuno Crato

O EXPRESSO da semana passada (ver artigo relacionado, no final do texto), trazia uma extensa reportagem sobre o plágio nos trabalhos universitários. O problema é sério, como se mostrou na reportagem, e tem sido agravado com as imensas possibilidades de recolha de informação na Internet e com a facilidade digital de recorte-e-cola. Há teses que incluem, sem os citar, extractos extensos reproduzidos de outras fontes e há trabalhos que são completamente copiados de documentos existentes na Internet.

Muito terá mudado com as novas tecnologias, e para melhor. Mas será confundir informação bruta com conhecimento pensar que o professor deixou de ter conhecimento para transmitir, passando a ser unicamente os alunos a buscá-lo, construí-lo e organizá-lo. Bibliotecas sempre existiram, tornaram-se de consulta mais fácil pela Internet, que é algo como uma imensa biblioteca do conhecimento humano, mas a questão fundamental não se alterou: o ensino tem de ser uma transmissão organizada de conhecimentos guiada pelo professor. Se há mais recursos, isso significa que se abriram novas possibilidades de enriquecer o ensino. Não que o professor se deva limitar a promover 'a construção do conhecimento pelo aluno' ou, como dirão os mais cínicos, a 'estimular o recorte-e-cola'.

Na reportagem do Expresso, o professor Seabra Santos, reitor da Universidade de Coimbra, colocou o dedo na ferida: "Quanto mais regulares forem as reuniões entre orientadores e orientandos, mais fácil é combater a fraude". Ou seja, quanto maior for o acompanhamento dos professores ao trabalho dos alunos, mais difícil será apresentar trabalhos que sejam cópias de textos pescados na Internet.

Infelizmente, contudo, algumas escolas, departamentos e professores não actuam da melhor maneira. Há os que deixam os alunos sozinhos a escolher os tópicos, que não indicam literatura nem dão sugestões de pesquisa. Limitam-se a ler apressadamente o trabalho final. Assim, o plágio é fácil e, mesmo quando não há fraude, é pouco provável que o trabalho seja verdadeiramente enriquecedor para o estudante.

Proliferam confusões sobre o que é um trabalho de pesquisa original. Não é uma reflexão magna sobre o passado e o futuro do universo, nem é uma nova síntese da filosofia ocidental, de Parménides a Popper. É, habitualmente, uma investigação sobre um tema minúsculo e muito especializado, com conclusões modestas e com impacto reduzido. Mas exige muito trabalho original.

Em alguns locais e áreas, há professores que orientam simultaneamente uma dúzia ou mais de teses de mestrado e de doutoramento, o que é praticamente impossível de fazer de forma responsável. Uma orientação consciente é algo muito exigente e directivo, mesmo em trabalhos de doutoramento, em que o essencial é construído pelo próprio estudante. A orientação começa pela escolha do tópico que apenas pode ser feita por quem estiver na fronteira do conhecimento e souber onde se pode avançar algo de novo. Prossegue no método de investigação, que obriga a trabalho de laboratório, de campo ou teórico. Tudo isto é mais difícil de plagiar do que especulações sem rumo. Quando se procura contribuir para a ciência, a fraude é mais difícil.

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 8 de Agosto de 2009

O Raul e os jaquinzinhos


Por Antunes Ferreira

JÁ LÁ VÃO UNS LARGOS ANOS, mesmo muito largos. Tive a oportunidade de conhecer o Raul Solnado, aliás, soldado, tal qual ele se me apresentou. Foi no Diário de Notícias, era eu ainda chefe de Redacção adjunto do Mário Zambujal, compincha dos sete costados, o primeiro dos bons malandros, prenúncio de um best-seller a cujo trabalho de parto assisti. Mas, no qual juro que não participei.

O Raul – a partir de então passei a tratá-lo apenas desta maneira singela – ainda não tínhamos desapertado a bacalhauzada, já estava a tratar-me por tu. E pegava na deixa do Mário, ou seja, para ele eu passava a ser o Antunes-sem-mais-nada. Com o teu tamanho, não precisas do Ferreira para nada. Nem esbocei uma mísera tentativa de protesto por esse atentado ao meu apelido de guerra. O Raul dissera, estava dito.

A empatia estabeleceu-se definitiva e para durar. Ambos assim o entendemos. Porra! Qual entendemos? Praticámos, militámos, assim é que foi, assim é que é, assim é que será. Não digo até à eternidade, por dois motivos. Primeiro, porque não acredito nela; segundo porque, mesmo que a aceitasse, eu estava definitivamente eliminado, o Raul levava já a camisola amarela.

Meses depois, fomos almoçar à Fonte dos Passarinhos, ali ao Calvário. Ou antes, mandibular – verbo que era uma criação dele. Eu ia fazer o Anuário do DN, nas oficinas do antigo Anuário Comercial, nas instalações amplas e libertárias que naquela zona existiam, depois adquiridas pela Mirandela. Ele aceitou a Minho honesta proposta e veio para una jaquinzinhos com arroz de tomate com ervilhas, especialidade da Dona Helena, cozinheira aprimorada, casada com um dos sócios do estabelecimento.

A receita por tais alturas era muito simples e claramente enunciada. Os bicharocos absolutamente fugidos às normas comunitárias, ou seja miseravelmente minúsculos. Só não traziam os biberões, na expressão do Raul. Mas tinham que vir ao prato esturricadinhos, para desinfectar alguma fralda esquecida no amanhar a que se sujeitavam antes da frigideira. O arroz devia ter o qb de pimento aliado ao tomate, ambos estrugidos e as ervilhas tenrinhas. A minha Mãe fora a criadora do pitéu e dado o mesmo a provar ao Raul, ele próprio declarara-se soldado de tal rancho.

Era no tempo em que o Raul descobrira petróleo no Beato. Todas as noites o seu Teatro Villaret esgotava a lotação. Um público rendido ao talento de um dos maiores músicos portugueses de sempre seguia à gargalhada as peripécias do taxista Juvenal Costa que encontrara no subsolo do seu quintal o precioso ouro negro que tanta falta fazia e tamanha mossa originava na frágil economia (?) portuguesa.

O Fernando Mata era para também vir amesendar connosco, mas porque tinha a unha do dedo mindinho pisada não compareceu. Os carapauzinhos neo-natos estavam um mimo, comiam-se inteirinhos, as cabeças foram particularmente aplaudidas e deglutidas. O arroz triunfante. Nem o de favas do Jacintinho de Tormes se lhe igualava, fomos unânimes.

Contou-me, sublinhou que em primeira mão, que a RTP ia transmitir a peça. Naturalmente com as necessárias adaptações exigidas pela transmissão no pequeno ecrã. Deixa-te de merdas, Antunes, isto é entre amigos, não é para publicar já, não te armes em parvo com cachas e essas coisas. Jurei-lhe pela minha virgindade que nunca praticaria um tal desatino. E ele, virgem? Só se for nas solas dos pés.

Respeitosamente o informei de que nunca pensara – ó sacrilégio – equiparar-me à Senhora de Fátima, mas que nascera a 20 de Setembro de 41, daí que fosse Virgem. Referes-te, portanto ao horóscopo. E sorriu. A minha tia que gostava de dizer coisas também era e teve três rapazes e duas raparigas.

Há bocado, a Alice Vieira mandou-me um mail (um imeile, como eu uso) a dizer só Morreu o Solnado. Pronto. Assim sendo, antes do funeral, lá vou passar na Fonte dos Passarinhos em busca dos jaquinzinhos, mesmo sem arroz de tomate com ervilhas e uns niquinhos de pimentos.

sábado, 8 de agosto de 2009

Cenas de Lagos

A
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B
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C
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D
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E
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A imagem 'A' foi a que se apresentou no Sorumbático, e é uma parte da 'B' . Esta já mostra algo mais: uma carrinha branca mal estacionada e um jipe em cima de um canteiro (onde estaciona todos os dias).

A imagem 'C' mostra o mesmo jipe (em beleza!), e as outras mostram aspectos do estacionamento selvagem em redor.

De facto, a PSP só tratou dos carros que bateram e depois foi-se embora.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Dito & Feito


Por José António Lima

HÁ PRECISAMENTE UM ANO, José Sócrates e o PS, cheios de si próprios e do poder da sua maioria, decidiram sujeitar o Presidente da República a uma insensata prova de força, a pretexto do Estatuto dos Açores. Insensata, politicamente infantil e infundamentada (como vários constitucionalistas então alertaram), gratuita e irresponsável no que respeitava à falta de sentido de Estado demonstrada.

Entretanto, veio a crise internacional, o desabar das ilusões de crescimento da economia, um novo e maior desequilíbrio das contas públicas, o aumento em flecha do défice e do desemprego. Vieram as greves e manifestações dos professores. Vieram as notícias do ‘caso Freeport’. Veio o traumatizante descalabro socialista nas europeias. E veio, finalmente, o acórdão do Tribunal Constitucional dar plena razão às objecções de Cavaco Silva sobre o enviesado Estatuto dos Açores.

Como reagiu o PS? O deputado Ricardo Rodrigues, com as suas habituais esperteza e subtileza argumentativas, apareceu a acusar o TC de «centralista» e de funcionar em sintonia com os interesses de Cavaco e do PSD. O socialista açoriano Carlos César, com o ego insuflado pelo seu pequeno poder regional, surgiu a proclamar que «não recebe lições» de ninguém, de «nenhum juiz ou titular de órgão de soberania». Os socialistas não recebem lições? Deve ser por isso que não aprendem nada. E que não percebem que o país e a predisposição política do eleitorado mudaram muito nestes últimos doze meses: os portugueses fartaram-se da arrogância maioritária e da falta de resultados desta governação.

Quem também parece não perceber os ventos de mudança é Manuela Ferreira Leite. Ao excluir das listas do PSD nomes como Passos Coelho ou Miguel Relvas deu um sinal público de autoridade. Mas também de fraqueza e pequenez política. E, sobretudo, de incapacidade de unir vontades, de congregar esforços, de abrir o partido a uma maior pluralidade de vozes e opiniões.

Ferreira Leite preferiu o autoritarismo da exclusão sectária à tolerância da inclusão abrangente. Quem afasta Passos Coelho para impor nas listas do PSD figuras a contas com a Justiça, como António Preto ou Helena Lopes da Costa, aliena a sua legitimidade política, não tem ética a que se agarrar. Além de oferecer a José Sócrates e ao PS a melhor notícia desta pré-campanha eleitoral.

«SOL» de 7 de Agosto de 2009

Bilhetes de Colares


Por Maria Filomena Mónica


UMA DAS COISAS MAIS TERRÍVEIS que nos pode acontecer ao longo da vida é a perda de um amigo. Com sorte, até aos cinquenta anos apenas o sabemos de forma teórica e nebulosa; depois, o facto torna-se concreto e frequente. Mas a trivialidade em nada contribui para diminuir a dor. Um dia, verificamos que já não podemos contar-lhe as nossas aventuras, segredar-lhe a última intriga, conversar sobre o livro que acabámos de descobrir. Foi isto que me aconteceu com A. B. Kotter, o inglês que, depois de ter passado vários anos em Portugal, morreu, em circunstâncias misteriosas, no Brasil.

Muitos se terão esquecido das crónicas que começou a publicar no jornal A Tarde, em Junho de 1982, passando por vários periódicos, até terminar, em 1998, no semanário O Independente. Mais do que de si próprio, falava do país que «o havia acolhido generosamente no seu seio». Dele, apenas sabemos que, após uma vida activa como advogado em Londres, entremeada por tarefas secretas para o MI6, se reformara, tendo escolhido Portugal como destino, não só pela amenidade do clima e a simpatia das pessoas, mas também pela tranquilidade social. Foi apressadamente que deixou a Várzea de Colares: nem a mim confidenciou o motivo, o que, conhecendo-o, não me ofendeu.

Relendo-o hoje, interrogo-me como foi possível a este estrangeiro, mais familiarizado com Thomas Hardy do que com Cesário Verde, escrever sobre Portugal de forma tão certeira e cordial. Até eu sou capaz de citar de memória algumas das suas frases: «Os homens portugueses ficam meninos toda a vida e finalmente acabam com complexos de masculinidade». Foram as saudades de Kotter que, passados dez anos sobre a sua morte, me levaram recentemente à Casa do Alentejo, a fim de ouvir o Embaixador José Cutileiro evocar o amigo comum. Se ainda não tem o livro, vá depressa a uma livraria, a fim de comprar os seus «Bilhetes de Colares» (Assírio e Alvim, 2007). Eu não tenho muitos amigos, mas os que tenho são bons.

Abril de 2008

Pelo direito ao Voto Nulo

Por Manuel João Ramos

Um Comunicado do Partido Nulo

Acaba de ser criada a secção portuguesa do PARTIDO NULØ.

O PARTIDO NULØ congratula-se com o resultado das sondagens publicadas pelo Expresso/SIC/Rádio Renancença e pela TSF, que nos consideram a 6ª força política mais votada, com uma percentagem próxima do CDS/PP, e com maior potencial de crescimento.

Este resultado, conjuntamente com a elevada percentagem de indecisos, a menos de dois meses das eleições, é um sinal de grande optimismo e de potencial crescimento para o PARTIDO NULØ.

Face à situação política do país, almejamos alcançar em breve o lugar de força política mais votada em Portugal, substituindo a abstenção.

Cremos que a elevada abstenção oferece um conveniente pretexto para governações minoritárias, tendencialmente alheadas dos interesses dos cidadãos e que só o voto nulØ surge como uma alternativa plena de potencial expressivo individual e colectivo.

Através do voto nulo, pretendemos afirmar a legitimidade do sistema de representação popular. Clamamos por melhores candidatos, melhores programas políticos, maior capacidade de entendimento das necessidades do país.

Através do voto nulo, afirmamos também a nossa criatividade individual: cada voto nulo é único; e cada voto nulo representa um potencial estético ímpar no contexto eleitoral.

Apelamos ao voto nulØ porque recusar os maus candidatos que se apresentam a eleições é um direito legítimo.

Não pretendemos governar. Pretendemos sim que quem nos pretende governar evidencie qualidade para tal.

Exigimos que o voto nulØ tenha expressão real nos órgãos colegiais (Assembleia da República, Executivos e Assembleias autárquicos). Queremos que os lugares elegíveis sem votantes suficientes sejam deixados vagos, para lembrar às outras forças políticas que o voto nulØ é um voto consciente e empenhado.

www.partidonulo.net

partidonulo@gmail.com

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A Europa não existe

Por Baptista-Bastos

AS NOSSA INDECISÕES nascem das nossas perplexidades. Que se faz, quando não sabemos o que fazer? Mas fomos nós próprios que nos colocámos nesta situação. Obviamente, manipulados, como se as coisas fossem aquelas que nos apresentavam. O resultado está à vista. Somos pertença de uma casta que se alterna no poder e asfixia-nos com decisões erradas e sem nenhuma preocupação pelo nosso futuro. Conhecemo-nos cada vez menos. Vendem-se muitos livros e raciocina--se pior do que há anos, e através de fórmulas infantis. Basta ouvir aqueles que, todos os dias, nos fazem ouvi-los para se entrar no tédio maciço do desencanto.


Olhe só para isto: batucam nas nossas mentes a ideia de que somos Europa, conviemos à Europa, dependemos da Europa. Nada sabemos da Europa. Mas já soubemos quem era quem na Itália; seguimos de perto a edição dos livros de Vittorini, de Pavese, de Carlo Bo, de Morávia, de Pratolini; conhecíamos os filmes e os nomes, tomávamos partido por este e por aquele, deixávamo-nos influenciar pelas polémicas. O mesmo sucedia com a Espanha, com a França, com a Alemanha e, até, com a cultura dos países escandinavos. Hoje, ignoramos tudo, ou quase. A Europa é-nos um mistério que se aprofunda. Viajamos mais e conhecemos menos, para retomar a cínica fórmula de Savater. Mas também a literatura, o teatro, o cinema e a vida norte-americana acicatavam a nossa curiosidade. Era a grande época de Hemingway, de Faulkner, de Sherwood Anderson, de Caldwell (que esteve em Portugal); e de todo aquele manancial de cinema. A saga dos resistentes ao macartismo foi, também, a nossa saga. Pessoalmente, possuo uma enorme biblioteca desses contemporâneos capitais. Revisito-os com a ânsia de um velho caçador de textos. Não fora, ocasionalmente, a coragem (digamos assim) de editoras quase marginais, que desejam preservar a liberdade num mundo caracterizado pelo conformismo e pelo lucro, desconheceríamos, por completo, as culturas de quase todas as nações europeias.

Que Europa é esta? O poder fundou a sua pretendida legitimidade na ideia da irreversibilidade do capitalismo. E a Europa é um imensíssimo território de negócios, nascido de uma lógica "comunitária" que despreza os aspectos culturais, sociais e humanos. A cobiça, a ganância, o lucro definiram o corpo social, político e económico do projecto. Não foi necessária a criação da União para sermos europeus. A Europa era uma cultura antes de ser Estados e nações. E o curioso, actualmente, é que os europeus nunca tiveram tanta consciência do seu número, e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade em se "agrupar".

Dá para reformular a famosa frase de Georges Arnaud, n' O Salário do Medo, sobre a Guatemala: a Europa é um sítio que não existe; eu vivo lá.

«DN» de 5 de Agosto de 2009

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Sob a protecção de Júpiter

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Por Nuno Crato

DIA 19 DE JULHO, quando um cometa atingiu Júpiter deixando sobre ele uma gigantesca marca, os astrónomos congratularam-se pela rara oportunidade de observar uma colisão de astros no sistema solar. Quinze anos atrás, tinham observado o impacto do cometa Shoemaker-Levy sobre o mesmo planeta. Ao contrário deste, que tinha sido previsto com antecedência, e sobre o qual telescópios de todo o mundo na altura se debruçaram, o impacto de 19 de Julho foi totalmente inesperado.

Quem pela primeira vez notou uma mancha nova sobre o planeta foi um astrónomo amador australiano, de nome Anthony Wesley. O achado foi confirmado pelos maiores observatórios do mundo, que estudaram a composição dos gases e partículas libertados, semelhantes aos que tinham sido ejectados pelo cometa Shoemaker-Levy. Com grande probabilidade, o objecto que caiu sobre Júpiter era um cometa.

Houve quem estranhasse que tivesse sido um amador a descobrir a rara ocorrência. Mas isso acontece frequentemente com eventos imprevistos. Os profissionais têm programas de estudo definidos e não vasculham os céus ao acaso, antes aproveitam os raros e dispendiosos momentos de acesso aos observatórios para efectuar estudos precisos e há muito programados. Os amadores têm, em geral, mais tempo para observar os astros sem propósito definido. Numa noite podem fotografar a Lua, observar a grande nebulosa de Orionte e deter-se ainda sobre Júpiter. Por essas razões, os grandes caçadores de cometas, que descobrem anualmente muitos desses astros, são quase sempre amadores.

Os cometas que inesperadamente aparecem nos céus são originados na chamada nuvem de Oort, que rodeia o nosso sistema planetário. É nuvem gigantesca e muito rarefeita, de objectos que remanescem da nébula primordial que originou o sistema solar. Entre as poeiras e objectos que aí existem há pedaços de gelo sujo que, ocasionalmente, por efeito da passagem por perto de uma estrela ou por outra perturbação gravítica, abandonam essa região e aproximam-se do Sol. Nessa altura, esses objectos começam a derreter-se e revelam-se como cometas, com cabeleiras e extensas caudas. Terá sido um desses cometas imprevistos que se abateu sobre Júpiter em 19 de Julho.

Ao registar este impacto, os astrónomos têm ainda um outro prazer. Confirmam uma ocorrência que, segundo todos os cálculos, nos tem protegido repetidamente de impactos cósmicos devastadores. Confirmam que Júpiter, assim como Saturno, tem actuado como barreira que impede muitos cometas de atingirem a Terra.

A vida sobre o nosso planeta tem sido permitida pelo facto de os grandes impactos cósmicos terem sido muito raros. Acredita-se que há cerca de 65 milhões de anos uma colisão precipitou o fim da era dos dinossáurios. Há 40 milhões de anos registou-se outra extinção de vida generalizada, possivelmente também devida à queda de cometas sobre a Terra. Mas os períodos tranquilos têm sido muito longos.

Esta semana ficou a saber-se mais sobre a nuvem de Oort devido a um trabalho de dois cientistas da Universidade de Washington publicado online pela «Science». De acordo com os seus cálculos, a frequência com que cometas caem sobre o nosso planeta é muito menor do que se pensava. Os cálculos apontam para órbitas de colisão mais precisas do que antes se imaginava, mas continuam a mostrar que os planetas gigantes são uma barreira protectora do nosso planeta. Como diriam os Romanos, o poderoso Júpiter protege-nos.

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 1 de Agosto de 2009

sábado, 1 de agosto de 2009

De capa e batina


Por Antunes Ferreira

O TONY CARREIRA que se cuide. Porque, se o facto de ele encher o Pavilhão Atlântico é bem demonstrativo da sua popularidade, outro valor mais alto se levanta. Não, não se trata do Marco Paulo que tudo faz para iludir os 60 anos que já completou. O Marco teve a sua época, os dois amores, o maravilhoso coração, maravilhoso e por aí fora. Muito menos do Quim Barreiros que queria cheirar o bacalhau e, tudo o indica, continua a querer. Feitios.

Mas de música pimba em exclusivo não vivem as editoras discográficas. O alerta para o que vem aí envia-se também à Dulce Pontes, à Marisa, ao Camané, mesmo ao Carlos do Carmo, um mito vivo da canção lusa. Todos se têm de precaver. O futuro de tantas estrelas do show business ameaça ser sombrio, tamanhas são as nuvens ameaçadoras que se amontoam no horizonte. Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

E que dizer do Angélico, do David Fonseca, o Boss AC, dos Da Weasel? Tudo gente portuguesíssima, tudo malta das canções, com mais charme ou menos dança, tudo numa boa, como agora se costuma dizer, em mais uma herança que recebemos do Brasil, para além dos dentistas, dos futebolistas ou dos empregados de restaurante.

Eles próprios, os artistas cantores e afins estão preocupados. Muito preocupados. Assustados, muitíssimo. Amedrontados. Começaram já a sentir-se quase aterrados. O anúncio do tsunami musical que está a chegar é, na verdade, justificativo de tais receios. Perguntam, pergunta-se, quantos discos de oiro, de platina, quiçá mesmo de diamante ficarão disponíveis em Portugal?

Contrariamente ao que é uso e costume em Portugal, desta vez não parece ser culpado o Governo: muito menos neste contexto, o primeiro-ministro é mentiroso. As bocas abrem-se de espanto – mas é assim, ainda que algumas almas boas e um tanto ingénuas reclamem a intervenção do ministro Pinto Ribeiro. Porque, dizem a cultura musical portuguesa está perante uma ameaça tremenda e quem melhor do que o titular da pasta deverá intervir?

Outros, um tanto mais sindicalistas ou similares, avançam com a absoluta e premente necessidade de uma intervenção dura da SPA. Aparentemente, ela está cada vez mais inofensiva e inerme, diz-se até que mais incolor, insípida e inodora. Referem fontes habitualmente bem informadas, que sabem da poda, que já se encontra a correr na net um abaixo-assinado protestando contra a inércia da entidade da Duque de Loulé.

Finalmente uns quantos cantores, autores de letras e músicos, mais escassos embora, mas mais esclarecidos, apontados (sem confirmação) como bloquistas apresentaram ontem também um veemente protesto ao Dr. Manuel Sebastião, exigindo que a AdC, a Autoridade da Concorrência abra um rigoroso processo de averiguações sobre o momentoso caso. Não põem de parte a interposição de acção judicial. E, avisam, não é caso para menos.

O motivo de tão grande alarido foi o anúncio por parte da editora Geffen UK/Universal do lançamento no final do ano de um CD interpretado por Sua Santidade o Papa Bento XVI. No disco, de propósitos natalícios, chamado inicialmente "Alma Mater" (traduza-se, "mãe que alimenta", na língua dos Romanos), o Pontífice gravará mensagens e cantará músicas em Latim, Italiano, Espanhol, Francês, Alemão e Português. Nem Washington nem Londres fizeram ainda qualquer declaração a este propósito - de estranheza, no mínimo.

A editora classificou a voz do Papa como «incrível». O disco incluirá a ladainha Lauretana, cantos marianos e oito melodias clássicas. O prelado recitará também passagens da Bíblia e orações, e será acompanhado pelo coral da Filarmónica de Roma, conduzida por Pablo Colino, maestro emérito da Basílica de São Pedro. A britânica Royal Philharmonic Orchestra gravará as composições clássicas nos estúdios Abbey Road, em Londres.

O Vaticano já confirmou o acontecimento musical do ano e, quiçá do século, para não dizer já do milénio, ainda que o futuro a Deus pertença e o Santo Padre reclama-se como seu delegado cá em baixo. Ninguém da editora nem do Estado da Igreja divulgou os valores envolvidos na produção e lançamento do disco; mas, foi anunciado que os lucros do álbum serão doados para projectos de educação musical para crianças carentes pelo mundo.

Cantores de todo o Mundo – uni-vos. E em especial fadistas de Coimbra tomai tento: este será realmente um fado de capa e batina. Mas, desta vez, brancas.

Em louvor do Magalhães

Por Alice Vieira

AINDA NÃO É HOJE que vou falar da gripe. Toda a gente fala da gripe, toda a gente acorda a fazer contas aos novos caso que aconteceram durante a noite, ou, se não aconteceram, se Deus quiser estão mesmo, mesmo para acontecer — que é fatal falar da gripe.

Mas de cada vez que eu penso “é hoje!”, acabo sempre por ler nos jornais qualquer coisa que passa à frente do Tamiflu e dos kits e de toda essa parafernália gripal.

No caso presente… o Magalhães.

Concordo que já não é assunto novo, mas eu ainda não falei do Magalhães, e até me estou a sentir mal por isso, a Senhora Ministra até pode pensar que eu não gosto do Magalhães, que tenho qualquer coisa contra esta espécie de Tamagochi a que as crianças dão mais carinho do que aos velhotes lá de casa, o que até se percebe, no Magalhães está a salvação da pátria, e os velhotes só dão chatices, estão sempre a precisar de remédios, pingam do nariz, e não servem para nada.

Pois hoje li num jornal (não me lembro qual, mas não faz diferença porque deve ter vindo em todos, agora todas as notícias vêm em todos os jornais, a palavra “cacha” até já deve ter desaparecido) que as desigualdades educacionais se acentuavam cada vez mais porque nem todas as criancinhas tinham recebido os Magalhães a que tinham direito.

Assinei logo por baixo - e tenho até ideia de organizar um movimento no meu facebook: “Ajuda a fazer desaparecer as desigualdades: oferece um Magalhães usado em troca de um livro por abrir”. Tenho a certeza absoluta que, em menos de um segundo, o país inteiro estava a comentar: “gosto disto!”, acompanhado de milhares de hugs, e flowers, e suns e smiles.

Sou até capaz de jurar que, a esta hora, o meu amigo Sérgio Godinho já terá modificado a letra do refrão de uma das suas canções mais conhecidas e não tardaremos a ouvi-lo: “que era eu sem o Magalhães?/ que era o Magalhães sem mim?”

O meu homem, que tem a mania de ler o que eu vou escrevendo, está para aqui a dizer que a educação não se mede em Magalhães, e que se os professores continuarem todos a ser obrigatoriamente transformados em burocratas, a preencher papelada e relatórios em vez de utilizarem esse tempo a ensinar os miúdos — não há Magalhães que valha a este país. E que se os miúdos não forem ensinados a raciocinar, a fazer uma pesquisa, a usar um texto como deve ser, a não se limitarem a copiar o que vêem no écran — o Magalhães não serve para nada.

Mas isto é evidentemente má vontade dele, que está feito com os comunistas do sindicato…

Não lhe dou ouvidos: se em tempos idos um Magalhães deu a volta ao mundo, este vai dar a volta à cabeça de toda a gente. Que é exactamente o que se pretende.

«JN» de 1 de Agosto de 2009

sexta-feira, 31 de julho de 2009



A Paixão pela Educação

Por Maria Filomena Mónica

O PRIMEIRO-MINISTRO continua a distribuir computadores, julgando que com tal gesto irá melhorar a qualidade das escolas, mas os laptops são como os lápis, ou seja, meros instrumentos. Antes de lhe passar a coisa para as mãos, convinha que alguém ensinasse os meninos a pensar. Há dias, em Abrantes, referindo-se ao dinheiro do QREN (Quadro de Referência Estratégico Nacional), o engº Sócrates declarou significarem os fundos europeus uma oportunidade para, nos próximos sete anos, se «alavancar (sic) a economia portuguesa». Balelas!

Ao mesmo tempo, a OCDE afirmava que o Estado português não podia investir mais no ensino superior. Vinda de uma organização invariavelmente pronta a defender um aumento de despesa no sector, a frase surpreende. Durante anos, os políticos apregoaram que mais educação significaria mais desenvolvimento. Era uma opinião partilhada, desde o século XVIII, pelos cérebros «iluminados» e pelas camadas da população que haviam cedido diante da propaganda anunciando que quanto mais licenciados existissem mais depressa Portugal ultrapassaria a Finlândia (no século XIX era a Noruega).

Que vemos nós? A economia estagna e um número crescente de doutorados está no desemprego. A pergunta é inevitável: se temos gente altamente qualificada por que não sobe o país até ao panteão dos ricos? Por uma razão: os políticos enganaram-se, ou pior, mentiram-nos. Há décadas que se sabe que a correlação desenvolvimento-educação não é elevada e que, mesmo que o fosse, nada diz sobre a causalidade. Para quem desejar perceber o que se passa, aconselho a leitura do livro de Alison Wolf, Does Education Matter?: Myths about Education and Economic Growth (2002).

Uma coisa é a retórica dos políticos, outra a realidade. Em Portugal, no mundo dos call centers (onde o pagamento à hora é, em média, de 2,5 euros), 35% dos 7.500 operadores têm um curso superior. O desenvolvimento económico depende de muitas coisas: a educação não é a decisiva. Em suma, é bom que existam escolas de qualidade, mas não pelos motivos invocados.

Abril 2008

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Passatempo-relâmpago de 28-29 Jul 09 - Solução

As Escolas do Crime


Por J.L. Saldanha Sanches

OS PARTIDOS QUE SÃO OS ESTEIO da democracia portuguesa – PS, PSD, PP - convivem sem dificuldades com práticas que dão origem a carreiras que desembocam no crime. São escolas do crime e devem ser considerados responsáveis pelos crimes praticados pelos seus altos dirigentes.

A tese é de Pacheco Pereira, numa das suas colunas habituais, e deveria ter provocado uma onda de manchetes e aberturas de telejornais. Ninguém ligou, ninguém se indignou, ninguém o ameaçou com um processo por difamação. As ditas escolas do crime mantiveram-se imperturbáveis. Como se estas afirmações fossem meras banalidades, mais ou menos consensuais que não vale a pena discutir, um típico assunto de Verão.

Já anteriormente Pacheco Pereira tinha proposto que a corrupção – um dos principais problemas do sistema político português - fosse um dos temas principais das próximas campanhas.

Deveria sê-lo. Estamos à espera do que a Dra. Manuela Ferreira Leite tem a dizer. A política que o actual governo seguiu a este respeito é uma daquelas que ela deveria rasgar em bocadinhos muito pequeninos, mas não vemos grande entusiasmo para esses lados. Nem sobre o Dr. Dias Loureiro conseguiu tomar uma posição que se percebesse.

Ora a produção em série de Dias Loureiros pelos partidos dominantes (ou o controlo dos Dias Loureiros sobre os partidos) é precisamente o tema de Pacheco Pereira.

As carreiras criminosas começam nas jotas: são o primeiro passo para os grandes negócios escuros, depois do tirocínio num lugar de assessor ou vereador numa Câmara ou nos outros lugares (empresas públicas municipais ou estaduais) que os partidos do poder consideram seus. Também se descreve com muita precisão como as ferozes lutas dentro dos partidos são uma luta por poder e por lugares e como isso envenena toda a gestão da coisa pública.

No PS ou no PSD ou, em menor escala, no CDS/PP. O resultado são os Freeports. Ou o BPN, onde de repente o saque se tornou quase sem limites com base num sentimento de impunidade que parecia inteiramente justificado. O debate sobre a corrupção é por isso o mais importante dos debates que podemos ter em Portugal.

Porque existe? Estará a crescer ou mostra uma tendência para a estabilidade? Até que ponto impede ou prejudica o crescimento da economia? Que medidas podem ser tomadas?

Que é importante, é.

Como se demonstra no relatório do Conselho de Prevenção da Corrupção, os maus hábitos instalaram-se na função pública. Não se trata dos funcionários serem honestos ou desonestos, trata-se da tolerância institucionalizada e generalizada da corrupção. Corrupção em cima com os grandes negócios, corrupção em baixo com as pequenas traficâncias.

Tudo isto tem uma importância decisiva para o modo como funcionam as empresas e a economia em Portugal. Ajuda a explicar o inexplicável.

O motivo pelo qual a chegada dos fundos estruturais e outras ajudas comunitárias não chegaram para qualquer crescimento da economia portuguesa. As razões da sua estagnação persistente que é anterior à crise actual.

O que não quer dizer que se consiga discutir seja o que for: os interesses instalados à volta da corrupção (e as suas agências de comunicação) não podem impedir que de vez em quando os clamores contra a corrupção encham os órgãos de comunicação. Mas mostram uma grande eficácia em transformar estas ondas de indignação em fogachos que duram pouco e em limitar o seu espaço na comunicação social.

O silêncio com que foram recebidas estas acusações de Pacheco Pereira é a melhor prova dessa eficácia.

«Expresso» de 25 de Julho de 2009 - www.saldanhasanches.pt

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Os primeiros desenhos da Lua

Por Nuno Crato

AS OBSERVAÇÕES TELESCÓPICAS que Galileu fez no Inverno de 1609 mudaram a nossa visão do mundo. Foram tão importantes que 2009 foi declarado Ano Internacional da Astronomia em comemoração da passagem de 400 anos sobre essa data.

O físico italiano tinha ouvido os rumores da invenção de um aparelho que permitia aproximar visualmente os objectos longínquos. Os seus correspondentes explicaram que se tratava de um tubo com uma lente em cada extremidade, de forma que Galileu, que tinha feito algumas experiências com lentes, resolveu lançar-se ao trabalho. Tudo o que lhe bastava, como veio a perceber, era arranjar uma lente convexa com uma distância focal relativamente grande, uns 30 ou 50 centímetros, e uma lente côncava de potência média. As lentes eram fáceis de encontrar. Em qualquer grande cidade europeia havia polidores de vidro, muito procurados para fazer óculos, que eram comuns já há alguns séculos.

Quando olhou para o céu através da luneta que construiu, Galileu reparou que a Lua tinha crateras, que havia no céu muito mais estrelas do que as que apareciam a olho nu, que Júpiter tinha satélites e que Vénus tinha fases. Escreveu logo um livro que fez furor com as novidades do céu. Publicou-o em Veneza em Março de 1610. Chamou-lhe, sugestivamente, "O Mensageiro Celeste" ("Sidereus nuncius").

Por tudo isto, há quem pense que o inventor do telescópio teria sido o próprio Galileu. Sabe-se, no entanto, que mais de um ano antes, em 2 de Outubro de 1608, um certo Hans Lippershey tentou registar nos Estados Gerais da Holanda uma patente para o instrumento. Sabe-se também que o pedido foi imediatamente contestado por dois outros holandeses, que reclamaram prioridade no invento. A partir daí a notícia circulou velozmente pela Europa e nobres, pilotos e militares tentaram munir-se desse instrumento. Era muito útil para a navegação e para a guerra. Com ele, podiam ver-se os navios a grande distância e podia avistar-se ao longe o inimigo.

Tendo usado o invento de outrem, Galileu teria sido apenas - e é um grande 'apenas' - o primeiro homem a olhar para o céu por uma luneta. Teria assim inventado um outro uso para o instrumento que alguém havia criado. Sabe-se hoje que isso também não é verdade, pois em Novembro de 1608 o cronista Pierre de l'Estiole tinha já mencionado que o novo instrumento permitia ver estrelas habitualmente invisíveis. Também não é verdade que Galileu tenha sido o primeiro a fazer observações sistemáticas do céu através de um telescópio.

Ao que parece, o primeiro a fazê-lo foi o inglês Thomas Harriot, um matemático, geómetra e astrónomo inglês que há 400 anos, em 26 de Julho de 1609, uns meses antes de Galileu, fez um desenho da Lua vista através de uma luneta, revelando irregularidades na sua superfície. Harriot fez muitos outros desenhos do nosso satélite, mostrando que este tem crateras e extensas superfícies planas e mais escuras, a que se chamou mais tarde "mares". Infelizmente, muito do seu trabalho esteve esquecido até fins do século XVIII, quando os seus manuscritos e desenhos foram estudados. Em história da ciência as prioridades de descoberta são sempre complicadas.

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 25 de Julho de 2009 (Adapt.)

NOTA: o desenho que ilustra esta crónica é de Galileu. Veja-se também o de Harriot, o primeiro desenho da Lua conhecido - [aqui].

domingo, 26 de julho de 2009

Prémios do passatempo «Desafio aos leitores»


Estas são as imagens das capas dos livros disponíveis para atribuir como prémios aos vencedores, que terão agora 48h para escreverem para sorumbatico@iol.pt indicando morada para envio.
Deverão, também, indicar 3 títulos, por ordem decrescente das suas preferências, que serão tidas em conta "por ordem de chegada".

sábado, 25 de julho de 2009

Dito & Feito

Por José António Lima

A NECESSIDADE DE HELENA ROSETA deixar claro, reiterar e voltar a esclarecer que estabeleceu um «compromisso de honra de não assumir o lugar de António Costa, no caso de este sair da presidência da Câmara de Lisboa», mostra bem o ambiente de desconfiança e de fim de ciclo que se respira nos meios socialistas quanto às eleições de 27 de Setembro. E o futuro breve e pouco risonho que, em muito PS, se augura à liderança de José Sócrates. A discussão pública da eventual saída de Costa para líder do PS, lá para Outubro/Novembro, acaba por se converter numa «desconsideração» a Sócrates, como logo observou Santana Lopes, com a sua apurada percepção política (que, curiosamente, nunca funciona quando se trata de a aplicar à sua pessoa e àqueles que habitualmente o rodeiam – o que ajuda a explicar o acidentado e rocambolesco percurso de Santana).

Mas a verdade é que os deprimentes 26,6% nestas eleições europeias tiveram, no interior do PS, um efeito semelhante ao que a derrota nas autárquicas de 2001 provocou no Governo e na quase maioria socialista de António Guterres: o do anúncio antecipado de um final próximo. E triste.

Bem pode José Sócrates aplicar-se nesta sua nova versão, humilde e toda virada para as políticas sociais, prometendo a cada dia novas bolsas de estudo, subsídios, estágios, pequenos apoios a quase tudo e a quase todos – como quem distribui afincadamente pensos rápidos à porta de um hospital. A credibilidade já não é muita. E a descrença alastra.

Se no PS grassa a desmotivação, no PSD vive-se a falta de motivação. Manuela Ferreira Leite não apresenta uma ideia, só fala pela negativa, para se mostrar escandalizada com «a falta de vergonha» do líder do PS e, ainda por cima, «não fala bem, enreda-se, tropeça» nas ideias e nas palavras, como explica em tom desculpabilizador Pacheco Pereira. O caso é sério: «A senhora, muitas vezes, expressa-se mal. E, quando quer corrigir, ainda pior», acrescenta Pacheco. Para retirar a conclusão extraordinária de que o que diz Manuela Ferreira Leite «não se pode reduzir a uma interpretação à letra das suas declarações». Veremos o que vai dizer em Chão de Lagoa, ao lado de Jardim. Se é para levar à letra. Ou não. Nunca se sabe.

«SOL» de 24 de Julho de 2009

Julho e Agosto, S.A.

Por Antunes Ferreira

É POR ESTA ALTURA DO ANO que adoro estar na minha cidade, Lisboa. Julho e Agosto, S.A. são, para mim, meses obrigatórios na capital. Algarves? Estranjas? Termas? Montanha? Campismo? Que é isso tudo, comparado com a tranquilidade ulissiponense? Faz muito calor por cá? Faz muito mais em Ryade. Até mesmo em Moura. Sem dúvidas de qualquer espécie. Há muita poluição? Não se vá muito mais longe. E em Atenas? O Barreiro não conta.

Refiro-me, sem margem para hesitações, à circulação rodoviário/citadina. Ainda que não só. Mas, para mim que faço parte dos cidadãos membros fundadores do Grupo dos que Abominam Engarrafamentos & Correlativos, GAEC, esta é uma circunstância determinante e incontornável na paixão de ficar em Lisboa quando os outros a abandonam, temporariamente embora.

Quando informo do verdadeiro ódio que tenho contra os congestionamentos do tráfego desta minha menina dos olhos espraiada sobre o Tejo (creio que não estou a plagiar nenhuma letra de fado, mas, se por mero acaso, suspeitas haja, juro que não é essa a minha intenção) tenho de especificar.

Nós, os Portugueses, e em particular, os Lisboetas, não somos grandes militantes do civismo. Há quem diga que a coisa está a melhorar, ainda que devagarinho. Oxalá. Mesmo assim – não somos. O trânsito é, disso, exemplo notório. Senão, vejamos. No que toca aos peões que ainda não são donos de volantes e afins, mas que anseiam por sê-lo, os casos multiplicam-se.

Por mais passadeiras – há quem lhes chame zebras e daí esta adenda para que não restem dúvidas – que existam, ainda que muitas delas esmaecidas apesar das promessas de alva ressurreição pela CML, o pessoal atravessa as ruas, avenidas, praças, pracetas, travessas e mesmo alguns becos, fora delas. Sobretudo, a tentação do risco existe no mais alto grau, quando a travessia faltosa é mesmo ao lado delas. É obra, é força de vontade de não cumprir.

As corridinhas por entre as mais diversas viaturas, desde as de duas rodas até aos TIR são estúpidas e perigosas – mas sabem muito bem. É o fruto proibido, que, realmente é o mais apetecido. E, no caso vertente, corrido. É isso e os semáforos. Que, a bem dizer, não deviam existir. E se eles lá estão é para também ser desrespeitados. Veja-se a afirmação anterior. Uma aceleração na corridela e ala até à outra margem – da rodovia. O chiar dos travões ajuda muito, principalmente a chegar à meta. Neste caso – ao passeio fronteiro.

Quanto aos que possuem motor, nem falar. Ou melhor, já que falamos em semáforos, o mais atraente é ignorá-los e passar mesmo o vermelho. Quando muito, e já a morder, o amarelo. Depois são as tentativas de apanhar os peões, nas passadeiras. Depois, é não dar a aprioridade. Depois é o acelerar nos cruzamentos, porque anda para aí cada maluco que não pára neles. Depois é a ultrapassagem pela direita. Depois, é a Companhia de Seguros e a oficina. E, sobretudo, as Urgências dos hospitais.

É por essas e por outras que eu adoro Lisboa em Julho e Agosto. Será porque as aulas estão na pausa estival, será porque uma carrada de gente saiu a banhos, mesmo que seja para a Fonte da Telha, o Meco, a Ericeira ou a Praia das Maçãs. Não falando em Albufeira, Portimão ou a Isla Cristina. Acapulco, menos, por mor da gripe. Mas, mesmo assim… Cuba e Punta Cana também contam para a classificação.

Donde – viva Julho! Viva Agosto! Já entenderam o porquê da minha predilecção. Ah, na selva do tráfego, esqueci-me de um dito da nossa infância: nada de confusões; as ruas para os automóveis, os passeios para os peões. Que, hoje, tem de ser actualizado. Nada de confusões: passeios para os automóveis e ruas para os peões. Boas férias – em Lisboa.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

É tempo de rapar tachos

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Por Manuel João Ramos



O DISCURSO POLÍTICO É UM CAMPO de metáforas constantes, nem todas de grande “elevação” ou “profundidade”. Uma das mais usadas em tempos recentes provêm da actividade financeira: fala-se de “descrédito” das propostas políticas e de “descredibilização” da classe política, para qualificar discursos em crise de sentido e posturas eticamente questionáveis.

Usam-se também metáforas biológicas, como a “morte” das ideologias ou o “insuflar vida” na política, para identificar a perda de objectivos utópicos colectivos que resultou do fim da guerra fria, e o actual estado de descrença nas ilusões de futuros risonhos.


Simultâneo ao “esgotamento” do sentido que atinge as propostas e programas partidários (uma metáfora a um tempo financeira e ecológica), desponta uma nova prática política – e um novo campo metafórico – que ganha especial incidência em períodos eleitorais: trata-se de “rapar o fundo do tacho”, “deitar mão” e “lançar a rede” às causas cívicas de modo a atrair votantes cada vez mais recalcitrantes.

Esta prática que nasceu em Portugal com a cooptação de sindicalistas ainda nos anos 70, estendeu-se posteriormente a “personalidades independentes”, em particular a docentes universitários, e chegou enfim aos “representantes da sociedade civil”, geralmente figuras de movimentos associativos e mandatários de anseios e insatisfações de temáticas sociais ou ambientais específicas.

Assistimos este Verão, com um olho na temperatura das águas balneares, na preparação do próximo Outono eleitoral, a um frenético “rapar o fundo do tacho” por parte dos organizadores de candidaturas – sobretudo autárquicas.
Vários universitários deixam agora o governo rejubilando-se porque, recorrendo a uma esconsa lei sobre “desempenho de cargos de interesse nacional”, se aprestam a pedir a subida de categoria no regresso às suas escolas (são os cadedráticos cangurus, que saltam sobre os colegas sem terem de provar competência para aceder aos novos cargos).

Outros estarão certamente a preparar o “salto” para a política (será uma metáfora de raiz desportiva ou contrabandista?). Vários associativos cedem à tentação melíflua de “marcar a agenda política” aceitando lugares fracamente elegíveis em listas autárquicas, enquanto outros “lambem as feridas” de tentações passadas.


Face a este “quadro” (uma metáfora artística), e não confiando que os guardiães das mesas de voto respeitem a brancura do meu boletim de voto sem se tentarem a marcar nele uma sorrateira cruz, desde já declaro que vou votar NULO (e, porque uma imagem vale mais que mil metáforas, vou tirar uma fotografia ao boletim com o meu telemóvel, ainda dentro da cabina de voto).

PT; A Poção Mágica


Por Maria Filomena Mónica


HÁ MOMENTOS EM QUE ODEIO o mundo moderno. Isto é particularmente evidente de cada vez que sou forçada a lidar com empresas de telecomunicações. A PT tem agora um novo manda-chuva, ou, em linguagem moderna, um CEO, de seu nome Zeinal Bava. De acordo com as entrevistas que, ao longo das últimas semanas, deu aos jornais, este senhor estaria a repensar a forma como a empresa se relaciona com os clientes.

Na madrugada de 17 de Fevereiro, depois das cheias, o meu telefone deixou de funcionar. Quando o constatei, liguei para as avarias: apareceu uma voz gravada, ordenando-me que ligasse o 1 se…, o 2 se… , o 3 se…e o 4 se…. Depois de ter feito o que me mandavam, apareceu uma menina, a quem participei a avaria: que tomaria nota. Foi tudo o que aconteceu. Ao fim de três dias, voltei a ligar para a empresa, mas já não me foi possível falar com um ser humano, pois, de cada vez que discava o meu número, era remetida para uma gravação, na qual a PT me comunicava já ter registado o estrago. Como tenho uma central em casa, com três números diferentes, fui-os discando sucessivamente, o que me permitiu o privilégio de falar com alguém vivo por mais duas vezes. Esgotada esta artimanha, deixei de ser capaz de ultrapassar a barragem da gravação. Pelos vistos, as prestáveis «assistentes» da velha companhia de telefones haviam desaparecido.

Por mero acaso, soube de um truque que permite furar o muro de silêncio que a PT montou à sua volta. Depois da gravação 4, deixa-se tocar o telefone uns 5 ou 6 minutos, após o que aparece um senhor que nos informa termos passado a fazer parte dos clientes VIP, o que significa que, no máximo dentro de 24 horas, virá alguém a nossa casa a fim reparar a avaria. Efectivamente, pouco depois, dois rapazes tocaram à minha porta a fim de testar os sete aparelhos que possuo. Foi através de uma poção mágica que subi na hierarquia dos clientes da PT. Zeinal Bava vai ter muito que fazer: se há empresa que despreza os clientes é a PT.

Março de 2008
Trata-se do Acordo Ortográfico que, na sua versão mais recente, divide a sociedade portuguesa da maneira mais idiota possível: em função das preferências partidárias, de tal forma que quem apoia o PS é a favor da abolição de uns "p" e de uns "c", e quem se opõe ao PS é contra!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Passatempo-relâmpago - 22 Jul 09 - Solução

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AS DUAS fotos de cima, tiradas anteontem, mostram o matagal à porta das estações da Refer de Lagos, entre a nova (onde foram tiradas as fotos dos sanitários 'grafitados') e a velha (transformada em residência de sem-abrigo e onde agora, além do inevitável lixo, até há tendas de 'campismo').

Outras fotos, já aqui afixadas em Maio (e bem esclarecedoras do que certa gente entende por "destino turístico de qualidade"), podem rever-se [aqui].

Bem sei que estas vergonhas estão a crédito de CP/Refer. Mas, em casos como este (que, por sinal, está logo numa das principais entradas no burgo), os autarcas não têm nada a dizer?