segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Passatempo «Espiões» - Prémios

O "topophone", segundo «La Nature» de 1880

Passatempo «Incêndios» - Prémios


Dito & Feito


Por José António Lima

MOITA FLORES ganhou, em 2005, a presidência da Câmara de Santarém como independente apoiado pelo PSD e volta, em 11 de Outubro, a candidatar-se numa lista do partido. Um partido que, descobriu agora, «não é o PSD que me convidou e com o qual tenho trabalhado», devido às exclusões levadas a cabo por Manuela Ferreira Leite nas listas para deputados de «grandes quadros, de gente importantíssima para o futuro» e, em particular, ao afastamento de Miguel Relvas de cabeça-de-lista em Santarém, lugar oferecido a Pacheco Pereira, ao lado do qual Moita Flores diz que não fará campanha.

O recandidato a Santarém descobriu tudo isto e, também, que falta rigor ético nas listas do PSD devido à inclusão de António Preto: «A procura de rigor às vezes dói, mas ser rigoroso é fundamental», sentencia. Ora, Moita Flores fez todas estas descobertas ainda a tempo de se desvincular da lista e do apoio do PSD, constituindo uma lista de independentes. Coisa que não fez. Um bom exemplo de rigor e ética, como se vê. E avança mesmo que, em 27 de Setembro, não votará em Ferreira Leite e no PSD, mas, muito provavelmente, em Sócrates e no PS. Quanto a rigor e princípios, ficamos, pois, conversados.

Se, por um dever de decência e coerência, Moita Flores se devia ter desvinculado de um partido que tanto despreza, já Manuela Ferreira Leite devia ter retirado, de imediato, a confiança política e o apoio a tal candidato. Coisa que não fez. A líder social--democrata aceita, pois, ser publicamente desautorizada sem uma palavra ou um gesto para se fazer respeitar. A si e ao PSD.

Ferreira Leite tem, assim, uma destacada candidata às legislativas, Maria José Nogueira Pinto, que afirma ir votar PS e António Costa nas autárquicas. E um mediático candidato nas autárquicas, o multifacetado Moita Flores, que promete ir dar o seu voto ao PS e a Sócrates nas legislativas. Um partido sui generis, este PSD.

No meio desta balbúrdia, só faltava aparecer Aguiar Branco, na sua infinita ingenuidade política, a admitir que Moita Flores acabará por dar o seu voto ao PSD: «Estou convencido de que ele ainda vai reflectir e reconsiderar». Pois, pois. Espere pelos próximos episódios.

«SOL» de 21 de Agosto de 2009

domingo, 23 de agosto de 2009

Passatempo-relâmpago de 23 Ago 09 - Solução


O filme em causa era «Inimigos Públicos». O livro-prémio foi escolhido porque relata o ambiente vivido na América nos 'Anos 30' do séc. XX, a mesma época do filme.

sábado, 22 de agosto de 2009

«A asfixia democrática» segundo o BE

Por Antunes Ferreira

LEIO O PÚBLICO e fico pasmado. Quase penso em duvidar, quiçá mesmo em não acreditar. Mas, consultando por via das dúvidas, outros Órgãos da Comunicação Social, varrem-se-me as interrogações. Foi mesmo assim. Não quero com isto dizer que não confie no quotidiano do Senhor Engenheiro Belmiro de Azevedo, nada disso. Mas, as afirmações que o diário publicou causaram-me um verdadeiro espanto.

Com a devida vénia (nariz de cera que se vai perdendo no tempo – e no modo), passo a transcrever a notícia em causa:

«A deputada bloquista Ana Drago afirmou-se surpreendida pelo discurso da “asfixia democrática” de Manuela Ferreira Leite, na entrevista de ontem à noite na RTP1, acusando a líder do PSD de integrar governos onde esse clima era vivido.»

«“A doutora Manuela Ferreira Leite fez parte de governos no tempo do professor Cavaco Silva em que se percebeu exactamente o que significava asfixia democrática e portanto vejo com alguma surpresa que seja Manuela Ferreira Leite a falar da questão nestes termos. Lembramo-nos bem do fechamento do país, do assalto ao aparelho de Estado por parte do PSD nos tempos do cavaquismo, não nos esquecemos", comentou.»

«Quanto às propostas do PSD, Ana Drago critica a possibilidade admitida por Ferreira Leite de baixar os impostos que incidem sobre o trabalho. “Baixar os custos de trabalho quando Portugal já tem salários tão baixos é um caminho muito perigoso: vai descapitalizar a segurança social e vamos ter cortes nas reformas”, observou a deputada bloquista».

Insisto. Ainda pensei que as declarações fossem do ministro dos Assuntos Parlamentares, do porta-voz do PS ou, até, do próprio José Sócrates. A dúvida que de mim se apoderou – quase cartesiana, que me desculpe o ilustre autor do «Discurso sobre o Método» - não foi, de modo algum hiperbólica ou sistemática. Nada tem a ver com a Filosofia, tem apenas relação com a prosaica vida real, quotidiana, vulgar.

O Bloco habituou-me a outro tipo de afirmações. Em cartazes há poucos dias afixados, o já basta de 18 anos é sintomático. O PSD e, naturalmente, a Doutora Manuela Ferreira Leite já participou – e de que maneira – nesse prolongado período de tempo. O Partido Socialista e, em especial, Sócrates, igualmente. E o Professor Aníbal Cavaco Silva, idem, idem, aspas, aspas.

Donde, o BE entende que chegou a sua vez de estar no Poder. Pensamento que, de resto, se foi vulgarizando, a ponto do secretário-geral do PCP ter escrito em artigo que o partido estava pronto a assumir responsabilidades governativas. Como – é que me parece um tanto difícil entender. Quer num quer noutro dos dois partidos que se reclamam de possuidores da verdade da Esquerda.

As propostas que apresentam muito dificilmente seriam postas em prática. Não avalio dos seus méritos, nem dos referidos partidos, nem das respectivas propostas. São, porem, inexequíveis. Roçam o utópico e quem as apresenta e as enuncia sabe que assim é. Novas nacionalizações avança Jerónimo de Sousa. Onde, quando e como? Aumento do salário mínimo? Onde, quando e como? Pleno emprego? Onde, quando e como? Novos apoios aos desempregados, como atira Francisco Louçã? Novos subsídios? Onde, como e quando?

Thomas Morus, como se sabe no século XVI, escreveu a sua «Utopia». Tratava-se de uma concepção teórica de um estado perfeito onde se viveria em plena liberdade religiosa. Assim, para Morus, a sociedade de Utopia é a reacção ideal à sociedade inglesa de seu tempo; é a cidade de Deus que ele contrapõe à cidade terrestre. De tal forma foi a sua influência que, de título de tratado se transmudou naquilo que é impossível de alcançar.

A deputada Ana Drago veio pôr uma quanta água na fervura. Um destes dias, ainda se aventa que foi convidada a integrar as listas do PS às legislativas. Mas que, feliz e coerentemente, recusou.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Anúncio no Público

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O Dia do Trabalho Industrial Já Foi


Por Maria Filomena Mónica

FESTEJOU-SE HÁ POUCO [Maio 2008] o Dia do Trabalhador, uma criação da II Internacional Socialista, em homenagem à luta, iniciada em 1886, pelos operários de Chicago, com o objectivo de obterem condições de trabalho mais dignas. Ao olhar os grupos que, em Lisboa, se reuniram este ano na Avenida da Liberdade e na Alameda Afonso Henriques, senti que aquelas multidões representavam qualquer coisa de anacrónico. De facto, o 1.º de Maio pertence a um mundo que, a Ocidente, desapareceu. Depois da vitória, em 1984, de Mrs Thatcher sobre os mineiros britânicos, nada voltou a ser como dantes. Em vez de operários, com uma profissão organizada, temos jovens empregues em «call center», com trabalho precário e sem poder reivindicativo.

Este Verão aconteceu-me uma coisa extraordinária. Durante as cheias em Inglaterra, estando sozinha em casa, bateram-me à porta. Abri-a com o costumado ar de quem se sente invadida por um mundo odioso. Deparei-me com um homem de meia idade. Enquanto me mostrava um cartão do sindicato, o N.U.M., informou-me ter sido mineiro durante trinta anos. Explicou-me estar há muito no desemprego, pelo que não encontrara outra solução senão ir, de casa em casa, vendendo luvas para tirar a comida do forno. Além de eu não cozinhar, o par de Oven Gloves: Triple Thick for Extra Protection, fabricadas na velha cidade de Oldham, pareceu-me tão obsoleto como uma pedra lascada.

E no entanto dei comigo a dar nove libras por um produto que sabia jamais ter qualquer utilidade. Por suspeitar que a esmola me fazia remontar ao tempo em que éramos ensinados a dizer aos pobres para ter «paciência», acabei perplexa. Mas não era apenas a caridade cristã ressuscitada: o que sentia era compaixão por quem já não podia lutar de pé. Não havia motivo, decidi, para vergonhas. Dantes, pensava que tudo se resolveria com a Revolução. Agora, sei que o mundo em que nasci acabou e que, pelo meio, surgiram outras vítimas da fome.

Maio de 2008

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Vale a pena escolher comida orgânica?


Por Nuno Crato

É UMA QUESTÃO QUE MUITOS CIENTISTAS não gostam de colocar, pois as variáveis são muitas e as conclusões difíceis. Pior: corre-se o risco de parecer estar de um lado ou de outro da barricada. Quem critique os vegetais criados sem fertilizantes artificiais pode ser acusado de estar a soldo das empresas de adubos químicos. E quem defenda a comida orgânica pode parecer promotor desse negócio florescente. Mas nós — nós público consumidor — gostaríamos de saber.
Há poucos dias, um grupo de seis investigadores da escola de saúde pública inglesa, a célebre London School of Hygiene and Tropical Medicine, divulgou uma grande síntese de resultados sobre uma pergunta específica: o valor nutritivo da comida orgânica é superior ao da comida produzida de forma tradicional?

O trabalho será publicado em Setembro na revista American Journal of Clinical Nutrition. No entanto, como vem sendo hábito entre algumas revistas científicas, os resultados foram divulgados à imprensa ainda antes da publicação. O público interessado pode lê-los na Internet (www.ajcn.org, doi:10.3945/ajcn.2009.28041).

Os seis especialistas ingleses não fizeram trabalho de laboratório. Recolheram e seleccionaram trabalhos já feitos. Nas bases de dados científicas, consideraram mais de 52 mil artigos produzidos nos últimos 50 anos, dos quais seleccionaram 162 por terem estudos originais sobre o tema. Desses 162, escolheram apenas os que estavam elaborados com alto rigor científico e que tinham estudos conclusivos sobre os 11 nutrientes considerados mais importantes. Restaram 55 estudos fiáveis e conclusivos, que incluíram 24 análises de campo, 27 amostragens em herdades e 4 análises de cestos de compras.

Na selecção que fizeram exigiram cinco definições claras: do sistema de produção usado, da variedade de planta ou animal, do nutriente analisado, do método laboratorial e dos métodos estatísticos seguidos. «A nossa revisão» da literatura científica, escreveram, «sublinhou a heterogeneidade e fraca qualidade da investigação feita nesta área».

Há um ano, foi feita uma revisão de literatura científica ainda mais vasta e numa área talvez ainda mais polémica e mais marcada ideologicamente — a educação matemática. Um painel norte-americano muito diverso trabalhou durante dois anos na análise dos estudos existentes (www.ed.gov/MathPanel). As conclusões foram devastadoras. Dos mais de 16 mil estudos seleccionados por terem matéria relevante, menos de 15% foram considerados satisfazerem um mínimo rigor científico. A larga maioria dos estudos em educação matemática está atulhada de ideologia e falha de fundamentação rigorosa.

A investigação dos alimentos orgânicos tem problemas semelhantes. Defronta-se com um romântico regresso à natureza que criou um mercado florescente, atingindo mais de 30 mil milhões de euros em 2007. Mas o estudo dos especialistas ingleses é esclarecedor. Dos 11 nutrientes estudados, os vegetais produzidos de forma tradicional ganham num caso e perdem em dois. Nos restantes oito nutrientes, não há quaisquer diferenças significativas. No caso dos animais não há nenhuma diferença de conteúdo nutritivo.

A comida orgânica pode saber melhor e talvez seja mais saudável. Os investigadores britânicos nada nos dizem sobre esse e outros aspectos do problema. Mas o seu valor nutritivo não parece valer a diferença de preço.

«Passeio Aleatório - «Expresso» de 15 de Agosto de 2009

Parques para motociclos nas Avenidas Novas

Av. S. João de Deus
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Av. da Igreja
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Junto à Assembleia Municipal de Lisboa
(Esqueça-se o carro da P. Municipal, estacionado no seu habitual lugar de Paragem Proibida)
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Av. de Roma
Junto ao n.º 2, um parque vazio; junto ao n.º 1, uma moto no passeio
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Praça de Londres
À direita, 3 motos no passeio; à esquerda, o parque que se vê na foto anterior
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Av. Paris
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R. Conde de Sabugosa
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Junto ao café Luanda
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Av. de Roma
O motociclista veio da Av. Óscar Monteiro Torres, galgou o passeio na passadeira para peões, e foi por ele fora até lhe apetecer estacionar
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Av. João XXI, junto à esquina com a Av. de Roma
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Junto ao Hotel Roma
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Junto aos CTT da Av. EUA
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Idem, motos no passeio, por sinal fazendo companhia aos carros...
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Todas estas fotografias foram tiradas com pouco tempo de intervalo; e só se mostram motociclos "estacionados" a poucos metros dos parques a elas destinados. (Falta apenas o parque existente junto ao Vá-vá, que não está "protegido").

Sobressai (nestas e noutras fotos que aqui não afixo para não saturar - tiradas na Av. da Igreja, R. Frei Amador Arrais, Av. EUA, etc) o facto de a rapaziada continuar a preferir deixar os motociclos nos passeios, desprezando os lugares apropriados.

Porquê, dado que são gratuitos?! Vontade de chatear? Ou, pura e simplesmente, a recusa de viver numa sociedade com regras e minimamente ordenada?

domingo, 16 de agosto de 2009

Livros-prémio disponíveis

Em 21 Ago 11

«Amizades Virtuais, Paixões Reais - a sedução pela escrita» (Paulo Querido/Oferta CATI),
«CiberAPANHADOS» (Hugo Caramelo/Oferta CATI)
«O Debate-Tabu / Moeda, Europa, Pobreza» (J-P Fitoussi)
«O Incêndio» (Valentin Rasputin)
«Reportagem no Séc. XXI»
«Vagas de Fogo» (Filipe Faria)
«Ardabiola» (I. Ievtuchenko)
«Crónicas da InforFobia» (C. Medina Ribeiro)
«Betânia» (F. M. Beja)
«Fábrica sensível» (Carlos Porto)
«A cor ciclame e os desertos» (M. F. Borges)
«Janelas para além das nuvens» (L. V. Pedro)
«O reino proibido» (J.J.Slauerhoff)
«Chapéus para Alice» (J. Rios)
«Vale de Mulher (X.A.N. Cruz)
«Tristes Armas» (M. Mayoral)
«A casa vazia» (C. Gutman)
«O hotel do regresso» (C. Gutman)
«Chamava-se Luís» (M. Mayoral)
«Intercâmbio com um inglês» (C. Nostlinger)
«Memórias para Ema» (Antonella G. Silva)
«Lenhadores e Chulos / SFEU 1919» (N. Maclean)
«As cinzas de Maria Callas» (A. Cabrita)
«História da moeda» (J. Rivoire)
«Roda à beira-mar» (A. Benali)
«O emblema leonino» (Modesto Navarro)
«Morta» (F. Valière)
«Sal-gema» (P.L. Jorge)
«O 13.º andar» (S. Fleischman)
«A erva amarga» (M. Minco)
«O jogo da forca» (I. Turbau)
Queres Crescer e Depois Não Cabes na Banheira (M. Castro Caldas)
Sonetos Completos (Antero de Quental)
As Boas Consciências (L. Salvayre)
Amargas Foram as Horas (A. Fortes)
N' Zid (M. Mokeddem)
O Vírus Balcânico (S. Niksic / P. C. Rodrigues)
À Caça do Último Homem Selvagem (A. Vallvey)
Uma Ligação Perigosa (H.S. Haasse)
Contos Cruzados (F.-A. Almeida)

sábado, 15 de agosto de 2009

A minha quase gripe

Por Alice Vieira

COM ESTA PARANÓIA DA GRIPE, qualquer ponta de febre que se tenha nos parece de imediato os 40 graus que é suposto a gente ter quando ela ataca.

Até eu - que me gabo de não me deixar influenciar - me vi um dia destes, às quatro da madrugada (mas sem passarinhos a cantar) a ligar para a Linha-24, convencida de que ia engrossar as estatísticas.

Porque, com as rádios e as televisões a divulgarem constantemente os casos que vão aparecendo – e é mais um nos Açores, e mais três no Algarve, e a creche que fechou e a que vai fechar — a gente de repente tem a certeza de que a gripe já entrou na nossa casa, ó para ela a subir as escadas do nosso prédio, e agora é a vizinha do 1.º, depois a do 2.º, e de nada vale a gente tentar ser racional e pensar que não é possível porque está tudo de férias e não há ninguém no nosso prédio.

Então lá estava eu ao telefone a debitar os meus sintomas, e a enfermeira (cujo nome não recordo, com muita pena, porque aquela conversa foi das poucas coisas boas que me aconteceram nestes últimos tempos) a acalmar-me, sobretudo porque a todas as perguntas que me ia fazendo, eu ia respondendo que não: não, não tenho dores de garganta, não, não tenho o nariz a pingar, - e sobretudo não, não tenho febre.

Foi então que a enfermeira, com paciência evangélica, me disse uma frase que há-de ficar para todo o sempre na galeria das frases que mais marcaram a minha vida: “nem todas as gripes são Gripe-A; nem todas as viroses são gripe”.

E, se calhar porque já não sabia que mais dizer, perguntou :

“Por acaso esteve ontem com muita gente?”

Tive de confessar que tinha estado rodeada de meia Lisboa, aos abraços e beijos a meia Lisboa, a chorar nos braços de meia Lisboa, e que um enterro de um amigo não é lugar ideal para se fugir de contágios.

De qualquer maneira a enfermeira garantia que, se fosse mesmo A gripe, a febre já estaria a trepar pelo termómetro e não se ficaria pelos míseros 36,5, que era o máximo que eu conseguia atingir.

Mas ela era rigorosa (ó que bom, haver neste país alguma coisa que funciona bem, mesmo às quatro da madrugada!), e perguntou:

“Tem feito muitos esforços ultimamente?”

Explico-lhe o que tem sido o meu ritmo de vida nos últimos meses e ela acaba por descobrir o que realmente determina aquele terrível cansaço, aquelas terríveis dores no corpo todo: “o que a senhora está é cansada!”

E de repente a voz do meu querido amigo Raul salta para o meio da nossa conversa, naquela sua magnífica "Ida ao Médico" (“Tussa! O que o senhor tem é tosse!”), e os ben-u-rons ficam à espera de serem necessários, e a paranóia acalma, e a madrugada enche-se de gargalhadas e, pelo menos por enquanto, a gripe ainda não entrou no meu prédio. Acho que tem medo de gargalhadas.

«JN» de 15 de Agosto de 2009

Dito & Feito


Por José António Lima

O PSD TEM UMA CHANCE de ganhar as legislativas de Setembro. Como ficou claro com os resultados das europeias de 7 de Junho. Não tanto pelos 31,7% dos sociais-democratas, que poucos votos conquistaram fora do seu eleitorado tradicional, mas, sobretudo, pelos catastróficos 26,6% do PS. Que demonstraram até que ponto o país se fartou deste PS e desta governação de Sócrates.

A questão é saber se o PSD é capaz de captar, mais do que a abstenção ou a resignação em continuar a votar PS, esse descontentamento. E Manuela Ferreira Leite, registe-se, não tem feito muito por isso.

A incompreensível imposição do nome de António Preto nas listas do PSD é um mau prenúncio. «Não fui a única que o incluiu como arguido. Isso é um aspecto fundamental», argumenta agora Ferreira Leite. Acontece que Preto já não é apenas arguido, está pronunciado judicialmente e tem julgamento marcado – o que é uma diferença substancial, ou, por outras palavras, um aspecto fundamental. Não deixa, por outro lado, de ser irónico ver a líder do PSD a invocar as escolhas de deputados de Santana Lopes em 2005 para se justificar. Quem diria...

António Preto «não está acusado de nada no exercício de funções públicas», alega ainda Ferreira Leite. Tem a certeza? Terá sido no exercício de funções partidárias? E Helena Lopes da Costa, outra das suas protegidas pessoais, não está acusada de ilegalidades no exercício de funções públicas? Qual, então, o critério da líder do PSD? Varia, de acordo com as conveniências? Ou, simplesmente, nenhum?

Ferreira Leite acrescenta: «São casos de natureza privada sobre os quais eu não tenho de me pronunciar» (nem a simulação de um braço engessado a que Preto recorreu, para evitar uma perícia caligráfica na PJ, faz tinir uma qualquer campainha na cabeça da presidente do PSD?). E conclui: «Eu não tenho o direito de me antecipar à decisão da Justiça, dando a minha própria sentença». Ora, o que se lhe pede nestes casos é um juízo político sobre os candidatos do seu partido, não uma sentença judicial. Confundir esses dois planos distintos só interessa a quem quer baralhar o problema.

Já se percebeu que se fosse Manuela Ferreira Leite a líder do PSD em 2005, e não Marques Mendes, ainda hoje teríamos figuras tão gradas como Isaltino ou Valentim em posição destacada nas listas laranja. É tudo uma questão de perspectiva: da ética e da política.

«SOL» de 14 de Agosto de 2009

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O fado do 31


Por Antunes Ferreira

ULTIMAMENTE O 31 é número empolgante para os sportinguistas. É a camisola de Liedson, que vai ser Português dentro de dias, a tempo de tentar resolver o problema dos golos da selecção nacional. E de safar o infeliz Carlos Queirós. O Levezinho tem direito a cartaz especial empunhado por adeptos mais expectantes: ele resolve! E está tudo dito. Umas largas vezes não resolve coisa nenhuma, porque a equipa verde e branca é o que sabe.

Ele representa entre os de Alvalade a esperança do sebastianismo tão do agrado de muitos cidadãos deste País. Vã, diga-se, tais os resultados que os leões vêm alcançando, por falta de euros para adquirir grandes estrelas do chuto. E apesar das obnóxias declarações do novo presidente do clube, José Eduardo Bettencourt – por vezes difíceis de compreender pela massa associativa – a última coisa a morrer para aquelas bandas, salvo seja, chama-se Liedson da Silva Muniz.

O 31 já era célebre por mor de um fado. Antigo, que foi inclusive interpretado pela Beatriz Costa e hoje faz parte do repertório do Rodrigo. A letra é a melhor justificação para se entender que o 31 para nós quer significar sarilho grosso. Recordo aqui parte dela «À porta da Brasileira; dois tipos encontram dois; juntam-se os quatro e depois; lá começa a cavaqueira; agrava-se a chinfrineira; vai aumentando o zum zum; vem bomba arrebenta e pum; depois mais tarde vereis; 24, 26, 29 e 31 ... Ai !!!»

Poderia também referir o restaurante 31 da Armada, mais um exemplo apenas. No entanto, a partir da segunda-feira desta semana um novo elemento veio juntar-se a todos os outros. Pelo início da madrugada, membros do blogue com o mesmo nome, 31 da Armada, encostaram tranquilamente, uma escada à varanda da Câmara Municipal de Lisboa, treparam e substituíram a bandeira lisboeta ali hasteada pela da monarquia.

Episódio entre a galhofa e o kafkiano, que levanta muitas interrogações. Desde o saudosismo dos monárquicos, até à anedota da cena ter sido filmada em DVD, presumo, também com tranquilidade, penso, e posteriormente dada a conhecer ao público. Completando esta singular ocorrência, dois parceiros do blogue foram devolver a bandeira branca e preta na quinta-feira, «devidamente lavada e engomada» à CML, de onde seguiram para a Polícia Judiciária a fim de prestarem declarações. O município tinha apresentado uma queixa sobre o assunto.

O rocambolesco evento mereceu de Nuno da Câmara Pereira, líder do PPM, o comentário que fez ao Diário de Notícias: "não são só as eleições que qualificam a Democracia". E mais disse que a acção de hastear a bandeira da monarquia nos Paços do Concelho de Lisboa por parte de elementos do blogue 31 da Armada fora “um acto de grande dignidade e simbolismo".

Não me restam dúvidas, ainda que poucas já tivesse. O Senhor Doutor Sigmund Freud por estas nossas bandas não se safava nem com umas dezenas de divãs. Portugal não é para ser levado a sério, Portugal não é sério. Ponto. Este episódio podia perfeitamente ter sido interpretado pelos irmãos Marx – mas não era tão estapafúrdio. Ainda que o título de um dos seus filmes, “Casa de Doidos” seja perfeitamente aplicável ao nosso quotidiano…

Poderá dizer-se que não gosto da monarquia. É verdade. Mas também não gosto de palhaçadas. Li, já não sei onde, que o Senhor Dom Duarte considerara o que acontecera como muito significativo, nem sei mesmo se um sucesso. O pretendente ao trono (qual?) de Portugal também tem o direito à baboseira.

Convenhamos. A segurança da CML não é… segura. Se é que existe. Se calhar, apenas nas horas de expediente, com intervalo para almoço e subsídio de refeição. Expliquem-me que não tenho razão e darei a mão à palmatória. Entretanto, uma pergunta final. E se alguém tivesse colocado uma bomba na varanda de onde foi proclamada a República e feito explodir o edifício?

Psiquiatras Fora dos Tribunais Já


Por Maria Filomena Mónica

QUE EU SAIBA, os juízes são pagos para determinarem se um individuo é culpado ou inocente. Tanto quanto possível, a sentença baseia-se nos factos apurados no decurso da investigação, sendo os magistrados soberanos na formulação do juízo. Apesar de tentarem ser imparciais, os juízes são humanos, o que faz com que exista a possibilidade de erro. Daí a existência de recursos, embora nunca se possa ter a certeza de se ter atingido a Verdade. Além de no Vaticano, onde o Papa, esse sim, decreta o que é e o que não é, aquela só existe, e nem sempre, no interior dos laboratórios de Química.

Vem isto a propósito do famoso julgamento da Casa Pia. Há anos que, além das testemunhas, dos arguidos e dos advogados, o tribunal está o ouvir «especialistas» supostamente capazes de avaliar se os miúdos, que dizem ter sido violados por um bando pedófilo, têm «psicopatologias» capazes de originar «uma tendência para a efabulação ou mentira». A opinião pública considera isto aceitável. Mas não o é, pela razão simples de que, por mais graus académicos que possua, ninguém é capaz de determinar, através de testes, se um jovem tem, ou não, tendência congénita para dizer a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade.

Assim como os sistemas legais funcionam na base da presunção da inocência, os indivíduos acusados de crimes não devem ser tidos como competentes ou incompetentes apenas porque um médico os rotulou como tal. Como, em tempos, disse o psiquiatra Thomas Szasz, a incompetência mental deve ser avaliada como qualquer outra forma de incompetência, ou seja, por meios legais e judiciais. O recurso ao psiquiatra radica, em grande medida, na covardia dos juízes. Em casos de pedofilia – os quais, pela sua natureza, são muito difíceis de resolver – a tentação para solicitar ajuda fora do tribunal é quase irresistível. Ao contrário do que aconteceu com o juiz Teixeira, a juíza Ana Peres tem-se dado ao respeito. Deve, por conseguinte, saber que é a si que, na solidão do seu colectivo, compete julgar.

Abril de 2008

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Pais e filhos - Passatempo-relâmpago - Solução

Pág. 151

Quem mais se tenha aproximado deste valor tem 24h para escrever para sorumbatico@iol.pt, indicando morada para envio do prémio. Em caso de empate, o vencedor será quem deu o 1.º "palpite".

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Uma história simples


Por Baptista-Bastos

DESÇO A AJUDA até à Madragoa. É sábado, vou dançar à Guilherme Cossoul, calhou desta vez. Não há atenuações nem imposições: são os rituais. Cabelo com popa, brilhantina a preceito, camisa da tabela, sapato de tacão alto, calça afiambrada. Vou para o baile. Ainda não sei, mas vou saber que, mais do que ir para o baile, vou arranjar um amigo para toda a vida. Foi amizade à primeira vista, com o Raul Solnado.

A partir daí não nos deixámos de ver, de almoçar, de jantar, de ir aos bares, de falar de mulheres, de telefonar com frequência. Quando sofreu um enfarte violentíssimo, em Caracas («um enfarte do caraças», como gracejava), ralhou-me porque me atrasara na chamada telefónica. O que nos uniu, durante cinquenta anos, foi a certeza da constante presença do outro, em qualquer circunstância ou situação. Escolher esta fraternidade, ou por ela ser tocado, assenta, sem outra justificação, em cumplicidades de tipo comunitário. Modéstia à parte, éramos de Lisboa. Pertencíamos aos bairros, sempre o reivindicámos, e havia, no mais íntimo dos nossos corações, um compromisso que designava a origem comum. Um dia, no Rio de Janeiro, perguntaram-lhe de onde ele era. Respondeu: «De Lisboa!» E o interlocutor: «Sim; mas de onde?» E ele, abrindo os braços: «De toda!»

Arranjou-me empregos extraordinários em épocas de aperto e de perigo. Viajei com ele para o Brasil, na qualidade de secretário, quando assinou um contrato fabuloso com a TV-Rio e cobrou um êxito incomum. Tínhamos a paixão do samba, dançáramos com belas raparigas, pelos Santos Populares, ao som de troupes-jazz que tocavam canções de Dick Farney e de Lúcio Alves, e Copacabana não era uma praia era o paraíso sonhado. «O primeiro que for ao Brasil, leva o outro», eis o acordo. Não havia fronteiras flutuantes nesta identidade que a amizade assegurava. «Então, pá, como é que vai isso?» E ele: «Bem, muito bem. E tu?» «Estou a aguentar-me.» Quando nasceu o Zé Renato, amanhecemos numa noitada de bares e de copos. E fomos à clínica, com dois ramos de flores comprados na Ribeira Nova. Quando nasceu o meu primeiro filho, o Pedro, fui ao teatro dar-lhe a notícia e comemorar com uns uísques.

Cada um era o próprio, e não precisávamos de muitas palavras para exprimir a convivência, resultante de uma longa história comum. A amizade exige a eleição e uma confiança que se não elabora, porque genuína. Penso agora: antes de nos fazer rir, ele passou a vida a ouvir-nos para nos contar - com uma ternura inextinguível e um afecto magoado e melancólico. «Nenhuma morte é natural», disse-o Jorge de Sena. E esta é a menos natural de todas as mortes. O vazio alarga-se, tenebroso, cavo, oco, inelutável.

E agora, Raul, peço-te adeus.

«DN» de 12 de Agosto de 2009

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Passatempo-relâmpago de 10-11 Ago 09 - Solução


Página 59


domingo, 9 de agosto de 2009

Do plágio à fraude científica


Por Nuno Crato

O EXPRESSO da semana passada (ver artigo relacionado, no final do texto), trazia uma extensa reportagem sobre o plágio nos trabalhos universitários. O problema é sério, como se mostrou na reportagem, e tem sido agravado com as imensas possibilidades de recolha de informação na Internet e com a facilidade digital de recorte-e-cola. Há teses que incluem, sem os citar, extractos extensos reproduzidos de outras fontes e há trabalhos que são completamente copiados de documentos existentes na Internet.

Muito terá mudado com as novas tecnologias, e para melhor. Mas será confundir informação bruta com conhecimento pensar que o professor deixou de ter conhecimento para transmitir, passando a ser unicamente os alunos a buscá-lo, construí-lo e organizá-lo. Bibliotecas sempre existiram, tornaram-se de consulta mais fácil pela Internet, que é algo como uma imensa biblioteca do conhecimento humano, mas a questão fundamental não se alterou: o ensino tem de ser uma transmissão organizada de conhecimentos guiada pelo professor. Se há mais recursos, isso significa que se abriram novas possibilidades de enriquecer o ensino. Não que o professor se deva limitar a promover 'a construção do conhecimento pelo aluno' ou, como dirão os mais cínicos, a 'estimular o recorte-e-cola'.

Na reportagem do Expresso, o professor Seabra Santos, reitor da Universidade de Coimbra, colocou o dedo na ferida: "Quanto mais regulares forem as reuniões entre orientadores e orientandos, mais fácil é combater a fraude". Ou seja, quanto maior for o acompanhamento dos professores ao trabalho dos alunos, mais difícil será apresentar trabalhos que sejam cópias de textos pescados na Internet.

Infelizmente, contudo, algumas escolas, departamentos e professores não actuam da melhor maneira. Há os que deixam os alunos sozinhos a escolher os tópicos, que não indicam literatura nem dão sugestões de pesquisa. Limitam-se a ler apressadamente o trabalho final. Assim, o plágio é fácil e, mesmo quando não há fraude, é pouco provável que o trabalho seja verdadeiramente enriquecedor para o estudante.

Proliferam confusões sobre o que é um trabalho de pesquisa original. Não é uma reflexão magna sobre o passado e o futuro do universo, nem é uma nova síntese da filosofia ocidental, de Parménides a Popper. É, habitualmente, uma investigação sobre um tema minúsculo e muito especializado, com conclusões modestas e com impacto reduzido. Mas exige muito trabalho original.

Em alguns locais e áreas, há professores que orientam simultaneamente uma dúzia ou mais de teses de mestrado e de doutoramento, o que é praticamente impossível de fazer de forma responsável. Uma orientação consciente é algo muito exigente e directivo, mesmo em trabalhos de doutoramento, em que o essencial é construído pelo próprio estudante. A orientação começa pela escolha do tópico que apenas pode ser feita por quem estiver na fronteira do conhecimento e souber onde se pode avançar algo de novo. Prossegue no método de investigação, que obriga a trabalho de laboratório, de campo ou teórico. Tudo isto é mais difícil de plagiar do que especulações sem rumo. Quando se procura contribuir para a ciência, a fraude é mais difícil.

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 8 de Agosto de 2009

O Raul e os jaquinzinhos


Por Antunes Ferreira

JÁ LÁ VÃO UNS LARGOS ANOS, mesmo muito largos. Tive a oportunidade de conhecer o Raul Solnado, aliás, soldado, tal qual ele se me apresentou. Foi no Diário de Notícias, era eu ainda chefe de Redacção adjunto do Mário Zambujal, compincha dos sete costados, o primeiro dos bons malandros, prenúncio de um best-seller a cujo trabalho de parto assisti. Mas, no qual juro que não participei.

O Raul – a partir de então passei a tratá-lo apenas desta maneira singela – ainda não tínhamos desapertado a bacalhauzada, já estava a tratar-me por tu. E pegava na deixa do Mário, ou seja, para ele eu passava a ser o Antunes-sem-mais-nada. Com o teu tamanho, não precisas do Ferreira para nada. Nem esbocei uma mísera tentativa de protesto por esse atentado ao meu apelido de guerra. O Raul dissera, estava dito.

A empatia estabeleceu-se definitiva e para durar. Ambos assim o entendemos. Porra! Qual entendemos? Praticámos, militámos, assim é que foi, assim é que é, assim é que será. Não digo até à eternidade, por dois motivos. Primeiro, porque não acredito nela; segundo porque, mesmo que a aceitasse, eu estava definitivamente eliminado, o Raul levava já a camisola amarela.

Meses depois, fomos almoçar à Fonte dos Passarinhos, ali ao Calvário. Ou antes, mandibular – verbo que era uma criação dele. Eu ia fazer o Anuário do DN, nas oficinas do antigo Anuário Comercial, nas instalações amplas e libertárias que naquela zona existiam, depois adquiridas pela Mirandela. Ele aceitou a Minho honesta proposta e veio para una jaquinzinhos com arroz de tomate com ervilhas, especialidade da Dona Helena, cozinheira aprimorada, casada com um dos sócios do estabelecimento.

A receita por tais alturas era muito simples e claramente enunciada. Os bicharocos absolutamente fugidos às normas comunitárias, ou seja miseravelmente minúsculos. Só não traziam os biberões, na expressão do Raul. Mas tinham que vir ao prato esturricadinhos, para desinfectar alguma fralda esquecida no amanhar a que se sujeitavam antes da frigideira. O arroz devia ter o qb de pimento aliado ao tomate, ambos estrugidos e as ervilhas tenrinhas. A minha Mãe fora a criadora do pitéu e dado o mesmo a provar ao Raul, ele próprio declarara-se soldado de tal rancho.

Era no tempo em que o Raul descobrira petróleo no Beato. Todas as noites o seu Teatro Villaret esgotava a lotação. Um público rendido ao talento de um dos maiores músicos portugueses de sempre seguia à gargalhada as peripécias do taxista Juvenal Costa que encontrara no subsolo do seu quintal o precioso ouro negro que tanta falta fazia e tamanha mossa originava na frágil economia (?) portuguesa.

O Fernando Mata era para também vir amesendar connosco, mas porque tinha a unha do dedo mindinho pisada não compareceu. Os carapauzinhos neo-natos estavam um mimo, comiam-se inteirinhos, as cabeças foram particularmente aplaudidas e deglutidas. O arroz triunfante. Nem o de favas do Jacintinho de Tormes se lhe igualava, fomos unânimes.

Contou-me, sublinhou que em primeira mão, que a RTP ia transmitir a peça. Naturalmente com as necessárias adaptações exigidas pela transmissão no pequeno ecrã. Deixa-te de merdas, Antunes, isto é entre amigos, não é para publicar já, não te armes em parvo com cachas e essas coisas. Jurei-lhe pela minha virgindade que nunca praticaria um tal desatino. E ele, virgem? Só se for nas solas dos pés.

Respeitosamente o informei de que nunca pensara – ó sacrilégio – equiparar-me à Senhora de Fátima, mas que nascera a 20 de Setembro de 41, daí que fosse Virgem. Referes-te, portanto ao horóscopo. E sorriu. A minha tia que gostava de dizer coisas também era e teve três rapazes e duas raparigas.

Há bocado, a Alice Vieira mandou-me um mail (um imeile, como eu uso) a dizer só Morreu o Solnado. Pronto. Assim sendo, antes do funeral, lá vou passar na Fonte dos Passarinhos em busca dos jaquinzinhos, mesmo sem arroz de tomate com ervilhas e uns niquinhos de pimentos.

sábado, 8 de agosto de 2009

Cenas de Lagos

A
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B
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C
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D
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E
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A imagem 'A' foi a que se apresentou no Sorumbático, e é uma parte da 'B' . Esta já mostra algo mais: uma carrinha branca mal estacionada e um jipe em cima de um canteiro (onde estaciona todos os dias).

A imagem 'C' mostra o mesmo jipe (em beleza!), e as outras mostram aspectos do estacionamento selvagem em redor.

De facto, a PSP só tratou dos carros que bateram e depois foi-se embora.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Dito & Feito


Por José António Lima

HÁ PRECISAMENTE UM ANO, José Sócrates e o PS, cheios de si próprios e do poder da sua maioria, decidiram sujeitar o Presidente da República a uma insensata prova de força, a pretexto do Estatuto dos Açores. Insensata, politicamente infantil e infundamentada (como vários constitucionalistas então alertaram), gratuita e irresponsável no que respeitava à falta de sentido de Estado demonstrada.

Entretanto, veio a crise internacional, o desabar das ilusões de crescimento da economia, um novo e maior desequilíbrio das contas públicas, o aumento em flecha do défice e do desemprego. Vieram as greves e manifestações dos professores. Vieram as notícias do ‘caso Freeport’. Veio o traumatizante descalabro socialista nas europeias. E veio, finalmente, o acórdão do Tribunal Constitucional dar plena razão às objecções de Cavaco Silva sobre o enviesado Estatuto dos Açores.

Como reagiu o PS? O deputado Ricardo Rodrigues, com as suas habituais esperteza e subtileza argumentativas, apareceu a acusar o TC de «centralista» e de funcionar em sintonia com os interesses de Cavaco e do PSD. O socialista açoriano Carlos César, com o ego insuflado pelo seu pequeno poder regional, surgiu a proclamar que «não recebe lições» de ninguém, de «nenhum juiz ou titular de órgão de soberania». Os socialistas não recebem lições? Deve ser por isso que não aprendem nada. E que não percebem que o país e a predisposição política do eleitorado mudaram muito nestes últimos doze meses: os portugueses fartaram-se da arrogância maioritária e da falta de resultados desta governação.

Quem também parece não perceber os ventos de mudança é Manuela Ferreira Leite. Ao excluir das listas do PSD nomes como Passos Coelho ou Miguel Relvas deu um sinal público de autoridade. Mas também de fraqueza e pequenez política. E, sobretudo, de incapacidade de unir vontades, de congregar esforços, de abrir o partido a uma maior pluralidade de vozes e opiniões.

Ferreira Leite preferiu o autoritarismo da exclusão sectária à tolerância da inclusão abrangente. Quem afasta Passos Coelho para impor nas listas do PSD figuras a contas com a Justiça, como António Preto ou Helena Lopes da Costa, aliena a sua legitimidade política, não tem ética a que se agarrar. Além de oferecer a José Sócrates e ao PS a melhor notícia desta pré-campanha eleitoral.

«SOL» de 7 de Agosto de 2009

Bilhetes de Colares


Por Maria Filomena Mónica


UMA DAS COISAS MAIS TERRÍVEIS que nos pode acontecer ao longo da vida é a perda de um amigo. Com sorte, até aos cinquenta anos apenas o sabemos de forma teórica e nebulosa; depois, o facto torna-se concreto e frequente. Mas a trivialidade em nada contribui para diminuir a dor. Um dia, verificamos que já não podemos contar-lhe as nossas aventuras, segredar-lhe a última intriga, conversar sobre o livro que acabámos de descobrir. Foi isto que me aconteceu com A. B. Kotter, o inglês que, depois de ter passado vários anos em Portugal, morreu, em circunstâncias misteriosas, no Brasil.

Muitos se terão esquecido das crónicas que começou a publicar no jornal A Tarde, em Junho de 1982, passando por vários periódicos, até terminar, em 1998, no semanário O Independente. Mais do que de si próprio, falava do país que «o havia acolhido generosamente no seu seio». Dele, apenas sabemos que, após uma vida activa como advogado em Londres, entremeada por tarefas secretas para o MI6, se reformara, tendo escolhido Portugal como destino, não só pela amenidade do clima e a simpatia das pessoas, mas também pela tranquilidade social. Foi apressadamente que deixou a Várzea de Colares: nem a mim confidenciou o motivo, o que, conhecendo-o, não me ofendeu.

Relendo-o hoje, interrogo-me como foi possível a este estrangeiro, mais familiarizado com Thomas Hardy do que com Cesário Verde, escrever sobre Portugal de forma tão certeira e cordial. Até eu sou capaz de citar de memória algumas das suas frases: «Os homens portugueses ficam meninos toda a vida e finalmente acabam com complexos de masculinidade». Foram as saudades de Kotter que, passados dez anos sobre a sua morte, me levaram recentemente à Casa do Alentejo, a fim de ouvir o Embaixador José Cutileiro evocar o amigo comum. Se ainda não tem o livro, vá depressa a uma livraria, a fim de comprar os seus «Bilhetes de Colares» (Assírio e Alvim, 2007). Eu não tenho muitos amigos, mas os que tenho são bons.

Abril de 2008

Pelo direito ao Voto Nulo

Por Manuel João Ramos

Um Comunicado do Partido Nulo

Acaba de ser criada a secção portuguesa do PARTIDO NULØ.

O PARTIDO NULØ congratula-se com o resultado das sondagens publicadas pelo Expresso/SIC/Rádio Renancença e pela TSF, que nos consideram a 6ª força política mais votada, com uma percentagem próxima do CDS/PP, e com maior potencial de crescimento.

Este resultado, conjuntamente com a elevada percentagem de indecisos, a menos de dois meses das eleições, é um sinal de grande optimismo e de potencial crescimento para o PARTIDO NULØ.

Face à situação política do país, almejamos alcançar em breve o lugar de força política mais votada em Portugal, substituindo a abstenção.

Cremos que a elevada abstenção oferece um conveniente pretexto para governações minoritárias, tendencialmente alheadas dos interesses dos cidadãos e que só o voto nulØ surge como uma alternativa plena de potencial expressivo individual e colectivo.

Através do voto nulo, pretendemos afirmar a legitimidade do sistema de representação popular. Clamamos por melhores candidatos, melhores programas políticos, maior capacidade de entendimento das necessidades do país.

Através do voto nulo, afirmamos também a nossa criatividade individual: cada voto nulo é único; e cada voto nulo representa um potencial estético ímpar no contexto eleitoral.

Apelamos ao voto nulØ porque recusar os maus candidatos que se apresentam a eleições é um direito legítimo.

Não pretendemos governar. Pretendemos sim que quem nos pretende governar evidencie qualidade para tal.

Exigimos que o voto nulØ tenha expressão real nos órgãos colegiais (Assembleia da República, Executivos e Assembleias autárquicos). Queremos que os lugares elegíveis sem votantes suficientes sejam deixados vagos, para lembrar às outras forças políticas que o voto nulØ é um voto consciente e empenhado.

www.partidonulo.net

partidonulo@gmail.com

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A Europa não existe

Por Baptista-Bastos

AS NOSSA INDECISÕES nascem das nossas perplexidades. Que se faz, quando não sabemos o que fazer? Mas fomos nós próprios que nos colocámos nesta situação. Obviamente, manipulados, como se as coisas fossem aquelas que nos apresentavam. O resultado está à vista. Somos pertença de uma casta que se alterna no poder e asfixia-nos com decisões erradas e sem nenhuma preocupação pelo nosso futuro. Conhecemo-nos cada vez menos. Vendem-se muitos livros e raciocina--se pior do que há anos, e através de fórmulas infantis. Basta ouvir aqueles que, todos os dias, nos fazem ouvi-los para se entrar no tédio maciço do desencanto.


Olhe só para isto: batucam nas nossas mentes a ideia de que somos Europa, conviemos à Europa, dependemos da Europa. Nada sabemos da Europa. Mas já soubemos quem era quem na Itália; seguimos de perto a edição dos livros de Vittorini, de Pavese, de Carlo Bo, de Morávia, de Pratolini; conhecíamos os filmes e os nomes, tomávamos partido por este e por aquele, deixávamo-nos influenciar pelas polémicas. O mesmo sucedia com a Espanha, com a França, com a Alemanha e, até, com a cultura dos países escandinavos. Hoje, ignoramos tudo, ou quase. A Europa é-nos um mistério que se aprofunda. Viajamos mais e conhecemos menos, para retomar a cínica fórmula de Savater. Mas também a literatura, o teatro, o cinema e a vida norte-americana acicatavam a nossa curiosidade. Era a grande época de Hemingway, de Faulkner, de Sherwood Anderson, de Caldwell (que esteve em Portugal); e de todo aquele manancial de cinema. A saga dos resistentes ao macartismo foi, também, a nossa saga. Pessoalmente, possuo uma enorme biblioteca desses contemporâneos capitais. Revisito-os com a ânsia de um velho caçador de textos. Não fora, ocasionalmente, a coragem (digamos assim) de editoras quase marginais, que desejam preservar a liberdade num mundo caracterizado pelo conformismo e pelo lucro, desconheceríamos, por completo, as culturas de quase todas as nações europeias.

Que Europa é esta? O poder fundou a sua pretendida legitimidade na ideia da irreversibilidade do capitalismo. E a Europa é um imensíssimo território de negócios, nascido de uma lógica "comunitária" que despreza os aspectos culturais, sociais e humanos. A cobiça, a ganância, o lucro definiram o corpo social, político e económico do projecto. Não foi necessária a criação da União para sermos europeus. A Europa era uma cultura antes de ser Estados e nações. E o curioso, actualmente, é que os europeus nunca tiveram tanta consciência do seu número, e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade em se "agrupar".

Dá para reformular a famosa frase de Georges Arnaud, n' O Salário do Medo, sobre a Guatemala: a Europa é um sítio que não existe; eu vivo lá.

«DN» de 5 de Agosto de 2009

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Sob a protecção de Júpiter

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Por Nuno Crato

DIA 19 DE JULHO, quando um cometa atingiu Júpiter deixando sobre ele uma gigantesca marca, os astrónomos congratularam-se pela rara oportunidade de observar uma colisão de astros no sistema solar. Quinze anos atrás, tinham observado o impacto do cometa Shoemaker-Levy sobre o mesmo planeta. Ao contrário deste, que tinha sido previsto com antecedência, e sobre o qual telescópios de todo o mundo na altura se debruçaram, o impacto de 19 de Julho foi totalmente inesperado.

Quem pela primeira vez notou uma mancha nova sobre o planeta foi um astrónomo amador australiano, de nome Anthony Wesley. O achado foi confirmado pelos maiores observatórios do mundo, que estudaram a composição dos gases e partículas libertados, semelhantes aos que tinham sido ejectados pelo cometa Shoemaker-Levy. Com grande probabilidade, o objecto que caiu sobre Júpiter era um cometa.

Houve quem estranhasse que tivesse sido um amador a descobrir a rara ocorrência. Mas isso acontece frequentemente com eventos imprevistos. Os profissionais têm programas de estudo definidos e não vasculham os céus ao acaso, antes aproveitam os raros e dispendiosos momentos de acesso aos observatórios para efectuar estudos precisos e há muito programados. Os amadores têm, em geral, mais tempo para observar os astros sem propósito definido. Numa noite podem fotografar a Lua, observar a grande nebulosa de Orionte e deter-se ainda sobre Júpiter. Por essas razões, os grandes caçadores de cometas, que descobrem anualmente muitos desses astros, são quase sempre amadores.

Os cometas que inesperadamente aparecem nos céus são originados na chamada nuvem de Oort, que rodeia o nosso sistema planetário. É nuvem gigantesca e muito rarefeita, de objectos que remanescem da nébula primordial que originou o sistema solar. Entre as poeiras e objectos que aí existem há pedaços de gelo sujo que, ocasionalmente, por efeito da passagem por perto de uma estrela ou por outra perturbação gravítica, abandonam essa região e aproximam-se do Sol. Nessa altura, esses objectos começam a derreter-se e revelam-se como cometas, com cabeleiras e extensas caudas. Terá sido um desses cometas imprevistos que se abateu sobre Júpiter em 19 de Julho.

Ao registar este impacto, os astrónomos têm ainda um outro prazer. Confirmam uma ocorrência que, segundo todos os cálculos, nos tem protegido repetidamente de impactos cósmicos devastadores. Confirmam que Júpiter, assim como Saturno, tem actuado como barreira que impede muitos cometas de atingirem a Terra.

A vida sobre o nosso planeta tem sido permitida pelo facto de os grandes impactos cósmicos terem sido muito raros. Acredita-se que há cerca de 65 milhões de anos uma colisão precipitou o fim da era dos dinossáurios. Há 40 milhões de anos registou-se outra extinção de vida generalizada, possivelmente também devida à queda de cometas sobre a Terra. Mas os períodos tranquilos têm sido muito longos.

Esta semana ficou a saber-se mais sobre a nuvem de Oort devido a um trabalho de dois cientistas da Universidade de Washington publicado online pela «Science». De acordo com os seus cálculos, a frequência com que cometas caem sobre o nosso planeta é muito menor do que se pensava. Os cálculos apontam para órbitas de colisão mais precisas do que antes se imaginava, mas continuam a mostrar que os planetas gigantes são uma barreira protectora do nosso planeta. Como diriam os Romanos, o poderoso Júpiter protege-nos.

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 1 de Agosto de 2009

sábado, 1 de agosto de 2009

De capa e batina


Por Antunes Ferreira

O TONY CARREIRA que se cuide. Porque, se o facto de ele encher o Pavilhão Atlântico é bem demonstrativo da sua popularidade, outro valor mais alto se levanta. Não, não se trata do Marco Paulo que tudo faz para iludir os 60 anos que já completou. O Marco teve a sua época, os dois amores, o maravilhoso coração, maravilhoso e por aí fora. Muito menos do Quim Barreiros que queria cheirar o bacalhau e, tudo o indica, continua a querer. Feitios.

Mas de música pimba em exclusivo não vivem as editoras discográficas. O alerta para o que vem aí envia-se também à Dulce Pontes, à Marisa, ao Camané, mesmo ao Carlos do Carmo, um mito vivo da canção lusa. Todos se têm de precaver. O futuro de tantas estrelas do show business ameaça ser sombrio, tamanhas são as nuvens ameaçadoras que se amontoam no horizonte. Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

E que dizer do Angélico, do David Fonseca, o Boss AC, dos Da Weasel? Tudo gente portuguesíssima, tudo malta das canções, com mais charme ou menos dança, tudo numa boa, como agora se costuma dizer, em mais uma herança que recebemos do Brasil, para além dos dentistas, dos futebolistas ou dos empregados de restaurante.

Eles próprios, os artistas cantores e afins estão preocupados. Muito preocupados. Assustados, muitíssimo. Amedrontados. Começaram já a sentir-se quase aterrados. O anúncio do tsunami musical que está a chegar é, na verdade, justificativo de tais receios. Perguntam, pergunta-se, quantos discos de oiro, de platina, quiçá mesmo de diamante ficarão disponíveis em Portugal?

Contrariamente ao que é uso e costume em Portugal, desta vez não parece ser culpado o Governo: muito menos neste contexto, o primeiro-ministro é mentiroso. As bocas abrem-se de espanto – mas é assim, ainda que algumas almas boas e um tanto ingénuas reclamem a intervenção do ministro Pinto Ribeiro. Porque, dizem a cultura musical portuguesa está perante uma ameaça tremenda e quem melhor do que o titular da pasta deverá intervir?

Outros, um tanto mais sindicalistas ou similares, avançam com a absoluta e premente necessidade de uma intervenção dura da SPA. Aparentemente, ela está cada vez mais inofensiva e inerme, diz-se até que mais incolor, insípida e inodora. Referem fontes habitualmente bem informadas, que sabem da poda, que já se encontra a correr na net um abaixo-assinado protestando contra a inércia da entidade da Duque de Loulé.

Finalmente uns quantos cantores, autores de letras e músicos, mais escassos embora, mas mais esclarecidos, apontados (sem confirmação) como bloquistas apresentaram ontem também um veemente protesto ao Dr. Manuel Sebastião, exigindo que a AdC, a Autoridade da Concorrência abra um rigoroso processo de averiguações sobre o momentoso caso. Não põem de parte a interposição de acção judicial. E, avisam, não é caso para menos.

O motivo de tão grande alarido foi o anúncio por parte da editora Geffen UK/Universal do lançamento no final do ano de um CD interpretado por Sua Santidade o Papa Bento XVI. No disco, de propósitos natalícios, chamado inicialmente "Alma Mater" (traduza-se, "mãe que alimenta", na língua dos Romanos), o Pontífice gravará mensagens e cantará músicas em Latim, Italiano, Espanhol, Francês, Alemão e Português. Nem Washington nem Londres fizeram ainda qualquer declaração a este propósito - de estranheza, no mínimo.

A editora classificou a voz do Papa como «incrível». O disco incluirá a ladainha Lauretana, cantos marianos e oito melodias clássicas. O prelado recitará também passagens da Bíblia e orações, e será acompanhado pelo coral da Filarmónica de Roma, conduzida por Pablo Colino, maestro emérito da Basílica de São Pedro. A britânica Royal Philharmonic Orchestra gravará as composições clássicas nos estúdios Abbey Road, em Londres.

O Vaticano já confirmou o acontecimento musical do ano e, quiçá do século, para não dizer já do milénio, ainda que o futuro a Deus pertença e o Santo Padre reclama-se como seu delegado cá em baixo. Ninguém da editora nem do Estado da Igreja divulgou os valores envolvidos na produção e lançamento do disco; mas, foi anunciado que os lucros do álbum serão doados para projectos de educação musical para crianças carentes pelo mundo.

Cantores de todo o Mundo – uni-vos. E em especial fadistas de Coimbra tomai tento: este será realmente um fado de capa e batina. Mas, desta vez, brancas.

Em louvor do Magalhães

Por Alice Vieira

AINDA NÃO É HOJE que vou falar da gripe. Toda a gente fala da gripe, toda a gente acorda a fazer contas aos novos caso que aconteceram durante a noite, ou, se não aconteceram, se Deus quiser estão mesmo, mesmo para acontecer — que é fatal falar da gripe.

Mas de cada vez que eu penso “é hoje!”, acabo sempre por ler nos jornais qualquer coisa que passa à frente do Tamiflu e dos kits e de toda essa parafernália gripal.

No caso presente… o Magalhães.

Concordo que já não é assunto novo, mas eu ainda não falei do Magalhães, e até me estou a sentir mal por isso, a Senhora Ministra até pode pensar que eu não gosto do Magalhães, que tenho qualquer coisa contra esta espécie de Tamagochi a que as crianças dão mais carinho do que aos velhotes lá de casa, o que até se percebe, no Magalhães está a salvação da pátria, e os velhotes só dão chatices, estão sempre a precisar de remédios, pingam do nariz, e não servem para nada.

Pois hoje li num jornal (não me lembro qual, mas não faz diferença porque deve ter vindo em todos, agora todas as notícias vêm em todos os jornais, a palavra “cacha” até já deve ter desaparecido) que as desigualdades educacionais se acentuavam cada vez mais porque nem todas as criancinhas tinham recebido os Magalhães a que tinham direito.

Assinei logo por baixo - e tenho até ideia de organizar um movimento no meu facebook: “Ajuda a fazer desaparecer as desigualdades: oferece um Magalhães usado em troca de um livro por abrir”. Tenho a certeza absoluta que, em menos de um segundo, o país inteiro estava a comentar: “gosto disto!”, acompanhado de milhares de hugs, e flowers, e suns e smiles.

Sou até capaz de jurar que, a esta hora, o meu amigo Sérgio Godinho já terá modificado a letra do refrão de uma das suas canções mais conhecidas e não tardaremos a ouvi-lo: “que era eu sem o Magalhães?/ que era o Magalhães sem mim?”

O meu homem, que tem a mania de ler o que eu vou escrevendo, está para aqui a dizer que a educação não se mede em Magalhães, e que se os professores continuarem todos a ser obrigatoriamente transformados em burocratas, a preencher papelada e relatórios em vez de utilizarem esse tempo a ensinar os miúdos — não há Magalhães que valha a este país. E que se os miúdos não forem ensinados a raciocinar, a fazer uma pesquisa, a usar um texto como deve ser, a não se limitarem a copiar o que vêem no écran — o Magalhães não serve para nada.

Mas isto é evidentemente má vontade dele, que está feito com os comunistas do sindicato…

Não lhe dou ouvidos: se em tempos idos um Magalhães deu a volta ao mundo, este vai dar a volta à cabeça de toda a gente. Que é exactamente o que se pretende.

«JN» de 1 de Agosto de 2009