domingo, 13 de setembro de 2009

«Dito & Feito»


Por José António Lima

SOBRE O CASO TVI, não compliquemos o que é simples. Nem baralhemos o que é elementar. Não há boas práticas nem critérios lúcidos de gestão que justifiquem o afastamento pelos accionistas de quem, como José Eduardo Moniz, levou a TVI à liderança de audiências e de rentabilidade das televisões portuguesas – a não ser razões de insustentável choque de poderes ou de forte condicionamento político. E não há argumentos empresariais que sustentem o encerramento do telejornal mais visto dos canais portugueses, o Jornal Nacional de Manuela Moura Guedes, às sextas-feiras – a não ser motivos de ordem político-partidária e governamental.

Nem eram precisas as pseudo-justificações dos administradores da Prisa, de uma indigência quase infantil, para se confirmar que os saneamentos de Moniz e Moura Guedes da TVI obedeceram a uma lógica de intromissão política. A pergunta subsequente é óbvia: a quem servem tais afastamentos? Quem se sentia politicamente incomodado com os noticiários e a informação da TVI?

José Sócrates não conseguiu esconder, nos últimos meses, a obsessão persecutória e a ira visceral que nutria em relação às notícias da TVI. No Congresso do PS, colocou a TVI na linha de mira do tiro ao alvo. Numa entrevista à RTP, excedeu-se a falar de um «telejornal travestido» e de «caça ao homem». No Parlamento, perdeu a cabeça quando confrontado com o significado da eventual saída de Moniz.

Como pode, depois de tudo isso, garantir, com cara de santo, que não teve «qualquer influência» nas demissões levadas a cabo pelos seus amigos da Prisa? Na autoria moral, deixando de lado a material, deste atropelo à liberdade de informação estão, por todo o lado, as suas impressões digitais.

Nos traços da obcecada animosidade deste Governo em relação aos órgãos de comunicação social que mantêm a sua independência crítica e não temem as pressões de S. Bento – como a TVI, o Público ou o SOL – está o ADN da intolerância de Sócrates e a noção de que tudo pode controlar com o seu transitório poder. Só mesmo figuras como Augusto Santos Silva, ministro de serviço para os sarilhos governativos, ou Emídio Rangel, socratista na reserva para o espaço televisivo, são capazes de jurar a pés juntos que Sócrates não teve qualquer interferência nos saneamentos da TVI. Além deles, mais alguém acredita?

«SOL» de 11 de Setembro de 2009

sábado, 12 de setembro de 2009

Maria Clara

Por Alice Vieira
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A MORTE DE MARIA CLARA foi tão discreta que por momentos cheguei a pensar que se calhar eu tinha ouvido mal, que o amigo que me avisara também tinha ouvido mal, e que tudo não passava de uma lastimável confusão de nomes.

Durante dias procurei nos jornais, mas em lado nenhum a notícia aparecia, e as rádios não estavam a transmitir a “Figueira da Foz”, como seria normal.

Mas não era mentira: a discrição, que sempre a acompanhou em vida, seria a discrição que a acompanhou na morte.

A Maria Clara foi uma pessoa muito presente na minha infância e adolescência. Sempre me lembro de mim a ouvi-la na rádio, a vê-la no teatro, a trautear-lhe as canções.

Para além disso, os mexericos familiares (ainda não havia televisão, era preciso preencher os serões de qualquer maneira) muitas vezes recaíam nela: como era possível que um neto do Bernardino Machado (um dos heróis dos tios lá de casa) tivesse casado com…uma artista! (E nem vos descrevo a expressão das minhas tias ao pronunciarem esta palavra).

Mas já aí a discrição de Maria Clara se manifestava: não se divorciava, nem aparecia nas páginas da “Plateia” em declarações desbragadas.

E, no mês em que foi capa da revista “Os Nossos Filhos”, com um filho pequeno às cavalitas, as velhas renderam-se.

“Os Nossos Filhos” era uma publicação prestigiada, onde colaborava gente importante de várias áreas — e dirigida pela Maria Lúcia Namorado, nossa prima.

A partir dessa altura, a Maria Clara, lá em casa, passou à condição de ”artista-mas-nem-parece”.
Ideia reforçada muito tempo depois quando, num festival de televisão de que nem recordo o nome, o apresentador Pedro Moutinho se lembrou de se meter com ela de maneira considerada menos própria--e ela, ao vivo e em directo, se mostrou visivelmente desagradada.

Mas o que a levou, definitivamente, a entrar na galeria das pessoas que as minhas tias olhavam com respeito foi a decisão de largar as cantigas e ficar em casa a cuidar da família.

Isso sim, isso era de uma senhora! Isso era digno de uma neta (ainda que por afinidade…) do Bernardino Machado.

À distância destes anos todos, lembro-me que foi exactamente isso que eu então não entendi: como era possível que uma mulher, com aquela carreira, aquela voz, abdicasse de tudo para ser dona de casa.

Eu, que sonhava começar a trabalhar depressa para me livrar daquilo tudo, nunca lhe perdoei ter “prejudicado” a minha causa…

Mas foi tudo há muitos anos.

Hoje só sei que tenho passado os dias a ouvir a “Figueira” no Youtube e que, apesar de todos os lugares comuns, e as finas areias a rimar com as sereias, e essas coisas mil vezes cantadas e recantadas — choro que nem uma parva.

A minha filha tem razão: preciso mesmo de ir ao médico.

«JN» de 12 de Setembro de 2009

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

«Treze gotas ao deitar» - Há mulheres que de tudo são capazes

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Por Antunes Ferreira

A ALICE É A CULPADA. A Vieira, claro. Não me deixou dormir a noite inteira. Alto lá!, desafivelem já esses sorrisos sacanas das vossas faces insolentíssimas. Honni soit. E, pior: ela e mais cinco. Enuncio. A Rosa Lobato de Faria, a Leonor Xavier, a Luísa Beltrão, a Rita Ferro e a Catarina Fonseca. Seis mulheres – é uma multidão. Sendo perigosas – ainda mais é. Um tsunami.
Vamos aos factos. Uma noite inteirinha agarrado a um livro, deitei-me às seis e picos da matina, a Raquel a perguntar-me o porquê de me estar a levantar tão cedo. E eu (que nem lhe disse que era, sim, a entrar no vale de lençóis) – foi por causa das gotas. Gotas? Que gotas? Esta noite começaste a tomar gotas? E, sem esperar pela resposta, a minha cara-metade, virou-se para o lado e recomeçou a ressonar.

Uma cantiga velhinha, hoje interpretada pela verde Maria José Valério, é a que diz no refrão «cuidado, rapazes, cuidado muito cuidado; há mulheres que de tudo são capazes, e a fortuna não está sempre ao nosso lado». Muito bem. É o caso; na verdade, há mulheres que de tudo são capazes. Este sexteto feminino foi capaz de escrever um romance notável e hilariante. E foi também capaz de me levar a lê-lo de fio a pavio durante uma noite inteira.

Ainda não leram o «13 gotas ao deitar»? Não sabem o que perderam. O que perdem. Uma história alucinante em que a protagonista Marina se desdobra em mais três fulanas: a Odete, a Maria Eduarda e a Francisca. A inquirição é sugestiva e perfeita: quantas mulheres existem na cabeça de Maria Marina Silveira Figueiroa? Pelos vistos, quatro.

Mas podiam ser seis, como as autoras. O que ainda traria mais complicações a um enredo já de si labiríntico e gozadíssimo. Não o conto aqui, porem, porque o livro deixaria de ter piada quando o lessem – e os direitos de autor, neste caso das autoras, são para ser respeitados, ainda que num mercado cada vez mais assassino, muita gente não se lembre disso. E os euros estão cada vez mais caros – e raros. Feitios.

Por isso, apenas me limito aqui a registar o facto incontroversamente verdadeiro: nessa noite não preguei olho. E, aparentemente, nada fazia indicar que tal acontecesse. Eu conto. Tinha ido um tanto diletantemente, à fnac do Colombo (é assim mesmo, não se trata de publicidade, palavra), local por demais perigoso, cheio de armadilhas, veja-se que foi lá que lancei o meu «Morte na Picada»… E fui passando pelas estantes, juro que para ver se tinham saído novos policiais. Sou um verdadeiro louco por eles.

Nisto, insidiosamente, surde duma delas, carregada de autores portugas, um romance, «13 gotas ao deitar». Bom título. Óptimo. O jornalista nunca deixa de o ser e está tudo dito. Escrito por? À cabeça do gang a Alice Vieira. E entre as conjuradas, a filhinha Catarina que conheci miúda e bem, com uns chupas à mistura, na Redacção do DN.

A Alicinha, além de grande e fiel Amiga (o bacalhau já era), foi minha camarada de trabalho ali no quotidiano. À minha beira, ou quase, pariu o mais lindo livro que algum dia li, «Rosa, minha irmã Rosa» alegadamente para crianças, eu diria, plagiando já não sei quem, dos oito aos oitenta. Foi uma colheita magnífica: o Mário Zambujal lançava os «Bons Malandros», o Dacosta conduzia o «Jipe em segunda mão». Um fartote.

Dito isto, e perante a trama tramada, com assassínios à mistura e tudo o mais, vem-me ao cristalino bestunto um anúncio também já com uns anitos: Com Dum Dum não escapa um! Dum Dum é o fim!

Os velhos

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Por Maria Filomena Mónica

NA ÚLTIMA SEGUNDA-FEIRA [Jun 2008], teve lugar na Fundação Gulbenkian um «fórum» dedicado ao tema «Como se envelhece em Portugal». A este propósito, lembrei-me de um poema de Jacques Brel, com um título idêntico ao que usei neste artigo, no qual que se diz: «Les vieux ne bougent plus leurs gestes ont trop de rides leur monde est trop petit/ Du lit à la fenêtre, puis du lit au fauteuil e puis du lit au lit». O casal, resignado e doce, aqui celebrado desapareceu do mundo contemporâneo. Há alguns anos, costumava brincar com o Miguel Esteves Cardoso sobre as delícias do envelhecimento: ser gágá dar-nos-ia a liberdade de poder dizer tudo o que nos passasse pela cabeça; entre as cadeiras de rodas a risota seria permanente; ninguém nos poderia interditar as piores asneiras. Nunca mais com ele falei sobre o assunto. No que me diz respeito, esta visão idílica desapareceu.

O futuro dos velhos é tenebroso, especialmente o das mulheres, com uma esperança de via mais longa do que a dos homens. Já nem falo dos pobres, para quem tudo é mais difícil, mas, mesmo para os ricos, as perspectivas não são risonhas. A ideia corrente de que apenas nos «lares» são os velhos mal tratados é errada. A maior parte da violência passa-se, sempre se passou, no interior da família, como recentemente lembrou o Provedor Geral da República, que nos veio alertar para um facto dramático: de 2001 a 2006, o número de crimes denunciados, em que a vítima tinha mais de 64 anos, triplicou, atingindo, na última data, 24.879 casos. Não nos podemos esquecer que são pessoas como nós, com vidas aparentemente normais e almas sensíveis, que espancam os pais e avós. Este tipo de brutalidade revela quão pesado é tratar de velhos em condições cada vez mais deterioradas. É por isso que não quero depender dos filhos, nem ir para um lar. A única solução é morrer, em data não muito longínqua, com um ataque de coração.

Junho de 2008

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Alguém sabe... - Solução

Freguesia de/a Pena

O que está em jogo


Por Baptista Bastos

Quando se diz que na Madeira não há 'asfixia democrática', está em jogo algo de mais relevante do que uma frase suplementar.

A DR.ª MANUELA FERREIRA Leite foi à Madeira e regressou inundada de felicidade. Segundo o seu intenso regozijo, na ilha "não há asfixia democrática." Não sou especialista em falta de ar, mas a declaração da nobre senhora bastava, acaso fosse o infausto caso, para eu fugir, arquejante, do voto no PSD. Confesso aos meus dilectos que já sofri a asma de dez anos de cavaquismo; e a respiração opressa em que viveu a imprensa, aliada ao fechamento de inúmeros títulos, é uma história por contar.

Sabem-na os jornalistas com memória, aqueles que foram removidos através das cínicas "rescisões amigáveis de contrato", e os que nunca mais foram aceitos nas redacções, sob a alegação de terem "mau feitio" ou de serem "muito de Esquerda." E eram algumas das grandes assinaturas dos jornais.

É verdade que houve quem renegasse os testamentos sagrados. Ao contrário da lenda, Roma paga a traidores. Generosamente, jornais, rádios e a RTP abriram-lhes os braços. Os moralistas da profissão ficaram calados como ratos. Reaparecem sempre que surge um berbicacho: dizem umas inflamadas banalidades sobre liberdade de expressão e recebem medalhas no 10 de Junho.

Como devem calcular, sei muito bem do que falo. E o nojo que me invade, nestas situações, não esmorece com a idade. Pelo contrário: sou um casmurro que bate o pé. É sabido que não trago o retrato de Sócrates junto do coração. Tenho-me servido do sarrafo, escandalizado com as suas políticas crudelíssimas, tristes e insensíveis que deram cabo de algumas esperanças acalentadas. A lista das minhas indignações é grande. Mas nunca senti "asfixia democrática"; nunca houve recoveiros a sussurrarem--me recados ou ameaças. Ao contrário do que me aconteceu no tempo do dr. Cavaco: fui proibido de escrever "artigos políticos" por uma parelha de medíocres que trepara à direcção do Diário Popular, jornal fundado pelo meu pai, no qual eu começara a escrever, com catorze anos, e onde trabalhei durante vinte e três.

A mesa autoritária conheço-a de cor. Quando a dr.ª Manuela Ferreira Leite, onzenada pelo seu Rasputine ex-maoísta, procede à elaboração da realidade como evidência, preocupo-me com essa fumigação perigosa, que pode enganar e submeter os que são propensos ao engano e à submissão. Vivemos numa época em que o que se diz ser é o que conta. Mas precisamos de enfrentar esse ardil e resistir à falácia. Empreender um esforço de compreensão, a fim de percebermos o que é importante para a comunidade, entendida esta como "mundo comum."

Quando se diz que na Madeira não há "asfixia democrática" , está em jogo algo de mais relevante do que uma frase suplementar.

«DN» de 9 de Setembro de 2009

terça-feira, 8 de setembro de 2009

«Dito & Feito»


Por José António Lima

JOSÉ SÓCRATES ACUSA, com razão, o PSD de estar «hoje muito à direita, talvez como nunca esteve na sua história». Mas se é verdade que Manuela Ferreira Leite enquistou o PSD num discurso de cariz autoritário e redutoramente conservador, insistindo, em tom catastrofista e passadista, que se «diluíram os pilares da sociedade, como a família e o casamento», não é menos verdade que Sócrates radicalizou a mensagem do PS à esquerda. Teimando em fazer de temas fracturantes e minoritários, como a equiparação das uniões de facto ao casamento ou os direitos dos homossexuais, suas bandeiras de campanha.

Sócrates ficou muito alarmado com o que perdeu à esquerda, nas eleições de Junho, com os 21,4% que o BE e o PCP somaram, não percebendo que o PS deixou fugir a grande maioria dos seus apoiantes (mais de 400 mil votos) para o eleitorado central (abstenção mais brancos e nulos) e para o centro- direita?

Ferreira Leite não terá reparado que os seus escassos 31,7% de Junho indicam que não é ao CDS que o PSD pode e deve ir captar votos, mas à vasta faixa de eleitorado de centro e centro-esquerda que deu, no passado, as vitórias a Cavaco?

Os líderes do PS e do PSD menosprezam o centro eleitoral: eis mais um fenómeno difícil de explicar nesta campanha legislativa que assinala o fim da maioria absoluta.

Em tão ingrata conjuntura político-eleitoral, Sócrates ainda sofreu o revés de ver Pina Moura, seu influente ex-conselheiro, a elogiar o programa eleitoral do PSD como «clarificador» e «mais duro e mais focado» do que o do PS. Mais um desgosto...

O que vale a Sócrates, em contrapartida, é que a sua mandatária para a juventude, Carolina Patrocínio, veio tranquilizar o país quanto à evolução da crise e do desemprego: «Portugal foi objectivamente dos primeiros países a sair da recessão técnica e isto assinala o início da retoma económica». Com tão conceituada e reconhecida autoridade em ciência político-financeira a garantir o oásis português, Sócrates pode dormir descansado. E continuar a fazer inaugurações todos os dias: de túneis que não abriram, de fábricas que não arrancaram, de projectos de obras que ainda nem começaram. Como diz a sua especialista em finanças, Carolina Patrocínio: «Odeio perder. Prefiro fazer batota a ter de perder». Sigam, pois, as inaugurações virtuais.

Ah! e também a limpeza de jornalistas incómodos e não alinhados com o poder socialista, como Manuela Moura Guedes. Ainda que tamanha desfaçatez e tanta batota possam tornar-se eleitoralmente contraproducentes.

«SOL» de 4 de Setembro de 2009

Passatempo-relâmpago de 8 - 9 Set 09 - Soluções

2ª fase: fachada do Palácio de Seteais, séc. XVIII
referido por Eça no Cap. VIII de «Os Maias»

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1ª fase: ao fundo, o Palácio da Pena
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NOTA: estas fotos foram obtidas [aqui] e [aqui].



Passatempo-relâmpago de 8 Set 09 - Solução

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O passatempo foi ganho por Paulo.

NOTA: desta vez, pedia-se o título original (que Paulo indicou correctamente), porque, na versão portuguesa (cuja capa aqui se vê), aparece 'auto estrada', em vez de 'autoestrada' ou 'auto-estrada', e isso faria confusão.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O peso da Ibéria - Solução

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975 gramas
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Quem mais se tenha aproximado, tem agora 24h para escrever para sorumbatico@iol.pt indicando morada para envio do livro. Em caso de empate, o vencedor será o autor do 1.º alvitre.
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Actualização (7 Set 09/20h10m): pelas minhas contas, o vencedor foi Diogo Bobone Carvalho, com a aposta 990 gramas (erro=15 g).

Ainda as marquises de alumínio - Fotos das Avenidas Novas

A
Av. Frei Miguel Contreiras
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B
Av. Roma, n.ºs 39, 41 e 43
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C
Esquina da Av. Roma com Av. João XXI
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D
Av. Roma
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E
Outra esquina da Av. Roma com Av. João XXI
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F
Av. Roma
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G
Av. João XXI
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H
Esquina da Av. Roma com a R. Frei Amador Arrais
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I
Av. Roma. Ao centro, o C.C. Roma

domingo, 6 de setembro de 2009

sábado, 5 de setembro de 2009

Coisas da Ibéria

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Por Antunes Ferreira

QUÉ VIVA ESPANHA! – canta no CD que toca no meu carro Maribel Estrada, uma jovem intérprete não muito badalada no país vizinho, mas cuja voz tem uma frescura e uma sonoridade magníficas. Chamasse-se ela Iglesias ou Flores e outro galo cantaria, passe a comparação espúria.
Estou em Badajoz, onde vim uma vez mais à Universidad de Extremadura. Acontece que sou o que aqui se chama Profesor Invitado del Grado de Comunicación Audiovisual e por isso, venho algumas vezes por ano para leccionar em Cursillos de Comunicación. Não sei por que bulas, talvez mesmo porque falo e escrevo medianamente bem o Castellano. Mais do que isso, nada adianto. Favores.

Por estas bandas a crise ainda não começou a abrandar. Os desempregados continuam a aumentar. Ontem, o El País publicava a quatro colunas da primeira página uma parangona péssima: Agosto se cierra com 84.985 parados más. El repunte del paro complica el inicio del curso político a Zapatero.

O desemprego registado (como aquí se diz) atinge 3.629.080 cidadãos. E os desempregados sin cobertura estatal eram 1.040.214 em Julho deste ano. De degrau em degrau, o Governo é obrigado a a ampliar a ajuda de 420 euros - já em vigor - durante mais um semestre, a outros 255.000 desempregados pelo menos até 1 de Janeiro. Zapatero chegou a um acordo com todos os partidos da esquerda parlamentar e mesmo sem representantes nas Cortes.

O PP ficou de fora, não quis entrar nas negociações. Mariano Rajoy, na rentré, minimizou a corrupção com que o partido se debate, pois vários dos seus membros foram acusados dela e afirmou que não havia condenados no PP. El País – que, como é sabido, não tem nenhuma inclinação para a direita, acrescenta à declaração do líder que «há uma dezena de sentenças, mas o PP que se trata de ‘casos antigos’.»

Deito uma vista de olhos pelos jornais e pelas informações televisivas. Ontem, à noite, através dos canais portugueses tomei conhecimento do estranho (?) caso ocorrido na TVI. Dos ataques das oposições ao que consideraram uma intervenção governamental, do PS ou do próprio Sócrates a originar a suspensão do famigerado Jornal Nacional de Sexta e da confusão daí resultante, até ao desmentido do primeiro-ministro foi uma verdadeira girândola. Com tudo fiquei muito preocupado, a liberdade é a liberdade, censura – nunca mais. E suspeitoso. Excepto com a saída da Manuela Moura Guedes. Já não era sem tempo.

Por aqui, «la cosa» é referida como um atentado à liberdade de informação, quiçá por parte do Executivo português, mas a declaração de um porta-voz da Prisa de que as medidas tinham sido tomadas pela direcção lisboeta e pelo administrador-delegado foi mais destacada. Madrid remete, pois, para Lisboa. Será que Lisboa remeterá para Madrid? Pudera, não. Para o maior grupo espanhol da comunicação social já chegam e sobejam os imensos problemas com que se debate, nomeadamente a nível económico e financeiro. A maldita crise.

Estou já de saída, porque o que me trouxe a Espanha está no bom caminho. O que se vai tornando cada vez mais raro, mas, no caso, felizmente é assim. E quando as preocupações são muitas e enormes, mais satisfeito estou com o que se passa comigo, neste particular.

Sobretudo quando de um lado chove e do outro faz vento, embora ainda estejamos no Verão. E, cada vez mais, entendo os que defendem o iberismo. Entre os quais me situo. As desgraças são comuns, a má-língua é comum, a corrupção é comum, as atitudes perante este rol é comum.

Tudo visto, quem devia ter sido considerado traidor era o João Pinto Ribeiro. O pobre e defenestrado Miguel de Vasconcelos devia, ele sim, ter estátuas a sério espalhadas aí. Neste particular (como noutros) alinho com o Saramago. O que não falta são os Cains.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Não há avôs em Portugal?

Por Maria Filomena Mónica

NÃO SENDO DO PSD, deveria ter ficado indiferente às eleições internas para a chefia do partido, mas visto considerar que, em democracia, é bom dispor-se de uma oposição forte, prefiro que o lugar tenha ido para Manuela Ferreira Leite do que para qualquer dos rivais. Notei que não se discutiu o seu sexo – supostamente uma deficiência – mas sim a sua idade, a qual, em sociedades que valorizam a juventude, é vista com um obstáculo. Sabem quantos anos tinha Churchill quando entrou para o governo que levou à vitória dos Aliados? 65!

Deixo de lado esta questão, para me concentrar no facto de Ferreira Leite ser a primeira mulher eleita presidente de um partido em Portugal. Durante décadas, as mulheres que ascendiam ao topo da vida política – Maria Luísa van Zeller ou Maria de Lourdes Pintassilgo – ou da carreira universitária – Virgínia Rau ou Isabel Magalhães Colaço – eram obrigatoriamente feias e supostamente virgens. As coisas mudaram.

A imagem da nova Ministra da Defesa em Espanha, com uma barriga de sete meses revistando as tropas, mostra quão longe estamos do que se passava ainda há pouco tempo. E, apesar de não possuir traços da beleza clássica (note-se a assimetria dos seus traços fisionómicos) Manuela Ferreira Leite usa os mais bonitos colares da classe política europeia. Em suma, nada que a aproxime das mulheres da anterior geração.

Ao longo da campanha, declarou que nunca falaria da sua vida pessoal – na minha opinião uma decisão contestável – mas acabou por o fazer, ao comunicar que, na eventualidade de a sua filha, a viver em Londres, dar à luz, preferiria estar junto dela do que entre os seus correligionários, no dia do encerramento da campanha partidária. Poderia ser um truque de marketing – certamente que os seus conselheiros de imagem deliraram – mas há qualquer coisa que me faz pensar ter sido uma opção genuína. Porque eu teria feito o mesmo. O que me suscita uma pergunta: qual o motivo por que o problema nunca se levanta quando os candidatos são homens? Há dias em que me convenço que as mulheres são diferentes. E, claro, melhores.

Junho de 2008

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Passatempo-relâmpago de 3 Set 09 - Solução


Passe a publicidade:
Esta loja, além de «BATEDEIRAS DE MAO», também vende «ABOBORA», «ALHO FRANÇES» e «MELÂNCIA», como se pode ver [aqui].

quarta-feira, 2 de setembro de 2009




Passatemopo «Os limites da adolescência» - prémio



Como 2.º prémio (ou em alternativa a este), está também disponível o livro de Joseph Conrad «Juventude».

A Grande Farsa

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Por Baptista-Bastos

QUE PODEMOS FAZER por nós próprios, tendo em conta que os propósitos políticos em causa pouco ou nada projectam em nosso favor? Devíamos, talvez, aplicar a sabedoria dos nossos erros para recriminar aqueles que nos conduziram à situação em que nos encontramos. Todas estas figuras chegam ao proscénio, tingidas por fora de impolutos predicados, e dizem-nos querer salvar a pátria através, claro!, do nosso voto. Sorriem, mas estão cheios de raiva e de ressentimento. Têm vindo a insultar-se com a baixa linguagem dos eguariços, e desembainham a larga espada da justiça e da solidariedade, como se estivessem a cumprir um destino. A farsa das generalizações atingiu a mais atroz das banalidades e a mais inquietante das incertezas.

Será Sócrates um mentiroso, desde os tacões dos sapatos ao corte de cabelo, e a dr.ª Manuela a imaculada guardiã de todas as verdades conhecidas? Vamos eleger caracteres. Vamos escolher entre uma pretendida compulsão para a mentira e a imagem sacrossanta da virtude como religião. Ignoramos o conteúdo dos programas e conhecemos, dos candidatos, as suas figurações e aquilo que a comunicação social quer revelar.

"O programa, venha o programa!", exigiam, coléricos, os socialistas, à chefe do PSD. Esta, com o sorriso evasivo que se lhe conhece e aquele olhar que assusta o mais destemido dos mortais, prolongava a agonia da expectativa. Até que lá fez a vontade aos importunos pedinchões, e leu um quadradinho de papel, no qual se dizia o que se planeava. Nada de novo: privatizações a eito, limitação de direitos, benesses a quem dá emprego aos outros. A dr.ª Manuela e seus asseclas parecem desejar que o Estado seja minguado até ao esqueleto, e que Portugal comece a ser governado por "gestores". A sua tese da interrupção da democracia por seis meses não é boutade, deslize momentâneo, graça pesada. É a expressão de um pensamento, afinal consubstanciado na proposta "minimalista" que fez ao País.

Enquanto a dr.ª Manuela manifesta um estremecido desprezo pela arraia-miúda, o eng.º Sócrates continua a declinação gélida das "reformas", insistindo nessa rábula do "socialismo moderno", monstruosa aldrabice que desacreditou uma ideia generosa e redentora, e a colocou no centro de todas as injúrias e de todos os chistes.

Estamos, pois, numa encruzilhada. Até que o preconceito, a ignorância e a informação omitida e dirigida permitirem uma unívoca concentração de poder, as alternativas são-nos apresentadas como as únicas construções institucionais. "Mudar tudo!", exclama, inclemente, a dr.ª Manuela. "Não mudar de rumo!", conclama o eng.º Sócrates. Um susto! Não há regeneração possível. Nenhum deles interessa; os outros constituem, presentemente pelo menos, uma impossibilidade.

«DN» de 2 de Setembro de 2009

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Em complemento do Street View


segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Desafio Street View - AML - 31 Ago 09

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Imagem da AML tal como a mostra o Google Maps, hoje.
(É possível fazer um zoom, mas não vale a pena...)
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Esta imagem é semelhante a muitas outras aqui afixadas - algumas até bem piores, com carrinhas da P.M. e da autarquia em estacionamento ilegal (estas últimas, até estacionadas em pleno jardim Fernando Pessa!).

Aqui, podemos ver 'apenas' 4 veículos em contravenção (um em 1.º plano, e 3 ao fundo), dos quais se destaca - todos os dias lá está este ou outro igual... - um carro da Polícia Municipal olimpicamente estacionado em Paragem Proibida.
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Que diabo!
Que formação têm estas pessoas, que nem sequer percebem que o mínimo que se exige às autoridades é que dêem o exemplo?!

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NOTA: Ver, [aqui], algumas fotos tiradas recentemente no mesmo local.
Disponho de muitas outras, porventura ainda 'melhores'...


O Fim do Segredo Bancário

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JL Saldanha Sanches

O SEGREDO BANCÁRIO” […]”desde sempre esteve institucionalmente presente na actividade deste sector económico, como factor e garantia do funcionamento eficiente do sistema”.

Estas doutas opiniões do nosso Tribunal Constitucional já tinham uma conotação cómica quando foram proferidas em 2007 pelo que revelavam de absoluto desconhecimento da matéria: são de um cómico irresistível hoje, quando o maior banco suíço cede às injunções de um juiz norte-americano para revelar à administração fiscal quem são os cidadãos americanos que lá têm contas e aumenta a lista dos paraísos que cedem as pressões da OCDE para se tornarem colaborantes.

Mesmo em 2007 já não tinha qualquer sentido que se dissesse, ao tratar da possibilidade de acesso da administração fiscal às contas bancárias, que o segredo bancário é um factor de funcionamento eficiente do sistema: um esforço mínimo de investigação iria revelar que nos sistemas mais eficientes – com excepção do suíço e bem sabemos porquê – convivem com o acesso permanente e regular do fisco sem qualquer intervenção de um juiz - às contas dos seus clientes. E que os paraísos fiscais são um problema sério para a supervisão bancária: recorde-se os off-shores do BCP como o melhor exemplo da ocultação de informação financeira e dos seus efeitos. Os accionistas deste banco que o digam.

Por isso, o conceito ‘segredo bancário’ – quando não se trata do dever de reserva do banqueiro perante terceiros sem qualquer interesse legítimo no acesso à informação bancária – está hoje de forma incidível ligado ao conceito paraíso fiscal.

Quando se aceita que alguns países ou territórios possam prosperar tornando-se coitos fiscais, defende-se o segredo bancário e o direito de não cooperação com as autoridades fiscais. Sempre na perspectiva da atracção de capitais interessados num secretismo que permite o incumprimento de obrigações fiscais.

Quando estas operações se tornam quase indefensáveis, aperta-se o cerco às fortalezas do crime e acaba-se com este tipo de segredo bancário.

A possibilidade de alargamento da base fiscal que estas medidas proporcionam não pode ser esquecida e deveria figurar nos programas eleitorais: deverá ou não haver uma amnistia para quem pretenda regularizar a sua situação fiscal declarando os rendimentos obtidos no exterior como está a suceder em alguns países? Se houver, em que condições?

É uma questão muito mais interessante – e com muito mais receita potencial – do que a constitucionalmente duvidosa limitação da dedutibilidade das despesas de saúde para as categorias de rendimento mais elevadas.

Exigirá a revisão de uma parte dos nossos acordos de dupla tributação em matéria de troca de informações tal como está a ser feito por outros países e a definição de uma política mais clara a este respeito: porque alguns dos nossos acordos ainda foram celebrados num período em que se considerava Portugal como uma espécie de paraíso fiscal hostil à troca de informações.

Apesar de, ao contrário dos paraísos autênticos, sempre termos tributados as contas dos não–residentes sublinhando a inconsequência deste projecto.

«Expresso» de 29 de Agosto de 2009 - www.saldanhasanches.pt

Dito & Feito

Por José António Lima

ALERTANDO SÓCRATES e o PS para as desgraças políticas que podem estar perto de bater-lhes à porta, Mário Soares veio avisar esta semana que «os resultados das próximas eleições não são nada fáceis de prever», abrindo caminho ao cenário de uma derrota socialista. E aproveitou para chamar a atenção sobre o balanço negro de quatro anos e meio de Governo PS: «A generalidade das pessoas está descontente e insegura quanto ao seu futuro próximo», o que prenuncia um voto muito volátil e facilmente transferível para outras forças políticas.


José Sócrates não precisava deste aviso à navegação dado por Soares. Ficou a perceber tudo isso na noite do desastre eleitoral socialista (e pessoal) das europeias de 7 de Junho. E sabe, por outro lado, que mais do que Oposições ganharem as eleições são os Governos que as perdem. Daí a incansável e ininterrupta actividade de pré-campanha eleitoral a que se tem devotado por estes dias, ora na pele de líder do PS ora na condição de primeiro-ministro. Aparece compungido e de gravata escura na praia Maria Luísa, exulta na primeira escavação do longínquo túnel do Marvão, passa pelo Hospital de Lamego, vai comiciar à Madeira de Jardim e acusar o PCP e o BE de quererem «enfraquecer o PS» (como se o PS não quisesse enfraquecer o PCP e o BE...), surge a gabar a redução do insucesso escolar, aterra em Santarém para receber (com lágrimas contidas) uma medalha de Moita Flores, visita a nova fábrica da Portucel que apenas será inaugurada em Novembro, etc., etc. Uma agenda interminável e um esforço, porventura, inglório.

Mas, a par das maratonas de Sócrates, o PS inaugurou agora um novo modelo de estratégia eleitoral: pôr dirigentes socialistas a dizerem mal das medidas mais impopulares do Governo igualmente socialista. Marcos Perestrello, membro do Secretariado nacional do PS, veio criticar a «atitude hostil» da ministra da Educação para com os professores, a «rigidez» de Maria de Lurdes Rodrigues, que «transformou a determinação em obstinação». Espantoso...

Que membros do Secretariado do PS se seguirão a Perestrello? Edite Estrela a arrasar a política do ministro Teixeira dos Santos pela perda de poder de compra e de apoios sociais dos funcionários públicos? António Costa a demolir os números do desemprego? No PS, em aflitivo tempo de eleições, parece que vale tudo. E o seu contrário...

«SOL» de 29 de Agosto de 2009

domingo, 30 de agosto de 2009

Passatempo «Fogos na Califórnia» - Solução

Os Amigos


Por Alice Vieira

PERDI QUATRO amigos neste mês de Agosto.

A minha cabeça e o meu coração andaram entre Lisboa e o Porto, tentando dar a cada um o pouco de mim que em vida, nalguns casos, não tive tempo de lhes dar: vamos sempre acreditando que os nossos amigos são eternos e, quando descobrimos que não são, já é tarde.

Com uma virose que teima em não me largar, e o trabalho atrasadíssimo, facilmente se compreende que este Agosto esteja a ser muito difícil de aguentar.

Felizmente os amigos que me restam conhecem-me tão bem que, sem eu dizer nada, se têm encarregado de me tornar os dias um pouco mais suportáveis.

Porque amigo é assim mesmo: conhece-nos por dentro, adivinha aquilo de que necessitamos, sabe o que nos alegra, entende os nossos silêncios, tem a capacidade de nos surpreender dando-nos aquilo de que estamos mesmo a precisar – mas sem termos de o pedir. Porque se o pedimos… qualquer estafeta serve.

Olho as rosas na minha mesa — e fico feliz por não ter tido necessidade de as pedir ao meu amigo João.

Penso no café bebido no Starbucks de Belém – e fico feliz por não ter tido necessidade de pedir à Inês que naquela manhã me levasse lá.

Espero o telefonema da Leonor, porque sei que, sem que eu o peça, ele chega sempre a meio da madrugada.

A Dina manda-me postais diariamente.

E o Vítor enfiou-me no carro e desandou comigo para o Café da Natália (em S. Pedro de Sintra, para quem não conhece) ignorando os meus protestos de que o trabalho se iria atrasar, porque sabe que nada faz melhor à alma do que as empadas que lá se comem.

Mas confesso que não esperava o telefonema do António, com quem ainda recentemente tinha estado no velório do Alberto.

À beira dos 80, o António é, de certeza, um dos melhores contadores de anedotas que existem à face da terra.

- O Alberto faz-me uma falta do caraças… – diz de repente, a meio de uma frase de circunstância — E é por isso que eu te estou a ligar.

Gaguejou mais meia dúzia de palavras, até que explicou tudo.

Do seu grupo de amigos, “amigos mesmo, mesmo a sério, tás a ver?”, já não restava ninguém.

Todas as noites o António ligava ao Alberto para lhe contar anedotas. E agora já não tinha ninguém com quem cumprir o ritual.
- Se tu não te importasses…

E pronto, todas as noites, muito antes do telefonema da Leonor, o António liga-me. Conta duas, três anedotas, ri muito, manda beijinhos, deseja boa noite e desliga.

Às vezes as anedotas são repetidas, mas eu rio à mesma, e ele fica feliz.

Só não me perdoo de não ter sido eu a pensar nisto e a tomar a iniciativa.

Acho que não fui grande amiga do António, porque precisei que ele me telefonasse a pedir o que eu deveria ter adivinhado.

Com o António, sinto que fui um bocado estafeta.

«JN» de 29 de Agosto de 2009

sábado, 29 de agosto de 2009


A cabecinha pensadora que colocou o pilarete (que, supostamente, deveria impedir a entrada de carros no espaço reservado a motociclos), foi tão generoso que até uma carrinha pode estacionar ali folgadamente.
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Neste dia, e com a chegada da EMEL (que se vê na imagem de baixo), o condutor da Mercedes tirou-a, a tempo de não ser incomodado.
A foto afixada no 'Sorumbático' (que mostra o espaço limpo) foi, portanto, tirada depois desta.

A felicidade total – ou quase


Por Antunes Ferreira

OS PORTUGUESES VÃO, FINALMENTE, ser todos – ou quase todos – muito felizes, depois do PPD/PSD e quiçá o CDS-PP chegarem ao poder, ou seja após terem vencido as legislativas que se aproximam a passos largos. Mais precisamente: elas já estão aí, ao virar da esquina, faltam umas cinco semanitas, mais coisa, menos coisa, para o 27 de Setembro.

Acabará, então, a maldita crise – é o que se pode (pelo menos eu posso) inferir das declarações programáticas dos dois partidos da Direita. Não concordam comigo? Têm todos o direito de discordar. Na vigência da Liberdade e da Democracia, é assim. Ainda que alguns queiram que não. Mas, podem-no fazer, diria até devem-no fazer. Com as necessárias justificações? Nada disso. O livre alvedrio supõe a responsabilidade. É, tão-só, a minha opinião, sublinho.

Explico-me, ainda que, face às boas propostas enunciadas, me pareça intuitiva essa felicidade que nos espera. Mesmo assim, sobretudo para os menos avisados ou para os mais distraídos, aqui deixo as minhas razões para antever esse Paraíso que nos vai abrir as portas, quiçá com as correspondentes huris, sabe-se lá se com as harpas da satisfação, as asas da abastança.

Vejamos. Manuela Ferreira Leite veio a terreiro prometer a baixa de impostos. Não de todos, está bem de ver, apenas dos suficientes para empolgar os que irão depositar os seus votos nas urnas. Bandeira agitada galhardamente mas, acentue-se, sem qualquer vermelho, sequer algo que se assemelhe a tal cor tradicionalmente perigosa – salvaguardando o Benfica, obviamente. Ainda que este seja mais encarnado.

O busílis da questão é que, em seguida, o partido da Santana à Lapa veio esclarecer que a sua líder não dissera o que aparentemente dissera. A interpretação do que afirmara é que tinha sido errada, ainda que a intenção da Senhora fosse realmente baixa-los (os impostos, naturalmente) logo que fosse possível fazê-lo. O que significava em linguagem popular, um verdadeiro tiro-e-queda. Um minúsculo quiproquó.

Além disso – que já não é pouco, destaco - o PPD/PSD vai meter ombros à tarefa ciclópica mas realizável de eliminar o estatal do… Estado. Para dar cabo do famigerado amplexo com que os socialistas têm vindo a asfixiar o País. Piedosa e excelente intenção que bem sintetiza a afirmação dos seus cartazes propagandísticos: «só prometam aquilo que podem cumprir».

Em primeira análise – e dada a limitação de espaço, sempre citada por quem escreve para publicações com ele reduzido – estes dois propósitos já chegariam, no meu modesto entender, para encher as almas da lusa gente da felicidade, gente que, aliás, merece que assim seja. Logo, assim seja. Há mais, mas ficam para melhor ocasião.

Por seu turno, o presidente do CDS-PP veio a terreiro anunciar que o "primeiro compromisso" do seu programa eleitoral é aumentar as pensões. E aditou que no referido programa se explicará «onde é que alicerçamos a melhoria de pensões, mas é o nosso primeiro compromisso social. Num país onde há um milhão de idosos que têm 245 euros ou menos para viver todos os meses não há outra prioridade social».

Porem, há mais. O “segundo compromisso” para a área social é o apoio às Instituições de Particulares de Solidariedade Social. Santo e coerente anseio. Segundo Portas, o seu partido irá avançar neste particular por entender que “o Estado, em vez de querer fazer tudo e depois não consegue, deve delegar e contratualizar nestas instituições”.

Aleluia, portanto. A felicidade vem realmente a caminho. Melhor dizendo: na prática já se vê sem necessidade de óculos ainda que com poucas dioptrias.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Lisboa - 28 Ago 09
O despertar de um sem-abrigo - em pleno Rossio, junto à estátua de D. Pedro IV

À porta do ACSantos, na Travessa Henrique Cardoso, em Lisboa.
A foto foi tirada anteontem, mas podia ter sido hoje, pois ainda está assim.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Futebol e Nacionalismo

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Por Maria Filomena Mónica

HÁ COISAS QUE SÓ A MIM acontecem. Este ano [2008] deliberei tirar férias ibéricas, a começar no dia 30 de Junho, jamais me tendo passado pela cabeça que os espanhóis pudessem vir a ganhar o campeonato europeu de futebol. Ora, como toda a gente sabe, foi isso que aconteceu. O hotel que tinha marcado ficava junto da Plaza Cólon, pelo que fui forçada a competir com os heróis do dia a fim de entrar na Calle Serrano. Evidentemente, perdi. Sem alternativa, fiquei entre os 400.000 castelhanos, bascos, catalães, galegos e andaluzes vibrando em uníssono. Pelos vistos, a nação espanhola ainda existe. Num cartaz à minha frente, pedia-se à presidente da câmara de Mostoles que atribuísse «el nombre de la madre que parió a Iker Casillas» (o guarda redes da selecção) a uma rua local: não a ele, note-se, mas à mãe. Apesar de não conhecer bem o que se passa nos esconderijos da alma lusa, conclui que os espanhóis pertenciam a uma raça diferente.

Sei que há gente inteligente, sofisticada e culta capaz de vibrar com a exibição de dois conjuntos masculinos enfrentando-se por intermédio de uma bola. Acontece que as proezas futebolísticas são incapazes de me excitar: não porque seja insensível a todo e qualquer tipo de patriotismo, mas porque o motivo tem de ser mais nobre. Apesar de escrito com intuito propagandístico, O Leão e o Unicórnio, de G. Orwell, é um ensaio que gostaria de ter assinado. Em 1941, diante da ameaça nazi, era assim que se devia reagir.

Infelizmente, o meu país tem-me dado poucas oportunidades para vibrar. Não é certamente um jogo que me levaria a colocar a bandeira nacional na janela. Até porque a que tenho cá em casa – oferecida pelo Diário de Notícias – contém erros ortográficos: «Heróis do mar, nobre povo, Nação valente, imortal. Levantai hoje de novo, o explendor de Portugal…». Os portugueses podem ter muito jeito para correr, mas estão-se nas tintas para o uso da língua. Gostaria que a primeira não impedisse a segunda: manias de uma snob cultural.

Junho de 2008