sexta-feira, 25 de setembro de 2009

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

NAS LEGISLATIVAS de 2005, José Sócrates recebeu o voto de 2.573.406 portugueses. Quatro anos depois, nas europeias de Junho passado, o apoio eleitoral a Sócrates reduziu-se drasticamente para 946.265 votos – menos um milhão e 600 mil votantes, uma quebra de 60% do seu eleitorado de 2005.

São números, quer o de 2005 quer o de 2009, que impressionam. Pelos extremos opostos a que chegaram. E que servem para recentrar e relativizar, para lá das sondagens, as expectativas quanto ao voto no próximo domingo.

O histórico afluxo de votos que Sócrates recebeu em 2005 foi, sobretudo, a consequência do cansaço do eleitorado com os três anos de governação da coligação PSD/CDS e, em especial, dos impensáveis meses finais do Governo de Santana Lopes. O país estava farto de irresponsabilidades em S. Bento e deu ao PS e a Sócrates tudo o que eles lhe pediram. Entretanto, ao fim de quatro anos e meio de reformas (na maioria parcelares, muitas inacabadas e quase todas impopulares), de crescente autoritarismo e arrogância, de crise sempre presente e de desemprego incessante, com Portugal cada ano mais atrasado na Europa desenvolvida, o país começou a fartar-se de Sócrates. Viu-se bem nas europeias.

Mesmo que aumente para o dobro, no domingo, os votos de 7 de Junho, Sócrates não passará de um resultado eleitoral de 31%. Para chegar aos 40% teria de captar mais um milhão e meio de eleitores do que conseguiu há três meses e meio. E, para repetir a maioria absoluta, o PS e Sócrates teriam que multiplicar por três a recente votação das europeias. Nem a falta de vocação política e a falta de jeito de Manuela Ferreira Leite para a liderança permitem ao PS alimentar tal sonho.

Manuela Ferreira Leite não conseguiu nas europeias, com todos os factores, objectivos e subjectivos, e ventos políticos a seu favor, subir acima dos 31,7%, mesmo com o PS em queda vertiginosa – um resultado que não consente agora, após uma campanha do PSD sem chama nem esperança, alimentar veleidades de um resultado muito diferente.

E, qualquer que seja a expressão dos números na noite de domingo, iremos viver a seguir uma experiência inédita. A de ver um líder partidário, derrotado e de saída, sofrer o calvário de ter que suportar 15 penosos dias em campanha autárquica.

«SOL» de 24 de Setembro de 2009

Passatempo Calimero de 25 Set 09 - Solução

«A Quadratura do Circo»

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Voto - O drama de um Anarquista

Por Pedro Barroso

O NUNO MELO era o mais bonito e o mais exportável. Preparou muito bem os dossiers e defendeu-se bem nos debates. Gostei muito. E ofendeu e atacou selvaticamente o Constâncio, pessoa de quem não gosto nada, nem do penteado. Claro que aqueles senhores, antes católicos, hoje populares, apesar de terem tirado o Freitas da galeria, são muito antigos. E são contra o aborto, a eutanásia e outras decisões assim, cujas eu indefectivelmente defendo, em nome da liberdade de escolha. Gente de bem. Jeans e blazer, agora sem gravata. O Portas é o mais directo no discurso, sem dúvida. E quando diz aquilo do sustentar quem não quer trabalhar, quem pode discordar dele? A grande e melhor oposição, se existiu, foi dele. Sem espinhas. Mas toda aquela populice me cheira a peixaria contratada. E como ainda não sei se a Katia Vanessa ficou grávida ou não desde aquele passeio que demos a Cacilhas… não me convém. Desconfiemos.

Portanto, então não. Fica à espera.

O Louçã é um rapaz muito alto e inteligente e explica tudo muito bem, mesmo quando não percebo nada e os outros também não, mas fazem de conta que sim. Eu, sinceramente, até me apetece votar no rapaz, porque se vê logo que é uma sumidade. Pena não deixar falar o Tomé, ter trucidado a divertidíssima e inefável UDP e, sobretudo, ser contra as touradas. Chiça, mas alguém no Ribatejo aguenta uma parvoíce destas? O único espectáculo público em que o árbitro não pode ser comprado? O gozo que eu tenho a ver sair um touro! A festa, as cortesias, os cavalos, os forcados, a cor, a imprevisibilidade. A Arte! O perigo! A adrenalina! Não. Assim também não. Há qualquer coisa de monge nele que me desagrada. E aquela mania do casamento gay e de combater a depressão das carpas nas barragens, por obstrução ao livre trajecto do seu percurso sexual natural… Ná! Sou gajo. Gosto de gajas. Estou-me nas tintas para a vida sexual das carpas e gosto de touradas.

Por aqui, nesse caso, visto isto, estamos conversados.

Vejamos então o que nos falta.

O Sócrates nem pensar, caramba. O homem blindou as carreiras, as férias, as reformas, os impostos, rodeou a saúde, importou a gripe e formou-se a um domingo? Teve 4 anos para brilhar e a única coisa que vejo luzir nele é o fatinho de alpaca?! E sobreiros? Quantos sobreiros foram cortados para fazer o Freeport? E envelopes? Tudo muito mal contado. Ou muda de tios e primos, enfim, … a família toda, ou tem de explicar-me como foi a prova de Inglês técnico por Braille, que eu ainda não percebi nada, e a furiosa das sextas foi embora. O homem era mesmo o Primeiro-ministro? Responsável por aquela ministra da Educação? Chiça! É pena, que a criatura até tem boa figura. E a roupa fica-lhe bem - não é como um politico que eu conheço, que mais parece que engoliu um pau e dá uns ares a um manequim que há na Rua dos Fanqueiros. Mas é mais teimoso que um cepo, só para não admitir erro. O ministro da Agricultura perdeu 64 milhões de euros da Europa – isto admite-se? Mas será que alguém sabe fazer contas? E o da Cultura? Existe? Ai Governo, ai Sócrates! Ide dar sangue, carago!

Portanto, é simples: - mesmo que me tenha distraído numa ocasião, desta vez não.

Então o que me resta? Vejamos.

A Senhora Dias Ferreira é um erro de casting. Não era para ser, não devia ser, não tem figura, nem discurso, nem imagem, nem passado glorioso para se meter em apertos destes, e é uma crueldade pedir-lhe que seduza o eleitorado. Ao que parece, quando foi Ministra da Educação, até os filhos fizeram greve. Tirem-na depressa deste filme e ponham lá o outro, uma figura de rapaz alto, louro, apessoado, muito bem-parecido e que ela não quis mais ouvir falar, nem para candidato na freguesia de Stª Comba do Assobio. Aliás, os barões laranja fugiram todos, uns para a privada, outros para os Bancos, outros mergulhados até ao tutano em negócios de milhões. E a senhora, sem staff nem coorte pretoriana que se veja, tem de defender a honra do convento, pondo sapatilhas e fazendo as arruadas para que nunca teve jeito, coitadinha. Reclamo solenemente – é uma crueldade. Em nome da social-democracia. Tenham juízo.

Portanto, nem me alongo mais. Nem pensar.

O Jerónimo é um pão. Um velho charmeur. O homem sabe da poda. Com aquele ar de operário reformado há oito dias e ainda a fazer descontos, enganou-me bem, que o sujeito não é nada parvo. Defende-se na Economia, recita a cassette com algumas alterações, não deixa de ter figura - é mais alto do que parece, e mais ágil do que a idade poderia fazer supor - e foi a melhor aquisição que o partido poderia ter feito. Custa-me que o Carvalhas, coitado, que arcou com aquela crise toda dos reformistas, tenha sumido e ignoro, até, se ainda é vivo. Mas não tinha jeito nenhum para aquilo, graças a Deus. Falava axim. Atrapalhava-se. E os dissidentes, com a sua coragem e inteligência, deram-lhe cabo da pinha. Este não. Hábil, rápido, simpático, arguto, humano, ultrapassou essa fase, limpou a casa e deu um líder muito digno. Claro que mantém uns verdes a fingir, que são uns queridos, acho-lhes imensa graça. Mas não voto nele. Se eu tivesse menos memória, se Karl Marx fosse uma marca de relógios alemã e Lenine uma colónia da Boss, talvez. Se fosse há oitenta anos, talvez acreditasse. Mas sou alérgico a bafio, lembro a Primavera de Praga, Staline, o muro da vergonha. E vivi tudo isso, sendo claustrofóbico em último grau. Um sufoco feio, em nome da liberdade da nomenklatura. Ah! Velhos camaradas de cravo ao peito, como me comoveis! Gente boa e acreditando. Se eu perder a minha carteira, eu quero que ela seja achada por um comunista. Gente séria e honrada, sei que me chegará às mãos. Mas para governar o meu país? Lamento. Há dogmas demais no vosso catecismo.

Nesse caso, portanto, mais uma vez, deixa ficar.

Ah! Restam os pequeninos.

Oh! Como eu gostaria de ir colar cartazes com Carmelinda; investigar um caso diabólico com aquele parecido com o Sherlock Holmes, já sei o nome…! – Garcia Pereira; revoltar-me de portugalidade doentia e fazer tatuagens com os não sei quê renovador; fazer parvoíces na Madeira com o outro, coitado, o sozinho; embarcar no sonho de esperança da Laurinda ou mandar todos para a Cochinchina, como o SMS, perdão msn, perdão,… não sei mesmo o nome daquilo. Ou ser trabalhista, um luxo, que futuro! Ou ser fadista e lutar pelo Rei, caramba, que heroísmo! Ou, em Braga, ser da nova Democracia, se ainda houver. Como me apetecia ver os comícios de toda a gente. Intervir, até, se tivesse paciência, e andar rouco, de bandeira ao vento, apitando o claxon cansado, por estradas de nem sei onde. Tocar bombo. Pôr boné.

E comer cozidos e migas pantagruélicas, e festejar com o povo, sempre generoso.

E acreditar, acreditar mesmo, numa dessas modernidades bem-intencionadas e pândegas.

Ou nas outras; nas opções maiores.

Porém.
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Maior reflexão não poderia haver. Sou muito sério comigo próprio, mesmo que não pareça. Mas.

Tudo conferido - todos derrotados em mim.

E juro-vos que tenho votado, e vou continuar a votar. Não voto branco. Não voto nulo.

Mas garanto-vos que, apesar de votar em consciência, me estou a divertir imenso. Viva a Democracia.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Passatempo-relâmpago de 23 Set 09- Soluções


1ª resposta: Feira da Ladra
2ª resposta: sábado passado, dia 19 Set 09
3ª resposta: eram 16h30m, o que me admirou, pois me parecia cedo para desmanchar a loja. Mas era isso que muitos feirantes já estavam a fazer, e este também.
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Na foto de baixo, à direita, alguns dos livros escolhidos, já separados. Em cima, «O Retrato de Dorian Gray»...

Novo livro de Deana Barroqueiro

Informação da editora Ésquilo, enviada pela autora:

A Ésquilo, Edições e Multimédia acaba de publicar «O Espião de D. João II», o mais recente romance histórico de Deana Barroqueiro, referência na área do romance histórico e autora do best-seller «D. Sebastião e o Vidente», cujo Lançamento decorrerá, em parceria com o El Corte Inglês, no próximo dia 15 de Outubro, pelas 19h30m. Contará com a apresentação pelo Dr. Guilherme d’Oliveira Martins, actual Presidente do Tribunal de Contas.

O formidável Espião de D. João II possuía qualidades e talentos comparáveis aos de um James Bond e Indiana Jones, reunidos num só homem. A memória fotográfica, uma capacidade espantosa para aprender línguas, a arte do disfarce para assumir as mais diversas identidades, a mestria no manejo de todas as armas do seu tempo e, sobretudo, uma imensa coragem e espírito de sacrifício, aliados ao culto cavaleiresco da mulher e do amor que o fascinavam, fazem dele uma personagem histórica única e inspiradora. El-rei D. João II escolhia-o para as missões mais secretas, certo que qualquer outro falharia. Talvez esse secretismo seja a razão do seu nome de família e do seu rosto terem ficado, para sempre, na penumbra.

Em 1487, Pêro da Covilhã foi enviado de Portugal, ao mesmo tempo que Bartolomeu Dias, a descobrir por terra, aquilo que o navegador ia demandar por mar: uma rota para as especiarias da Índia e notícias do encoberto Preste João. Ao espião esperava-o uma longa peregrinação de cerca de seis anos pelas regiões do Mar Vermelho e costas do Índico até Calecut e, também, pela Pérsia, África Oriental, Arábia e Etiópia, descobrindo povos e culturas em lugares hostis, cujos costumes lhe eram completamente estranhos. Na pele de um enigmático mercador do Al-Andalus, o Escudeiro-guerreiro do Príncipe Perfeito realizou proezas admiráveis que causaram espanto no mundo do seu tempo.

Neste romance fascinante, Deana Barroqueiro convida-nos a seguir o trilho de Pêro da Covilhã na sua fabulosa odisseia recheada de aventuras, amores, conquistas e descobertas inolvidáveis…

Deana Barroqueiro (Prémio Máxima de Literatura – Prémio Especial do Júri com o romance D. Sebastião e o Vidente) é, sem dúvida, uma referência da ficção histórica, em Língua Portuguesa. Este livro, fruto de um rigoroso trabalho de investigação, unindo marcos de grande relevo histórico e uma descrição muito rica dos espaços e personagens, lê-se com fascínio da primeira à última página.

Do esquerdismo actual

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Por Baptista-Bastos

VAI POR AÍ UM ALARIDO cavernoso sobre a eventualidade de o Bloco de Esquerda poder ser o fiel da balança nas eleições de 27. É o regresso do PREC! É a ressurreição do ideário soviético! As nacionalizações vão voltar! Há uma mistura de pânico, de ignorância e de desonestidade intelectual nestes assustadores avisos. Mais provável seria o PS deglutir o Bloco do que se verificar algo de semelhante ao que afirma ou sugere a gritaria. Há trinta anos, Willy Brandt ilustrou a tese: "Os grandes esquerdistas de hoje serão os bons sociais-democratas de amanhã". A História deu-lhe razão. Em Portugal, então, as transferências de campo chegam aos níveis do abjecto.

Por que sobe o Bloco? O estilo do discurso, mordaz, irónico, estatístico, liso e curto seduz os jovens urbanos e uma faixa da população que vê, sobretudo em Louçã, a renovação constante das suas indignações. Adicione-se o cansaço do rotativismo actual, a troca de cadeiras entre o PS e o PSD, e a imposição de uma democracia de opinião, notoriamente pendente para um lado, medíocre e ignara, e talvez encontremos aí as causas da coisa.

O Bloco está em idêntica situação à do PCP: se muda, associando-se aos poderes públicos, desfigura; se não muda, estiola e deixará de pertencer à sociedade participativa. O cansaço é uma possibilidade tão real como o desinteresse (e até o nojo) que suscitam os partidos da "alternância". Embora o PCP possua uma longa história de resistência, que lhe tem permitido sobreviver a todos os naufrágios e a todos os cercos.

Seja como for, as eleições de 27 terão, de certeza, um impacte muito forte na estrutura habitual do sistema. Substituo a palavra "sistema" por esquema, a fim de esclarecer melhor a natureza do êxito do Bloco, cuja capacidade discursiva lhe deu créditos fundados no afrontamento e na erosão do establishment. Na ausência de ideologia, a unidade da sua sobrevivência e do seu êxito talvez resida na improvável mistura de estalinismo, com maoísmo e trotsquismo. Essa identidade flexível, essa simbiose dos contrários é matéria de estudo. De qualquer das formas, não passa de um epifenómeno, emerso do desespero das pessoas, da desesperança social e do descontentamento de um povo que foi empurrado para o mundo sem saída do PS ou do PSD.

Há outras possibilidades, exemplifica o Bloco, contra aqueles que defendem o argumento clássico da "alternância". A própria existência do agrupamento chamou o PCP a novos deveres e a outras responsabilidades. E a possibilidade de qualquer deles chegar ao poder começa a deixar de ser uma hipótese metafórica.

A verdade é que a situação actual não pode manter-se. E os sinais indicam que são insuficientes, por ineficazes, os procedimentos e as decisões até agora tomados pelos partidos. A ver vamos.

«DN» de 23 de Setembro de 2009

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O elevador está estacionado ao cimo das escadas, junto da caixa de comando
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Não há memória de alguma vez ter funcionado.
Está assim quase desde o dia da inauguração (há anos e anos!), e até já foi objecto do «Nós por cá», da SIC.
Entrecampos (vista do lado do Campo Pequeno)

Elementar ou avançado?

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Por Nuno Crato

NUM LIVRO POLÉMICO acabado de sair em tradução portuguesa, Liping Ma defendeu algumas ideias sobre o ensino da matemática que tiveram o mérito de colocar um debate antigo em bases novas. Durante anos, uma polémica opôs, num extremo, os que pensavam que ao professor bastava ter estudado a ciência que ensinava e, noutro extremo, os que pensavam que lhe bastava saber muito de didáctica e de pedagogia. De um lado, ensinou-se aos futuros professores tópicos avançados, sem qualquer preocupação com as matérias que iriam ensinar. De outro, ensinaram-se sobretudo teorias pedagógicas, como se elas pudessem suprir a falta de conhecimento substantivo dos professores.

Como sempre, os exageros floresceram. Em algumas faculdades, os futuros professores estudaram literatura comparada, mas não tiveram práticas de escrita; noutras passaram anos a digerir ensaios de sociologia pós-moderna sobre a «metáfora educativa», mas pouco estudaram do que iriam ensinar. Há casos grotescos. Num documento recomendado em alguns departamentos de educação defende-se, por exemplo, que «o problema actual pode estar no nível de sofisticação do conhecimento matemático dos professores», e que uma «grande diferença entre o conhecimento abstracto dos professores e o conhecimento abstracto dos alunos causam [sic] um desajustamento». Ou seja, «o fosso entre o conhecimento dos alunos e o dos professores é muito grande» para «estabelecer conexões» (p. 6), pelo que seria necessário, em vez de ensinar, «ajudar os alunos a inventar a Matemática» (p. 22). Para quem possa julgar que tenho estado a beber demais, [aqui] vai a referência exacta.

Liping Ma trouxe ideias novas que ultrapassam estes debates poeirentos. Depois de ter ensinado matemática elementar na China rural e ter começado uma investigação sobre o ensino nos Estados Unidos, esta professora chinesa entrevistou colegas dos dois países e notou que os melhores eram os que acabavam por conhecer profundamente a matemática que ensinavam, ou seja, os que a tinham estudado, na universidade ou individualmente, mas num nível superior. No seu livro, intitulado «Saber e Ensinar Matemática Elementar» (Gradiva), Liping Ma desenvolve esta ideia, mas faz muito mais do que isso. Fornece indicações preciosas a quem queira ensinar matemática e mostra, com muitos exemplos, que a matemática dos primeiros anos de escolaridade pode ser elementar, mas tem raízes profundas e deve ser profundamente dominada por quem a ensina.

Quem se deve estar a sorrir no túmulo é Felix Klein (1849–1925), um matemático alemão que marcou o programa de investigação do fim do século XIX e princípio do XX e que estendeu a sua influência até à actualidade. Pioneiro na introdução da álgebra abstracta para a organização da geometria, Klein dedicou os últimos anos da sua vida à organização de um centro de investigação em Goettingen e à reorganização do ensino. A sua obra mais conhecida neste último domínio foi tão influente e tão bem estruturada que tem sido continuamente editada em várias línguas. É lançada agora em português na colecção Leituras em Matemática da SPM e continua actual. Chama-se «Matemática Elementar de um Ponto de Vista Superior». Nem de propósito.

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 19 Set 09

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O (mau) capitalismo português

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J.L. Saldanha Sanches

O PS, O PSD E O CDS são os partidos do poder: os que estão comprometidos com as derrapagens das obras públicas e falcatruas avulsas que se arrastam pelos tribunais. Ao Bloco de Esquerda cabe denunciar estes desmandos.

Não é difícil. Francisco Louçã não tem que se esforçar muito para denunciar as tranquibérnias da república: basta servir de porta-voz ao Tribunal de Contas. Um ponto nodal, porque as derrapagens das obras são apenas a face mais obscenamente visível daquele feroz rent seeking perfeitamente legal ou ilegalíssimo que caracteriza o capitalismo português e que tem conduzido a crescimentos do produto à volta de 1% (apesar das transferências comunitárias).

Um mau capitalismo, em suma, para usar a distinção de Baumol entre os bons e os maus capitalismos. O nosso é dos maus e não há fundos comunitários que lhe valham.

Os maus capitalismos geram os votos de protesto e nos casos extremos produzem os Chávez. Com aquela gente que frequentava o governo na Venezuela, com a sua lógica pré-capitalista do saque de fundos públicos como forma única, normal e possível de enriquecer não há petróleo que baste.

Há qualquer coisa que faz com que a economia de mercado deixe de funcionar quando se chega a estas paragens. Um caudilho militar está plenamente justificado e sempre serve de justificação para a sobrevivência de forças armadas.

A economia é que continua não crescer, a corrupção limita-se a tomar novas formas e os recursos continuam a ser desbaratados.

A Venezuela ilustra assim o círculo vicioso dos bloqueios institucionais: o mau capitalismo gera um enorme e legítimo protesto, mas como os partidos do poder são a expressão política desse mau capitalismo, o protesto acaba nos Chávez.

O Bloco não é Chávez, felizmente, e há décadas que em Portugal ninguém acredita que os militares possam salvar a pátria ou servir para qualquer coisa.

Mas para o Bloco o mau capitalismo é um pleonasmo: o capitalismo é tóxico e por isso a EDP deve ser renacionalizada para que com os seus lucros, os impostos possam ser reduzidos.

Noutros termos: o Bloco não quer ir para o poder e quer esconjurar qualquer tentação demoníaca.

O Bloco não pode ir para o poder porque nacionalizar a EDP com indemnização a preços de mercado era demasiado caro. Para a nacionalizar sem indemnização era necessário mudar a constituição (a la Chávez) e deixar a União Europeia: o Tribunal das Comunidades ia considerar uma nacionalização sem indemnização como um confisco contrário ao Direito Comunitário, num acórdão que não precisava de ter mais de duas ou três páginas.

A conclusão é que o Bloco é, quer continuar a ser, um puro voto de protesto para quem não se revê na ideologia arqueológica do PCP.

Um voto de protesto que sintetiza as escolhas impossíveis: de um lado o Freeport do outro o BPN.

Logo, a corrupção não pode ser discutida e por isso não entra no debate político. São outros os temas da campanha eleitoral.

Depois, espantem-se com a dimensão do voto de protesto.

«Expresso» de 19 de Setembro de 2009 - www.saldanhasanches.pt

domingo, 20 de setembro de 2009

sábado, 19 de setembro de 2009

Na semana passada
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Ontem
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Na semana passada
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Ontem
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QUANDO não se sabe ao certo se as coisas estão a melhorar ou a piorar, a solução é ir ver - e fazê-lo em alturas diferentes, evidentemente.

Pois bem. Pelo menos aqui, onde havia uma moto a atravancar o passeio, passou a haver duas. E onde havia um carro em cima do passeio, passou a haver três.
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R. Fanqueiros - Lado nascente
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R. Fanqueiros - Lado poente
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Ao contrário do que possa parecer, o que se vê nas fotos de baixo não são multas (nem coimas) da EMEL, mas sim pedidos de contribuição voluntária feitos pela SPARK.

«Dito & Feito»

Por José António Lima

NUM EXERCÍCIO ANALÍTICO, frio e racional, é evidente que uma vitória de Manuela Ferreira Leite no próximo dia 27 criava o cenário ideal para a candidatura presidencial de Manuel Alegre. Com o PSD e o CDS no poder, mesmo sem maioria no Parlamento, toda a esquerda tocaria a rebate para impedir um novo triunfo da direita e a reeleição de Cavaco Silva em Janeiro de 2011. Do Bloco de Esquerda ao PS, passando pelo PCP, todos ultrapassariam rapidamente as divergências e ressentimentos recíprocos para se mobilizarem em torno da candidatura unitária, frentista e salvadora de Manuel Alegre – o unificador da esquerda. Uma esquerda que, ainda por cima, apesar de ter perdido as legislativas, contaria mais de50%dos votos contra apenas 40% da direita. Ao mesmo tempo, em Belém, Cavaco ver-se-ia obrigado, ao longo de 2010 e face a um Governo de Ferreira Leite sem uma base parlamentar maioritária, a um equilíbrio institucional melindroso e desgastante. E forçado a intervenções políticas que poderiam reduzir o espaço da sua recandidatura presidencial.

A vitória de Ferreira Leite nas legislativas é, pois, um tentador fascínio para Manuel Alegre. Mas também um risco político a que não pode ficar associado. A verificar-se tal hipótese, Alegre não quer ser acusado, na noite de 27 de Setembro, de ter contribuído, por ausência ou omissão na campanha de Sócrates, para a derrota do PS e da esquerda. Daí que o Manuel Alegre que, há pouco mais de um ano, afirmava sem rodeios: «Claro que já não me revejo neste PS», que, há dois meses, encurtava o fim da sua longa carreira de deputado socialista, que, há um mês, criticava as exclusões nas listas de um «PS que vai gravemente mutilado às legislativas» e que, há uma semana, garantia que só entraria na campanha marginalmente ao lado de poucos amigos, seja o mesmíssimo Manuel Alegre que vai agora aparecer em grande plano ao lado de Sócrates no comício de Coimbra. Deste PS no qual não se revê.

Não é, como se percebe, o PS que está refém de Alegre e do seu virtual (porque meramente conjuntural e irrecuperável) milhão de votos. Mas, sim, Alegre que se tornou um refém político-presidenciável do PS. E um refém, além do mais, preocupado, quando já há, no Largo do Rato, quem sugira candidaturas alternativas – e de peso – a Belém, como a de Jaime Gama.

«SOL» de 18 de Setembro de 2009

Passatempo-relâmpago de 19 Set 09 - Solução

Duplo emprego

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Por Antunes Ferreira

NÃO ERA NADA de que não se suspeitasse. De resto, é prática que já vem muito de trás neste misericordioso País. Nós, os Portugueses, gostamos do biscate. Alguns mesmo vivem dele, com uma sedução adicional ao prazer de não ter peias, não ter patrão constante, não ter a ameaça do desemprego: fugir ao Fisco, prática deliciosa, disciplina eleita, quase obrigatória por decreto.

Um bom biscateiro não tem, por conseguinte, mais nenhuma preocupação de ordem laboral e de prática do civismo e da militância na legalidade – senão a de arranjar biscates. E, arranja-os. Sem facturas, sem recibos, repara-se uma canalização, dão-se uns toques na mecânica, pintam-se umas paredes, fazem-se uns rissóis ou uns pastéis de bacalhau, tudo com a perfeiçãozinha q.b.

Porém, muitas vezes, o biscate é uma segunda ocupação. Ou seja, um honesto cidadão, bom marido e excelente pai de filhos, tem o seu emprego, coisa que se vai tornando cada vez mais rara. Digamos, é um digno trabalhador da Função Pública, auxiliar de qualquer coisa, antes era contínuo, mas os tempos mudaram, as denominações profissionais também.

Saído da repartição à hora estipulada, ei-lo que se entrega a um objectivo complementar: desenvolve umas práticas de electricista, monta uns interruptores, faz umas baixadas para novas tomadas de corrente, arranja umas manigâncias para que o contador conte menos quilovátios ou os conte mais devagar.

Claro que daí ao segundo emprego não é, absolutamente, uma ousadia, um salto no desconhecido. Os salários são os que são, dos mais baixos da UE, pelo menos daqueles países, como é o nosso caso, que já entraram no clube há uns anos; donde, o segundo rendimento de labuta adicional serve, sobretudo, para que o mês não seja tão longo e tão impossível para a subsistência.

Veja-se, por exemplo, um dos casos mais frequentes do bilaboralismo: os enfermeiros. São muito poucos os que não trabalham em dois lados, ou seja, num hospital do SNS e numa clínica particular, ou posto clínico ou, ou, ou. Não se veja neste particular, o que quer que seja contra a classe; bem pelo contrário, os profissionais da enfermagem merecem-me o maior respeito, como, aliás, muitíssimos outros trabalhadores. Este veio à baila, repito, somente para exemplificar.

Veio, agora, mais precisamente ontem, Bruxelas dizer o que todos nós já dizíamos, sobre o tema: em 2007, 6,7% dos Portugueses tinham dois empregos, a quinta percentagem mais elevada entre os 27 países da União Europeia (UE). E o Eurostat é (ou pretende ser) como o algodão: não engana.

Não nos sirva de consolação, mas temos boas companhias. A Dinamarca (9,9%), a Suécia (8,1%), a Polónia (7,7%) e a Holanda (7,2%) são os quatro países com os valores mais elevados, seguidos de Portugal. Em média, 3,9% dos europeus têm um segundo emprego. Outro dado do barómetro europeu revela ainda que 18,2% dos europeus trabalham em part-time.

No cômputo do trabalho a tempo parcial, os números dizem que a Holanda (46,8%), a Alemanha (26%), o Reino Unido (25,5%) e a Suécia (25%) são os Estados-membros com mais pessoas nessa condição, enquanto a Bulgária (1,7%), a Eslováquia (2,6%), a Hungria (4,1%) e a República Checa (5%) apresentam os menores valores. Portugal regista uma percentagem de 12,1%, a 13ª mais alta entre os 27.

Noutro registo, a Estatística comunitária – em documento diferente – refere que a taxa de mortalidade infantil em Portugal foi a que mais diminuiu na União Europeia (UE) em 40 anos, de 64,9 mortes por mil nascimentos em 1965 para 3,4 em 2007. Segundo o anuário de 2009, a taxa portuguesa estava em 1965 muito acima da média europeia - 64,9 para 28,6 -, mas, 40 anos depois, é das mais baixas: 3,4 para 4,7. Interessante, sem dúvida.

Ah, já me esquecia: vai decorrendo a campanha eleitoral. No meu modesto entender, entre todos os concorrentes quem vai à frente é o PGF. O Partido dos Gatos Fedorentos. Mas, atenção, isto não é uma sondagem.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Dizer bem

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Por Maria Filomena Mónica

O LOUVOR NÃO ME VEM FACILMENTE ao espírito, mas o clima de partida para férias parece ter sido propício a uma atitude mais descontraída da que me é usual. Já com as malas feitas, deambulei, sem compasso nem relógio, pela cidade onde nasci, Lisboa, tendo descoberto duas preciosidades: os eléctricos da Carris e o jardim da Fundação Gulbenkian.

Por ser distraída, só recentemente notei que o eléctrico com o qual me cruzo todos os dias não só estava livre da publicidade que o poluía, mas tinha sido impecavelmente brunido. E não é apenas no «28» que isto sucede. Muitos dos que pelas ruas circulam - esqueço deliberadamente as lombrigas da zona ribeirinha – foram recuperados. É-me agora mais fácil imaginar Carlos da Maia e João da Ega a correr, na rampa de Santos, para apanhar um deles, a fim de irem jantar com os amigos ao Hotel Bragança. A Carris está de parabéns.

Como o está a Fundação Gulbenkian. Lisboa não tem espaços verdes e os poucos que tem – como o Parque Eduardo VII – são feios. Em 1961, uma comissão escolheu dois arquitectos paisagistas – Gonçalo Ribeiro Teles e António Viana Barreto – para desenhar o parque destinado a enquadrar o edifício que albergaria a sede da Fundação. Embora se tivesse mantido bonito, o espaço tinha-se deteriorado. Apesar de, nos últimos tempos, pouco o ter frequentado, até eu o notara. Ontem, por o consultório do meu dentista ficar a dois passos, decidi dar uma volta pelo jardim.

A primeira sensação foi a de que não estava em Lisboa, mas dentro de um paquete ancorado algures no universo. Cá fora, ficava uma cidade suja, poeirenta e caótica; lá dentro, havia riachos com pedregulhos, velhos eucaliptos e uma relva felpuda. Entre a mata, a clareira e as sebes, plantadas com o dinheiro legado pelo sr. Calouste Gulbenkian, consegui usufruir do silêncio que tão necessário me é. Lisboa deve a Ribeiro Teles e a António Viana Barreto uma obra-prima. Espero que lhes esteja grata.

Jun 2008

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Passatempo «Espanha» - Solução


Pág. 193

CONVITE

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Por Carlos Pinto Coelho

”Porquê 24 de Julho?” Provavelmente todos os portugueses têm uma Av. 24 de Julho nas suas cidades mas, provavelmente, não sabem o que aconteceu de importante a 24 de Julho. São múltiplos os sinais que estão à nossa volta e que simplesmente ignoramos.

No nosso mundo global e complexo já não bastam os saberes, é preciso estar informado. Be connected or quit é a uma lei de sobrevivência. Os media são cada vez mais numerosos e inundam-nos com mensagens e exigências cada vez mais trepidantes. Mas será que somos capazes de interpretar os media que utilizamos? Todos os acontecimentos alteram a nossa identidade, sobretudo as coisas medíocres, mas até que ponto sentimos o veneno da falta de qualidade? A sociedade está cada vez mais menos transparente ou somos nós que estamos mais míopes?

Uma sessão com o jornalista Carlos Pinto Coelho, apresentador do programa “Acontece”, seguida de debate. Um despertar de atenção para sinais muitas vezes ignorados por gente muito preparada nas suas profissões, mas geralmente alheada de vectores fundamentais da sua cidadania e cultura.

Depois da sessão, provavelmente nunca mais verá telejornais como dantes.

Orador
Carlos Pinto Coelho, Jornalista

Horário
17:45 | Recepção dos participantes
18:00 | Sessão "A Cultura da Sociedade Civil" , Carlos Pinto Coelho
19:00 | Debate

19:30 | Encerramento e cocktail

Prazo limite de inscrição
15 de Setembro

Inscrições aqui, ou por email para a Júlia Corte Real, j.cortereal@aese.pt

Preço

Membro Agrupamento Alumni AESE | Gratuito

Quadros de Empresas Patrocinadoras da AESE | Gratuito

Alumni e Geral | € 80 + IVA

Empresas Patrocinadoras da AESE
ANA | CTT | EDP | Grupo Regojo | Grupo Luís Simões | Millenniumbcp | Mota-Engil | PT | PricewaterhouseCoopers | UNICER

Outros Programas de Formação de Executivos
PADE | PADIS | PDE | Executive MBA AESE/IESE

Um embaraçoso mal-estar

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Por Baptista-Bastos

AVERIGUADAMETE, a dr.ª Manuela Ferreira Leite não é portadora de uma compleição de estadista. As monumentais inconveniências que comete, as normas que defende, através de conceitos vazios de sentido tornam-na, amiudadas vezes, numa figura comovente mas não habilitada a representar Portugal. Ouvir a chefe do PSD chega a ser penoso. Não gosto de o escrever; porém, a obstinada tentação da senhora para o disparate, converteu-se num embaraçoso mal-estar.

Claro que a série de dislates provoca uma selvagem e mal contida ironia entre os seus adversários, sobretudo aqueles que se acoitam no PSD, e a desmerecem com anedotas, efeitos verbais pela sua idade, comentários ao seu catolicismo liso, formal e ressentido.

A doutora averba, periodicamente, despautérios maldosamente comentados não só por aqui como pelas embaixadas. "Já sabes a última da Manuela?" Não sabiam; ficam a saber, com acrescentos adaptados às circunstâncias. Desde o fechamento da democracia por seis meses, à admissão de que as grandes obras estatais apenas servem para dar emprego a ucranianos e a cabo-verdianos, passando pelas afirmações de contrariedade quanto às uniões de facto, sem esquecer as declarações na Madeira, até esta de se desdizer sobre o TGV, e de conclamar: "Não gosto dos espanhóis metidos na política portuguesa!" - a asneira é galopante.

A dr.ª Manuela não só ressuscita velhos fantasmas como pretende fazer de nós tolos. A imprensa de Espanha, graças a um verbo sarcástico, que oscila entre a metáfora e a facécia, refere-se-lhe com velado desprezo. A dr.ª Manuela não mede as consequências dos seus actos e ignora a natureza melindrosa de certas frases. Ainda por cima, é incapaz de explicar como é que iria resolver o berbicacho criado com a suspensão de uma obra que tem o aval, o interesse e o dinheiro de Bruxelas. Anteontem, na RTP-N, o jornalista Daniel Deusdado esclareceu, em quatro frases, o que é o TGV, e, sobretudo, o que está em jogo. A dimensão e a necessidade do projecto superam, de longe, a mediocridade das declarações da chefe do PSD. Com natural tranquilidade, as explicações de Daniel Deusdado levam-nos a concluir que a dr.ª Manuela Ferreira Leite não sabe do que fala, quando fala no TGV. E em muitas outras coisas, acrescento eu.

O Cavaleiro de Oliveira, no século XVIII, escreveu que "é preciso que os acasos da fortuna se não convertam em razões definitivas". Advertia que legalizar, previamente, um pensamento que não existe, ou existe atabalhoado, "derrotara a pátria e martirizara as suas gentes". Neste pesado assunto, onde tantos incómodos e destrambelhos se acumulam, os malabarismos da mentira política e da ignorância arrogante não podem sobrepor-se à mecânica das evidências.

Esta senhora não serve para nos governar.

«DN» de 16 de Setembro de 2009

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Marquises e estendais - Uma falsa questão?

Algés - Foto de António Barreto
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Logradouros entre a Travessa Henrique Cardoso e a R. Frei Amador Arrais.
Os estendais ficam deste lado, nas "traseiras"
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Av. Frei Miguel Contreiras
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Av. Roma, n.ºs 39, 41 e 43
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Esquina da Av. Roma com Av. João XXI
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Av. Roma
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Outra esquina da Av. Roma com Av. João XXI
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Av. Roma
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Av. João XXI
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Esquina da Av. Roma com a R. Frei Amador Arrais
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Av. Roma. Ao centro, o C.C. Roma
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Av. Almirante Reis
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Av. Almirante Reis
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R. Morais Soares
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R. Morais Soares
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R. Frei Amador Arrais - B. S. Miguel
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R. Morais Soares
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Av. Almirante Reis
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R. Morais Soares
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Av. Almirante Reis
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Repare-se que é a própria morfologia dos edifícios que facilita (ou impede) a colocação de marquises, de aparelhos de ar-condicionado e de estendais da roupa. Quanto a estes: essa questão só se coloca quando os prédios não têm "traseiras" - e, mesmo assim, nem sempre.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Passatempo «Vinhas da Ira» - Solução

793 gramas
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Quem mais se tiver aproximado, tem agora 24h para escrever para sorumbatico@iol.pt indicando morada.

Passatempo «bestas-quadradas» - Solução

Quem conhece bem a zona, sabe que a resposta só pode ser uma:
Apenas o Smart, pois qual havia de ser?!
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NOTA: não é por acaso que este local é um dos três a que correspondem os fabulosos Prémios António Costa, existentes desde Abril do ano passado, amplamente divulgados... mas nunca reclamados... - vejam [aqui], que ainda vão a tempo!

Esclarecimento: o Smart está fora da zona de estacionamento, não colocou ticket nenhum, e foi multado por isso (o que acontece de vez em quando). Sucede apenas que o dono só paga as multas se o quiser fazer, pois (e a informação é de fonte certa!) a EMEL não tem forma de as cobrar! E, mesmo que as pague, sai-lhe muito mais barato do que o parquímetro.

Como é evidente, o epíteto de «bestas quadradas» (que até é leve, tendo em conta os transtornos que provocam - e não só a cegos) é apenas para os que impedem a passagem de peões, no passeio ou na passadeira.

domingo, 13 de setembro de 2009

«Dito & Feito»


Por José António Lima

SOBRE O CASO TVI, não compliquemos o que é simples. Nem baralhemos o que é elementar. Não há boas práticas nem critérios lúcidos de gestão que justifiquem o afastamento pelos accionistas de quem, como José Eduardo Moniz, levou a TVI à liderança de audiências e de rentabilidade das televisões portuguesas – a não ser razões de insustentável choque de poderes ou de forte condicionamento político. E não há argumentos empresariais que sustentem o encerramento do telejornal mais visto dos canais portugueses, o Jornal Nacional de Manuela Moura Guedes, às sextas-feiras – a não ser motivos de ordem político-partidária e governamental.

Nem eram precisas as pseudo-justificações dos administradores da Prisa, de uma indigência quase infantil, para se confirmar que os saneamentos de Moniz e Moura Guedes da TVI obedeceram a uma lógica de intromissão política. A pergunta subsequente é óbvia: a quem servem tais afastamentos? Quem se sentia politicamente incomodado com os noticiários e a informação da TVI?

José Sócrates não conseguiu esconder, nos últimos meses, a obsessão persecutória e a ira visceral que nutria em relação às notícias da TVI. No Congresso do PS, colocou a TVI na linha de mira do tiro ao alvo. Numa entrevista à RTP, excedeu-se a falar de um «telejornal travestido» e de «caça ao homem». No Parlamento, perdeu a cabeça quando confrontado com o significado da eventual saída de Moniz.

Como pode, depois de tudo isso, garantir, com cara de santo, que não teve «qualquer influência» nas demissões levadas a cabo pelos seus amigos da Prisa? Na autoria moral, deixando de lado a material, deste atropelo à liberdade de informação estão, por todo o lado, as suas impressões digitais.

Nos traços da obcecada animosidade deste Governo em relação aos órgãos de comunicação social que mantêm a sua independência crítica e não temem as pressões de S. Bento – como a TVI, o Público ou o SOL – está o ADN da intolerância de Sócrates e a noção de que tudo pode controlar com o seu transitório poder. Só mesmo figuras como Augusto Santos Silva, ministro de serviço para os sarilhos governativos, ou Emídio Rangel, socratista na reserva para o espaço televisivo, são capazes de jurar a pés juntos que Sócrates não teve qualquer interferência nos saneamentos da TVI. Além deles, mais alguém acredita?

«SOL» de 11 de Setembro de 2009

sábado, 12 de setembro de 2009

Maria Clara

Por Alice Vieira
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A MORTE DE MARIA CLARA foi tão discreta que por momentos cheguei a pensar que se calhar eu tinha ouvido mal, que o amigo que me avisara também tinha ouvido mal, e que tudo não passava de uma lastimável confusão de nomes.

Durante dias procurei nos jornais, mas em lado nenhum a notícia aparecia, e as rádios não estavam a transmitir a “Figueira da Foz”, como seria normal.

Mas não era mentira: a discrição, que sempre a acompanhou em vida, seria a discrição que a acompanhou na morte.

A Maria Clara foi uma pessoa muito presente na minha infância e adolescência. Sempre me lembro de mim a ouvi-la na rádio, a vê-la no teatro, a trautear-lhe as canções.

Para além disso, os mexericos familiares (ainda não havia televisão, era preciso preencher os serões de qualquer maneira) muitas vezes recaíam nela: como era possível que um neto do Bernardino Machado (um dos heróis dos tios lá de casa) tivesse casado com…uma artista! (E nem vos descrevo a expressão das minhas tias ao pronunciarem esta palavra).

Mas já aí a discrição de Maria Clara se manifestava: não se divorciava, nem aparecia nas páginas da “Plateia” em declarações desbragadas.

E, no mês em que foi capa da revista “Os Nossos Filhos”, com um filho pequeno às cavalitas, as velhas renderam-se.

“Os Nossos Filhos” era uma publicação prestigiada, onde colaborava gente importante de várias áreas — e dirigida pela Maria Lúcia Namorado, nossa prima.

A partir dessa altura, a Maria Clara, lá em casa, passou à condição de ”artista-mas-nem-parece”.
Ideia reforçada muito tempo depois quando, num festival de televisão de que nem recordo o nome, o apresentador Pedro Moutinho se lembrou de se meter com ela de maneira considerada menos própria--e ela, ao vivo e em directo, se mostrou visivelmente desagradada.

Mas o que a levou, definitivamente, a entrar na galeria das pessoas que as minhas tias olhavam com respeito foi a decisão de largar as cantigas e ficar em casa a cuidar da família.

Isso sim, isso era de uma senhora! Isso era digno de uma neta (ainda que por afinidade…) do Bernardino Machado.

À distância destes anos todos, lembro-me que foi exactamente isso que eu então não entendi: como era possível que uma mulher, com aquela carreira, aquela voz, abdicasse de tudo para ser dona de casa.

Eu, que sonhava começar a trabalhar depressa para me livrar daquilo tudo, nunca lhe perdoei ter “prejudicado” a minha causa…

Mas foi tudo há muitos anos.

Hoje só sei que tenho passado os dias a ouvir a “Figueira” no Youtube e que, apesar de todos os lugares comuns, e as finas areias a rimar com as sereias, e essas coisas mil vezes cantadas e recantadas — choro que nem uma parva.

A minha filha tem razão: preciso mesmo de ir ao médico.

«JN» de 12 de Setembro de 2009

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

«Treze gotas ao deitar» - Há mulheres que de tudo são capazes

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Por Antunes Ferreira

A ALICE É A CULPADA. A Vieira, claro. Não me deixou dormir a noite inteira. Alto lá!, desafivelem já esses sorrisos sacanas das vossas faces insolentíssimas. Honni soit. E, pior: ela e mais cinco. Enuncio. A Rosa Lobato de Faria, a Leonor Xavier, a Luísa Beltrão, a Rita Ferro e a Catarina Fonseca. Seis mulheres – é uma multidão. Sendo perigosas – ainda mais é. Um tsunami.
Vamos aos factos. Uma noite inteirinha agarrado a um livro, deitei-me às seis e picos da matina, a Raquel a perguntar-me o porquê de me estar a levantar tão cedo. E eu (que nem lhe disse que era, sim, a entrar no vale de lençóis) – foi por causa das gotas. Gotas? Que gotas? Esta noite começaste a tomar gotas? E, sem esperar pela resposta, a minha cara-metade, virou-se para o lado e recomeçou a ressonar.

Uma cantiga velhinha, hoje interpretada pela verde Maria José Valério, é a que diz no refrão «cuidado, rapazes, cuidado muito cuidado; há mulheres que de tudo são capazes, e a fortuna não está sempre ao nosso lado». Muito bem. É o caso; na verdade, há mulheres que de tudo são capazes. Este sexteto feminino foi capaz de escrever um romance notável e hilariante. E foi também capaz de me levar a lê-lo de fio a pavio durante uma noite inteira.

Ainda não leram o «13 gotas ao deitar»? Não sabem o que perderam. O que perdem. Uma história alucinante em que a protagonista Marina se desdobra em mais três fulanas: a Odete, a Maria Eduarda e a Francisca. A inquirição é sugestiva e perfeita: quantas mulheres existem na cabeça de Maria Marina Silveira Figueiroa? Pelos vistos, quatro.

Mas podiam ser seis, como as autoras. O que ainda traria mais complicações a um enredo já de si labiríntico e gozadíssimo. Não o conto aqui, porem, porque o livro deixaria de ter piada quando o lessem – e os direitos de autor, neste caso das autoras, são para ser respeitados, ainda que num mercado cada vez mais assassino, muita gente não se lembre disso. E os euros estão cada vez mais caros – e raros. Feitios.

Por isso, apenas me limito aqui a registar o facto incontroversamente verdadeiro: nessa noite não preguei olho. E, aparentemente, nada fazia indicar que tal acontecesse. Eu conto. Tinha ido um tanto diletantemente, à fnac do Colombo (é assim mesmo, não se trata de publicidade, palavra), local por demais perigoso, cheio de armadilhas, veja-se que foi lá que lancei o meu «Morte na Picada»… E fui passando pelas estantes, juro que para ver se tinham saído novos policiais. Sou um verdadeiro louco por eles.

Nisto, insidiosamente, surde duma delas, carregada de autores portugas, um romance, «13 gotas ao deitar». Bom título. Óptimo. O jornalista nunca deixa de o ser e está tudo dito. Escrito por? À cabeça do gang a Alice Vieira. E entre as conjuradas, a filhinha Catarina que conheci miúda e bem, com uns chupas à mistura, na Redacção do DN.

A Alicinha, além de grande e fiel Amiga (o bacalhau já era), foi minha camarada de trabalho ali no quotidiano. À minha beira, ou quase, pariu o mais lindo livro que algum dia li, «Rosa, minha irmã Rosa» alegadamente para crianças, eu diria, plagiando já não sei quem, dos oito aos oitenta. Foi uma colheita magnífica: o Mário Zambujal lançava os «Bons Malandros», o Dacosta conduzia o «Jipe em segunda mão». Um fartote.

Dito isto, e perante a trama tramada, com assassínios à mistura e tudo o mais, vem-me ao cristalino bestunto um anúncio também já com uns anitos: Com Dum Dum não escapa um! Dum Dum é o fim!

Os velhos

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Por Maria Filomena Mónica

NA ÚLTIMA SEGUNDA-FEIRA [Jun 2008], teve lugar na Fundação Gulbenkian um «fórum» dedicado ao tema «Como se envelhece em Portugal». A este propósito, lembrei-me de um poema de Jacques Brel, com um título idêntico ao que usei neste artigo, no qual que se diz: «Les vieux ne bougent plus leurs gestes ont trop de rides leur monde est trop petit/ Du lit à la fenêtre, puis du lit au fauteuil e puis du lit au lit». O casal, resignado e doce, aqui celebrado desapareceu do mundo contemporâneo. Há alguns anos, costumava brincar com o Miguel Esteves Cardoso sobre as delícias do envelhecimento: ser gágá dar-nos-ia a liberdade de poder dizer tudo o que nos passasse pela cabeça; entre as cadeiras de rodas a risota seria permanente; ninguém nos poderia interditar as piores asneiras. Nunca mais com ele falei sobre o assunto. No que me diz respeito, esta visão idílica desapareceu.

O futuro dos velhos é tenebroso, especialmente o das mulheres, com uma esperança de via mais longa do que a dos homens. Já nem falo dos pobres, para quem tudo é mais difícil, mas, mesmo para os ricos, as perspectivas não são risonhas. A ideia corrente de que apenas nos «lares» são os velhos mal tratados é errada. A maior parte da violência passa-se, sempre se passou, no interior da família, como recentemente lembrou o Provedor Geral da República, que nos veio alertar para um facto dramático: de 2001 a 2006, o número de crimes denunciados, em que a vítima tinha mais de 64 anos, triplicou, atingindo, na última data, 24.879 casos. Não nos podemos esquecer que são pessoas como nós, com vidas aparentemente normais e almas sensíveis, que espancam os pais e avós. Este tipo de brutalidade revela quão pesado é tratar de velhos em condições cada vez mais deterioradas. É por isso que não quero depender dos filhos, nem ir para um lar. A única solução é morrer, em data não muito longínqua, com um ataque de coração.

Junho de 2008

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Alguém sabe... - Solução

Freguesia de/a Pena