
sábado, 14 de novembro de 2009
«Dito & Feito»
Por José António Lima
SOBRE AS IMPLICAÇÕES políticas, partidárias e a nível do aparelho de Estado que o caso ‘Face Oculta’ levanta, Mário Soares veio a terreiro dizer aos portugueses: «Há uma coisa que, com a repetição sistemática, verdadeiramente me preocupa». O quê? A existência de redes tentaculares que alastraram impunemente e corrompem desde o funcionário mais baixo a quadros intermédios e de topo das empresas com cargos de nomeação pública? O facto de figuras conhecidas do seu PS aparecerem atoladas neste lodaçal de corrupção, tráfico de influências e subornos? A amostra do ponto a que se degradou a sua tão celebrada ética republicana?
Não, o que inquieta Mário Soares são «as informações que, em momentos políticos específicos, aparecem e são glosadas com bastantes pormenores nos jornais, rádios e televisões». O que desassossega o fundador do PS é «o segredo de Justiça, que é para ser respeitado e não pode ser infringido». Com dezena e meia de arguidos já constituídos no caso ‘Face Oculta’, Soares esperava que o processo se conseguisse manter longe do conhecimento público? Santa ingenuidade e caridosa preocupação – que não demonstrou, nem uma nem outra, em recentes processos, como os do BPN ou do BPP. Sintomaticamente.
Também o seu concorrente presidencial Manuel Alegre reagiu na mesma linha, sentenciando que as violações do segredo de Justiça são «o mais grave problema da democracia». Mas num segundo momento, percebendo a dimensão do que estava em causa, corrigiu o tiro e veio informar o país que está «muito incomodado e preocupado com tudo isto». Compreende-se porquê. E a inflexão.
Serão mais preocupantes para o país, para a sua democracia e a sua economia, as violações do segredo de Justiça ou a impunidade continuada e generalizada da corrupção – pequena, média e grande – que corrói e contamina os aparelhos da administração pública e do poder partidário, como se comprova nesta investigação ‘Face Oculta’?
Soares e Alegre deixaram bem claro para que lado vão as suas preocupações. Mais do que a gravidade e a ilicitude dos factos é a sua divulgação pública que os perturba. Parecem esquecer que o segredo de Justiça, mesmo não sendo violado, não garante o silêncio eterno. Tem um prazo limitado de duração, findo o qual os factos dos processos se tornam acessíveis ao conhecimento público. É uma questão de tempo. E de transparência democrática.
«SOL» de 13 Nov 09
A moderação prescreveu
FOI TEMPO EM QUE A JUSTIÇA andava de olhos vendados, numa mão segurando a balança, noutra a espada. Pelo menos, essa era a figura que a simbolizava e que mereceu de tantos criadores de Arte, as mais diversas interpretações gráficas. Sempre, porém, resumidas na trilogia: era cega, imparcial e justiceira. Ainda hoje a imagem é a mesma. Basicamente. Porque em seu redor se vêm colocando mantos. E a estátua do Eça lá está: o escritor cobre a nudez forte da verdade com o manto diáfano da fantasia. Mutatis mutandis…
Hoje, a venda ocular não resiste à venda de informações. A Senhora passa os dias a levantá-la para tentar descortinar e entender o que se passa no quotidiano. E para depois poder filtrar o que viu. Talvez até se a devesse substituir por óculos bifocais, ou, quiçá, lentes de contacto que não a desfeariam tanto. Há tanta gente que vive – e aparentemente bem – disso, ou seja das fugas nos processos que não haveria oculistas que chegassem.
Tornou-se calina a afirmação de que a Justiça Portuguesa está doente. Há mesmo muitos que dizem que ela está nas últimas. E se se tomar em conta o que vem acontecendo entre participações, denúncias, averiguações e julgamentos, há que convir que as maleitas de que enferma são suficientemente graves para essa antevisão catastrófica.
A lentidão cada vez mais é seu timbre. Os recursos sobre os recursos sobre os recursos são incontáveis. As prescrições, sendo consequência, na maioria dos casos, estão repimpadas atrás das insuficiências. De pessoas, de instalações, de metodologia, de equipamentos. Os tribunais arrastam-se penosamente com sessões que não andam nem desandam. Magistrados, procuradores, advogados, oficiais de diligências, escrivães, beleguins e quejandos andam a passo que - comparado com o do caracol – consegue ser ainda mais… lento.
A investigação que antecede o judicial está tão corroída como este. Bem tentam agentes, inspectores & similares acelerar o andamento. Presume-se que sim, é para isso que nós, os cidadãos, lhes pagamos. A diligência deles afunda-se porem e lamentavelmente na caterva de diligências que se desenvolvem tantas vezes em marcha atrás. O que não admira num País em que uma regra fundamental é: isto não é para se fazer; é para se ir fazendo.
Este caso Face Oculta já deu azo a constatações e afirmações as mais diversas. O bigode de Manuel Godinho é célebre. Mais ainda as escutas às conversas telefónicas entre José Sócrates e Armando Vara. Para o primeiro-ministro é uma fatalidade repetitiva. Quando surgem tramóias, aparece o nome dele envolvido. Coincidências diabólicas. Ou?... O futuro dirá, se é que o fará.
Voltando ao estado da Justiça. Da balança se pode dizer que nos seus pratos há inúmeras vezes dois pesos o que significa duas medidas. E a espada está romba, enferrujada, encalacrada, encrava na bainha. Triste sina, triste fado. Sem acompanhamento à guitarra e à viola, mas acompanhado de suspeições, de insinuações, de falsos testemunhos – de pus.
A embrulhada entre os senhores Pinto Ribeiro e Noronha do Nascimento é bem a imagem do que se não devia verificar. Até Júdice lhes recomendou que não falassem com a comunicação social. Mas, pelo contrário, parecem, quer o Presidente do STJ, quer o PGR, entusiasmados com as suas declarações, ávidos de parangonas e de aberturas dos telejornais.
Agora, já não há nada a fazer. A moderação já está fora do prazo de validade. Prescreveu.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Escolas Públicas e Privadas
Por Maria Filomena Mónica
NO ÚLTIMO SÁBADO [Set 2008], o Primeiro-Ministro relembrou que a educação era a «a prioridade das prioridades», acrescentando estar empenhado em «atingir maior igualdade social através da aposta no ensino». Pode S. Exa. berrar à vontade contra os «bota abaixo» - nos quais me incluirá - mas os recentes exames do 12. º Ano estão aí para provar que as escolas públicas deixaram de premiar o esforço.
Se hoje tivesse filhos pequenos, não os matricularia numa escola pública: não porque os docentes sejam piores do que na privada, mas porque, devido aos programas, regras e cultura impostos pelo Ministério, o ensino está degradado. Há dias, o Diário de Notícias anunciava, como se fosse um milagre, que oito em cada dez alunos frequentam escolas públicas. Perguntem a estes pais se lá manteriam os filhos, caso as privadas fossem igualmente gratuitas.
É por ter depositado esperança na educação pública que me sinto triste. Em 1974, matriculei os meus filhos na Escola Manuel da Maia e, terminado o Ciclo Preparatório, no Liceu Pedro Nunes. Apesar da turbulência da Revolução, pensei ser melhor tê-los ali, uma vez que, além da vantagem de não os enclausurar numa redoma social, o ensino era bom.
Actualmente, de tal forma estão as escolas públicas desorientadas que não sacrificaria o futuro dos meus filhos às minhas convicções. Provavelmente, optaria por uma privada, desde que não religiosa. Sei que a minha posição passou de moda, uma vez que todos os dias assisto a gente agnóstica, baptizando os descendentes, apenas porque tal permite enviá-los depois para colégios, mas isso não me comove, apenas me irrita.
Ao fim de trinta anos de democracia, o que vemos? Uma rede pública, que se transformou num gueto para os filhos dos pobres, e uma rede privada, frequentada pelos filhos das classes médias.
Há duas maneiras de se fazer com que uma sociedade se torne mais igual: através do sistema fiscal e da escola pública. Em Portugal, nenhuma delas funciona. Não admira que o nosso país seja aquele que, na Europa, possui o mais profundo fosso entre os ricos e os pobres.
Setembro de 2008
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Os mortos de Andorra
A MORTE COMPORTA, em si mesma, muito de insolente e algo de escandaloso. Aqueles portugueses que morreram no túnel de Andorra deixaram de ter nomes e passaram a ser números. Quantos? Em rigor não se sabe. Foram para um sonho e não sabiam do perigo. Um deles esteve doze horas, doze horas!, com as pernas entaladas sob toneladas de betão e de ferro, sem se libertar das contracções dos músculos, até que. As dores eram inimagináveis. Animaram-no com frases nas quais a piedade e a compaixão foram o conforto desmembrado de quem sabe que as coisas estão irremediavelmente acabadas. O homem gelara; colocaram-lhe nos ombros e no tronco que sobrava cobertores sobre cobertores. Até que.
Os mortos de Andorra assumem um carácter exemplar pelo que reflectem de abandono, de exclusão, de rejeição - e de uma epidemia social, consubstanciada na modificação do estatuto das pessoas, que nada consegue extirpar. Duas frases talvez ilustrem a tragédia portuguesa. "O senhor tem medo?", perguntava, ingénua e tola, uma jovem jornalista a um operário antigo e versado. Que lhe respondeu, numa condensação de saberes: "Um gajo tem de ir procurar trabalho onde há trabalho!"
E, em Portugal, não o há. A mão portuguesa anda por aí além, numa viagem antiga que espera, em vão, fugir ao arbítrio. Percorre nações mais prósperas, inaugurando experiências nas fábricas, nas oficinas, na construção, sobretudo na construção, ocupando as frentes de trabalho mais duras, nas linhas de produção mais mortalmente ameaçadoras. Os outros recusam-nas; os portugueses aceitam-nas: a fome e a miséria no seu país são a mais forte aliança de todos os absurdos e de todas as violências. Naquele túnel de Andorra, desde as fundações e o alçar dos andaimes, quantos portugueses morreram? As estatísticas são omissas.
Mas eles voltam sempre; enganam o medo, foram habituados a esse roteiro que os obriga a deslocações forçadas. Procedem de aldeias das Terras Frias, fogem à angústia nacional, fazendo-se portadores de um ímpeto inextinguível e respondendo a um chamamento que vem de muito longe.
Nada nem ninguém protege estes milhares de portugueses sem trabalho que já deixaram de acreditar no céu; que blasfemam porque largados, desamparados, danificados; que não prevêem aquilo que dista; que se abandonam aos piores calvários e aos mais rudes sacrifícios; que acumulam fadigas e resignações e que morrem na inóspita desolação da ausência e do anonimato.
Que pensaria aquele português com as pernas sob toneladas de entulho?, na noite gelada, gelada e sem razão, na noite desprovida de misericórdia, naquela noite sem Deus, sem nada, sem milagres, sem explicação; uma noite arruinada e um homem meio soterrado a olhar atónito para aqueles que tentavam consolá-lo.
Que pensaria?
«DN» de 11 Nov 09
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Borboletas quânticas
Por Nuno CratoSERÁ QUE as tempestades na Florida foram causadas por uma insignificante borboleta, que agitou indevidamente as asas em Madagáscar? Ninguém acreditará que isso seja possível, mas é um dito que se tornou moda. Foi inventado pelo escritor de ficção científica Ray Bradbury, em 1952. Usa-se hoje para descrever o conceito matemático de caos.
A ideia é antiga. Já em 1860 o físico escocês James Clerk Maxwell falava da possibilidade de pequenas colisões entre moléculas criarem turbulência em gases. Trinta anos mais tarde, o matemático Henri Poincaré descobriu que um sistema gravitacional de três corpos, como o do Sol, Terra e Lua, podia ser muito instável. Mas foi o matemático e meteorologista Edward Lorenz que posteriormente tornou a ideia popular.
O interesse de Lorenz pelo problema despertou em 1961. Estava na altura a trabalhar num programa de computador para previsão do tempo e truncou um parâmetro. Em vez de introduzir 0,506127, escreveu 0,506, pensando que o resultado não iria diferir muito. Enganou-se. A previsão ficou completamente diferente. Lorenz corrigiu os dados e voltou a correr o programa. Obteve as previsões anteriores. Mas, em vez de ficar satisfeito com isso, interrogou-se sobre o que se tinha passado. Trabalhou o problema de forma mais geral e verificou que há sistemas matemáticos robustos, em que uma pequena modificação nas condições de partida não altera significativamente o resultado final. Mas há outros que são caóticos, como depois se veio a dizer, pois uma pequena alteração nas condições iniciais provoca diferenças gigantescas nos resultados.
A descoberta teve um impacto profundo na matemática pura e na análise de fenómenos físicos. Tornou-se claro que, mesmo em sistemas em que nada é deixado ao acaso, a previsão torna-se extremamente falível ou mesmo impossível, a partir de certa altura, pois seria necessário conhecer os parâmetros iniciais com absoluta precisão, o que nunca acontece, para conseguir prever com rigor a evolução do sistema. Do ponto de vista filosófico, o impacto da teoria do caos foi também importante, pois percebeu-se que a imprevisibilidade pode ser inerente à nossa apreensão do mundo, mesmo que os fenómenos sejam puramente determinísticos.
Onde não há a ilusão de determinismo é no mundo quântico. As partículas sub-atómicas têm um comportamento que, tanto quanto se sabe, é intrinsecamente imprevisível. Num conjunto de átomos idênticos, um núcleo de um desintegra-se e o do lado fica imperturbável, sem ser possível determinar porque um se porta de uma maneira e outro de outra. Não é caos. É aleatoriedade pura.
Numa experiência recente, contudo, um grupo de físicos da Universidade do Arizona conseguiu verificar comportamentos caóticos no mundo atómico (“Nature” 461, 768–771). Submetendo átomos de césio a oscilações de um campo magnético e de um feixe laser, notaram que os átomos, portando-se como um pião, mostravam uma estabilidade dinâmica em algumas áreas, e um comportamento errático noutras, reproduzindo as distinções clássicas entre o caos e a estabilidade dinâmica. É a primeira vez que estas características caóticas são observadas num sistema quântico. Que nos vai isso trazer? A beleza da resposta é que não se sabe: a ciência também é imprevisível.
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 7 Nov 09
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
«Quanto indica a balança?» de 9 Nov 09 - Solução e prémios adicionais
2577 gramas- 1.º Carluz .. 2514 g .. erro = 63 g
- 2.º Ferreira.. 2666 g .. erro = 89 g
- 3.º AC .. 2480 g .. erro = 97 g
O 1.º classificado poderá indicar qual dos 3 livros prefere;
o 2.º classificado deverá indicar 2 dos 3 (por ordem decrescente de preferência)
o 3.º classificado ficará com o que restar.
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A partir deste momento, têm 24h para escreverem para premiosdepassatempos@iol.pt indicando preferências e morada para envio.
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Actualização: 'Carluz' escolheu o livro «Caim» e Ferreira escolheu o «Eva era Negra».
Assim, só é preciso que, dentro do prazo indicado, 'AC' indique morada, para que lhe seja enviado o livro de Lutero.
«Dito & Feito»
Por José António Lima
A OPERAÇÃO 'FACE OCULTA’ começou a desvendar uma rede de negociatas que envolve o submundo político-empresarial e uma miríade de empresas com participações do Estado: REN, Galp, EDP, PT, Refer, etc., etc. E veio demonstrar até que ponto está corroído pela pequena e média corrupção, pelo tráfico de influências e os favorecimentos a troco de subornos, todo o vasto aparelho formado pelos incontáveis cargos de designação pública, desde os quadros intermédios a decisores de topo.
Acresce que o sentido de serviço ao bem público e o sentimento de defesa do prestígio e respeitabilidade das instituições se degradaram a tal ponto que muitos dos que as representam nem quando se vêem envolvidos em investigações e processos judiciais sentem o dever de se afastar de funções.
Se, há uns anos, António Vitorino ou Jorge Coelho resignaram de imediato aos cargos públicos que ocupavam, para salvaguarda do bom nome das instituições, independentemente das responsabilidades a apurar, agora, Armando Vara ou José Penedos só suspendem funções ao fim de vários dias e empurrados pela força de várias pressões.
Na conferência organizada há uma semana pelo SOL para o lançamento do livro de Ernâni Lopes, A Economia no Futuro de Portugal, tanto o autor como Vítor Bento impressionaram pela lucidez e profundidade de análise sobre o «definhamento de Portugal» nas últimas décadas, os desequilíbrios que resultam «da acumulação do endividamento» de um país que «consome muito acima do que é produzido» e da inexistência de uma «elite dirigente» respeitada, de uma classe política com «uma base robusta de fundamentação moral».
Falando da importância do trinómio «valores/atitudes/padrões de comportamento», Ernâni Lopes acredita que, «em paralelo com o que de pior encontramos» na realidade portuguesa, «existe muito de são, de honesto e de esforçado». Os exemplos recentes, reconheça-se, não são, no entanto, os mais animadores.
Até o pilar de valores e comportamentos que pretende ser a Igreja católica mantém em funções um padre, o de Boticas, que tinha em casa um arsenal ilegal de armas, que negoceia empréstimos e juros com os seus paroquianos como um usurário, que acumula terrenos, casas e dinheiro.
Não foi Jesus que expulsou os vendilhões do templo, derrubando as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que aí comerciavam? Já nem a Igreja segue os seus ensinamentos.
«SOL» de 6 Nov 09
domingo, 8 de novembro de 2009
A paragem da Carris - Solução

A IMAGEM de cima mostra melhor o local referido. O que se passa (segundo o que diz a PM e eu também tenho confirmado) é que a 'rapaziada' (especialmente madames) vai à sapataria e estaciona o carro mesmo em frente da loja. Assim, se aparece a polícia (ou a EMEL), vêm a correr tirá-lo ou dizer que foi só um bocadinho...A Vacina
Por Alice Vieira
O MEU AMIGO ANTÓNIO acaba de receber uma carta avisando-o de que, a partir do dia tal, deverá ir ao centro de saúde, das tantas às tantas, para lhe ser administrada a dose de Tamiflu a que tem direito.
O meu amigo António é mais novo do que eu, professor recentemente reformado. Solteiro e sem filhos, vive sozinho lá no seu casarão numa pequena cidade dos arredores de Lisboa, entre quadros, livros e música.
O meu amigo António não é obeso, não tem asma, não tem nenhuma doença crónica, não sofre de coisa nenhuma em especial e, evidentemente, não está grávido.
O meu amigo António não guia táxi, não é deputado, não atende ao balcão, e não pratica enfermagem nos tempos livres.
Além disso o meu amigo António teve a asiática em pequenino (“foi uma festa, fecharam as escolas todas!”) e parece que isso garante uma certa imunidade à gripe-A.
O meu amigo António olhou para a carta, leu-a e releu-a, e de repente começou a sentir-se mal.
Muito mal mesmo.
Porque, sendo uma pessoa absolutamente saudável, o meu amigo António sofre de uma doença absolutamente incurável : é hipocondríaco em altíssimo grau.
E neste momento anda a incomodar meio mundo (médico de família, médicos da urgência a que costuma recorrer, família, amigos chegados, meio chegados, afastados, afastadíssimos, vagamente conhecidos) para que lhe digam a verdade.
Ou seja: ele deve estar muito mal e não sabe.
Ele deve estar em risco de patinar e toda a gente lhe anda a esconder o seu estado.
“Ó doutor, o doutor já me conhece, eu aguento, juro que aguento, mas não me esconda nada! Se os serviços de saúde me convocaram — e olhe aqui, não há dúvida, é o meu nome todo... — é porque devem saber mais do que eu… Diga-me lá, doutor: é grave?”
O pobre do médico já lhe disse quinhentas vezes que ele não tem nada, está em óptimas condições de saúde, até a tensão é a de um jovem, nem colesterol alto, nada de nada.
Mas ele não se conforma: se os serviços de saúde o chamaram, é porque é prioritário; se é prioritário é porque alguma coisa de mal deve ter…
De vez em quando telefona-me e, em voz cava, pergunta:”já te chamaram?”
E eu vou sempre dizendo que não, mas ele que não perca a esperança, um dia destes se calhar lembram-se de que tive hepatite-C há 50 anos, e um cancro já lá vão mais de 20 — e também me consideram prioritária.
Mas ontem o António telefonou muito mais animado. Assim como se lhe tivessem tirado um peso de cima. É que segundo leu nos jornais, parece que os centros de saúde lá da cidade dele receberam doses de Tamiflu que nunca mais acabam, e por isso vai ser tudo vacinado a eito.
Respirou ele fundo e respirámos nós. A vacina pode vir a ser-lhe muito eficaz a prevenir a gripe, mas ia-o matando de coração.
«JN» de 7 Nov 09
sábado, 7 de novembro de 2009
A crise – leonina
Por Antunes Ferreira
BOM FIM-DE-SEMANA começou ontem. O Governo viu aprovado o seu Programa na Assembleia da República, ele próprio sem saber muito bem como isso terá acontecido. Mas aconteceu. No final de dois dias de debate do programa do Governo na Assembleia da República, José Sócrates afirmou que o Governo saiu dali «com uma investidura parlamentar e, portanto, tem legitimidade para iniciar funções. Este é o momento para começar a trabalhar e de dar ânimo, esperança, confiança aos portugueses no sentido de resolver a crise».
Entretanto, a Face Oculta continua o seu andamento em bom ritmo, muito se dizendo que é apenas a face emersa do icebergue e que estão para vir a público outros nomes sonantes de elementos ligados à actividade criminal. O próprio primeiro-ministro foi acusado, segundo o semanário Sol, de ter feito um telefonema para Armando Vara. Sócrates respondeu que era o que faltava ele não poder falar telefonicamente com um amigo e camarada de longos anos.
Nos Estados Unidos, um oficial psiquiatra do Exército norte-americano, o major Nidal Malik Hasn, de origem palestiniana protagonizou um verdadeiro banho de sangue, ao matar na maior base militar do Mundo, Fort Hood, treze pessoas e ferir outras 30, a tiros de rajada de duas pistolas- metralhadoras. Dizem testemunhas que o assassino teria gritado durante a matança Allah Akbar, Alá é Grande. Ainda nos States, um cidadão atirou a matar no centro da cidade de Orlando. Resultado: um morto e cinco feridos.
Volte-se a Portugal. Somos o número um na lista de infecções de VIH/sida entre os consumidores de drogas na Europa e aquele onde o número de mortes devido à droga mais subiu. Os dados de 2007 revelam um aumento de 45% na mortalidade, mas o Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência alerta que este número é "inflacionado" pelo método usado pelas autoridades para as calcular. E os valores reportam-se a 2007, dizendo as autoridades que no ano passado e já neste as coisas melhoraram.
Tanto se falou e fala e falará sobre a maldita crise e as desastrosas consequências que originou no País. É certo que ela se estende por todo o Mundo, mas, nós fincamos os pés na terra e repetimos até à exaustão – com o mal dos outros podemos nós bem. Porém, vendo bem as coisas, a verdadeira crise, a que não tem nem pode ter similares – lembram-se do anúncio? – é a do clube leonino.
Porque, de tudo o que enunciei, nada foi tão importante como o momento exaltado que se vive no Sporting Clube de Portugal. Isso sim, isso é a crise. A demissão do treinador Paulo Bento motivou inclusive conferência de imprensa com a participação do próprio e do presidente dos leões, José Eduardo Bettencourt. Mesmo sem se zangarem as comadres, descobriram-se algumas verdades. Tamanha foi a atenção ao acontecimento, que ele mereceu transmissão televisiva em directo.
E, pelos vistos, os Portugueses - ou seja, nós - dispensaram muito mais atenção a esta singular ocorrência do que a todas as restantes com que iniciei estas linhas. E ainda a procissão ia a sair do adro e já surdiam da toca mais dois abandonos: o de Pedro Barbosa, o antigo futebolista que era, agora, o Director Desportivo do clube, bem como o de Miguel Ribeiro Telles, vice-presidente da SAD leonina. Caiu o Carmo e a Trindade no complexo desportivo Alvalade Século XXI.
O futebol verde-e-branco estava em permanente tem-te-maria-não-caias. A cabeça de Bento – que parecia realmente estar fora do prazo de validade – era, no mínimo, o que se esperava, apesar do famigerado Bento «for ever» do presidente do Sporting. Mas, de imediato, apareceram as carpideiras calinas dos nossos funerais. Uns quantos colegas do auto-demitido vieram pressurosamente afirmar que os leões não faziam ideia do excelente treinador que tinham.
Este é o nosso Portugal, onde a hierarquia dos acontecimentos tem uma escala muito especial. Este é o nosso Portugal onde a inversão de valores é regra e, parece, a corrupção também é. Este é o nosso Portugal onde o princípio de Peter tem aplicação plena. Somos assim – e ninguém nos dá a volta – que nós não deixamos.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
A Tirania Infantil
ESTE VERÃO [2008] FUI AO NORTE onde convivi com algumas jovens mães. Reparei que não só observavam os movimentos dos filhos com um zelo patológico, como, ao fim do dia, pareciam besouros cansados. Pelos vistos, as férias grandes transformaram-se numa sucessão de actividades: ele são campos de férias, ele são aulas de pintura, ele são lições de equitação. No mundo moderno, as crianças são alvo de uma atenção que só lhes pode trazer prejuízos.
É natural que os pais desejem oferecer-lhes o melhor, mas há limites ao que podem fazer: uma educação primorosa pode dar lugar a um delinquente e uma infância descurada a um génio. É útil recordar que, em séculos pretéritos, os pais não se preocupavam com tal matéria. Aliás, ao longo da História, ninguém prestava atenção - excepto no caso dos príncipes – à educação. Na ficção oitocentista, há de tudo, desde relatos de bom comportamento, como as meninas da condessa de Ségur, a casos de rebeldes incorrigíveis, como Tom Sawyer.
Em Portugal, o meu exemplo preferido é o do queiroziano Fradique Mendes: «A sua primeira educação fora singularmente emaranhada: o capelão de D. Angelina, antigo frade beneditino ensinou-lhe o latim, a doutrina, o horror à Maçonaria e outros princípios sólidos; depois um coronel francês, duro jacobino que se batera em 1830 na barricada de St Merry, veio abalar estes alicerces espirituais, fazendo traduzir ao rapaz a Pucelle de Voltaire e a Declaração dos Direitos do Homem; e finalmente um alemão (…) se dizia parente de Emanuel Kant, completou a confusão iniciando Carlos, ainda antes de lhe nascer o buço, na Crítica da Razão Pura».
Se tivesse filhos menores, que não tenho, e se fosse rica, o que tão pouco é o caso, iria passar férias à quinta da Penha Longa, onde, segundo os jornais, há um «kids club», onde os pimpolhos aprendem golfe sem os pais terem de se mexer, o que lhes permitirá ler as recentemente editadas memórias de Churchill, Os Meus Primeiros Anos, uma revelação para quem pensa que os meninos têm de ser tratados como flores de estufa.
Agosto de 2008
A Jangada dos Tolos
O AUTOR LAUREADO (AL): Sr. Dr., cheguei a uma época da minha vida em que finalmente o meu labor incansável foi compensado. Vendo bastante por toda a parte e pagam-me bem. Mas aqueles ladrões do fisco ficam-me com tudo. O que me aconselha?
O Consultor Fiscal (CF): Que quer meu caro Mestre, isto é o país da inveja. Em vez de premiar o mérito, tributa-se. Mas talvez tenhamos algumas soluções. Qual a origem dos seus rendimentos?
AL: Uns são de cá, mas outros são do resto do mundo.
CF: Óptimo. Está disposto a mudar de país?
AL: Claro, estou farto desta piolheira. Este país não me merece.
CF: O que me diz de Londres, meu caro Mestre? Nem precisa de mudar a nacionalidade, basta residir lá. Tem uma vida cultural muito intensa: museus, música, teatro.
AL: Ora, ora… arte burguesa e decadente. Literatura e teatro que não estejam ao serviço da transformação social não me interessam nada.
CF: Claro, claro, meu caro Mestre. Esquecia-me que está de alma e coração com os explorados deste mundo. Como diz a canção: “De pé, famélicos da terra…”
AL: Não é canção, homem, é hino. Deixe lá isso. Em Londres as casas são caríssimas e está a ver-me a morar num bairro social com aquela gentinha? Outra solução.
CF (encavacado): Bermudas, Ilhas Caimão, Panamá?
AL: Detesto esses arrabaldes do imperialismo norte-americano. Um amigo da minha mulher falou-me das Canárias: diz que dá para uns arranjos fiscais muito interessantes. E está na União Europeia, essa coisa.
CF: Não conheço. Mas vou ligar para o nosso escritório em Madrid.
(Uns minutos depois)
CF: Já sei. Está tudo na net. É o Regime Económico Fiscal das Canárias, autorizado por Bruxelas por ser uma zona ultra-periférica. Como a Madeira, mas em bom…
AL: Madeira?! Eu não quero nada com a Madeira… Sempre ouvi dizer que aquilo era uma completa pouca vergonha.
CF: Não, não, é outra coisa. Até podemos sustentar que não é bem um paraíso fiscal. Mas se obtiver rendimentos e os reinvestir, ou fizer uma reserva, pode ter uma vantagem até 90%. Isso é que interessa!
AL: Reinvestir?! Então tenho que ser empresário? Homem, poupe-me. Eu não posso com essa gente. Não sou nenhum explorador do povo.
CF: Reinvestir é um modo de dizer. Tudo se arranja. Compra títulos de dívida pública das Canárias, com juros, ou certo tipo de activos e está reinvestido. Para os rendimentos vindos de fora, se conseguirmos que sejam tratados como royalties, a taxa é muito baixa.
AL: E isso não é ilegal? E não dará má-língua, falatório? Sabe, a minha imagem…
CF: Perfeitamente legal. E só nós, consultores fiscais, é que sabemos disto e não temos o hábito de falar de coisas que possam prejudicar os nossos clientes.
AL: E quanto aos rendimentos que vêm de Portugal? Como é que posso escapar?
CF: Mestre, os direitos de autor já pagam tão pouco… Mas faça uma fundação. Para a defesa do ambiente, ajuda aos mais pobres, essas coisas. Assim sempre tem um escritório em Lisboa. Dá sempre jeito.
AL: Boa ideia! E ainda hei-de conseguir que um político qualquer me dê uma sede. Até tenho uma debaixo de olho. Eu sei muito bem como se lida com essa gente…
«Expresso» de 31 de Outubro de 2009
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Um herói solitário



A 1ª foto mostra a situação habitual à porta da minha casa. A 2ª mostra como - a meu ver... deveria ser sempre - o que só foi conseguido devido ao pilarete-pirata que se vê na 3ª foto, e que alguém ali colocou de noite. Ao fim de duas semanas, alguém se encarregou de o tirar, pelo que "a normalidade foi reposta".
Pilaretes - Alternativas
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Episódios da miséria humana
QUE SENTIDO É ESTE, para onde a História nos encaminha? Por todo o lado a corrupção alastra e substituiu-se aos ideais antigos e exaltantes de resolução das desigualdades, da exploração do homem pelo homem, da oposição entre o Norte e o Sul. Homens que respeitávamos pela lisura das suas vidas e pelo carácter exemplar das suas escolhas são, agora, acusados de suborno, fraude, perversão, e apontados à execração popular, por moralmente culpados de cupidez. A cupidez conduz a tudo, inclusive ao desprezo pelas regras sociais e pelas leis que as estruturam.
A "rede tentacular" descoberta, nestes dias, pela polícia, segue-se a outros escândalos tornados públicos e que o espectáculo mediático propende a simplificar, sem tentar analisar a raiz do mal. A nossa mórbida curiosidade exulta. Quando a Inquisição levava em fila os supliciados da intolerância, o povoléu, excitadíssimo, amontoava-se na Ribeira para assistir à queima. Como no século XVII, não conseguimos conciliar o respeito que nos devemos com a ideia de justiça que favorece a marca de uma identidade.
Somos, novamente, espectadores. Estamos, outra vez, regozijados com a miséria humana. Queremos sangue. Julgamos sem avaliar, acusamos sem saber, condenamos por inveja, por ódio, por oco ressentimento. Não nos envolvemos, o modo mais deplorável de recusa da cidadania. Mas apontamos, insinuamos, sugerimos, nomeamos. Situamo-nos no espaço público, mas sobrenadamos na sombra da infâmia e no aconchego da irresponsabilidade.
Haverá esperança numa sociedade em que tudo parece redundar em indiferença e conivências larvares? O Estado ausentou-se das suas funções fiscalizadoras. O Governo, mesmo perante a repetição destes enunciados, cumpliciou-se (pelos vistos) com os grandes interesses ligados à corrupção, ao suborno e à venalidade. O caso de João Cravinho é significativo. Propõe um projecto contra os corruptos e, numa compensação inquieta, é mandado para Londres, com um ordenado de luxo. Agora, nesta "Face Oculta", a porta não foi segura pela pessoa que ia à frente: só assim se justifica o facto de a imprensa ter sabido das investigações no tempo em que as devia saber.
As coisas irão ficar pela superfície? Na esfera pública, a dimensão a que as questões chegaram e o envolvimento, no esquema, de "gestores", políticos, advogados são de tal maneira graves que se torna difícil encobri-los ou dissimulá-los. A separação de poderes é um dos embustes sob os quais vivemos: tudo ocorre através de canais de informação, e os compromissos assumidos obedecem a pagamentos de favores. A "rede tentacular" não dispõe, somente, de um sucateiro do Norte. Foi apanhado. Mas há outros. Talvez os portugueses tenham um sobressalto de protesto e de indignação. Talvez.
«DN» de 4 Nov 09terça-feira, 3 de novembro de 2009
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
A ciência terrena
Por Nuno CratoCOMO TEMOS A CERTEZA de estar a horas? Acertando o nosso relógio com um sinal horário ou com algum dos servidores disponíveis na Internet - é claro! Esses relógios de referência verificam o tempo por um sistema de relógios atómicos, que são os melhores marcadores de tempo que temos. Conseguimos uma precisão impensável até há algumas décadas.
Antes dos relógios atómicos - o primeiro foi inaugurado em Washington em 1949 -, o marcador de tempo mais preciso que se conhecia era o céu. Vem daí a tradição de serem os observatórios astronómicos os responsáveis pela hora legal.
Como podia o céu servir de relógio? Olhando para o firmamento pode-se seguir o movimento da Terra, pois é a rotação do nosso planeta que nos dá a ilusão do movimento dos astros. Seguindo-os, pode-se marcar o tempo, pois a velocidade de rotação do nosso planeta, não sendo perfeitamente uniforme, é suficientemente precisa para todos os propósitos práticos imagináveis até há algumas décadas.
Este e outros usos práticos da astronomia estão agora patentes numa exposição que abriu na antiga Escola Politécnica, em Lisboa, no actual Museu de Ciência. Com o título "Medir os céus para dominar a Terra", a mostra assinala o Ano Internacional da Astronomia de uma maneira singular. O tópico da exposição são as aplicações terrenas da astronomia, que constituíram muitas vezes o maior incentivo ao desenvolvimento desta ciência.
Medir o tempo foi um dos primeiros usos da astronomia. A construção de relógios de sol, muito bem tratada na exposição, necessitou de conhecimentos pormenorizados sobre o movimento aparente da nossa estrela. Mais tarde, a medida mais precisa do tempo baseou-se na passagem meridiana das estrelas e noutros acontecimentos celestes possíveis de marcar com maior exactidão.
Outro dos importantes usos práticos da astronomia foi a navegação. A princípio, fez-se uma medida rudimentar da latitude do lugar vendo a altura da estrela polar: quanto mais baixa esta estivesse mais perto se estaria do equador. Portugueses e outros desenvolveram a navegação astronómica transformando esta ideia aproximada numa técnica rigorosa. Fizeram-se medidas precisas da latitude dos lugares usando a Polar, o Sol e, depois, estrelas austrais que a Cruzeiro do Sul indicava. Para isso, construíram-se e aperfeiçoaram-se instrumentos e tabelas astronómicas.
Nesta exposição, o Museu de Ciência da Universidade de Lisboa mostra vários astrolábios, sextantes e outros instrumentos que permitiram a navegação orientada pelos astros. Tem também actividades para os mais jovens, que podem ser navegadores virtuais tirando medidas de alturas com réplicas de instrumentos da época.
Igualmente interessante é a forma como os céus ajudaram a medir a terra. Serpa Pinto, pioneiro da travessia de África, explica no seu relato de viagem como observava os satélites de Júpiter para perceber as coordenadas do local em que estava. A mostra da Politécnica explica como observações desse tipo permitiam medir as coordenadas do lugar e exibe instrumentos de topografia e muitos documentos históricos da cartografia portuguesa. É uma exposição que nos mostra a astronomia como ciência terrena.
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 31 de Outubro de 2009
domingo, 1 de novembro de 2009
«O quarteirão-mistério» - Solução
A imagem afixada é uma parte do navio de cruzeiros MSC Orchestra - ver [aqui], que nesse dia estava atracado em frente Museu Nacional de Arte Antiga, de cujos jardins a foto foi tirada...



















