domingo, 13 de dezembro de 2009
Palhaços
Por João Paulo Guerra
E CONSTITUIRIA o termo deputado um insulto? De modo algum. O termo deputado é tão pouco ou nada insultuoso como os termos contramestre, engenheiro, guia-intérprete, terapeuta ocupacional, higienista oral ou palhaço. Mas claro que ninguém ignora que o termo palhaço é frequentemente usado com intenção pejorativa. Trata-se, possivelmente, de uma reminiscência medieval, que remete para tempos em que os cómicos procediam da ralé e para lá retrocediam.
E aqui entra mais uma diferença, para pior, da sociedade política portuguesa para a comunidade mundial dos palhaços, ricos ou pobres não vem para o caso. É que a jurisprudência portuguesa, nos termos de um acórdão da Relação do Porto, de Janeiro de 2008, ilibou a expressão "és um palhaço" de qualquer sentido injurioso. Nesta coluna fez-se referência e salientou-se o mérito de tão douta como oportuna sentença. Mas a sociedade política portuguesa não anda a par da jurisprudência e ainda usa o termo palhaço como sinónimo de títere, bonifrate ou fanfarrão. O dr. Jardim, por exemplo, processou o cronista Daniel Oliveira por considerar insultuoso o epíteto palhaço.
Munidos da jurisprudência, no hemiciclo ou nas comissões, os parlamentares que se tratem por palhaço, como se poderiam chamar equilibrista, trapezista, malabarista, contorcionista, transformista ou meramente deputado. Mas que não esqueçam a questão verdadeiramente essencial que é o direito dos palhaços propriamente ditos à indignação perante certas comparações.
«DE» de 11 Dez 09
O Sindicato dos Palhaços reuniu em Fevereiro passado o seu Parlamento Mundial, em Dresden, na Alemanha, e não consta que ao longo dos trabalhos os participantes se tenham insultado uns aos outros chamando-se deputados disto ou deputados daquilo.
E CONSTITUIRIA o termo deputado um insulto? De modo algum. O termo deputado é tão pouco ou nada insultuoso como os termos contramestre, engenheiro, guia-intérprete, terapeuta ocupacional, higienista oral ou palhaço. Mas claro que ninguém ignora que o termo palhaço é frequentemente usado com intenção pejorativa. Trata-se, possivelmente, de uma reminiscência medieval, que remete para tempos em que os cómicos procediam da ralé e para lá retrocediam.
E aqui entra mais uma diferença, para pior, da sociedade política portuguesa para a comunidade mundial dos palhaços, ricos ou pobres não vem para o caso. É que a jurisprudência portuguesa, nos termos de um acórdão da Relação do Porto, de Janeiro de 2008, ilibou a expressão "és um palhaço" de qualquer sentido injurioso. Nesta coluna fez-se referência e salientou-se o mérito de tão douta como oportuna sentença. Mas a sociedade política portuguesa não anda a par da jurisprudência e ainda usa o termo palhaço como sinónimo de títere, bonifrate ou fanfarrão. O dr. Jardim, por exemplo, processou o cronista Daniel Oliveira por considerar insultuoso o epíteto palhaço.
Munidos da jurisprudência, no hemiciclo ou nas comissões, os parlamentares que se tratem por palhaço, como se poderiam chamar equilibrista, trapezista, malabarista, contorcionista, transformista ou meramente deputado. Mas que não esqueçam a questão verdadeiramente essencial que é o direito dos palhaços propriamente ditos à indignação perante certas comparações.
«DE» de 11 Dez 09
Quando eles querem...
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O homem que se vê de costas é, pelo que me apercebi, um polícia-a-sério, com o correspondente brio profissional: não aceitando o papel de verbo-de-encher, soube impedir o estacionamento naquela paragem simplesmente com a sua presença.
Dava gosto ver os carros a desaparecer dali assim que ele se aproximava, sem dizer uma palavra! - com uma pastinha debaixo do braço e cara de poucos amigos!
O homem que se vê de costas é, pelo que me apercebi, um polícia-a-sério, com o correspondente brio profissional: não aceitando o papel de verbo-de-encher, soube impedir o estacionamento naquela paragem simplesmente com a sua presença.
Dava gosto ver os carros a desaparecer dali assim que ele se aproximava, sem dizer uma palavra! - com uma pastinha debaixo do braço e cara de poucos amigos!
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sábado, 12 de dezembro de 2009
Queixas
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Por João Paulo Guerra
O GOVERNO JÁ APRESENTOU queixas em Belém: “Deixem-nos governar”, um apelo ao qual o inquilino de Belém foi em tempos muito sensível. E as queixas do Governo confirmam as suspeitas de quantos alvitravam que este Governo não se conformaria com a modalidade de governar sem maioria absoluta. E que a palavra “diálogo” repetida até à saciedade no arranque da legislatura era simplesmente um slogan.
Porque a verdade é que o Governo não tem só razões de queixa das oposições. Quem é que salvou o Governo de ter que suspender a avaliação dos professores, o que seria uma verdadeira humilhação? Quem é que vai deixar passar o Orçamento rectificativo? Quem é que ajudou o Governo a tramar a reforma de 84 mil trabalhadores com 40 anos de trabalho e descontos para a Segurança Social? Quem é que poderá salvar o negócio dos contentores?
Agora, o Governo não pode querer tudo, porque o eleitorado não lhe deu tudo. Farto de quatro anos de poder com maioria absoluta, o eleitorado só deu uma maioria relativa ao PS. De maneira que o Governo tem que engolir as coligações negativas e as comissões de inquérito, os chumbos e as aprovações, sem puxar logo do arsenal de acusações de “irresponsabilidade” e de clamar “aqui d’el rei que nos estão a tramar a governabilidade”. Tudo isso faz parte das regras do jogo democrático, tão aplaudido para uns efeitos e tão vilipendiado para outros.
É com a relatividade da maioria que este PS não se entende, a pontos de pedir socorro a Belém. E o drama do PS é que a terrível arma das eleições antecipadas poderia revelar-se uma mera pistola de fulminantes.
Por João Paulo Guerra
O Governo do PS está a entrar num processo de mimetismo em relação a Cavaco Silva. Já fala em “forças de bloqueio” e até já pede que o deixem governar.
O GOVERNO JÁ APRESENTOU queixas em Belém: “Deixem-nos governar”, um apelo ao qual o inquilino de Belém foi em tempos muito sensível. E as queixas do Governo confirmam as suspeitas de quantos alvitravam que este Governo não se conformaria com a modalidade de governar sem maioria absoluta. E que a palavra “diálogo” repetida até à saciedade no arranque da legislatura era simplesmente um slogan.
Porque a verdade é que o Governo não tem só razões de queixa das oposições. Quem é que salvou o Governo de ter que suspender a avaliação dos professores, o que seria uma verdadeira humilhação? Quem é que vai deixar passar o Orçamento rectificativo? Quem é que ajudou o Governo a tramar a reforma de 84 mil trabalhadores com 40 anos de trabalho e descontos para a Segurança Social? Quem é que poderá salvar o negócio dos contentores?
Agora, o Governo não pode querer tudo, porque o eleitorado não lhe deu tudo. Farto de quatro anos de poder com maioria absoluta, o eleitorado só deu uma maioria relativa ao PS. De maneira que o Governo tem que engolir as coligações negativas e as comissões de inquérito, os chumbos e as aprovações, sem puxar logo do arsenal de acusações de “irresponsabilidade” e de clamar “aqui d’el rei que nos estão a tramar a governabilidade”. Tudo isso faz parte das regras do jogo democrático, tão aplaudido para uns efeitos e tão vilipendiado para outros.
É com a relatividade da maioria que este PS não se entende, a pontos de pedir socorro a Belém. E o drama do PS é que a terrível arma das eleições antecipadas poderia revelar-se uma mera pistola de fulminantes.
«DE» de 10 Dezembro 09
O legislativo que quer ser executivo
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Por Antunes Ferreira
O DESPLANTE deveria pagar impostos – mas não paga. Deveria ter limites – mas não tem. Porque o desplante, como diria o Amigo Banana, é isso mesmo: um desplante. Não vou mais longe. Os comentários feitos pelo Presidente da República a propósito da hipótese da possível ingovernabilidade do País, são um desplante.
Cavaco Silva sustentou ontem no Porto que é possível um executivo minoritário governar bem. E citou como exemplo António Guterres que o fez ao longo de seis anos. Nada a opor. É, mesmo, quase comovente esse reconhecimento e a correspondente citação. Quem disse que na política à portuguesa não existe o fair play? Bastava esta afirmação do ainda inquilino de Belém para confirmar que sim senhor, existe.
Mas, o mais alto magistrado da Nação – repesco aqui terminologia que se aplicava normalmente ao almirante Américo Tomaz – deu-se ao luxo de simultaneamente mencionar o seu próprio caso. E sublinhou que ele próprio também governara, minoritário, durante dois anos. E, os dois, «nem por isso deixaram de aprovar diplomas», tais como «a lei de bases do sistema educativo, que elevou para nove anos a escolaridade obrigatória, o novo código comercial, lei de bases do ambiente e a lei das finanças locais e a lei de segurança interna"». A isto chamo ter o desplante de.
Cavaco Silva lembrou também que o Presidente da República «é a válvula de segurança» do Pais e apelou ao Governo e à oposição para que encontrassem «pontos em comum para resolver os problemas dos portugueses». «É tempo de diálogo aprofundado e de convergências. É isso que eu espero que aconteça». Respondia, assim, e uma vez mais indirectamente, ao apelo dos socialistas, nomeadamente António Vitorino, para que interviesse a fim de prevenir a ingovernabilidade possível.
Bem prega frei Tomás. O chefe do Estado acentuou ainda que não entra em retóricas de dramatização. Isto porque no seu ilustre entendimento, «as forças políticas acabarão por revelar bom senso». Não se referiu ao facto de ele próprio, no final do seu governo minoritário ter apelado dramaticamente à maioria absoluta que viria a conseguir.
Muito menos recordou o tabu que instalou em Portugal a propósito dos resultados eleitorais que se avizinhavam. Mais um exemplo de que muitíssimos homens e, entre eles, inúmeros políticos, não têm memória ou, pior, não querem tê-la. E, portanto, reafirmo que se tratou de um desplante o afirmado pelo PR.
Depois da triste figura que tinha feito através do incrível «esclarecimento» sobre a questão da insegurança informática da Presidência, que nos deixou absolutamente aparvalhados, tal a dimensão da asnática intervenção, veio agora Aníbal Cavaco Silva dar conselhos às «forças políticas», mas especificamente endereçados ao Governo. É um verdadeiro desplante.
Mas, num Portugal em que o Parlamento se quer substituir ao Executivo, tudo é possível. Pessoalmente, não me recordo de ter visto por estas bandas, alianças parlamentares que vão do BE ao CDS/PP, incluindo, portanto, os Verdes, e, ó originalidade, o PSD. Para impedir que as medidas do Governo passem no hemiciclo, apenas? Não me parece. Para detonarem a citada ingovernabilidade.
Creio que não é tempo de recusar dramatizar o que já está dramatizado. Ninguém pode pensar que a catástrofe financeira da Grécia é inatingível – por cá. Já não falo no que se disse em Atenas acerca da soberania nacional estar a ser posta em causa. Refiro-me tão-só ao retrato patético de uma «Oposição unida, que jamais será vencida». E se José Sócrates, apesar do Orçamento Rectificativo ter sido aprovado na AR, bater com a porta?
O DESPLANTE deveria pagar impostos – mas não paga. Deveria ter limites – mas não tem. Porque o desplante, como diria o Amigo Banana, é isso mesmo: um desplante. Não vou mais longe. Os comentários feitos pelo Presidente da República a propósito da hipótese da possível ingovernabilidade do País, são um desplante.
Cavaco Silva sustentou ontem no Porto que é possível um executivo minoritário governar bem. E citou como exemplo António Guterres que o fez ao longo de seis anos. Nada a opor. É, mesmo, quase comovente esse reconhecimento e a correspondente citação. Quem disse que na política à portuguesa não existe o fair play? Bastava esta afirmação do ainda inquilino de Belém para confirmar que sim senhor, existe.
Mas, o mais alto magistrado da Nação – repesco aqui terminologia que se aplicava normalmente ao almirante Américo Tomaz – deu-se ao luxo de simultaneamente mencionar o seu próprio caso. E sublinhou que ele próprio também governara, minoritário, durante dois anos. E, os dois, «nem por isso deixaram de aprovar diplomas», tais como «a lei de bases do sistema educativo, que elevou para nove anos a escolaridade obrigatória, o novo código comercial, lei de bases do ambiente e a lei das finanças locais e a lei de segurança interna"». A isto chamo ter o desplante de.
Cavaco Silva lembrou também que o Presidente da República «é a válvula de segurança» do Pais e apelou ao Governo e à oposição para que encontrassem «pontos em comum para resolver os problemas dos portugueses». «É tempo de diálogo aprofundado e de convergências. É isso que eu espero que aconteça». Respondia, assim, e uma vez mais indirectamente, ao apelo dos socialistas, nomeadamente António Vitorino, para que interviesse a fim de prevenir a ingovernabilidade possível.
Bem prega frei Tomás. O chefe do Estado acentuou ainda que não entra em retóricas de dramatização. Isto porque no seu ilustre entendimento, «as forças políticas acabarão por revelar bom senso». Não se referiu ao facto de ele próprio, no final do seu governo minoritário ter apelado dramaticamente à maioria absoluta que viria a conseguir.
Muito menos recordou o tabu que instalou em Portugal a propósito dos resultados eleitorais que se avizinhavam. Mais um exemplo de que muitíssimos homens e, entre eles, inúmeros políticos, não têm memória ou, pior, não querem tê-la. E, portanto, reafirmo que se tratou de um desplante o afirmado pelo PR.
Depois da triste figura que tinha feito através do incrível «esclarecimento» sobre a questão da insegurança informática da Presidência, que nos deixou absolutamente aparvalhados, tal a dimensão da asnática intervenção, veio agora Aníbal Cavaco Silva dar conselhos às «forças políticas», mas especificamente endereçados ao Governo. É um verdadeiro desplante.
Mas, num Portugal em que o Parlamento se quer substituir ao Executivo, tudo é possível. Pessoalmente, não me recordo de ter visto por estas bandas, alianças parlamentares que vão do BE ao CDS/PP, incluindo, portanto, os Verdes, e, ó originalidade, o PSD. Para impedir que as medidas do Governo passem no hemiciclo, apenas? Não me parece. Para detonarem a citada ingovernabilidade.
Creio que não é tempo de recusar dramatizar o que já está dramatizado. Ninguém pode pensar que a catástrofe financeira da Grécia é inatingível – por cá. Já não falo no que se disse em Atenas acerca da soberania nacional estar a ser posta em causa. Refiro-me tão-só ao retrato patético de uma «Oposição unida, que jamais será vencida». E se José Sócrates, apesar do Orçamento Rectificativo ter sido aprovado na AR, bater com a porta?
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Espiões
Por João Paulo Guerra
Entretanto, o transtorno psicótico contagiou o Governo e o PS. Um ministro, não no exercício de tais funções mas como cidadão livre de dizer coisas, comentando um processo judicial relativo a sucatas e tráfico de influências, declarou em 15 de Novembro que se estava perante uma situação de “espionagem política" (…) "extremamente preocupante". A “espionagem” ficou na agenda política e agora o PS / Governo vem denunciar que a Mata Hari deste enredo é Manuela Ferreira Leite. O que é seguramente uma absoluta surpresa para os portugueses que poderiam pensar o pior sobre a líder do PSD menos que a senhora trabalha de espia, como a Maria Albertina da Guerra de 1908 do Solnado.
A verdade é que a contra-espionagem do PS mantém a acusação. "Como sabia ela [Manuela Ferreira Leite] que o primeiro-ministro estava a mentir” [sobre o caso TVI]? A resposta é elementar, meu caro Watson: “Três meses depois percebi que esse era um facto das alegadas escutas”. Ou seja, Manuela Ferreira Leite teria escutado as escutas. Ora isto é espionagem, pura e dura. John Le Carré não argumentaria melhor.
«DE» de 4 de Dezembro de 2009
O poder em Portugal está acometido de uma psicose delirante de tipo persecutório: em todo o lado vê conspiração, perseguição, traição, espionagem. Trata-se de uma modalidade de transtorno delirante crónico que qualquer psiquiatra do SNS poderá diagnosticar.
HÁ QUATRO MESES, interrogava-se o jornal Público: “Está o Palácio de Belém sob escuta ou sob vigilância?” E para quem quisesse esclarecer-se sobre tão bizarra como improvável situação, o Público acrescentava que “fontes da Casa Civil” alimentavam a dúvida. Sabemos o que sucedeu depois: a Presidência desautorizou a “fonte” mas recentemente promoveu-a na hierarquia de Belém.Entretanto, o transtorno psicótico contagiou o Governo e o PS. Um ministro, não no exercício de tais funções mas como cidadão livre de dizer coisas, comentando um processo judicial relativo a sucatas e tráfico de influências, declarou em 15 de Novembro que se estava perante uma situação de “espionagem política" (…) "extremamente preocupante". A “espionagem” ficou na agenda política e agora o PS / Governo vem denunciar que a Mata Hari deste enredo é Manuela Ferreira Leite. O que é seguramente uma absoluta surpresa para os portugueses que poderiam pensar o pior sobre a líder do PSD menos que a senhora trabalha de espia, como a Maria Albertina da Guerra de 1908 do Solnado.
A verdade é que a contra-espionagem do PS mantém a acusação. "Como sabia ela [Manuela Ferreira Leite] que o primeiro-ministro estava a mentir” [sobre o caso TVI]? A resposta é elementar, meu caro Watson: “Três meses depois percebi que esse era um facto das alegadas escutas”. Ou seja, Manuela Ferreira Leite teria escutado as escutas. Ora isto é espionagem, pura e dura. John Le Carré não argumentaria melhor.
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Reféns uns dos outros
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Por Baptista-Bastos
O COMPROMISSO, em política, há muito deixou de pertencer aos domínios da razão moral. Ninguém cumpre e todos acham a indignidade coisa congénita. Os critérios estão entorpecidos, a verdade estropiada. Não se percebe o que quer o PSD, além da chicana metafísica sistematicamente provocada. Sabe-se, isso sim, do verdete a Sócrates alimentado, sem disfarce, pela dr.ª Manuela. Questão passional, nada a ver com política.
A tese agora, é a seguinte: o PS serve, Sócrates tem de ir embora. A alegação faz caminho. E, apesar dos surpreendentes apoios de Mário Soares à governação, nos socialistas (ainda há alguns no templo) o mal-estar é grande. Assistem a vitórias que garantem o poder; mas o poder está enfermo.
Com arfante sobressalto teme-se um "Governo de Assembleia", curiosa expressão, entre o antipático e o gracioso, tão ao gosto da confusão portuguesa. Quer-se dizer: receia-se que o Parlamento substitua o Executivo. Há, aqui, algo de brumoso. Vejamos: logo-assim haver perdido a maioria absoluta, José Sócrates preparou a estratégia do remendo. À Esquerda e à Direita procurou aliados providenciais. A dr.ª Manuela disse-lhe logo que não. Outra resposta não seria de esperar. O ódio pessoal sobrepõe-se a qualquer salvação da pátria. Os outros partidos, com o perfume do mando a entrar-lhes nas narinas, pareciam coristas a sorrir de enlevo.
Cedendo ao CDS e concedendo ao Bloco e ao PCP, montando umas cenas de teatro de revista e uns pequenos atritos retóricos, o Governo não deixa de ser refém da Assembleia. Mas a Assembleia é, também, cativa do Governo. Sócrates joga com a ameaça de ir a Belém dizer ao Chefe do Estado ser impossível gerir o País, dada a negação dos partidos em colaborar com a circunstância. Vai a votos e pode obter a maioria absoluta, repetindo a estranha proeza do dr. Cavaco. A História, por vezes, semelha-se a páginas humorísticas.
O PSD é a desgraça que aí está. Ninguém quer a dr.ª Manuela, mas a perspectiva é Passos Coelho ou Aguiar-Branco: uma novela nada recomendável. Que fazer?, a obscura natureza dos problemas leva-nos à interrogação leninista. Surge o dr. Balsemão e, com a graça discreta de um patrício romano, adverte dos perigos de extinção que corre o partido. Apresenta não sei quantas soluções para a crise. Ninguém as vai seguir, cumprir ou respeitar.
As regras da arte estão à vista. A identidade dos partidos é mediatizada pelo simulacro. Tudo é mentira, tudo é meia-verdade. E não parece que a sociedade esteja inclinada a modificar o que quer que seja. A erosão dos padrões, o assustador avanço da iliteracia política e a vitória do descalabro sobre a consciência constituem a representação da vida política portuguesa. Não há batalha que não comporte uma ideia de grandeza. Quem dirige o País nunca a teve.
Por Baptista-Bastos
O COMPROMISSO, em política, há muito deixou de pertencer aos domínios da razão moral. Ninguém cumpre e todos acham a indignidade coisa congénita. Os critérios estão entorpecidos, a verdade estropiada. Não se percebe o que quer o PSD, além da chicana metafísica sistematicamente provocada. Sabe-se, isso sim, do verdete a Sócrates alimentado, sem disfarce, pela dr.ª Manuela. Questão passional, nada a ver com política.
A tese agora, é a seguinte: o PS serve, Sócrates tem de ir embora. A alegação faz caminho. E, apesar dos surpreendentes apoios de Mário Soares à governação, nos socialistas (ainda há alguns no templo) o mal-estar é grande. Assistem a vitórias que garantem o poder; mas o poder está enfermo.
Com arfante sobressalto teme-se um "Governo de Assembleia", curiosa expressão, entre o antipático e o gracioso, tão ao gosto da confusão portuguesa. Quer-se dizer: receia-se que o Parlamento substitua o Executivo. Há, aqui, algo de brumoso. Vejamos: logo-assim haver perdido a maioria absoluta, José Sócrates preparou a estratégia do remendo. À Esquerda e à Direita procurou aliados providenciais. A dr.ª Manuela disse-lhe logo que não. Outra resposta não seria de esperar. O ódio pessoal sobrepõe-se a qualquer salvação da pátria. Os outros partidos, com o perfume do mando a entrar-lhes nas narinas, pareciam coristas a sorrir de enlevo.
Cedendo ao CDS e concedendo ao Bloco e ao PCP, montando umas cenas de teatro de revista e uns pequenos atritos retóricos, o Governo não deixa de ser refém da Assembleia. Mas a Assembleia é, também, cativa do Governo. Sócrates joga com a ameaça de ir a Belém dizer ao Chefe do Estado ser impossível gerir o País, dada a negação dos partidos em colaborar com a circunstância. Vai a votos e pode obter a maioria absoluta, repetindo a estranha proeza do dr. Cavaco. A História, por vezes, semelha-se a páginas humorísticas.
O PSD é a desgraça que aí está. Ninguém quer a dr.ª Manuela, mas a perspectiva é Passos Coelho ou Aguiar-Branco: uma novela nada recomendável. Que fazer?, a obscura natureza dos problemas leva-nos à interrogação leninista. Surge o dr. Balsemão e, com a graça discreta de um patrício romano, adverte dos perigos de extinção que corre o partido. Apresenta não sei quantas soluções para a crise. Ninguém as vai seguir, cumprir ou respeitar.
As regras da arte estão à vista. A identidade dos partidos é mediatizada pelo simulacro. Tudo é mentira, tudo é meia-verdade. E não parece que a sociedade esteja inclinada a modificar o que quer que seja. A erosão dos padrões, o assustador avanço da iliteracia política e a vitória do descalabro sobre a consciência constituem a representação da vida política portuguesa. Não há batalha que não comporte uma ideia de grandeza. Quem dirige o País nunca a teve.
«DN» de 9 Dez 09
domingo, 6 de dezembro de 2009
Independência?
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Expresso de 28 de Novembro de 2009
Por João Duque
DEZASSETE ANOS acabados de fazer. Uma semana em Londres e a sensação de poder sair quando quisesse (todos os dias) para fazer o que quisesse (visitar museus e andar pela rua encantado com aquela sociedade) e entrar em casa quando me apetecesse (sempre cedo porque não havia dinheiro para copos ou noitadas).
Chegado a Lisboa comecei as guerrilhas em casa com a mãe e o pai. "- Onde vais?" "- O que é que isso interessa?" "- Mau!... Onde vais, com quem vais, e a que horas chegas?" "- Isso não interessa!" "- Ai não? Então vais ver como elas te mordem. Olha lá, como é que vais pagar o passe para andares por aí a vadiar?"...
Silêncio. Percebi onde queriam chegar. A minha revolta acabara ali. Tal como o gato de D.ª Sância, Mago, em "Os Bichos" de Miguel Torga, amoleci, "vendi-me", e anichei no humilhante recato da casa materna.
Afinal, cresci.
Portugal endivida-se todos os dias a uma escalada de verdadeiro desvaire. Se for verdade o que prevêem os economistas que acompanham a economia portuguesa nas várias agências internacionais, o défice público deve crescer à razão de 8% do PIB ao ano nos próximos três anos.
Se a essa dívida somarmos a que vai crescer à custa do endividamento de empresas públicas, municípios e demais entidades parapúblicas, a situação é um verdadeiro descalabro. A coisa este ano vai atirar para um endividamento público que sobe à razão de 1,7 milhões de euros à hora!
O ritmo a que esperamos que cresça a nossa economia é magro e insuficiente, pelo que o crescimento da taxa de juro, que vai seguramente começar em breve, irá rebentar com os cenários mais pessimistas dos orçamentos de estado.
Por outro lado, a baixa taxa de poupança nacional leva-nos a recorrer a sistematicamente a financiamento externo, o qual se mostra cada vez mais necessário, infelizmente para fazer face a financiamento de consumo em lugar de investimento, e com prazos cada vez mais curtos.
Perante este cenário está em causa a independência nacional. Em bem chegando ao limite que bem temo chegarmos em breve, as agências de rating vão tocar as campainhas. Ao mesmo tempo, o Banco Central Europeu vai começar a sua política de enxugamento da liquidez excessiva no sistema, o que vai aumentar significativamente o custo do crédito para quem tiver piores notações de rating. Os investidores internacionais que nos financiam vão exigir taxas de juro cada vez mais elevadas para fazer o mesmo tipo de financiamento que hoje nos concedem e vão exigir, pela lei do mercado, que o investimento público e privado seja realmente produtivo.
Se não vai a bem vai a mal. Ou ganhamos juízo ou o custo do capital público para Portugal passa a ser de tal forma elevado que os grandes investimentos públicos ficam escancaradamente negativos e já nem os generosos pressupostos dos estudos lhes vão valer.
Independência nacional? Só até D.ª Sância nos encher a malga com as inesquecíveis sopinhas de leite. Depois...
Independência - subst. f.; estado qualidade de ser livre, de não depender de ninguém; qualidade do que tem autonomia política ("Kernerman Portuguese Learners Dictionary").
DEZASSETE ANOS acabados de fazer. Uma semana em Londres e a sensação de poder sair quando quisesse (todos os dias) para fazer o que quisesse (visitar museus e andar pela rua encantado com aquela sociedade) e entrar em casa quando me apetecesse (sempre cedo porque não havia dinheiro para copos ou noitadas).
Chegado a Lisboa comecei as guerrilhas em casa com a mãe e o pai. "- Onde vais?" "- O que é que isso interessa?" "- Mau!... Onde vais, com quem vais, e a que horas chegas?" "- Isso não interessa!" "- Ai não? Então vais ver como elas te mordem. Olha lá, como é que vais pagar o passe para andares por aí a vadiar?"...
Silêncio. Percebi onde queriam chegar. A minha revolta acabara ali. Tal como o gato de D.ª Sância, Mago, em "Os Bichos" de Miguel Torga, amoleci, "vendi-me", e anichei no humilhante recato da casa materna.
Afinal, cresci.
Portugal endivida-se todos os dias a uma escalada de verdadeiro desvaire. Se for verdade o que prevêem os economistas que acompanham a economia portuguesa nas várias agências internacionais, o défice público deve crescer à razão de 8% do PIB ao ano nos próximos três anos.
Se a essa dívida somarmos a que vai crescer à custa do endividamento de empresas públicas, municípios e demais entidades parapúblicas, a situação é um verdadeiro descalabro. A coisa este ano vai atirar para um endividamento público que sobe à razão de 1,7 milhões de euros à hora!
O ritmo a que esperamos que cresça a nossa economia é magro e insuficiente, pelo que o crescimento da taxa de juro, que vai seguramente começar em breve, irá rebentar com os cenários mais pessimistas dos orçamentos de estado.
Por outro lado, a baixa taxa de poupança nacional leva-nos a recorrer a sistematicamente a financiamento externo, o qual se mostra cada vez mais necessário, infelizmente para fazer face a financiamento de consumo em lugar de investimento, e com prazos cada vez mais curtos.
Perante este cenário está em causa a independência nacional. Em bem chegando ao limite que bem temo chegarmos em breve, as agências de rating vão tocar as campainhas. Ao mesmo tempo, o Banco Central Europeu vai começar a sua política de enxugamento da liquidez excessiva no sistema, o que vai aumentar significativamente o custo do crédito para quem tiver piores notações de rating. Os investidores internacionais que nos financiam vão exigir taxas de juro cada vez mais elevadas para fazer o mesmo tipo de financiamento que hoje nos concedem e vão exigir, pela lei do mercado, que o investimento público e privado seja realmente produtivo.
Se não vai a bem vai a mal. Ou ganhamos juízo ou o custo do capital público para Portugal passa a ser de tal forma elevado que os grandes investimentos públicos ficam escancaradamente negativos e já nem os generosos pressupostos dos estudos lhes vão valer.
Independência nacional? Só até D.ª Sância nos encher a malga com as inesquecíveis sopinhas de leite. Depois...
Expresso de 28 de Novembro de 2009
sábado, 5 de dezembro de 2009
A Crise Financeira
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Por Maria Filomena Mónica
EM PARTE POR JAMAIS ter tido dinheiro suficiente para investir, sou uma analfabeta financeira. Até 1995, quando a minha mãe adoeceu, a poupança era a última das minhas preocupações. Aquilo a que assisti levou-me a mudar de rumo, tendo começado então a colocar, numa conta a prazo, as migalhas arrancadas à despesa quotidiana. Anteontem, fui ao banco, a fim de averiguar se o meu dinheiro corria risco. A resposta foi negativa. Daí a acreditar vai um passo de gigante.
Perante a confusão, decidi reler Adam Smith e Karl Marx, dois autores geralmente incompreendidos: nem um é o apologista acrítico do mercado que se proclama nem o outro o panfletário delirante que se imagina. Em «A Riqueza das Nações» (1776), Smith ousou proclamar que o comércio não era desvantajoso. Segundo ele, uma sociedade em que os indivíduos fossem livres de tratar dos seus interesses, sem ter, por detrás, um poder centralizado, produziria uma ordem susceptível de elevar o nível de vida da população. O egoísmo era um vício, mas, em muitos casos, a «mão invisível» encarregar-se-ia de transformar o mal privado numa pública virtude. No fundo, o que A. Smith estava a tentar era a dar cabo dos monopólios, uma causa, então ou agora, insusceptível de ser apreciada pelos poderosos. A ideia de que desejava abolir o Estado é falsa: o que pretendia era retirar o poder político da esfera da economia, o que não implicava que o mesmo deixasse de assumir funções noutras áreas.
Igualmente interessante é reler O Manifesto Comunista, de 1847. Todos sabemos que algumas das teses ali expostas, nomeadamente a da pauperização do proletariado, estão erradas, mas é curioso ver a forma como Marx fala da burguesia como uma força revolucionária. Sobre o capitalismo, escrevia: «Tudo o que é sólido se derrete no ar», alertando para o facto de que «a necessidade de um mercado cada vez mais vasto para os seus produtos fazer com que a burguesia penetre em todo o globo». Aquilo a que estamos a assistir não é à morte do capitalismo, mas à da variedade tóxica que, nos últimos vinte anos, se desenvolveu nos EUA.
Outubro de 2008
EM PARTE POR JAMAIS ter tido dinheiro suficiente para investir, sou uma analfabeta financeira. Até 1995, quando a minha mãe adoeceu, a poupança era a última das minhas preocupações. Aquilo a que assisti levou-me a mudar de rumo, tendo começado então a colocar, numa conta a prazo, as migalhas arrancadas à despesa quotidiana. Anteontem, fui ao banco, a fim de averiguar se o meu dinheiro corria risco. A resposta foi negativa. Daí a acreditar vai um passo de gigante.
Perante a confusão, decidi reler Adam Smith e Karl Marx, dois autores geralmente incompreendidos: nem um é o apologista acrítico do mercado que se proclama nem o outro o panfletário delirante que se imagina. Em «A Riqueza das Nações» (1776), Smith ousou proclamar que o comércio não era desvantajoso. Segundo ele, uma sociedade em que os indivíduos fossem livres de tratar dos seus interesses, sem ter, por detrás, um poder centralizado, produziria uma ordem susceptível de elevar o nível de vida da população. O egoísmo era um vício, mas, em muitos casos, a «mão invisível» encarregar-se-ia de transformar o mal privado numa pública virtude. No fundo, o que A. Smith estava a tentar era a dar cabo dos monopólios, uma causa, então ou agora, insusceptível de ser apreciada pelos poderosos. A ideia de que desejava abolir o Estado é falsa: o que pretendia era retirar o poder político da esfera da economia, o que não implicava que o mesmo deixasse de assumir funções noutras áreas.
Igualmente interessante é reler O Manifesto Comunista, de 1847. Todos sabemos que algumas das teses ali expostas, nomeadamente a da pauperização do proletariado, estão erradas, mas é curioso ver a forma como Marx fala da burguesia como uma força revolucionária. Sobre o capitalismo, escrevia: «Tudo o que é sólido se derrete no ar», alertando para o facto de que «a necessidade de um mercado cada vez mais vasto para os seus produtos fazer com que a burguesia penetre em todo o globo». Aquilo a que estamos a assistir não é à morte do capitalismo, mas à da variedade tóxica que, nos últimos vinte anos, se desenvolveu nos EUA.
A propósito de orquídeas...
.
Por Alice Vieira
COM TANTA GRITARIA que vai por aí - ouviu ou não ouviu, foi ou não foi escutado, roubou ou não roubou, foram milhares de euros ou uns trocaditos para o parquímetro, a vacina mata ou a vacina salva — hoje decidi fechar para férias.
Isto é: decidi impermeabilizar ouvidos e olhos a todo o arraial que vai lá por fora, e ficar a olhar para as minhas orquídeas.
Qual Nero Wolf de S. Sebastião da Pedreira.
Claro que hoje já ninguém hoje sabe quem era o Nero Wolf.
Os ingénuos romances policiais, de detectives a escorrer brilhantina com secretárias a escorrer Chanel n.º 5, foram à vida.
Mesmo os que se consideravam “negros” são hoje cor-de-rosa claro, comparados com todas as séries do género que a televisão mostra. E, sem o cigarro na ponta dos dedos, os “private-eyes” e as mulheres-fatais ficaram, definitivamente, desempregados, porque toda a gente sabia que era daquelas baforadas de fumo que havia de sair a resolução do problema (no primeiro caso) e a ida para a cama (no segundo)
Mas Nero Wolf (criado por Rex Stout) nem sequer se encaixa muito nessa categoria, nem é sequer das minhas personagens preferidas, com os seus mastodônticos 130 quilos, bebedor compulsivo de cerveja, de uma inteligência fora do normal e vaidoso dela (“não sou Deus, sou apenas um génio”), sempre metido em casa, e resolvendo os casos depois de o seu assistente lhe ter feito o trabalhinho todo.
A espécie humana interessava-lhe muito pouco, mas amava, apaixonadamente, orquídeas.
Milhares de orquídeas povoavam-lhe o telhado e a vida. De um pé de orquídea nasciam logo mais dez ou vinte.
E é só por causa das orquídeas que eu hoje me lembrei do Nero Wolf.
Por causa da minha orquídea que, se calhar, é descendente de alguma das que ele teria cuidado nas suas estufas.
Porque a minha orquídea não pára de florescer.
Devo dizer que, por ser muito quente no verão e muito fria no inverno, a minha casa não é propícia à criação de flores. Todas as plantas que procuro trazer para dar um ar mais verde ao ambiente, passadas umas semanas já estão a entregar a sua alma vegetal ao criador.
Todas — menos a minha orquídea.
Foi o meu amigo António, o meu habitual “fornecedor” de flores, que ma ofereceu há uns anos. E sem nenhum cuidado especial, a minha orquídea não pára de se reproduzir. Todos os anos tenho orquídeas novas, dou orquídeas a amigos, distribuo orquídeas pela casa toda - e no ano seguinte lá vêm mais.
Esta semana acabei de colocar as últimas em todos os cantos disponíveis.
E faz bem ficar a olhar para elas e ver como, apesar de tudo e contra tudo, todos os anos renascem.
Se calhar o velho e insuportável Nero Wolf é que tinha razão: que se lixe o que vai lá por fora a minha orquídea não desiste.
«JN» de 4 Dez 09
COM TANTA GRITARIA que vai por aí - ouviu ou não ouviu, foi ou não foi escutado, roubou ou não roubou, foram milhares de euros ou uns trocaditos para o parquímetro, a vacina mata ou a vacina salva — hoje decidi fechar para férias.
Isto é: decidi impermeabilizar ouvidos e olhos a todo o arraial que vai lá por fora, e ficar a olhar para as minhas orquídeas.
Qual Nero Wolf de S. Sebastião da Pedreira.
Claro que hoje já ninguém hoje sabe quem era o Nero Wolf.
Os ingénuos romances policiais, de detectives a escorrer brilhantina com secretárias a escorrer Chanel n.º 5, foram à vida.
Mesmo os que se consideravam “negros” são hoje cor-de-rosa claro, comparados com todas as séries do género que a televisão mostra. E, sem o cigarro na ponta dos dedos, os “private-eyes” e as mulheres-fatais ficaram, definitivamente, desempregados, porque toda a gente sabia que era daquelas baforadas de fumo que havia de sair a resolução do problema (no primeiro caso) e a ida para a cama (no segundo)
Mas Nero Wolf (criado por Rex Stout) nem sequer se encaixa muito nessa categoria, nem é sequer das minhas personagens preferidas, com os seus mastodônticos 130 quilos, bebedor compulsivo de cerveja, de uma inteligência fora do normal e vaidoso dela (“não sou Deus, sou apenas um génio”), sempre metido em casa, e resolvendo os casos depois de o seu assistente lhe ter feito o trabalhinho todo.
A espécie humana interessava-lhe muito pouco, mas amava, apaixonadamente, orquídeas.
Milhares de orquídeas povoavam-lhe o telhado e a vida. De um pé de orquídea nasciam logo mais dez ou vinte.
E é só por causa das orquídeas que eu hoje me lembrei do Nero Wolf.
Por causa da minha orquídea que, se calhar, é descendente de alguma das que ele teria cuidado nas suas estufas.
Porque a minha orquídea não pára de florescer.
Devo dizer que, por ser muito quente no verão e muito fria no inverno, a minha casa não é propícia à criação de flores. Todas as plantas que procuro trazer para dar um ar mais verde ao ambiente, passadas umas semanas já estão a entregar a sua alma vegetal ao criador.
Todas — menos a minha orquídea.
Foi o meu amigo António, o meu habitual “fornecedor” de flores, que ma ofereceu há uns anos. E sem nenhum cuidado especial, a minha orquídea não pára de se reproduzir. Todos os anos tenho orquídeas novas, dou orquídeas a amigos, distribuo orquídeas pela casa toda - e no ano seguinte lá vêm mais.
Esta semana acabei de colocar as últimas em todos os cantos disponíveis.
E faz bem ficar a olhar para elas e ver como, apesar de tudo e contra tudo, todos os anos renascem.
Se calhar o velho e insuportável Nero Wolf é que tinha razão: que se lixe o que vai lá por fora a minha orquídea não desiste.
«JN» de 4 Dez 09
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Agarrem-se!
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Por João Duque
ACABARAM DE SAIR as estatísticas do desemprego europeu publicadas pelo Eurostat. Todos os portugueses se fixaram nas estatísticas de Portugal, as quais apresentam a horrível confirmação de um indicador de dois dígitos para Outubro (10,2%) depois de um Setembro também ele já superior à marca mítica dos 10%. Estes números acima da taxa média europeia (9,3% para a Europa dos 27 ou 9,8% para a Europa do Euro) assustam-nos, e preocupam muito quem não vê bem qualquer ponta de entusiasmo ou caminho de inversão, tirando umas intenções governamentais de fazer obra pública capaz de absorver ou, pelo menos, não deixar agravar este indicador.
Mas foi ao ler este relatório que pressenti que alguma coisa vem aí.
Se consideram maus os indicadores do desemprego para Portugal, então leiam o que se diz sobre a taxa de desemprego para a faixa etária abaixo dos 25 anos de idade: 18,9% para Portugal, mas mais medonho ainda, 42,9% para Espanha!
Meu Deus! O que é que nós estamos a fazer? Como vão ser estes jovens em adultos? Como é que eles vão lá chegar e em que estado?
Já imaginaram o que é chegarem a um qualquer encontro de jovens (um concerto musical por exemplo) e saberem que a metade dos que não estão a estudar está desempregada? De que vivem? Como se ocupam? Quem os sustenta? Que vícios vão criar? Que hábitos de trabalho vão ganhar para a vida?
Tenho medo, muito medo, das respostas que posso ter a estas perguntas. E sei que o que de mau se enraizar na juventude espanhola vai contagiar-se à portuguesa, como fogo em palha seca.
Quando estive na tropa, um certo dia o comandante de pelotão mandou-me dar Ordem Unida (ensinar a rapaziada a marchar) em plena tarde de um Agosto ardente, numa parada de alcatrão a fumegar debaixo das chispas de um sol abrasador. A razão dele foi simples: "- Quando 40 homens estão para aí, ociosos, começam a dizer mal da tropa!"
Dei ordem de "- Está a reunir!" seguida de "- Em frente, marche..." e assim se calaram aqueles jovens, quase da minha idade, e que, de facto, diziam mal da tropa como eu... Todos nos calámos e assim ocupámos mais uma hora das nossas vidas sem "dizer mal da tropa".
Nas ruas das cidades espanholas não há comandantes de companhia para os mandar perfilar, e marchar para a frente e para trás. Há perigosos ‘drug dealers', há entusiastas fanáticos que facilmente vendem a ira, a raiva e o entusiasmante incentivo à destruição de quem não tem mais do que a mesada dos pais para viver, mas já tem a vergonha de uma idade de querer e não ter para fazer.
Tenho medo e penso que vem aí coisa. Só vos digo: "- Agarrem-se!"...
«DE» de 3 Dez 09
Quando estamos perto de sermos atingidos por um abalo o grito de alerta comum é: “- Agarrem-se!”, senão “- Fujam!”
ACABARAM DE SAIR as estatísticas do desemprego europeu publicadas pelo Eurostat. Todos os portugueses se fixaram nas estatísticas de Portugal, as quais apresentam a horrível confirmação de um indicador de dois dígitos para Outubro (10,2%) depois de um Setembro também ele já superior à marca mítica dos 10%. Estes números acima da taxa média europeia (9,3% para a Europa dos 27 ou 9,8% para a Europa do Euro) assustam-nos, e preocupam muito quem não vê bem qualquer ponta de entusiasmo ou caminho de inversão, tirando umas intenções governamentais de fazer obra pública capaz de absorver ou, pelo menos, não deixar agravar este indicador.
Mas foi ao ler este relatório que pressenti que alguma coisa vem aí.
Se consideram maus os indicadores do desemprego para Portugal, então leiam o que se diz sobre a taxa de desemprego para a faixa etária abaixo dos 25 anos de idade: 18,9% para Portugal, mas mais medonho ainda, 42,9% para Espanha!
Meu Deus! O que é que nós estamos a fazer? Como vão ser estes jovens em adultos? Como é que eles vão lá chegar e em que estado?
Já imaginaram o que é chegarem a um qualquer encontro de jovens (um concerto musical por exemplo) e saberem que a metade dos que não estão a estudar está desempregada? De que vivem? Como se ocupam? Quem os sustenta? Que vícios vão criar? Que hábitos de trabalho vão ganhar para a vida?
Tenho medo, muito medo, das respostas que posso ter a estas perguntas. E sei que o que de mau se enraizar na juventude espanhola vai contagiar-se à portuguesa, como fogo em palha seca.
Quando estive na tropa, um certo dia o comandante de pelotão mandou-me dar Ordem Unida (ensinar a rapaziada a marchar) em plena tarde de um Agosto ardente, numa parada de alcatrão a fumegar debaixo das chispas de um sol abrasador. A razão dele foi simples: "- Quando 40 homens estão para aí, ociosos, começam a dizer mal da tropa!"
Dei ordem de "- Está a reunir!" seguida de "- Em frente, marche..." e assim se calaram aqueles jovens, quase da minha idade, e que, de facto, diziam mal da tropa como eu... Todos nos calámos e assim ocupámos mais uma hora das nossas vidas sem "dizer mal da tropa".
Nas ruas das cidades espanholas não há comandantes de companhia para os mandar perfilar, e marchar para a frente e para trás. Há perigosos ‘drug dealers', há entusiastas fanáticos que facilmente vendem a ira, a raiva e o entusiasmante incentivo à destruição de quem não tem mais do que a mesada dos pais para viver, mas já tem a vergonha de uma idade de querer e não ter para fazer.
Tenho medo e penso que vem aí coisa. Só vos digo: "- Agarrem-se!"...
«DE» de 3 Dez 09
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
A Lição de Berlusconi
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Por J.L. Saldanha Sanches
A JUSTIÇA ITALIANA, tal como a portuguesa, funciona mal. Giulio Andreotti afinal não era um cúmplice da máfia nem mandou matar jornalistas e acabou por ser absolvido.
Berlusconi tem feito tudo o que pode para que ela funcione ainda pior. Entre nós o pacto PSD/PS também fez o que pôde. Berlusconi, quando alguns magistrados conseguem remover os obstáculos que a lei lhes coloca no caminho, declara que é um mártir e que os magistrados que o perseguem são comunistas.
Nesta pequena Itália vai sucedendo o mesmo: os heróicos paladinos da liberdade insurgem-se contra o Estado policial que surge no horizonte. Os magistrados têm motivações políticas. As escutas telefónicas são a forma moderna da tortura e por isso devem ser ainda mais limitadas.
Num certo sentido são uma tortura: para quem a actividade empresarial tem como componente essencial os subornos e as comissões o perigo, mesmo remoto, de ser escutado constitui um problema sério. Sem telemóvel é tudo desesperadamente lento e a economia paralela tem as suas exigências. Para mais as cifras de que se falou na operação ”face oculta” parecem mostrar que do lado da corrupção a oferta é cada vez maior e as comissões estão mais magras.
Logo, acabar com a possibilidade de escutas nesta zona, mesmo judicialmente mandatadas, constitui uma questão central para este largo sector da economia portuguesa.
Percebe-se por isso os clamores de alguns colunistas empenhados na defesa preventiva dos seus clientes para impedir processos e acusações.
As disfunções do modelo actual do modelo actual do Ministério Público e as mudanças destinadas a tornar o Código do Processo Penal um empecilho ainda maior à investigação tornam a detecção improvável, mas não impossível. A probabilidade de uma qualquer acusação acabar com uma condenação em tempo útil é muito remota, mas ser arguido envolve sempre algum incómodo.
Em Portugal como na Itália, nos crimes de colarinho banco, sem cadáver nem flagrante delito, qualquer advogado competente consegue prolongar o processo e às vezes nem isso é necessário: o processo encalha em qualquer parte.
Na Itália Berlusconi, mesmo depois do seu revês no Tribunal Constitucional, encontrou a fórmula mágica para impedir a acusação dos crimes de colarinho branco: a lei do processo rápido, que diminui os prazos de prescrição e torna virtualmente impossível que estes processos acabem.
Cá, devem estar a pensar no mesmo.
Se a justiça continua as perseguir quem não deve, então um prazo curto de prescrição constitui a fórmula mágica: o nosso processo penal já garante que um caso como o de Madoff (já com condenação definitiva e a cumprir pena) seja impossível.
Justiça rápida em crimes económicos, no nosso ordenamento jurídico, é uma graça de mau gosto. Tal como na Itália.
Prazos de prescrição mais rápidos, na próxima reforma do Código do Processo Penal, podem ser a solução definitiva seguindo a lição de Berlusconi.
Seria inteiramente inconsequente que copiassem o discurso, sem copiarem as soluções.
Adenda: a situação no continente atingiu pontos tais que Jardim mostra o seu nojo e o seu desinteresse. Desde que continue a receber a sua mesada.
«Expresso» de 28 Nov 09 / www.saldanhasanches.pt
A JUSTIÇA ITALIANA, tal como a portuguesa, funciona mal. Giulio Andreotti afinal não era um cúmplice da máfia nem mandou matar jornalistas e acabou por ser absolvido.
Berlusconi tem feito tudo o que pode para que ela funcione ainda pior. Entre nós o pacto PSD/PS também fez o que pôde. Berlusconi, quando alguns magistrados conseguem remover os obstáculos que a lei lhes coloca no caminho, declara que é um mártir e que os magistrados que o perseguem são comunistas.
Nesta pequena Itália vai sucedendo o mesmo: os heróicos paladinos da liberdade insurgem-se contra o Estado policial que surge no horizonte. Os magistrados têm motivações políticas. As escutas telefónicas são a forma moderna da tortura e por isso devem ser ainda mais limitadas.
Num certo sentido são uma tortura: para quem a actividade empresarial tem como componente essencial os subornos e as comissões o perigo, mesmo remoto, de ser escutado constitui um problema sério. Sem telemóvel é tudo desesperadamente lento e a economia paralela tem as suas exigências. Para mais as cifras de que se falou na operação ”face oculta” parecem mostrar que do lado da corrupção a oferta é cada vez maior e as comissões estão mais magras.
Logo, acabar com a possibilidade de escutas nesta zona, mesmo judicialmente mandatadas, constitui uma questão central para este largo sector da economia portuguesa.
Percebe-se por isso os clamores de alguns colunistas empenhados na defesa preventiva dos seus clientes para impedir processos e acusações.
As disfunções do modelo actual do modelo actual do Ministério Público e as mudanças destinadas a tornar o Código do Processo Penal um empecilho ainda maior à investigação tornam a detecção improvável, mas não impossível. A probabilidade de uma qualquer acusação acabar com uma condenação em tempo útil é muito remota, mas ser arguido envolve sempre algum incómodo.
Em Portugal como na Itália, nos crimes de colarinho banco, sem cadáver nem flagrante delito, qualquer advogado competente consegue prolongar o processo e às vezes nem isso é necessário: o processo encalha em qualquer parte.
Na Itália Berlusconi, mesmo depois do seu revês no Tribunal Constitucional, encontrou a fórmula mágica para impedir a acusação dos crimes de colarinho branco: a lei do processo rápido, que diminui os prazos de prescrição e torna virtualmente impossível que estes processos acabem.
Cá, devem estar a pensar no mesmo.
Se a justiça continua as perseguir quem não deve, então um prazo curto de prescrição constitui a fórmula mágica: o nosso processo penal já garante que um caso como o de Madoff (já com condenação definitiva e a cumprir pena) seja impossível.
Justiça rápida em crimes económicos, no nosso ordenamento jurídico, é uma graça de mau gosto. Tal como na Itália.
Prazos de prescrição mais rápidos, na próxima reforma do Código do Processo Penal, podem ser a solução definitiva seguindo a lição de Berlusconi.
Seria inteiramente inconsequente que copiassem o discurso, sem copiarem as soluções.
Adenda: a situação no continente atingiu pontos tais que Jardim mostra o seu nojo e o seu desinteresse. Desde que continue a receber a sua mesada.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
A humanidade dos factos
.
Por Baptista-Bastos
NUM DEPOIMENTO, editado como entrevista e publicado no diário i, António Barreto retrata o nosso tempo português com a perspicácia que se lhe reconhece. Adivinha-se a dor velada e o pudor, quando diz que Portugal está à beira de ser uma irrelevância e pode condenar-se a desaparecer. Não é uma jeremíada, o texto, é uma grave advertência à nossa preguiça mental, moral e cívica. Por outras palavras, Barreto fala na desconstrução do discurso político, devido à ascensão ao poder de uma súcia de medíocres, e recusa participar no embuste, tornado comum, de uma leitura exclusivamente económica do mundo. Como escrevia, no "Retrato da Semana", Público, não acredita na inocência da técnica, porque é lá que reside a banalidade do mal [Hannah Arendt].
Ao sermos informados dos vencimentos obscenos, obtidos por "gestores", entendemos o mal-estar de Barreto, quando critica a ausência de "elites" em Portugal. Ele pertence a outra geração. E acredito ser-lhe difícil conviver com as circunstâncias da perversidade, impostas pela modificação do paradigma. Anteriormente, numa bela conversa com Ana Lourenço, SIC-Notícias, disse, implicitamente, que apreciava viver no silêncio dos factos, porque estes possuíam uma humanidade terrivelmente normal.
O sistema está não só errado como é criminoso. A organização social, baseada no lucro, acabou com o discernimento das consciências e liquidou as leis morais. O processo Face Oculta é uma consequência, não uma causa. E, queiramos ou não, estamos todos envolvidos nesse laboratório de cumplicidades, porque fazemos parte da construção mental que consentiu no empreendimento. As perfídias totalitárias da "modernidade" criaram uma poderosa ideologia de legitimação das mais cruentas injustiças e das mais atrozes desigualdades. Dão-se milhões de milhões a bancos, fazendo-nos crer que se trata de decisões sociais, e recusam-se míseros aumentos de cêntimos a quem pouco mais tem de 200 euros mensais para viver. No fundo, Armando Vara faz parte do sistema, e parece espantado pelo que lhe está a acontecer. Esquece-se, no entanto, de que o imbróglio em que caiu foi perpetrado pela mão invisível na qual tinha absoluta confiança. A corrupção, o tráfico de influências, a troca de favores pertencem à estrutura social.
A amargura de António Barreto faz parte da amargura de alguns de nós. Não de muitos: de alguns. Para excessiva gente, a acomodação tem custos mínimos. E a violência simbólica ou física das sociedades actuais obriga a que sejamos dominados por uma casta também ela dominada pelos insanos mecanismos do mercado. Ouve-se, desde o processo Casa Pia, que "isto não vai dar em nada", fórmula que se tornou célebre como selo da nossa côncava resignação, ante uma justiça sem grandeza nem conteúdo. Temos de acudir a nós próprios.
Por Baptista-Bastos
NUM DEPOIMENTO, editado como entrevista e publicado no diário i, António Barreto retrata o nosso tempo português com a perspicácia que se lhe reconhece. Adivinha-se a dor velada e o pudor, quando diz que Portugal está à beira de ser uma irrelevância e pode condenar-se a desaparecer. Não é uma jeremíada, o texto, é uma grave advertência à nossa preguiça mental, moral e cívica. Por outras palavras, Barreto fala na desconstrução do discurso político, devido à ascensão ao poder de uma súcia de medíocres, e recusa participar no embuste, tornado comum, de uma leitura exclusivamente económica do mundo. Como escrevia, no "Retrato da Semana", Público, não acredita na inocência da técnica, porque é lá que reside a banalidade do mal [Hannah Arendt].
Ao sermos informados dos vencimentos obscenos, obtidos por "gestores", entendemos o mal-estar de Barreto, quando critica a ausência de "elites" em Portugal. Ele pertence a outra geração. E acredito ser-lhe difícil conviver com as circunstâncias da perversidade, impostas pela modificação do paradigma. Anteriormente, numa bela conversa com Ana Lourenço, SIC-Notícias, disse, implicitamente, que apreciava viver no silêncio dos factos, porque estes possuíam uma humanidade terrivelmente normal.
O sistema está não só errado como é criminoso. A organização social, baseada no lucro, acabou com o discernimento das consciências e liquidou as leis morais. O processo Face Oculta é uma consequência, não uma causa. E, queiramos ou não, estamos todos envolvidos nesse laboratório de cumplicidades, porque fazemos parte da construção mental que consentiu no empreendimento. As perfídias totalitárias da "modernidade" criaram uma poderosa ideologia de legitimação das mais cruentas injustiças e das mais atrozes desigualdades. Dão-se milhões de milhões a bancos, fazendo-nos crer que se trata de decisões sociais, e recusam-se míseros aumentos de cêntimos a quem pouco mais tem de 200 euros mensais para viver. No fundo, Armando Vara faz parte do sistema, e parece espantado pelo que lhe está a acontecer. Esquece-se, no entanto, de que o imbróglio em que caiu foi perpetrado pela mão invisível na qual tinha absoluta confiança. A corrupção, o tráfico de influências, a troca de favores pertencem à estrutura social.
A amargura de António Barreto faz parte da amargura de alguns de nós. Não de muitos: de alguns. Para excessiva gente, a acomodação tem custos mínimos. E a violência simbólica ou física das sociedades actuais obriga a que sejamos dominados por uma casta também ela dominada pelos insanos mecanismos do mercado. Ouve-se, desde o processo Casa Pia, que "isto não vai dar em nada", fórmula que se tornou célebre como selo da nossa côncava resignação, ante uma justiça sem grandeza nem conteúdo. Temos de acudir a nós próprios.
«DN» de 2 Dez 09
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Chocolate negro
.
Por Nuno Crato
O CHOCOLATE FAZ BEM — é o que se tem concluído de há algum tempo a esta parte a partir de várias investigações feitas por nutricionistas e fisiólogos. Ou seja, como gostam algumas pessoas de dizer, “a ciência diz que o chocolate faz bem”. Os gulosos ficam contentes.
Chegou-nos há dias mais uma notícia desse género. Investigadores suíços e alemães publicaram no “Journal of Proteome Research”, da sociedade norte-americana de química, um artigo sobre os efeitos metabólicos do chocolate, realçando os seus resultados benéficos para o organismo (DOI: 10.1021/pr900607v).
Na realidade, dizer que “o chocolate faz bem” é muito pouco. Os investigadores têm sido e são muito mais específicos, caracterizam o tipo de chocolate e explicam quais são os seus efeitos em alguns aspectos do nosso metabolismo e para determinadas quantidades do produto. Há, como se sabe, vários tipos de chocolate. Há o dito chocolate escuro, ou negro, que é aquele que tem sido estudado, pois os outros, como o dito “branco” e o dito “de leite”, contêm percentagens elevadas de gordura animal. O negro não pode conter leite e, de acordo com as directivas comunitárias, terá de ter pelo menos 35% de sólidos de cacau; o remanescente costuma ser manteiga de cacau e açúcar.
Os autores do recente estudo deram 40 gramas diários de chocolate negro com 74% de sólidos de cacau durante 14 dias a um grupo de 30 pessoas. As pessoas, de idades entre os 18 e os 34 anos, tinham antes sido sujeitas a um questionário feito por psicólogos e revelavam traços de ansiedade, de moderada a elevada. A sua escolha foi feita de forma aleatória, de entre um grupo numeroso de pessoas saudáveis na mesma faixa etária. O que se analisou foram fluidos biológicos dos sujeitos (urina e plasma sanguíneo) em três ocasiões: antes do início do teste, passada uma semana e no fim das duas semanas. Na semana antes do teste, os voluntários abstiveram-se de ingerir chocolate.
Os fluidos biológicos dos sujeitos do estudo foram analisados com técnicas de Ressonância Magnética Nuclear (NMR) e de Espectroscopia de Massa (MS), que permitiram detectar modificações significativas nas componentes dos fluidos. Os investigadores concluíram que o chocolate tem alguma influência positiva no metabolismo humano, actuando por via da actividade da flora bacteriana intestinal e reduzindo as ditas hormonas de stress e outros elementos associados à ansiedade.
A análise estatística dos resultados é igualmente sofisticada e completa. Além de técnicas de análise estatística multivariada, foram feitos vários testes de significância que concluem pela existência de modificações no metabolismo dos sujeitos de estudo.
Depois de tudo isto, os investigadores escrevem as suas conclusões introduzindo muitas reticências. Dizem que o estudo “apoia a ideia de…” e falam de “efeito potencial”. Ficámos a saber um pouco mais sobre algumas consequências positivas do consumo de certo tipo de chocolate para o metabolismo das pessoas ansiosas, mas nada mais do que isso. É pouco, mas é o resultado de muito trabalho, com métodos muito rigorosos. Lendo estes estudos fica-se ainda mais céptico sobre as conclusões precipitadas que por vezes se tiram sobre fenómenos ainda mais complexos, tais como os métodos de ensino ditos revolucionários ou a influência da tecnologia na vida das sociedades. A verdadeira ciência é sempre uma lição de modéstia.
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 28 Nov 09
Por Nuno CratoO CHOCOLATE FAZ BEM — é o que se tem concluído de há algum tempo a esta parte a partir de várias investigações feitas por nutricionistas e fisiólogos. Ou seja, como gostam algumas pessoas de dizer, “a ciência diz que o chocolate faz bem”. Os gulosos ficam contentes.
Chegou-nos há dias mais uma notícia desse género. Investigadores suíços e alemães publicaram no “Journal of Proteome Research”, da sociedade norte-americana de química, um artigo sobre os efeitos metabólicos do chocolate, realçando os seus resultados benéficos para o organismo (DOI: 10.1021/pr900607v).
Na realidade, dizer que “o chocolate faz bem” é muito pouco. Os investigadores têm sido e são muito mais específicos, caracterizam o tipo de chocolate e explicam quais são os seus efeitos em alguns aspectos do nosso metabolismo e para determinadas quantidades do produto. Há, como se sabe, vários tipos de chocolate. Há o dito chocolate escuro, ou negro, que é aquele que tem sido estudado, pois os outros, como o dito “branco” e o dito “de leite”, contêm percentagens elevadas de gordura animal. O negro não pode conter leite e, de acordo com as directivas comunitárias, terá de ter pelo menos 35% de sólidos de cacau; o remanescente costuma ser manteiga de cacau e açúcar.
Os autores do recente estudo deram 40 gramas diários de chocolate negro com 74% de sólidos de cacau durante 14 dias a um grupo de 30 pessoas. As pessoas, de idades entre os 18 e os 34 anos, tinham antes sido sujeitas a um questionário feito por psicólogos e revelavam traços de ansiedade, de moderada a elevada. A sua escolha foi feita de forma aleatória, de entre um grupo numeroso de pessoas saudáveis na mesma faixa etária. O que se analisou foram fluidos biológicos dos sujeitos (urina e plasma sanguíneo) em três ocasiões: antes do início do teste, passada uma semana e no fim das duas semanas. Na semana antes do teste, os voluntários abstiveram-se de ingerir chocolate.
Os fluidos biológicos dos sujeitos do estudo foram analisados com técnicas de Ressonância Magnética Nuclear (NMR) e de Espectroscopia de Massa (MS), que permitiram detectar modificações significativas nas componentes dos fluidos. Os investigadores concluíram que o chocolate tem alguma influência positiva no metabolismo humano, actuando por via da actividade da flora bacteriana intestinal e reduzindo as ditas hormonas de stress e outros elementos associados à ansiedade.
A análise estatística dos resultados é igualmente sofisticada e completa. Além de técnicas de análise estatística multivariada, foram feitos vários testes de significância que concluem pela existência de modificações no metabolismo dos sujeitos de estudo.
Depois de tudo isto, os investigadores escrevem as suas conclusões introduzindo muitas reticências. Dizem que o estudo “apoia a ideia de…” e falam de “efeito potencial”. Ficámos a saber um pouco mais sobre algumas consequências positivas do consumo de certo tipo de chocolate para o metabolismo das pessoas ansiosas, mas nada mais do que isso. É pouco, mas é o resultado de muito trabalho, com métodos muito rigorosos. Lendo estes estudos fica-se ainda mais céptico sobre as conclusões precipitadas que por vezes se tiram sobre fenómenos ainda mais complexos, tais como os métodos de ensino ditos revolucionários ou a influência da tecnologia na vida das sociedades. A verdadeira ciência é sempre uma lição de modéstia.
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 28 Nov 09
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Pilaretes nas zonas das passadeiras - sim ou não?
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O QUE MOTIVOU este post foi o facto de os pilaretes recentemente colocados na esquina da Av. de Roma com a Rua Frei Amador Arrais não abrangerem a zona da passadeira de peões (como se pode ver nas 3 primeiras fotos), permitido que sucedesse o que toda a gente previa.
As 21 imagens que se vêem a seguir a essas são apenas algumas tiradas na mesma zona das "avenidas novas" (entre a Praça de Londres e a Av. dos EUA), mas onde o critério foi o oposto.
As 21 imagens que se vêem a seguir a essas são apenas algumas tiradas na mesma zona das "avenidas novas" (entre a Praça de Londres e a Av. dos EUA), mas onde o critério foi o oposto.
Av. Roma / R. Frei Amador Arrais
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domingo, 29 de novembro de 2009
Passatempo de 29 Nov 09
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Pilaretes em Lisboa - Uma solução salomónica
(28 e 29 Nov 09)
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Pilaretes em Lisboa - Uma solução salomónica(28 e 29 Nov 09)
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Quem, nos últimos dias, colocou estes 5 pilaretes teve o "cuidado" de deixar 'sabiamente desimpedida' a zona correspondente à passadeira de peões - com o resultado que está à vista.
No entanto, deve ter achado que fez um belo serviço, ficando de consciência tranquila - foi essa a razão do título do 1.º livro-prémio, As Boas Consciências, uma expressão que também se aplica aos condutores...
No entanto, deve ter achado que fez um belo serviço, ficando de consciência tranquila - foi essa a razão do título do 1.º livro-prémio, As Boas Consciências, uma expressão que também se aplica aos condutores...
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NOTA: Repare-se que a foto de baixo deu origem à 2ª foto apresentada no passatempo (cortou-se o carro...)..
Actualização: quem pense que isso sucedeu porque não se devem colocar pilaretes nas zonas das passadeiras, veja [aqui].sábado, 28 de novembro de 2009
Pode o Estado pôr vidas em perigo para salvar o país?
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Por Manuel João Ramos
Foi decente da parte do Sr. Ministro da Administração Interna visitar as vítimas do seu gabinete no hospital.
Mas não podemos esquecer que este "acidente" poderia ter sido evitado se, entrementes, o mesmo ministro já tivesse ordenado a instalação de tacógrafos nas viaturas oficiais, e definido em que condições podem as viaturas oficiais percorrer ruas e estradas do país em excesso de velocidade.
E talvez as consequências não tivessem sido tão gravosas se as mesmas vítimas tivessem tomado a precaução mínima de usar o cinto de segurança.
Parece muito estúpido circular em excesso de velocidade numa via principal da cidade de Lisboa. E parece muito irresponsável pôr vidas em perigo numa sexta-feira à tarde. A menos que o interesse nacional esteja em causa. E essa é a pergunta a que urge responder: estava? Aquelas duas viaturas oficiais que colidiram iam salvar o país?
Mesmo nos casos em que há vidas para salvar ou cidadãos para proteger - uma ambulância com doentes ou feridos graves, uma viatura em perseguição policial - os condutores estão obrigados a salvaguardar a vida e segurança dos transeuntes.
Nos casos em que governantes e dirigentes estatais exigem aos seus motoristas ser conduzidos em excesso de velocidade - apenas para chegar a horas a uma qualquer cerimónia de tomada de posse de governadores civis, por deficiente gestão do seu tempo - não há qualquer justificação plausível para um tal comportamento rodoviário. Sobretudo quando o ministro da tutela e o primeiro-ministro estão alertados - e requeridos - há três anos para a necessidade urgente de combater tal comportamento, não apenas entre os membros dos seus gabinetes mas na administração pública em geral.
Leia os nossos comunicados e requerimentos de 2006, emitidos a propósito do caso que envolveu o ex-ministro da economia e inovação, Dr. Manuel Pinho:
Excesso de Velocidade na Economia
Pelo Fim da Impunidade das Viaturas Oficiais
Por Manuel João RamosHOJE, duas viaturas oficiais, em óbvia velocidade excessiva - mesmo para viaturas oficiais que atravessam cidades em excesso de velocidade - envolveram-se numa grave e aparatosa colisão com outras viaturas em plena Avenida da Liberdade, no coração de Lisboa.
Estes são, tanto quanto podemos apurar, os factos.
Há anos que, motivada por semelhantes ocorrências, a ACA-M pede ao governo a instalação de tacógrafos nas viaturas oficiais do Estado. E há anos que pedimos ao Ministério da Administração Interna que nos esclareça o âmbito e os limites do conceito de "marcha urgente de interesse público".
Estes são, tanto quanto podemos apurar, os factos.
Há anos que, motivada por semelhantes ocorrências, a ACA-M pede ao governo a instalação de tacógrafos nas viaturas oficiais do Estado. E há anos que pedimos ao Ministério da Administração Interna que nos esclareça o âmbito e os limites do conceito de "marcha urgente de interesse público".
Foi decente da parte do Sr. Ministro da Administração Interna visitar as vítimas do seu gabinete no hospital.
Mas não podemos esquecer que este "acidente" poderia ter sido evitado se, entrementes, o mesmo ministro já tivesse ordenado a instalação de tacógrafos nas viaturas oficiais, e definido em que condições podem as viaturas oficiais percorrer ruas e estradas do país em excesso de velocidade.
E talvez as consequências não tivessem sido tão gravosas se as mesmas vítimas tivessem tomado a precaução mínima de usar o cinto de segurança.
Parece muito estúpido circular em excesso de velocidade numa via principal da cidade de Lisboa. E parece muito irresponsável pôr vidas em perigo numa sexta-feira à tarde. A menos que o interesse nacional esteja em causa. E essa é a pergunta a que urge responder: estava? Aquelas duas viaturas oficiais que colidiram iam salvar o país?
Mesmo nos casos em que há vidas para salvar ou cidadãos para proteger - uma ambulância com doentes ou feridos graves, uma viatura em perseguição policial - os condutores estão obrigados a salvaguardar a vida e segurança dos transeuntes.
Nos casos em que governantes e dirigentes estatais exigem aos seus motoristas ser conduzidos em excesso de velocidade - apenas para chegar a horas a uma qualquer cerimónia de tomada de posse de governadores civis, por deficiente gestão do seu tempo - não há qualquer justificação plausível para um tal comportamento rodoviário. Sobretudo quando o ministro da tutela e o primeiro-ministro estão alertados - e requeridos - há três anos para a necessidade urgente de combater tal comportamento, não apenas entre os membros dos seus gabinetes mas na administração pública em geral.
Leia os nossos comunicados e requerimentos de 2006, emitidos a propósito do caso que envolveu o ex-ministro da economia e inovação, Dr. Manuel Pinho:
Excesso de Velocidade na Economia
Pelo Fim da Impunidade das Viaturas Oficiais
Pode o Estado
Por Manuel João RamosHOJE, duas viaturas oficiais, em óbvia velocidade excessiva - mesmo para viaturas oficiais que atravessam cidades em excesso de velocidade - envolveram-se numa grave e aparatosa colisão com outras viaturas em plena Avenida da Liberdade, no coração de Lisboa.
Estes são, tanto quanto podemos apurar, os factos.
Há anos que, motivada por semelhantes ocorrências, a ACA-M pede ao governo a instalação de tacógrafos nas viaturas oficiais do Estado. E há anos que pedimos ao Ministério da Administração Interna que nos esclareça o âmbito e os limites do conceito de "marcha urgente de interesse público".
Estes são, tanto quanto podemos apurar, os factos.
Há anos que, motivada por semelhantes ocorrências, a ACA-M pede ao governo a instalação de tacógrafos nas viaturas oficiais do Estado. E há anos que pedimos ao Ministério da Administração Interna que nos esclareça o âmbito e os limites do conceito de "marcha urgente de interesse público".
Foi decente da parte do Sr. Ministro da Administração Interna visitar as vítimas do seu gabinete no hospital.
Mas não podemos esquecer que este "acidente" poderia ter sido evitado se, entrementes, o mesmo ministro já tivesse ordenado a instalação de tacógrafos nas viaturas oficiais, e definido em que condições podem as viaturas oficiais percorrer ruas e estradas do país em excesso de velocidade.
E talvez as consequências não tivessem sido tão gravosas se as mesmas vítimas tivessem tomado a precaução mínima de usar o cinto de segurança.
Parece muito estúpido circular em excesso de velocidade numa via principal da cidade de Lisboa. E parece muito irresponsável pôr vidas em perigo numa sexta-feira à tarde. A menos que o interesse nacional esteja em causa. E essa é a pergunta a que urge responder: estava? Aquelas duas viaturas oficiais que colidiram iam salvar o país?
Mesmo nos casos em que há vidas para salvar ou cidadãos para proteger - uma ambulância com doentes ou feridos graves, uma viatura em perseguição policial - os condutores estão obrigados a salvaguardar a vida e segurança dos transeuntes.
Nos casos em que governantes e dirigentes estatais exigem aos seus motoristas ser conduzidos em excesso de velocidade - apenas para chegar a horas a uma qualquer cerimónia de tomada de posse de governadores civis, por deficiente gestão do seu tempo - não há qualquer justificação plausível para um tal comportamento rodoviário. Sobretudo quando o ministro da tutela e o primeiro-ministro estão alertados - e requeridos - há três anos para a necessidade urgente de combater tal comportamento, não apenas entre os membros dos seus gabinetes mas na administração pública em geral.
Leia os nossos comunicados e requerimentos de 2006, emitidos a propósito do caso que envolveu o ex-ministro da economia e inovação, Dr. Manuel Pinho:
Excesso de Velocidade na Economia
Pelo Fim da Impunidade das Viaturas Oficiais
Pode o Estado
Por Manuel João RamosHOJE, duas viaturas oficiais, em óbvia velocidade excessiva - mesmo para viaturas oficiais que atravessam cidades em excesso de velocidade - envolveram-se numa grave e aparatosa colisão com outras viaturas em plena Avenida da Liberdade, no coração de Lisboa.
Estes são, tanto quanto podemos apurar, os factos.
Há anos que, motivada por semelhantes ocorrências, a ACA-M pede ao governo a instalação de tacógrafos nas viaturas oficiais do Estado. E há anos que pedimos ao Ministério da Administração Interna que nos esclareça o âmbito e os limites do conceito de "marcha urgente de interesse público".
Estes são, tanto quanto podemos apurar, os factos.
Há anos que, motivada por semelhantes ocorrências, a ACA-M pede ao governo a instalação de tacógrafos nas viaturas oficiais do Estado. E há anos que pedimos ao Ministério da Administração Interna que nos esclareça o âmbito e os limites do conceito de "marcha urgente de interesse público".
Foi decente da parte do Sr. Ministro da Administração Interna visitar as vítimas do seu gabinete no hospital.
Mas não podemos esquecer que este "acidente" poderia ter sido evitado se, entrementes, o mesmo ministro já tivesse ordenado a instalação de tacógrafos nas viaturas oficiais, e definido em que condições podem as viaturas oficiais percorrer ruas e estradas do país em excesso de velocidade.
E talvez as consequências não tivessem sido tão gravosas se as mesmas vítimas tivessem tomado a precaução mínima de usar o cinto de segurança.
Parece muito estúpido circular em excesso de velocidade numa via principal da cidade de Lisboa. E parece muito irresponsável pôr vidas em perigo numa sexta-feira à tarde. A menos que o interesse nacional esteja em causa. E essa é a pergunta a que urge responder: estava? Aquelas duas viaturas oficiais que colidiram iam salvar o país?
Mesmo nos casos em que há vidas para salvar ou cidadãos para proteger - uma ambulância com doentes ou feridos graves, uma viatura em perseguição policial - os condutores estão obrigados a salvaguardar a vida e segurança dos transeuntes.
Nos casos em que governantes e dirigentes estatais exigem aos seus motoristas ser conduzidos em excesso de velocidade - apenas para chegar a horas a uma qualquer cerimónia de tomada de posse de governadores civis, por deficiente gestão do seu tempo - não há qualquer justificação plausível para um tal comportamento rodoviário. Sobretudo quando o ministro da tutela e o primeiro-ministro estão alertados - e requeridos - há três anos para a necessidade urgente de combater tal comportamento, não apenas entre os membros dos seus gabinetes mas na administração pública em geral.
Leia os nossos comunicados e requerimentos de 2006, emitidos a propósito do caso que envolveu o ex-ministro da economia e inovação, Dr. Manuel Pinho:
Excesso de Velocidade na Economia
Pelo Fim da Impunidade das Viaturas Oficiais
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
O 25 de Novembro - versão do Otelo
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Por Antunes Ferreira
NA QUARTA-FEIRA foi mais um aniversário do 25 de Novembro. Que vivi «por dentro» como jornalista do Jornal Novo. Fui a muito sítio, desde a calçada da Ajuda até ao meu antigo quartel de aspirante a oficial miliciano, o Regimento de Infantaria 1, na Amadora, que então, passados uns bons anos, já se tornara na Regimento de Comandos.
Até estive nele, pois o Sargento Correia, que já era do meu tempo, Janeiro de 1964, estava à porta de armas e quando me viu abriu-a e disse-me para entrar pois eu continuava a ser da casa. O bom homem – era-o, garanto-vos – pensava que eu me ia juntar às forças do Jaime Neves, como o haviam feito, desde a manhã, outros cidadãos.
Um dia, se tiver oportunidade, hei-de contar aqui esta estória com alguma suma de pormenores. E, naturalmente, se o Carlos Medina Ribeiro tiver pachorra para me aturar até então. Mas, o que me trouxe hoje aqui, foi um jantar que decorreu no restaurante Sabores de Goa, precisamente na quarta-feira, onde o palestrante foi o Coronel Otelo Saraiva de Carvalho.
Que é um bom Amigo de há muitos anos, ainda que com opinião política diferente da minha. O que não tem nada que ver com a Amizade. Explico. No restaurante, reúne-se às quintas-feiras uma tertúlia de goeses e adjacentes. Coisa realmente agradável, uns caris a preceito, balchões, vindalhos e outros chatenis. Claro que eu participo.
Uma quarta-feira feira por mês, temos um jantar convívio com palestra e comentários e perguntas e respostas concomitantes. É muito agradável e já por lá estiveram alguns nomes mais sonantes e conversadores. Desta feita, foi o Otelo. Que explicou o que fora a sua participação no 25 de Novembro. Já lá estivera outra vez, a falar sobre os antecedentes que tinham levado ao 25 de Abril.
É um excelente contador de coisas e tem um arquivo cerebral que me deixa sempre de cara à banda. Sabe tudo (ou quase tudo, mas falta-lhe pouco para chegar ao absoluto) sobre esses momentos históricos que se viveram na sequência da Revolução dos Cravos e, no jantar, disse coisas que eu nunca ouvira sobre os cinco anos de prisão que sofrera. Conhece-se a linguagem do operacional: simples, humorada, usando termos que os militares utilizam. E é honesto e frontal. Não foge às perguntas mais diversas.
O relato do que foi a sua actuação no 25 de Novembro foi simplesmente entusiasmante. Naturalmente, a sua versão é… a sua. Mas, penso que noventa e tantos por cento correspondeu à realidade. Por força do que eu próprio fiz enquanto jornalista, não tenho a mínima dúvida em acentuar isto. Tive o privilégio de testemunhar muitos dos acontecimentos, como já disse.
As perguntas e as respostas, inúmeras, deram um retrato fiel do que foi o serão. E o homem que foi o Comandante do COPCON, goste-se ou não se goste do percurso que trilhou, expôs claramente a versão dele. Teria de vir à baila o tema das FP 25 de Abril. Veio. Otelo tentou elucidar o que se passara e qual fora o seu envolvimento no caso. Até chegar ao julgamento de Monsanto e, mesmo, deste.
Gostei, uma vez mais. Divergindo, embora, mas gostei. No final da sessão, quando demos um abraço de despedida, comentou: «E, meu malandro, tu estavas do outro lado, no Jornal Novo…» Estava – e estou, querido Amigo.
NA QUARTA-FEIRA foi mais um aniversário do 25 de Novembro. Que vivi «por dentro» como jornalista do Jornal Novo. Fui a muito sítio, desde a calçada da Ajuda até ao meu antigo quartel de aspirante a oficial miliciano, o Regimento de Infantaria 1, na Amadora, que então, passados uns bons anos, já se tornara na Regimento de Comandos.
Até estive nele, pois o Sargento Correia, que já era do meu tempo, Janeiro de 1964, estava à porta de armas e quando me viu abriu-a e disse-me para entrar pois eu continuava a ser da casa. O bom homem – era-o, garanto-vos – pensava que eu me ia juntar às forças do Jaime Neves, como o haviam feito, desde a manhã, outros cidadãos.
Um dia, se tiver oportunidade, hei-de contar aqui esta estória com alguma suma de pormenores. E, naturalmente, se o Carlos Medina Ribeiro tiver pachorra para me aturar até então. Mas, o que me trouxe hoje aqui, foi um jantar que decorreu no restaurante Sabores de Goa, precisamente na quarta-feira, onde o palestrante foi o Coronel Otelo Saraiva de Carvalho.
Que é um bom Amigo de há muitos anos, ainda que com opinião política diferente da minha. O que não tem nada que ver com a Amizade. Explico. No restaurante, reúne-se às quintas-feiras uma tertúlia de goeses e adjacentes. Coisa realmente agradável, uns caris a preceito, balchões, vindalhos e outros chatenis. Claro que eu participo.
Uma quarta-feira feira por mês, temos um jantar convívio com palestra e comentários e perguntas e respostas concomitantes. É muito agradável e já por lá estiveram alguns nomes mais sonantes e conversadores. Desta feita, foi o Otelo. Que explicou o que fora a sua participação no 25 de Novembro. Já lá estivera outra vez, a falar sobre os antecedentes que tinham levado ao 25 de Abril.
É um excelente contador de coisas e tem um arquivo cerebral que me deixa sempre de cara à banda. Sabe tudo (ou quase tudo, mas falta-lhe pouco para chegar ao absoluto) sobre esses momentos históricos que se viveram na sequência da Revolução dos Cravos e, no jantar, disse coisas que eu nunca ouvira sobre os cinco anos de prisão que sofrera. Conhece-se a linguagem do operacional: simples, humorada, usando termos que os militares utilizam. E é honesto e frontal. Não foge às perguntas mais diversas.
O relato do que foi a sua actuação no 25 de Novembro foi simplesmente entusiasmante. Naturalmente, a sua versão é… a sua. Mas, penso que noventa e tantos por cento correspondeu à realidade. Por força do que eu próprio fiz enquanto jornalista, não tenho a mínima dúvida em acentuar isto. Tive o privilégio de testemunhar muitos dos acontecimentos, como já disse.
As perguntas e as respostas, inúmeras, deram um retrato fiel do que foi o serão. E o homem que foi o Comandante do COPCON, goste-se ou não se goste do percurso que trilhou, expôs claramente a versão dele. Teria de vir à baila o tema das FP 25 de Abril. Veio. Otelo tentou elucidar o que se passara e qual fora o seu envolvimento no caso. Até chegar ao julgamento de Monsanto e, mesmo, deste.
Gostei, uma vez mais. Divergindo, embora, mas gostei. No final da sessão, quando demos um abraço de despedida, comentou: «E, meu malandro, tu estavas do outro lado, no Jornal Novo…» Estava – e estou, querido Amigo.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Dito & Feito
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Por José António Lima
O QUINHÃO DE AUTORIDADE perdida e de credibilidade desgastada que José Sócrates parecia ter recuperado com a vitória minoritária nas legislativas de 27 de Setembro esfumou-se em pouco mais de um mês com os danos colaterais com que foi atingido pelo processo ‘Face Oculta’. Não é só a confirmação de que seguia, interessada e pessoalmente, os negócios da TVI e outros órgãos de comunicação antes de o ter negado no Parlamento. Nem é apenas a dúvida que permanecerá sobre o facto de os magistrados de Aveiro terem encontrado razões para extraírem certidões sobre as suas conversas telefónicas. O problema de Sócrates é, sobretudo, a rede de corrupção e tráfico de influências desvendada pela ‘Face Oculta’ envolver um círculo de personagens e fidelidades, de Armando Vara a Paiva Nunes, que lhe é muito próximo. É mais uma mancha, a juntar a outras de processos com ele relacionados e sempre mal explicados, na abalada imagem do primeiro-ministro.
E a verdade é que não há memória de um chefe de Governo com tantos incidentes e casos pendentes a cada pedra que se levanta do seu percurso. Nunca se viu nada semelhante, por exemplo, com Guterres ou Cavaco, que estiveram longos anos em S. Bento e sujeitos ao mesmo tipo de escrutínio.
Com tudo isto, a figura de Sócrates corre o risco de se tornar incómoda não só para o Governo do país como para o próprio PS. Contrariando a estratégia política do primeiro-ministro, o socialista Carlos César veio esta semana defender que o Governo deve «encontrar um parceiro responsável na Assembleia da República para aprovar o Orçamento e outros diplomas fundamentais», sob pena de o país não ter um plano, mas «uma manta de retalhos sem nexo e um leilão dos seus escassos recursos». E César demarca-se, ainda, das «teorias da conspiração» que abundam no PS sobre a investigação ‘Face Oculta’. Já António Costa, há uma semana na Quadratura do Círculo, mais do que defender Sócrates dos ataques de que estava a ser alvo, preferiu enfatizar a sua confiança no poder judicial: «Estou calmo e tranquilo. Sei que a magistratura actuará com isenções e competência». António Costa e Carlos César, dois potenciais candidatos à sucessão na liderança do PS, começam a distanciar-se de Sócrates. Porque será?
«SOL» de 20 Nov 09
Por José António Lima
O QUINHÃO DE AUTORIDADE perdida e de credibilidade desgastada que José Sócrates parecia ter recuperado com a vitória minoritária nas legislativas de 27 de Setembro esfumou-se em pouco mais de um mês com os danos colaterais com que foi atingido pelo processo ‘Face Oculta’. Não é só a confirmação de que seguia, interessada e pessoalmente, os negócios da TVI e outros órgãos de comunicação antes de o ter negado no Parlamento. Nem é apenas a dúvida que permanecerá sobre o facto de os magistrados de Aveiro terem encontrado razões para extraírem certidões sobre as suas conversas telefónicas. O problema de Sócrates é, sobretudo, a rede de corrupção e tráfico de influências desvendada pela ‘Face Oculta’ envolver um círculo de personagens e fidelidades, de Armando Vara a Paiva Nunes, que lhe é muito próximo. É mais uma mancha, a juntar a outras de processos com ele relacionados e sempre mal explicados, na abalada imagem do primeiro-ministro.
E a verdade é que não há memória de um chefe de Governo com tantos incidentes e casos pendentes a cada pedra que se levanta do seu percurso. Nunca se viu nada semelhante, por exemplo, com Guterres ou Cavaco, que estiveram longos anos em S. Bento e sujeitos ao mesmo tipo de escrutínio.
Com tudo isto, a figura de Sócrates corre o risco de se tornar incómoda não só para o Governo do país como para o próprio PS. Contrariando a estratégia política do primeiro-ministro, o socialista Carlos César veio esta semana defender que o Governo deve «encontrar um parceiro responsável na Assembleia da República para aprovar o Orçamento e outros diplomas fundamentais», sob pena de o país não ter um plano, mas «uma manta de retalhos sem nexo e um leilão dos seus escassos recursos». E César demarca-se, ainda, das «teorias da conspiração» que abundam no PS sobre a investigação ‘Face Oculta’. Já António Costa, há uma semana na Quadratura do Círculo, mais do que defender Sócrates dos ataques de que estava a ser alvo, preferiu enfatizar a sua confiança no poder judicial: «Estou calmo e tranquilo. Sei que a magistratura actuará com isenções e competência». António Costa e Carlos César, dois potenciais candidatos à sucessão na liderança do PS, começam a distanciar-se de Sócrates. Porque será?
«SOL» de 20 Nov 09
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