quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Pouca-terra

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Por João Paulo Guerra

Agora foi a linha férrea Miranda do Corvo – Coimbra: fechou ao fim de 103 anos de circulação.

DIR-SE-Á QUE É O PROGRESSO e que o futuro avança assim, inexoravelmente, espezinhando razões históricas, civilizacionais, ambientais, da economia e do interesse locais. A questão é que o futuro, em Portugal, tem avançado às arrecuas. Desde os governos de Cavaco Silva, o encerramento de linhas e troços ferroviários passou a ser uma espécie de desígnio nacional. E, como está bem à vista, não foi por isso que Portugal avançou... a não ser rumo à desertificação. A desertificação do Interior-Norte é directamente proporcional ao desinvestimento em vias-férreas e comboios.

Aliás, o encerramento de linhas de caminho de ferro é apenas um capítulo da mesma política que arrasou outros sectores da economia, da história, da soberania e da vida colectiva portuguesas. Em nome do progresso, deliberadamente, sucessivos governos portugueses desmantelaram sectores imensos de actividade como fossem a marinha mercante, as pescas, a agricultura. E ninguém venha dizer que Portugal ficou mais rico, mais independente ou mesmo mais moderno com tais políticas de terra queimada ou, como também poderá dizer-se aludindo às vias-férreas, políticas de pouca-terra. Poderão esgrimir-se as mais eruditas teorias, as mais modernas correntes de opinião, a mais sonante propaganda. Nada disso altera a realidade que é o empobrecimento, a desertificação e a submissão do País.

A grande questão é que excluindo os grandes interesses plutocráticos, os políticos portugueses não têm em geral qualquer ideia ou projecto sobre o futuro do País. E assim, feche-se, liquide-se, destrua-se, arrase-se. E o deus dinheiro que reconstrua um país à sua imagem e semelhança.

«DE» de 6 Jan 10

«Mãe, vou casar!» (*)

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Por Luís Fernando Veríssimo


- Mãe, vou casar!

- Jura, meu filho?! Estou tão feliz! Quem é a moça?

- Não é moça. Vou casar com um moço. O nome dele é Murilo.

- Você falou Murilo... Ou foi meu cérebro que sofreu um pequeno surto psicótico?

- Eu falei Murilo. Por que, mãe? Tá acontecendo alguma coisa?

- Nada, não... Só minha visão que está um pouco turva. E meu coração, que talvez dê uma parada. No mais, tá tudo ótimo.

- Se você tiver algum problema em relação a isto, melhor falar logo...

- Problema? Problema nenhum. Só pensei que algum dia ia ter uma nora... Ou isso.

- Você vai ter uma nora. Só que uma nora... Meio macho. Ou um genro meio fêmea. Resumindo: uma nora quase macho, tendendo a um genro quase fêmea...

- E quando eu vou conhecer o meu. A minha... O Murilo?

- Pode chamar ele de Biscoito. É o apelido.

- Tá! Biscoito... Já gostei dele... Alguém com esse apelido só pode ser uma pessoa bacana. Quando o Biscoito vem aqui?

- Por quê?

- Por nada. Só pra eu poder desacordar seu pai com antecedência.

- Você acha que o Papai não vai aceitar?

- Claro que vai aceitar! Lógico que vai. Só não sei se ele vai sobreviver... Mas isso também é uma bobagem. Ele morre sabendo que você achou sua cara-metade... E olha que espetáculo: as duas metade com bigode.

- Mãe, que besteira ... Hoje em dia... Praticamente todos os meus amigos são gays.

- Só espero que tenha sobrado algum que não seja... Pra poder apresentar pra tua irmã.

- A Bel já tá namorando.

- A Bel? Namorando?! Ela não me falou nada... Quem é?

- Uma tal de Veruska.

- Como?

- Veruska...

- Ah !, bom! Que susto! Pensei que você tivesse falado Veruska.

- Mãe!!!...

- Tá..., tá..., tudo bem... Se vocês são felizes. Só fico triste porque não vou ter um neto...

- Por que não? Eu e o Biscoito queremos dois filhos. Eu vou doar os espermatozóides. E a ex-namorada do Biscoito vai doar os óvulos.

- Ex-namorada? O Biscoito tem ex-namorada?

- Quando ele era hétero... A Veruska.

- Que Veruska?

- Namorada da Bel...

- "Peraí". A ex-namorada do teu atual namorado... E a atual namorada da tua irmã. Que é minha filha também... Que se chama Bel. É isso? Porque eu me perdi um pouco...

- É isso. Pois é... A Veruska doou os óvulos. E nós vamos alugar um útero.

- De quem?

- Da Bel.

- Mas... Logo da Bel?! Quer dizer então... Que a Bel vai gerar um filho teu e do Biscoito. Com o teu espermatozóide e com o óvulo da namorada dela, que é a Veruska...

- Isso.

- Essa criança, de uma certa forma, vai ser tua filha, filha do Biscoito, filha da Veruska e filha da Bel.

- Em termos...

- A criança vai ter duas mães : você e o Biscoito. E dois pais: a Veruska e a Bel.

- Por aí...

- Por outro lado, a Bel..., além de mãe, é tia... Ou tio.... Porque é tua irmã.

- Exato. E ano que vem vamos ter um segundo filho. Aí o Biscoito é que entra com o espermatozóide. Que dessa vez vai ser gerado no ventre da Veruska... Com o óvulo da Bel. A gente só vai trocar.

- Só trocar, né ? Agora o óvulo vai ser da Bel. E o ventre da Veruska.

- Exato!

- Agora eu entendi! Agora eu realmente entendi...

- Entendeu o quê?

- Entendi que é uma espécie de swing dos tempos modernos!

- Que swing, mãe?!!....

- É swing, sim! Uma troca de casais... Com os óvulos e os espermatozóides, uma hora no útero de uma, outra hora no útero de outra...

- Mas...

- Mas uns tomates! Isso é um bacanal de última geração! E pior... Com incesto no meio...

- A Bel e a Veruska só vão ajudar na concepção do nosso filho, só isso...

- Sei!!!... E quando elas quiserem ter filhos...

- Nós ajudamos.

- Quer saber? No final das contas não entendi mais nada. Não entendi quem vai ser mãe de quem, quem vai ser pai de quem, de quem vai ser o útero, o espermatozóide... A única coisa que eu entendi é que...

- Que...?

- Fazer árvore genealógica daqui pra frente... vai ser f...

-
(*) Esta crónica aparece na internet com algumas variantes, nomeadamente na última linha. No entanto, tendo em conta quem a fez chegar ao Sorumbático, esta versão (à parte o título, que não foi possível apurar) parece ser a que foi originalmente publicada na Folha de S. Paulo, onde o autor escreve semanalmente.

Uma década novinha em folha

Por Manuel João Ramos


O GOVERNO PORTUGUÊS PRIMOU pela ausência na 1ª Conferência inter-ministerial global sobre segurança rodoviária que teve lugar há dois meses e meio na Rússia. A aprovação da chamada Declaração de Moscovo consagra uma Iniciativa Global sobre Segurança Rodoviária para a próxima década. A maioria dos estados e das organizações internacionais prometem investir generosamente na redução do risco e do trauma rodoviário, finalmente considerado uma das mais graves epidemias mundiais pela Organização Mundial de Saúde.

O governo português esteve ausente da Conferência mas a ACA-M participou, como outras ONGs internacionais, co-assinando um Apelo Global em prole da Segurança Rodoviária e do Apoio às Vítimas da Estrada.

Porquê tanta preocupação com a segurança rodoviária? Porque a nível mundial o número de mortos e feridos por atropelamento, colisão ou despiste não pára de aumentar, na proporção da expansão do automóvel em diversos mercados emergentes.

E em Portugal, como estamos, para além de orgulhosamente ignorantes do que se passa lá fora?

Com grande probabilidade, estamos no fim de um ciclo de redução continuada da sinistralidade grave, por razões de ordem estrutural: a democratização do automóvel nos últimos 15 anos teve como efeito a familiarização da sociedade portuguesa com os riscos inerentes à condução automóvel e, como aconteceu há 50 anos nos EUA e há 30 na Europa Ocidental, uma diminuição significativa do número de acidentados graves de ano para ano.

Beneficiámos também de um conjunto de directivas europeias reclamadas pelos países do norte da Europa, que aumentaram muito os níveis de segurança passiva dos automóveis vendidos no espaço da UE. E podíamos estar melhor, se o governo tivesse feito bem o seu trabalho.

Finalmente, o governo promete mostrar, daqui a seis meses, os números reais da mortalidade rodoviária, e já não os números fictícios a que nos habituámos nos últimos anos. E promete (outra coisa não seria de esperar) melhor fiscalização, melhor gestão da infracção, e melhor estratégia de segurança rodoviária.

Infelizmente, este e outros governos tanto prometeram e tanto propagandearam que a prudência obriga a um certo cepticismo.

E porquê?
  • Porque continua por aprovar um registo nacional de trauma;
  • porque o ensino da condução continua por reformar;
  • porque o crime rodoviário continua por tipificar, porque a justiça continua lenta e ineficaz;
  • porque não há diálogo entre o governo e as administrações locais para resolver problemas estruturais de insegurança nas estradas municipais e nas vias urbanas;
  • porque as campanhas de alerta para a redução de risco rodoviário são mal financiadas, mal concebidas e não avaliadas;
  • porque continua por criar um Regulamento de Projecto e de Certificação de Estradas e Arruamentos;
  • e porque o Código da Estrada ainda não foi transformado num Código de Relações entre Utentes dos Espaços Públicos Rodoviários que dê aos peões outro estatuto que não o de obstáculo físico à progressão dos automóveis.
Por outras palavras, recomenda-se que o governo trabalhe um pouco mais e melhor, em vez de se dedicar a convencer-nos que o milagre da redução do número de mortos nas estradas portuguesas se deve aos dotes mágicos do Dr. Rui Pereira.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Passatempo-relâmpago de 6 Jan 2010 - Solução

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Uma foto segundo o eixo principal do edifício (que mostrasse as frontarias dos pavilhões central e laterais) é [praticamente] impossível de obter devido à árvore existente nesse alinhamento (para já não falar no lago).

Os discursos do vazio

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Por Baptista-Bastos

O ENG.º SÓCRATES E O DR. CAVACO falaram à pátria. A pátria ficou estarrecida. O primeiro teceu um plissado de banalidades, e procurou aliviar as nossas angústias inesgotáveis dizendo que as coisas corriam o melhor possível. O segundo reduziu a subnitrato o júbilo do orador. A situação é «catastrófica» e o horizonte é horroroso. O pior do pensamento do dr. Cavaco, se é que o tem ou alguma vez o teve, é que se ordena na desordem. Não há ponta de originalidade nem pingo de lirismo. Estamos danificados por dentro e por fora: falta-nos competitividade, andamos cheios de lazeira, devemos dinheiro a toda a gente, possuímos uma alma adormecida, não somos coerentes nem fluentes, o sol apagou-se dentro de nós. Enfim, segundo o dr. Cavaco, somos uns grandes desgraçados. Nem uma palavra, uma escassa, módica e tímida palavra sobre cultura, ciência, arte.


Reconheçamos que ele nunca foi consumidor do pensamento de outros. Kant ensinava que a razão partia das coisas simples e Nietzsche que as ideias nasciam do corpo. Ambos explicavam, afinal, que o difícil seria evitá-las. O dr. Cavaco conseguiu-o. É um homem feliz.

O alvoroço com que a vulgaridade das frases foi acolhida e comentada por políticos e por «comentadores» fornece-nos a exacta dimensão da mediocridade em que sobrenadamos.

Tanto o eng.º Sócrates como o dr. Cavaco são criaturas deterioradas pela rotina de quem se plagia a si próprio. Dizem, há anos, as mesmas coisas. O meu amigo Vítor Ramalho declarou, ao Sol, que eles são almas gémeas. Como não percebi a entoação ignoro se o retrato possui algo de crepuscular: lá que não é bom, não é. Nenhum deles alimentou qualquer projecto para Portugal. A ausência de ideias e a inexistência de ideologia marcaram a presença destes dois homens na política. O primeiro recebeu dinheiro a rodos, não soube distribui-lo com equanimidade e génio, e apagou a claridade espantosa do nosso sonho colectivo, reintroduzindo na sociedade portuguesa a rigidez do espeque e a gelidez do chefe. Uma das grandes mistificações da nossa história recente é aquela que induziu a tese de estarmos em presença de um «grande homem.»

José Sócrates seguiu-lhe a peugada. Obedeceu à ordem do possibilismo, às indicações económicas dominantes, e à insensata tentação dos políticos do nosso tempo: o compromisso com eles próprios. Um caminho que levou, por exemplo, o viçoso Tony Blair, de tropeção em tropeção, até ao estatelamento final. Blair é uma das inextinguíveis vergonhas da nossa época, e a «terceira via» uma fraude não só infantil porque assustadoramente perigosa.

Chegados aos discursos do fim do ano, independentemente das objecções gramaticais ou sintácticas que se lhes faça, o pior é a substância do que dizem: nada de nada

«DN» de 6 Jan 10

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Hipátia na Ágora

Por Nuno Crato

CONTA-SE QUE ERA UMA MULHER ATRAENTE, que resistia aos seus numerosos pretendentes e que mantinha ostensivamente o celibato. Conta-se que era uma grande matemática e filósofa, que estudara em Atenas e vivia na agitada Alexandria, na época em que o helenismo, o judaísmo e o cristianismo se digladiavam no Império. Conta-se que foi morta violentamente por uma turba de religiosos fanáticos, quase certamente instigados pelo Bispo Cirilo, Patriarca de Alexandria. Tudo isto que se conta sobre Hipátia de Alexandria (c. 355–415) é a verdade histórica, ou seja, o que se conhece com a segurança possível.

É sobre isto que fala, com bastante fidelidade, o filme Ágora, actualmente em exibição entre nós. Retrata uma época em que as discussões civilizadas da praça pública grega, a ágora, tinham dado lugar à violência das turbas. As personagens, nomeadamente Amónio, Orestes, Cirilo e Sinésio, são figuras históricas, retratadas com alguma veracidade. Igualmente fidedigna é a descrição de Theon, o pai de Hipátia.

Theon foi um matemático famoso. Era bibliotecário em Alexandria e deixou vários comentários, ou seja, textos clássicos rescritos e desenvolvidos de forma a poderem ser difundidos e estudados. Não se lhe conhecem criações matemáticas originais, mas a qualidade dos seus textos impôs-se ao longo dos séculos, tendo chegado até aos estudiosos árabes. Sabe-se que Hipátia colaborou com ele em algumas edições, nomeadamente nas Tabelas Práticas de Ptolomeu e na Aritmética de Diofanto. Terá sido ela quem fez e corrigiu alguns cálculos de várias obras. Sabe-se ainda que fez um comentário ao Livros das Cónicas de Apolónio. Pouco mais se sabe sobre esta figura romântica da história da matemática, mas quem quiser conhecê-la melhor poderá ler Hipátia de Alexandria (Relógio D’Água), um breve estudo de Maria Dzielska que é a melhor fonte moderna sobre a cientista alexandrina.

O filme, que noutros aspectos tem preocupações históricas bastante louváveis, apesar de ser tão primariamente crítico do cristianismo primitivo que perde por esse primarismo, abandona aventurosamente a realidade quando fala das investigações de Hipátia. A matemática e astrónoma alexandrina aparece como tentando conciliar o modelo heliocêntrico de Aristarco com o modelo geocêntrico de Ptolomeu. Não há nenhuma base para essa presunção. O modelo de Aristarco era então apenas uma curiosidade algo absurda, e só em 1543 foi reavivado com o trabalho de Copérnico.

Entre outras desproporcionadas referências, o filme coloca Hipátia num navio, explicando ao prefeito romano Orestes a relatividade do movimento, um conceito avançado por Galileu 12 séculos mais tarde. Noutra cena, Hipátia discorre sobre a variação da distância da Terra ao Sol e tenta criar um modelo que consiga explicar essa variação sem círculos sobre círculos, os célebres epiciclos. Aí, os consultores do realizador esquecem os círculos excêntricos, com que Ptolomeu resolveu admiravelmente esse problema cosmológico. Numa das cenas mais exageradas da película, Hipátia conclui que as órbitas dos planetas devem ser elípticas, uma conclusão que escapou a Copérnico, a Galileu e a tantos outros e que demorou a Kepler uma vida de cálculos laboriosos para poder ser formulada.

É pena que estas invenções se juntem a outras falhas que tornam o filme menos interessante e menos credível. É pena, pois Hipátia é uma grande figura. É a primeira mulher matemática e os historiadores associam a sua morte ao fim da matemática helénica. Séculos passaram até que na ágora se voltasse a amar a ciência.

«Passeio Aleatório - «Expresso» de 31 Dez 09

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

JOSÉ SÓCRATES DEIXOU, nos primeiros anos do seu Governo, uma imagem de determinação e mudança. Determinação na forma imediata e decidida como encarou a inevitável reforma, a médio prazo, da Segurança Social ou a obrigatória redução do défice público para um valor abaixo dos 3%. Sentido de mudança ao assumir e levar à prática causas como a aposta do país nas energias renováveis, a modernização e simplificação dos serviços públicos (lojas do cidadão, desburocratização de serviços, rapidez de resposta com a redução de prazos e formalidades) ou a introdução do Inglês e das novas tecnologias (incluindo a distribuição de computadores a todos os alunos) nos primeiros graus de Ensino.

Sócrates falhou ao não reduzir a insustentável despesa do Estado nem o peso do funcionalismo nas contas públicas. E acabou a recuar na reforma dos serviços de Saúde ou na avaliação e carreiras dos professores, entre outros casos. Mas ficou a marca, ainda que atenuada no final, de um Governo com algumas causas, visão de futuro e de mudança.

Por contraste, este segundo Executivo de Sócrates surge como uma versão recauchutada e minimalista do Governo anterior, sem ímpeto reformador, sem ânimo para tomar medidas difíceis, sem causas que o motivem e orientem, sem ideias novas. Impotente perante a crise, tolhido pela perda de poder da maioria absoluta, Sócrates limita-se a apontar o TGV, repete-se e esgota-se a falar do investimento público – ou, para disfarçar o vazio de ideias e a ausência de energia de mudança, a colocar na agenda do dia temas marginais como o casamento entre homossexuais ou outro ensaio da inefável regionalização.

Sócrates lidera agora um Governo sem causas nem projectos reformadores. Um Governo de gestão corrente, precocemente esgotado. Até quando? – é a pergunta que se coloca.

Pior ainda. Quando o défice público já bate nos 9% e o endividamento está a ultrapassar os 100%, quando todos os organismos e autoridades internacionais afirmam que a economia portuguesa vai ficar ainda mais para trás e ter um crescimento mínimo nos próximos anos, incapaz de criar emprego e melhorar o nível de vida, Sócrates vem dizer aos portugueses, na sua mensagem de Natal, que «há sinais claros que estamos a retomar lentamente um caminho de recuperação». Se ainda for primeiro-ministro, o que dirá ao país quando se vir obrigado a tomar medidas drásticas, como está a acontecer na Irlanda e na Grécia?

«SOL» de 31 Dez 09

domingo, 3 de janeiro de 2010

Os Abutres do FMI

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Por J.L. Saldanha Sanches

O FMI É COMO OS ABUTRES: começa a voar em círculos à volta da presa quando acha que ela vai precisar dos seus serviços.

Os primeiros sinais foram dados quando o Parlamento resolveu reduzir as receitas públicas. O FMI concluiu, e infelizmente concluiu bem, que a actual composição parlamentar não permite nenhuma política responsável e a situação é de descontrolo financeiro.

Para o Bloco e o PCP isto não cria qualquer problema: o FMI é óptimo para justificar o discurso patrioteiro. A lógica da actuação da direita (se tem alguma lógica) é menos clara.

Toda a gente sabe que, mais dia, menos dia, os nossos credores vão-se mostrar inquietos, a conta vai surgir e as hipóteses são duas: reduzir as despesas ou aumentar os impostos.

Aumentar mais os impostos será desastroso: há um limite para a carga fiscal – um limite político – que já foi largamente atingido. As pessoas, as empresas e os consumidores não podem pagar mais.

A solução seria reduzir a despesa pública: mas qual despesa pública?

O serviço nacional de saúde constitui um requisito elementar de civilização. A segurança social já teve as reformas que deveria ter. Com a segurança vai ser preciso gastar mais ou pelo menos melhor.

O alvo das reduções deveria ser outro: não se pode continuar a despejar dinheiro para cima das regiões ou das autarquias e o pagamento dos submarinos não pode conduzir a um aumento das despesas militares que deveriam ser congeladas; por mais que isso irrite os senhores sargentos.

Quanto às regiões, uma coisa é garantir a todos os portugueses, vivam onde viverem, os mínimos exigidos pela dignidade humana. Outra é engordar as insaciáveis máquinas partidárias acampadas à volta das autarquias e das regiões.

As autarquias e as regiões são estruturas políticas dotadas de autonomia financeira e poderes tributários: o nível de despesa pública deve ser um decisão dos munícipes e ou dos habitantes das regiões e deve ser financiado pelos impostos aí cobrados.

Há um dever de solidariedade nacional dos portugueses com mais rendimentos para os portugueses mais desfavorecidos: mas não há qualquer dever de solidariedade entre regiões que se traduzem em transferências financeiras dos recursos obtidos juntos dos contribuintes com menos rendimentos (exemplo: receitas do IVA) para as máquinas partidárias e empresas de obras públicas das autarquias e regiões.

Sem redução de despesas, temos o aumento dos impostos que vai acentuar a transferência dos sectores produtivos para os improdutivos e consagrar o desperdício de recursos: o Governo Sócrates atingiu um tal estado de fraqueza que não pode recusar nada a quem ainda o apoia, incluindo às empresas do regime que insistem em construir estradas. Nesta perspectiva o Sócrates sem maioria, ainda mais refém de interesses especiais, é ainda mais nocivo do que o Sócrates com maioria.

A maioria na assembleia deveria travá-lo - mas isso não faz, bem pelo contrário.

O que significa que as medidas correctivas só serão tomadas pela pura pressão externa: do FMI, de Bruxelas, dos credores.

Com um problema: as medidas correctivas tomadas por imposição dos credores são sempre as piores.

«Expresso» de 24 Jan 09 – www.saldanhasanches.pt

Crónica piegas de fim de ano

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Por Alice Vieira

ESCREVER A CRÓNICA DE HOJE é uma coisa estranha, porque estou a escrevê-la em 2009, mas quando a lerem já estamos em 2010 - e sinto-me assim naquela terra de ninguém que são sempre as vésperas dos anos novos.

E ponho no leitor de CD’s músicas piegas, porque hoje tudo é permitido, e encho-me de aznavours e domenicos modugnos e coisas do tempo em que o tempo demorava muito tempo a passar, não era como agora em que as horas têm cada vez menos minutos e os minutos menos segundos.

E de repente voltam-me à cabeça as imagens do almoço de ontem, daqueles almoços anuais de gente que anda perdida mas que, quando toca a reunir, não falta: e eu no meio dos meus velhos camaradas de trabalho do “Diário de Notícias”, mais de trinta, da redacção, do laboratório, da revisão, da contabilidade, da preparação, do arquivo, palavras que se calhar hoje já nem se usam, mas que foram a nossa casa comum durante anos e anos.

E tal como as músicas no leitor de CD’s continuam piegas, este texto também o vai ser, e ridículo, evidentemente, como todas as cartas de amor desde Fernando Pessoa.

Não sei o que os novos jornalistas entendem hoje por “amor à camisola”, “espírito de corpo” e outras expressões igualmente em vias de extinção. Não sei se serão capazes de imaginar um jornal onde havia pessoas — e não máquinas. Pessoas que berravam, barafustavam, insultavam, davam murros na mesa — mas que eram um corpo só, capaz de enfrentar, como um corpo só, tudo o que viesse. Pessoas de todas as ideologias (num tempo em que isso ainda estava quente…) mas que gostavam verdadeiramente umas das outras. Pessoas que não eram apenas jornalistas mas gente de todos os sectores, incluindo motoristas e contínuos. Nós todos éramos o “Diário de Notícias”.

É evidente que esta é uma geração que acabou. Nunca haverá outra igual. Uma geração de gente que esteve no “Diário de Notícias” uma vida inteira e não apenas meia dúzia de anos (ou de meses, que isto agora é tudo efémero...).

Hoje os tempos são outros, a maneira de fazer jornais é outra, as relações entre as pessoas é outra.

E nestes últimas horas de 2009, quando é da praxe desejarmos felicidades aos nossos amigos, eu só desejo às novas gerações de jornalistas que um dia, já reformados, possam reunir, todos os anos, mais de trinta velhos camaradas das suas redacções e terem, como nós, tanta coisa, para lá das notícias, a recordar em conjunto.

(Uma palavra só para o nosso velho chefe de redacção, que por doença não pôde estar connosco: chefe Pires, eu sei que lhe demos um trabalhão dos diabos, mas todos bebemos à sua saúde, e todos concordámos que foi consigo que aprendemos tudo.)

Repito: foi uma geração que acabou.

Mas sinto um orgulho enorme em lhe ter pertencido.

«JN» de 2 Jan 10

sábado, 2 de janeiro de 2010

1-2-3 - Solução na última foto


Depois de muitos anos de protestos dos moradores contra esta situação...
... a autarquia (Câmara Municipal ou Junta de Freguesia - não sei) acabou por colocar 5 pilaretes.
Teve, no entanto, o "cuidado" de não impedir o acesso ao passeio...
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... pelo que tudo continuou na mesma.
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Agora, que o único pilarete que ainda protegia alguma coisa foi derrubado...
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... já estão todos contentes, não?
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(Não tenham pena do cavalheiro da imagem de baixo, pois é o condutor da carrinha...)
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NOTA: Na 2ª imagem, repare-se no Mini: estacionado na passadeira... e em contramão (pois a rua é de sentido único, da esquerda para a direita)!

O velho e o novo

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Por Antunes Ferreira

ALQUEBRADO, DESMIOLADO, abandonado, o velho desgraçado tentou mover a cadeira de rodas empurrando estas com as mãos vacilantes e anquilosadas. Em vão. As articulações carregadas de artrite piores estavam do que dobradiça enferrujada. Sem óleo que lhes valesse, encarquilhadas, pendentes, eram apêndices de estorvo e pouco mais. Chegavam para limpar o nariz e as beiças – sem lenço.

Conseguiu a muito custo puxar a manta esburacada até o meio do peito escanzelado, costelas marcadas, contáveis uma a uma. Pretendia leva-la até ao queixo, num intento desesperado de proteger o pescoço. Um frio infiltrava-se-lhe pelos pés, e com tantas agulhas se cozia, que, por certo, era o do fim. Que estava a chegar, insidioso, tiritando-o. É a morte, congeminou, e ele sem desejo nenhum dela.

De fora, por entre as bátegas, cordas de chuva ininterrupta, uivava um suão que escorropichava pelas frestas da porta periclitante, na hesitação de fugir dos gonzos. O pulha destilava o frio que tomava conta do resto do homem esquálido. Redemoinhos dançavam em coreografia maluca e, caso para espanto numa terra como aquela, até pequenos tornados volteavam também.

O ancião estremeceu. Tinha fome. Mas, no estado em que se encontrava, como resolver essa vontade de comer, de comer o que quer que fosse, de comer – comida? Um pão. Uma carcaça. Com presunto seria melhor, muito melhor. Porem, o minimercado da rua ficava longíssimo para ele, aí a uns, sabia lá, mas a uns trezentos metros, quiçá um pouco menos, na esquina com a avenida grande.

Voltou a tentar mover a cadeira, apoiando as mãos esqueléticas e nodosas nas rodas. Quem fora o inventor delas? Perdia-se-lhe no córtex a identidade e o tempo, mas devia ter sido alguém, possivelmente a precisar de comer um papo-seco. Não, fora na pré-história. Ou teria sido na revolução francesa? Que coisas lhe barafundeavam a cabeça…

A sede também o apertava. Um copo de água, por favor, mesmo da torneira, engarrafada e mineral seria mais sensato, andavam no ar tantas bactérias e micróbios e vírus e, depois, a gripe dos porcos e essas tretas espreitavam a cada canto, ele não tomara a vacina. Mas, o que vinha mesmo a calhar era um uísque sem mais nada. Pensando bem, c’os diabos, ainda pensava, até um chá de tília saberia a hidromel. Ora essa, por que porras lhe dera para o hidrom…

O miúdo chegou – e deu com ele acabado de morrer. Então?... Era um novo, em quem toda a gente depositava as maiores esperanças, sobretudo que fosse melhor do que, em síntese. É sempre assim, os que surgem trazem com eles o benefício das dúvidas dos que já estão. Principalmente, fartos dos anteriores, cujos vaticínios tinham sido iguais – ou quase.

Um puto vivo, esperto, inteligente, um fora de série. Abrira a porta de entrada porque tinha a chave, morava no andar do lado, e trazia um saco de plástico do minimercado com umas coisas para o velho. Assustado pelos olhos escancarados do morto, recuou, saiu a correr e entrou no apartamento aos berros pelo pai. Este só esperava por ele para abrir a garrafa de espumante. Na rua batiam latas. E ele, para o pai, para a mãe, para a irmã, até para a avó Almerinda: o velho foi-se. E todos: feliz ano novo!!!!!!!!!

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Aventuras Natalícias

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Por Maria Filomena Mónica

DESDE QUE A MINHA MÃE MORREU, recebo, na Consoada, a família, isto é, os meus dois filhos e três netos. Uma vez que os meus talentos culinários se reduzem a estrelar um ovo - devido à conotação do termo, considero que deveria ser este, e não o bacalhau, o prato da época – encomendo o jantar fora. Suponho que me sentir culpada, tento concentrar-me na decoração, colocando na mesa uma toalha bordada e montando uma árvore com bolas de lamé.

Tendo herdado um Menino Jesus, no ano passado decidi acrescentá-lo à festa. Lembrei-me dele a meio das férias que este Outono passei na Andaluzia. A 22 de Outubro, fui visitar a Igreja de Salvador, em Sevilha. Quando cheguei, foi-me dito que teria de esperar uma hora, pois o rei iria comemorar, ao meio-dia, o fim do restauro do templo. Depois de ele ter saído, pude admirar as sumptuosas imagens que povoam esta igreja. Ainda sob a influência do ambiente que ali se respirava, fui até à calle Francos, onde pululam lojas de artigos religiosos que em nada se parecem com os decrépitos estabelecimentos que, a custo, sobrevivem em Lisboa. Aquelas estão cheias de pessoas, algumas, como verifiquei, a comprar já tecidos para fabricar as indumentárias para a Semana Santa. Foi numa delas, a Cordoneria Alba, que reparei num vestidinho que considerei ficar a matar no meu Menino Jesus. Comprei-o imediatamente.

Só quando, em Lisboa, Lhe peguei ao colo, verifiquei que o escultor já havia pintado, na parte superior do corpo, uma camisinha com estrelas e, na parte inferior, uns calçõezinhos doirados. Como explicar o facto de eu ter esquecido que Ele se encontrava vestido? Estava desanimada, quando abri a janela das traseiras. No jardim que, durante anos, considerara meu, e que agora pertence ao dinamarquês do 5º andar, o velho caramanchão encontrava-se coberto de luzinhas. A conclusão é obvia: só os escandinavos sabem como festejar o Natal a preceito. Obrigado, William.

Dezembro 2008

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Suttree

Desafio de 31 Dez 09 - Prémio

Feliz Década Nova

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Por João Duque

HÁ UMA MANIA, ERRADA, de considerar que as décadas se iniciam no dia 1 de Janeiro de um ano de último dígito 0. Ah, porque é que é errado? Porque não havendo ano zero, a primeira década terá começado no dia 1 de Janeiro do ano 1 e acabado no dia 31 de Dezembro do ano 10. E por aí adiante… Mas porque todos insistem nessa ideia, desisto, e vou eu próprio alimentá-la falando da Nova Década.

Sabemos como Portugal está. Se todos percebemos, se tivéssemos juízo, ou nos íamos embora deixando o país só, com as suas dívidas para que os credores o viessem pilhar levando o que entendessem, ou atacávamos os problemas de frente e tomávamos decisões corajosas: baixávamos salários (como os irlandeses), aumentávamos impostos (como os Gregos), atrasávamos a data para a reforma ou reduzíamos o seu valor (ou ambas as coisas – como os Britânicos), reduzíamos os benefícios de ordem social, etc., etc., etc. Mas isso, ninguém quer e por isso ninguém vai ter coragem de fazer nem de propor em eleições que queira seriamente vencer…

Também podemos tirar dos dedos os últimos anéis e vendê-los: as reservas de ouro do Banco de Portugal (se o BCE nos deixasse), as últimas participações financeiras nas empresas já privatizadas, privatizávamos os últimos redutos (CGD, ANA, …) os solos públicos, as Berlengas, a Ilha de Faro, as praias… Claro que isso também ninguém quer.

Mas a minha ideia é que ainda vão surgir algumas “tábuas de salvação”, não porque façamos alguma coisa por isso, mas porque alguns irão fazê-lo. Explico.

O que é que fizemos nós para termos o direito a vender o espectro de emissões de rádio, de televisão, etc? Nada. A canseira de investir, estudar e descobrir, produzir equipamentos e vendê-los foi feito pelos outros, mas logo o nosso Estado vem e diz: “se querem emitir aqui, têm de se licenciar, uma vez que o “espaço hertziano” é público”!

Por isso, uma boa saída para a amortização de alguma desta dívida brutal que amontoamos, poderá estar nos mercados que estão para nascer e que nem sonhamos. Alguém pensaria há 100 anos que se poderia retalhar o “espaço” dos domínios da net? Ou retalhar o “espaço” de frequências de telemóveis? Pois eu estou convencido que dentro de 10 anos, dada a velocidade de desenvolvimento tecnológico, novos “espaços” se desdobrarão à frente do Estado português para a partir daí se atarefar na venda, por grosso ou a retalho, desses “espaços” que hoje ainda não sou capaz de dizer quais são, mas estou seguro que eles vão aparecer… E, agora o mais bonito, não teremos de mexer uma palha. “Eles” vão trazer-nos de bandeja o que nós queremos: “espaços” para venda…

A questão está em saber: se terão valor e se conseguimos sobreviver para lá chegar. A crise Grega vai atirar-nos rapidamente para a fogueira do escrutínio apurado dos mercados de dívida e, ou o novo Orçamento traz medidas draconianas, ou vamos fazer companhia aos gregos, mas não é na final do Europeu …

Um desejo: que a Nova Década seja cheia dos inversos da Velha Década que acabamos de terminar.

«Expresso» de 24 Dez 09

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Passatempo Calimero de 29 Dez 09 - Solução

Uma vez que foi atribuído, o livro foi retirado da lista de prémios disponíveis.

O Ano Novo do Doutor De Castro

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Por Nuno Crato

NA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO TEXAS, em Huntsville, o professor John M. De Castro dedica-se ao estudo dos hábitos alimentares. Ao longo dos anos tem produzido um número impressionante de trabalhos sobre os condicionantes da dieta humana. Recruta voluntários a quem pede para anotarem durante semanas tudo o que comeram, quando comeram, onde comeram e como comeram. Estuda depois os dados com métodos estatísticos rigorosos.

Há tempos, lendo um interessante livro de Christian Camara e Claudine Gaston (Pourquoi les marmottes ne fêtent pas le nouvel an?) reparei que estes dois divulgadores científicos se divertiam a imaginar como comeria o Doutor De Castro e como seria o seu dia-a-dia. Talvez ele se distraísse pouco, fizesse uma vida solitária e andasse tristonho pelas ruas. Pelo menos, segundo os seus artigos, é a melhor maneira de não comer demais.

Fui ler alguns estudos do insigne psicólogo. Um dos mais citados analisa os hábitos alimentares de gémeos monozigóticos que vivem separados. Conclui que os genes determinam quase metade das características alimentares das pessoas, sendo a outra parte derivada do ambiente. Em alguns aspectos a influência é menor. O excesso de consumo, em particular, parece ser quase todo derivado da permissividade no ambiente familiar de infância. Mas a maneira como esse excesso se repercute na obesidade advém sobretudo de factores genéticos.

Noutro estudo, o psicólogo texano mostra como é importante tomar um bom pequeno almoço, almoçar razoavelmente e comer pouco ao jantar. Parece sensato. Mas quando o Doutor De Castro estuda o ambiente em que se tomam as refeições, as coisas tornam-se pretas. Os exageros na comida estão associados com o tempo que se passa à mesa e com o número de convivas. Em média, quando estamos com um comensal comemos mais 33% do que quando estamos sozinhos. Se formos três, cada um de nós come 47% mais; se formos quatro, 58%, e por aí adiante. Não há dúvida! O Doutor De Castro passou a consoada sozinho e vai entrar no Ano Novo na mesma companhia.

Suspeito também que o seu “réveillon” se passe em silêncio. Os seus estudos concluíram que a música de fundo propicia um aumento de quase 20% de calorias consumidas e de 30% de bebidas. Ainda mais assustador é o que acontece com a luz. As suas investigações têm concluído que uma boa iluminação, natural ou artificial, talvez por facilitar um ambiente agradável, propicia um repasto saturado. Imagino que o Doutor De Castro passe a noite de Ano Novo às escuras.

Fiquei definitivamente assustado quando li um artigo que ele escreveu em 1993. Mostra uma relação positiva entre a fase da Lua e o excesso alimentar. A correlação não é grande (cerca de 8%), mas é positiva. Pensei que o melhor seria virar as costas para a Lua e fechar as janelas. Mas o seu estudo, na sequência de outros que indicam a existência de ritmos biológicos alinhados com o ciclo lunar, conclui que a influência é inevitável, embora moderada, e que não depende da exposição à Lua. Assustado, fui ver o almanaque e confirmei as minhas piores premonições. A lua cheia acontece este 31 de Dezembro.

Pensei melhor. Este fim de ano, pelo menos, vou-me tentar esquecer do Doutor De Castro. Talvez me relembre dos seus conselhos já entrado em 2010.

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 27 de Dezembro de 2009

Passatempo-relâmpago de 29 Dez 09 - Solução

Evidentemente...
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NOTA: Havia um professor do IST que dizia muitas vezes que os portugueses são muito bons a inventar coisas úteis, mas péssimos a acarinhá-las (e, consequentemente, a mantê-las operacionais).
Neste caso, o pilarete do meio começou por ser derrubado, e depois levado dali. Isto está assim há semanas.
Pergunta-se: funcionários da Câmara que ali passam a toda a hora (como, p. ex., os agentes da P. Municipal) não teriam obrigação de participar estas e outras coisas semelhantes?

domingo, 27 de dezembro de 2009

Quatro décadas: da mudança à incerteza - Intervenção na Academia das Ciências de Lisboa

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Por António Barreto

ERA UM PAÍS FECHADO. Um Estado autoritário. E um povo inculto. Era Portugal do início dos anos sessenta. Pequeno, pobre e periférico. País rural, quarenta por cento da população, mais do que qualquer outro na Europa ocidental. Uma alta natalidade estava na origem da população mais jovem do continente. Uma obscena mortalidade infantil (mais de oitenta por mil) e uma esperança de vida reduzida (sessenta anos para os homens e sessenta e cinco para as mulheres) denunciavam o atraso social e económico. Os horizontes eram fechados, a escola medíocre e insuficiente, a saúde pública quase inexistente, poucos os empregos industriais e a liberdade diminuta. A maior parte dos agregados domésticos não tinha acesso aos serviços públicos de água, de electricidade ou de saneamento. As infra-estruturas eram pobres e ineficazes, as deslocações eram difíceis. Os portugueses viajavam pouco dentro do seu próprio país. O número de analfabetos elevava-se a quarenta por cento da população. Legalmente oprimidas, as mulheres tinham pouco empregos (apenas quinze por cento da população activa), eram mantidas à margem do espaço colectivo e não tinham o mesmo estatuto de cidadania que os homens: viviam e morriam, em maioria, fechadas nas suas vidas domésticas. Era assim que viviam os portugueses há cinquenta anos.

À margem da Europa, o país vivia um relativo isolamento. Virado para o Atlântico e para África, onde possuía o último e imenso império colonial, os seus contactos com os países vizinhos eram reduzidos. Para as autoridades políticas, o isolamento era uma virtude. A tradição nacional, que valorizava o catolicismo e a ruralidade, era defendida e cultivada. A memória de um passado glorioso era o substituto de um futuro incerto. O oceano, fonte de memórias antigas, abria o país ao mundo. Mas a fronteira terrestre separava-o, mais do que aproximava, do único e grande vizinho, com o qual as relações não eram, quase nunca tinham sido, próximas, boas e amistosas. O Ultramar era o horizonte. Poderoso na ideologia e na retórica, mas afastado na geografia e na economia. A versão oficial proclamava uma sociedade multirracial, da Europa à Ásia. Mas, na verdade, a sociedade portuguesa era uma das mais homogéneas de todas as europeias. Os seus traços característicos punham em evidência uma grande unidade cultural, religiosa e étnica. Uma só língua dava forma a esta homogeneidade. Nas ruas das cidades, era raro, muito raro, cruzar um africano, um asiático ou qualquer outro estrangeiro. Além de tudo isto, o regime autoritário reforçava a ausência de pluralidade na sociedade portuguesa.

Sem vocação agrícola notável e sem recursos minerais (carvão, ferro, petróleo), a economia exibia as taxas de produtividade mais baixas da Europa. O nível de vida das populações era de uma pobreza certa. A permanente emigração para o Brasil e outros países da América Latina traduzia as dificuldades do desenvolvimento. Só em finais dos anos cinquenta e início dos sessenta é que a emigração para o Ultramar, Angola sobretudo, ganhou algum relevo. Curiosamente, aumentou durante os anos de guerra.

No final desta década de cinquenta, o regime corporativo ou do “Estado Novo” conhecia uma espécie de apogeu. O país tinha sido poupado à guerra e as reservas financeiras eram boas. Apesar da pobreza do povo, o Estado era relativamente rico. O governo acreditou que poderia, a partir de então, sem correr os riscos do capitalismo de livre iniciativa, prever e conduzir o crescimento económico. Apesar da ditadura de vinte anos, Portugal acabara de ser aceite pela comunidade internacional: a OTAN, a ONU e a EFTA receberam a adesão do país. O governo não tinha cedido, após o fim da guerra, aos direitos do homem, à democracia ou às liberdades públicas. Mau grado essas circunstâncias, podia agora sentar-se à mesa internacional, ao lado das democracias ocidentais e dos vencedores da segunda guerra. O facto era tanto mais notável quanto a Espanha não fora aceite na OTAN e não apresentou a sua candidatura à EFTA. É possível que, sem esta complacência ocidental e democrática, o regime não tivesse durado tanto, ainda mais vinte anos. Não o saberemos nunca. Mas é verdade que o clima internacional, a guerra fria e a cumplicidade amistosa de bom número de governos ocidentais contribuíram para a longevidade do regime.

Mas a História tem os seus caprichos. Nos últimos anos de cinquenta e primeiros de sessenta, uma série de acontecimentos vai mudar o panorama nacional. Novas forças começam a preparar-se para que o povo, as instituições e as empresas encetem uma longa e surpreendente jornada. A campanha eleitoral de 1958, durante a qual surgiu a figura do general Humberto Delgado, deu esperança aos opositores e ameaçou o governo. O início do Concílio Vaticano II inquietou os poderes estabelecidos e abriu novas vias aos católicos portugueses. Ou, em qualquer caso, inquietações e esperanças. A famosa “carta do Bispo do Porto” deixou o governo crispado e comoveu muitos católicos. A ponto de o Bispo, no regresso de uma viagem a Roma, ter sido impedido de regressar a Portugal. Os movimentos estudantis, muito activos, revelaram um embrião de classe média e uma nova audácia. O início das guerrilhas em Angola foi a prova maior. A conquista de Goa, pelos exércitos da União Indiana, em 1961, deixou o país e o seu chefe de governo em estado de choque. E nem sequer a violência indiana ou o terrorismo das primeiras acções independentistas foram motivos suficientes para conferir razão e solidez à causa do governo.

Ao mesmo tempo, a energia e a pressão económica da Europa em reconstrução estimularam uma emigração sem precedentes: mais de um milhão e meio de portugueses vão emigrar no decurso dos próximos anos. Já não vão para as Américas: é a Europa, especialmente a França, o novo destino. A integração europeia de Portugal começou então, com os cidadãos, antes do Estado. Ao mesmo tempo, o turismo fez vir ao país milhões de estrangeiros. Em conjunto, estas novas realidades, emigração e turismo, tiveram consequências indeléveis nas mentalidades e nos comportamentos. No mesmo sentido contribuiu, apesar do controlo do Estado, a televisão, criada em 1957. Nessa altura, a escola ainda não assumia uma cobertura completa do país e a escolaridade estava longe de ser universal. Quer isto dizer que a televisão se transformou no principal unificador cultural do país. Antes de os portugueses saberem todos ler e escrever, antes de terem adquirido hábitos de leitura, nomeadamente de jornais, já se tinham adaptado à televisão como meio de informação.

Na economia, preparava-se uma nova era. A adesão à EFTA teve efeitos imediatos: a abertura comercial permitiu um formidável crescimento industrial. Os investimentos estrangeiros apareceram e novas empresas viradas para a exportação instalaram-se por todo o país. Criaram-se novos hábitos. Uma nova organização do trabalho, uma produtividade elevada e salários superiores eram agora possíveis. Em muitas áreas rurais, foi esta a altura da revolução industrial. Tanto para a manufactura, como mesmo para certo tipo de agricultura, abriam-se novas oportunidades. Cerca de 1974, o país conhecia o pleno emprego, para o que contribuíram a industrialização, a guerra colonial e a emigração. Pela primeira vez, havia emprego abundante para as mulheres. Vinte anos mais tarde, elas serão metade da população activa.

Toda a sociedade estava em mudança. Por efeito de várias forças, incluindo a guerra do Ultramar que ocupava, anualmente, bem mais de cem mil soldados. As consequências deste esforço foram devastadoras. Tanto social, como económica e politicamente. A guerra esgotava os recursos e os espíritos. Por causa da guerra, as hipóteses de democracia eram menores. Por causa da guerra, jovens partiam para o estrangeiro. Mas, paradoxalmente, a guerra tinha outros efeitos. Por um lado, provocou a mistura, o “brassage” das populações, até então fechadas nas suas regiões e nas suas comunidades rurais. Por outro, estimulou a democratização dos costumes: a hierarquia militar e a camaradagem reinam na guerra e no regimento onde as divisões sociais se esbatem. A mudança surgia por todo o lado. Só a política parecia resistir. Apesar de se terem desenhado alguns conflitos dentro das esferas do poder, os responsáveis políticos estavam convencidos de que era possível resistir e fazer frente à nova sociedade que nascia sob os seus pés e diante dos seus olhos. Sem as colónias, dizia-se, o regime acabaria e Portugal não sobreviria. A primeira parte da previsão seria talvez verdade, como se verificou. A segunda era evidentemente retórica. Portugal mudaria com certeza. Autista, a elite política preparava o seu túmulo e seria varrida de cena em 1974. Mas a revolução e a contra-revolução que se seguiram e conduziram à fundação do primeiro regime democrático português, foram sobretudo o resultado das mudanças sociais que as precederam.

Aparentemente, a revolução de 1974 teve como causa a recusa dos soldados de prosseguirem uma guerra sem solução à vista. A descolonização que se seguiu foi feita à pressa e desajeitadamente, num processo que não deixa razões para orgulho. Em casa, o movimento político transformou-se rapidamente em revolução. Democrática para uns, socialista para outros. Na verdade, como todas as revoluções, foi ambígua. Depois de um ano de vitórias radicais (com nacionalizações de empresas e sectores produtivos, ocupações de casas e terras, expropriações sem compensação, prisões arbitrárias e controlo estatal da imprensa e da televisão), os moderados levaram a melhor e, como quase sempre depois de acontecimentos deste alcance, ganharam as eleições. Militares e partidos de extrema-esquerda são afastados do governo. Entre 1976 e 1982, as instituições do poder político ficam civis e legítimas. Uma espécie de normalização democrática corre o seu curso. Começaram as reprivatizações. A pluralidade de partidos, da imprensa e de opiniões é restaurada, ou antes, estabelecida.

Apesar do êxito deste processo, Portugal perdeu tempo. Precioso, segundo o que sabemos hoje. Com a guerra que se eternizava, o regime autoritário que se arrastava, uma revolução que perturbou e uma contra-revolução que se improvisou, o país perdeu tempo, energias e recursos, assim como criou conflitos e abriu feridas. Que perturbaram ou atrasaram a evolução futura. Conhecemos hoje, da península Ibérica à Europa central e de Leste, experiências pacíficas de transição rápida, tão surpreendentes quanto a portuguesa, que demonstram como, com outros tipos de mudança radical, se ganhou tempo e energia, em vez de perder.

É possível, no entanto, que, de todo este processo, não tenham sobrado, para além da evidente crispação da vida política que dura até hoje, sequelas irreversíveis. O crescimento económico, o regime democrático inexperiente mas funcional e a integração europeia ajudaram a esta espécie de reconstrução necessária depois das vicissitudes políticas. A ponto de se poder falar, hoje, pela primeira vez em dois séculos, de uma espécie de “consenso constitucional”. Apesar das divergências e dos conflitos, mau grado a crispação, o essencial parece ser aceite pela maioria. Ninguém fica de fora: não há exilados, deportados ou refugiados; não existe o delito de opinião, não há presos políticos nem censura. Monárquicos e republicanos, católicos e ateus, capitalistas e socialistas, judeus e muçulmanos, todos coexistem. “Coisa pequena”, dirão alguns. Talvez. Mas, em Portugal, acontece pela primeira vez.

Até ao fim dos anos 1990, vários ciclos caracterizam a vida colectiva dos portugueses. Aqueles foram percorridos a uma grande velocidade. Em primeiro lugar, o crescimento económico. Segundo, a transição demográfica. Terceiro, a fundação do Estado democrático. Finalmente, a integração europeia. Não obstante as dificuldades e a sucessão de crises que levaram o país à beira de desastres maiores, estas diversas etapas foram completadas com uma certa euforia. Nesse período, o espírito do tempo foi feito de muitos e contraditórios sentimentos. O de libertação e de paz, depois de uma guerra e de uma ditadura. O de abertura a espaços e horizontes ilimitados. O do consumo e do conforto material acrescido. O das benfeitorias de um Estado de protecção universal e igualitário. O do acesso generalizado à escola e à cultura. O da modernidade longamente adiada. O do crescimento das aspirações sem entraves. Os portugueses passaram a sonhar menos com glórias do passado e a pensar mais, com realismo relativo, no presente. Na verdade, o balanço de três décadas vividas a passo estugado é impressionante.

Em trinta ou quarenta anos, a mudança foi vasta e profunda. Um país tradicionalmente patriarcal e “machista” cedeu diante da nova igualdade entre sexos. As mulheres são finalmente integradas na vida pública, no trabalho e na escola. Estão ainda longe de chegar aos cargos mais altos da política e da grande empresa económica e financeira, mas já fazem parte, sendo por vezes maioritárias, da Administração Pública e das Universidades. Ainda não obtiveram a igualdade de salários na empresa privada, mas aquela já vigora na administração. O seu estatuto social e político é talvez equivalente ao das mulheres europeias, mas foi conseguido num curto espaço de tempo. Foi esta, com certeza, uma das principais revoluções silenciosas do Portugal contemporâneo.

Ainda neste período, a população mais jovem da Europa, com uma alta natalidade e uma baixa proporção de idosos, envelheceu rapidamente e regista hoje muito baixas natalidade e fecundidade, fenómeno que, estranhamente, parece não preocupar, nem sequer ocupar as atenções dos responsáveis ou das elites. No decurso desta transição demográfica, graças ao desenvolvimento da saúde pública e dos costumes, a mortalidade infantil recuou para níveis surpreendentes: a sua taxa é hoje uma das mais baixas do mundo. Paralelamente, as famílias reduziram-se e estão limitadas a duas gerações e a menos de três pessoas em média. O número de pessoas vivendo sozinhas cresce. Aumenta rapidamente o número de idosos a viver em instituições especializadas. A permissividade de costumes está na origem da diversidade de famílias: casamentos serôdios, filhos “fora do casamento”, divórcios, segundos e terceiros casamentos e uniões de facto são numerosos. Estas são tendências previsíveis e semelhantes às que se verificam noutros países. O que surpreende é a rapidez da transição, assim como o seu carácter tardio.

Herdeiro aparente de uma só cultura, Portugal era um país homogéneo onde se falava apenas uma língua, se rezava a um só Deus, se obedecia a um patrão, seguia um partido ou pertencia a uma etnia. Este país já quase não existe, está em transformação acelerada. A pluralidade de pessoas e culturas é visível nas ruas e nos espaços colectivos. Mais uma vez, é como alhures na Europa, mas, para os portugueses, é uma novidade absoluta e uma realidade construída de fresca data. Da mesma maneira, um poder opressivo, piramidal, vertical, unitário e fortemente centralizado fragmenta-se e divide-se: hoje existe uma diversidade de centros de poder, nacionais e locais, políticos e económicos, sociais e culturais.

Um fornecedor tradicional de mão-de-obra para as Américas e África e, mais recentemente, para a Europa, transformou-se, desde os anos noventa, num país de acolhimento de centenas de milhares de imigrantes de África, do Brasil e da Europa central e de Leste. Esta é uma viragem absoluta e uma ruptura fundamental com o Portugal tradicional. Depois de séculos de emigração, eis que o país é também acolhimento. Antes dos imigrantes, já o país tinha recebido, num só ano, cerca de 600.000 ditos “retornados”, naquele que foi talvez o maior e mais rápido movimento de população, em tempos de paz, da história da Europa. A relativamente fácil e pacífica integração desta população constitui ainda hoje um feito ímpar e pouco estudado.

O crescimento industrial e de serviços foi, durante vinte a trinta anos, muito significativo e semelhante ao dos “tigres asiáticos”. Entre 1960 e 1990, Portugal registou um crescimento superior a todos os países europeus. Taxas anuais da ordem dos 7% ou 8% eram possíveis. Crescimentos industriais anuais superiores a 15% verificaram-se neste país, onde, aliás, caso único na Europa, a população activa industrial nunca foi maioritária. Com efeito, a população do sector dos serviços passou directamente do terceiro para o primeiro lugar.

Uma sociedade que deixava os mais fracos, os idosos, os pobres e os doentes ao cuidado da sorte, da caridade, do gesto privado e das igrejas conseguiu organizar, em muito pouco tempo, um Estado de protecção, um Estado Providência. Este, embora pobre, é universal e não discrimina. Em 1960, a Segurança Social apoiava cerca de 120.000 pensionistas. Estes são hoje perto de dois milhões e meio, o que não deixa de criar problemas muito sérios, dada a pressão demográfica e financeira exercida sobre o sistema. Com efeito, só 1,7 trabalhadores activos suportam um pensionista, o que é o mais baixo rácio de toda a Europa.

Uma sociedade onde o “caciquismo”, a “cunha”, o favor cúmplice, o nome de família e os “conhecimentos” tinham, ainda recentemente, toda a importância, começa a conhecer um volte face. Não que o mérito tenha já, de um dia para o outro, ganho o predomínio. Mas percebem-se os sinais de começo de uma nova ordem, de novos costumes. A igualdade perante a lei é reconhecida. O mérito e a avaliação técnica independente começam a ser praticados. O reconhecimento do primado do cidadão e de seus direitos foi um passo importante. Cada vez mais, pensa-se que os conflitos possam ser resolvidos em tribunal ou, pelo menos, com recurso ao Direito. Todos os domínios da vida, da família à herança, do comércio ao trabalho, são abrangidos pelo novo entendimento da força da lei e do Direito. Os cidadãos tomam consciência dos seus direitos. A procura de Justiça cresce. Os empresários e os trabalhadores, assim como os proprietários, os inquilinos e os agricultores assinam contratos escritos e formais. Estamos ainda longe de uma sociedade meritocrática, mas os símbolos e as formas começam a ser visíveis.

Uma população pobre, realmente pobre, mal alimentada, frequentemente doente, mal alojada e sem acesso aos serviços públicos básicos, conheceu finalmente trinta anos de melhoramento constante do seu bem-estar. Mais de dois terços das famílias vivem hoje em casas de que são proprietárias. A quase totalidade é servida de água, gás e electricidade, usufruindo de cozinha, de uma qualquer forma de aquecimento e de água quente. Tudo isso está longe, muito longe dos menos de um terço dos agregados familiares que tinham esses benefícios. Entre os anos setenta e oitenta, o primado foi para os grandes equipamentos colectivos, as redes de esgotos, de electricidade, de gás e de água. Depois, com os anos noventa, chegou o tempo dos electrodomésticos: telefone, televisão, frigorífico, automóvel e outros. Gradualmente, a estrutura de despesa e de consumo dos agregados mudava também. A alimentação e a renda de casa representam uma muito menor proporção, enquanto as deslocações, a roupa, a educação e a cultura aumentam a sua parte.

Desde a década de ouro, na economia, dos anos sessenta a setenta, os portugueses viveram vinte a trinta anos de progresso permanente. É verdade que fizeram a experiência de várias crises, na política ou na economia. Mas nada interrompeu, de modo profundo, um melhoramento real do bem-estar. A esperança era mais do que um sentimento: era uma certeza. O presente parecia bom, o futuro ainda melhor. No entanto, por volta dos finais dos anos noventa, a euforia começou a ser posta em causa. A incerteza apareceu. Seguida de perto pela dúvida e a inquietação. O que parecia ter sido adquirido já o não era. O progresso já não era constante e linear. Depois de ter conhecido as delícias do crescimento e do conforto, os portugueses compreenderam que nada é definitivo. A democracia não era, afinal de contas, igual a educação, emprego ou eficiência da Administração Pública. A Europa não era a garantia do bem-estar e da segurança. O país começou a ver as suas taxas de crescimento abrandar e ficar aquém das médias europeias. Não era uma tragédia, mas, sofrendo de uma espécie de obsessão comparativa, com os outros países da Europa, descobriu-se que, desde o início dos anos 2000, o endividamento nacional aumentava muito rapidamente. Gastava-se muito mais do que se tinha e produzia. No conjunto, Estado, empresas, bancos e famílias devem mais de cem por cento do produto nacional. Este estado de coisas fica a dever-se ao crescimento rápido, a bastante demagogia política e ao consumo público e privado quase sem limites. Mas também a um défice comercial permanente. A parte dos recursos naturais e dos bens manufacturados ronda um terço da produção nacional, o que é sinal alarmante, sobretudo num país cujos serviços são pouco competitivos. A insuficiência de recursos tornou-se evidente: além da pobreza natural, faltava inteligência profissional, organização e capital.

A própria vida política tornou-se fonte de inquietação. A aparente estabilidade era, afinal, frágil. Um número excessivo de ministros (mais de vinte e cinco...) nalguns postos chave (Educação, Saúde, Obras Públicas, Finanças...), em trinta anos, mostra uma das razões pelas quais as políticas públicas não foram constantes, a ponto de darem frutos. Sinais de corrupção apareceram com insistência. Em dez anos, dois Primeiros-ministros abandonaram as suas funções e um foi demitido. Por duas vezes, realizaram-se eleições antecipadas. Por duas vezes, o Parlamento foi dissolvido, uma delas contra a vontade da maioria dos deputados. Uma legislatura completa, de quatro anos (de 2005 a 2009), não bastou para criar o sentimento de estabilidade. Até porque foi seguida, há poucos dias, de um Parlamento e de um governo sem maioria.

A explosão das classes médias, em plena expansão da sociedade de consumo, foi acompanhada do crescimento das desigualdades sociais e económicas. Não houve, é certo, aumento dos excluídos, mas a distância entre os mais ricos e os mais pobres é maior. Sabe-se que o progresso económico, assim como o da educação e da formação profissional, podem, numa primeira fase, reforçar as desigualdades. Foi o que aconteceu em Portugal. Todas as classes sociais ganharam e viram aumentar o seu nível de vida, mas as diferenças entre elas são mais nítidas. Há, na tradição, na cultura, nas políticas públicas e nas estruturas sociais, factores que reforçam a desigualdade. Nesse sentido, a sociedade portuguesa é injusta.

O desemprego, que nunca atingiu em Portugal os valores da maior parte dos países europeus, recomeçou a crescer bem antes da grande crise de 2008/2009. As empresas portuguesas têm dificuldade em suportar a concorrência dos países asiáticos, tanto quanto a de países mais produtivos da Europa. A chegada, ao mercado interno europeu, dos países da Europa central e de Leste, deixou a economia portuguesa debaixo de uma pressão para a qual não estava preparada. Apesar dos esforços de vários governos, as finanças públicas não conseguem chegar a um equilíbrio sustentado. A instabilidade financeira ameaça os sistemas sociais públicos, cuja despesa é já superior, proporcionalmente, à da maior parte dos países europeus. Aquando da grande crise de 2008-2009, um elemento perturbador surgiu ainda: o Estado português, tal como tantos outros na Europa, demonstraram crescente incapacidade de prevenção e deficiente capacidade de reacção diante dos problemas modernos e as ameaças contemporâneas.
Depois de um crescimento extraordinário, a educação pública revelou uma qualidade medíocre: o abandono e o insucesso são os mais elevados do mundo ocidental; a formação cultural e técnica dos alunos deixa a desejar, como o demonstram as estatísticas internacionais. Em termos comparativos, as capacidades técnicas da mão-de-obra portuguesa são muito inferiores às dos países parceiros ou concorrentes. A produtividade dos trabalhadores portugueses encontra-se no fundo da escala. E as tentativas de reforma, feitas em sucessão, parecem não melhorar significativamente este estado de coisas, numa altura em que a ideia de aprendizagem, quase lúdica, se sobrepõe à de ensino, que desvaloriza. Num tempo em que a equívoca noção de competência adquire o primado sobre a de saber. Ou numa altura, enfim, em que se tenta reduzir a Universidade a um tecto, retirando-lhe o papel orientador da ciência e da investigação que devia ter.
Por sua vez, o sistema de saúde pública, o Serviço Nacional de Saúde, não mostra resultados em linha com o enorme esforço financeiro de que é responsável. Não parecem faltar médicos, enfermeiros, hospitais ou equipamentos, em paralelo com os nossos vizinhos: mas a organização dos serviços e o poder das corporações profissionais são tais que o tempo de espera médio e o desperdício de recursos, segundo o Tribunal de Contas, são enormes.
O sistema de Justiça, servido proporcionalmente por mais juízes, procuradores e advogados que em outros países europeus, está em crise séria desde há vários anos: os atrasos são excessivos, os custos são elevados e a confiança que os cidadãos depositam nos seus juízes e tribunais, encontra-se, segundo sondagens sustentadas, no mais baixo ponto.

A abertura económica à Europa e ao mundo, provável responsável por alguns dos êxitos mais notáveis das últimas décadas, está também na origem de ameaças de que se não tem tomado suficiente consciência. As empresas, pouco habituadas à mudança e à inovação, largamente dependentes do Estado ou de grupos internacionais, têm dificuldade em colocar as indústrias e os serviços à altura da concorrência internacional. Em certa medida, muitas recorrem ainda a um trunfo do passado: o custo reduzido da força de trabalho. Mas é agora tarde demais: outros, na Europa de Leste e na Ásia, fazem-no melhor.

É verdade que a indústria portuguesa está longe do que era há trinta anos. O têxtil já não é o primeiro sector de exportação e os recursos naturais já quase não pesam na balança. Agora, são as indústrias mecânicas, electrónicas e do automóvel que ocupam os primeiros lugares na produção e na exportação. É verdade. Mas a dependência do exterior e a fragilidade subsequente, nomeadamente em tempos de crise internacional, são sinais de fraqueza do sector no seu conjunto. A isso acrescenta-se o declínio das actividades do mar, da terra e da floresta. A euforia da industrialização tardia e da urbanização dos anos sessenta a oitenta relegou estes sectores para as margens das preocupações políticas e das orientações estratégicas nacionais.

A União Europeia, com as suas políticas comuns desenhadas para outros países e outros climas, estimulou no mesmo sentido. Deu-se uma espécie de troca: a indústria, as estradas, as comunicações e a energia contra o mar, a agricultura e a floresta. Os recursos europeus e nacionais foram canalizados para as primeiras, enquanto nos outros sectores, considerados pertencerem ao passado, o esforço foi sobretudo o de retirar activos. O país importa hoje mais de dois terços da sua alimentação e metade dos produtos do mar que consome. Em poucos anos, a população activa na agricultura e outros sectores primários passou de 40% a menos de 6% do total. Trata-se de uma mudança previsível, em acordo com as tendências das sociedades contemporâneas, mas que decorreu demasiado rapidamente sem deixar uma agricultura produtiva à altura das necessidades. O mundo rural português é hoje povoado de pessoas idosas ou simplesmente abandonado. Muito poucas explorações tiveram êxito na reconversão e na adaptação às exigências europeias e internacionais.

Paralelamente, uma urbanização demasiado rápida conduziu milhões de pessoas às áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. Inevitavelmente, nestas condições e na ausência de um Estado com tradição e competência de ordenamento, este processo foi desordenado, mesmo caótico em muitos casos. Os principais problemas sociais contemporâneos encontram-se hoje nestas áreas urbanas. Não mais, como se dizia há três ou quatro décadas, no mundo rural atrasado e pobre, mas no universo urbano descuidado, onde, além do mais, morrem os centros urbanos históricos e se desvitaliza uma parte essencial da identidade nacional.

É nestas aglomerações que o tráfico automóvel se transformou num problema maior. Os portugueses renderam-se ao automóvel, no que foram ajudados por uma política de construção de auto-estradas que mudou o país. As deslocações internas, tradicionalmente difíceis, podem hoje ser rápidas e simples num país “mais pequeno” onde todos estão perto uns dos outros. Mas o tempo perdido, todos os dias, nos movimentos pendulares, mostra que os ganhos em eficiência tiveram um preço elevado.

Na vida pública e política, a corrupção tornou-se entretanto um problema real. Ajudada pela democracia, assim como pela liberdade de imprensa, a informação sobre a corrupção está generalizada, se bem que quase nunca fundamentada e identificada. O dinheiro aparentemente fácil, as tentações de um mercado aberto e a inexistência de poderes de regulação eficazes ajudam. Os hábitos dos grandes grupos económicos que viveram sempre perto do Estado e o peso excessivo de uma Administração minuciosa criaram uma situação pouco confortável, agravada pela eventual colaboração de alguns políticos e eleitos. Pior: parece haver poucos meios de luta contra esta praga. A Justiça funciona mal e não está à altura. Há momentos em que se tem a sensação de que não existe antídoto para a actividade dos predadores do Estado e do bem público.

O crescimento rápido da população estrangeira, mais de 5% do total, é uma das grandes novidades da sociedade portuguesa. Africanos de Cabo Verde, de Angola e da Guiné, Brasileiros e Ucranianos formam os principais grupos de estrangeiros estabelecidos. Esta nova experiência, a coexistência com imigrantes dentro das nossas fronteiras, revelou-se, após duas ou três décadas, geralmente positiva. Isto é, estabeleceram-se relações cordiais, sem atritos ou conflitos excessivos, entre as várias comunidades. As condições sociais de alguns destes grupos, nomeadamente nas concentrações em bairros degradados de carácter étnico, não são as melhores e podem transformar-se em fonte de perturbações. Mas pode dizer-se que, até hoje, ocorreu uma espécie de integração natural. De qualquer modo, esta realidade, paralela ao movimento de emigrantes portugueses para o estrangeiro, obriga a sociedade e as autoridades a reflectir na inescapável natalidade e na dinâmica demográfica. São estes problemas invisíveis, que as populações evitam, mas que estão sempre presentes. Em geral, quando se tornam evidentes, é tarde de mais.

Os portugueses vivem muito melhor do que há trinta anos. A Europa, a globalização, o crescimento económico e a liberdade diminuíram os efeitos dos principais constrangimentos históricos: a pequena dimensão, a pobreza de recursos e a situação periférica. No entanto, apesar de transformados, ainda pesam. Ainda somos periféricos, pobres e de relativa pequena dimensão. E sobretudo incultos, que é uma forma de pobreza. Vivendo numa sociedade aberta, aspiram ao que conhecem, que é quase tudo, os mais altos níveis de consumo, segurança e conforto. Viajando, recebendo turistas e olhando para a televisão, os portugueses formam as suas aspirações, as ideias de bem-estar ao qual sentem ter o direito. Mas, sendo os mais pobres do grupo dos mais ricos, sabem que são, entre todos, os que estão mais afastados da possibilidade de satisfazer as suas expectativas.

Entre os anos sessenta e os noventa, os portugueses revelaram uma surpreendente plasticidade, quer dizer, uma enorme capacidade de adaptação a novas circunstâncias: a guerra e a paz, o autoritarismo e a democracia, a África e a Europa, a sociedade fechada e a aberta, a emigração e a imigração. Fizeram-no por vezes com energia dramática, correndo riscos, mas sempre souberam evitar o pior. Da ditadura, da guerra, da revolução e da contra-revolução sobram talvez recordações crispadas, mas não sequelas irreparáveis. Os sectores mais abertos à sociedade e ao mundo exterior, à comparação e à emulação, souberam ser flexíveis e empenharam-se numa via de renovação e reconversão. São os casos da banca, das telecomunicações, da grande distribuição, da hoteleira, de alguns serviços de turismo e de certas actividades ligadas à ciência e à cultura. Noutras, reina ainda um certo imobilismo e é mais difícil o desenvolvimento, como são exemplos a justiça, a educação e a Administração Pública, ao lado de sectores produtivos como os têxteis, a construção, a metalurgia e o agro-industrial. São em geral sectores fechados à exposição externa, à sociedade e à emulação. São sectores e sistemas organizados sobretudo com vista à satisfação dos interesses dos seus corpos instituídos aos quais os poderes democráticos não souberam impor uma lógica de serviço público ou um ânimo concorrencial.

A democracia, apenas nascida em 1974, ou antes, em 1976, era uma esperança maior. A Europa também, como horizonte capaz de substituir os antigos sonhos atlânticos e africanos. Temos democracia e temos Europa, pelo que se poderia falar de êxito. Mas eram também, com mais ou menos fantasia, o resumo e o símbolo de todas as esperanças e aspirações, do desenvolvimento à justiça, do conforto à educação e à cultura. Nisso, a democracia e a Europa foram também uma ilusão.

A Europa, em especial, mais concretamente a União Europeia, obriga-nos, obriga todos os povos, a uma reflexão essencial e permanente, o que está longe de acontecer. A Europa é talvez o mais forte motor de mudança que se conhece. Mudará tudo, da civilização material à cultura. Até à alma, poder-se-á dizer. Apesar desta enorme importância, o debate público, motivador de consciência, é quase inexistente. Nem em período de eleições, nem em tempos normais. Os Estados, os poderes públicos e os partidos políticos não querem partilhar com os cidadãos as suas reflexões sobre a Europa, sobre a realidade futura do Estado e da nação, nem sequer sobre as dificuldades do nosso país. A Europa não se discute. A Europa não discute. A Europa não quer ser discutida.

Sob o peso de uma identidade forte, os portugueses encontram-se hoje diante da necessidade de se comportar como toda a gente. De considerar que o seu país é como os outros. Os quarenta anos de ditadura não são mais desculpa nem pretexto. Os traços especiais que distinguiam Portugal, a pobreza, o atraso, o analfabetismo e a falta de liberdade, esbateram-se. Ser como os outros pode parecer um programa vil e triste, mas é, em última análise, uma grande ambição. Com uma certeza: apesar de igual aos outros, é o nosso.
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NOTA (CMR): este post é uma extensão do que está afixado no Jacarandá e no Sorumbático, onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sábado, 26 de dezembro de 2009

A contribuição lisboeta para Quioto e Copenhaga - Solução

Estacionada do lado oposto à paragem da Carris (na Av. João XXI, em Lisboa), esta brigada da Divisão de Trânsito da PSP não foi - nem muito nem pouco - dissuasora do caos instalado. Se o queria ser, não cheguei a perceber - pois, ao fim de algum tempo, acabou por se ir embora.
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Pelo menos em Lisboa, a impunidade do estacionamento selvagem já atingiu um tal nível que, actualmente, é incontrolável.
O que é revoltante, no meio deste caos, é o ar resignado (ou mesmo satisfeito!) com que tudo isto é encarado por aqueles a quem pagamos o ordenado para que não seja assim. Bem podem limpar as mãos à parede - a começar pelo autarca que mora aqui perto.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Bué de presépios

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Por Antunes Ferreira

COM A CHEGADA DAS FESTAS, há quem se dedique a coisas que não lembram ao diabo, salvo seja. Um exemplo. Cá em casa fazemos colecção de presépios. Que já são bué. De acordo com fontes bem informadas e que, além disso, fizeram uma laboriosa e atenta contagem, já são 417 (mais vaca, menos burro). Em cinco armários com paredes de vidro, como o PCP. Iluminados a preceito. Todos os Natais acrescentamos um que outro ao acervo. E, mesmo durante o ano… Por onde passamos, se vemos algo interessante, é tiro e queda. Óbvio, se houver euros, cada vez mais caros e raros.

Temo-los dos mais diferentes, das proveniências mais diversas, das dimensões mais variadas e dos estilos e materiais mais interessantes. Até um, boliviano, com a Senhora deitada na cama e com o ilustre rebento ao lado. Sentado, atento, reverencial e cuidadoso, está José, o primeiro pai putativo. Da História e do menino. Para compor o ramalhete, uns quantos pastores com caras de índios.

Este ano – curiosamente o Natal consegue calhar sempre a 25 de Dezembro, unanimidade que a Páscoa recusa, como o Mário Soares não aceitou a unicidade sindical da Inter, e uma vez mais isso aconteceu, mais precisamente, ontem – fizemos mais uma pesquisa. E não é no dia 22, em pleno centro comercial (não digo o nome por mor da publicidade, apesar do esforço do engenheiro Azevedo) nos deparámos com um de estilo centro -americano, colocado estrategicamente em montra apelativa?

Entrámos e vá de apreçar o nascimento. Uma menina com muito bom aspecto e um par de… olhos de fazer ressuscitar o Lázaro sem necessidade de qualquer intervenção jotacênica, abeirou-se e ondeou-se até nós. Tive a sensação de que a Raquel não tinha ficado muito bem impressionada, quiçá porque, para ela, o presépio era muitíssimo mais interessante. Eu, como frequentemente nestes casos, natural e obstinadamente mantive-me do outro lado da barricada.
A jovem, cujo decote era abertamente natalício, de acordo com a época, depois de questionada pela minha cara três-quartos, informou que se tratava de artesanato puro, do Peru, argila policroma, um encanto. Avalisada por marca do Governo de Lima, registada nas traseiras da manjedoura, o que é perfeitamente aceitável e justificável. Preço, não fora a das curvas a anuncia-lo, ter-me-ia causado, no mínimo um ameaço de enfarte. Mas, face às circunstâncias, até comentei que não era de todo despropositado. A Raquel franziu o cenho.
Aceitava, obviamente, dinheiro electrónico. Maquineta, fatalmente. Paguei – quando toca a saldar contas, passo sempre do colectivo nós para o individual eu – com o famigerado cartão de débito. E o banco, renegando o Lehman Brothers, aceitou e debitou. A beldade sorriu, exibindo uns dentinhos prenunciadores de dentadinhas carinhozinhas, agradeceu, inclinando-se numa quase vénia. Só então reparei que, de cima, se descortinava que calçava graciosamente botas. Um panorama em profundidade, natalíssimo. Saímos com a sacrossanta família perfeitamente embrulhada e em saco plástico alusivo à época.

Chegados ao lar, doce, lar, a nossa anja-da-guarda (que já faz parte da mobília e da família), a Conceição, a quem mostrámos o conjunto, não se conteve: «É lindo. O chinês lá ao pé de minha casa tem iguais. A oito euros e noventa e nove cêntimos, barato…» Nem digo quanto custou o que adquirimos. Mas congeminei para dentro de mim, que os olhos oblíquos do Li Wang, ou Ping, ou Hua, não se deviam comparar, nem de longe, nem de perto, aos tais da nossa atendedora. E a Conceição, raios a partam, a insistir: «Claro, é made in China». O presépio. Feliz Natal.

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

CONFRONTADO COM A QUESTÃO
do casamento entre homossexuais, Cavaco Silva contrapôs: «A minha atenção está noutros problemas, como o desemprego, o endividamento, o desequilíbrio das contas públicas, a falta de produtividade e de competitividade do país». Uma resposta ponderada e preocupada, com a qual não deixarão de estar de acordo até muitos dos que aprovam a legislação dos casamentos gay.

Mas eis que o ressuscitado deputado socialista Sérgio Sousa Pinto vem comunicar ao país que vê nas sensatas palavras do Presidente da República «uma intromissão na agenda do partido que apoia o Governo», ou, pior ainda, «uma dramatização indesejável da vida política», se não mesmo um cenário de horror: o PR está «a pôr em causa as condições de estabilidade política». Intromissão?! Dramatização?! Instabilidade política pelo facto de o Presidente afirmar que está mais preocupado com o desemprego e a falta de competitividade do país do que com os casamentos gay?! A irrazoabilidade e o despropósito da diatribe de Sousa Pinto atingiram um tal absurdo que a primeira reacção foi admitir que ele tinha acabado de sair de uma noite de insónias, de atravessar um ambiente saturado de substâncias psicotrópicas ou de ter sofrido um qualquer abalo psicológico. Mas não.

Para quem ainda pensasse que a aberrante intervenção era resultado de um delírio febril momentâneo ou de qualquer descompensação emocional de Sousa Pinto, José Sócrates tratou, rapidamente, de esclarecer o propósito político e o alcance partidário da desconsideração ao Presidente da República. Fazendo questão de elogiar publicamente «a combatividade» de dois, apenas dois, dos vários vice-presidentes da bancada parlamentar do PS: «o Ricardo Rodrigues e o Sérgio Sousa Pinto» (uma dupla de susto, que mostra bem o nível a que desceu o círculo de fiéis de que Sócrates está hoje rodeado).

O primeiro-ministro, já se percebeu (e escusava de forçar a nota a este ponto lamentável de irresponsabilidade institucional), está sobretudo interessado em arranjar pretextos para não governar. E em alimentar querelas políticas e guerrilhas artificiais com a Oposição, em geral, e o Presidente da República, em particular.

Não se lhe augura grande futuro por este caminho suicidário. Os portugueses, na sua maioria, já perderam a paciência para este folclore e este radicalismo lamechas do primeiro-ministro. E até o PS começa a ver em Sócrates mais um problema sem remédio do que um líder que dê garantias de futuro.

«Sol» de 24 Dez 09

O Drama do Desemprego

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Por Maria Filomena Mónica

ANDO HÁ MESES para escrever um artigo sobre o desemprego. Se não o fiz, é porque o tema me bate à porta e me faz sofrer. Poder-se-ia pensar que um membro da classe média estaria acima destas preocupações, mas há muito que o fenómeno deixou de ser um exclusivo do proletariado. Agora, as empresas usam o mundo como palco das suas actividades, o que, para um país que vendia mão-de-obra barata, é complicado. Tudo isto faz parte do Progresso mas, tal como sucedeu durante a Revolução Industrial, este provoca vítimas. Se me preocupa o desemprego dos jovens – alguns deles meus alunos – angustia-me mais o de longo prazo, que atinge gente já fragilizada. Aos primeiros, digo para emigrarem; aos segundos, não sei o que aconselhar.

Em 2009, a taxa de desemprego vai aumentar. Previsivelmente, o anúncio do engº Sócrates durante a campanha eleitoral no sentido de que iria «criar» 150.000 empregos foi um embuste. Na realidade, o desemprego vai subir para 7,8%, como explicou James Daniel, o chefe da missão do FMI que há dias esteve em Portugal, acrescentando que a economia portuguesa iria crescer menos do que a média europeia, em parte porque «as empresas, as famílias e o Estado têm estado sempre a consumir mais do que se produz».

A produtividade nacional é baixíssima, não porque os portugueses sejam especialmente preguiçosos, mas porque há políticos, gestores e empresários que não estão à altura da sua missão. Em 1988/9, quando entrevistei os maiores patrões da indústria portuguesa, o que me espantou, sobretudo entre os da têxtil, foi o optimismo. Deve ter sido por isso que, em vez de reconverterem as suas empresas com o dinheiro que a CEE lhes entregou, deixaram correr o marfim. O resultado está à vista.

Garanto-vos que não será a dádiva de uns magalhaezinhos que irá aumentar a produtividade nacional. Mas é a isto que o Primeiro-Ministro dedica os seus dias. Na minha opinião, em vez de se pavonear pelas escolas, o engº Sócrates poderia, pelo menos, dar a impressão de que se preocupa com o destino dos que estão ou vão ficar no desemprego.

Outubro de 2008

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Curtas-Letragens - «Natal...»

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Por Miguel Viqueira

POIS, NATAL OUTRA VEZ... Para uns o pior é coleccionar os pares de peúgas que os mais velhos oferecem, impenitentes; para outros, arrumá-los. Para aquele seu conhecido, o pior do Natal é suportar os cunhados. O Natal, que perdeu o sentido religioso de antanho e se converteu na festa da família, ou na chatice da família, que diria o tal outro, para ele foi sempre época de melancolia, desde miúdo. E de saudade. Apetecia-lhe sempre estar com quem não podia e tinha saudades do impossível. Hoje lembra-se sempre de tipos e de coisas perdidos na noite dos seus dias, como aqueloutro desconhecido, de umas duas vezes a idade dele da altura, que se perfilava no meio da rua deserta cada anoitecer. Era uma álea de plátanos, lisa e direita, mal iluminada, algumas folhas outonais ainda no chão húmido de chuva recente teimando em não sucumbir ao inverno, ninguém por perto, o silêncio apenas quebrado pelo rumor da cidade que então parecia longínquo. O que recorda é só as sombras da noite, o frio, as luzes pálidas, uma brisa fresca e seca, como de montanha, e o tipo ali parado, direito no seu fato de treino azul, toalha à volta do pescoço, a concentrar-se, movendo as mãos e os ombros em pequenos círculos, rítmicos, lentos, como num ritual estranho e de fim imprevisível. Depois respirava fundo e arrancava. Corria devagar, como a trote, doseando o esforço, disciplinando o alento, uma nuvem de vapor a desenhar-lhe a aura, e sumia ao fundo da rua, já no escuro. Pouco depois emergia da esquina e volta a começar: assim por horas, todas as noites... Já no colégio ouvia-o passar no beco das traseiras, os passos cadenciados batendo perfeitos no chão da noite; e na camarata, às escuras, ouvia-o ainda nas últimas voltas, até que o silêncio completo se abatia sobre ambos. Uma noite atreveu-se a perguntar-lhe o que fazia. Treinava. Queria correr os dez mil metros nas olimpíadas e corria todas as noites dez mil metros. Todas. Calculara as voltas a dar ao longo e sombrio quarteirão dos colégios e tornara-se sem o suspeitar sequer na companhia nocturna daquele miúdo. Com a persistência do artesão e a pontualidade do carteiro, nunca falhou uma noite, nunca deu um passo em falso, jamais alterou o ritmo cadenciado, nunca desistiu. Ele nunca chegou a saber como se chamava. E também não soube nunca se alguma vez conseguiu participar nas olimpíadas. De vez em quando pensa nele, e ouve-lhe os passos, e vê-o ainda desaparecer na noite do colegio como despareceu na noite dos seus dias. Pois, Natal...

Passatempo «Os circunflexos» - Solução e prémios

Actualizado com a solução da 1ª fase
(Resposta certa dada por 'Mg', às 12h19m)
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Dois dos prémios já reservados para este passatempo serão exemplares destes livros.
Poderá, eventualmente, haver mais.