quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Encomenda

Por João Paulo Guerra

Afinal, o político português que raramente tinha dúvidas e nunca se enganava, enganou-se.

OU SE ENGANOU
em 27 de Novembro de 2004, quando escreveu no jornal Expresso: "cabe às elites profissionais contribuírem para afastar da vida partidária portuguesa a sugestão da lei de Gresham, isto é, contribuírem para que os políticos competentes possam afastar os incompetentes." Ou se enganou agora ao atribuir ao visado no seu artigo de há cinco anos a Grã-Cruz da Ordem de Cristo por "destacados serviços prestados ao País". Certo é que Sir Thomas Gresham mais uma vez viu confirmada a sua lei de triunfo da "má moeda".

O resultado funciona pessimamente do ponto de vista didáctico. Contribuiu para fundamentar os que ligeiramente criticam a democracia e a política em geral por - segundo dizem - os políticos mudarem de opinião ao sabor das mais recônditas conveniências, sem palavra, sem rigor, sem princípios. Ou seja, hoje dizem uma coisa e amanhã dizem outra, vá lá alguém confiar na palavra de um político.

Porque não há razões de tradição ou protocolo que cheguem para explicar que um político, que em 2004 contribuiu decisivamente para demolir um governo e o respectivo líder, cinco anos depois considere que a "má moeda" prestou um "destacado serviço ao País". As comendas do Estado não são encomendas, de atribuição automática a quem passou por um cargo público, independentemente do modo e com os resultados que o exerceu. E a Ordem de Cristo, criada por João XXI e ratificada por D. Dinis, não é uma medalha de presença numa competição, que tanto se pendura ao pescoço do vencedor como dos desclassificados.

E que diria a tudo isto D. Dinis? Pois, esse mesmo, o que escreveu letras para umas cançonetas acompanhadas ao violino!
«DE» de 20 Jan 10

O doloroso 'intermezzo'

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Por Baptista-Bastos

MATAMOS DUAS E TRÊS VEZES os nossos poetas. Os políticos, esses, servem-se deles para adiantar conhecimentos literários de duvidosa autenticidade. Torga, Sena, O'Neill foram os mais citados por presidentes da II República. Mário Soares conheceu quase todos. De muitos, foi amigo. E ouviu de Torga, de Sena e de O'Neill mordazes palavras recriminatórias. O'Neill timbrou um estribilho célebre: "Ele não merece, mas vota no PS."

Era gente de outra estaleca, que se deixava levar pelo poder da ironia e do sarcasmo. Procedia de uma geração sem equívocos e sem ambições de soldo ou de glória. O sonho de liberdade alimentou a vida e iluminou a obra dessa gente. Soares sentou à mesa do Palácio de Belém o que de melhor havia na literatura portuguesa e europeia. Eanes, com a decência comum ao cavalheiro da aristocracia de província, nunca alardeou as suas amizades intelectuais, mas tinha-as, honrava-as e respeitava as plurais tendências de cada qual. Com discrição e decoro chegou a ajudar alguns e a tentar corrigir injustiças, como no caso de Natália Correia.

Também tivemos sorte, nesta matéria, com Jorge Sampaio. Acaso foi timorato em excesso, quando presidente. Porém, seria incapaz de confundir Thomas Mann com Thomas More. Não era adepto da superstição do consumo, não era frequentado pela ironia, mas emocionava-se com a condição humana.

Cavaco constitui um intermezzo por vezes doloroso, amiudadamente cómico, e sempre torturante: não é homem animado pelas apoquentações do espírito. E se nunca está à vontade num ajuntamento, quase entra em pânico num grupo de pessoas medianamente letradas.

A Presidência da República, com excepção do interregno salazarista, possui a tradição de ser ocupada por homens dados à cultura e à curiosidade literária. Estes atributos não fazem, necessariamente, um bom executante do cargo, mas ajudam muitíssimo. Um presidente de recursos culturais escassos, medíocres e insistentes, não só banaliza a função como causa a zombaria. Sabe-se: Cavaco chegou aos altos cumes do Estado por uma simbiose milagrosa, casual e disparatada que a História, por vezes, concebe e concede. Não foi um grande primeiro-ministro, pelo contrário; não é um Presidente marcante pela positiva.

Ora, perante estas amargas evidências, não surpreende que Manuel Alegre se "disponibilize" para "entrar na luta." Apesar dos anticorpos que criou, inclusive em certos yes men do seu partido, ele possui uma vida numerosa, intensa e arriscada, que cauciona o humanismo de voz alta, próprio de quem não confunde razões de coração com as imposições da tabuada.

«DN» de 20 Jan 10

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Dividir

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Por João Paulo Guerra

Um PS dividido perante uma candidatura à Presidência da República é já a rotina nas corridas a Belém.

O CASO MAIS EMBLEMÁTICO será o da eleição de Ramalho Eanes contra Soares Carneiro, em que o partido se repartiu entre o Secretariado e os outros. Mas parte do PS também tentou roer a corda na eleição de Jorge Sampaio contra Cavaco Silva, ou pelo menos na apresentação da candidatura.

Porém, o caso mais conseguido é ainda o da eleição de Cavaco Silva contra a dupla Manuel Alegre e Mário Soares. Aí não se tratou de os socialistas se dividirem mas de serem divididos. O PS estimulou um candidato, depois lançou e apoiou outro. E só assim uma maioria de esquerda de cerca de 60 por cento, alcançada nas legislativas de 2005 - o PS com maioria absoluta e toda a esquerda a subir -, se desbaratou nas presidenciais de 2006, dando a vitória ao candidato que erguia a bandeira da "cooperação estratégica" com o governo socialista. Mas nem mesmo por o governo ter muito pouco de socialista a "cooperação estratégica" deixou de ir por água abaixo.

Agora, Manuel Alegre voltou a manifestar-se disponível para fazer da próxima eleição presidencial uma grande mobilização, não só das esquerdas. Sabe-se que nem andando a procurar com uma candeia se encontrará um outro candidato da área socialista capaz de mobilizar as esquerdas e não só. Mas lá saltaram de imediato os arautos da "divisão" que, passando a vida a atrelar o PS à direita, tremem dos pés à cabeça perante a possibilidade de uma vitória eleitoral de esquerda que, para além da actuação do eleito, se desfaz no próprio momento da eleição.

O voto é secreto. Mas há por aí muita gente que gostaria de ser mosca para ver quantos Pê Esses, perante a dupla Alegre / Soares, terão votado Cavaco.

«DE» de 19 Jan 09

Selecção cultural

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Por Nuno Crato

OS EVOLUCIONISTAS ADMITEM há muito que a selecção natural foi influenciada por alterações do meio ambiente. Admitem, por exemplo que as alterações climáticas teriam transformado as florestas onde os nossos antepassados remotos viviam, criando savanas. Questionam se essa transformação não teria acelerado a adopção de uma postura erecta, com todas as correlativas transformações do crânio e do cérebro que nos tornaram o que hoje somos.

Mais recentemente, começaram a discutir se, além dessa influência, não haveria uma outra, a da própria sociedade humana, que poderia ter acelerado as mudanças genéticas. Há algumas décadas, a simples colocação do problema teria enfurecido muitos dos que denunciavam, com razão, extrapolações evolucionistas para teorias e práticas deploráveis, de que é exemplo a eugenia. Esta última, criada pelo naturalista inglês Francis Galton, primo de Charles Darwin, preconizava que se acelerasse a evolução fomentando a procriação dos mais aptos. Na reacção à eugenia, além de argumentos morais decisivos, estava subjacente a ideia de que a selecção é um processo muito lento, com um horizonte temporal de centenas de milhares de anos, e que o desenvolvimento das sociedades humanas teria secundarizado os factores da evolução biológica. A cultura teria tomado conta do palco.

Segundo discutem hoje os evolucionistas, a cultura terá mesmo tomado o palco, mas também na selecção natural. A alteração genética, sempre em acção, mesmo nos nossos dias, terá sido influenciada e acelerada pelas nossas atitudes culturais, ou seja, pelos comportamentos transmitidos por ensino directo, pela imitação e por outras formas de interacção social. Um exemplo dessa influência é a decorrente da introdução do pastoreio nas sociedades pré-históricas. Várias investigações têm mostrado que o pastoreio e a pecuária favoreceram uma evolução biológica positiva de tolerância ao leite nos adultos.

Outro exemplo muito estudado é o da rápida mudança genética de algumas populações da África ocidental que aumentaram a resistência à malária. Acredita-se que essa mudança deriva da devastação de florestas pela introdução da agricultura de tubérculos. A remoção das árvores criou áreas sujeitas à saturação de águas superficiais, favorecendo a propagação de mosquitos portadores da malária. Os mais resistentes teriam sobrevivido.

Cita-se também o crescimento da espessura dos cabelos humanos operada em poucos milhares de anos em algumas zonas do globo. Pensa-se que a mudança está associada ao surgimento de uma preferência sexual por indivíduos de cabelo mais forte. Em algumas sociedades, o aparecimento dessa preferência terá acelerado essa mudança, e com uma rapidez muito maior do que a que seria de esperar da selecção biológica pura.

Para medir a influência da cultura na evolução há um instrumento decisivo: os modelos matemáticos. São os modelos matemáticos de co-evolução gene-cultura que permitem calcular as velocidades teóricas de propagação de traços genéticos em cenários diversos. Se apenas entrar em acção a aleatoriedade evolutiva, a velocidade de mudança é uma. Se houver uma selecção positiva influenciada pelas atitudes culturais, a velocidade de difusão dos novos traços é outra. Mais uma vez, é preciso fazer as contas. E as contas parecem mostrar que a cultura é um factor a ter em conta.

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 16 Jan 10

sábado, 16 de janeiro de 2010

Temos de Falar Logo à Noite

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Por João Duque

QUANDO ERA MIÚDO e o meu pai dizia-me "- Temos de falar logo à noite!", eu sabia que não vinha aí coisa boa. Com sorte a "coisa" ficava só pelas palavras mas, às vezes, chegava mesmo, ui, a uma orelha, ou, zás, a uma bochecha...

Mesmo com conversa marcada em agenda, esta comunicação de Ano Novo do Presidente Cavaco Silva ao país lembrou-me a conversa de meu pai. O discurso foi duro e realista sim, mas terá sido novo? Vamos fazer um pequeno teste: quais das afirmações abaixo fizeram parte do discurso do Presidente em 1 de Janeiro passado?

1-É preciso que as nossas empresas sejam capazes de enfrentar a concorrência externa.

2-O aumento da produtividade, a inovação e o progresso tecnológico são elementos-chave.

3-Temos de alterar a estrutura da produção nacional, no sentido de mais qualidade, inovação e conteúdo tecnológico.

4-É preciso não esquecer que somos um país de pequenas e médias empresas. Sem o seu contributo não é possível o crescimento da economia e a redução do desemprego.

5-O desenvolvimento exige que o Estado seja mais eficiente no uso dos seus recursos.

6-É preciso que o Estado actue com eficiência e com rigor na utilização dos dinheiros públicos e não seja obstáculo a quem quer empreender e criar riqueza.

7-Os dinheiros públicos têm de ser utilizados com rigor e eficiência.

8-Há que prestar uma atenção acrescida à relação custo-benefício dos serviços e investimentos públicos.

9-É preciso o trabalho e a determinação de todos.

10-Portugal precisa de todos, porque só com um esforço comum podemos alcançar o progresso.

11-O funcionamento do sistema de justiça ainda é um obstáculo ao progresso económico e social do país.

12-Devem ser concretizados passos decisivos para a melhoria do funcionamento do sistema de justiça.

13-A verdade é essencial para a existência de um clima de confiança entre os cidadãos e os governantes.

14-Portugal não pode continuar, durante muito mais tempo, a endividar-se no estrangeiro ao ritmo dos últimos anos.

15-As ilusões pagam-se caras.

Exactamente, nem uma! Todas pertencem aos discursos de Ano Novo de 2007 (passagens 5, 10 e 12), 2008 (passagens 1, 2, 4, 6, 9 e 11), e 2009 (as restantes)! Mas afinal onde têm andado os portugueses para não o ouvirem? De facto, o Presidente insiste em cada ano em duas ou três ideias que não se vêem melhorar, antes pelo contrário: as contas públicas pioram, a justiça afunda-se, os investimentos empresariais não se atraem, os dinheiros públicos são levianamente aplicados, a família portuguesa está desunida e a ilusão impera.

Apenas uma palavra senti nova: "situação explosiva".

Espero que as palavras proféticas pronunciadas se não venham a revelar, mas o rastilho está pegado. Ou o apagamos, ou a mão virá feroz à nossa bochecha para nos pôr no lugar. Mas desta vez não será a do pai, mas antes a de "outros a impor a resolução dos nossos problemas".

«Expresso» de 9 de Janeiro de 2010

Em Goa é mesmo um descanso

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Por Antunes Ferreira

A MINHA Professora (assim mesmo, com caixa alta, que ela bem a mereceu, merece e merecerá) da quarta classe, denominação que cheira a Neolítico, era a Senhora Dona Clélia Marques. Que acumulava com a direcção do colégio Mouzinho da Silveira, ali juntinho à Avenida de Berna, no local onde hoje se encontra o Teatro Aberto.

Eu morava então na Rua Filipe da Mata, ao Rego, e todas as manhãs o Senhor Alfredo, marido da porteira Senhora Ângela e desempregado profissional, me levava lá, vigiando-me cuidadosamente para que eu não pusesse o pé em ramo verde. O bom homem, militante da copofonia lusitana, até levava a minha pasta, penso que para eu não me cansar muito, pois de seguida era necessária toda a atenção nas aulas – uma trabalheira.

Ora muito bem, os que ainda me lêem (poucos) devem estar um tanto perplexos com estas linhas iniciais. Vejo-os daqui, ainda que escassos, a perguntarem-se – mas o que é que a gente tem a ver com isso. Estão cheios de razão esses últimos moicanos sobrevivente neste território que dizem ser um país.

Mas, explico-me já, se me quiserem acompanhar. Mas, mesmo que o não queiram, quem escreve sou eu e pronto. Hoje, diz-se mais prontos, mas ainda aí não cheguei. Neste particular, e para além desta minha denodada vontade de alinhavar palavras, também conta, e de que maneira, a Margarida Maria, que me meteu nesta alhada do SexoForte. Se ela não estiver pelos ajustes… eu escrevo na mesma e ela deitará o papel na cesta secção.

Porquê, então, esta minha viagem ao começo dos anos 50. Porquê, ainda, a referência sentida à minha Professora? Porquê, finalmente, a indicação das andanças quotidianas de casa para a escola e vice-versa, acompanhado pelo Senhor Alfredo? Porque, uma vez mais, vou, ou melhor, vamos, a minha mulher Raquel e eu, à terra dela, ou seja a Goa. Desta feita, também a Damão e a Diu.

Ensinou-me a Senhora Dona Clélia que as três parcelas constituíam o então Estado Português da Índia. Com mapa e tudo, impresso a cores na Litografia Universal, Lda, Porto. Em boa verdade, e apesar de toda ajuda gráfica que a distinta mestra nos proporcionava, eu nunca soube muito bem onde ficava o dito cujo. A Litografia Universal, Lda era mais fácil de localizar: Rua de São Victor, 4000 Porto. O pessoal nortenho sempre tem cada rua mais comprida…

Pela vida fora, fui evoluindo (?) pelo menos no sentido do conhecimento geográfico. Estava já no segundo ano de Direito quando a então «famigerada e criminosa» União Indiana do «bandido» Nehru entrou no Estado Português da Índia e acabou-se. O Estado assim denominado e o estado a que ali se chegara. Então, começara eu a namorar a que é hoje minha mulher, a Raquel, nada e criada lá. Brâmane, para que conste, e com árvore genealógica e tudo, de que eu, miserável pária lusitano, dei cabo pelo santo sacramento do matrimónio.

Esta é mais uma viagem de várias que já ali fiz. Esse salutar propósito de ir à terra, mais precisamente à santa terrinha, é um pouco mais difícil de concretizar quando ela, ao contrário da Malveira, Freixo de Espada à Cinta ou Altura, fica a uns belos milhares de quilómetros de aqui. Mas, vale a pena a deslocação. Mesmo se a alma é pequena.

Por isso, este escrito. Desde o próximo domingo, 17, até 9 de Março, não me aturam. É que em Goa é mesmo um descanso. Juro. Isto, se não me der no cristalino bestunto escrevinhar alguma coisa – de lá. Agora penso que entendem o porquê de, ao fim de 46 anos de casado não me poder divorciar. É por mor dos bilhetes grátis ou quase que não poso perder. A Raquel é TAP. E mesmo aposentada tem direito a eles. Ela – e eu…

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O Controlo do Professor Marcelo

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Por Maria Filomena Mónica

HÁ VÁRIOS ORGANISMOS, pagos com o nosso dinheiro, cujo trabalho se tem revelado imbecil, inútil e deletério. Está neste caso a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). Segundo os senhores que ali se sentam, a RTP teria, «no curto prazo», de «mexer» nos programas de comentário político, promovendo «uma representação mais plural de forças e sensibilidades político-partidárias». Vem esta lenga-lenga a propósito do programa «As Escolhas de Marcelo Rebelo de Sousa», o qual, segundo a ERC, seria longo demais. Em ano de eleições, convém evidentemente controlar o comentarista. Devo dizer que nunca votei no PSD, portanto por aqui não me apanham.

Acontece que aquele é o único programa que vejo. Porque me diverte, me esclarece e me mantém a par do que vai acontecendo no país e no mundo. A cereja no bolo é a possibilidade de o Professor não resistir a envenenar alguém. Uma anjinha em política, nem sempre sou capaz de o detectar, mas, nos momentos em que o faço, rio-me que nem uma perdida. Não ouço outros comentadores, pela simples razão de que me enchem de tédio. A televisão chegou a uma tal grau de abjecção que deixei pura e simplesmente de olhar para ela.

Quero lembrar, mais uma vez, que a RTP tem um orçamento a vários carrinhos: os impostos que pagamos, as receitas da publicidade e uma taxa disfarçada numa daquelas contas para as quais nem olhamos. Em contrapartida, possui obrigações, entre as quais a de constituir um «serviço público», uma coisa que ninguém sabe hoje o que é.

Estava eu, desesperada como é meu hábito, a meditar sobre a pátria, quando noto mais esta ameaça à liberdade de expressão. Pelos vistos, a ERC, dentro da qual os cérebros foram substituídos por cronómetros, decidiu que, se Marcelo tem um programa de trinta minutos, a RTP deve oferecer idêntico tempo a António Vitorino. Isto, independentemente dos méritos de cada um. Juro que se a RTP retirar um minuto que seja às escolhas de Marcelo, nunca mais pago impostos.

Setembro de 2008
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Actualização (15 Jan 2010): acerca do que se está a passar (16 meses depois de escrita esta crónica), ver o Passatempo com Prémio a decorrer no Sorumbático até às 20h de 18 Jan 2010 - [aqui]. Os comentários feitos aqui, a este post, também contarão.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Columbine

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Por João Paulo Guerra


Numa escola de Braga, considerada uma das mais seguras do País, sem alunos “problemáticos”, frequentada por filhos da classe média-alta da região que pagam em média 200 euros mensais de propina, dois jovens, manuseando uma arma de fogo transformada no intervalo das aulas provocaram um disparo acidental que atingiu um deles no tórax.

OS JOVENS SÃO AMIGOS, procuraram minimizar as responsabilidades pelo acontecido, no que foram secundados por outros colegas. O autor do disparo foi ouvido pela PJ e saiu naturalmente em liberdade, o atingido está hospitalizado mas não corre perigo e o coordenador do Observatório de Segurança Escolar aproveitou para informar que a violência escolar caiu para metade nos últimos três anos e que "a existência de armas de fogo nas escolas é raríssima".

Porém, no outro País que também é Portugal, o coordenador do Observatório tem conhecimento de "pais descuidados" que "guardam armas de fogo montadas e até carregadas" que episodicamente os filhos levam para as escolas. E foi também por esta via, embora não só, que no ano lectivo de 2007/08 a PSP apreendeu 242 armas nas escolas, sendo 71 por cento armas brancas e cinco por cento de fogo. E que em 2008/2009 foram apreendidas mais armas nas escolas que no ano anterior, embora os números só sejam revelados em Fevereiro. Nas estatísticas gerais nem sequer devem pesar os dados das escolas dos guetos, onde há miúdos armados por questões de ataque ou de defesa.

Claro que o País dos "brandos costumes" fica muito longe de Columbine, assim como a corrida doméstica aos armamentos nos EUA fica a grande distância dos arsenais caseiros em Portugal. O que se espera é que não seja necessário que aconteça uma desgraça como em Columbine para que alguém acorde.

«DE» de 14 Jan 10

Passatempo manda-chuva - Solução

832 gramas
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Os 3 leitores que mais se tenham aproximado terão 24h para escreverem para premiosdepassatempos@iol.pt indicando morada para envio dos livros. Ah! Se houver mais de 30 participações, será atribuído um 4.º prémio (um livro-surpresa).
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Actualização:

Os 3 vencedores (que receberão os livros que se vêem na balança) foram:

O Shiham .. 843 g => erro = 11 g
X trelitah .. 817 g => erro = 15 g
Susana Mano .. 813 g => erro = 19 g

o "adicional" foi:

João Pedro .. 812 g => erro = 20 g

Atenção, agora, ao prazo para reclamação dos prémios

Mas as crianças, Senhor?

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Por João Duque

Batem leve, levemente, / como quem chama por mim... / Será chuva? Será gente? / Gente não é, certamente / e a chuva não bate assim...

PODERIA TER SIDO o estado do tempo o motivador desta crónica que recordo da minha instrução primária quando preparava a minha récita de Natal. Mas não. Na realidade sempre me ocorre este poema quando passo perto de um hipermercado ou gigantesco centro comercial e me lembro dos pequenos retalhistas que ainda tentam (alguns) sobreviver a Golias.

Não é que os novos centros comerciais não estejam hoje povoados por pequenos retalhistas alinhados e alojados sob o chapéu do grande empreendimento. Esses perceberam que o acto de compra de hoje em dia exige várias coisas: comodidade, flexibilidade, proximidade e, consequentemente, transporte (preferencialmente individual).

As grandes superfícies oferecem tudo isto, não só aos grandes que as constroem e lá se instalam, como aos pequenos que nelas residem e que à sombra dos grandes também delas desfrutam os aspectos positivos: os horários são flexíveis, há segurança, há comodidade (contra o frio e o calor) e, principalmente, há estacionamento na proximidade do local da compra. Como dizem os anglo-saxónicos, ‘no park, no business'.

O centro das cidades, antes repleto de pequeno comércio foi sendo, com o tempo, paulatinamente invadido por grandes superfícies e o pequeno não se adaptou. Pequenas estruturas, não conseguem abrir aos Sábados à tarde ou aos Domingos porque a lei lhes não permite ou a estrutura de custos aumentaria de tal maneira face à pequena dimensão que não conseguem sobreviver a tal aventura.

Mas, para além disso, sofrem ainda de uma desprotecção característica dos governos que apenas escutam os grandes. E mal...

Quando era pequeno vivia num 4.º andar. Minha mãe mandava-me ao lugar da fruta do sr. Narciso comprar qualquer coisa sem se preocupar comigo. Pelo caminho, passava frente a 20 pequenos retalhistas que me conheciam e de mim cuidavam no espaço que percorria a fachada da sua loja. Se não fosse um era outro e, em caso de aflição, algum me deitaria a mão em socorro.

Hoje, já não moro na mesma avenida mas, por lá, fecharam a maioria dessas lojas. Outras transformaram-se e as que subsistem são grandes e descaracterizadas dessa figura do dono da loja. Os senhores Narcisos foram morrendo ou foram-se reformando, e os seus filhos são hoje empregados de caixa de uma qualquer grande superfície. Hoje há lojas de chineses, mas as dos portuguesas também não têm tempo ou interesse em olhar para fora das suas montras para lançarem uma "boca" ao filho da dona Palmira que ia ao lugar do Narciso.

A função social do pequeno retalhista perdeu-se. Já não nos fica com o correio registado, não recebe um recado nem olha por nós nem pelos nossos miúdos... Todos ficamos mais pobres sem esses pequenos, pequeníssimos agentes económicos...

Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor?!...

P.S.: esta crónica será concluída dentro de duas semanas.

«DE» de 14 Jan 10

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Futuro

Por João Paulo Guerra

Nos últimos dez anos, desceu de 60 para 46 por cento a percentagem de jovens com contrato de trabalho permanente, ao mesmo tempo que subiu de 30 para 47 por cento a percentagem de jovens com contrato de trabalho a prazo.

MAS ISTO É O QUE DIZ RESPEITO
aos jovens com trabalho. Porque na última década, foram liquidados em Portugal 175 mil empregos com contratos sem termo e nove mil postos de trabalho a prazo ocupados por jovens. Entretanto cresceu de 5 para 12 por cento a percentagem de jovens desempregados licenciados. Os números são do Eurostat.

Por isto ou por aquilo, com crise financeira, recessão ou com o que se lhe queira chamar, os jovens têm sido os mais penalizados pelas consequências da delinquência financeira. "Não se pode legalmente tratar assim o dinheiro", escreveu o escritor inglês Martin Amis, pondo as palavras na boca de uma personagem do romance dos anos 80 "Money. A Suicide Note" que se interrogava: "Quanto tempo vai durar isto tudo?". Durou o tempo suficiente para que aquela geração de yuppies rebentasse de fartura e de excessos e para que no início do século XXI o horizonte que se depara à juventude seja o de uma geração perdida.

Com frequência se ouve dizer que seja qual for o desfecho da crise actual nada ficará como antes. Não é bem assim. Do que não ficará pedra sobre pedra é do regime de direitos sociais universalmente consagrados. O pior da economia dos anos 80, a imensa bolsa de desemprego, a precariedade, o trabalho sem direitos e os baixos salários de pegar ou largar, vão alastrar incomensuravelmente as suas fronteiras. Em matéria de exploração tudo ficará igual ao que era, com tendência para pior. A menos que a geração perdida, perdido o presente, meta ombros a conquistar um futuro.
«DE» de 13 Jan 10

Democracia de superfície

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Por Baptista-Bastos

MÁRIO SOARES ESCREVEU
que temos de combater o "derrotismo". Temos. Para esse combate essencial e ingénito precisamos de motivo e de motivação. Ora, como o meu amigo Mário Soares sabe, oh!, se sabe!, domesticaram a rebeldia das nossas causas, em nome da "normalização" democrática, que não chega a ser uma farsa genial de "Governo do povo pelo povo" porque se converteu num regime declaradamente causador das maiores injustiças e das mais criminosas iniquidades.

Pertenço a uma geração animada pela "teimosia da esperança" [Bocage] e pelo obstinado sentimento de que as coisas tinham, necessariamente, de mudar. Para isso, porém, era necessário ajudar a História a abandonar o seu moroso passeio pelo tempo, e a abrir os olhos à sua cegueira. "Nunca, na crónica das tiranias, houve um povo que se batesse tão bravamente pela liberdade, como o português", escreveu o grande jornalista republicano Carlos Ferrão. São milhares e milhares de compatriotas nossos que passaram pelas masmorras do fascismo, ou foram assassinados, ou homiziados, todos eles torturados de modo atroz. A sintaxe mágica da liberdade reuniu intelectuais, operários, camponeses, comunistas, católicos, anarquistas, monárquicos, num movimento inolvidável e historicamente ímpar. O património da Resistência não é um imenso e solitário poema: é a épica de um tempo que associou o impulso de combater o salazarismo ao projecto de se construir o futuro.

Que futuro? Distanciados do confronto de ideias que percorria a Europa e o mundo, apenas entrevíamos o carácter imprescindível da liberdade. O regime novo determinaria um novo sistema, pensávamos, com a ingénua ignorância de quem se quer ver livre de algo incómodo. "Venha a maré-cheia / de uma ideia / para nos empurrar", cantava o Zeca Afonso. Estes três versos ilustram, como poucos, as nossas perplexidades. Não sabíamos muito bem o que desejávamos como sociedade, como povo, como sinal de uma política. Mas "aquilo" não queríamos. O motivo e a motivação explicativos de um particular humanismo. Eis porque o antifascismo começa por ser um movimento moral, antes mesmo de ser uma corrente ideológica. A frase de Carlos Ferrão nasce de um radical descontentamento popular, e cria um impulso generalizado que se renova com as épocas. Exceptuando esta, que nos impele ao desespero, à descrença mais sombria, ao horizonte cerrado em que nada se vislumbra de luminoso. Instalou-se em nós um cansaço indolente, uma indiferença infame. Esperar. Esperar, quê? Estamos submersos pelo desdém petulante de quem nos obrigou a aceitar uma sociedade de que não somos verdadeiramente responsáveis.

«DN» de 13 Jan 09

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

No Reino do Absurdo e das Leis da Treta

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Fotos tiradas esta tarde (havia mais, mas ficaram desfocadas), por volta das 16h, com poucos momentos de intervalo, na Av. das Forças Armadas, em Lisboa.
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Como sempre, a Faixa BUS está atafulhada por veículos particulares. E não sei o que é mais revoltante: se ver ambulâncias (para já não falar nos táxis e autocarros) com o seu movimento retardado, se não ver um único agente (da PSP ou da PM) por perto!
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Como uma infracção só existe se houver quem a cometa e que a deixe cometer, aqui fica o desabafo habitual:

Pagamos o ordenado a umas largas centenas de indivíduos para - como profissão a tempo inteiro - evitarem cenas destas.

E o que é que se passa? Por onde andam eles? Se 'não têm meios' (como passam a vida a dizer), o que fazem para os exigir? Não têm brio profissional?!

Os anos do quartzo

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Por Nuno Crato

UM DIA DE INVERNO, ao fim da tarde, fazia já escuro, passava eu com o meu pai pela rua de Arroios e um grupo de operários, à porta de uma oficina, abordou-nos: «Faz favor, diz-nos as horas?». Ergui o pulso, orgulhoso com o meu novo relógio, a que dava corda religiosamente, todas as noites, e disse-lhes. «São quase sete!». Imagino que estivessem à espera de transporte e lembro-me que estava contente por ter sido útil. Devia ter os meus oito ou nove anos.

Continuámos pela rua e deixámos para trás os operários. «Reparaste quantos homens ali estavam?», perguntou-me o meu pai, «Uns 15 ou 20. E nenhum deles tinha relógio. Nenhum deles tem dinheiro para comprar um relógio.»

Na altura um relógio era um instrumento caro. Muitos dos meus colegas na escola não o possuíam. Era um presente que as famílias que o podiam fazer davam aos jovens quando eles passavam a primária, ou mesmo mais tarde. Ia já no meu segundo ou terceiro emprego quando me lembro de ter quebrado um relógio, ter atravessado a rua e comprado outro. Surpreendi-me com o à-vontade. Anos antes seria preciso ser-se rico para comprar um relógio assim, do outro lado da rua, num impulso. Hoje, muitos jovens mudam de relógio num impulso ainda mais ligeiro, só porque estão fartos da cor da pulseira e porque apareceu um novo modelo, cheio de desenhos psicadélicos.

O que tornou possível esta revolução nos preços foi um avanço tecnológico que perfez agora 40 anos: o quartzo. Com efeito, foi em 1969, que a Seiko, no Japão, e a Hamilton Watch, nos Estados Unidos, apresentaram os seus primeiros modelos de relógios de quartzo de pulso, e foi nos primeiros meses de 1970 que esses novos instrumentos chegaram aos mercados mundiais. A princípio, a grande novidade era não se ter de dar a corda ao relógio todos os dias; depois, foi a fiabilidade; finalmente, foi a incrível descida dos preços. Foi um progresso vertiginoso, que é descrito em pormenor na monumental obra de David S. Landes, A Revolução no Tempo, acabada de sair entre nós. Vale a pena ler de uma ponta a outra essa fascinante referência, que nos mostra como a medida do tempo tem mudado as nossas vidas.

Para completar a história do quartzo, é preciso recuar mais de um século, até 1880, quando os irmãos Jacques e Pierre Curie, este último futuro marido da famosa madame Curie, descobriram um comportamento estranho nos cristais de quartzo e noutros do mesmo tipo (hemiédrico). Submetidos a pressão, esses cristais desenvolvem cargas eléctricas de sinais contrários nos seus extremos; submetidos a uma carga eléctrica, deformam-se. É o chamado efeito piezoeléctrico.

A vibração dos cristais é muito precisa, de tal forma que, iniciando-a e mantendo-a com uma pequena carga eléctrica, o quartzo reage e gera um sinal eléctrico que funciona como oscilador e regulador do tempo. O princípio é o mesmo do de um pêndulo que bate os segundos num relógio de parede ou de uma mola que oscila nos relógios mecânicos mais pequenos. Só que os osciladores de quartzo são muito mais precisos e permitem por isso uma fiabilidade muito maior. Antigamente, os relógios mecânicos usuais atrasavam-se ou adiantavam-se cerca de um segundo por dia. Hoje, os vulgares relógios de quartzo mantêm um erro muito inferior a um segundo por ano. E são mais baratos. Felizmente, quando hoje me perguntam as horas na rua, não é por falta de dinheiro para comprar um relógio.

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 9 Jan 10

domingo, 10 de janeiro de 2010

Passatempo-relâmpago de 9-10 Jan 10 - Resposta

Este disparate, que em tempos dava direito a chumbar a Geografia no Ensino Secundário, aparece na pág. 24 do «Expresso» de 9 Jan 10. Poderia até passar em claro... se não aparecesse (e em destaque) num texto de página inteira (da autoria de Luisa Schmidt), sobre a Terra...
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ARRUMANDO IDEIAS:

Posição relativa do Sol e da Terra ao longo do ano
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A ocorrência dos solstícios e dos equinócios não tem nada a ver com a distância da Terra ao Sol, mas sim com a inclinação do eixo do nosso planeta em relação ao plano onde se desenrola a sua órbita. Além do mais, essa posição vai mudando (embora muito lentamente) ao longo dos anos, devido a um movimento de precessão de que o eixo está animado.
Actualmente, aquando do 'nosso' sosltício de Inverno, a Terra até está muito perto do periélio (posição em que é mínima a distância ao Sol), que ocorre em 4-5 de Janeiro seguinte.
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O solstício de Dezembro é 'de Inverno' no hemisfério Norte e 'de Verão' no hemisfério Sul; inversamente, o solstício de Junho é 'de Verão' no hemisfério Norte e 'de Inverno' no hemisfério Sul.
Por isso, os nomes das estações do ano indicadas no desenho de cima só estão correctos do ponto de vista do hemisfério Norte.
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Nota final: o texto do «Expresso» é de página inteira, e sobre Copenhaga e alterações climáticas. Ora, sendo certo que as alterações climáticas de longo prazo estão relacionadas - e muito! - com as mudanças de direcção do eixo da Terra... - cala-te boca!

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

NA SUA MENSAGEM de Ano Novo, Cavaco Silva foi claro e directo no alerta que lançou aos portugueses. O Presidente da República avisou que «o endividamento» do país atinge já níveis preocupantes» e que «Portugal já tem um nível de despesa pública e de impostos que é desproporcionado face ao seu nível de desenvolvimento». A este ritmo, sublinhou Cavaco, «o nosso futuro, o futuro dos nossos filhos ficará seriamente hipotecado», até porque «quando gastamos mais do que produzimos, há sempre um momento em que alguém tem de pagar a factura».

Um retrato duro mas cristalinamente verdadeiro do atraso em que Portugal se vem deixando cair na última década. Se a este cenário sombrio acrescentarmos os problemas do desemprego, «que atingiu, no terceiro trimestre, 548 mil pessoas», e da exclusão social, percebe-se, como adverte o Presidente, que «podemos estar a caminhar para uma situação explosiva».

Cavaco omitiu, no entanto, duas questões relevantes no seu incisivo diagnóstico. A primeira é a impossibilidade de resolver verdadeiramente o problema da dívida e da despesa públicas – e da própria competitividade da economia – sem reduzir de forma efectiva a dimensão do aparelho de Estado, o peso excessivo do funcionalismo público e das clientelas políticas nas contas do país.

A segunda questão é a cultura do despesismo, de gastar acima das posses, e da prioridade ao lazer há muito instalada em largos estratos da sociedade portuguesa. Ainda agora, no final de 2009, um ano de severa crise, se viram, nos feriados e ‘pontes’ do início de Dezembro ou nas festividades de Natal e da passagem de ano, os voos esgotados para o Brasil e Caraíbas, os hotéis sem lotação para mais ocupantes na Madeira, no Algarve, nas serras Nevada, da Estrela ou de Andorra. Ao mesmo tempo, o número de Audi, BMW ou Mercedes que se vêem a circular nas ruas e acessos a Lisboa ou Porto não tem paralelo, em média relativa, com qualquer outra capital ou grande cidade europeia, seja Paris ou Roma, Londres ou Madrid.

Um povo e um Estado que se endividam ano após ano em nome do lazer e das aparências sociais continuarão a achar que alguém – que não eles – acabará por pagar a factura.

«SOL» de 8 Jan 09

sábado, 9 de janeiro de 2010

A força do destino

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Por Antunes Ferreira

PARECE CHEGAR AO FIM este longuíssimo folhetim que bem poderia intitular-se, recordando o primeiro radiofónico que houve em Portugal, «A força do destino». Que os Portugueses, sempre ávidos de anedotizar, no que são (somos) pertinazes e, sobretudo, produtivos, rapidamente rebaptizaram de «A força do intestino». Trato, aqui e agora, do combate que opôs, anos a fio, professores e ministros da Educação.

Os últimos assaltos deste prolongadíssimo terçar de luvas (de boxe), para não dizer mesmo, de armas mais ou menos convencionais, tinham decorrido no consulado de Maria de Lurdes Rodrigues. Foram as enormes manifestações; foram as declarações de irredutibilidade de uma e outra parte; foram as greves; foram, foram, foram; foi finalmente a afirmação pública e solene por parte da FENPROF: os professores não vão votar PS.

Pelos vistos, não votaram mesmo. Há até quem diga que foram eles que retiraram a maioria absoluta a José Sócrates. Façam-se cuidadosamente as contas e poder-se-á concluir se sim, se não. O facto é que os socialistas não conseguiram alcançar essa meta eleitoral que, a ter acontecido, colocaria este Governo em condições absolutamente diferentes daquelas em que se encontra.

Por mais isto ou mais aquilo, penso que tem cabimento perguntar o que terá acontecido, já que o cantar de galo vitorioso é comum aos dois que se vinham confrontando. O que, diga-se de passagem, é absolutamente normal num País em que, depois de apurados os votos deitados nas urnas, todos os partidos concorrentes ganharam. E, na maioria dos casos, sem reticências. E no que concerne a este processo, eram apenas dois a digladiar-se: sindicatos e ministros, sucessivamente.

Abro aqui uma pequena parentética que me parece com alguma oportunidade. A não ser assim, não o faria. Na I República, tão vilipendiada, o poder produziu diplomas em que utilizou uma distinção que hoje dizem os especialistas na matéria – e temos muitíssimos em Portugal – ser perfeitamente obsoleta. A educação competia à família; o ensino, às escolas. Chamem-me o que quiserem: defendo a ideia e a prática que lhe devia corresponder. Fecho parênteses.

Com tudo o que se passou, pode perguntar-se - o que terá ganho o ensino? Isto é, o que terão ganho as escolas? Ou seja, o que terão ganho os alunos? Ainda, o que terão ganho as famílias? Em suma, o que terá ganho o País? Antes do mais, creio firmemente que ganhou uma estrela televisiva – o Senhor Mário Nogueira. Feitas as contas, é ele que sai aplaudido deste imbróglio que parecia não ter fim. Com mérito? Na minha fraca opinião, sobretudo, com arrogância. Mas também, tenho que o reconhecer, com firmeza e determinação. Porém, o protagonismo sobreleva tudo o resto.

Isabel Alçada levou o processo de maneira assaz diferente daquela que a sua antecessora utilizou. Método diverso, procedimento diverso, resultados diversos. Politicamente, tenho de perguntar se o primeiro-ministro (que apoiou uma e apoia a outra) será o mesmo. É bem capaz de não ser. Mas, tudo indica que se chama José Sócrates, é secretário-geral do PS e adepto da corrida pedestre. Logo, o que mudou não foi ele. Foram as condicionantes que o envolvem.

Esta maratona tinha de ter um fim. Ele aí está. É o que se pode, em verdade, chamar «a força do destino». A outra força da brejeirice não pode ser para aqui chamada. Não pode – nem deve.
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SUBLINHADO

O Sorumbático acaba de completar cinco anos – mas já é maior e vacinado. E conhecido e reconhecido. Por ter o prazer e a honra de ser seu contribuidor, regozijo-me, naturalmente, dou-lhe os parabéns e desejo-lhe uma longa vida, com as qualidades que tem e continuará a ter. Ao Carlos Medina Ribeiro, o pai da criança, deixo um abração. É só.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Claques

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Por João Paulo Guerra

O PS decidiu introduzir na agenda política uma questão fracturante para fracturar a “coligação negativa” da direita e da esquerda contra o Governo, da mesma forma que a esquerda à esquerda do PS lança questões fracturantes para quebrar o bloco central.

MAS AGORA É O PRÓPRIO PS que está fracturado na matéria agendada sobre legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. E que solução é que o PS usa para tentar remendar a fractura? A solução é de gesso e consiste na imposição da disciplina de voto.

A imposição da disciplina de voto pelo PS é tão ilegítima como a concessão da liberdade de voto pelo PSD. Os deputados, embora eleitos à lista, não são propriamente corpos amorfos e acéfalos que fazem o que lhes mandam os cérebros dos partidos em nome da conveniência, da táctica ou sequer da fidelidade partidária. A fidelidade é um sentimento horrível que será próprio dos animais. O que é próprio dos homens é a lealdade. E o primeiro dever da lealdade de cada homem é com a sua própria consciência. Os partidos não são donos dos votos dos deputados, sobretudo em matérias que envolvam a consciência individual. E o tempo em que uns senhores de jaquetão preto e cabeças lustrosas de brilhantina diziam todos em coro "muito bem" ao discurso do chefe morreu em 1974. Só que, pelos vistos, ficou mal enterrado.

De maneira que cada vez que um deputado fura o sentido único e obrigatório de voto imposto pela direcção do partido isso constitui uma vitória da democracia e da liberdade. Com a canga da disciplina de voto, o Parlamento poderia reduzir-se à conferência de líderes, onde cada um dos presentes levaria no bolso os votos da claque partidária. Ou, melhor dizendo, da clique que decide como vão votar os eleitos pelo povo.
«DE» de 8 Jan 10

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Pouca-terra

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Por João Paulo Guerra

Agora foi a linha férrea Miranda do Corvo – Coimbra: fechou ao fim de 103 anos de circulação.

DIR-SE-Á QUE É O PROGRESSO e que o futuro avança assim, inexoravelmente, espezinhando razões históricas, civilizacionais, ambientais, da economia e do interesse locais. A questão é que o futuro, em Portugal, tem avançado às arrecuas. Desde os governos de Cavaco Silva, o encerramento de linhas e troços ferroviários passou a ser uma espécie de desígnio nacional. E, como está bem à vista, não foi por isso que Portugal avançou... a não ser rumo à desertificação. A desertificação do Interior-Norte é directamente proporcional ao desinvestimento em vias-férreas e comboios.

Aliás, o encerramento de linhas de caminho de ferro é apenas um capítulo da mesma política que arrasou outros sectores da economia, da história, da soberania e da vida colectiva portuguesas. Em nome do progresso, deliberadamente, sucessivos governos portugueses desmantelaram sectores imensos de actividade como fossem a marinha mercante, as pescas, a agricultura. E ninguém venha dizer que Portugal ficou mais rico, mais independente ou mesmo mais moderno com tais políticas de terra queimada ou, como também poderá dizer-se aludindo às vias-férreas, políticas de pouca-terra. Poderão esgrimir-se as mais eruditas teorias, as mais modernas correntes de opinião, a mais sonante propaganda. Nada disso altera a realidade que é o empobrecimento, a desertificação e a submissão do País.

A grande questão é que excluindo os grandes interesses plutocráticos, os políticos portugueses não têm em geral qualquer ideia ou projecto sobre o futuro do País. E assim, feche-se, liquide-se, destrua-se, arrase-se. E o deus dinheiro que reconstrua um país à sua imagem e semelhança.

«DE» de 6 Jan 10

«Mãe, vou casar!» (*)

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Por Luís Fernando Veríssimo


- Mãe, vou casar!

- Jura, meu filho?! Estou tão feliz! Quem é a moça?

- Não é moça. Vou casar com um moço. O nome dele é Murilo.

- Você falou Murilo... Ou foi meu cérebro que sofreu um pequeno surto psicótico?

- Eu falei Murilo. Por que, mãe? Tá acontecendo alguma coisa?

- Nada, não... Só minha visão que está um pouco turva. E meu coração, que talvez dê uma parada. No mais, tá tudo ótimo.

- Se você tiver algum problema em relação a isto, melhor falar logo...

- Problema? Problema nenhum. Só pensei que algum dia ia ter uma nora... Ou isso.

- Você vai ter uma nora. Só que uma nora... Meio macho. Ou um genro meio fêmea. Resumindo: uma nora quase macho, tendendo a um genro quase fêmea...

- E quando eu vou conhecer o meu. A minha... O Murilo?

- Pode chamar ele de Biscoito. É o apelido.

- Tá! Biscoito... Já gostei dele... Alguém com esse apelido só pode ser uma pessoa bacana. Quando o Biscoito vem aqui?

- Por quê?

- Por nada. Só pra eu poder desacordar seu pai com antecedência.

- Você acha que o Papai não vai aceitar?

- Claro que vai aceitar! Lógico que vai. Só não sei se ele vai sobreviver... Mas isso também é uma bobagem. Ele morre sabendo que você achou sua cara-metade... E olha que espetáculo: as duas metade com bigode.

- Mãe, que besteira ... Hoje em dia... Praticamente todos os meus amigos são gays.

- Só espero que tenha sobrado algum que não seja... Pra poder apresentar pra tua irmã.

- A Bel já tá namorando.

- A Bel? Namorando?! Ela não me falou nada... Quem é?

- Uma tal de Veruska.

- Como?

- Veruska...

- Ah !, bom! Que susto! Pensei que você tivesse falado Veruska.

- Mãe!!!...

- Tá..., tá..., tudo bem... Se vocês são felizes. Só fico triste porque não vou ter um neto...

- Por que não? Eu e o Biscoito queremos dois filhos. Eu vou doar os espermatozóides. E a ex-namorada do Biscoito vai doar os óvulos.

- Ex-namorada? O Biscoito tem ex-namorada?

- Quando ele era hétero... A Veruska.

- Que Veruska?

- Namorada da Bel...

- "Peraí". A ex-namorada do teu atual namorado... E a atual namorada da tua irmã. Que é minha filha também... Que se chama Bel. É isso? Porque eu me perdi um pouco...

- É isso. Pois é... A Veruska doou os óvulos. E nós vamos alugar um útero.

- De quem?

- Da Bel.

- Mas... Logo da Bel?! Quer dizer então... Que a Bel vai gerar um filho teu e do Biscoito. Com o teu espermatozóide e com o óvulo da namorada dela, que é a Veruska...

- Isso.

- Essa criança, de uma certa forma, vai ser tua filha, filha do Biscoito, filha da Veruska e filha da Bel.

- Em termos...

- A criança vai ter duas mães : você e o Biscoito. E dois pais: a Veruska e a Bel.

- Por aí...

- Por outro lado, a Bel..., além de mãe, é tia... Ou tio.... Porque é tua irmã.

- Exato. E ano que vem vamos ter um segundo filho. Aí o Biscoito é que entra com o espermatozóide. Que dessa vez vai ser gerado no ventre da Veruska... Com o óvulo da Bel. A gente só vai trocar.

- Só trocar, né ? Agora o óvulo vai ser da Bel. E o ventre da Veruska.

- Exato!

- Agora eu entendi! Agora eu realmente entendi...

- Entendeu o quê?

- Entendi que é uma espécie de swing dos tempos modernos!

- Que swing, mãe?!!....

- É swing, sim! Uma troca de casais... Com os óvulos e os espermatozóides, uma hora no útero de uma, outra hora no útero de outra...

- Mas...

- Mas uns tomates! Isso é um bacanal de última geração! E pior... Com incesto no meio...

- A Bel e a Veruska só vão ajudar na concepção do nosso filho, só isso...

- Sei!!!... E quando elas quiserem ter filhos...

- Nós ajudamos.

- Quer saber? No final das contas não entendi mais nada. Não entendi quem vai ser mãe de quem, quem vai ser pai de quem, de quem vai ser o útero, o espermatozóide... A única coisa que eu entendi é que...

- Que...?

- Fazer árvore genealógica daqui pra frente... vai ser f...

-
(*) Esta crónica aparece na internet com algumas variantes, nomeadamente na última linha. No entanto, tendo em conta quem a fez chegar ao Sorumbático, esta versão (à parte o título, que não foi possível apurar) parece ser a que foi originalmente publicada na Folha de S. Paulo, onde o autor escreve semanalmente.

Uma década novinha em folha

Por Manuel João Ramos


O GOVERNO PORTUGUÊS PRIMOU pela ausência na 1ª Conferência inter-ministerial global sobre segurança rodoviária que teve lugar há dois meses e meio na Rússia. A aprovação da chamada Declaração de Moscovo consagra uma Iniciativa Global sobre Segurança Rodoviária para a próxima década. A maioria dos estados e das organizações internacionais prometem investir generosamente na redução do risco e do trauma rodoviário, finalmente considerado uma das mais graves epidemias mundiais pela Organização Mundial de Saúde.

O governo português esteve ausente da Conferência mas a ACA-M participou, como outras ONGs internacionais, co-assinando um Apelo Global em prole da Segurança Rodoviária e do Apoio às Vítimas da Estrada.

Porquê tanta preocupação com a segurança rodoviária? Porque a nível mundial o número de mortos e feridos por atropelamento, colisão ou despiste não pára de aumentar, na proporção da expansão do automóvel em diversos mercados emergentes.

E em Portugal, como estamos, para além de orgulhosamente ignorantes do que se passa lá fora?

Com grande probabilidade, estamos no fim de um ciclo de redução continuada da sinistralidade grave, por razões de ordem estrutural: a democratização do automóvel nos últimos 15 anos teve como efeito a familiarização da sociedade portuguesa com os riscos inerentes à condução automóvel e, como aconteceu há 50 anos nos EUA e há 30 na Europa Ocidental, uma diminuição significativa do número de acidentados graves de ano para ano.

Beneficiámos também de um conjunto de directivas europeias reclamadas pelos países do norte da Europa, que aumentaram muito os níveis de segurança passiva dos automóveis vendidos no espaço da UE. E podíamos estar melhor, se o governo tivesse feito bem o seu trabalho.

Finalmente, o governo promete mostrar, daqui a seis meses, os números reais da mortalidade rodoviária, e já não os números fictícios a que nos habituámos nos últimos anos. E promete (outra coisa não seria de esperar) melhor fiscalização, melhor gestão da infracção, e melhor estratégia de segurança rodoviária.

Infelizmente, este e outros governos tanto prometeram e tanto propagandearam que a prudência obriga a um certo cepticismo.

E porquê?
  • Porque continua por aprovar um registo nacional de trauma;
  • porque o ensino da condução continua por reformar;
  • porque o crime rodoviário continua por tipificar, porque a justiça continua lenta e ineficaz;
  • porque não há diálogo entre o governo e as administrações locais para resolver problemas estruturais de insegurança nas estradas municipais e nas vias urbanas;
  • porque as campanhas de alerta para a redução de risco rodoviário são mal financiadas, mal concebidas e não avaliadas;
  • porque continua por criar um Regulamento de Projecto e de Certificação de Estradas e Arruamentos;
  • e porque o Código da Estrada ainda não foi transformado num Código de Relações entre Utentes dos Espaços Públicos Rodoviários que dê aos peões outro estatuto que não o de obstáculo físico à progressão dos automóveis.
Por outras palavras, recomenda-se que o governo trabalhe um pouco mais e melhor, em vez de se dedicar a convencer-nos que o milagre da redução do número de mortos nas estradas portuguesas se deve aos dotes mágicos do Dr. Rui Pereira.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Passatempo-relâmpago de 6 Jan 2010 - Solução

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Uma foto segundo o eixo principal do edifício (que mostrasse as frontarias dos pavilhões central e laterais) é [praticamente] impossível de obter devido à árvore existente nesse alinhamento (para já não falar no lago).

Os discursos do vazio

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Por Baptista-Bastos

O ENG.º SÓCRATES E O DR. CAVACO falaram à pátria. A pátria ficou estarrecida. O primeiro teceu um plissado de banalidades, e procurou aliviar as nossas angústias inesgotáveis dizendo que as coisas corriam o melhor possível. O segundo reduziu a subnitrato o júbilo do orador. A situação é «catastrófica» e o horizonte é horroroso. O pior do pensamento do dr. Cavaco, se é que o tem ou alguma vez o teve, é que se ordena na desordem. Não há ponta de originalidade nem pingo de lirismo. Estamos danificados por dentro e por fora: falta-nos competitividade, andamos cheios de lazeira, devemos dinheiro a toda a gente, possuímos uma alma adormecida, não somos coerentes nem fluentes, o sol apagou-se dentro de nós. Enfim, segundo o dr. Cavaco, somos uns grandes desgraçados. Nem uma palavra, uma escassa, módica e tímida palavra sobre cultura, ciência, arte.


Reconheçamos que ele nunca foi consumidor do pensamento de outros. Kant ensinava que a razão partia das coisas simples e Nietzsche que as ideias nasciam do corpo. Ambos explicavam, afinal, que o difícil seria evitá-las. O dr. Cavaco conseguiu-o. É um homem feliz.

O alvoroço com que a vulgaridade das frases foi acolhida e comentada por políticos e por «comentadores» fornece-nos a exacta dimensão da mediocridade em que sobrenadamos.

Tanto o eng.º Sócrates como o dr. Cavaco são criaturas deterioradas pela rotina de quem se plagia a si próprio. Dizem, há anos, as mesmas coisas. O meu amigo Vítor Ramalho declarou, ao Sol, que eles são almas gémeas. Como não percebi a entoação ignoro se o retrato possui algo de crepuscular: lá que não é bom, não é. Nenhum deles alimentou qualquer projecto para Portugal. A ausência de ideias e a inexistência de ideologia marcaram a presença destes dois homens na política. O primeiro recebeu dinheiro a rodos, não soube distribui-lo com equanimidade e génio, e apagou a claridade espantosa do nosso sonho colectivo, reintroduzindo na sociedade portuguesa a rigidez do espeque e a gelidez do chefe. Uma das grandes mistificações da nossa história recente é aquela que induziu a tese de estarmos em presença de um «grande homem.»

José Sócrates seguiu-lhe a peugada. Obedeceu à ordem do possibilismo, às indicações económicas dominantes, e à insensata tentação dos políticos do nosso tempo: o compromisso com eles próprios. Um caminho que levou, por exemplo, o viçoso Tony Blair, de tropeção em tropeção, até ao estatelamento final. Blair é uma das inextinguíveis vergonhas da nossa época, e a «terceira via» uma fraude não só infantil porque assustadoramente perigosa.

Chegados aos discursos do fim do ano, independentemente das objecções gramaticais ou sintácticas que se lhes faça, o pior é a substância do que dizem: nada de nada

«DN» de 6 Jan 10

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Hipátia na Ágora

Por Nuno Crato

CONTA-SE QUE ERA UMA MULHER ATRAENTE, que resistia aos seus numerosos pretendentes e que mantinha ostensivamente o celibato. Conta-se que era uma grande matemática e filósofa, que estudara em Atenas e vivia na agitada Alexandria, na época em que o helenismo, o judaísmo e o cristianismo se digladiavam no Império. Conta-se que foi morta violentamente por uma turba de religiosos fanáticos, quase certamente instigados pelo Bispo Cirilo, Patriarca de Alexandria. Tudo isto que se conta sobre Hipátia de Alexandria (c. 355–415) é a verdade histórica, ou seja, o que se conhece com a segurança possível.

É sobre isto que fala, com bastante fidelidade, o filme Ágora, actualmente em exibição entre nós. Retrata uma época em que as discussões civilizadas da praça pública grega, a ágora, tinham dado lugar à violência das turbas. As personagens, nomeadamente Amónio, Orestes, Cirilo e Sinésio, são figuras históricas, retratadas com alguma veracidade. Igualmente fidedigna é a descrição de Theon, o pai de Hipátia.

Theon foi um matemático famoso. Era bibliotecário em Alexandria e deixou vários comentários, ou seja, textos clássicos rescritos e desenvolvidos de forma a poderem ser difundidos e estudados. Não se lhe conhecem criações matemáticas originais, mas a qualidade dos seus textos impôs-se ao longo dos séculos, tendo chegado até aos estudiosos árabes. Sabe-se que Hipátia colaborou com ele em algumas edições, nomeadamente nas Tabelas Práticas de Ptolomeu e na Aritmética de Diofanto. Terá sido ela quem fez e corrigiu alguns cálculos de várias obras. Sabe-se ainda que fez um comentário ao Livros das Cónicas de Apolónio. Pouco mais se sabe sobre esta figura romântica da história da matemática, mas quem quiser conhecê-la melhor poderá ler Hipátia de Alexandria (Relógio D’Água), um breve estudo de Maria Dzielska que é a melhor fonte moderna sobre a cientista alexandrina.

O filme, que noutros aspectos tem preocupações históricas bastante louváveis, apesar de ser tão primariamente crítico do cristianismo primitivo que perde por esse primarismo, abandona aventurosamente a realidade quando fala das investigações de Hipátia. A matemática e astrónoma alexandrina aparece como tentando conciliar o modelo heliocêntrico de Aristarco com o modelo geocêntrico de Ptolomeu. Não há nenhuma base para essa presunção. O modelo de Aristarco era então apenas uma curiosidade algo absurda, e só em 1543 foi reavivado com o trabalho de Copérnico.

Entre outras desproporcionadas referências, o filme coloca Hipátia num navio, explicando ao prefeito romano Orestes a relatividade do movimento, um conceito avançado por Galileu 12 séculos mais tarde. Noutra cena, Hipátia discorre sobre a variação da distância da Terra ao Sol e tenta criar um modelo que consiga explicar essa variação sem círculos sobre círculos, os célebres epiciclos. Aí, os consultores do realizador esquecem os círculos excêntricos, com que Ptolomeu resolveu admiravelmente esse problema cosmológico. Numa das cenas mais exageradas da película, Hipátia conclui que as órbitas dos planetas devem ser elípticas, uma conclusão que escapou a Copérnico, a Galileu e a tantos outros e que demorou a Kepler uma vida de cálculos laboriosos para poder ser formulada.

É pena que estas invenções se juntem a outras falhas que tornam o filme menos interessante e menos credível. É pena, pois Hipátia é uma grande figura. É a primeira mulher matemática e os historiadores associam a sua morte ao fim da matemática helénica. Séculos passaram até que na ágora se voltasse a amar a ciência.

«Passeio Aleatório - «Expresso» de 31 Dez 09

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

JOSÉ SÓCRATES DEIXOU, nos primeiros anos do seu Governo, uma imagem de determinação e mudança. Determinação na forma imediata e decidida como encarou a inevitável reforma, a médio prazo, da Segurança Social ou a obrigatória redução do défice público para um valor abaixo dos 3%. Sentido de mudança ao assumir e levar à prática causas como a aposta do país nas energias renováveis, a modernização e simplificação dos serviços públicos (lojas do cidadão, desburocratização de serviços, rapidez de resposta com a redução de prazos e formalidades) ou a introdução do Inglês e das novas tecnologias (incluindo a distribuição de computadores a todos os alunos) nos primeiros graus de Ensino.

Sócrates falhou ao não reduzir a insustentável despesa do Estado nem o peso do funcionalismo nas contas públicas. E acabou a recuar na reforma dos serviços de Saúde ou na avaliação e carreiras dos professores, entre outros casos. Mas ficou a marca, ainda que atenuada no final, de um Governo com algumas causas, visão de futuro e de mudança.

Por contraste, este segundo Executivo de Sócrates surge como uma versão recauchutada e minimalista do Governo anterior, sem ímpeto reformador, sem ânimo para tomar medidas difíceis, sem causas que o motivem e orientem, sem ideias novas. Impotente perante a crise, tolhido pela perda de poder da maioria absoluta, Sócrates limita-se a apontar o TGV, repete-se e esgota-se a falar do investimento público – ou, para disfarçar o vazio de ideias e a ausência de energia de mudança, a colocar na agenda do dia temas marginais como o casamento entre homossexuais ou outro ensaio da inefável regionalização.

Sócrates lidera agora um Governo sem causas nem projectos reformadores. Um Governo de gestão corrente, precocemente esgotado. Até quando? – é a pergunta que se coloca.

Pior ainda. Quando o défice público já bate nos 9% e o endividamento está a ultrapassar os 100%, quando todos os organismos e autoridades internacionais afirmam que a economia portuguesa vai ficar ainda mais para trás e ter um crescimento mínimo nos próximos anos, incapaz de criar emprego e melhorar o nível de vida, Sócrates vem dizer aos portugueses, na sua mensagem de Natal, que «há sinais claros que estamos a retomar lentamente um caminho de recuperação». Se ainda for primeiro-ministro, o que dirá ao país quando se vir obrigado a tomar medidas drásticas, como está a acontecer na Irlanda e na Grécia?

«SOL» de 31 Dez 09

domingo, 3 de janeiro de 2010

Os Abutres do FMI

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Por J.L. Saldanha Sanches

O FMI É COMO OS ABUTRES: começa a voar em círculos à volta da presa quando acha que ela vai precisar dos seus serviços.

Os primeiros sinais foram dados quando o Parlamento resolveu reduzir as receitas públicas. O FMI concluiu, e infelizmente concluiu bem, que a actual composição parlamentar não permite nenhuma política responsável e a situação é de descontrolo financeiro.

Para o Bloco e o PCP isto não cria qualquer problema: o FMI é óptimo para justificar o discurso patrioteiro. A lógica da actuação da direita (se tem alguma lógica) é menos clara.

Toda a gente sabe que, mais dia, menos dia, os nossos credores vão-se mostrar inquietos, a conta vai surgir e as hipóteses são duas: reduzir as despesas ou aumentar os impostos.

Aumentar mais os impostos será desastroso: há um limite para a carga fiscal – um limite político – que já foi largamente atingido. As pessoas, as empresas e os consumidores não podem pagar mais.

A solução seria reduzir a despesa pública: mas qual despesa pública?

O serviço nacional de saúde constitui um requisito elementar de civilização. A segurança social já teve as reformas que deveria ter. Com a segurança vai ser preciso gastar mais ou pelo menos melhor.

O alvo das reduções deveria ser outro: não se pode continuar a despejar dinheiro para cima das regiões ou das autarquias e o pagamento dos submarinos não pode conduzir a um aumento das despesas militares que deveriam ser congeladas; por mais que isso irrite os senhores sargentos.

Quanto às regiões, uma coisa é garantir a todos os portugueses, vivam onde viverem, os mínimos exigidos pela dignidade humana. Outra é engordar as insaciáveis máquinas partidárias acampadas à volta das autarquias e das regiões.

As autarquias e as regiões são estruturas políticas dotadas de autonomia financeira e poderes tributários: o nível de despesa pública deve ser um decisão dos munícipes e ou dos habitantes das regiões e deve ser financiado pelos impostos aí cobrados.

Há um dever de solidariedade nacional dos portugueses com mais rendimentos para os portugueses mais desfavorecidos: mas não há qualquer dever de solidariedade entre regiões que se traduzem em transferências financeiras dos recursos obtidos juntos dos contribuintes com menos rendimentos (exemplo: receitas do IVA) para as máquinas partidárias e empresas de obras públicas das autarquias e regiões.

Sem redução de despesas, temos o aumento dos impostos que vai acentuar a transferência dos sectores produtivos para os improdutivos e consagrar o desperdício de recursos: o Governo Sócrates atingiu um tal estado de fraqueza que não pode recusar nada a quem ainda o apoia, incluindo às empresas do regime que insistem em construir estradas. Nesta perspectiva o Sócrates sem maioria, ainda mais refém de interesses especiais, é ainda mais nocivo do que o Sócrates com maioria.

A maioria na assembleia deveria travá-lo - mas isso não faz, bem pelo contrário.

O que significa que as medidas correctivas só serão tomadas pela pura pressão externa: do FMI, de Bruxelas, dos credores.

Com um problema: as medidas correctivas tomadas por imposição dos credores são sempre as piores.

«Expresso» de 24 Jan 09 – www.saldanhasanches.pt

Crónica piegas de fim de ano

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Por Alice Vieira

ESCREVER A CRÓNICA DE HOJE é uma coisa estranha, porque estou a escrevê-la em 2009, mas quando a lerem já estamos em 2010 - e sinto-me assim naquela terra de ninguém que são sempre as vésperas dos anos novos.

E ponho no leitor de CD’s músicas piegas, porque hoje tudo é permitido, e encho-me de aznavours e domenicos modugnos e coisas do tempo em que o tempo demorava muito tempo a passar, não era como agora em que as horas têm cada vez menos minutos e os minutos menos segundos.

E de repente voltam-me à cabeça as imagens do almoço de ontem, daqueles almoços anuais de gente que anda perdida mas que, quando toca a reunir, não falta: e eu no meio dos meus velhos camaradas de trabalho do “Diário de Notícias”, mais de trinta, da redacção, do laboratório, da revisão, da contabilidade, da preparação, do arquivo, palavras que se calhar hoje já nem se usam, mas que foram a nossa casa comum durante anos e anos.

E tal como as músicas no leitor de CD’s continuam piegas, este texto também o vai ser, e ridículo, evidentemente, como todas as cartas de amor desde Fernando Pessoa.

Não sei o que os novos jornalistas entendem hoje por “amor à camisola”, “espírito de corpo” e outras expressões igualmente em vias de extinção. Não sei se serão capazes de imaginar um jornal onde havia pessoas — e não máquinas. Pessoas que berravam, barafustavam, insultavam, davam murros na mesa — mas que eram um corpo só, capaz de enfrentar, como um corpo só, tudo o que viesse. Pessoas de todas as ideologias (num tempo em que isso ainda estava quente…) mas que gostavam verdadeiramente umas das outras. Pessoas que não eram apenas jornalistas mas gente de todos os sectores, incluindo motoristas e contínuos. Nós todos éramos o “Diário de Notícias”.

É evidente que esta é uma geração que acabou. Nunca haverá outra igual. Uma geração de gente que esteve no “Diário de Notícias” uma vida inteira e não apenas meia dúzia de anos (ou de meses, que isto agora é tudo efémero...).

Hoje os tempos são outros, a maneira de fazer jornais é outra, as relações entre as pessoas é outra.

E nestes últimas horas de 2009, quando é da praxe desejarmos felicidades aos nossos amigos, eu só desejo às novas gerações de jornalistas que um dia, já reformados, possam reunir, todos os anos, mais de trinta velhos camaradas das suas redacções e terem, como nós, tanta coisa, para lá das notícias, a recordar em conjunto.

(Uma palavra só para o nosso velho chefe de redacção, que por doença não pôde estar connosco: chefe Pires, eu sei que lhe demos um trabalhão dos diabos, mas todos bebemos à sua saúde, e todos concordámos que foi consigo que aprendemos tudo.)

Repito: foi uma geração que acabou.

Mas sinto um orgulho enorme em lhe ter pertencido.

«JN» de 2 Jan 10

sábado, 2 de janeiro de 2010

1-2-3 - Solução na última foto


Depois de muitos anos de protestos dos moradores contra esta situação...
... a autarquia (Câmara Municipal ou Junta de Freguesia - não sei) acabou por colocar 5 pilaretes.
Teve, no entanto, o "cuidado" de não impedir o acesso ao passeio...
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... pelo que tudo continuou na mesma.
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Agora, que o único pilarete que ainda protegia alguma coisa foi derrubado...
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... já estão todos contentes, não?
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(Não tenham pena do cavalheiro da imagem de baixo, pois é o condutor da carrinha...)
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NOTA: Na 2ª imagem, repare-se no Mini: estacionado na passadeira... e em contramão (pois a rua é de sentido único, da esquerda para a direita)!

O velho e o novo

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Por Antunes Ferreira

ALQUEBRADO, DESMIOLADO, abandonado, o velho desgraçado tentou mover a cadeira de rodas empurrando estas com as mãos vacilantes e anquilosadas. Em vão. As articulações carregadas de artrite piores estavam do que dobradiça enferrujada. Sem óleo que lhes valesse, encarquilhadas, pendentes, eram apêndices de estorvo e pouco mais. Chegavam para limpar o nariz e as beiças – sem lenço.

Conseguiu a muito custo puxar a manta esburacada até o meio do peito escanzelado, costelas marcadas, contáveis uma a uma. Pretendia leva-la até ao queixo, num intento desesperado de proteger o pescoço. Um frio infiltrava-se-lhe pelos pés, e com tantas agulhas se cozia, que, por certo, era o do fim. Que estava a chegar, insidioso, tiritando-o. É a morte, congeminou, e ele sem desejo nenhum dela.

De fora, por entre as bátegas, cordas de chuva ininterrupta, uivava um suão que escorropichava pelas frestas da porta periclitante, na hesitação de fugir dos gonzos. O pulha destilava o frio que tomava conta do resto do homem esquálido. Redemoinhos dançavam em coreografia maluca e, caso para espanto numa terra como aquela, até pequenos tornados volteavam também.

O ancião estremeceu. Tinha fome. Mas, no estado em que se encontrava, como resolver essa vontade de comer, de comer o que quer que fosse, de comer – comida? Um pão. Uma carcaça. Com presunto seria melhor, muito melhor. Porem, o minimercado da rua ficava longíssimo para ele, aí a uns, sabia lá, mas a uns trezentos metros, quiçá um pouco menos, na esquina com a avenida grande.

Voltou a tentar mover a cadeira, apoiando as mãos esqueléticas e nodosas nas rodas. Quem fora o inventor delas? Perdia-se-lhe no córtex a identidade e o tempo, mas devia ter sido alguém, possivelmente a precisar de comer um papo-seco. Não, fora na pré-história. Ou teria sido na revolução francesa? Que coisas lhe barafundeavam a cabeça…

A sede também o apertava. Um copo de água, por favor, mesmo da torneira, engarrafada e mineral seria mais sensato, andavam no ar tantas bactérias e micróbios e vírus e, depois, a gripe dos porcos e essas tretas espreitavam a cada canto, ele não tomara a vacina. Mas, o que vinha mesmo a calhar era um uísque sem mais nada. Pensando bem, c’os diabos, ainda pensava, até um chá de tília saberia a hidromel. Ora essa, por que porras lhe dera para o hidrom…

O miúdo chegou – e deu com ele acabado de morrer. Então?... Era um novo, em quem toda a gente depositava as maiores esperanças, sobretudo que fosse melhor do que, em síntese. É sempre assim, os que surgem trazem com eles o benefício das dúvidas dos que já estão. Principalmente, fartos dos anteriores, cujos vaticínios tinham sido iguais – ou quase.

Um puto vivo, esperto, inteligente, um fora de série. Abrira a porta de entrada porque tinha a chave, morava no andar do lado, e trazia um saco de plástico do minimercado com umas coisas para o velho. Assustado pelos olhos escancarados do morto, recuou, saiu a correr e entrou no apartamento aos berros pelo pai. Este só esperava por ele para abrir a garrafa de espumante. Na rua batiam latas. E ele, para o pai, para a mãe, para a irmã, até para a avó Almerinda: o velho foi-se. E todos: feliz ano novo!!!!!!!!!

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Aventuras Natalícias

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Por Maria Filomena Mónica

DESDE QUE A MINHA MÃE MORREU, recebo, na Consoada, a família, isto é, os meus dois filhos e três netos. Uma vez que os meus talentos culinários se reduzem a estrelar um ovo - devido à conotação do termo, considero que deveria ser este, e não o bacalhau, o prato da época – encomendo o jantar fora. Suponho que me sentir culpada, tento concentrar-me na decoração, colocando na mesa uma toalha bordada e montando uma árvore com bolas de lamé.

Tendo herdado um Menino Jesus, no ano passado decidi acrescentá-lo à festa. Lembrei-me dele a meio das férias que este Outono passei na Andaluzia. A 22 de Outubro, fui visitar a Igreja de Salvador, em Sevilha. Quando cheguei, foi-me dito que teria de esperar uma hora, pois o rei iria comemorar, ao meio-dia, o fim do restauro do templo. Depois de ele ter saído, pude admirar as sumptuosas imagens que povoam esta igreja. Ainda sob a influência do ambiente que ali se respirava, fui até à calle Francos, onde pululam lojas de artigos religiosos que em nada se parecem com os decrépitos estabelecimentos que, a custo, sobrevivem em Lisboa. Aquelas estão cheias de pessoas, algumas, como verifiquei, a comprar já tecidos para fabricar as indumentárias para a Semana Santa. Foi numa delas, a Cordoneria Alba, que reparei num vestidinho que considerei ficar a matar no meu Menino Jesus. Comprei-o imediatamente.

Só quando, em Lisboa, Lhe peguei ao colo, verifiquei que o escultor já havia pintado, na parte superior do corpo, uma camisinha com estrelas e, na parte inferior, uns calçõezinhos doirados. Como explicar o facto de eu ter esquecido que Ele se encontrava vestido? Estava desanimada, quando abri a janela das traseiras. No jardim que, durante anos, considerara meu, e que agora pertence ao dinamarquês do 5º andar, o velho caramanchão encontrava-se coberto de luzinhas. A conclusão é obvia: só os escandinavos sabem como festejar o Natal a preceito. Obrigado, William.

Dezembro 2008