segunda-feira, 8 de março de 2010

Alice torna-se filósofa

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Por Nuno Crato

NA PARTE FINAL de Alice do Outro Lado do Espelho que hoje é distribuída com o Expresso, a nossa heroína envolve-se em algumas discussões aparentemente absurdas. São conversas muito ao gosto do seu autor, o matemático Charles L. Dodgson que aqui escreve sob o pseudónimo de Lewis Carroll, como temos referido.

No capítulo 6, Humpty Dumpty considera-se no direito de dar às palavras um significado arbitrário: “Quando eu emprego uma palavra ela quer dizer exactamente o que me apetecer… nem mais nem menos”. E Alice fica confusa com alguns significados que o estranho ser inventa. As palavras, na realidade, são arbitrárias. Poder-se-ia chamar “caneta” a uma árvore e “alice” a uma cadeira, que todos os raciocínios seriam válidos desde que se mantivessem evidentes os sentidos subjacentes. Por isso, para Humpty Dumpty o significado pode ser exacto — “nem mais nem menos”, o que não quer dizer que seja perceptível na comunicação.

Na linguagem científica evita-se discutir palavras e símbolos. Para isso, explicitam-se desde o início o significado em que os termos são usados. Na matemática, talvez a mais precisa das disciplinas, há definições e designações alternativas que não estão nem mais certas nem mais erradas que outras. São aceites desde que sejam coerentes e permitam o desenvolvimento dos temas. Muitas vezes, os artigos científicos começam por repetir conceitos conhecidos, apenas para que se percebam melhor as designações que vão ser usadas no resto do trabalho.

Em poesia, literatura e outras artes acontece frequentemente o contrário. Pode-se ganhar com a imprecisão. O uso ambíguo de um termo pode condensar todo o significado poético de uma frase e a dúvida que persiste na conclusão de uma obra de arte pode ser o que lhe dá a maior beleza.

O mais grave é o uso da linguagem ambígua onde ela deveria ser clara. Em Alice, o contraponto à arbitrariedade da linguagem e a descrição da ambiguidade aparece logo no capítulo seguinte (O Leão e o Unicórnio). A instâncias do rei, que lhe pergunta quem vê na estrada, Alice responde “Ninguém”. E o rei comenta: “Como eu gostava de ter boa vista, para conseguir ver ninguém a esta distância”.

Pode-se daqui inferir que Lewis Carroll está a tratar “ninguém” como sendo uma entidade, da mesma forma que os matemáticos tratam o conjunto vazio como algo existente. Mas o que ressalta nesta passagem tal como na seguinte em que o rei interroga o mensageiro, é a confusão derivada do uso ambíguo de termos. Será que, tal como Humpty Dumpty, o rei dá a “ninguém” o significado de um ente que pode ser visto? Para se comunicar é necessário que haja acordo no significado das palavras. E nesse sentido as palavras não são arbitrárias.

A mais famosa história do uso ardiloso da ambiguidade de “ninguém” aparece na Odisseia. No Canto IX, Ulisses, prisioneiro do Ciclope Polifemo, declara chamar-se “Ninguém” (365). Quando cega o monstro com um tronco de oliveira incandescente [imagem], este grita por ajuda dizendo “Ninguém está a matar-me (405).” Os outros Ciclopes, pensando que ninguém lhe estava a fazer mal, não lhe acodem e o astucioso Ulisses consegue fugir da gruta e regressar ao seu navio.

Para que as coisas se percebam é necessário distingui-las. “Como se pode falar com uma pessoa que diz sempre a mesma coisa?” interroga-se Alice no início do capítulo final. Sabe-se em teoria matemática da informação que é necessário pelo menos uma distinção binária para que algo se transmita.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 6 Mar 10 (adapt.)

Apontamentos de Lisboa

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Lisboa, Praça da Figueira
Hoje, 8 Mar 10, entre as 12h30m e as 13h30m

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

José Sócrates
e Alberto João Jardim puseram para trás das costas mútuas antipatias pessoais e velhas divergências políticas para fazerem face à catástrofe que atingiu a Madeira. Sentaram-se à mesa e aprovaram em conjunto um plano de reconstrução e ajuda financeira que substituirá, de imediato, os polémicos efeitos da querela sobre a lei das Finanças Regionais.

Esta conjugação de esforços e de vontades entre irredutíveis adversários políticos para superar, num momento de crise, a devastação e os prejuízos que o temporal provocou na sociedade madeirense, foi devidamente elogiada como exemplo de sentido de Estado e de capacidade para enfrentar uma situação de emergência nacional.

Mas tudo o que cai no excesso acaba por se tornar contraproducente. E a encenação forçada que Jardim e Sócrates apresentaram ao país, na passada segunda-feira, ultrapassou os limites do bom senso e da credibilidade. «Quero agradecer ao Governo Regional...», adiantou Sócrates com a voz trémula. «Quem tem de agradecer somos nós...», interrompeu Jardim em tom enlevado. «Não, não... foi um gosto poder trabalhar convosco...», contrapôs Sócrates à beira da comoção.

Ora, não se pode, num dia, chamar todos os nomes e acusar de todas as malfeitorias um interlocutor político e, no dia seguinte, cair-lhe nos braços com uma lágrima contida ao canto do olho, como quem acaba de reencontrar um amigo de peito há muito desaparecido. Só nos últimos tempos, Jardim afirmou que Sócrates é «uma praga, o maior inimigo da Madeira desde o 25 de Abril» e que «num país democrático a sério já não era primeiro-ministro» com todos «os escândalos» que o têm rodeado, mas «o senhor Pinto de Sousa não abandona, porque tem lata para isto e muito mais». Sócrates, por seu lado, não se tem cansado de apontar «o défice democrático na Madeira» e de repudiar «o discurso radical e insultuoso» de Jardim.

Se os políticos não mantêm um mínimo de coerência nos seus comportamentos e de dignidade na imagem que transmitem arriscam--se a que a solidariedade e a entreajuda se confundam com hipocrisia e oportunismo de ocasião. Como foi o caso desta encenação mediática protagonizada por Jardim e Sócrates.

«SOL» de 5 Mar 10

domingo, 7 de março de 2010

Parque dos CTT na Av. João XXI






Os CTT da Av. de Roma (em Lisboa) têm, mesmo ali ao lado (na Av. João XXI), um parque para as suas viaturas que está quase sempre indevidamente ocupado por carros particulares, obrigando as carrinhas da empresa a estacionarem em infracção.

Embora, com frequência, a Polícia Municipal e a EMEL multem esses carros, o certo é que a infracção parece compensar: recentemente, um carro esteve ali estacionado durante uma semana inteira, dia e noite... tendo sido multado uma única vez.
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Há, no entanto, um outro aspecto: não seria lógico que a placa de "Reservado aos CTT" fosse apenas válida para os dias úteis (das 9 às 18h, p. ex.), como sucede em muitos outros sinais semelhantes, inclusivamente na mesma zona?

sábado, 6 de março de 2010

Na terra das Leis-da-Treta

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Lisboa - Av. S. João de Deus
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As duas grades vazias reservam lugares de estacionamento... onde é proibido PARAR

Elogio da imprensa e dos seus homens livres

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Por Baptista-Bastos

O INQUÉRITO
na Comissão de Ética tem obtido resultados pungentes. Até agora, os deponentes que por lá passaram debitaram umas banalidades e revelaram uma assustadora ignorância da nossa História próxima recente, como uma indigência comovente do que é jornalismo. Apenas Francisco Pinto Balsemão disse algumas coisas acertadas. Não espanta. Ele é um homem que, no "Diário Popular", de que foi proprietário, conheceu a agressiva intervenção da Censura. Com uma Redacção na maioria constituída por jovens redactores que não morriam de amores pelo salazarismo: alguns deles, como Mário Ventura, tinham passado, duas vezes, pelas masmorras de Caxias. Balsemão conhece as diferenças das épocas e possui, sobre todos os outros preopinantes, a experiência de moral em acção. Não nos esqueçamos que, quando foi primeiro-ministro (já depois de Abril, evidentemente), o jornal que mais o atacou, às vezes quase irracionalmente, chamava-se e chama-se "Expresso", de que é dono.

Escuso-me a dizer o que, profissionalmente, penso, hoje, daquele semanário, cuja leitura abandonei, por viscosa, há mais de três anos. Mas o que penso, obsta-me, por motivos de ordem higiénica. Mas Balsemão é outra coisa. Como dizia um querido amigo, Manuel Magro, outro dos grandes de que o "Diário Popular" dispôs, "o homem tem a democracia até à medula."

Quero dizer, com isto, que Francisco Pinto Balsemão, sobre ter a carteira profissional de jornalista, de que se orgulha, sabe do que fala quando fala de jornais. Ao contrário de muitos daqueles simpatizantes de jornalismo, que pela Comissão de Ética têm passado. O depoimento dele seguiu-se ao de Manuela Moura Guedes, cujo conteúdo e objectivos deixo de largo. Cansei-me de campeões da liberdade.

Aquilo vai levar a nada. O que não sucederá, quase de certeza, com a Comissão de Inquérito Parlamentar. Vai-se saber, então, se José Sócrates e seus apaniguados "socialistas" acondicionavam, em aconchego tenebroso, um plano sinistro para dominar a liberdade de expressão. Apurada a verdade dos factos, comprovada como verdade que o primeiro-ministro mentiu ao Parlamento, chamado que for para averiguações dos acontecimentos - o seu destino está marcado: terá de ser despedido, por indecente e má figura. Será a primeira vez que um primeiro-ministro de Portugal sofrerá de tal pena e de tal vergonha.

Todavia, tem de se saber se ele é ou não culpado de indignidade moral. Os senhoritos e senhoritas que por lá têm debitado banalidades e espelhado um narcisismo risível nada acrescentam à verdade que se procura. Por outro lado, os deputados, valha-os Deus!, manifestam um desconhecimento absoluto da especificidade do jornalismo e das singularidades dos profissionais. Este último pormenor está longe de ser despiciendo: a feira de vaidades que é a Imprensa (lato senso), o concentrado de egos que acalenta e o amontoado de ódios que embala são de molde (quando se os conhece) a fazer fugir o espírito mais coriáceo.

Alguns dos responsáveis pelas publicações deviam envergonhar-se pelo que dizem e pelo papel que vêm representando. Já praticaram censura interna, já procederam a práticas de omissão e de perseguição (a forma mais hedionda de censura), já foram as vozes caninas da ideologia dominante. Deviam, caso estivessem interessados e soubessem, preocupar-se mais com a natureza dos conteúdos, com a gramática e com a fundamentação das notícias que apresentam.

A batalha pela tiragem, no caso dos jornais, e pelas audiências, quanto às televisões, atingiu níveis nunca vistos e extremamente perigosos. A informação deixou, na esmagadora maioria dos casos, de ser contextualizada, social e historicamente; e a opinião contrária, habitualmente, é obtida através do telefone. Um descrédito que tem acentuado a degenerescência da profissão e a decadência de uma classe que, mesmo nas horas mais ominosas do fascismo, conseguiu manter a cabeça fora do lodaçal, e não capitular. E, podem crer os Dilectos, foram anos e anos dolorosos e difíceis, que aniquilaram grandes jornalistas e destruíram sonhos maiores e decentes ambições.

João Chagas [1863-1925], que foi um dos maiores jornalistas portugueses de sempre, político emérito, grande prosador e homem de bem, escreveu, em "As Minhas Razões", reflexões admiráveis, e extremamente actuais acerca do tema de que discreteei. Um excerto:
"Está absolutamente demonstrado que só os poderes enfraquecidos perseguem a Imprensa e, por outro lado, está igualmente demonstrado que nem por isso se tornam mais robustos e que, ao contrário, acabam quase sempre por se declarar vencidos. Só os poderes enfraquecidos temem a Imprensa, porque a Imprensa não é para temer. Só a verdade é temível, disse o velho Thiers, que um tão belo papel representou no acto de protesto contra as Ordenanças de Julho.

"Os juízos da Imprensa só são eficazes quando são justos, porque, apesar de tudo, quando se pensa da influência da Imprensa sobra a opinião, nem por isso é menos certo que são, afinal, os votos desta que ela acaba por formular. Não é geralmente o jornal que faz a opinião, é a opinião que faz o jornal, e o jornal é, quase sempre, o último a exprimi-la."

Dilecto: agora, ia por aí fora, na reprodução desta extraordinária reflexão sobre jornalismo. Que fique pois, e somente, como um voto de gratidão e homenagem aos autênticos profissionais portugueses, que nos legaram páginas e páginas imortais, nas quais a liberdade está marcada como desejo, realidade e luta. E como imposição da honra, da dignidade e da honradez.

Aos outros, o meu profundo desdém.
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«Jornal de Negócios» de 5 Mar 10

sexta-feira, 5 de março de 2010

Passatempo-relâmpago de 5 Mar 10 - solução

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Qual o motivo do que se vê em cima?
A resposta é...
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TRATA-SE do lado Norte da ala de poente da Alameda Afonso Henriques, em Lisboa. O passeio está "devidamente" esventrado porque o estacionamento, em cima dele, ... é legal:

Não só tem parquímetros da EMEL, como até há risquinhos no chão, feitos com pedrinhas pretas, de calçada portuguesa, a delimitar os espaços!
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Mesmo por debaixo, há um parque subterrâneo, com 5 pisos, dos quais o inferior até está fechado - decerto por falta de utilizadores (o que já se nota no 4.º).
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É o estacionamento de Lisboa, em todo o esplendor do absurdo que já é o seu ex-libris.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Passatempo Calimero - Solução

Camelos


Por João Paulo Guerra

POR IMPERATIVOS europeus, Portugal vai ter dez anos para tirar 450 mil portugueses da situação de pobreza! 45 mil, por ano!

Bem se sabe, desde Almeida Garrett, que são necessários uns quantos pobres para fazer um rico. Mas esta diminuição do número de pobres em Portugal não é caso para entrar em pânico.

Em primeiro lugar porque 450 mil pobres representam apenas um quarto dos portugueses que vivem abaixo do limiar da pobreza. O que quer dizer que vão sobrar imensos pobres em Portugal neste Ano Europeu do Combate à Pobreza. Em segundo lugar porque a caridade pode ser uma excelente oportunidade de negócio, como disse um dia destes em Lisboa o secretário-geral da OCDE. E, em geral, o negócio da caridade passa frequentemente pelo branqueamento de capitais, a fuga ao fisco e outros esquemas fraudulentos sofisticados. Ora tendo em conta que a economia paralela, graças à crise, está a representar quase 20 por cento da riqueza do país, acabar com alguns pobres pode resultar num aumento da quantidade de ricos.

Só é de estranhar é que seja necessário vir a União Europeia com as suas directivas para que Portugal adira, com iniciativas e metas, ao Combate à Pobreza. Portugal é um país que em lugar de criar riqueza faz criação de ricos. E a falta de olho para o negócio da caridade não abona nada a esperteza dos chico-espertos nacionais que nunca desperdiçaram uma oportunidade. Aliás, se não havia oportunidades, os chico-espertos portugueses criavam-nas. E foi assim que Portugal passou a ser uma democracia esquemática: é só esquemas.

A oportunidade de Portugal acabar com um número rateado de pobres é um desafio. Resta saber se em Portugal não será mais fácil fazer passar um camelo pelo fundo de uma agulha (Mateus, capítulo 19, versículo 24).

«DE» de 4 Mar 10

quarta-feira, 3 de março de 2010

Apontamentos de Lisboa



Lisboa - Av. Almirante Reis
3 Mar 2010 - 16h40m

Os corruptos, nossos amigos


Por Rui Zink

JÁ AQUI TIVE OPORTUNIDADE de explicar que o princípio de “não bater nos mais fracos” não faz qualquer sentido. Porque, se não for nos mais fracos, vamos bater em quem? Pois hoje venho explicar que o abuso de poder é bom. Não digo para os abusados, mas para quem abusa. E daí? Toda a gente diz mal dos abusadores, dos corruptos, mas esquecemos que os abusadores também são gente. E merecem ser acarinhados. Sem condições, sem apoios, claro que é difícil para um português, por mais que se esforce, atingir o nível competitivo de um Madoff, ou mesmo um traficante afegão.

De resto, só quem não tem poder resmunga contra quem beneficia abusivamente desse poder. Eu, por exemplo, detesto dar aulas. Em compensação, a parte do chumbar alunos já acho gira. É a recompensa possível pelas humilhações sofridas a falar para o boneco. Da mesma forma para um “dirigente”, depois do tempo perdido a aturar eleitores durante a campanha, depois de tanto sorriso, tanto beijinho, tanta faneca assassinada, a tomada do poder é como chegar a casa ao fim dum longo dia de trabalho: uma pessoa só quer pôr-se à vontade e relaxar. E untar as mãos com um pouco de mel ou, como dizem os franceses, enfiá-las num “pote de vinho”. Qual é o mal? Mas não, nunca se está descansado, vem logo alguém relinchar que “ser corrupto é feio”. Está bem, feio será. Mas sabe tão bem…

Porque a triste verdade é que o exercício do poder só dá gozo se abusarmos dele. Não o fazermos... é o mesmo que não o ter. Porque estamos apenas (como dissemos em campanha) “ao serviço dos concidadãos”. E, isso sim, é uma seca. Então andei eu a esfalfar-me, a fazer fretes e mais fretes (na Jota ou noutro local igualmente lindo), a fazer contactos, a lamber botas, a bajular chefes, para acabar feito criado a servir os outros? Ná.

«Metro» de 1 Mar 10

Tudo o que se passa passa-se com todos

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Por Baptista-Bastos

O DESEMPREGO não pára de aumentar na Europa. Uma análise honesta do problema autoriza-nos a concluir que a crise do sistema está a prolongar-se e a desenvolver-se com resultados finais previsivelmente assustadores. Em Portugal, a percentagem de desempregados atingiu os 10,5 por cento, e a tendência é para aumentar substancialmente. Pode-se olhar para o lado, criando a torpe ilusão de que as desgraças só acontecem aos outros. Não é verdade. Como no poema de Brecht, tudo é com todos, e já estão a tocar no batente da nossa porta.

À incapacidade total dos nossos governantes, já não digo para resolverem, mas, pelo menos, para enfrentar o problema, junta-se o facto de obedecerem, cegamente, às combinações únicas do elemento standard. Os módulos do mercado, quer dizer: as exigências brutais do capitalismo, encontraram as mais servis concordâncias nos chamados partidos de poder. Mas que poder?, tendo em conta que esse próprio conceito se desvaneceu. Partidos conservadores, socialistas, sociais-democratas ou demoliberais pouco possuem, hoje, que os distinga uns dos outros. Politicamente, agem de forma semelhante. A perda das suas identidades, absorvidas pela "economia única", põe em risco a própria democracia. A "democracia totalitária" está aí.

No caso português, o Governo é, averiguadamente, inepto para resolver o problema. A sua indeterminação ideológica pode explicar a decomposição da nossa vida cívica. Por outro lado, as representações actuais do PSD (três candidatos à chefia) não são animadoras. Nada se sabe dos projectos "alternativos", talvez porque, na realidade não existam, a não ser a continuidade de "políticas de aquiescência". Cada qual apenas pretende gerir, a seu modo, a crise geral do capitalismo, sem demonstrar a necessidade da sua crítica. O mimetismo, com ligeiras modificações de pormenor, tornou-se comum aos partidos. O mundo da economia substituiu o da política, com os nefastos resultados que se conhecem. O futuro não augura nada de bom para os portugueses. Os portugueses desempregados, pobres e assustados, bem entendido. Para uma escassa minoria, vencimentos obscenos, reformas escabrosas, as coisas correm pelo melhor.

Entre outras, há uma pergunta a colocar: um país pode ser governado assim, ausente das relações sociais, mantendo, obstinada e cegamente, a ruptura com a dimensão colectiva?

O PS deixou, há muito, de advogar uma identidade específica, que o colocasse entre a Direita do PSD e a Esquerda do PCP. É um imbróglio sem convicções, como o PSD é o que sempre foi: um jogo de dependências sem grandeza nem glória. Poderemos, alguma vez, recuperar o nosso "não" e o nosso "sim"? Duvido.

«DN» de 3 Fev 10

terça-feira, 2 de março de 2010

Do outro lado do espelho

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Por Nuno Crato

A SEGUNDA AVENTURA de Alice possui ainda mais referências eruditas e científicas que a obra anterior de Charles Dodgson. Escrevendo sobre o pseudónimo de Lewis Carroll, este professor de matemática de Oxford tinha aqui o propósito de entreter jovens e não de ensinar matemática e lógica. E é assim que as aventuras de Alice devem ser lidas. Mas o público adulto não pode deixar de notar as subtilezas da narrativa.

O começo é profético. Ao passar pelo espelho, Alice fica igual? O leite simétrico, o leite do outro lado, é tão bom como o deste? O problema transcende o tratamento matemático da simetria. Geometricamente, é possível duplicar tudo no espelho e o mundo novo irá funcionar perfeitamente. Mas, sem o saber, Dodgson põe o dedo num problema que só seria resolvido em meados do século XX quando os físicos, nomeadamente Lee e Yang, que receberam em 1957 o Nobel por esse seu trabalho, mostraram a existência de assimetria nas partículas elementares. Como o nota Martin Gardner (The Annotated Alice, 1970, p. 152), o leite perfeitamente simétrico seria constituído por antimatéria, pelo que Alice e o leite explodiriam por simples contacto.

Mas o trecho mais citado desta segunda aventura é, sem dúvida, a exortação da rainha à corrida. Aparece logo no capítulo 2. «Aqui, vês, é preciso correr o mais depressa possível para ficar no mesmo sítio». Os políticos e economistas modernos percebem bem a profundidade do dito.

Mais à frente, no capítulo 4, aparece um gigantesco corvo que escurece subitamente a cena e interrompe a luta entre os dois caricatos irmãos. O episódio parece ter sido inspirado numa história verídica de uma batalha do século VI a.C. O biólogo e evolucionista britânico J.B.S. Haldane, nascido em Oxford em 1892, quando o autor de Alice ainda aí residia e trabalhava, não tem dúvidas. No seu livro de ensaios Possible Words (1927, p. 8), diz que «A verdadeira história é a seguinte: Aliates, rei da Lídia, estava há cinco anos em guerra com Ciaxares, rei dos Medos. No seu sexto ano, em 28 de Maio de 585 a.C., como se sabe, a batalha foi interrompida por um eclipse total do Sol. Os reis pararam a batalha». Nas palavras do historiador grego Heródoto, «ficaram mais que ansiosos por estabelecer a paz» (Histórias, 1.73-4)

No capítulo seguinte, Lewis Carroll retorna a um dos seus temas favoritos, o tempo. Agora, coloca-o a andar para trás, o que surpreende Alice. Sabe-se que Dodgson gostava de rodar as caixas de música em sentido inverso, para perceber como resultavam as melodias tocadas ao contrário. Toda esta discussão poderá ter inspirado o escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald a escrever em 1922 a novela O Estranho Caso de Benjamim Button, adaptada com imenso sucesso ao cinema há dois anos. Com o tempo a andar para trás a rainha de Alice tem memória nos dois sentidos: lembra-se do que passou e do que vai acontecer! Naturalmente também prevê o passado. Aliás, segundo um conhecido provérbio inglês, a previsão mais difícil é a do futuro.
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Deixemos o leitor com um desafio de previsão do passado que Dodgson incluiu na sua colecção de Problemas de Travesseiro (1893, n.º 5): uma caixa tem uma única bola, preta ou branca, não se sabe; junta-se-lhe uma bola branca e sacode-se; tira-se uma bola ao acaso, que se verifica ser branca; que é mais provável, que a caixa tivesse originalmente uma bola preta ou uma branca?
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 27 Fev 10

segunda-feira, 1 de março de 2010

Marcianos uma ova!...

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Por João Duque

Engenheiro - Com que então o senhor professor João Duque acha que pelo facto de o Governo ter retirado as concessões e subconcessões do quadro das parcerias público-privadas no relatório do Orçamento de Estado de 2010, colocando-as noutro quadro que se lhe segue, mas ainda no mesmo Orçamento, quando no Orçamento de 2009 estava tudo no mesmo quadro, pressupõe uma desleal manipulação da verdade, e insinua que com isso queremos "enrolar" os portugueses. Francamente! Seja intelectualmente honesto!

João Duque - sr. engenheiro, o senhor lê rápido e fundo. Não escrevi exactamente isso, mas já que o diz e assim interpretou o meu anterior artigo publicado no Diário Económico, deixe-me "retocar-lhe" a leitura. O que eu quis mostrar é que a retirada dos elementos de um quadro para o outro em dois Orçamentos de Estado consecutivos, não respeita um dos mais consagrados princípios de apresentação de contas que o Estado obriga à sociedade civil e que é o da comparabilidade.

Engenheiro - Ora, ora meu caro, mas isso não é o que você escreveu! O que insinuou com aquela piada de mau gosto sobre marcianos a pagarem as nossas estradas, foi que o Governo manipulava os dados e isso é falso. Ouviu? Falso!

João Duque - Calma sr. engenheiro, não se irrite tanto. Em primeiro lugar eu não escrevi que o Governo manipulava os números. Apenas mostrei que, enquanto no Orçamento de 2008 e 2009 os encargos líquidos para o Estado com as parcerias público privadas (PPP) cresciam de ano para ano (18 mil milhões em 2008 e 23 mil milhões em 2009), quando se lê o Orçamento de 2010 esses encargos passavam para 8,5 mil milhões. Mas, já agora, deixe-me confessar-lhe que, ao esmiuçar mais os números fiquei deveras confuso.

O caso é que quando calculei o valor actual dos encargos líquidos para o Estado decorrentes das PPP, apenas e exclusivamente para as tais concessões e subconcessões rodoviárias, o valor apresentado no Orçamento de 2009 foi de 16,4 mil milhões de euros negativos. Mas no Orçamento de 2010 esse valor passou para um valor positivo de 6,9 mil milhões! Então que vem a ser isto?

E como não há referência a erros grosseiros nas estimativas do Orçamento anterior, então é porque esta diferença de 23,3 mil milhões só se pode ficar a dever às novas concessões e subconcessões rodoviárias que se esperam lançar no ano de 2010... Isto é, as novas concessões permitirão, só por si, um valor actual líquido positivo de 23 mil milhões a compensar as antigas que apresentavam valores descontroladamente negativos... Ou vamos todos pagar portagens em todo o lado, ou há benefícios financeiros inimagináveis para as estradas e auto-estradas projectadas para recônditos locais populosos de Portugal que ainda não descobrimos.

Porque das duas, uma: ou vamos pagar portagens da sala para o quarto de modo a que a Conta do Estado venha a registar este milagre, ou estamos a falar das estradas para o Paraíso. Mas conhecendo os homens, não será mais lucrativo portajar a passagem ao Inferno?

Valha-nos Deus...
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«DE» de 25 Fev 10
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NOTA (CMR): Julgo que o "engenheiro" a que João Duque se refere é alguém (cujo nome não anotei) que publicou uma crónica a contrariar uma outra de J.D.

Um pesadelo

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Por Manuel João Ramos

EU TIVE UM SONHO, por Cecílio Gomes da Silva*

TRAUMATIZADO pelo estado de desertificação das serras do interior da Ilha da Madeira, muito especialmente da região a Norte do Funchal e que constitui as bacias hidrográficas das três ribeiras que confluem para oFunchal, dando-lhe aquela fisiografia de perfeito anfiteatro, aliado a
recordações da infância passada junto à margem de uma das mais torrenciais dessas ribeiras– a de Santa Luzia – o mundo dos meus sonhos é frequentemente tomado por pesadelos sempre ligados às enxurradas invernais e infernais dessa ribeira.

Tive um sonho. Adormecendo ao som do vento e da chuva fustigando o arvoredo do exemplar Bairro dos Olivais Sul onde resido, subia a escadaria do Pico das Pedras, sobranceiro ao Funchal.
Nuvens negras apareceram a Sudoeste da cidade, fazendo desaparecer o largo e profundo horizonte, ligando o mar ao céu. Acompanhavam-me dois dos meus irmãos – memórias do tempo da Juventude – em que nós, depois do almoço, íamos a pé, subindo a Ribeira de Santa Luzia e trepando até à Alegria por alturas da Fundoa, até ao Pico das Pedras, Esteias e Pico Escalvado.

Mas no sonho, a meio da escadaria de lascas de pedra, o vento fez-nos parar, obrigando-nos a agarrarmo-nos a uns pinheiros que ladeavam a pequena levada que corria ao lado da escadaria. Lembro-me que corria água em supetões, devido ao grande declive, como nesses velhos tempos. De repente, tudo escureceu. Cordas de água desabaram sobre toda a paisagem que desaparecia rapidamente à nossa volta. O tempo passava e um ruído ensurdecedor, semelhante a uma trovoada, enchia todo o espaço. Quanto durou, é difícil calcular em sonhos. Repentinamente, como começou, tudo parou; as nuvens dissiparam-se, o vento amainou e a luz voltou. Só o ruído continuava cada vez mais cavo e assustador. Olhei para o Sul e qualquer coisa de terrível, dantesco e caótico se me deparou.

A Ribeira de Santa Luzia, a Ribeira de S. João e a Ribeira de João Gomes eram três grandes rios, monstruosamente caudalosos e arrasadores. De onde me encontrava via-os transformarem-se numa só torrente de lama, pedras e detritos de toda a ordem. A Ribeira de Santa Luzia, bloqueada por alturas da Ponte Nova – um elevado monturo de pedras, plantas, arames e toda a ordem de entulho fez de tampão ao reduzido canal formado pelas muralhas da Rua 31 de Janeiro e da Rua 5 de Outubro – galgou para um e outro lado em ondas alterosas vermelho acastanhadas, arrasando todos os quarteirões entre a Rua dos Ferreiros na margem direita e a Rua das Hortas na margem esquerda.

As águas efervescentes, engrossando cada vez mais em montanhas de vagas espessas, tudo cobriram até à Sé – único edifício de pé. Toda a velha baixa tinha desaparecido debaixo de um fervedouro de água e lama. A Ribeira de João Gomes quase não saiu do seu leito até alturas do Campo da Barca; aí, porém, chocando com as águas vindas da Ribeira de Santa Luzia, soltou pela margem esquerda formando um vasto leito que ia desaguar no Campo Almirante Reis junto ao Forte de S. Tiago. A Ribeira de S. João, interrompida por alturas da Cabouqueira fez da Rua da Carreira o seu novo leito que, transbordando, tudo arrasou até à Avenida Arriaga.
Um tumultuoso lençol espumante de lama ia dos pés do Infante D. Henrique à muralha do Forte de S. Tiago. O mar em fúria disputava a terra com as ribeiras. Recordo-me de ver três ilhas no meio daquele turbilhão imenso: o Palácio de S. Lourenço, A torre da Sé e a fortaleza de S. Tiago. Tudo o mais tinha desaparecido – só água lamacenta em turbilhões devastadores.

Acordei encharcado. Não era água, mas suor. Não consegui voltar a adormecer. Acordado o resto da noite por tremenda insónia, resolvi arborizar toda a serra que forma as bacias dessas ribeiras. Continuei a sonhar, desta vez acordado. Quase materializei a imaginação; via-me por aquelas chapas nuas e erosionadas, com batalhões de homens, mulheres e máquinas, semeando urze e louro, plantando castanheiros, nogueiras, pau-branco e vinháticos; corrigindo as barrocas com pequenas barragens de correcção torrencial, canalizando talvegues, desobstruindo canais. E vi a serra verdejante; a água cristalina deslizar lentamente pelos relvados, saltitando pelos córregos enchendo levadas. Voltei a ouvir os cantares dolentes dos regantes pelos socalcos ubérrimos das vertentes. Foram dois sonhos. Nenhum deles era real; felizmente para o primeiro; infelizmente
para o segundo.

Oxalá que nunca se diga que sou profeta. Mas as condições para a concretização do pesadelo existem em grau mais do que suficiente.

Os grandes aluviões são cíclicos na Madeira. Basta lembrar o da Ribeira da Madalena e mais recentemente o da Ribeira de Machico. Aqui, porém, já não é uma ribeira, mas três, qualquer delas com bacias hidrográficas mais amplas e totalmente desarborizadas. Os canais de dejecção praticamente não existem nestas ribeiras e os cones de dejecção etão a níveis mais elevados do que a baixa da cidade. As margens estão obstruídas por vegetação e nalguns troços estão cobertas por arames e trepadeiras. Agradável à vista mas preocupante se as águas as atingirem. Estão criadas todas as condições, a montante e a jusante para uma tragédia de dimensões imprevisíveis (só em sonhos).

Não sei como me classificaria Freud se ouvisse este sonho. Apenas posso afirmar sem necessidade de demonstrações matemáticas que 1 mais 1 são 2, com ou sem computador. O que me deprime, porém, é pensar que o segundo sonho é menos provável de acontecer do que o primeiro.

Dei o alarme – pensem nele.
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Lisboa, 11 de Dezembro de 1984

Publicado em 13 de Janeiro de 1985 no Diário de Notícias do Funchal

*Engenheiro Silvicultor

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Água e vendavais - Solução


613 g
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Os 3 leitores que mais se tenham aproximado terão 24h para escrever para premiosdepassatempos@iol.pt, indicando morada e tendo em conta o seguinte:

O 1.º classificado deverá, também, dizer qual dos livros prefere: O Monte dos Vendavais (há apenas 1 exemplar, manuseado) ou o Como a Água que Corre, de Marguerite Yourcenar (há 2 exs., novos, Ed. VISÃO).
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A classificação (se não me enganei nas contas...) é a seguinte:

1.ª - Sofia .. 616 g => erro = 3 g
2.º - Gonçalo Mil-Homens .. 583 g => erro = 30 g
3.º - Suzana .. 648 g => erro = 35 g

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Escutar o Primeiro-Ministro

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Por J.L. Saldanha Sanches

A TRANQUILIDADE com que o legislador previu um regime especial para as escutas ao primeiro-ministro era de muito mau agouro. Parecia prever que seria normal ter primeiros-ministros que iriam estar, mais tarde ou mais cedo, embrulhados nas malhas de uma qualquer escuta.

O pior é que acertou. Mas se perguntarmos quem é que deve escutar o primeiro-ministro a resposta só pode ser uma: ninguém.

Se chegamos ao ponto em que os amigos mais próximos do primeiro se envolvem em crapulosos casos de polícia levando a que sejam escutados e arrastando para a rede do controlo judicial altas figuras do Estado, então, tudo está perdido.

Dir-se-á que em Portugal vigora a separação de poderes e o princípio da igualdade perante a lei. Que nada impede que o primeiro-ministro seja investigado como qualquer cidadão.

Mas tudo isso são tretas. O sistema não suporta, sem danos sérios, esse tipo de investigação.

Quando um magistrado tem de começar a pensar se uma decisão sua não irá provocar uma crise política, se essa crise política vai ou não pôr em risco o crédito da República, se haverá alguém que o possa substituir, então vamos ter uma má decisão.

“Hard cases made bad law”. E casos como estes são de uma dificuldade infinita, quando colocam na esfera judicial decisões inteiramente políticas.

Solução?

Os partidos têm de ter de vergonha e ter cuidado com quem colocam nos postos cimeiros.

Não temos ainda em Portugal o sistema de vetting ou de investigação para quem vai assumir altos cargos. Mas nos partidos políticos sabe-se tudo de toda agente. De onde se veio e o que é que se fez. Que esqueletos é que podem sair dos armários.

Ao que parece estamos tão mal que coisas que em tempos normais seriam impeditivas já não o são. Mas se assim é não venham depois queixar-se das consequências.

Nem esperem que a justiça vá resolver bem esses casos. Por excesso ou por defeito ela vai exibir todas as suas fraquezas.

A justiça pode servir perfeitamente para meter na cadeia um ou outro presidente da câmara particularmente relapso (geralmente, nem isso consegue), mas não para decidir quem vai ficar em S. Bento. Está para além das suas forças (mesmo, se por qualquer milagre, ela conseguisse ser muito melhor que o sistema político que a criou) esse tipo de decisões que, na verdade, não lhe podem caber. Por mais que se diga que a Constituição prevê, garante ou determina.

Se não, olhemos para a Itália: escorraçados os Craxis, entram os Berlusconis. A impotência da justiça cria o descrédito da política e da justiça.

A solução está por isso antes da justiça e dentro dos partidos: quem nos vão propor, quem é que vamos escolher. Quando os aparelhos partidários estão tão apodrecidos que já não conseguem distinguir entre quem podem e quem não podem colocar em certos lugares, não há regime legal de escutas que nos valha.
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NB: O silêncio conivente e envergonhado de Manuel Alegre a respeito da Face Oculta é de uma grande eloquência. Ficamos a saber qual é o PS cujo apoio ele pretende.

«Expresso» de 27 Fev 10 – www.saldanhasanches.pt

Pé ante pé

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Por João Duque

ENTÃO, isto são maneiras, António? (*) Chega-se aqui, pé ante pé, sem mais, e já não se fala aos amigos, homem? Mesmo duques têm coração! Ora venha de lá um abraço!

Sabe que esta de "entrar de mansinho" sem querer dar nas vistas fez-me lembrar a dos gregos que, sub-repticiamente, aumentaram a dívida sem que se desse por ela!

Já em Julho de 2003 uma revista da especialidade dava conta de que a Goldman Sachs havia proposto ao Governo grego umas operações financeiras que lhe permitiriam aliviar o pesado saldo da dívida emitida, e assim facilitar a adesão ao euro.

A Grécia tinha iniciado um programa de emissão de dívida em dólares e ienes. Mas como os impostos são cobrados em euros, o melhor seria converter estas dívidas para ficar a dever e a pagar juros em euros.

Tudo isto era tecnicamente certo, desde que os valores trocados entre as partes fossem os justos. Porém, ao que parece, a Goldman Sachs terá passado para os gregos mais 1000 milhões de euros do que deveria, com a garantia de que estes lhe devolveriam o capital (e juros, naturalmente) ao longo dos anos futuros. Todo este financiamento teria então sido feito sem que as autoridades europeias tivessem notado, ou os nacionais se apercebessem.

Na prática, o Governo grego aumentou a dívida total, mas se usou o empréstimo adicional para reduzir a dívida explícita, terá feito um verdadeiro "milagre"!

Para memória, deve acrescentar-se que, ao que parece, toda esta operação (através de um designado cross-currency swap) foi feita de modo bastante generoso para o intermediário...

O curioso é que esta operação foi do conhecimento público, não querendo as autoridades europeias preocupar-se com ela e tendo até sido realizada dentro da legalidade contabilística europeia.

Com as normas de reporte de contabilidade pública, muitas destas operações feitas fora de mercado deixavam os Estados e os seus súbditos completamente fora das jogadas...

Querem mais? O Eurostat até dava a receita! Na suas guidelines contabilísticas ensinava como se fazia: um Estado emitia dívida em euros. Depois convertia-a em dólares usando um destes swaps com uma taxa de câmbio fora de mercado.

A seguir avaliava a dívida a uma taxa de mercado e já estava! Desaparecia parte da dívida! Magia?

Não! Alguém estava a financiar a diferença que, obviamente, não aparecia, mas que persistia. Nada se criava, nem se destruía. Apenas se transformava...

A partir de Março de 2008, as regras mudaram e o reporting exige uma atitude diferente. Mas agora é que se descobre...

Claro que o Estado português não tem, aparentemente, este tipo de swaps. Mas tem outros.

Que saiba, em Dezembro de 2008 os swaps de taxa de juro em que o Estado português era contraparte já ascendia a 42 mil milhões de euros, um terço da dívida pública, e muitas comissões de intermediação.

«Expresso» de 20 de Fevereiro de 2010
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(*) NOTA (CMR): Julgo que o António a que João Duque se refere é António Almeida, que publicou uma crónica mesmo ao lado da dele - na mesma página do «Expresso-Economia»

Passatempo Calimero - Solução

A foto foi afixada no Sorumbático em 6 Nov 09 (ver aqui) e, como se diz no post, foi tirada na véspera. A resposta certa é, pois, 5 Nov 09.
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27 Fev 10: finalmente, alguém colocou ali pilaretes...

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

PASSOU QUINZE arrastados e pesados dias sem nada ter a dizer sobre as chocantes revelações de que o país tomou conhecimento com as escutas do processo Face Oculta. Quando, finalmente, falou, Manuel Alegre fez um discurso redondo. A criticar «a promiscuidade entre a Justiça, a política e a comunicação social» e a lamentar que «se esteja a viver uma crise política em vez de se procurar resolver as dificuldades» do país ou que não haja «segredo de Justiça quando a Justiça não funciona». Politicamente condicionado, partidariamente manietado, Alegre procurou dar duas no cravo e uma na ferradura, fugindo aos problemas de fundo que o caso Face Oculta coloca – a este estilo de exercício do poder de Sócrates, ao PS como partido democrático e a si próprio como referência dos socialistas.

Não o choca o despudor da manipulação desmedida e controleira feita pela rede de figuras próximas do primeiro-ministro sobre empresários e meios de comunicação social? A desqualificação e a ausência de ética política dos boys colocados em postos decisores, com ordenados e mordomias escandalosos? A falta de vergonha de utilizar, comprovadamente, empresas públicas e com participações do Estado para beneficiar os meios de informação amigos e asfixiar financeiramente os órgãos de comunicação desalinhados? Pelos vistos, choca pouco.

Este estilo Chávez não lhe causa um sobressalto democrático? Não abala as suas convicções em defesa do livre pensamento e expressão de ideias? Não lhe provoca um assomo de revolta contra o controleirismo? Pelos vistos, não.

Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não. Se, até em ditadura, isso já era uma certeza, em democracia não é possível silenciar todos os que os discordam ou informam com liberdade e independência – por muitos boys e aparelhos de poder que se tenham ao serviço e à disposição.

É pena que Manuel Alegre não junte a sua voz aos que se demarcam desta vocação manipuladora e com tiques totalitários. Que não esteja do lado dos que resistem e dizem não. O seu passado cívico e político exigia-o. E a sua candidatura a Presidente da República não sairia tão manifestamente diminuída pelos seus silêncios, omissões e cumplicidades com estas práticas antidemocráticas.

«SOL» de 26 Fev 10

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Eu tive um sonho (*)

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Por Cecílio Gomes da Silva

(Engenheiro Silvicultor)

TRAUMATIZADO pelo estado de desertificação das serras do interior da Ilha da Madeira, muito especialmente da região a Norte do Funchal e que constitui as bacias hidrográficas das três ribeiras que confluem para o Funchal, dando-lhe aquela fisiografia de perfeito anfiteatro, aliado a recordações da infância passada junto à margem de uma das mais torrenciais dessas ribeiras – a de Santa Luzia – o mundo dos meus sonhos é frequentemente tomado por pesadelos sempre ligados às enxurradas invernais e infernais dessa ribeira. Tive um sonho.

Adormecendo ao som do vento e da chuva fustigando o arvoredo do exemplar Bairro dos Olivais Sul onde resido, subia a escadaria do Pico das Pedras, sobranceiro ao Funchal. Nuvens negras apareceram a Sudoeste da cidade, fazendo desaparecer o largo e profundo horizonte, ligando o mar ao céu. Acompanhavam-me dois dos meus irmãos – memórias do tempo da Juventude – em que nós, depois do almoço, íamos a pé, subindo a Ribeira de Santa Luzia e trepando até à Alegria por alturas da Fundoa, até ao Pico das Pedras, Esteias e Pico Escalvado. Mas no sonho, a meio da escadaria de lascas de pedra, o vento fez-nos parar, obrigando-nos a agarrarmo-nos a uns pinheiros que ladeavam a pequena levada que corria ao lado da escadaria. Lembro-me que corria água em supetões, devido ao grande declive, como nesses velhos tempos. De repente, tudo escureceu. Cordas de água desabaram sobre toda a paisagem que desaparecia rapidamente à nossa volta. O tempo passava e um ruído ensurdecedor, semelhante a uma trovoada, enchia todo o espaço. Quanto durou, é difícil calcular em sonhos. Repentinamente, como começou, tudo parou; as nuvens dissiparam-se, o vento amainou e a luz voltou. Só o ruído continuava cada vez mais cavo e assustador. Olhei para o Sul e qualquer coisa de terrível, dantesco e caótico se me deparou. A Ribeira de Santa Luzia, a Ribeira de S. João e a Ribeira de João Gomes eram três grandes rios, monstruosamente caudalosos e arrasadores. De onde me encontrava via-os transformarem-se numa só torrente de lama, pedras e detritos de toda a ordem. A Ribeira de Santa Luzia, bloqueada por alturas da Ponte Nova – um elevado monturo de pedras, plantas, arames e toda a ordem de entulho fez de tampão ao reduzido canal formado pelas muralhas da Rua 31 de Janeiro e da Rua 5 de Outubro – galgou para um e outro lado em ondas alterosas vermelho acastanhadas, arrasando todos os quarteirões entre a Rua dos Ferreiros na margem direita e a Rua das Hortas na margem esquerda. As águas efervescentes, engrossando cada vez mais em montanhas de vagas espessas, tudo cobriram até à Sé – único edifício de pé. Toda a velha baixa tinha desaparecido debaixo de um fervedouro de água e lama. A Ribeira de João Gomes quase não saiu do seu leito até alturas do Campo da Barca; aí, porém, chocando com as águas vindas da Ribeira de Santa Luzia, soltou pela margem esquerda formando um vasto leito que ia desaguar no Campo Almirante Reis junto ao Forte de S. Tiago. A Ribeira de S. João, interrompida por alturas da Cabouqueira fez da Rua da Carreira o seu novo leito que, transbordando, tudo arrasou até à Avenida Arriaga. Um tumultuoso lençol espumante de lama ia dos pés do Infante D. Henrique à muralha do Forte de S. Tiago. O mar em fúria disputava a terra com as ribeiras. Recordo-me de ver três ilhas no meio daquele turbilhão imenso: o Palácio de S. Lourenço, A torre da Sé e a fortaleza de S. Tiago. Tudo o mais tinha desaparecido – só água lamacenta em turbilhões devastadores.

Acordei encharcado. Não era água, mas suor. Não consegui voltar a adormecer. Acordado o resto da noite por tremenda insónia, resolvi arborizar toda a serra que forma as bacias dessas ribeiras. Continuei a sonhar, desta vez acordado. Quase materializei a imaginação; via-me por aquelas chapas nuas e erosionadas, com batalhões de homens, mulheres e máquinas, semeando urze e louro, plantando castanheiros, nogueiras, pau-branco e vinháticos; corrigindo as barrocas com pequenas barragens de correcção torrencial, canalizando talvegues, desobstruindo canais. E vi a serra verdejante; a água cristalina deslizar lentamente pelos relvados, saltitando pelos córregos enchendo levadas. Voltei a ouvir os cantares dolentes dos regantes pelos socalcos ubérrimos das vertentes. Foram dois sonhos. Nenhum deles era real; felizmente para o primeiro; infelizmente para o segundo.
Oxalá que nunca se diga que sou profeta. Mas as condições para a concretização do pesadelo existem em grau mais do que suficiente.

Os grandes aluviões são cíclicos na Madeira. Basta lembrar o da Ribeira da Madalena e mais recentemente o da Ribeira de Machico. Aqui, porém, já não é uma ribeira, mas três, qualquer delas com bacias hidrográficas mais amplas e totalmente desarborizadas. Os canais de dejecção praticamente não existem nestas ribeiras e os cones de dejecção etão a níveis mais elevados do que a baixa da cidade. As margens estão obstruídas por vegetação e nalguns troços estão cobertas por arames e trepadeiras. Agradável à vista mas preocupante se as águas as atingirem. Estão criadas todas as condições, a montante e a jusante para uma tragédia de dimensões imprevisíveis (só em sonhos).

Não sei como me classificaria Freud se ouvisse este sonho. Apenas posso afirmar sem necessidade de demonstrações matemáticas que 1 mais 1 são 2, com ou sem computador. O que me deprime, porém, é pensar que o segundo sonho é menos provável de acontecer do que o primeiro.

Dei o alarme – pensem nele.
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(*) Diário de Notícias do Funchal - 13 de Janeiro de 1985

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Misérias portuguesas

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Por Baptista-Bastos

ESTAMOS A PERDER a perspectiva e o sentido das coisas. Vivemos, dificultosamente, uns com os outros, e olhamo-nos com agressiva desconfiança. As mais altas instituições mentem-nos, omitem, afirmam uma certeza e logo a desdizem; os representantes da justiça fornecem-nos a cavernosa ideia de uma identidade truncada, e abandonaram o conceito de mediadores da consciência social; o jornalismo, que devia ser, e já foi, uma referência em forma de caução, é a miséria que por aí se vê. Mais cedo do que tarde terá de proceder a um mea culpa; mas nem assim arredará as gravíssimas responsabilidades que lhe cabem no desrespeito geral.

Viver em conjunto precisa de conflito, de polémica, de emoção. E da construção de um elo plural, com valores que desenvolvam o sentimento de pertença e de diferença. Todos estes padrões têm sido desprezados, com proficiência, por políticos manifestamente de segunda ordem e por jornalistas de adiantada mediocridade, agigantado ego e gramática fugaz.

O escabroso espectáculo no Parlamento, fornecido por Mário Crespo, José Manuel Fernandes e Felícia Cabrita, tidos como apreciáveis jornalistas (enfim: a estimativa não é generalizada, bem pelo contrário) desacreditou, ainda mais, o já azarento ambiente em que vive a Imprensa. Todos eles atingiram o grau mais elevado do grotesco, ao mesmo tempo que demonstraram quão frágeis e esburacados foram os seus argumentos. Afinal, existe mesmo liberdade de expressão e de informação, e esta sofre as mesmas ameaças e perigos existentes nas sociedades modernas. A vitimização pode ser sedutora, mas resulta sempre numa transparência que os factos tornam obrigatória.

A presença dos três sujeitos chegou a ser aflitiva por declaradamente arrogante, e apenas revelou o verdete que alimentam por José Sócrates. É pouco. É nada. O ódio não se confessa, mas nota-se, e marca o desejo inconsciente de destruir do outro. Haja Freud!

Não sei se a sociedade portuguesa dispõe, imediatamente, de forças capazes de remover o lamaçal em que foi submergindo. A alternância entre uma vida assente na desistência, e uma vida liberta de imposições, depende da necessidade e do anseio de construirmos novos laços sociais. Os exemplos que vêm de cima não são de molde a criar adeptos. Não confiamos em quase nada e em quase ninguém. Começamos a desconfiar de nós próprios. O indivíduo tem de ter em conta o olhar dos outros, mesmo que negativo: é o que assegura a nossa singularidade. E mesmo isso está a diluir-se, ante a configuração permanente da mentira política, o desprezo pela verdade e a duvidosa dimensão ética de certos jornalistas

«DN» de 24 Fev 10

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Natureza selvagem

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Por Rui Zink

TODO O PORTUGAL É BONITO, mas nada se compara à beleza dramática da Madeira e dos Açores. Em compensação, os Açores são nove ilhas espartilhadas e a Madeira tem o Alberto João. E, antes da Europa e do avião barato, sofreram um isolamento que os levou a emigrar em massa: da Madeira para a Venezuela e África do Sul, dos Açores para a América.

A tragédia de anteontem lembra-me outra que abriu a década: a queda da ponte de Entre-os-Rios. Também então, ainda em choque, se começou a tentar “apurar responsabilidades”. Muito gostamos nós disso. Evidentemente, passados anos, nenhuma “responsabilidade” foi “apurada”. Apenas houve um ministro que se demitiu, admitamos que por pudor. Hoje, ao que consta, “está na construção civil”, como tantos ex-colegas, onde mercê da sua “experiência” ganha concursos para “obras públicas”.

Pois no apurar das responsabilidades na Madeira há já duas teorias:
1) faltava um “radar meteorológico”, 2) houve construção desordenada. As duas não se excluem, nem têm de estar certas. Até porque não é humanamente possível prever tudo. Mas infelizmente estamos escaldados; já temos tradição de a construção, mais do que “civil” ou “pública”, ser muitas vezes “selvagem”. Já nem vou falar do IP5, tragédia anunciada desde o início pelas incongruências do traçado, apenas lembrar “azares” recentes: a falésia no Algarve, o desabamento na CREL, o magnificamente abafado “acidente” entre viaturas oficiais a 120 à hora na Avenida da Liberdade.

Num país obcecado pelo “fazer”, pelo “fazer obra”, pelo “desenvolvimento”, convém lembrar que cá se fazem, cá se pagam. O problema é que, obviamente, quem “paga” não é geralmente quem “faz”. Mais do que “apurar responsabilidades”, convinha começar por apurar, afinar, o nosso sentido de responsabilidade. O país melhorava. Mas eu bem sei o difícil que é combater a nossa natureza selvagem….

«Metro» de 22 Fev 10

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Situação

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Por João Paulo Guerra

Já viram o que dá mexer num negócio de sucatas em Portugal?

QUASE CAI O GOVERNO, rolam umas tantas cabeças, desvendam-se mais uns quantos ‘boys' e respectivas sinecuras, atinge-se a credibilidade de um dos maiores potentados económicos e financeiros do país na questão central da participação do Estado, chega-se ao financiamento dos partidos e das campanhas eleitorais, aos pagamentos por baixo do balcão e para cima do ‘offshore', atinge-se mesmo um dos fundamentos essenciais da democracia, a liberdade de expressão e de imprensa. E tudo isto assente em escutas telefónicas a suspeitos negócios de sucatas. Pode então tirar-se uma conclusão perturbante: a democracia tem os pés na sucata, assim como cada vez mais democratas têm as mãos nas massas. Ou será que a democracia foi para a sucata?

Já o Eduardo Guerra Carneiro escrevia, em 1970, que "Isto anda tudo ligado". Mas talvez nem o bom do Eduardo vislumbrasse ao longe quão imbricada se tornaria - quatro décadas e um regime depois - a sociedade portuguesa, toda ela tecida na base de interesses, poder e dinheiro, de tal maneira que puxando por um fio se desenrola toda uma teia.

E depois, como é velho timbre de uma sociedade farisaica, enrola-se o novelo que vai para o fundo do baú e acabou-se a conversa. "Está tudo bem assim e não podia ser de outra maneira", pregava o velho Botas ou, como se dizia na versão refundida do salazarismo: "Reina a ordem em todo o país". A quantidade de autos, inquéritos, demandas, buscas, escutas, relatórios, devassas, sindicâncias, processos que vão, improcedentes, para o fundo dos arquivos mortos constitui um lastro de tal peso que, um dia, a situação vai ao fundo. Não tem nada que saber: será quando os actuais situacionistas começarem a mudar de ares.

«DE» de 22 Fev 10

As desventuras de Alice

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Por Nuno Crato

A SEGUNDA PARTE de Alice no País das Maravilhas inclui algumas das mais famosas passagens e personagens de Lewis Carroll. Contém também alguns dos seus mais divertidos absurdos: as lições da tartaruga fingida, os disparates do chapeleiro louco e o julgamento final em que a rainha, desejosa de cortar a cabeça à jovem heroína profere a célebre frase: «Primeiro a sentença, depois o veredicto!»

Os dois livros de Alice revelam o humor de um matemático que brinca com a lógica e faz alusões veladas a temas científicos. A maioria das vezes, as alusões são indirectas, e muito se tem discutido sobre algumas passagens. Logo no capítulo 2, por exemplo, Alice parece enganar-se nas contas: «quatro vezes cinco é doze, e quatro vezes seis é treze, e quatro vezes sete — oh! Assim nunca mais chego a vinte!».

Teria o matemático Charles Dodgson, escrevendo sob o pseudónimo de Lewis Carroll, avançado estes números ao acaso? Há quem pense que não e verifique que as contas estão certas se as bases forem sendo incrementadas. Assim, se em vez de usarmos a base 10, como é habitual, usarmos a base 18, em que o número 18 se escreveria 10, então 12 significaria 18+2 e a primeira conta estaria certa. Igualmente, se usarmos a base 21, então 13 significaria 21+3 e a segunda conta também estaria certa. Subindo de três unidades a base à medida que se avança, o esquema vai funcionando até 19, mas a seguir não se alcança 20 (pois 4x13 não se escreve 20 na base 42). Estaria o escritor de Alice a pensar num esquema tão complicado? Apesar de haver quem o defenda, não é possível garanti-lo. Mas o leitor interessado poderá ler os argumentos de Francine Abeles publicados na Historia Mathematica de 1976 (3, 183–84).

O mesmo se passa, por exemplo, no capítulo 7, quando se sabia que se estava em Maio, mas se desconhecia o dia. O chapeleiro louco pergunta a Alice o dia do mês e esta responde «quatro». Ora 4 de Maio era o dia de aniversário de Alice Liddell, a menina que inspirou Dodgson a escrever estas aventuras. Não é certamente uma coincidência. Mas que dizer da exclamação do chapeleiro que comenta a data dizendo: «Errada por dois dias!»?

Acontece que 4 de Maio de 1862, data em que pela primeira vez a história foi contada e começada a escrever, o calendário oficial estava apenas dois dias e alguns minutos afastado do calendário lunar (a lua nova ocorrera dois dias antes de 1 de Maio). Um dos comentadores de Alice diz que o lunático chapeleiro se orientava pela Lua, daí a sua exclamação (A.L. Taylor, The White Knight, 1952). Será isto verdade? De novo não é possível sabê-lo, apesar de a teoria ser curiosa.

Pode-se ainda especular que o País das Maravilhas ficava situado perto do centro da Terra, local em que o calendário solar não é útil, mas o lunar sim, pois as fases da Lua seria também interpretáveis de um ponto central em que seria sempre dia.

Outro tópico divertido, ainda no capítulo 7, é a conversa do chapeleiro sobre o tempo e o relógio parado. É um tema caro ao autor de Alice. Anos antes de escrever estas aventuras tinha oferecido à irmã esta adivinha com que aqui deixamos o leitor: «O que é melhor, um relógio que esteja certo apenas uma vez por ano ou um que esteja certo duas vezes por dia?»

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 20 Fev 10

NOTA: No final desta crónica, é deixado um desafio aos leitores. Ao que primeiro der a resposta certa (e der a melhor justificação para ela), será atribuído um exemplar de Alice no País das Maravilhas, Ed. VISÃO.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Os situacionistas

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Por Helena Matos

NOS ANOS 60 passaram do liceu para as universidades. São do tempo em que ser senhor doutor valia alguma coisa e as famílias apostaram fortemente na sua formação, confiando que, apesar de cada ano lectivo corresponder a maior irreverência, no fim eles teriam o canudo. Para o futuro ficaram conhecidos como geração de 60. Em Portugal, a PIDE e a censura deram-lhes um enquadramento de resistência que vai para lá do que aconteceu aos seus congéneres nos países democráticos. Após 1975 cortaram o cabelo, apararam a barba e quando a tropa, já sem MFA, recolheu aos quartéis começaram a sentar-se no aparelho de Estado. Academicamente bem apetrechados e com o país a precisar de refazer-se das vagas de saneamentos, esta nova geração passou rapidamente da oposição para o poder. Alguns dos mais destacados elementos dessa geração vieram a tornar-se notáveis do PS. O que de algum modo fazia todo o sentido: tinham lutado contra o fascismo, o social-fascismo e outros ismos. Na democracia tiveram no PS o seu espaço natural e em Soares o líder que trataram como já não se tratam os reis.

Nem sempre as coisas correram bem mas havia a íntima convicção que nos grandes momentos eles escolheriam a liberdade tal como a tinham escolhido durante as crises académicas. Mas não é isso que está a acontecer. Agora estão calados. Calados como nunca estiveram com Guterres ou sequer Soares. Fazem o pino para justificar o injustificável ou passam discretos a ver se descobrem algo em que possam pegar naqueles que não estão dentro do seu círculo (ou triângulo, se se preferir o imaginário maçónico onde muitos acabaram após a fase juvenil do ateísmo).

Durante meses interroguei-me porque estaria isto a acontecer. Ainda esta semana me caiu no mail aquele PDF com o diploma da licenciatura de José Sócrates, datado de Agosto de 1996, mas de cujo papel timbrado fazem parte números de telefone que só passaram a existir no final de 1999. Quem mandava o mail perguntava: isto já é conhecido, não é? Claro que sim. Isso e tudo o que veio depois é sobejamente conhecido. Mas eles, tão ciosos das suas notas no Técnico, em Direito e em Letras, como no seu tempo se dizia, fazem agora de conta que não é nada com eles ou tornam-se peritos instantâneos em procedimentos jurídicos que levam invariavelmente a anulações e arquivamentos. Porque se calam? Não os move certamente o dinheiro, tanto mais que estão à beira de ser a última geração a gozar as reformas douradas do estado que essa geração dizia social.

A resposta encontrei-a ao ver na televisão as notícias sobre a ronda de contactos entre o secretário-geral do PS e as estruturas partidárias. Eles, os contestatários dos anos 60, são agora a Situação. Sem Sócrates, que obviamente não é um deles, acaba-se a Situação, esta coisa que ninguém sabe o que é mas que se arrasta. Esta coisa em que se mergulha na dúvida, no boato, nos casos e em que os detentores do poder não se afirmam pelo que oficialmente fazem mas sim por conseguirem passar a mensagem de que não existe alternativa às suas pessoas.

Não são de modo algum a primeira geração a ficar refém dum tempo político. “Falhámos a vida, menino” – é uma das frases finais de Os Maias. Mas no caso da geração de 60 não só não parece que esteja interessada em fazer balanços do seu legado – à excepção daquelas evocações que os transformam em heróis – como, por ironia, eles, que em jovens foram tão eficazes a combater o poder, revelam-se agora, à beira de se tornarem velhos, dispostos a quase tudo quando alguém os confronta com aquilo em que se tornaram. E note-se que eles não se tornaram poder que isso já o eram. O que Sócrates fez deles foi transformá-los na Situação.

in PÚBLICO e BLASFÉMIAS

Ciclovia da Av. Frei Miguel Contreiras, em Lisboa

Carros estacionados na ciclovia...

Justiça

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Por João Paulo Guerra

O PAÍS ESTÁ mergulhado em diversas ordens de crises. Uma crise política que ameaça de perto e descredibiliza o funcionamento das instituições.

Uma crise financeira, com componentes internacionais, muito agravada por um endividamento à beira do abismo e distorções crónicas dos sistemas de acumulação e distribuição da riqueza. Uma crise social com o desemprego e a desigualdade fora de controlo. Uma crise de valores, com o consumismo a bater todos os recordes em cima da nacional-pelintrice, o egoísmo a sobrepor-se a todos os comportamentos e mentalidades, um absoluto desprezo pela cultura e pelos valores do espírito humano. E crises parcelares crónicas em todos os ramos do funcionamento do Estado e da sociedade, na Educação, na Saúde, na Justiça.

Mas enquanto o país real quase que agoniza, em Matosinhos, num casulo de cristal, um colectivo de três juízes debruça-se profunda e doutamente sobre uma magna questão: que pena aplicar a um jovem que furtou num supermercado uma embalagem de amêndoas? O caso começou a ser julgado com dois arguidos e uma acusação que envolvia, para além do pacote de amêndoas, uma garrafa de uísque. Mas um dos arguidos e a garrafa caíram nas audiências de julgamento, restando um arguido, um pacote de amêndoas e um colectivo de três juízes. O que seria cómico se não fosse dramático. E o pior é que cada instância da Justiça terá para contar um caso caricato como o presente.

A máquina da administração da Justiça tem na respectiva secretaria de Estado, desde a formação do actual Governo, um dos mais experientes, conhecedores, dedicados e competentes causídicos do país, com a função específica de coordenar a correcção de leis penais refeitas há dois anos em cima do joelho. Senhor doutor: defenda o país e o povo da Justiça.

«DE» de 19 Fev 10

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

«O que é isto?» - "dica"

O Fim dos Dinossauros

Por Manuel João Ramos

JÁ ME TINHA esquecido deste texto publicado no Sol. Talvez agora esteja mais actual:

Lisboa e o fim dos dinossauros

Que o presidente da Câmara Municipal de Lisboa tenha sido eleito por um em cada nove lisboetas não é normal. Que o seu grupo de vereadores tenha poder de planear e gerir projectos tão estruturais como a terceira travessia do Tejo, a frente ribeirinha, urbanizações e reabilitações de vastas áreas do território da cidade parece quase um golpe de Estado.

No íntimo, o cidadão português anseia por um ciclone que varra a classe política instalada, que uma tempestade solar curte-circuite o espectro partidário, que uma onda gigante leve os maçons para França, os opus dei para Itália, o compadrio para a Sicília e as cunhas para Espanha.

A bem dizer, a população portuguesa está-se nas tintas para o socialismo, borrifa-se para a social-democracia, marimba-se para a democracia cristã, considera o comunismo uma anedota e o bloquismo de esquerda uma variante de loja do canhoto.

Ninguém, a não ser os clientes da partidocracia em que se tornou a cangalhada herdada da revolução de 1974, se revê sinceramente no sistema político montado, em que a ordem é produzida em Bruxelas, o sustento é assegurado por grupos financeiros e a mira da felicidade é acaparada pela peste do futebol. O resultado confrangedor deste estado de coisas da res publica lusitana é um intransponível abismo cavado entre eleitores e eleitos, que se espelha na quase total ausência de participação cívica na vida política, e no desamor colectivo pelos conceitos de comunidade e de civilidade.

A Lisboa é um caso agudo desta derrocada cultural. Em grande parte, tal é devido à existência de um mastodonte político-administrativo chamado CML

A CML deveria ser, pura e simplesmente, suprimida e em seu lugar deveriam ser criadas cinco câmaras que pudessem gerir eficazmente os vários núcleos urbanos que compõem a cidade.

Estas câmaras, com as dos concelhos limítrofes, deveriam compor um conselho municipal com funções de gestão e planificação estratégica, que absorvessem funções da CCDR e do Governo Civil. A miríade de freguesias deveria ser destituída, segundo o princípio de que uma junta de freguesia urbana não deveria administrar uma população menor que 5 mil habitantes e maior que 20 mil. A Assembleia Municipal deveria ser, correspondentemente, reformada de modo a funcionar como parlamento regional.

Seria mais lógico e mais prudente que os munícipes votassem em agrupamentos cívico-partidários, que representassem e defendessem interesses específicos à freguesia, ao núcleo urbano, à cidade e à região.

Depois de tal terramoto, justificar-se-ia a criação de um museu dedicado à evocação da memória dos tempos jurássicos da democracia portuguesa. Seria o local indicado para contemplar as foices, martelos, setas, punhos e flores, bolas e estrelas partidárias.