quarta-feira, 17 de março de 2010

O inútil sinédrio de Mafra

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Por Baptista-Bastos

NO JORNALISMO, como na literatura, o adjectivo é a prosa a tomar partido. Na política, o adjectivo é o embrulho do embuste, da meia-verdade e da omissão. No Congresso do PSD, que não resultou num toque a reunir, o adjectivo abundou, gordo, espalhafatoso e interminável. A direcção da dr.ª Manuela, a pior de sempre daquele partido, foi banhada pelo esplendor do elogio desbragado. A coisa chegou a ser indecorosa. Somente o presidente da Câmara das Caldas da Rainha, elementar e claro, recusou a metáfora e preferiu a catilinária. Aplicou a pior das desfeitas aos dirigentes que, no seu parecer, praticaram a exclusão, a perseguição e a vingança. A dr.ª Manuela, já de si grave e impávida, estava transparente, confusa e estupefacta.

Por fim, o sempre inadiável Santana Lopes propôs a regra segundo a qual nenhum elemento do PSD pode criticar a direcção sessenta dias antes de eleições. A aberração foi ruidosamente aplaudida. O PSD, saído de Mafra, está entre a Lei da Rolha e o epifenómeno. Uma das televisões fixou o rosto sombrio do dr. Sarmento. Não se percebeu, pela morfologia, a bússola com a qual se orientava o distinto, acusado, no Parlamento, pelo dr. Granadeiro, de o haver pressionado, durante os Governos de Barroso e de Santana, para despedir os directores do Jornal de Notícias, do 24 Horas e da Grande Reportagem. O dr. Granadeiro, na ocasião administrador da Lusomundo, proprietária daquelas publicações, ter-se-ia recusado e, cheio de horror, demitido.

O prof. Marcelo, há onze anos ausente destes sinédrios, dedicou uns parágrafos leves à movediça vida do PSD, e levou um beijo da dr.ª Manuela, pormenor que o deixou demonstradamente feliz.

Os discursos dos candidatos principais não revelaram qualquer diferença fundamental. Nenhum deles parece vocacionado para restituir ao PSD a designação do acrónimo: social-democrata. Rangel é o mais ruidoso dos três, o mais adjectivante, e confessa-se muito contente por estar onde está. Deve ter cuidado com seguir Pacheco Pereira: o homem dá azar. Aguiar-Branco parece-me um indivíduo sensato, equilibrado e calmo, numa altura em que o PSD abomina essas virtudes. Aguiar está fora do tempo; não do seu: do tempo dos outros. Passos Coelho fez caminho durante dois anos. Tem aquela tineta do neoliberalismo, que o prejudica, e uma afabilidade bem-educada, que o favorece. Nenhum deles, porém, vai inventar o infinito, a fim de modificar, substancialmente, o estado das coisas. A reunião de Mafra resultou inútil. Não uniu, não congregou, e acentuou as internas divisões. E nada disse, de substantivo, que tranquilizasse o País.

«DN» de 17 Mar 10

terça-feira, 16 de março de 2010

Dia do pi

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Por Nuno Crato

ESTE ANO, 14 de Março cai num domingo, por isso é menos provável que seja assinalado nas escolas. É já amanhã, este dia tão especial para a matemática. Tem sido comemorado como dia do pi, pois o dia 14 do mês 3 pode representar-se como 3,14, que é a aproximação mais usada para esse curioso número que todos conhecemos.

É talvez a constante mais famosa da história da matemática. É a razão entre o perímetro de uma circunferência e o seu diâmetro, ou a razão entre a área do círculo e o quadrado do seu raio. Foi notada desde tempos antigos. O registo mais antigo que se conhece é o do célebre papiro de Rhind (c. 1650 a.C.), em que se explicava que um quadrado de lado 8/9 do diâmetro de uma circunferência “tem a mesma área que o círculo”. Feitas as contas, isto significa que o autor do papiro, um escriba de nome Ahmes, considerava que pi era igual a 256/81, ou seja, cerca de 3,1605. A aproximação não era má. O erro era inferior a 0,6%.

Claro que a aproximação do escriba egípcio é apenas uma aproximação. Se assim não fosse teria feito a quadratura do círculo, ou seja, a indicação de um meio de construir um quadrado com área equivalente à de um círculo dado. Durante séculos, matemáticos e simples curiosos perseguiram furiosamente este objectivo, o de inventar um processo que apenas usasse régua não graduada e compasso e, num número finito de passos, conseguisse construir um tal quadrado a partir de um dado círculo. Mas em 1882, na consequência de um difícil teorema demonstrado pelo matemático alemão Ferdinand von Lindemann, ficou a saber-se que a quadratura do círculo é impossível.

Cerca de um milénio depois do papiro de Rhind, no Livro dos Reis, no Antigo Testamento, escrevia-se que pi era igual a 3. Terá sido ignorância ou apenas liberdade poética? Não se sabe de facto, mas aí se diz que no templo de Salomão (século X a.C.) foi construído um recipiente “de dez côvados de uma borda à outra, perfeitamente redondo” e que “um cordão de trinta côvados o cingia em redor” (7:23). Quer isto dizer que uma circunferência de diâmetro dez côvados teria um perímetro de trinta?

Esta passagem da Bíblia tem sido muito discutida. Houve quem dissesse que a medida do diâmetro incluiria a largura do bordo (“um palmo”, Livro 2 das Crónicas, 4:5), mas o perímetro seria medido pelo interior. Assim as contas bateriam certo, pois estava-se a medir o perímetro de uma circunferência e o diâmetro de outra. E houve quem dissesse que sendo “impossível adoptar um valor exacto para a razão”, o Livro de Reis “terá escolhido um número arredondado” (rabi Maimonides, século XII).

Já houve quem legislasse sobre o valor de pi. Em 1897, um médico de Indiana, convenceu o seu representante na câmara do Estado a decretar que pi era simplesmente três. Regressava-se à verdade bíblica e simplificavam-se as contas, dizia. A proposta foi aprovada, mas logo cancelada.
O ano passado, o Congresso norte-americano foi mais sábio. Designou 14 de Março o “Dia do pi”. Na resolução (H.Res.224 de 21 de Março de 2009) dizia-se que “Pi é um número irracional, que continua indefinidamente sem se repetir e foi calculado até um milhão de milhões de dígitos”, mas que “pode ser aproximado como 3,14”. Assim, o congresso encorajou “as escolas e educadores a celebrar este dia com actividades apropriadas”. Não quer nenhum deputado português propor uma resolução semelhante?

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 13 Mar 10

segunda-feira, 15 de março de 2010

Passatempo-relâmpago de 15 Mar 10 - Solução


Página 95
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Quem mais se tenha aproximado tem agora 24h para escrever para premiosdepassatempos@iol.pt, indicando morada para envio do livro.

domingo, 14 de março de 2010

A Vaidade

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Por João Duque

NUMA CENA inesquecível do filme "Feios, Porcos e Maus", uma vizinha que vive paredes-meias com a barraca da porca família Mazzatella aparece, feia mas orgulhosa, com uma revista na mão, a mostrar à vizinhança o sucesso da filha. A vaidade reside na aparente ascensão social da pequena que conseguiu chegar ao topo do socialmente desejável: a capa de uma revista. Ao vê-la a transbordar vaidade pelos olhos, apercebemo-nos que a dita exibe afinal um exemplar de uma revista pornográfica em que a filha é, simplesmente, a entusiasmante modelo da capa, com desenvolvimentos mais intimistas no interior.

O nome de Portugal tem surgido repetidamente na primeira página dos mais importantes jornais diários de economia e finanças de todo o mundo: "Wall Street Journal" e "Financial Times". A história repete-se quase diariamente e especula-se sobre o que a União Europeia vai fazer para 'ajudar" a Grécia, o país mais problemático do pequeno grupo dos países em sérias dificuldades. É certo que a Grécia é o nome mais visível, mas nós tendemos a acompanhá-la sempre, pressentindo-se que vamos parar ao mesmo ponto onde estão os nossos rivais da final do Euro-2004 se nada se fizer.

Na semana passada um jornalista belga quis entrevistar-me. Começou a entrevista explicando: "- I am visiting the PIGS". "Se vieste visitar os porcos, vieste à pocilga!". pensei. Só dois não nativos da língua inglesa como nós seriam capazes de iniciar uma relação assim sem começar ao estalo, uma vez que a sonoridade 'pig' para ambos, não produz a mesma reacção emocional que 'porco'. Mas não deixa de ser triste este tipo de classificação... Porcos...

Durante a semana visitei uma escola secundária e fiquei arrepiado ao olhar os jovens candidatos ao ensino universitário com 17 anos de idade a perguntarem-me: "Como foi possível chegar aqui? Como é que vamos pagar esta dívida?". Alguns daqueles jovens são mais maduros do que muitos da geração dos seus pais e se trocassem alguns dos ministros por jovens destes teríamos decisões mais sensatas.

Somos PIGS porque quisemos cair nesta situação. Anos e anos de gestão pública inconsequente aplicando os princípios de 'quem vier atrás que apague a luz e feche a porta', dos direitos adquiridos, do abrir maternidades é sempre melhor que fechá-las, do inaugurar SCUT é mais amigável do que portajá-las, da popularidade dos estádios de futebol... trouxeram-nos aqui...

Fiquei muito aborrecido com os gregos na final do Euro. Agora estou-lhes infinitamente grato porque os sinto a anteciparem o que nos sucederá na doença (se nos deixarmos inertes) e na cura que vão praticar. São 11 milhões, têm uma dívida 2,25 vezes maior do que a nossa, um crescimento miserável e um défice muito pior do que o nosso. Alguma coisa vai mudar, com dor e à força. Por isso aparecem na capa.

Mas a capa de jornais ou revistas nem sempre é a melhor localização, até para quem tem a face oculta.

«Expresso» de 6 de Março de 2010

sábado, 13 de março de 2010

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

«Há uma opção clara e fundamental de não aumento de impostos» no Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC), começou por anunciar José Sócrates ao país na passada segunda-feira. Para logo acrescentar: «Com uma única excepção...», a do novo escalão de 45% de IRS. Na verdade, não é uma excepção, são várias e numerosas, tendo em conta o aumento da carga fiscal que resulta da redução generalizada das deduções, os descontos agravados nas pensões ou o imposto sobre as mais-valias mobiliárias.

«Serão mantidas as opções já tomadas no que respeita aos grandes investimentos, como o novo aeroporto ou o TGV», continuou Sócrates. Para, de imediato, se desmentir a si próprio com mais algumas excepções: «Sendo adiadas as linhas de TGV Lisboa-Porto e Porto-Vigo...» .

Parece, pois, que a mentira ou a meia-verdade já se tornou um hábito de tal modo interiorizado pelo primeiro-ministro que este nem sequer resiste a utilizá-lo com abundância nos seus discursos ao país.

Percebe-se o aperto na garganta de Sócrates ao anunciar aos portugueses as medidas previstas no PEC. Pois cada uma delas vem desdizer o que o Governo e o seu chefe vinham afirmando, insensatamente, nos últimos meses. Que Portugal fora dos primeiros a sair da crise, que o desemprego já estava travado, que não haveria mais aumento de impostos, que o congelamento de salários era um caso pontual, que o TGV se iria manter em toda a sua megalomania, pois «ao contrário do que dizem, a crise é mais uma razão para fazermos o TGV», etc.

Este discurso fantasioso e cor-de-rosa ruiu como um castelo de cartas com o PEC. Um PEC que é, no seu conjunto de medidas liberais e privatizadoras, a antítese quase total do programa de Governo que o PS, há poucos meses, apresentou aos portugueses.

Mais importante ainda: ao apontar para crescimentos do PIB sempre inferiores a 2% até 2013 – confirmando que todos os anos da governação de Sócrates, desde 2005, colocaram Portugal a divergir e a empobrecer em relação à União Europeia – o PEC transforma-se num verdadeiro certificado de incompetência política.

Num atestado, assinado pelos próprios governantes, que oficializa um ciclo de resultados falhados e oportunidades desperdiçadas. Com muitas mentiras e meias-verdades de permeio.

«SOL» de 12 Mar 10

sexta-feira, 12 de março de 2010

Disco

Explicação simplificada

1 - Em plano inclinado:

1.1 -
Disco homogéneo: roda, sempre descendo, pois o vector peso tem sempre uma componente no sentido do movimento descendente.

1.2 - Disco heterogéneo: se o centro de gravidade estiver do lado esquerdo (no caso representado), a componente do peso pode ser suficiente para se opor à descida, acabando o disco por estabilizar, parado.
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2 - Em plano horizontal:

2.1 -
Disco homogéneo: fica parado em qualquer ponto. É o chamado "equilíbrio indiferente".

2.2 - Disco heterogéneo: rodará até que o seu centro de gravidade fique por cima do ponto de "apoio". Fica em equilíbrio estável pois, se for deslocado, voltará a essa posição.

quinta-feira, 11 de março de 2010

O ‘Pec’ado

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Por João Duque

NÃO SOU, SEGURAMENTE, o mais habilitado para vos falar do “pecado” pelo menos em termos teológicos ou académicos.

Só posso, abusando da vossa paciência, falar-vos da minha experiência de pecador, muitas vezes arrependido, mas tantas vezes reiterado...

Relativamente ao Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC), o que me preocupa é o profundo debate filosófico de natureza ética com que se devem debater internamente os membros do Governo. Vejamos.

Alguns dos actuais membros do Governo estiveram activamente envolvidos numa campanha eleitoral que, ainda em Setembro, dava sinais vibrantes de emoção e apego a posições políticas de profundo enraizamento numa orientação política de raiz, marcada por profundas divergências filosóficas com a oposição, sustentando rupturas fracturantes à esquerda e à direita. Sentia-se neles o apego desinteressado e o sentimento de profunda justiça das propostas apresentadas no programa eleitoral do partido socialista, e que eram a sua razão de ser e que os levava a calcorrear Portugal, numa atitude de verdadeira ética republicana, a propagar a "palavra" e até a morrer por "ela".

A diferença com as oposições era profunda porque as ideias que defendiam sobrepunham o homem ao sistema, a justiça à iniquidade, o bem-estar colectivo à mesquinha ganância individual. Assim se debatiam as mais variadas questões e se justificavam todos os actos.

O investimento público era para continuar, melhor, para acelerar; o défice público deveria ser alargado para impedir a recessão; o desemprego para absorver; as despesas de natureza social para proteger, etc. Alguns assinavam manifestos declarando-se que toda a dívida seria abençoada desde que canalizada para as obras públicas de grande calibre como o TGV.

O Programa do Partido Socialista, partido vencedor, era explícito em todos estes aspectos e nos debates com os líderes da oposição, realizados na televisão, o primeiro-ministro desfolhava, consultava e relia em voz bem alta as palavras gravadas a ouro no documento sujeito a sufrágio.

O povo votou nessas promessas, e venceram aqueles ideais. Semanas depois eram transcritas para um documento designado de Programa de Governo que foi, por sua vez, aprovado pelo Parlamento. Era o Programa para uma legislatura.

No entanto, não é por gostarmos de viver num sonho que a realidade vai ao seu encontro e o que muitos previam e que os eleitores não gostaram de ouvir, votando no programa vencedor, era diferente.

Dito e feito. E é assim que um grupo de ministros, tão empenhados na defesa de um ideal e de um programa para quatro anos, se vê agora a braços com uma série de medidas para implementar no mesmo período, e que até eram algumas delas (ainda poucas) as que a oposição defendia. Custa-me vê-los pois, como republicanos de ética inabalável e homens de "H" maiúsculo, sei o profundo e insustentável conflito que devem travar dentro dos seus seres, preenchido pelas longas noites, acordados, em interior debate lancinante, num vai e vem entre a arma carregada que se aponta à cabeça, e a vergonha de dar o dito por não dito... Será que aguentarão viver este sentimento mortificante de um verdadeiro "Pec"ado?

«DE» de 11 Mar 10

Tabus

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Por João Paulo Guerra

OS BEM-INTENCIONADOS que tentam empurrar Marcelo Rebelo de Sousa para a corrida à liderança do PSD não terão percebido que o professor terá outros horizontes.

E então assiste-se a esta cena gaga de barões, notáveis, insignes, conspícuos e outras castas reconhecidas no PSD a incitarem um quinto candidato a avançar para destroçar outros quatro, enquanto o visado assobia para o ar.

Tudo isto tem a ver com o problema dos tabus que, longe de rodearem a política portuguesa de uma aura de mistério, antes a envolvem num manto de opacidade. E isto, quer queiramos, quer não, tem a ver com a mitologia portuguesa. Um candidato é sempre, mais que apenas ele próprio, um Galaaz com Pátria, Mestre da Paz, Senhor do 5º Império, o Encoberto, O Desejado. O messianismo, quando cai das alturas, tem destas coisas. E a manhã de nevoeiro nem sequer é problema. Qualquer empresa de eventos produz uma manhã, ou um fim de tarde, ou mesmo uma noite de nevoeiro, com brumas de quaisquer cores, em qualquer congresso partidário, declaração ao País ou conferência de imprensa.

O que se passa é que desde o século XVI os portugueses andam á espera de alguma coisa ou de alguém. Havendo procura, há oferta e os apóstolos de O Desejado têm-se sucedido: o sapateiro de Trancoso, Gonçalo Anes Bandarra, o Padre António Vieira, Fernando Pessoa, o telejornal, verdadeiro arauto da Nova Era. No caso vertente, o simples facto de existirem quatro candidatos disponíveis suscita de imediato o desejo de um quinto, O Desejado.

Acontece, porém, que neste caso O Desejado do PSD tem em vista um outro fado, suprema prova, a qual no entanto estará pendente de um outro tabu. Na democracia portuguesa, o trânsito de Encobertos e Desejados está transformado num engarrafamento.

«DE» de 10 Mar 10

Ontem, no Hospital Amadora-Sintra

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Com os pilaretes destruídos (e como?! Com jipes?!), já é possível estacionar em cima dos passeios e placas - apesar de não faltar estacionamento (gratuito)
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Um pequeno pormenor de civismo.
Até havia pessoal de limpeza a trabalhar ali perto. Mas a quantidade de gente que eu vi a deitar lixo para o chão (um pouco por todo o lado...) era assustadora!

Passatempo-relâmpago de 11 Mar 10 - Solução

Pergunta:
O que é que estão estes pratinhos aqui a fazer?
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RESPOSTA:



Os discos são a parte que sobrou dos pilaretes existentes no Hospital Amadora-Sintra.
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Ver mais fotos [aqui].

quarta-feira, 10 de março de 2010

Passatempo-relâmpago de 10 Mar 10 - Solução



A cara desapareceu. Mas tendo em conta a postura, os 3 bicos no rabo, o lacinho, o colete, os riscos nas mangas e os 2 grandes botões, a personagem em causa só pode ser o Pato Donald.

Viver na mentira e no medo do futuro

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Por Baptista-Bastos

PERGUNTAMO-NOS, entre a perplexidade e o espanto, se exercemos o suficiente das nossas recusas para que nos não acontecesse a "dimensão" única que nos é rudemente imposta. Parece uma conjugação de perversidades, sem conciliação possível com os nossos dramas. José Sócrates insulta-nos quando a "crise internacional" se converte na categoria central do seu discurso político. E trata-nos como beócios como quando, anteontem, foi à televisão "explicar" o PEC. A verdade é singela: muito antes dos sismos cíclicos do capitalismo, já sofríamos a desestruturação trazida pelo "mercado". Sócrates não dispôs, por absoluta ignorância, de um projecto que se opusesse a essa ofensiva. E havia algumas possibilidades alternativas, entre as quais as propostas contidas num livro do socialista Fernando Pereira Marques, Esboço de Um Programa para os Trabalhos das Novas Gerações, lamentavelmente pouco conhecido.

Um ensaio muito sério, muito original e muito estimulante, editado em 2007, por um intelectual para quem Portugal está longe de ser uma nação condenada. "É necessário encontrar novas vias para a reforma radical do modelo de sociedade e de economia que se impôs nos países desenvolvidos, à custa do atraso, da pobreza e até da guerra em que vivem os demais." Eis um dos poucos livros que criticam o capitalismo, cuja análise anda arredia das nossas preocupações. Na imprensa, então, o supérfluo representa uma simbiose da imperícia e do desconhecimento das lógicas de poder.

Sócrates fez o que lhe era possível, dir-se-á. Não. Sócrates fez o que a consciência socialista (o que quer que isto seja) verberaria com impetuosidade. A extensão e os danos deste ciclo político podem pôr em causa a democracia. No nosso caso, o pouco que dela resta. O primeiro-ministro abriu caminho para o que de pior certamente advirá. E os putativos substitutos podem mesmo reclamar ainda mais penosos sacrifícios da nossa parte. Sócrates exacerbou as dimensões racionais da vida social. A sociedade portuguesa vive na ambivalência da inferiorização e da revolta. Quando ele diz que não vai aumentar impostos; que os ricos irão pagar mais; que as nossas penas e os nossos pesares serão minimizados, está a fugir da verdade a sete pés. A associação da ética republicana (de que tanto fala), com a assunção da linguagem dos factos, distingue a honra e a decência da trapalhice e da ambiguidade. José Sócrates, que arrastou consigo um pesado descrédito para o PS, conjugou a sua debilidade ideológica com uma insaciável sede de poder - que percorre, invariavelmente, aqueles que são passíveis de variações consideráveis.

«DN» de 10 Mar 10

terça-feira, 9 de março de 2010

Passatempo-conjunto De Rerum Natura-Sorumbático - Prémios


Livros disponíveis
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O De Rerum Natura e o Sorumbático decidiram atribuir a seguinte classificação:

1.º: GMaciel
2.º e 3.º (ex-aequo): Luis Ferreira e Rui Guimarães.

Os três têm, a partir de agora, 24h para escreverem para premiosdepassatempos@iol.pt indicando 3 dos 4 livros disponíveis (por ordem decrescente de interesse) e morada para envio.

PEC Brado

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Por João Paulo Guerra

É DE UMA confrangedora falta de originalidade e de imaginação.

São rimas de pé quebrado que vão dar brado: dureza rima com pobreza, estabilidade com desigualdade, ordenados com congelados, a despesa vai para baixo da mesa e o rigor vem do anterior. O Programa de Estabilidade e Crescimento bebe nas receitas fundamentalistas do FMI, que os portugueses conhecem há tanto tempo como a democracia. O que é um flagrante desrespeito do espírito do 25 de Abril, a revolução dos três "dês": a descolonização já foi, a democracia é de quatro em quatro anos e o desenvolvimento foi para a mesma gaveta onde estará o socialismo.

O que é de assinalar é que nenhum partido se apresenta ao eleitorado com o programa do FMI como bandeira. Relembro mais uma vez que no Verão passado, à bica de três eleições, o Partido Socialista anunciou formalmente "o princípio do fim da crise". Agora era caso para o PS ser processado por publicidade enganosa. Ou então por incompetência ruinosa. E isto é dito sobre o PS como seria em relação a qualquer um dos partidos que se sucedem no poder alterno. O PSD, de parceria com o CDS, a última vez que foi despedido do Governo andava já a pregar o fim da austeridade. E, ganhando eleições com tal ilusão, à volta lá esperava os crédulos cidadãos com novos furos no cinto.

Depois é de uma ironia de muito mau gosto alcunhar de estabilidade um conjunto de medidas que vão, como se está mesmo a ver, semear o maior desassossego e tensão social. A menos que a ideia seja mesmo essa: tolerar alguma indignação e protesto, absolutamente sob controlo de meios e forças que nenhum cidadão imagina que existam, para que sirvam como tubo de escape. Ou como uma espécie de democracia. Enquanto de facto está em vigor a ditadura do FMI.

«DE» de 9 Mar 10

segunda-feira, 8 de março de 2010

As catástrofes e as leis de emoção (*)

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Por Eça de Queirós

DESDE QUE NÃO CONVERSAMOS, meus amigos, este nosso Velho Mundo e os outros mais velhos que se estendem para Oriente têm sido visitados por males inumeráveis, uns trazidos pelas violências da Natureza, outros pela violência dos homens, porque o consciente e o inconsciente (se é que este realmente existe) rivalizaram, como sempre, na produção da dor.

No Japão foi um desses pavorosos «macaréus», que tanto assustavam os nossos navegadores do século XVI, invadindo em desmedido vagalhão léguas de costa e lambendo aldeias, cidades, centenas de milhares de criaturas, como se fossem apenas conchas e areia leve. Na China a costumada trasbordação de rios, afogando nessa noite quinhentos mil chineses, um milhão de chineses, todo um imenso e escuro formigueiro chinês, com a simplicidade com que entre nós um riacho, depois da chuvas, alaga um feijoal em uma horta ribeirinha. Na Índia a peste junta com a fome, à velha maneira oriental, com esse horrendo feitio das expiações bíblicas em que os esfaimados findam por comer os cadáveres, e os pestíferos, aos centos, agonizam à beira dos caminhos, em breve todos brancos de ossadas.

Na Arménia uma prodigiosa matança de trezentos mil cristãos, metodicamente dirigida pelas autoridades muçulmanas, com muita ordem, muito vagar, horas regulamentares para assassinar e para descansar e uma escrupulosa escrituração. Na Turquia e na Grécia uma guerra, que não ressuscitou a luta clássica do orientalismo e do helenismo (porque já não há orientais e ainda menos helenos), mas renovou uma briga entre a cruz e o crescente, briga toda concebida no espírito do século XIX, racionalista e positiva, em que os príncipes cristãos (até o papa) se colocaram num utilitário entusiasmo do lado do crescente, de sorte que a cruz teve de fugir com um dos braços partidos por esses caminhos tessálicos por onde outrora o Grego costumava alegremente acossar o Persa numeroso. Na ilha de Creta, tão querida a Júpiter, horrores inenarráveis, sob a vigilância pensativa e paternal de seis esquadras da Europa. Em Espanha bombas e suplícios. E enfim neste Paris o dia doloroso em que a ciência, sob a forma de um cinematográfico, queimou por seu turno, num vasto auto-de-fé, a religião, representada por piedosas senhoras que celebravam uma festa de devoção e caridade católica...

Mas eu não sei, meus amigos, se estas desgraças realmente vos interessam, vos comovem – porque a distância actua sobre a emoção exactamente como actua sobre o som. A mesma dura lei física rege desgraçadamente a acústica e a sensibilidade. É sempre em ambas o idêntico e tão racional princípio das ondulações, que vão decrescendo à maneira que se afastam do seu centro, até que docemente se imobilizam e morrem: se elas traziam um som que vinha vibrando – o som cala quando elas param: se traziam um terror que vinha tremendo – o terror finda quando elas findam.

Bruscas, grossas, frementes, rápidas em torno ao choque que as produziu, essas ondulações não são mais, nos horizontes remotos, do que um vago, quase liso arfar, que mal se diferença da inércia. Senão vede! Em Pequim, subitamente, uma tarde, ribomba um pavoroso trovão – e ao mesmo tempo pega fogo na vistosa cabaia de um mandarim muito ilustre, que morre queimado. Por todo Pequim a impressão é tremenda. Até o imperador, filho do Sol, nos seus grandes jardins, estremeceu, aterrado com aquele imprevisto troar de um céu puro: e nas vielas mais sórdidas os coolies mais piolhentos interromperam um momento o seu negro trabalho para lamentar com exclamações o mandarim muito ilustre. Mas aí está! A vinte ou trinta léguas de Pequim o terrifico trovão foi apenas um rumor que se confundiu com o rolar das carroças nas lajes – e, quando se contou nas lojas loquazes dos barbeiros o desastre do mandarim em chamas, só algum nédio funcionário, com sabão na bochecha, murmurou oficialmente algum «ah!» desinteressado e mole...

É que o som do trovão e a emoção do desastre vieram trazidos por ondulações, que, a trinta léguas de Pequim, seu centro vivo, já se alisavam, imobilizavam, morriam.

E quando aqui na Europa, de manhã, sabemos pelo telégrafo bisbilhoteiro do mandarim e do trovão, nem o nosso ouvido sente o mais ténue som, nem o nosso coração a mais ténue piedade.

Não ondularam até nós as ondulações acústicas e emotivas. E é com absoluta placidez que murmuramos: «Houve em Pequim um grande trovão; e – tem graça! – ardeu um mandarim!»

Mas então essa confraternidade humana – pela sublime força da qual nada do que é humano deve ser alheio ao homem? Não existe? Oh, certamente – mas para todo o homem, mesmo o mais culto, a humanidade consiste essencialmente naquela porção de homens que residem no seu bairro. Todos os outros restantes, à maneira que se afastam desse centro privilegiado, se vão gradualmente desarmonizando em relação ao seu sentimento, de sorte que os mais remotos já quase os não distinguem da Natureza inanimada. Quando qualquer de nós, no seu quieto e salubre bairro, ouve contar que uma furiosa peste matou trinta mil patagónios, fica exactamente penetrado daquela quantidade de compaixão que o invadiria ao saber que um furacão derrubara trinta mil árvores de um bosque. E de um bosque muito longínquo, de uma região muito desconhecida! Porque se as árvores destruídas fossem as do nosso doce Bosque de Bolonha, que nós amamos, tão ornadas e verdes em Maio, tão puramente vestidas de branca neve quando o Inverno se faz elegante e fino – a nossa mágoa teria uma intensidade infinitamente mais viva do que com a aniquilação desses vastos milhares de patagónios.

E esta estreiteza da emoção deriva de leis tão fatais que não se dá somente nas almas de caridade estreita – mas ainda nas mais ternas e nas mais largas, naquelas que parecem abrigar na sua amplidão do padecer humano... O bom senhor S. Vicente de Paulo, a quem o encontro de uma criancinha tremendo de frio ao canto de uma rua arrancava prantos desolados, que corriam enquanto ele corria com a criancinha sofregamente apertada nos seus braços, só teria um pálido e resignado suspiro quando ouvisse que, também na Tartária, em outras vielas regeladas, outras criancinhas tiri-tavam e choravam – se é que a homem tão ocupado com as misérias de França restava tempo para suspirar com as misérias da Tartária.

E até talvez o muito divino S. Francisco, o adorável pobrezinho de Assis, irmão de todos os seres e para quem os próprios passarinhos das veigas de Itália eram irmãos muito queridos, não sentisse a sua costumada ternura, tão alvoroçada e activa, pelos pobres da Noruega, e não se reconhecesse inteiramente irmão dos pardaizinhos da Finlândia!

A superior sapiência das nações já formulou esta lei naquele seu fino adágio: «O coração não sente o que os olhos não vêem.» Para chorar é necessário ver. A mais pequenina dor que diante de nós se produza e diante de nós gema, põe na nossa alma uma comiseração e na nossa carne um arrepio, que lhe não dariam as mais pavorosas catástrofes passadas longe, noutro tempo ou sob outros céus. Um homem caído a um poço na minha rua mais ansiadamente me sobressalta que cem mineiros sepultados numa mina da Sibéria – e um carro esmagando a pata de um cão, em frente à nossa janela, é um caso infinitamente mais aflitivo do que a heróica e adorável Joana d’Arc queimada na praça de Ruão!

A distância e o tempo fazem das mais grossas tragédias ligeiras notícias – onde nenhum espírito são, bem equilibrado, encontra motivo de angústia ou pranto. Hoje certamente ninguém, a não ser algum velho e alto dignitário da Igreja ou do Estado, assistiria, com os olhos secos e o coração quieto, ao suplício de Joana d’Arc – mas nenhum fisiologista garantiria a sanidade intelectual de um sujeito que, na solidão da sua alcova, com as janelas cerradas, se desfizesse em lágrimas por os Ingleses terem outrora supliciado Joana d’Arc.

No entanto, vós observais, amigos, que já repetidamente chorastes (porque sois bons) com dores humanas, não somente sucedidas longe do vosso bairro, mas fora do vosso século; e algum mesmo me mostrará, como emblema irrecusável da confraternidade humana, o lenço sentidamente humedecido na véspera ao escutar os adeuses de Luís XVI aos filhos na prisão do Templo, ou mesmo a antiga Inês de Castro balbuciando as suas súplicas aos pés do antigo Afonso IV!

Decerto! E mesmo já muitas vezes tereis sufocado generosos soluços com misérias e tormentos de criaturas que só viveram no mundo aéreo da imaginação e do sonho. Mas quando, onde foi que assim vos comovestes, tão humanamente? Quando? Onde? No teatro, ou nas páginas de um romance, ou mesmo através dos sinceros versos de um poema, quando a arte, encarnando os seres dolorosos que concebeu ou ressuscitando com flagrante e magnífica realidade as figuras mortas da história, torna durante um momento essas criaturas, não somente vossas contemporâneas, mas vossas vizinhas, moradoras no bairro em que morais, respiradoras do ar que respirais, e pertencentes portanto àquela porção de humanidade próxima e tangível, cujas dores se partilham, porque confinam com as nossas... E depois, tal sujeito – que choramingou, no fundo do seu camarote, assistindo à morte da Dama das Camélias, morta pela milésima vez, na sua alcova de lona e papelão – recolherá a casa e lerá no jornal, com absoluta indiferença, mastigando a torrada, que duzentas mulheres, com os filhinhos nos braços, morreram afogadas num naufrágio, longe, nos mares da Indochina! Sim, amigos, essas duzentas mães afogadas nas vagas indochinesas certamente vos serão estranhas, e como não existentes! Se elas tivessem naufragado nos mares dos Açores, já sem dúvida tão patética nova vos arrancaria algum vago murmúrio de simpatia. Mas se elas houvessem perecido, elas e os pobres filhinhos, na baía do Rio de Janeiro, que incomparável catástrofe – e como vós correríeis pelas ruas, pálidos cheios de espanto! Que digo eu? Para vos comover nem seriam necessárias duzentas desgraçadas – bastaria que naufragassem duas, se vós as conhecêsseis de nome e de rosto! Porque, segundo a cruel lei física que regula os fenómenos da emoção – um empregado da Alfândega que caiu de um barco e desapareceu na baía do Rio de Janeiro vale, para o habitante do Rio, mil pescadores despedaçados sobre os rochedos nas costas da Islândia!

Ah, esta abominável influência da distância sobre o nosso imperfeito coração! Bem recordo uma noite em que, numa vila de Portugal, uma senhora lia, à luz do candeeiro, que dourava mais radiantemente os seus cabelos já dourados, um jornal da tarde. Em torno da mesa outras senhoras costuravam.
Espalhados pelas cadeiras e no divã, três ou quatro homens fumavam, na doce indolência do tépido serão de Maio. E pelas janelas abertas sobre o jardim entrava, com um sussurro das fontes, o aroma das roseiras. No jornal que o criado trouxera e ela nos lia, abundavam as calamidades. Era uma dessas semanas também em que pela violência da Natureza e pela cólera dos homens se desencadeia o mal sobre a Terra.

Ela lia as catástrofes lentamente, com a serenidade que tão bem convinha ao seu sereno e puro perfil latino. «Na ilha de Java um terramoto destruíra vinte aldeias, matara duas mil pessoas...» As agulhas atentas picavam os estofos ligeiros; o fumo dos cigarros rolava docemente na aragem mansa – e ninguém comentou, sequer se interessou pela imensa desventura de Java. Java é tão remota, tão vaga no mapa! Depois, mais perto, na Hungria, «um rio trasbordara, destruindo vilas, searas, os homens e os gados...». Alguém murmurou, através de um lânguido bocejo: «Que desgraça!» A delicada senhora continuava, sem curiosidade, muito calma, aureolada de ouro pela luz. Na Bélgica, numa greve desesperada de operários que as tropas tinham atacado, houvera entre os mortos quatro mulheres, duas criancinhas... Então, aqui e além, na aconchegada sala, vozes já mais interessadas exclamaram brandamente: «Que horror!... Estas greves!... Pobre gente!...» De novo o bafo suave, vindo de entre as rosas, nos envolveu, enquanto a nossa loura amiga percorria o jornal

atulhado de males. E ela mesma então teve um «oh!» de dolorida surpresa. No Sul da França, «junto à fronteira, um trem descarrilando causara três mortes, onze ferimentos...» Uma curta emoção, já sincera, passou através de nós com aquela desgraça quase próxima, na fronteira da nossa península, num comboio que desce a Portugal, onde viajam portugueses... Todos lamentaríamos, com expressões já vivas, estendidos nas poltronas, gozando a nossa segurança.

A leitora, tão cheia de graça, virou a página do jornal doloroso, e procurava noutra coluna, com um sorriso que lhe voltara, claro e sereno.... E, de repente, solta um grito, leva as mãos à cabeça:

– Santo Deus!...

Todos nos erguemos num sobressalto. E ela, no seu espanto e terror, balbuciando:

– Foi a Luísa Carneiro, da Bela Vista... Esta manhã! Desmanchou um pé!

Então a sala inteira se alvorotou num tumulto de surpresa e desgosto.
As senhoras arremessaram a costura; os homens esqueceram charutos e poltrona; e todos se debruçaram, reliam a notícia no jornal amargo, se repastavam da dor que ela exalava!... A Luisinha Carneiro! Desmanchara um pé! Já um criado correra, furiosamente, para a Bela Vista, buscar notícias por que ansiávamos. Sobre a mesa, aberto, batido da larga luz, o jornal parecia todo negro, com aquela notícia que o enchia todo, o enegrecia.

Dois mil javaneses sepultados no terramoto, a Hungria inundada, soldados matando crianças, um comboio esmigalhado numa ponte, fomes, pestes e guerras, tudo desaparecera – era sombra ligeira e remota. Mas o pé desmanchado da Luísa Carneiro esmagava os nossos corações... Pudera! Todos nós conhecíamos a Luisinha – e ela morava adiante, no começo da Bela Vista, naquela casa onde a grande mimosa se debruçava do muro, dando à rua sombra e perfume.
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(*) - in Cartas Familiares e Bilhetes de Paris

Alice torna-se filósofa

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Por Nuno Crato

NA PARTE FINAL de Alice do Outro Lado do Espelho que hoje é distribuída com o Expresso, a nossa heroína envolve-se em algumas discussões aparentemente absurdas. São conversas muito ao gosto do seu autor, o matemático Charles L. Dodgson que aqui escreve sob o pseudónimo de Lewis Carroll, como temos referido.

No capítulo 6, Humpty Dumpty considera-se no direito de dar às palavras um significado arbitrário: “Quando eu emprego uma palavra ela quer dizer exactamente o que me apetecer… nem mais nem menos”. E Alice fica confusa com alguns significados que o estranho ser inventa. As palavras, na realidade, são arbitrárias. Poder-se-ia chamar “caneta” a uma árvore e “alice” a uma cadeira, que todos os raciocínios seriam válidos desde que se mantivessem evidentes os sentidos subjacentes. Por isso, para Humpty Dumpty o significado pode ser exacto — “nem mais nem menos”, o que não quer dizer que seja perceptível na comunicação.

Na linguagem científica evita-se discutir palavras e símbolos. Para isso, explicitam-se desde o início o significado em que os termos são usados. Na matemática, talvez a mais precisa das disciplinas, há definições e designações alternativas que não estão nem mais certas nem mais erradas que outras. São aceites desde que sejam coerentes e permitam o desenvolvimento dos temas. Muitas vezes, os artigos científicos começam por repetir conceitos conhecidos, apenas para que se percebam melhor as designações que vão ser usadas no resto do trabalho.

Em poesia, literatura e outras artes acontece frequentemente o contrário. Pode-se ganhar com a imprecisão. O uso ambíguo de um termo pode condensar todo o significado poético de uma frase e a dúvida que persiste na conclusão de uma obra de arte pode ser o que lhe dá a maior beleza.

O mais grave é o uso da linguagem ambígua onde ela deveria ser clara. Em Alice, o contraponto à arbitrariedade da linguagem e a descrição da ambiguidade aparece logo no capítulo seguinte (O Leão e o Unicórnio). A instâncias do rei, que lhe pergunta quem vê na estrada, Alice responde “Ninguém”. E o rei comenta: “Como eu gostava de ter boa vista, para conseguir ver ninguém a esta distância”.

Pode-se daqui inferir que Lewis Carroll está a tratar “ninguém” como sendo uma entidade, da mesma forma que os matemáticos tratam o conjunto vazio como algo existente. Mas o que ressalta nesta passagem tal como na seguinte em que o rei interroga o mensageiro, é a confusão derivada do uso ambíguo de termos. Será que, tal como Humpty Dumpty, o rei dá a “ninguém” o significado de um ente que pode ser visto? Para se comunicar é necessário que haja acordo no significado das palavras. E nesse sentido as palavras não são arbitrárias.

A mais famosa história do uso ardiloso da ambiguidade de “ninguém” aparece na Odisseia. No Canto IX, Ulisses, prisioneiro do Ciclope Polifemo, declara chamar-se “Ninguém” (365). Quando cega o monstro com um tronco de oliveira incandescente [imagem], este grita por ajuda dizendo “Ninguém está a matar-me (405).” Os outros Ciclopes, pensando que ninguém lhe estava a fazer mal, não lhe acodem e o astucioso Ulisses consegue fugir da gruta e regressar ao seu navio.

Para que as coisas se percebam é necessário distingui-las. “Como se pode falar com uma pessoa que diz sempre a mesma coisa?” interroga-se Alice no início do capítulo final. Sabe-se em teoria matemática da informação que é necessário pelo menos uma distinção binária para que algo se transmita.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 6 Mar 10 (adapt.)

Apontamentos de Lisboa

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Lisboa, Praça da Figueira
Hoje, 8 Mar 10, entre as 12h30m e as 13h30m

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

José Sócrates
e Alberto João Jardim puseram para trás das costas mútuas antipatias pessoais e velhas divergências políticas para fazerem face à catástrofe que atingiu a Madeira. Sentaram-se à mesa e aprovaram em conjunto um plano de reconstrução e ajuda financeira que substituirá, de imediato, os polémicos efeitos da querela sobre a lei das Finanças Regionais.

Esta conjugação de esforços e de vontades entre irredutíveis adversários políticos para superar, num momento de crise, a devastação e os prejuízos que o temporal provocou na sociedade madeirense, foi devidamente elogiada como exemplo de sentido de Estado e de capacidade para enfrentar uma situação de emergência nacional.

Mas tudo o que cai no excesso acaba por se tornar contraproducente. E a encenação forçada que Jardim e Sócrates apresentaram ao país, na passada segunda-feira, ultrapassou os limites do bom senso e da credibilidade. «Quero agradecer ao Governo Regional...», adiantou Sócrates com a voz trémula. «Quem tem de agradecer somos nós...», interrompeu Jardim em tom enlevado. «Não, não... foi um gosto poder trabalhar convosco...», contrapôs Sócrates à beira da comoção.

Ora, não se pode, num dia, chamar todos os nomes e acusar de todas as malfeitorias um interlocutor político e, no dia seguinte, cair-lhe nos braços com uma lágrima contida ao canto do olho, como quem acaba de reencontrar um amigo de peito há muito desaparecido. Só nos últimos tempos, Jardim afirmou que Sócrates é «uma praga, o maior inimigo da Madeira desde o 25 de Abril» e que «num país democrático a sério já não era primeiro-ministro» com todos «os escândalos» que o têm rodeado, mas «o senhor Pinto de Sousa não abandona, porque tem lata para isto e muito mais». Sócrates, por seu lado, não se tem cansado de apontar «o défice democrático na Madeira» e de repudiar «o discurso radical e insultuoso» de Jardim.

Se os políticos não mantêm um mínimo de coerência nos seus comportamentos e de dignidade na imagem que transmitem arriscam--se a que a solidariedade e a entreajuda se confundam com hipocrisia e oportunismo de ocasião. Como foi o caso desta encenação mediática protagonizada por Jardim e Sócrates.

«SOL» de 5 Mar 10

domingo, 7 de março de 2010

Parque dos CTT na Av. João XXI






Os CTT da Av. de Roma (em Lisboa) têm, mesmo ali ao lado (na Av. João XXI), um parque para as suas viaturas que está quase sempre indevidamente ocupado por carros particulares, obrigando as carrinhas da empresa a estacionarem em infracção.

Embora, com frequência, a Polícia Municipal e a EMEL multem esses carros, o certo é que a infracção parece compensar: recentemente, um carro esteve ali estacionado durante uma semana inteira, dia e noite... tendo sido multado uma única vez.
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Há, no entanto, um outro aspecto: não seria lógico que a placa de "Reservado aos CTT" fosse apenas válida para os dias úteis (das 9 às 18h, p. ex.), como sucede em muitos outros sinais semelhantes, inclusivamente na mesma zona?

sábado, 6 de março de 2010

Na terra das Leis-da-Treta

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Lisboa - Av. S. João de Deus
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As duas grades vazias reservam lugares de estacionamento... onde é proibido PARAR

Elogio da imprensa e dos seus homens livres

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Por Baptista-Bastos

O INQUÉRITO
na Comissão de Ética tem obtido resultados pungentes. Até agora, os deponentes que por lá passaram debitaram umas banalidades e revelaram uma assustadora ignorância da nossa História próxima recente, como uma indigência comovente do que é jornalismo. Apenas Francisco Pinto Balsemão disse algumas coisas acertadas. Não espanta. Ele é um homem que, no "Diário Popular", de que foi proprietário, conheceu a agressiva intervenção da Censura. Com uma Redacção na maioria constituída por jovens redactores que não morriam de amores pelo salazarismo: alguns deles, como Mário Ventura, tinham passado, duas vezes, pelas masmorras de Caxias. Balsemão conhece as diferenças das épocas e possui, sobre todos os outros preopinantes, a experiência de moral em acção. Não nos esqueçamos que, quando foi primeiro-ministro (já depois de Abril, evidentemente), o jornal que mais o atacou, às vezes quase irracionalmente, chamava-se e chama-se "Expresso", de que é dono.

Escuso-me a dizer o que, profissionalmente, penso, hoje, daquele semanário, cuja leitura abandonei, por viscosa, há mais de três anos. Mas o que penso, obsta-me, por motivos de ordem higiénica. Mas Balsemão é outra coisa. Como dizia um querido amigo, Manuel Magro, outro dos grandes de que o "Diário Popular" dispôs, "o homem tem a democracia até à medula."

Quero dizer, com isto, que Francisco Pinto Balsemão, sobre ter a carteira profissional de jornalista, de que se orgulha, sabe do que fala quando fala de jornais. Ao contrário de muitos daqueles simpatizantes de jornalismo, que pela Comissão de Ética têm passado. O depoimento dele seguiu-se ao de Manuela Moura Guedes, cujo conteúdo e objectivos deixo de largo. Cansei-me de campeões da liberdade.

Aquilo vai levar a nada. O que não sucederá, quase de certeza, com a Comissão de Inquérito Parlamentar. Vai-se saber, então, se José Sócrates e seus apaniguados "socialistas" acondicionavam, em aconchego tenebroso, um plano sinistro para dominar a liberdade de expressão. Apurada a verdade dos factos, comprovada como verdade que o primeiro-ministro mentiu ao Parlamento, chamado que for para averiguações dos acontecimentos - o seu destino está marcado: terá de ser despedido, por indecente e má figura. Será a primeira vez que um primeiro-ministro de Portugal sofrerá de tal pena e de tal vergonha.

Todavia, tem de se saber se ele é ou não culpado de indignidade moral. Os senhoritos e senhoritas que por lá têm debitado banalidades e espelhado um narcisismo risível nada acrescentam à verdade que se procura. Por outro lado, os deputados, valha-os Deus!, manifestam um desconhecimento absoluto da especificidade do jornalismo e das singularidades dos profissionais. Este último pormenor está longe de ser despiciendo: a feira de vaidades que é a Imprensa (lato senso), o concentrado de egos que acalenta e o amontoado de ódios que embala são de molde (quando se os conhece) a fazer fugir o espírito mais coriáceo.

Alguns dos responsáveis pelas publicações deviam envergonhar-se pelo que dizem e pelo papel que vêm representando. Já praticaram censura interna, já procederam a práticas de omissão e de perseguição (a forma mais hedionda de censura), já foram as vozes caninas da ideologia dominante. Deviam, caso estivessem interessados e soubessem, preocupar-se mais com a natureza dos conteúdos, com a gramática e com a fundamentação das notícias que apresentam.

A batalha pela tiragem, no caso dos jornais, e pelas audiências, quanto às televisões, atingiu níveis nunca vistos e extremamente perigosos. A informação deixou, na esmagadora maioria dos casos, de ser contextualizada, social e historicamente; e a opinião contrária, habitualmente, é obtida através do telefone. Um descrédito que tem acentuado a degenerescência da profissão e a decadência de uma classe que, mesmo nas horas mais ominosas do fascismo, conseguiu manter a cabeça fora do lodaçal, e não capitular. E, podem crer os Dilectos, foram anos e anos dolorosos e difíceis, que aniquilaram grandes jornalistas e destruíram sonhos maiores e decentes ambições.

João Chagas [1863-1925], que foi um dos maiores jornalistas portugueses de sempre, político emérito, grande prosador e homem de bem, escreveu, em "As Minhas Razões", reflexões admiráveis, e extremamente actuais acerca do tema de que discreteei. Um excerto:
"Está absolutamente demonstrado que só os poderes enfraquecidos perseguem a Imprensa e, por outro lado, está igualmente demonstrado que nem por isso se tornam mais robustos e que, ao contrário, acabam quase sempre por se declarar vencidos. Só os poderes enfraquecidos temem a Imprensa, porque a Imprensa não é para temer. Só a verdade é temível, disse o velho Thiers, que um tão belo papel representou no acto de protesto contra as Ordenanças de Julho.

"Os juízos da Imprensa só são eficazes quando são justos, porque, apesar de tudo, quando se pensa da influência da Imprensa sobra a opinião, nem por isso é menos certo que são, afinal, os votos desta que ela acaba por formular. Não é geralmente o jornal que faz a opinião, é a opinião que faz o jornal, e o jornal é, quase sempre, o último a exprimi-la."

Dilecto: agora, ia por aí fora, na reprodução desta extraordinária reflexão sobre jornalismo. Que fique pois, e somente, como um voto de gratidão e homenagem aos autênticos profissionais portugueses, que nos legaram páginas e páginas imortais, nas quais a liberdade está marcada como desejo, realidade e luta. E como imposição da honra, da dignidade e da honradez.

Aos outros, o meu profundo desdém.
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«Jornal de Negócios» de 5 Mar 10

sexta-feira, 5 de março de 2010

Passatempo-relâmpago de 5 Mar 10 - solução

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Qual o motivo do que se vê em cima?
A resposta é...
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TRATA-SE do lado Norte da ala de poente da Alameda Afonso Henriques, em Lisboa. O passeio está "devidamente" esventrado porque o estacionamento, em cima dele, ... é legal:

Não só tem parquímetros da EMEL, como até há risquinhos no chão, feitos com pedrinhas pretas, de calçada portuguesa, a delimitar os espaços!
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Mesmo por debaixo, há um parque subterrâneo, com 5 pisos, dos quais o inferior até está fechado - decerto por falta de utilizadores (o que já se nota no 4.º).
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É o estacionamento de Lisboa, em todo o esplendor do absurdo que já é o seu ex-libris.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Passatempo Calimero - Solução

Camelos


Por João Paulo Guerra

POR IMPERATIVOS europeus, Portugal vai ter dez anos para tirar 450 mil portugueses da situação de pobreza! 45 mil, por ano!

Bem se sabe, desde Almeida Garrett, que são necessários uns quantos pobres para fazer um rico. Mas esta diminuição do número de pobres em Portugal não é caso para entrar em pânico.

Em primeiro lugar porque 450 mil pobres representam apenas um quarto dos portugueses que vivem abaixo do limiar da pobreza. O que quer dizer que vão sobrar imensos pobres em Portugal neste Ano Europeu do Combate à Pobreza. Em segundo lugar porque a caridade pode ser uma excelente oportunidade de negócio, como disse um dia destes em Lisboa o secretário-geral da OCDE. E, em geral, o negócio da caridade passa frequentemente pelo branqueamento de capitais, a fuga ao fisco e outros esquemas fraudulentos sofisticados. Ora tendo em conta que a economia paralela, graças à crise, está a representar quase 20 por cento da riqueza do país, acabar com alguns pobres pode resultar num aumento da quantidade de ricos.

Só é de estranhar é que seja necessário vir a União Europeia com as suas directivas para que Portugal adira, com iniciativas e metas, ao Combate à Pobreza. Portugal é um país que em lugar de criar riqueza faz criação de ricos. E a falta de olho para o negócio da caridade não abona nada a esperteza dos chico-espertos nacionais que nunca desperdiçaram uma oportunidade. Aliás, se não havia oportunidades, os chico-espertos portugueses criavam-nas. E foi assim que Portugal passou a ser uma democracia esquemática: é só esquemas.

A oportunidade de Portugal acabar com um número rateado de pobres é um desafio. Resta saber se em Portugal não será mais fácil fazer passar um camelo pelo fundo de uma agulha (Mateus, capítulo 19, versículo 24).

«DE» de 4 Mar 10

quarta-feira, 3 de março de 2010

Apontamentos de Lisboa



Lisboa - Av. Almirante Reis
3 Mar 2010 - 16h40m

Os corruptos, nossos amigos


Por Rui Zink

JÁ AQUI TIVE OPORTUNIDADE de explicar que o princípio de “não bater nos mais fracos” não faz qualquer sentido. Porque, se não for nos mais fracos, vamos bater em quem? Pois hoje venho explicar que o abuso de poder é bom. Não digo para os abusados, mas para quem abusa. E daí? Toda a gente diz mal dos abusadores, dos corruptos, mas esquecemos que os abusadores também são gente. E merecem ser acarinhados. Sem condições, sem apoios, claro que é difícil para um português, por mais que se esforce, atingir o nível competitivo de um Madoff, ou mesmo um traficante afegão.

De resto, só quem não tem poder resmunga contra quem beneficia abusivamente desse poder. Eu, por exemplo, detesto dar aulas. Em compensação, a parte do chumbar alunos já acho gira. É a recompensa possível pelas humilhações sofridas a falar para o boneco. Da mesma forma para um “dirigente”, depois do tempo perdido a aturar eleitores durante a campanha, depois de tanto sorriso, tanto beijinho, tanta faneca assassinada, a tomada do poder é como chegar a casa ao fim dum longo dia de trabalho: uma pessoa só quer pôr-se à vontade e relaxar. E untar as mãos com um pouco de mel ou, como dizem os franceses, enfiá-las num “pote de vinho”. Qual é o mal? Mas não, nunca se está descansado, vem logo alguém relinchar que “ser corrupto é feio”. Está bem, feio será. Mas sabe tão bem…

Porque a triste verdade é que o exercício do poder só dá gozo se abusarmos dele. Não o fazermos... é o mesmo que não o ter. Porque estamos apenas (como dissemos em campanha) “ao serviço dos concidadãos”. E, isso sim, é uma seca. Então andei eu a esfalfar-me, a fazer fretes e mais fretes (na Jota ou noutro local igualmente lindo), a fazer contactos, a lamber botas, a bajular chefes, para acabar feito criado a servir os outros? Ná.

«Metro» de 1 Mar 10

Tudo o que se passa passa-se com todos

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Por Baptista-Bastos

O DESEMPREGO não pára de aumentar na Europa. Uma análise honesta do problema autoriza-nos a concluir que a crise do sistema está a prolongar-se e a desenvolver-se com resultados finais previsivelmente assustadores. Em Portugal, a percentagem de desempregados atingiu os 10,5 por cento, e a tendência é para aumentar substancialmente. Pode-se olhar para o lado, criando a torpe ilusão de que as desgraças só acontecem aos outros. Não é verdade. Como no poema de Brecht, tudo é com todos, e já estão a tocar no batente da nossa porta.

À incapacidade total dos nossos governantes, já não digo para resolverem, mas, pelo menos, para enfrentar o problema, junta-se o facto de obedecerem, cegamente, às combinações únicas do elemento standard. Os módulos do mercado, quer dizer: as exigências brutais do capitalismo, encontraram as mais servis concordâncias nos chamados partidos de poder. Mas que poder?, tendo em conta que esse próprio conceito se desvaneceu. Partidos conservadores, socialistas, sociais-democratas ou demoliberais pouco possuem, hoje, que os distinga uns dos outros. Politicamente, agem de forma semelhante. A perda das suas identidades, absorvidas pela "economia única", põe em risco a própria democracia. A "democracia totalitária" está aí.

No caso português, o Governo é, averiguadamente, inepto para resolver o problema. A sua indeterminação ideológica pode explicar a decomposição da nossa vida cívica. Por outro lado, as representações actuais do PSD (três candidatos à chefia) não são animadoras. Nada se sabe dos projectos "alternativos", talvez porque, na realidade não existam, a não ser a continuidade de "políticas de aquiescência". Cada qual apenas pretende gerir, a seu modo, a crise geral do capitalismo, sem demonstrar a necessidade da sua crítica. O mimetismo, com ligeiras modificações de pormenor, tornou-se comum aos partidos. O mundo da economia substituiu o da política, com os nefastos resultados que se conhecem. O futuro não augura nada de bom para os portugueses. Os portugueses desempregados, pobres e assustados, bem entendido. Para uma escassa minoria, vencimentos obscenos, reformas escabrosas, as coisas correm pelo melhor.

Entre outras, há uma pergunta a colocar: um país pode ser governado assim, ausente das relações sociais, mantendo, obstinada e cegamente, a ruptura com a dimensão colectiva?

O PS deixou, há muito, de advogar uma identidade específica, que o colocasse entre a Direita do PSD e a Esquerda do PCP. É um imbróglio sem convicções, como o PSD é o que sempre foi: um jogo de dependências sem grandeza nem glória. Poderemos, alguma vez, recuperar o nosso "não" e o nosso "sim"? Duvido.

«DN» de 3 Fev 10

terça-feira, 2 de março de 2010

Do outro lado do espelho

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Por Nuno Crato

A SEGUNDA AVENTURA de Alice possui ainda mais referências eruditas e científicas que a obra anterior de Charles Dodgson. Escrevendo sobre o pseudónimo de Lewis Carroll, este professor de matemática de Oxford tinha aqui o propósito de entreter jovens e não de ensinar matemática e lógica. E é assim que as aventuras de Alice devem ser lidas. Mas o público adulto não pode deixar de notar as subtilezas da narrativa.

O começo é profético. Ao passar pelo espelho, Alice fica igual? O leite simétrico, o leite do outro lado, é tão bom como o deste? O problema transcende o tratamento matemático da simetria. Geometricamente, é possível duplicar tudo no espelho e o mundo novo irá funcionar perfeitamente. Mas, sem o saber, Dodgson põe o dedo num problema que só seria resolvido em meados do século XX quando os físicos, nomeadamente Lee e Yang, que receberam em 1957 o Nobel por esse seu trabalho, mostraram a existência de assimetria nas partículas elementares. Como o nota Martin Gardner (The Annotated Alice, 1970, p. 152), o leite perfeitamente simétrico seria constituído por antimatéria, pelo que Alice e o leite explodiriam por simples contacto.

Mas o trecho mais citado desta segunda aventura é, sem dúvida, a exortação da rainha à corrida. Aparece logo no capítulo 2. «Aqui, vês, é preciso correr o mais depressa possível para ficar no mesmo sítio». Os políticos e economistas modernos percebem bem a profundidade do dito.

Mais à frente, no capítulo 4, aparece um gigantesco corvo que escurece subitamente a cena e interrompe a luta entre os dois caricatos irmãos. O episódio parece ter sido inspirado numa história verídica de uma batalha do século VI a.C. O biólogo e evolucionista britânico J.B.S. Haldane, nascido em Oxford em 1892, quando o autor de Alice ainda aí residia e trabalhava, não tem dúvidas. No seu livro de ensaios Possible Words (1927, p. 8), diz que «A verdadeira história é a seguinte: Aliates, rei da Lídia, estava há cinco anos em guerra com Ciaxares, rei dos Medos. No seu sexto ano, em 28 de Maio de 585 a.C., como se sabe, a batalha foi interrompida por um eclipse total do Sol. Os reis pararam a batalha». Nas palavras do historiador grego Heródoto, «ficaram mais que ansiosos por estabelecer a paz» (Histórias, 1.73-4)

No capítulo seguinte, Lewis Carroll retorna a um dos seus temas favoritos, o tempo. Agora, coloca-o a andar para trás, o que surpreende Alice. Sabe-se que Dodgson gostava de rodar as caixas de música em sentido inverso, para perceber como resultavam as melodias tocadas ao contrário. Toda esta discussão poderá ter inspirado o escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald a escrever em 1922 a novela O Estranho Caso de Benjamim Button, adaptada com imenso sucesso ao cinema há dois anos. Com o tempo a andar para trás a rainha de Alice tem memória nos dois sentidos: lembra-se do que passou e do que vai acontecer! Naturalmente também prevê o passado. Aliás, segundo um conhecido provérbio inglês, a previsão mais difícil é a do futuro.
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Deixemos o leitor com um desafio de previsão do passado que Dodgson incluiu na sua colecção de Problemas de Travesseiro (1893, n.º 5): uma caixa tem uma única bola, preta ou branca, não se sabe; junta-se-lhe uma bola branca e sacode-se; tira-se uma bola ao acaso, que se verifica ser branca; que é mais provável, que a caixa tivesse originalmente uma bola preta ou uma branca?
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 27 Fev 10

segunda-feira, 1 de março de 2010

Marcianos uma ova!...

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Por João Duque

Engenheiro - Com que então o senhor professor João Duque acha que pelo facto de o Governo ter retirado as concessões e subconcessões do quadro das parcerias público-privadas no relatório do Orçamento de Estado de 2010, colocando-as noutro quadro que se lhe segue, mas ainda no mesmo Orçamento, quando no Orçamento de 2009 estava tudo no mesmo quadro, pressupõe uma desleal manipulação da verdade, e insinua que com isso queremos "enrolar" os portugueses. Francamente! Seja intelectualmente honesto!

João Duque - sr. engenheiro, o senhor lê rápido e fundo. Não escrevi exactamente isso, mas já que o diz e assim interpretou o meu anterior artigo publicado no Diário Económico, deixe-me "retocar-lhe" a leitura. O que eu quis mostrar é que a retirada dos elementos de um quadro para o outro em dois Orçamentos de Estado consecutivos, não respeita um dos mais consagrados princípios de apresentação de contas que o Estado obriga à sociedade civil e que é o da comparabilidade.

Engenheiro - Ora, ora meu caro, mas isso não é o que você escreveu! O que insinuou com aquela piada de mau gosto sobre marcianos a pagarem as nossas estradas, foi que o Governo manipulava os dados e isso é falso. Ouviu? Falso!

João Duque - Calma sr. engenheiro, não se irrite tanto. Em primeiro lugar eu não escrevi que o Governo manipulava os números. Apenas mostrei que, enquanto no Orçamento de 2008 e 2009 os encargos líquidos para o Estado com as parcerias público privadas (PPP) cresciam de ano para ano (18 mil milhões em 2008 e 23 mil milhões em 2009), quando se lê o Orçamento de 2010 esses encargos passavam para 8,5 mil milhões. Mas, já agora, deixe-me confessar-lhe que, ao esmiuçar mais os números fiquei deveras confuso.

O caso é que quando calculei o valor actual dos encargos líquidos para o Estado decorrentes das PPP, apenas e exclusivamente para as tais concessões e subconcessões rodoviárias, o valor apresentado no Orçamento de 2009 foi de 16,4 mil milhões de euros negativos. Mas no Orçamento de 2010 esse valor passou para um valor positivo de 6,9 mil milhões! Então que vem a ser isto?

E como não há referência a erros grosseiros nas estimativas do Orçamento anterior, então é porque esta diferença de 23,3 mil milhões só se pode ficar a dever às novas concessões e subconcessões rodoviárias que se esperam lançar no ano de 2010... Isto é, as novas concessões permitirão, só por si, um valor actual líquido positivo de 23 mil milhões a compensar as antigas que apresentavam valores descontroladamente negativos... Ou vamos todos pagar portagens em todo o lado, ou há benefícios financeiros inimagináveis para as estradas e auto-estradas projectadas para recônditos locais populosos de Portugal que ainda não descobrimos.

Porque das duas, uma: ou vamos pagar portagens da sala para o quarto de modo a que a Conta do Estado venha a registar este milagre, ou estamos a falar das estradas para o Paraíso. Mas conhecendo os homens, não será mais lucrativo portajar a passagem ao Inferno?

Valha-nos Deus...
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«DE» de 25 Fev 10
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NOTA (CMR): Julgo que o "engenheiro" a que João Duque se refere é alguém (cujo nome não anotei) que publicou uma crónica a contrariar uma outra de J.D.

Um pesadelo

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Por Manuel João Ramos

EU TIVE UM SONHO, por Cecílio Gomes da Silva*

TRAUMATIZADO pelo estado de desertificação das serras do interior da Ilha da Madeira, muito especialmente da região a Norte do Funchal e que constitui as bacias hidrográficas das três ribeiras que confluem para oFunchal, dando-lhe aquela fisiografia de perfeito anfiteatro, aliado a
recordações da infância passada junto à margem de uma das mais torrenciais dessas ribeiras– a de Santa Luzia – o mundo dos meus sonhos é frequentemente tomado por pesadelos sempre ligados às enxurradas invernais e infernais dessa ribeira.

Tive um sonho. Adormecendo ao som do vento e da chuva fustigando o arvoredo do exemplar Bairro dos Olivais Sul onde resido, subia a escadaria do Pico das Pedras, sobranceiro ao Funchal.
Nuvens negras apareceram a Sudoeste da cidade, fazendo desaparecer o largo e profundo horizonte, ligando o mar ao céu. Acompanhavam-me dois dos meus irmãos – memórias do tempo da Juventude – em que nós, depois do almoço, íamos a pé, subindo a Ribeira de Santa Luzia e trepando até à Alegria por alturas da Fundoa, até ao Pico das Pedras, Esteias e Pico Escalvado.

Mas no sonho, a meio da escadaria de lascas de pedra, o vento fez-nos parar, obrigando-nos a agarrarmo-nos a uns pinheiros que ladeavam a pequena levada que corria ao lado da escadaria. Lembro-me que corria água em supetões, devido ao grande declive, como nesses velhos tempos. De repente, tudo escureceu. Cordas de água desabaram sobre toda a paisagem que desaparecia rapidamente à nossa volta. O tempo passava e um ruído ensurdecedor, semelhante a uma trovoada, enchia todo o espaço. Quanto durou, é difícil calcular em sonhos. Repentinamente, como começou, tudo parou; as nuvens dissiparam-se, o vento amainou e a luz voltou. Só o ruído continuava cada vez mais cavo e assustador. Olhei para o Sul e qualquer coisa de terrível, dantesco e caótico se me deparou.

A Ribeira de Santa Luzia, a Ribeira de S. João e a Ribeira de João Gomes eram três grandes rios, monstruosamente caudalosos e arrasadores. De onde me encontrava via-os transformarem-se numa só torrente de lama, pedras e detritos de toda a ordem. A Ribeira de Santa Luzia, bloqueada por alturas da Ponte Nova – um elevado monturo de pedras, plantas, arames e toda a ordem de entulho fez de tampão ao reduzido canal formado pelas muralhas da Rua 31 de Janeiro e da Rua 5 de Outubro – galgou para um e outro lado em ondas alterosas vermelho acastanhadas, arrasando todos os quarteirões entre a Rua dos Ferreiros na margem direita e a Rua das Hortas na margem esquerda.

As águas efervescentes, engrossando cada vez mais em montanhas de vagas espessas, tudo cobriram até à Sé – único edifício de pé. Toda a velha baixa tinha desaparecido debaixo de um fervedouro de água e lama. A Ribeira de João Gomes quase não saiu do seu leito até alturas do Campo da Barca; aí, porém, chocando com as águas vindas da Ribeira de Santa Luzia, soltou pela margem esquerda formando um vasto leito que ia desaguar no Campo Almirante Reis junto ao Forte de S. Tiago. A Ribeira de S. João, interrompida por alturas da Cabouqueira fez da Rua da Carreira o seu novo leito que, transbordando, tudo arrasou até à Avenida Arriaga.
Um tumultuoso lençol espumante de lama ia dos pés do Infante D. Henrique à muralha do Forte de S. Tiago. O mar em fúria disputava a terra com as ribeiras. Recordo-me de ver três ilhas no meio daquele turbilhão imenso: o Palácio de S. Lourenço, A torre da Sé e a fortaleza de S. Tiago. Tudo o mais tinha desaparecido – só água lamacenta em turbilhões devastadores.

Acordei encharcado. Não era água, mas suor. Não consegui voltar a adormecer. Acordado o resto da noite por tremenda insónia, resolvi arborizar toda a serra que forma as bacias dessas ribeiras. Continuei a sonhar, desta vez acordado. Quase materializei a imaginação; via-me por aquelas chapas nuas e erosionadas, com batalhões de homens, mulheres e máquinas, semeando urze e louro, plantando castanheiros, nogueiras, pau-branco e vinháticos; corrigindo as barrocas com pequenas barragens de correcção torrencial, canalizando talvegues, desobstruindo canais. E vi a serra verdejante; a água cristalina deslizar lentamente pelos relvados, saltitando pelos córregos enchendo levadas. Voltei a ouvir os cantares dolentes dos regantes pelos socalcos ubérrimos das vertentes. Foram dois sonhos. Nenhum deles era real; felizmente para o primeiro; infelizmente
para o segundo.

Oxalá que nunca se diga que sou profeta. Mas as condições para a concretização do pesadelo existem em grau mais do que suficiente.

Os grandes aluviões são cíclicos na Madeira. Basta lembrar o da Ribeira da Madalena e mais recentemente o da Ribeira de Machico. Aqui, porém, já não é uma ribeira, mas três, qualquer delas com bacias hidrográficas mais amplas e totalmente desarborizadas. Os canais de dejecção praticamente não existem nestas ribeiras e os cones de dejecção etão a níveis mais elevados do que a baixa da cidade. As margens estão obstruídas por vegetação e nalguns troços estão cobertas por arames e trepadeiras. Agradável à vista mas preocupante se as águas as atingirem. Estão criadas todas as condições, a montante e a jusante para uma tragédia de dimensões imprevisíveis (só em sonhos).

Não sei como me classificaria Freud se ouvisse este sonho. Apenas posso afirmar sem necessidade de demonstrações matemáticas que 1 mais 1 são 2, com ou sem computador. O que me deprime, porém, é pensar que o segundo sonho é menos provável de acontecer do que o primeiro.

Dei o alarme – pensem nele.
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Lisboa, 11 de Dezembro de 1984

Publicado em 13 de Janeiro de 1985 no Diário de Notícias do Funchal

*Engenheiro Silvicultor