sexta-feira, 16 de abril de 2010

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

EM MENOS DE DOIS MESES, Passos Coelho alterou significativamente o seu discurso sobre a necessidade de substituir com a maior rapidez o Governo de José Sócrates e a eventualidade de eleições antecipadas. Se, a meio de Fevereiro e em plena campanha para a liderança do PSD, afirmava sem rodeios que «é preferível termos eleições, é preferível enfrentar uma crise política do que estar todos os dias em permanente crise política», já no final de Março, no discurso de vitória nas directas do PSD, refreava a sua ânsia e garantia que os sociais-democratas «estão disponíveis para ajudar o Governo a ultrapassar as dificuldades em que o país se encontra».

E, ao terminar agora o Congresso da consagração em Carcavelos, a mensagem de Passos Coelho já mudara quase 180 graus: «Não há pressa para chegar ao Governo. Não estou à espera de uma primeira oportunidade para deitar o Governo abaixo e provocar eleições». A posição de liderança, como se percebe, abre outras perspectivas sobre os problemas e uma nova visão sobre o mundo.

Passos Coelho pode não ter ainda afinado uma alternativa programática com pés e cabeça, com propostas concretas e clarificadoras, limitando-se a lançar sugestões rebuscadas, como a do Conselho Superior da República para examinar as nomeações políticas, ou a avançar com matérias estratosféricas para a generalidade dos portugueses, como a de uma urgentíssima revisão constitucional. Mas ganhou já reforçada sensibilidade a vozes como a do Presidente Cavaco Silva, que não se cansa de defender a «estabilidade política para enfrentar os problemas económicos e sociais do país», a conselhos como o do banqueiro Ricardo Salgado, quando avisa que «não é o momento de estarmos novamente com eleições», ou à preocupante imagem de Portugal nos palcos europeus e nos mercados internacionais.

O novo líder do PSD está, pois, mais sensível às exigências do cargo que agora ocupa. E daquele que pretende vir a ocupar. Para lá chegar – com a crise que o país atravessa, o desgaste crescente que a aplicação do PEC irá provocar no Governo e a imagem cada vez mais debilitada de Sócrates – só tem que esperar sentado. E não se mexer muito. Para não cometer disparates políticos irreparáveis. Porque é esse o seu maior risco até chegar a S. Bento. Não já em 2010, como entretanto percebeu. Talvez no final de 2011.
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«SOL» de 16 Abr 10

O culpado das cinzas

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Por Antunes Ferreira

CADA VEZ MAIS tenho para mim que o culpado dos enormes transtornos nos transportes aéreos não é o vulcão Eyjafjallajokull, na Islândia; é o primeiro-ministro José Sócrates. Tem de ser. O homem já é acusado de tanta coisa que, mais uma, menos uma, não lhe deve causar grande mossa. E como não se pode prever durante quanto tempo mais a erupção se manterá e as chuvas de cinza dela resultantes também prosseguirão, creio que, com a maior celeridade deverá ser nomeada uma comissão de inquérito para o efeito. De preferência no Parlamento.

Estou certo de que nunca um chefe de Governo, no percurso da Democracia em Portugal, foi alvo de tantos ataques, insultos, acusações e processos como o actual. Nem na I República, a que muitos chamaram e ainda chamam uma bandalheira. Estamos neste ano que corre a celebrar os cem anos republicanos, e não me consta que no período de 1910 a 1926 algum primeiro-ministro tenha sido tão fustigado.

Pior só António Granjo, que foi barbaramente assassinado no Arsenal do Alfeite, em 19 de Outubro de 21, escassas horas depois de ter apresentado a sua demissão, durante a famigerada Noite Sangrenta. A outras figuras políticas portuguesas isso também tinha acontecido escassos anos antes, desde o Rei Dom Carlos até ao Presidente Sidónio Pais.

Pode dizer-se que o percurso do homem público José Sócrates Pinto de Sousa está carregado de assuntos que, no mínimo, têm originado os procedimentos acusatórios de que vem sendo alvo. Ele próprio lançou a ideia de estar a ser alvo de uma campanha negra, de um conluio gigantesco que o pretendia e pretende eliminar politicamente. Mas, ele próprio se tem posto a jeito de muitas dessas suspeitas e das correspondentes acusações.

Nomeadamente no que concerne à relação que mantém (?) com a Comunicação Social, as atitudes do primeiro-ministro vêm sendo lastimosas. É sabido que os media não gostaram dele e logo desde que ganhou as primeiras eleições com maioria absoluta. E, mesmo, talvez antes. Sócrates não sabe lidar com os órgãos de comunicação e tudo indica que não tem ao seu lado quem o saiba fazer.

E agora, periclitante, em função da maioria relativa, o seu comportamento negativo tem vindo a aumentar. É-lhe cada vez mais difícil movimentar-se frente a uma oposição que congrega Direita e alguma Esquerda, é-lhe cada vez mais penoso andar quotidianamente a fazer desmentidos. O tristemente famoso Face Oculta está a ser o último que o abala. De mentiroso a charlatão tudo lhe é endereçado. E a CS, para além de acusadora, transformou-se em caixa de ressonância. Vida dura.

Há quatro anos, mais coisa menos coisa, escrevi que Sócrates era - para mim, naturalmente - o melhor primeiro-ministro depois do 25 de Abril. Agora, não diria o mesmo. E não se trata de virar o bico ao prego ou de virar a casaca, procedimentos tão do agrado de nós, Portugueses. E muito menos de emendar a mão. É apenas o reconhecimento de que não é assim. Infelizmente.

O sim ou não do apoio à candidatura de Manuel Alegre a Belém é mais um berbicacho. Vão sendo muitos. Por isso mesmo, resta-me a ironia, quiçá despropositada: cada vez me inclino mais para a interferência dele no processo das cinzas vulcânicas. Se, por acaso, não tiver sido assim, pode o inquilino de São Bento marcar um ponto a seu favor. De qualquer forma, continuarei a votar PS. Mesmo com José Sócrates. De tal modo andam as coisas por este triste País que me apetece o desabafo calino: do mal, o menos. Mesmo tendo em conta Pedro Passos Coelho.

Apoios

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Por João Paulo Guerra

O Partido Socialista deveria anunciar o seu apoio à reeleição do professor Cavaco Silva, retribuindo assim a gentileza do PSD, que em 1991 apoiou oficialmente a reeleição de Mário Soares.

SEMPRE SERIA mais transparente e sério que andar a jogar às escondidas com a candidatura de Manuel Alegre, que incomoda os socialistas mais direitinhos. Além disso, o apoio do PS à reeleição de Cavaco Silva passaria a pressão para o lado do actual chefe de Estado, na hipótese de ser reeleito, quanto a uma eventual dissolução do Parlamento e convocação de eleições.

Então porque é que o PS, que tem tantas reticências em relação à candidatura de Alegre como em relação ao socialismo, não se decide a apoiar a candidatura de Cavaco Silva? Provavelmente porque não tem a certeza que tal apoio garanta a reeleição. Uma leitura sociológica das legislativas do ano passado confirma a esquerda como maioritária no país. Se o PS quisesse eleger o próximo Presidente avançava com um candidato consensual e garantia a eleição. Mas o PS, tal como não apoia Alegre, também não avança com outro candidato. O PS quer que o eleitorado maioritariamente de esquerda do país se canse, deixe de crer, se divida, se desmobilize e dê como inevitável a vitória da direita. Então porque é que o PS não dá o passo mais simples e apoia Cavaco Silva? Porque não tem a certeza que a revolta do seu eleitorado não cause estragos fatais nos resultados das presidenciais e em futuras eleições legislativas.

Há cinco anos, contra Cavaco Silva e contra um candidato oficial do PS, com candidatos autónomos do Bloco de Esquerda e do PCP, a esquerda esteve a escassos milhares de votos de forçar uma segunda volta entre Cavaco e Alegre. E porque não se decide o PS a apoiar Alegre? Terá medo de ganhar?
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«DE» de 16 Abr 10

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Os equívocos de Alegre

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Por J. L. Saldanha Sanches

MANUEL ALEGRE denunciou o PEC, que mais uma vez vai atirar o peso da crise para os alvos habituais. Fez bem, mas omitiu o essencial.

O PEC é a factura que vamos pagar por anos e anos de saque organizado e contínuo dos recursos públicos, por uma vasta quadrilha pluri-partidária que vive de comissões, subornos e tráfico de influências. As derrapagens, sempre as derrapagens…

Tudo isto é velho e tem raízes fundas. Não podemos é deixar de recordar a responsabilidade que este Governo e este PS têm no agravamento da situação.

Começaram por pôr Alberto Costa na justiça. Nomearam Ricardo Rodrigues para porta-voz nesta área. Conseguiram tornar ainda mais labiríntico o Código do Processo Penal. Deram todos os sinais ao mercado da economia paralela de que os ventos eram de feição.

Guardar um respeitoso silêncio nesta matéria não é hipocrisia, é cumplicidade activa. Atacar o PEC (e o economicismo, um conceito tão vazio como a cabeça dos que o utilizam) é fácil. Mas não chega.

A principal razão dos ataques de João Cravinho à corrupção é a percepção que este tem há muito de que, com este nível de esbulho de dinheiros, a corrupção no sector público torna totalmente insustentável qualquer ideia de que este possa ter um papel na economia, se não determinante, pelo menos complementar.

Para o Bloco de Esquerda, estas questões são secundárias. O capitalismo é a própria expressão encarnada da corrupção e das malfeitorias. Contudo, se pensarmos de forma diferente, nenhum candidato que queira assumir de forma séria os reais problemas do país, e que não aceite facilmente os trinta dinheiros que compram tudo e todos, não pode enfiar a cabeça na areia e fingir que a corrupção, ao nível que atingiu, é apenas mais um dos problemas do país.

Um candidato sério tem que ter o saque da res publica no centro da sua agenda política. Tem que ter coragem para enfrentar aquela frente tão difusa como bem estruturada que consegue fazer da corrupção uma questão sobre a qual se desliza sem grande atrito e sem consequências – pode eventualmente abordar-se o tema, mas rapidamente o discurso desliza dessa para outras questões.

Corremos o risco trágico de ter candidatos a atirar impropérios à ganância dos especuladores internacionais, mantendo um silêncio cúmplice sobre os métodos de gestão da coisa pública que nos deixaram indefesos e impotentes nas suas mãos.

Sabemos que o problema tem as mais variadas faces. Podemos mesmo esperar que da Comissão de Acompanhamento da AR saiam algumas propostas consensuais. Aprová-las será para alguns membros da mesma Comissão, não o proverbial ingurgitamento de sapos, mas de tartarugas.

Ficar calado, refugiar-se em minúcias técnicas, andar de braço dado com os fautores públicos e notórios da corrupção tem que ter um preço. E esse preço é a assunção pública e expressa de que se trata de um candidato de um regime apodrecido. Por isso, para Alegre a opção é clara: ou procura o apoio das quadrilhas que nos roubam impunemente, ou guarda um silêncio cúmplice e envergonhado a troco de meia dúzia de votos, ou toma sobre a corrupção uma posição digna e inequívoca.
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«Expresso» de 10 Abr 10
– www.saldanhasanches.pt



Lagos - 15 Abr 10

Revisão

Por João Paulo Guerra

O título de jornal “partido X ou dirigente Y quer rever a Constituição” deixa sempre uma sensação de ‘déjà vu’ e dúvidas quanto à data do jornal.

ISTO PORQUE não deve haver nenhum dirigente político dos partidos que têm ocupado o poder que não tenha querido, e em certos casos conseguido, rever a Constituição. E é assim que a Constituição da República Portuguesa fez há dias 34 anos - efeméride que aliás passou praticamente despercebida - e já foi sete vezes à revisão. Ou seja, temos Constituição revista à média da duração de uma legislatura, pouco mais ou menos. A Constituição, lei das leis, quadro do funcionamento da política e do exercício dos direitos, é revista por dá cá aquela palha. E depois a classe política queixa-se da instabilidade. E agora que chegou um novo líder partidário à ribalta política, antes de mais apresentações deixou já expresso que quer rever a Constituição ainda este ano.

A revisão da Constituição parece ser a mezinha para agitar e usar quando não se sabe bem o que fazer, ou se quer entreter o tempo. E para além disso, o facto de se querer a Constituição revista antecipa o argumento de que não se fez nada de jeito porque a Constituição tal como está não deixou. Na política portuguesa, mais que reclamar a revisão da Constituição, só mesmo impor mais e novos sacrifícios aos cidadãos.

Depois, para rever a Constituição, ou simplesmente rever a revisão, não basta querer. É preciso que outro ou outros queiram. E a revisão torna-se assim objecto de negociação ou de confronto. Se dá, dá, se não dá acusam-se segundos e terceiros de promoverem o impasse. É cedo para antever uma oitava revisão. Mas fica o registo que o PS já fez votos de que possa ter no PSD um interlocutor válido. Isto é, teme-se o pior.
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«DE» de 15 Abr 10

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Soberania

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Por João Paulo Guerra

O Sr. Olli Ilmari Rehn é um liberal finlandês escolhido pelo Dr. Durão Barroso para desempenhar o cargo de comissário europeu responsável pela Economia e Finanças.

E É ESTE INDIVÍDUO que anda a rezar pela pele dos portugueses, alvitrando desde já que o Programa de Estabilidade e Crescimento ainda é pouco e que vão ser necessários "esforços adicionais" para reduzir o défice orçamental. Ou seja: em Portugal até um membro do Governo já admitiu que o PEC venha a ter "um efeito perverso na economia portuguesa". Mas do alto da sua finlandesa suficiência, a exportar Nokias, madeiras, pasta de papel e design, o Sr. Olli Ilmari Rehn aconselha Portugal a afundar-se económica e socialmente.

O Sr. Olli Ilmari Rehn, liberal finlandês que estudou economia e relações internacionais no Minnesota, Estados Unidos, nos anos 80, eventualmente também considerou que a política do Sr. Ronald Reagan não seria suficiente para fazer dos Estados Unidos e do mundo um verdadeiro deserto de direitos sociais, o que exigiria "esforços adicionais" por parte das vítimas do costume. Quanto ao seu próprio país e continente, o Sr. Olli Ilmari Rehn não viu ou não percebeu bem o filme da finlandização e das negociações sobre Segurança e Cooperação na Europa, pois nenhum destes acontecimentos decidiu "a queda da cortina de ferro", ao lado da qual a Finlândia se deu aliás muito bem.

Mas isso não é agora para aqui chamado. O que interessa é que um liberal finlandês que os portugueses não conhecem de lado nenhum e que ninguém elegeu - mas por sinal escolhido a dedo por um português que se escapuliu de Portugal deixando o país "de tanga" - tem poder para falar de cátedra sobre quantos mais "esforços adicionais" vão os portugueses ter que suportar.
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«DE» de 14 Abr 10

O pesadelo neoliberal

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Por Baptista-Bastos

AS CERIMÓNIAS de entronização de Pedro Passos Coelho, no Congresso do PSD, em Carcavelos, não me pareceram tão translúcidas como nos quiseram fazer crer. As afirmações do dr. Sarmento, ao acentuar, áspero e interminável, as distâncias que deseja manter das decisões do presidente, estão longe de ser, apenas, um intermezzo pícaro ou uma metáfora barroca. Notadamente, o homem apresenta-se de sobrolho carregado. Por seu turno, Paulo Rangel, tímido e pedante, é incapaz de fechar a cara ao desdém ressabiado com que a derrota o marcou, e soletra um sorridente ressentimento através de frases cautelosas e evasivas.

É claro que os velhos inimigos de Passos Coelho não se sumiram com a apoteose do vencedor. E os exemplos que amenamente apontei são mais do que sombras das coisas. Alguém em seu perfeito juízo acredita em retrocesso, arrependimento, remorso, contrição daqueles que, durante anos e até há pouco dias, mordiam e arranhavam no homem, com razão ou sem ela? Aliás, os abraços, os beijos, a cordialidade repentina, entre gente que se odeia e despreza, cenas filmadas pelas televisões, com minúcia e gozo, representaram a mais desabusada manifestação de hipocrisia, de cinismo e de falta de escrúpulos já observada nos últimos tempos.

Não quero estragar a festa, mas parece-me haver uma insalvável precipitação na coroação de Pedro Passos Coelho - e ele que se cuide. Por um lado, não irá contentar os seus apaniguados, e muito menos aqueles, como Aguiar-Branco, que nele vêem o restaurador "da matriz social-democrata do partido", ideologia que o PSD somente tem mantido no nome, porque, rigorosamente, nunca o foi. A seguir, desenganem-se os enfadados de José Sócrates, que sentem uma espécie de vergonha íntima em continuar a apoiar o PS. Pedro Passos Coelho defende o neoliberalismo a toda a brida. Se Sócrates quer privatizar quase tudo, Passos quer privatizar o restante. Aos poucos, o Estado dissolver-se-á, a política será um anacronismo, os "gestores" tomarão conta de tudo e os escassos resquícios de democracia serão definitivamente apagados.

Como reagirá o presidente do PSD confrontado, em termos éticos e políticos, com esta problemática da insatisfação, da expectativa e da ambiguidade? O neoliberalismo mete medo a toda a gente pelo historial de violência e de iniquidades que transporta. As modalidades de organização e de partilha do poder, até agora utilizadas, esgotaram-se no caos das incertezas e da decepção. A lógica da cidadania, própria das práticas democráticas, foi reduzida ao império do "mercado", o qual, averiguadamente, não espelha um modelo de virtudes.

Não acredito que Passos Coelho descubra uma "quarta via."
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«DN» de 14 Abr 10

terça-feira, 13 de abril de 2010

Os novos parques de estacionamento de Lagos



Parque entre a Estrada da Ponta da Piedade e a Av. José Afonso
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Parque junto à marginal
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ESTAS FOTOS mostram o estado da construção, em meados de Abril de 2010, dos 2 gigantescos parques subterrâneos que estão a ser construídos em Lagos - ao todo, serão largas centenas de lugares.
Sucede, porém, que boa parte dos condutores, nesta cidade, desprezam os inúmeros parques gratuitos (e de boa qualidade), já existentes, preferindo estacionar em cima dos passeios - e até de canteiros! -, sem que nada lhes aconteça. Assim, o que se vai passar com este parques (onde o estacionamento, naturalmente, terá de ser pago), é um mistério a acompanhar de perto...

Futurologia

Por João Paulo Guerra

Ao eleger a revisão da Constituição como prioridade das prioridades da sua administração, o novo líder do PSD deixou claro que nos tempos mais próximos o partido vai praticar a Oposição Zero.

A REVISÃO da Constituição, objectivo do PSD para antes das presidenciais, é para ser negociada e exige o acordo do partido do Governo. De maneira que mais bla-blá-blá, menos patati-patatá, ficará tudo como dantes: o PS governa e o PSD faz de conta que é oposição.

De resto, o PSD vai aproximar-se do CDS em matérias e abordagens populistas, como o demagógico combate ao rendimento mínimo e à solidariedade social, o que colocará os dois partidos a disputar os votos taxistas. E em relação a questões como as privatizações e a liquidação do Estado, o PSD vai gritar esfola cada vez que o PS disser mata. E pouco mais.

Nem mesmo a eleição presidencial do início do ano que vem animará o combate político ao longo do ano. O PS está a facilitar bastante as coisas nesse domínio, arrastando ao máximo a apresentação e criando as maiores reticências quanto ao apoio a uma candidatura capaz de unir os eleitores de "esquerda", até que grande parte do eleitorado dê como inevitável o triunfo do Prof. Cavaco Silva - cujos apoios a nível de partidos não chegam aos 40 por cento, pelas eleições de 2009.

Mas depois das presidenciais é então possível que a cena política se anime, com luz ao palco e novos protagonistas em cena. E depois de mais uns meses de efeitos do convívio do PS "com a crise que criou" - como dizia o engenheiro Ângelo Correia no Económico de ontem - pensar-se-á então em confronto político e eleitoral. E Cavaco Silva, caso o PS contribua directa ou indirectamente para a reeleição, decidirá então com quem quer fazer a cooperação estratégica para a estabilidade.
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«DE» de 13 Abr 10

Aprender a copiar

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Por Nuno Crato

A REVISTA SCIENCE desta semana publica um artigo sobre as estratégias de imitação. O tema é surpreendente, pois estamos habituados a pensar nos seres humanos como imaginativos, criadores e pouco propensos à cópia. Ouvimos dizer que o ensino não deve incentivar a recepção acrítica de informação e que os alunos devem, pelo contrário, ser criadores e “desenvolver competências” de “aprender a aprender”. Quem esteja habituado a estas ideias românticas ficará certamente surpreendido com os resultados da moderna psicologia cognitiva e com o que se tem descoberto sobre o comportamento humano e animal e a cooperação nas sociedades.

Já temos discutido o problema nesta coluna. Em tempos, falámos de um estudo em que Andrew Whiten e outros cientistas estudaram a transmissão de práticas em chimpanzés (Nature 437, pp.737–40). Os investigadores revelaram a tendência destes primatas a manterem atitudes conformes a uma prática maioritária, mesmo quando ela não é a mais eficaz, e chegaram à conclusão que a conformidade com o grupo se sobrepunha à facilidade de conseguir satisfazer um objectivo imediato, como o de obter alimento. A afinidade cultural, sublinharam, é pois importante para os macacos e não apenas para os humanos.

Num outro artigo publicado na revista Animal Cognition (8, pp. 164–81), Victoria Horner e o mesmo Andrew Whiten levaram as experiências mais longe, comparando o comportamento de chimpanzés com o de humanos. Surpreendentemente, os humanos são mais propensos à imitação que os macacos; imitam melhor e prezam mais a conformidade com o grupo.

Derek Lyons e outros investigadores da Universidade de Yale confirmam a muito maior propensão dos humanos para imitar comportamentos, mesmo quando eles são inúteis. Essa maior capacidade de imitação ter-nos-á dado uma grande vantagem na batalha colectiva pela sobrevivência. Lyons, um psicólogo cognitivo, tem transposto as suas descobertas para a pedagogia e tem concebido processos de ensino em que os alunos procuram colectivamente a imitação de procedimentos.

Todos estes cientistas se referem ao trabalho pioneiro de Robert Axelrod, um norte-americano que estudou matemática e ciência política e se dedicou depois à investigação teórica da concorrência e competição sociais. Num artigo célebre publicado na Science em 1981 em co-autoria com o biólogo evolucionista William D. Hamilton (211, pp. 1390–6), Axelrod inventou uma experiência que mostrou como a cooperação entre organismos, sejam bactérias ou primatas, pode ocorrer baseada na reciprocidade e pode evoluir para uma estratégia espontânea estável, que defende a comunidade de perigos externos.

O estudo agora publicado na Science inspira-se nestas experiências. Luke Rendell e seus co-autores conceberam uma experiência em computador em que os diversos participantes têm à sua disposição três estratégias diferentes: «inovar» (um método de tentativa e erro), «observar» e «avançar» (única maneira de obter uma recompensa). A estratégia vencedora foi a que se baseou exclusivamente na aprendizagem social. Copiar o que os outros fazem evita os esforços e riscos da aprendizagem pela descoberta. É claro que inovar também é necessário. Mas a experiência esta semana relatada na Science confirma o que muitos investigadores já tinham dito. A aprendizagem com os outros é o segredo da nossa evolução social. As estratégias inovadoras só muito raramente têm sucesso.

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 10 Abr 10

Passatempo-Relâmpago - Solução


O condutor do Mercedes esteve o tempo todo a ver o agente a trabalhar. A certa altura, achou por bem não arriscar... e desandou na Hora-H, sem ter chegado a ser interpelado.
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Além de mim, havia ali várias pessoas paradas a assistir à cena, interrogando-se acerca do que faria o agente, tanto mais que, ali ao lado, é o Ministério do Trabalho e o carro (aparentemente com o respectivo motorista) tinha todo o aspecto de ser de um "truta". É bem possível que o facto de se sentirem observados (e, neste caso, fotografados...) tenha tido alguma influência no comportamento do condutor e do agente.
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No que toca ao passatempo: aposto como, à partida, os leitores supõem que o mais certo é que o "grande" (de uma forma ou de outra) se tenha safado sem ter sido incomodado - BINGO!

segunda-feira, 12 de abril de 2010

De boas intenções...

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Por Helena Matos

O PROCURADOR-GERAL da República quer que a violência escolar chegue ao conhecimento do Ministério Público. Já não seria mau que a PGR desse conta dos crimes cometidos fora das escolas que lhe são denunciados e que certamente por uma incapacidade neuronal pessoas como eu não percebem o que lhes acontece. Mas mesmo que o saldo da actividade da PGR fosse excelente há que perceber que esta obsessão com a criminalização pode ser mais do que meio caminho andado para desautorizar ainda mais a escola e os professores.

Em primeiro lugar porque para manter uma escola a funcionar não se pode ficar à espera de investigações de carácter policial. Depois estamos a falar de crianças cuja idade em muito compromete este tipo de inquéritos. Por fim, e mais importante, não podemos de modo algum deixar que se institua desde os bancos da escola essa perversão moral que se abateu sobre o país e que dá pelo nome de arguidismo. Não digo que em alguns casos não se tenha de denunciar às autoridades alguns casos sucedidos nas escolas, mas isso apenas deve acontecer em casos excepcionais. A regra deve ser reforçar o poder das escolas e dos professores para que os alunos possam ser castigados dentro da própria escola. Transferir para as forças policiais e de investigação aquilo que pomposamente se designa como “bullying school”, expressão onde agora cabe uma agressão violentíssima e vão caber também casos de indisciplina, é um passo decisivo para criarmos maiores problemas à escola. Com os professores efectivos, garante da estabilidade, a pedirem maciçamente a passagem à reforma, só faltava a quem lá fica ver-se ainda ultrapassado na gestão do quotidiano pelos inquéritos de natureza criminal.
Ou se tem muito cuidado com esta criminalização da violência escolar ou arriscamo-nos a dar mais um passo na desenfreada fuga que encetámos para nos constituirmos enquanto país de arguidos agora numa versão infantil. Não vejo pior pesadelo que Portugal povoado por uns monstrinhos que aos doze anos dirão pesporrentos que ninguém os pode castigar porque cometeram alegadas agressões mas que estas foram arquivadas não só porque prescreveram mas também porque os professores apenas tiveram conhecimento informal das mesmas.

Obs. Leio no blogue Cachimbo de Magritte que “O Ministério da Educação está a ponderar uma reorganização dos currículos para os 1.º e 2.º ciclos escolares (…) pretendendo reduzir a carga horária dos alunos, que têm 14 disciplinas (!), o ME equaciona tornar semestrais as disciplinas de História, Física-Química e Ciências Naturais“. Certamente que isto não é verdade. Não pode ser. Um desmentido do Ministério da Educação seria uma excelente notícia.
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In Público
e Blasfémias

Filme

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Por João Paulo Guerra

O caso do jovem de 12 anos que morreu nos arredores de Mirandela, afogado nas águas do rio Tua, desde as primeiras notícias se apresentou turvado por relatos emocionais e sensacionalistas.

MAS DEPOIS entrou em cena a Inspecção-Geral da Educação e de uma penada, ouvidos os pais, professores e colegas do desditoso miúdo, decidiu administrativa e rapidamente, e em força, que a escola não teve qualquer culpa na morte da criança e que esta não era vítima de agressões físicas ou psicológicas frequentes por parte dos colegas. Mas quando já se temia que a culpa pela trágica morte de uma criança viesse a morrer solteira - uma expressão bem portuguesa - eis que a Câmara Municipal de Mirandela, que tutela o pessoal não docente da escola que a criança frequentava, descobriu que pode ter havido falha humana. E ao fundo da escala de hipotéticas responsabilidades pelo trágico acontecimento pode estar... um porteiro da Escola EB 2,3 Luciano Cordeiro, de Mirandela.

O cenário está assim traçado. Caso o processo de averiguações instaurado pela Câmara de Mirandela prove que a criança saiu da escola por omissão ou negligência do porteiro, este será expulso da Função Pública pela autarquia. Caso o inquérito conclua que é a escola que não tem regras definidas e peremptórias sobre saídas do espaço do estabelecimento, as conclusões serão remetidas ao Ministério da Educação ao qual caberá agir em conformidade. Ou seja: o próprio Ministério ou a Direcção Regional de Educação poderão recomendar o reforço das condições de segurança na Escola Luciano Cordeiro, o arranjo dos buracos nas vedações de rede, o controlo mais apertado das entradas e saídas pelo portão.

Onde é que os portugueses já viram este filme? Em qualquer instituição perto de si.
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«DE» de 12 Abr 10

domingo, 11 de abril de 2010

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

PASSOS COELHO,
que este fim-de-semana recebe a consagração como líder no Congresso do PSD, terá o seu primeiro ano de liderança marcado por dois factos políticos: as eleições presidenciais de Janeiro e o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) que Portugal apresentou a Bruxelas.

As presidenciais, com a provável vitória de Cavaco Silva, ainda que numa reeleição bem mais disputada do que Mário Soares ou Jorge Sampaio tiveram de enfrentar, darão ao PSD e ao seu líder um momento de sucesso e uma boa embalagem partidária para o ano politicamente conturbado que se prevê venha a ser o de 2011. E o PEC, apesar de tudo o que o novo presidente do PSD tem dito dele, é uma espécie de sorte grande política que saiu na taluda a Passos Coelho. Ainda por cima, no melhor momento para as suas aspirações.

Por duas razões óbvias. Por um lado, porque a aplicação do PEC – com o seu cortejo de maior carga fiscal, cortes nas despesas sociais, restrições no regime de pensões e atrofiamento do investimento público – será um permanente exercício de impopularidade e de desgaste para José Sócrates e o Governo PS.

Por outro lado, porque o PEC contém, no essencial, muitas das medidas programáticas – difíceis de levar à prática e geradoras de contestação social – que Passos Coelho se propõe aplicar quando chegar ao Governo.

Como pode Passos Coelho garantir que não vai «alterar a posição em relação ao PEC» se este implica obrigar Sócrates a fazer a mão cheia de privatizações que ele, Passos Coelho, se dispunha a executar? A aplicar reduções no subsídio de desemprego e nas subvenções sociais que ele iria propugnar? A congelar vencimentos e entradas de trabalhadores na Função Pública que ele diz defender? A aumentar, aberta ou encapotadamente, impostos como ele, provavelmente, se veria forçado a fazer?

Que melhor cenário poderia desejar do que ver Sócrates a cada dia mais exangue e o PS a cada mês mais desacreditado com a aplicação de uma política e de um programa que, no fundo, são os que ele próprio iria pôr em execução? O PEC é o prémio grande da lotaria que, em 2010, calhou em sorte a Passos Coelho. A cobrar em 2011.

«SOL» de 9 Abr 10

sábado, 10 de abril de 2010

Deus lho deu

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Por João Duque

ESTAVA D. PEDRO Rodriguez Sarmento, nobre galego ao serviço de Castela, com o seu poderoso exército em cerco a Monção, e quando a moral das suas tropas já dava sinais de quebranto devido à fome que as atacava, dá-se o insólito.

Uma mulher resoluta, de nome Deu-la-Deu Martins, assoma à muralha e enquanto lança ao inimigo folgada quantidade de pães, proclama que, se de mais necessitassem, que mais pedissem, porque farinha para os ditos tinha ela para dar e vender. Desmoralizados os inimigos partem.

O senhor primeiro-ministro anunciou à saída da última reunião de responsáveis pelos governos europeus que Portugal faria, naturalmente, parte da solução para a Grécia, dentro do enquadramento entretanto ali cozinhado.

Isso passa por termos de vir a emprestar à Grécia algum capital, se estes, entretanto, não conseguirem colocar no mercado internacional os títulos de dívida que vão constantemente necessitando de emitir. Isto é, se eles não conseguirem, vamos nós ao mercado, os terceiros piores devedores da Europa do euro, emitir dívida para lhes emprestarmos. Diz o roto ao nu...

A Grécia tem uma dívida esmagadora para uma população pouco maior do que a nossa. A sua salvação imediata passa por emitir dívida para pagar a que se vence, acumulando ano após ano cada vez mais dívida.

Como eles, muitos outros, de entre os quais se destaca Portugal. Desde a data da convergência para o euro passámos a explodir no volume de dívida emitida. E se as coisas têm sido más até agora, o que é para mim mais preocupante, é que mesmo depois das medidas que alguns chamam de draconianas previstas no PEC vamos, em termos de dívida pública total, sair pior do que entrámos!

A generosa oferta do nosso primeiro-ministro aos gregos trouxe-me à mente a maravilhosa história da nossa Deu-la-Deu. Pelo engenho e astúcia, dando ares, aparências, daquilo que não éramos ou tínhamos, fomos capazes de afastar os atacantes malfeitores que cercavam Monção.

Mas se a resposta de então foi suficiente para afastar invasores desinformados porque as portas do castelo estavam fechadas e porque não havia infiltrados, jornalistas ou contadores de trigo obrigados a divulgar a informação relevante que desmentia a comandante, isso hoje é impossível.

Jornalistas, agências de rating, analistas, simples economistas e principalmente investidores, lêem a informação, sabem o que se passa e tiram as suas conclusões.

Nos dias que correm, pensar que se ilude muita gente durante muito tempo, quando se está sob tão intenso escrutínio, só de quem não vive nesta terra e pensa que está dentro de um castelo de portas fechadas e nem sequer se recorda do que já passou, quando quis esconder um segredo de que não se orgulhava, numa trapalhada de sucessivas peripécias de que não há quem tenha igual para contar.

Hoje, as estatísticas não saem aos domingos.

Às vezes, mesmo a meio, as coisas mudam e se Deus lho deu, também lho pode tirar.

«Expresso» de 3 Abr 10

O não do Constitucional

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Por Antunes Ferreira

MONS PARTURIENS. As dúvidas e os correspondentes medos de Aníbal Cavaco Silva a propósito do casamento entre homossexuais, que o fizeram enviar o texto legislativo para o Tribunal Constitucional, pelo sim, pelo não, afinal parece que eram infundadas. Auto arvorado em Defensor da Moral Tradicional, o (ainda) inquilino de Belém, sai, uma vez mais, muito sujo de uma situação que ele próprio provocou.
De acordo com as notícias a esse respeito, apenas dois juízes em treze defenderam que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é inconstitucional. O que significa que uma esmagadora maioria deitou pela borda fora as inquietudes do Chefe. Do estado, obviamente. Que, de resto, mais uma vez envergou o fato da Oposição conservadora, Melhor, foi a sua voz.

Os conselheiros concluiram que a nova lei "não viola a garantia institucional do casamento, considerando que a mesma não tem por efeito denegar a qualquer pessoa ou restringir o direito fundamental a contrair (ou a não contrair) casamento". O relator juiz Victor Gomes, ainda acentuou que "o núcleo essencial da garantia constitucional do casamento não é franqueado pelo abandono da regra da diversidade de sexos entre os cônjuges" e também "a extensão do casamento a pessoas do mesmo sexo não contende com o reconhecimento e protecção da família como 'elemento fundamental da sociedade'".

O Tribunal Constitucional respondeu assim ao pedido do Presidente da República, que tinha solicitado a fiscalização da inconstitucionalidade de quase todos os artigos da lei. Mas não pôde pronunciar-se - porque Cavaco Silva expressamente não o pediu – sobre a alínea que proíbe o direito à adopção aos casais formados por cidadãos do mesmo sexo. E considerou que "pode seguramente concluir-se que (…o legislador…) não teve qualquer opção no sentido de proibir a evolução da instituição".

Apenas uma nota informativa mais. Votaram a favor os conselheiros Vítor Gomes (relator), Ana Maria Guerra Martins, o vice-presidente Gil Galvão, Maria Lúcia Amaral, Catarina Sarmento e Castro, Carlos Cadilha, Maria João Antunes, Pamplona de Oliveira, João Cura Mariano, Joaquim Sousa Ribeiro e presidente Rui Moura Ramos. Vencidos foram os conselheiros José Borges Soeiro e Benjamim Rodrigues.

O falso puritanismo do PR vê-se, então e assim, desarmado pela entidade competente a quem solicitara parecer, quiçá na convicção de que obteria declaração final que reforçaria, a ser-lhe favorável, a recandidatura. Que, por mais tabus, malabarismos e reflexões que possam ser alegados por Cavaco, está sobre carris, a caminho de novo mandato. O que seria um verdadeiro trauma. Uma desgraça nunca vem só. Donde, conviria que tal não acontecesse. É o que eu penso e desejo.

Neste caso, como em diversos outros mais, o Chefe d…a Oposição deveria ter tido em conta que não lhe convinha pôr-se a jeito de se verificar o princípio - virar-se o feitiço contra o feiticeiro. E não é que se virou mesmo? Os conselheiros constitucionais não lhe fizeram a vontade. Um dia destes, teremos nova comunicação ao País, informando-o de que a maioria dos membros do Tribunal Constitucional é perigosa e, até, pode ser que tenha montado escutas no palácio cor-de-rosa. Neste caso não houve, pelo menos, alegação de quaisquer procedimentos de Fernando Lima. Mas, nunca é tarde para a verdade vir ao de cima como o azeite em relação à água.

Um País que elegeu este mandatário tem o que merece. Os Portugueses que votaram nele têm o que merecem. E como a memória, se é que existe, é curta, podem voltar a fazê-lo. O criminoso volta sempre ao local do crime.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Por aí

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Por João Paulo Guerra

O Dr. Santana Lopes, que se desencontrou com uma esperada “vaga de fundo” que o reconduzisse à liderança do PPD-PSD, anda por aí e não se cala.

AGORA, comentando uma trica sobre o "caso TVI", o ex-presidente do Conselho, do PPD-PSD, das Câmaras de Lisboa e da Figueira da Foz e do Sporting, disse que "a pouco e pouco vai-se sabendo o que aconteceu em 2004 e 2005". Ora o mal do Dr. Santana Lopes é que em 2004 /05 soube-se bem de mais o que estava a acontecer. E o que estava a acontecer era que "o governo era mau", como opinou recentemente Jorge Sampaio, era a "má moeda" como sentenciou na altura Cavaco Silva.

Poderá argumentar-se que de maus governos e más moedas está a democracia portuguesa cheia a deitar por fora. É pura verdade. Mas com nenhum outro governo, como com o do Dr. Santana Lopes, apesar de grandes esforços da concorrência, a política se exerceu com tanta comicidade, mesmo que involuntária, e se rodeou de tamanha salgalhada e tanto imprevisto.

Claro que o Dr. Santana Lopes não se reconhecerá nesta apresentação, preferindo passar por vítima de uma conspiração que se terá consumado às mãos de Jorge Sampaio mas que contou com vasta panóplia de personagens, interpretes, meios e fins. Até a TVI, calcule-se.

Ou seja: o tempo passa mas o Dr. Santana Lopes continua ainda hoje "na incubadora, a ver passar membros da família que dão uns estalos ao bebé". Mais tarde será o "guerreiro menino", chorando com o peso "da barra nos ombros". Depois chegará a fase das facadas e das consequentes "cicatrizes nas costas", até não caber mais nenhuma. Mais além passará pela "casa abanada" à qual "atiram pedras todos os dias". Não sobrará tempo nem sequer para uma sesta. Mas de derrota em derrota se chega com frequência à vitória final.

«DE» de 9 Abr 10

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Para que serve um CDS?

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Por João Duque

NUMA DAS MAIS distintas reuniões de homens de finanças que recentemente decorreu em Lisboa, numa fina rua da Baixa, ouvi duras críticas aos CDSs (‘Credit Default Swap’), a principal das quais residia na sua aparente falta de utilidade social, sendo acusados de não passarem de um puro jogo que pode ter implicações catastróficas dentro de anos.

Assemelham-se, acusava-se, a um simples jogo de apostas. Mais, a venda de CDS a descoberto, propunha o denunciante, deveria ser proibida, uma vez que não se via a utilidade social desse instrumento financeiro.

Concordo em absoluto que alguns agentes entrem no mercado dos CDS como entram no casino. Mas infelizmente muitos investidores entram assim em qualquer mercado. Entram a especular em acções, obrigações (as Gregas agora estão divinas para ‘betting'...), petróleo, matérias-primas ou o que quer que seja, sem noção dos riscos incorridos. A meu ver o problema dos derivados não está na coisa, mas no seu uso. Eles são como o veneno ou as armas. Podem dizer que uma arma é um instrumento terrível que pode matar infelizes inocentes, e é bem verdade. Podem achar que o veneno é abjecto porque com ele se eliminam seres vivos indefesos porque mortos à traição. É verdade. Mas será que temos a mesma opinião se estivermos na selva ou se formos atacados na nossa casa por malfeitores? Ou será que não queremos tomar cicuta na medida certa para matar uma moléstia ou um parasita que nos suga e mata?

O problema não está no instrumento ou no seu uso em abstracto. O problema é o uso por inadvertidos ou desavisados e o fim para o qual é usado.

Os derivados foram vistos muitas vezes como jogo de apostas, a ponto da lei alemã considerar, durante anos, a lei do jogo, como enquadramento legal para as opções. Mas não são jogo. Melhor, até podem ser, mas o seu uso social reside numa forma sofisticada de transferir riscos entre agentes económicos. De uns, que os não querem deter, para outros que se dispõem a assumi-los. Os CDS podem ser úteis ao permitirem que agentes económicos subscrevam com facilidade as emissões gregas que estes, desesperadamente, necessitam de emitir. Se um agente comprar dívida grega e não desejar ficar com o risco de crédito dessa dívida, pode passá-lo a terceiros que o querem acomodar. Estes não são loucos.

Apenas não acreditam na possibilidade dos gregos virem a falir às mãos do mercado internacional e com a União Europeia a voltar-lhes as costas. Mesmo para quem não tem dívida grega, mas quer transformar outra dívida em dívida grega pode comprar ou vender CDS sobre ela e assim alterar a composição das suas carteiras sem a necessidade de se desfazer do que tem para comprar o que quer ter. Tendo em conta a iliquidez do mercado de dívida, esta é a forma certa de o fazerem.

Qual o mal de especular num activo se essa é a forma de encontrar contrapartes para o risco que outros não querem e desde que feito de modo consciente?

Talvez nem todos o possam fazer, talvez a banca comercial, mas como dizia o meu pai: "Nem tudo se diz a todos nem a todos se diz tudo, nem tudo é para todos nem para todos é tudo..."

«DE» de 8 de Abr 10

Túneis

Por João Paulo Guerra

Um estudo do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, divulgado ontem pelo diário i, revela que o Túnel do Marquês é o lugar mais poluído de Portugal.

OU SEJA: apesar de todos os alertas e de todas as delongas, não foram avaliados todos os impactos ambientais da construção e funcionamento da obra faraónica do "santanismo". E vá lá que Lisboa se livrou nas autárquicas do ano passado de novos projectos megalómanos de outros túneis, porque a saúde de uma cidade e da sua população não se conforma com aventuras e negócios de responsabilidade limitada.

De acordo com o estudo do ISEL, os níveis de poluição no interior do Túnel do Marquês são dez vezes superiores ao limite legal. E não se pense ou se diga que este é um problema de todas as passagens subterrâneas com as quais as cidades modernas procuram desanuviar a superfície. Dizem os autores do estudo em apreço que a poluição é agravada no Túnel do Marquês por características específicas da obra, designadamente a demasiada extensão e o acentuado declive. Ou seja, quem imaginou o túnel não sabia o que estava a fazer, ou então sabia o que é ainda mais grave.

Portugal de todos os governos, nacionais e locais, de todas as cores e mesclas, é destas modas. Com muito bons argumentos substituíram-se os cruzamentos por rotundas, até que as rotundas se transformaram numa praga que se justifica a si própria: fazem-se rotundas porque sim. E túneis idem, idem, aspas, aspas.

E é assim. Ao Portugal Amordaçado, dos tempos do obscurantismo, segue-se o Portugal Esburacado dos tempos desta democracia em que o povo vota em partidos e elege mestres-de-obras. Com a agravante de que há muito mais obras que mestres. Os resultados respiram-se no Túnel do Marquês e entram rapidamente na corrente sanguínea.

«DE» de 8 Abr 10

Quem foi multado?

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O Pátio do Tronco - Estado em 5 Abr 10

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Parede Norte
Parede Sul

Parede Norte
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Mais umas imagens deprimentes do Pátio do Tronco (ou do túnel que lhe dá acesso), antiga prisão onde Luís de Camões esteve detido, no seguimento duma rixa - actividade em que era useiro e vezeiro...
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Por mais que se limpem os grafitos, no dia seguinte estão lá novos. De qualquer forma, aqui se documenta o estado do lugar, a que voltaremos (como habitualmente) quando se aproximar o 10 de Junho.

Poder

Por João Paulo Guerra

PS e PSD deveriam seguir em relação a si próprios a lógica que defendem e praticam no que diz respeito a serviços públicos: não sendo rentáveis, deveriam fechar.

NÃO SE COMPREENDE
que PS e PSD sigam uma tal lógica em relação a serviços de saúde e escolas e que depois acusem défices e dívidas, em parte sustentadas por subsídios públicos, e mantenham os balcões em funcionamento para angariar novos clientes e satisfazer novas freguesias e empreitadas, mesmo que em situação deficitária e endividada.

Acontece ainda, para além da situação deficitária dos partidos que se apropriaram da democracia em Portugal, que o financiamento dos partidos do "centrão" é um mistério no qual apenas é possível vislumbrar com alguma clareza as parcelas de persistentes irregularidades. Mas como os infractores reincidentes são em simultâneo os legisladores usuais, as penas para as infracções têm a leveza e a consistência de penas de aves: são leves e proporcionam impermeabilidade.

Regularmente, os portugueses são confrontados com os relatórios da Entidade das Contas e Financiamento dos Partidos: um estendal dos vícios privados da democracia pública. Os partidos, que se arrogam o monopólio da representação popular na Assembleia da República, não cumprem as leis.

Mas quando têm na mão a palmatória do poder, vá de zurzir os cidadãos incumpridores com todo o vigor e arbítrio. O papel exemplar fica no tinteiro que, como se sabe, é instrumento que já não se usa. E a lei das leis continua a ser a lei da excepção à regra: façam o que os partidos dizem, não o que eles fazem. E o cidadão bem pode interrogar-se: mas porque é que os partidos se colocam acima da legalidade e não cumprem as leis que eles próprios fazem e aprovam? Reposta simples: porque podem.
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«DE» de 7 Mar 10

terça-feira, 6 de abril de 2010

Vamos amar-nos?

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Por Rui Zink

SE HÁ COISA EM QUE O PC TEM RAZÃO é que o Sol quando brilha é para todos nós. Até ver, certo. Mas por enquanto é uma das coisas boas (e gratuitas) que há em Portugal. Ainda me lembro do tempo em que se podia entrar numa leitaria e pedir um copo de água, sem ter de pagar um euro e tal. Lá chegará a altura em que o próprio Sol será pago, mas… ainda não chegou. E com o Sol vem a Primavera, e as flores e os passarinhos, e os coelhinhos ululantes e as rolas arfantes. E o amor, claro, pode lá viver-se sem amor, sobretudo em Portugal.

Eu hoje tinha planeado dizer uma ou duas coisas de esquerda, até para tirar a poeira às minhas ideias de esquerda, mas não é preciso. Para quê, se agora até já o PSD é de esquerda? Para quê, se em todos os jornais directores e cronistas zurzem com indignação os “salários obscenos” (sic) dos gestores & administradores portugueses? Para quê eu levantar a lebre, se são os próprios neo-liberais que já se chocam com os “prémios de má gestão”, exigindo antes Solidariedade em nome da “coesão social”? É bonito. E é estranho: para onde foram os que, há apenas meses, se queixavam da “Inveja” como o Grande Mal português? Sei que não morreram, mas andam metidos na toca. Ora bem, já que não é preciso eu falar disto, falo então do amor. A Primavera está aí, o Sol brilha para todos nós (sim, já disse, mas soa tão bem…), só há uma coisa a fazermos: amarmo-nos uns aos outros. Não digo espiritualmente, isso é bom para o Inverno, digo darmos mesmo o corpinho ao manifesto.

Vá, então, arranje alguém para namorar. Ou, se o seu problema for a timidez, consulte os classificados. Um dos lados bons do desemprego é que passa a haver mais gente a oferecer serviços íntimos (logo, os preços baixam). É assim que funciona a economia. Já sei, está a perguntar: “Então e se eu não tiver dinheiro para alugar o amor de que necessito (e que mereço)?” Nada de pânico. Neste caso a solução é sermos nós mesmos a pôr o anúncio, e assim até ganhamos uns cobres. Seja como for, vamos amar-nos?
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In Metro

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Envelhecer

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Por Maria Filomena Mónica

COMECEI A ENVELHECER aos 66 anos e cinco meses, quando me transformei numa espécie de Lego que se desmorona. Já sentira ameaças, mas nunca, como no último Verão, a coisa se tornara tão clara. Na antevéspera de ir para Inglaterra, ao ingerir, de manhã, um bocado de cereal, parti um dente. Embora o facto revelasse decrepitude, estava tão contente de me ir embora que me dirigi ao consultório sem apreensão. Ao entrar, caí.

Uma vez em casa, notei que o pé estava demasiado inchado para poder abstrair do facto. Nas Urgências, a médica diagnosticou um estiramento de tendões, após o que colocou uma meia elástica, me entregou duas canadianas e confirmou que podia voar. Sendo verdade que, em Oxford, as dores do tornozelo não abrandaram, o bom humor continuou. Estava triste por não poder andar de bicicleta, mas chovia tanto que o desgosto ficou atenuado. Mantive-me em frente do portátil, durante sessenta dias, a escrever o livro sobre a família açoriana que ando a investigar. A 31 de Agosto, entrava na minha casa da Lapa, ostentando na mão a pen com o rascunho da obra.

Quando soube do estado do meu tornozelo, uma amiga considerou que eu estava louca, tendo ela própria marcado a consulta para um fisioterapeuta. Este disse-me que não só a meia, que me havia sido colocada, estava demasiado apertada, mas que, tendo andado com a canadiana debaixo do ombro errado (eu optara por só levar uma), aquele se elevara. Havia pior: o facto de ter estado 400 horas, quase sem parar, num computador, dera cabo de três cervicais (daí a dormência da mão esquerda) e de uma omoplata. Tudo isto foi confirmado por uma ressonância magnética.

Dir-me-ão que o desastre me poderia ter acontecido aos 20 anos: não, não podia, pelo menos no que diz respeito à cartilagem do ombro. Claro que logo houve quem me dissesse, com ar de superioridade, que se tivesse feito exercício, não teria chegado ao meu estado, mas é demasiado tarde para reflectir sobre as vantagens de fazer o pino versus ouvir Mahler deitada.

Caso não quisesse ficar impossibilitada de andar – o que não me maçaria por aí além – e de escrever – o que já me afectava – teria de fazer fisioterapia diária, ao longo de sete meses. Desde o dia 1 de Setembro, atravesso a cidade, a caminho do Saldanha, a fim de ser medida, contorcida e massajada. Mesmo antes de Ronaldo ter conseguido a proeza, (como é óbvio, acompanhei a evolução do seu pé com uma atenção maníaca), o meu tornozelo curou-se. Invocando o caso do futebolista madeirense, vários amigos tentaram consolar-me, mas não me convenceram de que esse factor – os anos – era despiciendo, uma opinião partilhada pelas velhas que todos os dias encontrava na rua, as quais, com sadismo, me preveniam que nunca mais poderia andar como dantes. Envelhecer é isto.

Na melhor das hipóteses, não se sofre de uma doença grave, mas de um sem fim de maleitas. No dia em que acordar sem nada sentir, é porque estou morta. É verdade: esquecera-me de mencionar que sou mulher. Há dias em que o sexo me parece tão pouco relevante que minimizo a coisa, mas não devia, porque o envelhecimento feminino é particularmente injusto. Enquanto, nos homens, as cãs lhes dão sex appeal, ao menor sinal de cabelo branco as mulheres correm para o cabeleireiro, não aconteça os maridos trocá-las pelas adolescentes que empregam como secretárias. Há ainda a questão da menopausa, mais grave, ao que parece, do que a andropausa. Tendo sido, julgo, a primeira portuguesa a tomar a pílula anti-concepcional, fui igualmente a primeira a sujeitar-me ao THS («Tratamento Hormonal de Substituição). Tomo um comprimido todas as noites, sem, lagarto, lagarto, me terem provocado, até agora, efeitos secundários.

É tempo de acabar, mas não o poderia fazer sem mencionar o que, na velhice, é verdadeiramente dramático: a morte de amigos. Nos últimos dez anos, perdi o meu cunhado Luís, devido a um cancro nos pulmões, e o João Paulo, que sofria de esclerose múltipla. A minha vida nunca mais voltou a ser a mesma.

«Expresso» de 6 Mar 10

domingo, 4 de abril de 2010

Passatempo «Páscoa» - Solução


701 gramas
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Caros amigos,

À hora a que este post ficará visível, é possível que eu esteja longe de algum computador com acesso à Internet. Mas isso não impede que se adiante serviço:
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Quem mais se tenha aproximado do valor indicado pode escolher qual dos 3 livros pretende. O 2.º classificado deverá indicar dois, e o 3.º classificado receberá o que sobrar.
Finalmente, uma surpresa: quem mais se tiver afastado da resposta certa receberá o Evangelho de S. Lucas.
E todos têm, a partir de agora, 24h para escrever para premiosdepassatempos@iol.pt indicando morada.
NOTA: em caso de empate, terá precedência o 1.º "apostador"
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Actualização (22h13m): Embora tal não tenha sido dito hoje, nestes passatempos (que já duram há vários anos) cada leitor só pode concorrer uma vez (de contrário, dando umas centenas de respostas, todos os leitores ganhariam sempre). Ora sucede que Magda concorreu 13 vezes! Quando alguém dá mais do que uma resposta, considera-se que as mais recentes anulam as anteriores, pelo que a resposta considerada seria 659 gramas (erro 42g). Por outro lado, como deve ser a 1ª vez que Magda concorre (não estando a par dessa norma tácita), há que reconhecer essa falha da "organização" do concurso... Resumindo e concluindo: vou pensar no que fazer, por forma a não prejudicar ninguém.
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Tirando esse caso (entretanto já resolvido), os resultados foram:
  • 1.º C. Alexandra ... 689 g ... Erro=12 g
  • 2.º AF ... 720 g ... Erro=19 g
  • 3.º Bla ... 666 g ... Erro=35 g
  • Prémio surpresa (último) ... Lau ... 313 g ... Erro=388 g
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Relembro que as capas dos 3 livros se podem ver [aqui]


sábado, 3 de abril de 2010

Celestino VI - Solução





Rua da Oliveirinha
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Na imagem do meio pode ver-se, do lado esquerdo, que os grafiteiros também atacaram a casa (e a porta da garagem, que não se vê na foto).

O Papa em cuecas?

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Por Antunes Ferreira

O DOGMA DA INFALIBILIDADE papal está pela hora da morte. Já ultrapassou o coma e o desenlace fatal aproxima-se. As controvérsias sobre essa impossibilidade do Papa se enganar já vêm de longe, como se sabe. Mas, nestes momentos que vivemos, o tema agravou-se de tal maneira que faz pasmar multidões. A teologia católica afirma que o Papa, quando delibera e define ou clarifica solenemente algo em matéria de fé ou moral (os costumes), ex cathedra está sempre correcto. Isto porque afirma que ele goza de assistência sobrenatural do Espírito Santo, que o preserva de todo o erro.

Bento XVI encontra-se acurralado entre a espada e a parede. Os escândalos sexuais de imensos sacerdotes e, até, de dignitários diversos levaram a que a panela de pressão já não consiga aguentar a… pressão. A pedofilia - sobre a qual, ao longo de anos o Vaticano não abriu a boca – veio deixar a Igreja num sobressalto constante e, sobretudo permanente. Bem pode o Sumo Pontífice vir agora pedir desculpa dos crimes que foram sendo cometidos por inúmeros eclesiásticos. Diz o Povo e com carradas de razão que as desculpas não curam.

A carta aos irlandeses – cuja fidelidade a Roma roça o fundamentalismo – é um reconhecimento e uma contrição atrasadíssimos para ser aceite pelos homens e, dentre eles, os católicos. Nos termos do documento, Bento XVI exprimiu a «vergonha» e o «remorso» de toda a Igreja face ao escândalo de pedofilia no clero irlandês, e anunciando iniciativas para promover «a cicatrização e a renovação».

Também disse que sentia muito pelo sofrimento das vítimas dos abusos cometidos por padres e que estava disposto a encontrá-los, lembrando que já tinha retomado casos do passado, como os da Austrália e dos Estados Unidos em 2008. E ainda reconheceu «os graves erros de julgamento» cometidos pelo episcopado irlandês, acusado de ter encoberto centenas de casos de pedofilia cometidos durante várias décadas por religiosos.

Ratzinger que foi enquanto cardeal o defensor mor das «práticas correctas» que o clero devia usar e da fidelidade à lei divina, não se pronunciou nessa altura por tudo o que se ia já sabendo sobre os desmandos sexuais dos agentes da Igreja. E está a ter muita dificuldade para afirmar que não tinha conhecimento deles. É anedótico que o guardião mor da fé não tomasse conta do que já então corria, ainda que com uma difusão muito inferior à actual.

Em nome do episcopado português, ontem mesmo o patriarca Policarpo lamentou os "pecados da Igreja", considerando que "indignam o mundo" e ofuscam a imagem do "Reino de Deus”. Mas, durante a homilia da Paixão de Cristo que decorreu na Sé de Lisboa, ele também elogiou a “coragem do Papa” na forma como vem actuando em tão melindroso. Uma no cravo, outra na ferradura. Em época pascal a imagem não é muito feliz, mas este cravo não tem nada a ver com a crucifixação do Filho de Deus. Para que conste.

Porém, o cardeal não se referiu às crianças vítimas dos abusos sexuais dos religiosos. O que levou a que essa omissão tivesse já sido criticada pelo Movimento Nós Somos a Igreja. Isto, enquanto o arcebispo alemão Zollitsch, prelado de Friburgo e compatriota do Papa, admitiu e lamentou os erros cometidos pela Igreja germânica, não protegendo as vítimas de abusos sexuais praticados por padres. O líder da Igreja Católica alemã ainda apelou para que se reze pelas “crianças que, na comunidade da Igreja, foram abusadas e feridas no corpo e na alma”.

Que mais contradições virão? Que mais poderá acontecer? O Panzerpapa está em apuros. Pode dizer-se que está com as calças na mão, ainda que resguardado pela sotaina. Vamos ver se não se lhe vêem as cuecas. Não creio. Porque a Igreja Católica ainda tem muito peso – e dinheiro.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Conhecimento informal

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Por Helena Matos

AQUELES DILEMAS morais sobre o que fazer quando uma determinada informação nos coloca problemas de legalidade ou honestidade são uma recordação do tempo em que os redondos vocábulos não eram lei. Agora o conhecimento formal versus o conhecimento informal permite-nos conjugar o melhor de dois mundos possíveis: tiramos vantagem do que sabemos mas não temos de assumir qualquer responsabilidade que daí advenha.

O conhecedor informal não nega que conhece, simplesmente isenta-se das consequências desse conhecimento. A hipocrisia de tudo isto só é desmontada (por enquanto mas também isso acabará) quando algo de incontornavelmente óbvio, como um cadáver, se atravanca no meio deste universo perfeito.

Veja-se o caso da acta desaparecida na Escola Básica 2+3 de Fitares relatado pelo jornal I. Nessa acta devia constar a queixa de um professor de música sobre o comportamento dos alunos. Mas na manhã de 9 de Fevereiro o dito professor atirou-se ao Tejo e a pessoa que redigiu a acta omitiu o relato do colega sobre o que acontecia nas aulas. Aqueles que validaram esta acta optaram, tal como quem a escreveu, por ficar na segurança do conhecimento informal sem se comprometer com os aborrecimentos do conhecimento formal. A acta falava de visitas escolares e outras coisas aprazíveis que constituem o corpus do conhecimento formal. Agora que são conhecidos os textos que o referido professor deixou sobre os vexames a que era sujeito pelos alunos, os professores exigem uma rectificação da acta de modo a que seja incluída a queixa do professor de música. Ou seja, exigem que passe a conhecimento formal o que todos estavam fartos de saber mas que para consolo das consciências e sedativo do dia a dia só se conhecia informalmente. Mas agora não só a acta desapareceu como a directora do agrupamento escolar de Fitares não autoriza a sua rectificação, enquanto a escola não receber a visita do instrutor da Inspecção-Geral de Educação. Já não é apenas uma questão de conhecimento formal e informal. É sim de não reconhecimento do direito à realidade.
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In PÚBLICO e Blasfémias