terça-feira, 18 de maio de 2010

Aperto

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Por João Paulo Guerra

AO MESMO TEMPO que o PSD empossou um líder que antes mesmo que mexesse um dedo já estava à cabeça das intenções de voto dos portugueses, no PS parece ter aberto a corrida à sucessão de José Sócrates.

Como se isso não bastasse, politólogos auscultados na edição de ontem do JN opinaram que o acordo entre PS e PSD vai penalizar os primeiros e beneficiar os segundos. Que se passa? Passa-se que estamos em Portugal, país governado por socialistas modernos cujo destino e função histórica, como se vê por essa Europa fora, é preparar o terreno para a direita mais radical.

A alternância democrática foi transformada nos últimos tempos em dança e contradança de frustrações. Os eleitores votam no partido cara porque se fartaram do partido coroa e vice-versa. Isto explica também outro fenómeno da comédia política portuguesa que é o dos dirigentes aos quais o poder cai no colo. Aconteceu com Durão Barroso, em 2002. Andava o PSD a conspirar às escâncaras para "remover" o líder e encontrar alguém mais apresentável para a figura de chefe de governo e eis que o primeiro-ministro foge e com a pressa deixa cair o poder no colo do adversário. Poderá vir a acontecer algo parecido com Passos Coelho. Porque algo se passa no interior do PS para que, de um momento para o outro, comecem a proliferar candidatos à liderança. Com Seguro já são quatro.

Ou então a casta política sabe alguma coisa que não diz ao povinho. Por exemplo, que uma reeleição de Cavaco Silva - que a direcção do PS tanto se está a esforçar por ajudar - fará cair o Governo do PS e o mais avisado será ir aparelhando os camelos para a travessia do deserto.

O pior será quando os portugueses encolherem os ombros, porque tanto se lhes dá quem é que os manda apertar o cinto.
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«DE» de 18 Mai 10

segunda-feira, 17 de maio de 2010

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

COM QUE CARA
irá José Sócrates enfrentar os portugueses a partir de agora? Como poderá olhar de frente qualquer cidadão depois de ter garantido que não iria aumentar impostos nem existia tal necessidade, depois de o ter reafirmado a pés juntos, há pouco, no Parlamento? Como conseguirá encarar uma câmara de televisão ou a população de qualquer localidade onde se desloque depois de fazer subir todos os impostos: o IVA, o IRS, o IRC? Que legitimidade e autoridade pessoal ainda lhe restam para justificar, de cara levantada, a irresponsabilidade de ter negado até ao limite da insensatez a obrigatoriedade de arrepiar caminho? E de ter impedido, até ao último minuto, que se tomassem medidas de emergência para travar a gravíssima crise da dívida do país?

José Sócrates já se convertera num primeiro-ministro politicamente fragilizado, com a sua imagem marcada de forma irremediável por um défice de seriedade e de credibilidade. A sua personalidade combativa e determinada já não disfarçava a vacuidade dos discursos, a insuficiência das explicações, a falta de confiança que inspirava.

O grau de inconsciência política e a obstinação cega que revelou, nas últimas semanas, ao tentar iludir a catastrófica situação em que deixara o país mergulhar – continuando a teimar nas grandes obras públicas e num patético discurso a celebrar o crescimento ilusório da economia – transformaram-no de primeiro-ministro exangue num chefe de Governo virtual, que vive noutra dimensão da realidade, num mundo de fantasias e mentiras. Regressou de Bruxelas – depois de Merkel e Sarkozy o forçarem a descer, momentaneamente, à terra – a negar tudo o que antes dissera. E a comprovar que, face ao seu estado de alucinação política, o primeiro-ministro em funções neste Governo, por força das circunstâncias, se chama Teixeira dos Santos.

Sócrates tornou-se já um has been da nossa vida política. E um estorvo, a prazo, para o PS. Com a campanha presidencial de Manuel Alegre, a combater o PEC-1, o PEC-2 e toda a política de austeridade do Governo, o PS corre o risco de se tornar um partido esquizofrénico. E de chegar em fanicos a 2011. Pode agradecê-lo a Sócrates.
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«SOL» de 14 Mai 10

Estátua

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Por João Paulo Guerra

A CÂMARA DE SANTA Comba Dão está a estudar o local para colocar uma estátua de Salazar. Nada mais justo, dado que a “estátua” foi uma das instituições mais recorrentes do regime salazarista.

Um texto na blogosfera descreve como era: "o preso em interrogatório ficava de pé, sem se poder mexer, o tempo que os polícias entendessem. Podiam ser horas, podiam ser dias." No ‘site' "Estudos sobre o Comunismo", de José Pacheco Pereira, diz-se que tal prática salazarenta "passava por obrigar o preso a estar de pé estático, até desmaiar."

A "tortura da estátua" representou um "aperfeiçoamento" dos "métodos de investigação" e obtenção de confissões por parte da polícia política salazarista. Os espancamentos e outras brutalidades equiparadas - como os choques eléctricos e as queimaduras - tinham alguma eficácia em matéria de recolha de informações e confissões, mas deixavam marcas visíveis nos corpos o que determinava o prolongamento da situação de isolamento dos presos. O contacto da polícia política salazarista com as suas congéneres dos tempos da II Guerra Mundial, particularmente a Gestapo alemã, promoveu alguma modernização das velhas técnicas dos "safanões a tempo", como dizia o ditador santa-combense.

Existem aliás testemunhos registados para a História, e muitos outros ainda vivos, sobre a "estátua" salazarista. Palma Inácio sofreu a "estátua" por 12 dias consecutivos. Quanto a Veiga de Oliveira, a "estátua" ao fim de 18 dias de "tortura do sono", deixou-o em estado de coma. À pintora Teresa Dias Coelho incharam-lhe de tal forma os pés, em consequência da "estátua", que lhe rebentaram os sapatos.

Quanto à estátua em Santa Comba é um projecto revisto. O original foi pelos ares em 1978 e perdeu a cabeça.
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«DE» de 17 mai 10

sábado, 15 de maio de 2010

A 'stôra' que saiu na 'Playboy'

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Por Ferreira Fernandes

NA TRANSMONTANA Torre de Dona Chama, Bruna, professora de Educação Musical de uma das escolas da vila, posou nua para a revista Playboy. A câmara suspendeu-a. Bruna não posou nua na aula tocando harpa. Bruna não relacionou a escola de Torre de Dona Chama com a sessão fotográfica - e olhem que seria fácil lançar pontes entre o negócio da revista (afoguear homens) e as palavras "torre", " dona" e "chama". Bruna simplesmente foi ao estúdio da Playboy, fez as fotos e recebeu o acordado. Tal como outros professores saem da escola e vão para casa embebedar-se. Eu não gosto de quem posa nu para a Playboy ou vai para casa embebedar-se. Mas isso é assunto que eu tenho de resolver comigo próprio. Passa a ser assunto público só quando, sem meu consentimento, a Bruna quiser fazer fotos no meu sofá ou algum professor se servir do meu uísque. Enfim, Bruna só teve o mau gosto de posar para a Playboy, o que é um facto impossível de ser punido porque outros consideram, legitimamente, que posar para a Playboy é de bom gosto. Torre de Dona Chama tem interesse em olhar esta história com liberalidade. Senão, quando lhe saltarem à perna por ter a Festa dos Caretos, fica desarmada. E alguém, com dedinho moralizador, proíbe-lhe uma festa que gaba a vitória dos cristãos sobre os mouros.
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«DN» de 15 Mai 10

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Morreu o Zé Luís

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Por Antunes Ferreira

SÓ QUANDO ALGUÉM MORRE, os que ficam apressam-se a afirmar que fulano era um homem de bem, amigo do seu amigo, muitíssimo competente, íntegro, vertical, coerente, honesto e coisas assim. Os que recebem tais encómios em vida têm o legítimo direito de duvidar, «não mereço, nem tanto ao mar, nem tanto à terra, penso que não serei assim. Mas, de qualquer forma, agradeço». E de pensar que quando a esmola é grande – o pobre desconfia.

O Zé Luís era quase três anos mais novo do que eu. Foi na Faculdade de Direito que nos conhecemos. Fizemos umas quantas loucuras e outras tantas malandrices juntos, ainda que o pudesse considerar um puto. E era. E foi o que ele soube ser ao longo da vida, um puto porreiro e irreverente. Foram uns anos bons aqueles em que convivemos e em que acreditámos que o futuro seria muito diferente, para melhor. Enfrentámos a PIDE, ele muito mais do que eu. Sofremos as consequências. Ele muito mais do que eu. Anos de prisão contra três interrogatórios e uma detenção de dois dias. Em língua de râguebi, 86-3.

Depois fui para a tropa. Durante cinco anos e 18 dias. Com vontade de me ir embora, mas sem coragem para o fazer. E, ainda por cima, dois crianços a obrigar-me a pensar, repensar e… ficar. Com isso, afastámo-nos, mas mantivemos a Amizade, naturalmente, Os oito anos de Angola, com os quilómetros de distância, não foram impeditivos – nunca o seriam! – de prosseguirmos o excelente relacionamento.

Depois do 25 de Abril, regressado de África, vim encontrá-lo no MRPP. (Era já o Saldanha Sanches. Mas, para mim, o Zé Luís, como para ele eu era o Henrique). Obviamente. Discutimos muito, discordámos muito, mas nunca perdemos esse elo amigo que entre nós se instalara, sem apelo, nem agravo. Opções políticas foram o que mais nos levou a terçar armas – mas embotadas, para nenhum de nós se picar, sequer. E quando em Outubro de 1975, José Freire Antunes, então da Comissão de Imprensa do MRPP, confirma a expulsão de José Saldanha Sanches, à data director do jornal LUTA POPULAR, acusado de representar «os interesses da burguesia», telefonei-lhe a dar os meus parabéns… Foi um fartote...

Voltámos a desencontrar-nos. Anos passados, respondendo a convite de Sousa Franco, meu colega desde o Camões até Direito, tive a péssima ideia de dizer que sim e, por conseguinte, ir com ele para o Ministério das Finanças. Se há alguma coisa de que me arrependa na vida foi esse passo malfadado. Culminado com uma bipolar durante cinco anos e… seis psiquiatras.

Mas, toda a medalha tem o seu anverso. Foi lá que, ao entrar do lado do rio, dei de caras com o Zé Luís, já na altura fiscalista de méritos comprovados, a quem Sousa Franco cometeria a tarefa inglória de participar na chamada Comissão Monti. A utopia da uniformização fiscal na Europa comunitária era realmente uma teia de Penélope sem qualquer Ulisses. Numa vinda conjunta de Bruxelas, confessou-me que «estou farto disto».

A última vez que nos falámos foi quando, recordo-me amargamente bem, em 7 de Junho de 2007 o chumbaram miseravelmente nas provas de agregação na Faculdade de Direito. Uma vingança mesquinha; mas, continuo a perguntar-me: de quê? E por que bulas? Por ser ele considerado um dos maiores fiscalistas portugueses? Telefonei-lhe. Disse-me: «Eles lá sabem porquê…».

Ontem, ao princípio da madrugada, fez-nos mais uma partida. A da partida. Não vale, Zé Luís. Tu não foste. Estás.

Pacto

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Por João Paulo Guerra

NUM PAÍS EMBALADO pelo cantochão, os socialistas assinaram um pacto com “laranja”.

Mas o que os líderes do PS e do PSD acordaram não foi um pacto para a salvação da Pátria nem um acordo para o bem-estar dos portugueses. Foi simplesmente uma convenção pela sobrevivência de cada um deles. Isto é: por mais gravosas que sejam as medidas que em nome da crise, do défice, da austeridade venham a ser impostas aos portugueses, os dois mais volumosos partidos da alternância não apresentarão queixas um do outro ao eleitorado. Ora isto, que é apresentado pelos propagandistas como um consenso de responsabilidade e sentido de Estado, não passa de uma perversão da democracia, que deixa os eleitores sem apelo.

A democracia, para além do direito de intervenção, é fundamentalmente liberdade de informação, formação de opinião e consequente escolha. PS e PSD sugerem aos portugueses que, em vez de escolherem, atirem ao ar uma moeda em que caras e coroas estão ambas na mesma face. Com mais ou menos retórica e populismo, a política de apertar o cinto é idêntica e terá a bênção do outro lado da moeda. E assim, aos eleitores restará a única alternativa do voto de protesto, nos partidos marginais ao "centrão" ou em branco. O que, por enquanto, ainda constitui uma forma de intervir na composição do poder.

Porém, acresce a isto que até mesmo com o demagógico pretexto do corte das despesas do Estado se volta a falar na alteração das leis eleitorais com redução do número de deputados. As contas são fáceis de fazer: a redução do número de deputados abolia qualquer expressão política fora da coutada do "centrão". E então estaria instalado o absoluto situacionismo: a democracia dava lugar a uma união nacional de interesses em que só variavam as clientelas. E as moscas.

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«DE» de 14 Mai 10

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Tirar partido do cinto apertado

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Por Ferreira Fernandes

OS IRLANDESES, por causa da mãe de todas as crises (importada dos banqueiros americanos), já apertam o cinto há dois anos. E deles não ouvimos queixumes. É gente que desconfiava do seu próprio sucesso recente. E, depois, é gente com memória, têm os anos da fome da batata registados no ADN. Eles baixaram salários e reformas e não abriram telejornais queimando bancos.

Com os gregos foi outra coisa. Os gregos são outra coisa. Eles não são vítimas só da irresponsabilidade dos financeiros, são vítimas de si próprios. Os de cima aldrabaram nas contas públicas e os de baixo, como todos os que caem no conto-do-vigário, foram vítimas da própria cupidez. Sim, ser reformado aos 58 anos (qualquer um [pode] ser reformado aos 58 anos, não só os mineiros) é cupidez e esta só não a pagam os ricos.

Agora, chegou-nos a vez de apertar o cinto. Apertar, apertaremos sempre, por mais ou menos que estrebuchemos (como os irlandeses ou os gregos). Podemos é partir para o sacrifício mais ou menos convencidos. E poderemos ser encarreirados para um ou outro caminho consoante as medidas políticas. As medidas financeiras doerão a todos. As políticas ajudarão a suportar a dor. Bater em fundações imprestáveis e cargos inúteis, por exemplo, seriam medidas políticas. E há outra coisa: talvez nos criassem bons hábitos.

«DN» de 13 Mai 10

Quanto indica a balança? - Solução do passatempo de 13 Mai 10


O resultado é o seguinte:

1.º: Jorge ... 817g => erro de 18g
2.ª: Lina ... 780g => erro de 19g
3.º: Musicólogo ... 842g => erro de 43g

A partir deste momento, os 3 têm 24h para escreverem para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada e, por ordem decrescente de interesse, quais os livros preferem. Atenção: desta vez, os pedidos serão "atendidos por ordem de chegada".

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Passatempo adicional: aberto a todos os leitores, quer tenham ou não concorrido, exceptuando-se os 3 vencedores do passatempo-base:

Trata-se de ser o/a primeiro/a responder, no Sorumbático (e em comentário, no seguimento dos outros - o que pode ser feito ), à seguinte questão muito simples:
Porque é que se escolheu este livro do «Circulo de Leitores» para prémio? O prémio será um exemplar de Maigret e o Homem Solitário, de G. Simenon.

Actualização (20h26m): a resposta certa já foi dada por 'Mg'.

"Milagres"

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Por João Paulo Guerra

UMA TENTATIVA de furto por um carteirista na Rua do Alecrim foi tudo quanto o Comando Metropolitano de Lisboa da PSP registou na terça-feira, 11 de Maio.

Nesse dia o Papa iniciou em Lisboa uma visita de quatro dias a Portugal e logo aconteceram dois "milagres" na capital. Lisboa não mergulhou no caos com os cortes do trânsito automóvel e do estacionamento nos eixos vertebrais da cidade. E com a presença de polícias nas ruas não se registou qualquer caso de criminalidade digno de nota.

Em Portugal, e particularmente em Lisboa, a iniciativa anual do Dia sem Carros foi muito bem acolhida no primeiro ano - e muito bem aproveitada mediaticamente pela classe política - mas nos anos seguintes descambou, acabando por ser uma celebração meramente simbólica. Se, por absurdo, o Papa viesse a Lisboa sem se fazer anunciar, em visita particular ou em gozo de um fim-de-semana prolongado, o Papamóvel voltava ao Vaticano directamente para o bate-chapa. Isto se voltasse. Porque também poderia ser vítima de ‘carjacking' ou simplesmente roubado mais discretamente do local de estacionamento. Mas o Papa veio em visita oficial e o Estado empenhou-se na sua comodidade e segurança: retirou os carros das ruas por onde a comitiva papal passasse e espalhou agentes de polícia pela cidade. A cidade não implodiu ao som de buzinões. E só não foi um dia normal porque foi diferente para melhor. E em matéria de criminalidade, zero.

Isto quer dizer que é possível dar às cidades e aos habitantes maior qualidade e mais segurança. Apesar de alguma escassez dos efectivos há polícias para saírem para as ruas e evitarem o crime. Como é possível que a cidade seja mais alguma coisa que um caótico e doentio parque de estacionamento. E não se trata de "milagres" mas de decisões.
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«DE» de 13 Mai 10

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Manuel Alegre

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Por Baptista-Bastos

HAVIA, TALVEZ, uma possibilidade criadora neste PS, acaso possuísse a grandeza de desanuviar a tensão que nele próprio quase explode. Mas o PS, este PS, perdeu menções, esqueceu o brio da história de muitos dos seus militantes e dirigentes, move-se ao sabor dos ventos e inverteu, definitivamente?, o papel que poderia representar na sociedade portuguesa. É uma associação de ressentidos, uma agência de empregos, e proclama que os alucinados são os outros.

A possibilidade de que falo consistia em acabar com a dilação em torno da denominação de Manuel Alegre, candidato à Presidência da República, que deixou de ser uma torpe vingança para se converter num escabroso indecoro. Ouve-se o fatal José Lello e não se acredita; escuta-se o medonho Vitalino Canas e ficamos transidos: estamos num lodaçal de afrontas. Em nome de quê? Da retórica de obediência ao chefe, praticada sem as reservas da consciência individual.

Goste-se ou não de Alegre, esteja-se ou não de acordo com as críticas por ele feitas às derivas da direcção deste PS, ele pertence ao património cultural, nosso e daquele partido, e às raízes de um combate que identificou os socialistas com uma certa fórmula de actuação na sociedade. O "estar em discordância" não pertence aos domínios das inutilidades ideológicas: é um valor da honra contra as certezas definitivas de um mundo sem honra.

Estas ardilosas indecisões já custaram à esquerda as últimas presidenciais. Foi a salgalhada de Sócrates que colocou Cavaco em Belém. Basta consultar os números, sem nos deixarmos inibir pelas armadilhas mediáticas, e proceder a uma equação que recuse a perda de sentido da aritmética, para entendermos a natureza do embuste. Como se tem visto, Cavaco estava mais nos carris de Sócrates do que Manuel Alegre. Ideologicamente, a questão reside aí.

A história repete-se, com outros protagonistas, sem maior segredo, enigma ou fascínio. Mas sob o peso de uma tristeza letal, provocado por este mundo flutuante, desprovido de convicções e de dimensão. Há dias, almoçando com um velho amigo e camarada de imprensa, o António Rêgo Chaves, falámos da perfídia desta gente, que estendeu o reino da falsa linguagem até ao desgosto da palavra. Perderam-se as referências cívicas que assinalaram o nosso tempo e marcaram os nossos destinos. Um desfile de nomes, de obras, de probidade, de desempenho ético, que reabilitaram a fisionomia moral e cultural de uma pátria sequestrada pela violência do fascismo. Não dispomos, hoje, de muitos valores exemplares, que nos permitam organizar a vida segundo os princípios de uma sociedade decente.

Talvez Manuel Alegre seja um dos últimos dessa estirpe.
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«DN» de 12 Mai 10

Depois

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Por João Paulo Guerra

NO ANO DE 2002, quando o poder lhe caiu inopinadamente no colo, o PSD de Durão Barroso adoptou como primeira medida exactamente o contrário da promessa em que mais martelara para ganhar as eleições, como efectivamente ganhou: aumentou o IVA.

Recordam-se? E recordam-se do comentário do PS, então na oposição? O PS comentou que ao aumentar a carga fiscal o PSD estava a transformar uma crise financeira em crise económica: empobrecia as classes que consomem e depauperava o mercado interno. Tanto mais que depois de aumentar impostos o PSD desembestou em cavalgada contra o bem-estar mínimo das classes média e baixa: atirou-se ao crédito bonificado e ao rendimento mínimo e deu início ao desmantelamento da estabilidade do emprego.

Mas não é lícito comparar a reacção do PS de 2002 com a governação do PS de 2010. Em 2002, o primeiro-ministro PS abandonara o governo ao constatar a situação pantanosa do país. Mas havia um domínio da governação em que os socialistas tinham ganho algum crédito. Era na área social, na qual o titular da pasta da Solidariedade, Eduardo Ferro Rodrigues, granjeara o epíteto de "ministro dos pobres". Enfim, ainda havia, como ainda haverá, socialistas. E a fuga do primeiro-ministro deixara o PS nas mãos precisamente do também chamado, na altura, "mensageiro da esperança". De maneira que as medidas com as quais o PSD estava a transmudar uma crise financeira em crise económica foram zurzidas atempada e adequadamente pelo PS. Foi por essa ocasião que a maioria silenciosa do PS, animada por uma minoria activa, começou a fazer a vida negra ao secretário-geral do partido e ex-ministro "dos pobres".

E depois? E depois governo e oposição, alternadamente e em consonância, passaram a fazer a vida negra ao comum dos portugueses.
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«DE» de 12 Mai 10

terça-feira, 11 de maio de 2010

Protagonistas matemáticos


.Por Nuno Crato

OS PROBLEMAS MATEMÁTICOS que se usam na escola estão muitas vezes enquadrados em situações do dia-a-dia. Frequentemente, apresenta-se uma pequena história com um protagonista. Em vez de perguntar secamente quanto é 4 x 3, começa-se por dizer que a Maria foi comprar bolas de ténis e comprou 4 pacotes de 3 bolas cada. Com esta prática, os problemas podem tornar-se menos monótonos, os jovens podem perceber com mais facilidade o que se pretende e, ao mesmo tempo, pode-se ajudar os alunos a relacionar o que aprendem com situações da vida diária.

Não há nada de novo nisto. Desde que há matemática que é habitual ensiná-la desta forma. O célebre papiro de Rhind (1650 a.C.), que é o melhor exemplo que se conhece da matemática egípcia, tinha cálculos da inclinação de rampas de pirâmides e problemas de divisão de pão.

O que há de novo de há duas décadas a esta parte é uma ênfase tão grande nos aspectos contextuais que os conceitos matemáticos são ofuscados. Uma vaga de «ensino em contexto» tem menosprezado a abstracção. Com o pretexto da compreensão aplicada, tem-se dado tal destaque a uma dita «comunicação matemática» que, por vezes, o essencial está na leitura e interpretação dos enunciados. Assim, nas avaliações, testam-se capacidades cognitivas gerais em vez de conhecimentos disciplinares.

O problema tem sido estudado de forma científica por vários psicólogos cognitivos. Em vez de discutirem convicções, como muitas vezes acontece em debates educativos, começaram a fazer estudos empíricos. A revista científica Psychonomic Bulletin & Review acaba de relatar um desses trabalhos (DOI: 10.3758/PBR.17.1.106). Os autores, Mattarella-Micke e Sian Beilock, um doutorando e uma conhecida psicóloga da Universidade de Chicago, descrevem algumas experiências. Apresentaram aos alunos problemas matemáticos simples, mas problemas em que a recuperação de memória de factos aritméticos básicos pode ser confundida pela troca de operações. Por exemplo, alguns jovens podem erradamente aceitar que 3x4=7, por se distraírem e trocarem a multiplicação pela adição. Ora esse tipo de erros acontece mais frequentemente quando o aluno, com a pressa, mesmo sabendo a resposta correcta, é confundido por aspectos secundários do enunciado.

Os investigadores notaram que se erra menos quando o problema aritmético não é parte fulcral do enredo e se erra mais quando é trazido para o centro da história (associado ao protagonista). No primeiro caso poder-se-ia dizer, por exemplo, que «a Maria foi comprar 4 caixas de 3 bolas cada». No segundo caso, dir-se-ia que «a Maria levou nas mãos 4 caixas com 3 bolas cada». A imagem da maneira como o protagonista levaria as caixas distrai os alunos. As experiências revelaram que neste caso cometem mais erros involuntários.

Em seguida, os psicólogos investigaram se essa maior taxa de erro se devia unicamente à insegurança matemática ou se era condicionada pela memória de trabalho dos participantes. As conclusões são muito significativas. A chamada memória de trabalho dos estudantes - capacidade para manter presente um conjunto de informação - torna-se um factor decisivo para as repostas quando o cerne do problema matemático está ofuscado, sobretudo quando é apresentado num episódio que envolve o protagonista e aparece no centro da história. Nestas condições, concluem, não se está a testar o conhecimento matemático mas sim capacidades cognitivas gerais. O exagero do contexto obscurece o ensino e enviesa a avaliação.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 8 Mai 10 (adaptado)
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NOTA (CMR): as imagens do papiro de Rhind foram obtidas [aqui] e [aqui].

Pergunta de algibeira - Resposta

Armada de Vasco da Gama, século XV, constituída pelas naus "São Gabriel", "São Rafael" e "Bérrio", de 120, 100 e 50 tonéis, respectivamente. Reprodução de pintura a óleo de Alberto Cutileiro
Museu de Marinha
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"Flor de la Mar", navio do século XVI. Nau de 400 tonéis que pertenceu à armada de Vasco da Gama (1502), D. Francisco de Almeida (1505) e Afonso de Albuquerque (1510).
Reprodução de pintura a óleo de Alberto Cutileiro.
Museu de Marinha
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Nau de finais do séc XV, início do XVI (S. Gabriel ou semelhante)
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Idem

Alternância

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Por João Paulo Guerra

SERÁ QUE O PS e o respectivo líder já começaram a preocupar-se com os resultados das sondagens?


É que, quase de um dia para o outro, os socialistas começaram a desabar nas intenções de voto e nos índices de confiança dos inquiridos por sondagens em Portugal. Não foi preciso muito. Quem responde a sondagens não tem ainda qualquer razão para conhecer Pedro Passos Coelho, as suas ideias e propósitos, a sua personalidade e carácter. Mas a verdade é que o pouco que dele conhecem chega para lhe empenharem a respectiva intenção de voto, levando-o e ao seu partido a ultrapassarem o líder dos socialistas e o PS. E porquê?

Por toda a Europa os socialistas têm vindo a ser varridos do poder. Porque as pessoas repudiam a ideia de uma política social, de uma Europa social, porque as pessoas não aceitam os valores da solidariedade, porque rejeitam o socialismo? Não. Porque os socialistas que chegaram ao poder e o exerceram por essa Europa fora praticaram tanto socialismo como o mais empedernido neoliberal. E assim, desenganados deste socialismo que rouba aos pobres para dar a alguns ricos, os eleitores aventuram-se a mudar. Claro que não vão ganhar nada com a mudança. A não ser um pequeno mas significativo detalhe. Enquanto no poder os socialistas fazem a política pura e dura da direita, na oposição não deixam a direita levar a respectiva política até ao fim e ao fundo. Para além disso, nos primeiros tempos de um governo de direita os eleitores não dão tão depressa pela brutalidade com que o poder lhes vai aos bolsos e às liberdades. Pela simples razão que os socialistas, antes de saírem, fizeram a parte mais pesada do trabalho sujo.

Chama-se a isto alternância. Embora haja quem lhe chame simplificadamente alterne.
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«DE» de 11 Mai 10

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Bem Bom Mais

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Por Rui Zink

É BONITO que esta semana se cumpra sob o signo do BB+. Refiro-me, obviamente, à vitória do Benfica e à visita de Bento XVI. Têm a minha simpatia porque ambas trazem, a uma quantidade impressionante de pessoas, duas coisas importantes: alegria e esperança. Mas é verdade que não é só por altruísmo que me alegro com a felicidade e fé alheias. Sim, também é porque... daí saco vantagem. Pessoas felizes são mais generosas, mais atenciosas, têm menos tendência a chatear o próximo (ou seja, eu) do que pessoas frustradas, ressentidas. Corro menos riscos de ser atropelado, levar um tiro ou ser mal atendido na repartição – e não ser atropelado nem levar um tiro nem ser tramado com a papelada são (vá lá saber-se porquê) coisas a que ligo alguma coisa. Há anos o comandante da Brigada de Trânsito da GNR confirmou-me esta tese: quando a vida corre bem aos portugueses, somos menos agressivos ao volante e há menos desastres.

O Braga por acaso também começa por B, fazendo o triângulo perfeito, sendo que Braga sempre foi a cidade mais religiosa de Portugal. Também não desmerecia ganhar. Mas a vitória do Benfica conjuga-se melhor – a começar pelo nome do treinador – com a vinda de Bento, que até tem nome de antigo guarda-redes do Benfica. Por isso não alinho com a malta ateia em abaixo-assinados pela “laicidade”. Sabiam que também num ateu o fanatismo é uma chatice? E quanto a vós, amigos do Porto: cadê o mal de, depois da vossa fartura, o Benfica ganhar? Hã? Aprendamos, com o Pai, com a Mãe, com o Tio, com o Roque, com a Amiga, a viver e a deixar viver. Sobretudo numa altura em que as agências de “reitingue” nos tiraram o AA+, é bem bom termos pelo menos esta semana de festejos BB+. Viver e deixar viver, ouvisteis, pá? Aceitar como nossa a alegria dos outros. Ide por mim. É tão simples que nem parece complicado. Viva o Benfica! Viva Bento XVI! Viva Bortugal!

Extremos

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Por João Paulo Guerra

A IGREJA CATÓLICA é de extremos, aliás como todas as confissões religiosas. Recordo imagens que vi em tempos, através de um documentário na televisão, em que missionários colocados numa remotíssima aldeia africana defendiam com os próprios corpos os de pessoas condenadas a serem vergastadas pelo déspota local.

Um sacrifício extremo, apenas comparável ao sacrifício da vida do próprio Jesus Cristo, o exemplo mais puro e mais esquecido da fé cristã. E por estes dias, em Portugal, os extremos não se tocam: o extremo do mediatismo, com a visita do Papa, não tem qualquer contrapartida nos domínios da humildade.

Pelo que se lia nos jornais a dois dias da chegada de Bento XVI a Portugal, com base em fontes oficiais do Vaticano, o cardeal Joseph Ratzinger, antigo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, reprova o herói juvenil Harry Potter, tal como todas as histórias de feitiçaria em geral, condena o "Código Da Vinci", considerando "insultuosas para a fé cristã" as denúncias sobre o fundamentalismo da Opus Dei, e censura Bob Dylan, o ‘rock ‘n rol'l e o ‘heavy metal' como "poderosos veículos de anti-religiosidade". Prefere Mozart e Bach, os favoritos no seu iPod Nano 8 GB, no modelo prateado produzido pela Apple. Também prefere os gatos aos cães. Não dispensa uma fatia de bolo de chocolate e, para beber, o Sumo Pontífice prefere Fanta laranja e quanto a vinho só se for doce. O Osservatore Romano desmentiu quando a polémica já ia adiantada que o Santo Padre tivesse trocado as sandálias do pescador Simão, mais tarde designado por São Pedro, por sapatos Prada mas o debate não chegou ao contraditório.

As deslocações pastorais do Papa não pretendem seguramente ser um périplo de promoções. Mas o Vaticano alinha no jogo.
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«DE» de 10 Mai 10

sábado, 8 de maio de 2010

Avé Maria...

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Por João Duque

RECORDO, COM DOÇURA, as primeiras vezes que me confessei. Vasculhava a cabeça à procura de pecados a despejar no regaço da sotaina do senhor prior. Mas não ia além de umas desobediências maternais. Sim, porque da lista dos mortais, não tinha eu experiência. Naquela idade, nem a mulher do próximo desejava...

A dívida de Portugal não só a pública, mas essa especialmente, é o nosso pecado colectivo. Abusámos na antecipação do prazer pela utilização dos recursos. Deleitámo-nos com miríades de bens para os quais não tínhamos capacidade de pagar.

E agora? Agora estamos viciados nesse tipo de vida, num padrão de consumo desajustado à riqueza produzida, investimentos feitos que não se usam, investimentos que queremos fazer sem sentido económico mantidos por embirração política.

E como a qualquer viciado, dói quando se tenta travar o vício.

Como muitos disseram durante a passada campanha eleitoral que a dívida era o nosso maior e mais urgente problema nacional. Riram de Manuela Ferreira Leite, escarneceram dela e do seu apego à visão contabilística do problema, atirando-lhe isso na cara como se fosse um despropósito, uma mania, coisa de velhos do Restelo...

Lançaram a ideia de que o endividamento era inesgotável e que não tinha efeitos sobre a taxa de crescimento ou o próprio custo do capital.

O custo da dívida disparou. Agora, meio atordoados, e sem perceber como vamos sair desta encrenca, acusam-se as agências de rating, a imprensa de atear as fogueiras para vender jornais, os especuladores, os alemães, os americanos e todos os que não ajudam a Grécia, ou Portugal. Acusa-se... Os maus são sempre os outros. Nós só emitimos dívida (se existe é para ser emitida) e crescemos pouco!

Ainda meio confuso, assisto a um espectáculo que nunca imaginei: os mercados vergaram a arrogância do primeiro-ministro, a sua forma de lidar com a oposição, a sua intransigência e inegociabilidade das suas propostas.

Para melhorar o teatrinho, a rapaziada faz greves e quer aparecer nos telejornais das cadeias de televisão a que assistem os nossos credores... Um mimo! Nada melhor para nos aproximarmos da Grécia. Portugal e a Grécia juntos representaram a grande final do Euro. Agora, juntos de novo, arriscam-se a representar o grande final do euro...

A dívida sufoca-nos. Proponho que a reestruturemos convertendo parte das emissões de Obrigações do Tesouro em dívida perpétua não amortizável. Assim nem as gerações futuras têm de suportar o pesado fardo do reembolso.

Esta semana ficámos a saber que foi decidida tolerância de ponto aos funcionários públicos por ocasião da visita de Sua Santidade o Papa Bento XVI a Portugal.

Não sei se é por isso ou não, mas aproveitando o dia 13 de Maio e antecipando os dias 20 e 21 de Maio, datas em que Portugal vai ter de pagar, respectivamente, 5,6 e 1,3 mil milhões de euros de dívida que se vence, apetece pedir aos peregrinos: em Fátima rezem por nós. Avé Maria...
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«Expresso» de 30 Abr 10

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

A PRIVATIZAÇÃO DA RTP tornou-se já uma inevitabilidade a prazo. O novo líder do PSD, Passos Coelho, deixou claro que irá retirar o Estado das empresas de comunicação social e que não faz sentido manter uma estação de televisão que custa «uma média de 400 milhões de euros por ano» aos contribuintes. O ex-ministro Manuel Pinho também veio reconhecer que «não há razão nenhuma para a RTP ser pública», sendo «um bom exemplo de algo que pode ser privatizado» para aliviar o peso da despesa nos cofres do Estado. E até o ministro Teixeira dos Santos já admite privatizar a empresa, depois de resolvido o problema do seu enorme endividamento.

Com a mudança de ciclo político à vista, a privatização da RTP tornar-se-á, pois, irreversível. Num prazo de três a cinco anos, será um facto consumado.

E a verdade é que nada justifica que os portugueses paguem, todos os dias, cerca de um milhão de euros para sustentar uma televisão que em quase nada se diferencia das suas concorrentes generalistas, SIC e TVI. A não ser no facto de estas terem que viver apenas da publicidade e outras receitas próprias e a RTP receber do Estado cerca de 300 milhões de euros por ano, em indemnizações compensatórias, contribuição audiovisual e dotações de capital (além dos 50 milhões que capta em publicidade). Em tudo o mais, a programação é quase idêntica (à excepção, no período da noite, da ausência de telenovelas, substituídas por concursos e afins), a informação não se distingue, o pluralismo e a diversidade não oferecem mais garantias do que na TVI ou na SIC. E nem nas audiências, apesar dos meios poderosos que tem ao seu dispor e de um orçamento quatro vezes superior ao das concorrentes, a RTP consegue superar a TVI e a SIC...

O falacioso argumento do ‘serviço público’ é uma patranha a que o poder político tem recorrido para manter uma estação de televisão, a RTP, ao seu serviço. Qual ‘serviço público’? O das RTP Internacional, África, etc.? Para isso bastaria um quinto, ou menos, dos 300 milhões de euros que a RTP custa a todos os portugueses.

É por tudo isto que constitui um verdadeiro escândalo ver a RTP a oferecer 18 ou 20 milhões de euros para ficar com a transmissão de 60 jogos, forçando a SIC a sair de cena e a TVI a aumentar o preço da sua proposta. É, apenas, «um conceito de serviço público abrangente», justifica o presidente da RTP, Guilherme Costa. É, sim, na frieza dos factos e dos números, concorrência desleal. E descaradamente abrangente. Feita com o saco dos dinheiros públicos a fundo perdido.
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«SOL» de 7 Mai 10

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Bento e as montanhas

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Por Antunes Ferreira

A FÉ MOVE MONTANHAS, mas os mais apressados usam a dinamite. A frase não é minha, encontrei-a na casa de banho de um restaurante lisboeta, o que prova, uma vez mais, que a cultura nacional anda de calças na mão. A sentença logo me levou a fazer a ligação com a visita do papa que, asneirada, chega na terça-feira. Explico.

Não gosto de papas, das de maizena, das de linhaça ou dos de Roma. Abro parênteses: minto; não me referi, intencionalmente, às de sarrabulho, de chupar os dedos até aos cotovelos. Fecho parênteses. E deste então, nem se fala, ou seja, se há graus de não gostar dos bispos do Vaticano, este Bento ocupa o lugar cimeiro da escala. Ratzinger - que foi no Vaticano guardião da dita Fé – não, obrigado. No almoço comemorativo dos cinco anos deste blogue, reunião muito simpática e gratificante, um dos participantes insistiu com um outro no sentido de fazer um esforço final, nestes dias que faltam para a despudorada visita, na denúncia e crítica dela. Com factos, acrescentou. Concordei. Concordo.

Há que o dizer, tal como no estrangeiro, que a chegada do pontífice não é desejada por muitíssimos Portugueses. A Time, por exemplo – e continuo a seguir o raciocínio do primeiro conviva que a citou – pergunta se Bento se vem lavar na água benta portuguesa. Vem. Um sujeito que defendeu o encobrimento da pedofilia sacerdotal e bispal e sei lá qual mais eclesiástica, que continuou a proibir os seus seguidores de usar o preservativo, não é flor que se cheira.

Resumindo: para o papa, tolerância zero. O busílis é que ele é acompanhado de tolerância… de ponto. Poderão perguntar-me: mas porquê a referência supra sobre a dinamite? Que tem o explosivo a ver com a alva tourné? Tem; no percurso papal serão retirados, presumo que provisoriamente, todos os lixões, nos quais mãos criminosas poderiam deixar lembrança com detonador. Os Portugueses são pacíficos e acolhedores, mas, por via das dúvidas…

Homens de pouca Fé, atentai no discurso antecipado do desvelado encobridor dos amigos muito chegados das crianças. Ele prevê uma chegada apoteótica e a demonstração dos fidelíssimos filhos de Portugal, nação valente, digo, fiel até à última gota de cálice. Simpático, o senhor. Aliás, foi o Chefe dele que lhe ordenou a viagem a este País destemperado. Vai, para impedires que o meu filho seja de novo crucificado. O do Benfica, é óbvio. E é tanto assim, que o LF Vieira lhe vai oferecer uma camisola vermelh.., perdão, encarnada. E, pelo sim, pelo não, o JE Bettencourt também vai. O futuro a Deus pertence.

Pergunta de algibeira - Resposta

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Pergunta: Qual o mais eficaz: o Art.º 14 (à esquerda) ou o Art.º 50 (à direita)?
Resposta: numa terra como esta, é igual ao litro...

quinta-feira, 6 de maio de 2010

E o IRS a 20%?

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Por João Duque


Parece que agora se vai (tentar) atacar o rendimento do capital “em força”! 20%! Impressionante!

DEVO JÁ REFERIR que muito gostaria eu de ser tributado, "em força" no rendimento do meu trabalho com uma taxa exorbitante de 20%! E quando digo 20% refiro-me a uma taxa média e a uma taxa marginal de 20%! Imagino-me já a chorar, amargurado, a pagar 20% de impostos sobre cada 100 euros adicionais que conseguisse adicionar ao meu rendimento! Com toda a certeza, clamaria sobre a injusta e desproporcionada taxa...

Ora como sou tributado a uma taxa média bem acima dos 20%, e tributado a uma taxa marginal que deve rondar os 40%, calo-me e nem me queixo. Para quê? Ainda me aumentam a taxa!...

Como se deduz da epístola, do meu ponto de vista muito pessoal e egoísta, desejava que os "capitalistas" (também sou "Maria patroa") fossem tributados à mesma taxa que eu, "Maria costureira". Isso significaria a utilização de uma ‘flat rate' ou taxa única, para não discriminar ricos ou pobres (eu de eu). Porque é que os ricos devem pagar menos ou mais sobre o fluxo, isto é, o rendimento? Porque são ricos? Então tribute-se o património!

Mas na minha qualidade de economista, conhecendo o conceito de racionalidade limitada, a forma como os homens reagem às políticas, particularmente as fiscais, em mercados muito abertos, mas acima de tudo devido à dificuldade em implementar a medida, temo que a medida não tenha grande efeito.

Ora vejamos: imagine-se que compro 1.000 acções do BCP a 0,80 euros e que as mantenho na minha conta títulos do BES. Subsequentemente compro mais 1.000 acções do BCP a 0,70 euros e guardo-as noutra conta títulos, agora no BPI. Depois dou ordem de venda ao BPI destas 1,000 acções que lá tinha em carteira, quando as acções estão a 0,75 euros. E agora vou fazer a declaração fiscal. O BPI afiança que eu tenho mais-valia (compra a 0,70 euros e venda a 0,75) e eu, que uso o devido critério FIFO, asseguro a pés juntos que tenho menos valias (compra a 0,80 euros e venda a 0,75). E agora? E se os titulares das duas contas título forem diferentes nos dois bancos? Maior a confusão.

A trapalhada vai instalar-se e só o próprio contribuinte está em condições de afirmar as mais-valias, e de indicar os encargos dedutíveis. A trapalhada deve ser mais ou menos como a que existe de momento, em que desconfio que dificilmente alguém é tributado nessas mais-valias...

Os intermediários financeiros já afirmaram que era difícil responderem às exigências porque montar um sistema destes é dispendioso, e falível, e sem contrapartidas, nada feito...

É claro que esta trapalhada não vai dar em nada. Mas o que eu sugeria é que tivessem a coragem de avançar com a mesma taxa de 20% para o factor trabalho... Mas isso dá muito mais trabalho! Seria necessário reduzir seriamente a despesa (coisa impopular e dá derrotas eleitorais) e acima de tudo faz bem à saúde do país!

«DE» de 6 Mai 10

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A nossa fúria e a nossa revolta

Por Baptista-Bastos

NÃO ME RECORDO de termos sido felizes. O 25 de Abril abriu as parangonas dos nossos testemunhos mútuos, mas a festa durou, apenas, pouco mais de ano e meio. A euforia termina sempre na indolência, outro modo de resignação. Desde que me recordo, vivi cercado pela crise, mas, também, pelos acenos dos "amanhãs que cantam." Com este ou com outro estribilho, os homens admitem o sofrimento e, às vezes, até, a abjecção das épocas, na esperança de que o futuro será melhor. Talvez eu seja um pouco tonto, talvez, ou um teimoso obstinado e caturra; porém, continuo a acreditar no surgimento de outra coisa que substitua esta selvajaria sufocante.

Acordamos e deitamo-nos sob a pressão da catástrofe iminente. A imprensa, as rádios e as televisões encharcam-nos de medo e de desassossego, a moderna aptidão para se abraçar um certo estado de vida. Viver no medo e no desassossego foi a ideologia dominante nos cinquenta anos salazaristas. Um medo e um desassossego larvares, prolongados, depois, pela natureza canibal de uma economia, que assaltara, de mão armada, a política, e ameaça a saúde da democracia. Como, aliás, se vê por aí.

Emmanuel Mounier, o filósofo do personalismo, que li, e releio, com mão diurna e nocturna, escreveu: "O homem renova, perpetuamente, o aspecto das suas indignações" - para nos ensinar do transitório das coisas e da necessidade de não perdermos o fio à meada de uma batalha nunca ganha mas também nunca perdida.

Chegámos a uma situação perigosa. O papel essencial do trabalho, na sociedade, é desprezado por uma laia dirigente, emproada e vil, ignorante da experiência da História, e que não sabe redefinir as bases do contrato social. O caso da Grécia, independentemente dos seus contingentes pecados, é significativo dessa vileza. A senhora Merkel, cuja cabeça não é, propriamente, um bulício de inteligência, desconhece que o projecto europeu (seriamente avariado) constitui a aprendizagem de viver juntos. Ao recusar auxiliar os gregos, nomeava a Alemanha como dona da Europa. Ignora- va que a Europa ajudara a Alemanha a recompor-se das ruínas, pressionando, inclusive, os Estados Unidos a colaborar na empresa.

Ainda há horas vi, na televisão, o rosto desfeito em lágrimas, em dor, em susto, em assombro, de uma desempregada da Allcoop, cadeia de supermercados no Algarve, que formulou esta dramática pergunta: "Quem nos ajuda?" Ninguém. Com esta Europa, com este, e outros ruinosos governos, cheios de piedade sentenciosa e de explicações superficiais, nada há a esperar.

Resta-nos a fúria da nossa repulsa e a força imparável da nossa revolta.
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«DN» de 5 Mai 10

terça-feira, 4 de maio de 2010

Passatempo-relâmpago de 4 Mai 10 - Solução




Resposta: 1181 gramas
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Quem mais se tenha aproximado deverá escrever, no prazo de 24h, para premiosdepassatempos@iol.pt indicando morada para envio.
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Já agora, aqui deixo o que me parece ser uma boa abordagem:

Antes de mais, é claro que estará em vantagem quem conheça os velhos pesos "hexagonais" e a sua gama (1hg - 1/4kg - 1/2kg - 1kg...); e, é claro, identifique o que se vê na foto do passatempo como sendo de 1hg.

Depois, com uma pesquisa na internet acerca do livro, obterá as suas dimensões e número de páginas. Por aí, poderá estimar o seu peso entre os 70 e os 90g. (Embora eu não tenha conseguido, é possível que até se encontre o peso "oficial").

Assim, para completar um bom palpite, só precisará de "apostar bem" no peso que está atrás (e que, como é dito, é também um peso de balança - com grande probabilidade do mesmo género do da frente). Ora, como se diz que a resposta tem 4 dígitos, esse peso oculto deverá ser de 1kg ou superior.

Em resumo: um 1.º bom palpite andará à volta de 1170 - 1190g, e ainda fica a possibilidade de um 2.º.

Imprensa

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Por João Paulo Guerra

Passou ontem, e passou quase despercebido, o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.

OS PORTUGUESES têm esse bem inestimável quase sem dar por ele. Lêem o que querem e pensam que lêem o que acontece na política, na economia, no social, na sociedade, na cultura, dentro e fora do País. Porque, felizmente, a maior parte da população portuguesa não sabe o que foi a censura e dá a liberdade de imprensa como uma realidade adquirida e irreversível. Mas não é.

Recordo-me de 1971 quando participei na redacção e na angariação de assinaturas para o manifesto da Comissão Nacional de Defesa da Liberdade de Expressão, facto bastante inocente mas que me valeu uma ficha na PIDE e uma carta do antigo SNI a desaconselhar alguns patrões da imprensa e rádio de me darem trabalho caso eu o procurasse. E a verdade é que tive de o procurar, pois em 1972 foi despedido de um programa que fazia na Renascença, em 73 dos Noticiários do RCP e entre 73 e 74, trabalhei quatro meses num jornal que acabou por não sair.

As reuniões do núcleo fundador da Comissão foram em casa do actor Rogério Paulo e a novidade do Manifesto foi prolongar a discussão sobre a liberdade de imprensa, para além da questão geral das liberdades públicas, entrando pelo tema da concentração dos meios de comunicação. Mas nessa altura até o Dr. Francisco Pinto Balsemão constatava que "se uma revista pertence a um grupo açucareiro, nela não se escreverá que o açúcar engorda".

Hoje, a liberdade de imprensa é um bem consumível e a maioria dos leitores, espectadores e ouvintes não tomará consciência da fragilidade e precariedade desse bem inestimável. A liberdade de imprensa tem que ser defendida e defende-se de vários modos. Um deles é exercendo-a, que é aquilo que estou a fazer, neste momento e nesta coluna.
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«DE» de 4 Mai 10

Antony Flew

Por Nuno Crato

UM EXCELENTE ARTIGO de José Cutileiro no Expresso da passada semana trouxe-me a notícia de que o filósofo inglês Antony Flew tinha falecido. No artigo referia-se o ateísmo do filósofo e a sua conversão ao deísmo, isto é, à crença na existência de alguma inteligência criadora do mundo, mas não necessariamente num deus que influenciasse a vida dos homens, como é o Deus do cristianismo e de outras religiões.

Antony Flew nascera em Londres, em 1923, e tinha sido professor em Oxford e outras grandes universidades. O seu ateísmo tornara-se lendário – o seu artigo “Theology and falsification”, de 1955, foi, segundo alguns, o artigo filosófico mais lido da segunda parte do século XX. Por tudo isso, o anúncio da sua conversão em 2004 foi ainda mais polémica. O livro que a explica, There is a God: How the World's Most Notorious Atheist Changed His Mind (Harper, 2007), escrito em conjunto com Roy A. Varghese, tornou-se um bestseller e semeou um debate filosófico muito intenso. Flew, que sempre tinha sido mais sensível aos argumentos científicos do que aos metafísicos e de fé, anunciou a sua mudança com base nas descobertas recentes da cosmologia e da física. Destacava, por exemplo, o big bang e a ideia de que as constantes da física estavam “finamente sintonizadas” de forma a permitir o aparecimento da vida.

Tudo isto tornou Antony Flew num dos filósofos contemporâneos mais conhecidos. Mas cada um de nós tem os seus interesses, e a minha admiração pelo pensador inglês vem de outras polémicas e de outros tempos.

Nos anos 1960, a dita “nova sociologia do conhecimento” e a dita “nova sociologia da educação” começaram a afirmar que todo o conhecimento é socialmente construído e que, por isso, toda a educação deve deixar de se preocupar com a transmissão de conhecimentos pretensamente absolutos e passar a questionar o saber.

Alan Blum, por exemplo, um dos sociólogos norte-americanos que Flew mais criticou, dizia que categorias como as de “casamento, guerra e suicídio só são vistas, reconhecidas e tornadas possíveis através da prática organizada da sociologia”. De onde concluía que a sociologia não devia estudar um “mundo externo”, pois são os métodos e processos da sociologia que”criam e sustentam esse mundo” (“The corpus of knowledge”, 1971). Flew percebeu que se tratava de uma visão idealista, que acabava por negar a existência de um mundo externo, seja físico seja social, e que repetia as ideias dos chamados empírio-criticistas do início do século XX, nomeadamente Ernest Mach e Richard Avenarius. Não escapou também a Flew um facto poucas vezes notado. A dita “nova sociologia do conhecimento”, que veio a gerar os absurdos pós-modernistas, reproduzia o que já antes tinha sido criticado como posições filosóficas contra o racionalismo. A este propósito, o filósofo inglês tinha a ironia de citar directamente Vladimir Lenine, que dedicou muitas páginas a criticar e denunciar a versão original da “nova sociologia” como idealista e reaccionária.

Mais interessante ainda é a premonição que Antony Flew tem dos efeitos nefastos que as posições que mais tarde se vieram a classificar como pós-modernas iriam ter na educação. No seu livro “Sociology, Equality and Education” (Macmillan, 1976), prevê que desprezar o conhecimento da realidade e privilegiar a “desconstrução” e os processos pedagógicos acabaria por secundarizar os conteúdos curriculares e prejudicar a transmissão de conhecimentos. Boas razões para ler, ou reler, Antony Flew.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 30 Abr 10 (adapt.)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Passatempo Calimero de 3 Mai 10 - Solução

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Cereja em cima do bolo
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Esta ERRATA completa um livrinho sobre o tema que nela se diz...
Para além do facto de introduzir confusão q.b. num assunto já de si tão confuso, o papelinho ainda vem solto (pronto a voar) em vez de estar colado ou fazer parte da obra!!
Fotografei-o na Feira do Livro de Lisboa, e quando lá voltar vou tentar fotografar a capa (o que, na altura, não pude fazer).

Crises

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Por João Paulo Guerra

POR UM DAQUELES imprevistos que acontecem, sobretudo a quem tem alguns problemas de incompatibilidade com a própria coerência, no mesmo dia em que os jornais davam à estampa a restauração formal do Bloco Central, ilustrada com fotos do novo enlace entre PS e PSD, a publicação de uma entrevista concedida dias antes pelo líder do PSD ao jornal espanhol ABC azedava o relacionamento entre os dois partidos e respectivos líderes.

Entre aquelas duas almas praticamente gémeas, que até tiveram um passado comum na JSD embora com meia dúzia de anos de décalage, afinal o entendimento é uma fina capa de verniz. Dizia Passos Coelho ao ABC que o primeiro-ministro português "perdeu credibilidade", é "arrogante" e anda "desorientado". E rematava considerando "muito difícil" que o primeiro-ministro "dure quatro anos".

À mesma hora, noutro ponto da cidade, e sem que tivessem certamente lido a entrevista ao ABC e tirado dali conclusões e consequências, deputados do PS e PSD criticavam as direcções dos respectivos partidos. Uns queixavam-se que o líder anda a promover o adversário. Outros denunciam a oposição "suave" que vislumbram no horizonte.

E eis que surge a cereja em cima do bolo. Uma sondagem da Marktest para o Diário Económico dava o PSD e Passos Coelho seis pontos à frente do PS e de José Sócrates nas intenções de voto actuais dos portugueses. Excluindo um fogacho no Verão de 2009, por ocasião das eleições europeias, há anos que o PS e Sócrates subalternizavam o PSD e os sucessivos líderes nas sondagens.

De maneira que a crise financeira, que como sempre em Portugal vai derivar em crise económica, ameaça também descambar em crise política. A verdade é que se acabassem as crises os portugueses eram capazes de estranhar.
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«DE» de 3 Mai 10

domingo, 2 de maio de 2010





«Dito & Feito»

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Por José António Lima

AINDA ESTA SEGUNDA-FEIRA, com os juros da dívida de Portugal a dispararem para máximos assustadores e após mais uma semana negra da Bolsa nacional, José Sócrates continuava a mostrar, na passagem dos primeiros seis meses deste seu segundo Governo, que vive noutra dimensão: «Não se verificam os cenários catastrofistas, porque já se prevê crescimento para Portugal e para a Europa», afirmava com um sorriso aéreo o primeiro-ministro.

Com todas as campainhas de alarme a soarem, sob a pressão constante e crescente dos mercados financeiros, em que ocupa publicamente José Sócrates os seus dias? Pois bem: a inaugurar a 1.ª pedra de um terminal portuário de cruzeiros, as obras de requalificação de um estabelecimento liceal ou – acompanhado por uma legião de ministros e secretários de Estado – a 1.ª fase da remodelação, que ainda vai a meio, do Terreiro do Paço... Sem esquecer, claro, a actividade de fazer nomeações, às dezenas, sem concurso público, de boys do PS para cargos de chefias em organismos do Estado, como o Instituto do Emprego – mas essa é uma prática entranhada que se tornou já um vício diário e sem remédio deste poder socialista.

Parecendo viver noutro mundo, Sócrates chega a fazer lembrar, em certos momentos, o inesquecível ministro da Propaganda de Saddam Hussein, que persistia em negar a realidade e as evidências já com as tropas e tanques norte-americanos atrás de si, nas ruas de Bagdade. Sócrates, tal como o patético Muhamad al-Sahaf, não está a perceber bem o filme em que está metido.

Demonstrou-o, aliás, duplamente, na sequência do encontro com Passos Coelho. Ao perder o pulso e a liderança da agenda política, permitindo que fosse o novo líder do PSD a tomar a iniciativa da reunião, deixando-se ir a reboque do seu opositor. E ao propor, no final do encontro, um conjunto de paliativos parcelares, claramente insuficiente para inverter a situação. E que não evitará, a curto prazo, a aplicação de medidas de austeridade adicionais ao PEC, mais duras e penalizadoras.

Após o abalo que o país sofreu esta semana, os portugueses começam a ficar realmente nervosos – indo ao encontro das palavras do Presidente checo, Vaclav Klaus. Todos menos um: o seu impassível primeiro-ministro.
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«SOL» de 30 Abr 10

O incrível jogo Granada - Barbados 1994

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In «100 essential things you didn't know you didn't know»
de John D. Barrow, capítulo 56