quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A encruzilhada

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Por Baptista-Bastos

A AD, nas suas variantes e máscaras, foi sempre um equívoco. Por inconsistência ideológica, pela insatisfação dos seus próceres, cuja ânsia de poder sobrelevava as urgências nacionais, e pela obstinação absurda de que não encontrariam resistência. É um empreendimento que pretendia assegurar a continuidade -não se sabe bem de quê. Porque a História deixara de ser o que fora, e a crença na renovação de uma convergência de direita, que os seus entusiastas procuravam inocular ao "projecto", constituía uma espécie de sobressalto emocional. Todas estas ligações não só foram inúteis como se revelaram perigosas.

Ao que parece, os drs. Passos Coelho e Paulo Portas andam muitíssimo afobados em ressuscitar o cadáver esquisito. Não desejam, pelos vistos, seguir a parábola de Santo Agostinho sobre o ser e o ter; sobre o despojamento dos bens materiais em favor de uma empolgante ascensão espiritual. E cito Santo Agostinho porque eles o nomeiam, dizendo condenar a tirania das desigualdades. Mas a direita que representam é mais inclinada a ter - para desprezar o ser. E a referência ao teólogo é da ordem da retórica.

O futuro que se nos apresenta é de molde a causar arrepios. O "socialismo moderno", de José Sócrates d'après Tony Blair, tornou impossível a valorização de cada um (individual ou de grupo), fechado numa indiferença social e numa soberba que recusaram os princípios fundamentais da solidariedade. Ninguém acredita no que diz inflamado e assertivo, este estranho primeiro-ministro. E Passos Coelho nada promete de benéfico: quer privatizar a saúde, a educação, a Segurança Social, os transportes, e transformar o País numa empresa gerida através do manual do "mercado". Os elos que caracterizaram a civilização comunitária foram sistematicamente destruídos. Esta democracia de superfície é uma aliada do capitalismo e dos defensores do controlo civil. Mário Soares disse, há dias, que é preciso bater o pé à direcção da União Europeia. Como?, se foi com as traições "socialistas" e com a abdicação dos antigos valores que a direita mais caceteira tomou conta do Parlamento em Bruxelas. Quem manda e quem nos manda é o Partido Popular Europeu, cuja solidez reside não apenas na sua força como na debilidade asténica da esquerda.

Podemos mudar o sentido das coisas? Podemos. Basta que as nossas escolhas sejam racionais e que não temamos o risco de desafiar. Sophia de Mello Breyner, num dos seus mais belos poemas, escreveu: "Nestes últimos tempos é certo que a Esquerda muita vez / Desfigurou as linhas do seu rosto / Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita / Degradação da vida que a Direita pratica?"

Que a voz da poetisa ecoe como uma advertência e que saibamos merecer a grandeza da sua dimensão.
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«DN» de 15 Dez 10

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Passatempo-relâmpago de 13 Dez 10 - Solução

In «Fernão Mendes Pinto», de Mário Domingues, Ed. Civilização
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Pode considerar-se que, no essencial, a resposta dada por 'Karocha' está certa, pelo que ela tem agora 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com, indicando morada para envio do prémio.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Informar é muito perigoso

Julian Assange entregou-se às autoridades inglesas, e os Estados Unidos manifestaram, de imediato, um contentamento um pouco pacóvio. Assange, australiano, fundador do WikiLeaks, revelou, através de um “site”, montes e montes de documentos, que põem em causa a seriedade e a decência, não só dos meios diplomáticos, mas, sobretudo, dos governos, especialmente dos governos norte-americanos.

Assange fez o que a Imprensa deveria ter feito. Acontece um porém: ele não procede à triagem ou à selecção dos documentos; essa tarefa é-nos atribuída, com a responsabilidade que acarreta. A questão talvez resida aí. Mas, pergunta-se: um jornalista, pelo facto de o ser, está acima do que se entende ser a cidadania do comum dos mortais?

A montanha impressionante de informação, pela quantidade e qualidade, é de molde a fazer estremecer os governantes de actuam na perversidade da sombra e do silêncio, preferindo a omissão, a trapalhice e a indignidade à transparência e à clareza que são atributos da democracia. Mas, na verdade, onde paira a democracia? Que nação do mundo pode arrogar-se à exemplaridade de ser “democrática”?

Através daqueles testemunhos ficámos a saber que George Bush, pai e filho, são criminosos de guerra, culpados de medonhas atrocidades e de cometimentos políticos que não deixam os céus sossegados. Sabia-se, clara ou vagamente, do sucedido no Irão e no Iraque; das negociatas dos sinistros Rumsfeld e Cheney, cujas mãos estão encharcadas de sangue. Mas a natureza minuciosa dos seus crimes estava mergulhada nesse aluvião de mentiras e de omissão com que as Administrações nos EUA articulam e escoram as suas políticas.

A imoralidade faz parte do nosso universo consuetudinário. Já se sabia. Como já se admitia que a política é assim mesmo, sem rosto e sem vergonha. Porém, a riqueza de pormenores contida nas informações de Assange, as características descritas acerca de governantes, ministros, reis, rainhas e primeiros-ministros, aterra as almas mais sensíveis. É uma vistoria de ordem moral que os embaixadores fizeram, ou continuam a fazer, aos dirigentes dos países onde se encontram. Se há informações cuja importância é discutível, outras fazem lembrar as dos tempos de John Edgar Hoover, o todo-poderoso chefe do FBI, que chantageou, ameaçou e obrigou ao exílio ou ao suicídio centenas, senão milhares, de norte-americanos. É essa prática doentia e inquietante que parece não ter sido extirpada do corpo político da sociedade dos Estados Unidos.

O caso da WikiLeaks merecia um estudo cuidado dessas escolas de “comunicação social”, que têm sido viveiros de limitações, de regras apertadas, sem fins úteis à vista. E a detenção do australiano tem passado em silêncio. Acusado de crime de abuso sexual, está na cara que a perseguição, o acosso e a prisão de Assange configura uma vingança e esclarece o poder de certas potências. É claro que a proposta do Kremlin, em favorecer uma proposta para que Julian Assange seja candidato ao Nobel, é tão absurda, tão ridícula e tão infantil como o cerco e a prisão de que ele foi vítima.

O australiano é acusado de quê? De pôr em risco a segurança mundial e de facilitar a vida ao terrorismo? Sejamos sérios. E nem o encarceramento de Assange faz terminar as funções para que o WikiLeaks foi criado. Aliás, o próprio Assange já disse que a informação vai prosseguir, e que nada nem nenhum poder, político ou outro, conseguirá amordaçar a verdade dos factos. Caluniado, insultado, ameaçado de morte e de sevícias, Julian Assange não deixa de protestar as suas convicções morais. E, convém, não esquecer, que vai acontecer aos dirigentes de “The New York Times”, “The Guardian” ou “El Pais”, três dos mais conceituados jornais planetários, que publicaram as informações reveladas pelo australiano?

Informar é perigoso. Para alguns. E depende sempre da informação que se presta.

Falecimento de um homem de bem

Com 92 anos e uma vida rodeada de respeito e de honra, faleceu, há dias, Avellar Soeiro, o primeiro ‘public relations’ português, que conferiu à profissão os galões de dignidade e de prestígio de que a profissão necessitava. Nos anos de 60, estando ele no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, onde desempenhou nobilitantes tarefas, convidou-me e ao Daniel Filipe, a organizar um gabinete de Imprensa, que promovesse as Primeiras Jornadas Luso-Brasileiras de Engenharia Civil. O Daniel e eu estávamos em situação económica dificílima, acrescida, no meu caso, de me ter envolvido em acções políticas directas. Avellar Soeiro conhecia o caso. E contratou-nos. Devo dizer que o nosso trabalho, apoiado e estimulado por Avellar, constituiu um êxito muito grande. No decorrer dos anos via-o, ocasionalmente, nas Portas de Santo Antão, e trocávamos as palavras que a nossa amizade e a cordialidade que nos era própria exigiam e explicavam. Sentia, sempre e sempre, uma grande emoção ao vê-lo e ao conversá-lo.

Monárquico, culto, elegantíssimo de trato, também eu pressentia nele a estima com que me dignificava. Sem nunca fazer referência às minhas convicções e, naturalmente, nem eu às dele, recordávamos a amizade nascida em circunstâncias tão estranhas quanto adversas. Recordo, com emoção e orgulho, o homem de bem, o português exemplarmente raro e o querido amigo que perdi.
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«J. Negócios» de 10 Dez 10

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

A CRISE ACTUAL da economia portuguesa não é um cisne negro nem um relâmpago no céu azul, não é uma ocorrência surpreendente.

A crise identificada no início de 2007 - dependência do endividamento, insuficiência de competitividade, excesso de intervencionismo do Estado, preferência pelos sectores de bens não transaccionáveis, etc. - prosseguiu os seus efeitos acumulando factores de agravamento (impossibilidade de crescimento das receitas do Estado e incapacidade para limitar o crescimento da despesa do Estado, acentuada com o envelhecimento demográfico, com o desemprego e com o constrangimento crescente do pagamento dos encargos financeiros do endividamento, interno e externo) até ao momento em que emerge a crise económica mundial.

Em suma: a primeira década do séc. XXI salda-se por um registo muito pobre da vida portuguesa, parecendo esta incapaz de se afirmar, faltando-lhe ideias, verdade, força, lucidez, substância, garra e densidade política. Foi uma década, mais do que perdida, historicamente inaceitável, porque vazia.

Na sociedade portuguesa, que tem vivido numa atitude interesseira e egoísta, sem horizonte e sem conteúdo, vazia de substância, é preciso substituir o facilitismo pela exigência, a vulgaridade pela excelência, a moleza pela dureza, a golpada pela seriedade, o videirismo pela honra, a ignorância pelo conhecimento, a mandriice pelo trabalho, a aldrabice pela honestidade.

Os parágrafos acima reproduzidos são excertos de textos de Ernâni Lopes e, apenas, um pequeno retrato da sua inesgotável e estimulante capacidade de análise. Ernâni Lopes era um homem íntegro e sábio, como poucos em Portugal. Foi «um príncipe do pensamento português», na bela definição do seu amigo e sócio José Poças Esteves.

Aliando uma insaciável curiosidade de saber a uma escola de sólidos valores de comportamento, Ernâni Lopes era um exemplo raro, nos planos intelectual e moral.

Com a profundidade do seu pensamento, o rigor das suas análises e a clarividência das suas propostas, deixou-nos caminhos abertos para o futuro do país. Saibamos nós ter a energia e a inteligência de os prosseguir.
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«SOL» de 10 Dez 10

sábado, 11 de dezembro de 2010

O nosso teste

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Por Rui Tavares

O PROBLEMA é quando o segredo se torna a regra e não a exceção, como demonstram os documentos até agora divulgados pela wikileaks.

“Vastos ataques por parte de uma China que tem medo da internet”. Este era o título do New York Times na passada sexta-feira.

No seu contexto, vale tudo o que se tem dito nos últimos dias sobre a wikileaks, cujos documentos — ironicamente — o New York Times usava para narrar a repressão chinesa, em 2009, contra o Google.

Nesse mesmo dia um poderoso senador americano exigia que todas as companhias do seu país cessassem contactos com a wikileaks. Extraordinariamente, elas obedeceram. A Amazon tirou a página da wikileaks da rede. Outra empresa abateu-lhe o endereço. Outra ainda apagou “as visualizações de dados” — gráficos e não documentos classificados — que se encontravam no site. Seguiram-se ataques informáticos em massa. A wikileaks desapareceu. Umas horas depois reapareceu na Suíça, depois sumiu, apareceu de novo, e continua intermitente.

O Departamento de Estado dos EUA proibiu os seus funcionários de consultarem o site, mesmo que a partir de casa. Segundo a Universidade de Columbia, notificou estudantes para que não citassem a wikileaks nas suas páginas de twitter ou facebook, se quisessem preservar as hipóteses de um dia conseguirem emprego na administração. A Biblioteca do Congresso impediu o acesso à wikileaks a partir dos seus computadores.

(Na Europa, um ministro francês declarou inaceitável que a wikileaks pudesse alojar-se na França. Ao menos neste caso, a empresa francesa a que ele se referia respondeu de forma digna: senhor ministro, queixe-se a um juiz.)

Em poucos dias passámos da desvalorização — “isto não tem nada de novo” — ao mais vasto ataque por parte de governos que têm medo da internet. A China é aqui? Esse é o nosso teste.

E, no entanto, ninguém parece notar uma coisa simples: a cultura de secretismo faz mais mal do que bem.

Há segredos justificados e/ou necessários: a posição de tropas em tempo de guerra, a identidade e localização de fontes, e alguns dados sobre as vítimas ou testemunhas de crimes. O problema é quando o segredo se torna a regra e não a exceção, como demonstram os documentos até agora divulgados pela wikileaks.

Vamos recapitular algumas das coisas que já aprendemos: que os diplomatas americanos tinham ordens para recolher dados pessoais e biométricos dos dirigentes das Nações Unidas (uma violação à Convenção de Viena de 1961); que havia um “espião” dentro do governo de coligação na Alemanha, — que aliás já teve de se demitir; que o governo alemão foi pressionado com ameaça de retaliações políticas para que abandonasse o caso de um desgraçado merceeiro que foi preso e torturado por agentes secretos americanos, estando inocente de qualquer crime; que a procuradoria-geral espanhola foi pressionada num caso semelhante, e para limitar as ações do juiz Garzón.

Há mais; e só foram disponibilizados menos de mil documentos de entre os 250 mil totais. Os restantes 99,5% estão a ser tratados por cinco dos mais prestigiados jornais internacionais. As autoridades americanas tiveram oportunidade de fazer comentários e correções (e, no caso do New York Times, fizeram-no). Ao contrário do que dizem aí, isto não é vandalismo. A wikileaks publica o resultado do trabalho que esses jornais têm feito, com a edição e correção entretanto feitos.

Há justificação para que estes segredos em particular fossem ocultados dos cidadãos? Não há; e o facto de o terem sido só torna a democracia malsã e a diplomacia cúmplice.
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RuiTavares.Net

O vinho ao poder

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Por Antunes Ferreira

DE QUANDO EM VEZ, surgem coisas que nos fazem bem ao ego, o que é difícil para quem está mergulhado numa crise, desde a batalha de São Mamede, mas que, hoje, parece ter-se agravado. Se não concordam – e têm todo o direito a afirmá-lo, os crimes de opinião tiveram a época deles que felizmente já não existe – aqui se registam as afirmações de António Serrano.

Muito bem, e quem é esse senhor?, perguntará o leitor menos atento ou mais desconfiado. Apesar de ser quase desconhecido, é o ministro da Agricultura, do Desenvolvimento e das Pescas. O título do membro do Governo é um tanto longo, mas é assim mesmo. Se se disser abreviadamente que é o ministro da Agricultura, falta-se à verdade.

Posto isto, o governante, na sessão de abertura da conferência internacional «Wines of Portugal» a decorrer no Porto, afirmou que as exportações de vinho deverão atingir este ano um valor recorde de 600 milhões de euros. Ou seja, alterou-se substancialmente a propaganda da ditadura salazarista, que em 1935 afirmava que beber vinho era dar de comer a um milhão de Portugueses. O que é excelente.

Perante uma plateia constituída por 200 conferencistas estrangeiros ligados ao sector, desde jornalistas a enólogos, passando por escanções e importadores, o ministro apresentou o vinho como «um exemplo» na agricultura portuguesa, «um sector primeiro e não apenas primário, na ultrapassagem da crise que vivemos». Abreviando: o vinho ao poder.

É sobejamente conhecido o fado cantado em primeira mão pela grande Amália e interpretado hoje pela também grande Marisa. Mas, para quem não seja muito destas coisas das vielas e das violas, aqui se registam uns passos da canção em causa. Isto apenas para demonstrar que, nos dias que vão correndo, há que desconfiar de tudo e de todos, a começar por nós próprios. É triste, mas é a vida.

«Oiça lá ó senhor vinho,
vai responder-me, mas com franqueza:
porque é que tira toda a firmeza
a quem encontra no seu caminho?

Lá por beber um copinho a mais
até pessoas pacatas,
amigo vinho, em desalinho
vossa mercê faz andar de gatas!

É mau procedimento
e há intenção naquilo que faz.
Entra-se em desequilíbrio,
não há equilíbrio que seja capaz.

As leis da Física falham
e a vertical de qualquer lugar
oscila sem se deter
e deixa de ser perpendicular».

O inquirido, sentindo-se ofendido com a pergunta e as considerações dela decorrentes, responde que

«… E só faço mal a quem
me julga ninguém
e faz pouco de mim.
Quem me trata como água
é ofensa, pago-a!
Eu cá sou assim.

E terminam as coplas:

«Vossa mercê tem razão
e é ingratidão
falar mal do vinho.
E a provar o que digo
vamos, meu amigo,
a mais um copinho!»

Fico-me por aqui. Sendo assim, viva o mosto! Que, pelos vistos, sublimando-se, nos ajudará a sair da malfadada crise. Parece pois que longes vão os tempos em que se dizia «o vinho é que induca, o fado é que instroi».

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Graxa

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Por João Paulo Guerra

O MINIsTRO Fernando Teixeira dos Santos não tem culpa que lhe queiram dar e lhe dêem graxa. De maneira que a crítica vai inteirinha para o autor de uma suposta notícia que pretenderia glorificar o ministro das Finanças, apresentando-o como "o décimo sexto melhor da Europa em 2010", numa tabela elaborada pelo Financial Times e que contemplava um "total de 19 governantes". Ou seja, o ministro estaria à beira de disputar a "liguilha" para descida de divisão, se falássemos de futebol, ou em vias de despedimento, se se tratasse de avaliação pelos respectivos superiores no âmbito de uma repartição pública. Porque na verdade, "o décimo sexto melhor", num universo de dezanove, é mais propriamente o quarto pior.

Mas este é um bom exemplo para caracterizar o regresso do espírito de bajulação - se é que alguma vez ele se foi embora - tão característico dos tempos em que estava "tudo bem assim" e o chefe tinha sempre razão. Eram os tempos dos "muito bem", dos "apoiado", com que as solenes assistências pontuavam os enfáticos discursos dos próceres do regime. Alguns exageravam e conta-se que um governador civil de Lisboa, muito dado a discursos engraxadores, chegou a ser mandado calar por despacho da Presidência do Conselho.

Agora que o situacionismo instalou o faz-de-conta, a encenação, o culto da imagem sobre o inculto do discurso, a par do carreirismo, da lisonja, da adulação e também da reverência e do medo, eis de novo os homens providenciais ao leme do país, a avaliar por certas notícias publicadas no diário de bordo.

Pegar numa tabela de dezanove lugares e designar o pré-antepenúltimo como "décimo sexto melhor" é algo de caricato, que enxovalha o rigor jornalístico. Mas o mais dramático é que a caricatura é um sinal dos tempos.
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«DE» de 9 Dez 10

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A herança

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Por Baptista-Bastos

A PASSAGEM do 30.º aniversário da morte de Francisco Sá Carneiro determinou uma volumosa série de artigos, livros, documentários, depoimentos, notas, observações. A hagiografia em detrimento do conhecimento do homem e da sua circunstância. E a insistência no adensar do mistério de Camarate, que uns dizem ser acidente, e, outros, atentado. Sou favorável à reabertura de todos os inquéritos e investigações. O carácter dubitativo em que a questão assenta impede qualquer tropo de verdade que sossegue os espíritos mais sobressaltados.

Sá Carneiro morreu novo e esse facto inspirou a compaixão e alimentou o mito. Seria bom que soubéssemos o que está por detrás desses sentimentos, e qual a natureza dessas devoções. Os "viúvos" e as "viúvas" das celebridades não conseguem dissimular a ânsia de protagonismo, à sombra dos venerandos finados. Chegou-se ao ponto de se fazer vaticínios temerários, com a condicional a servir de pretexto. "Se" Sá Carneiro fosse vivo, como seria o País, hoje? O absurdo como molde da realidade e manifesto subterfúgio para a manipulação.

A verdade é que Sá Carneiro não era consensual, tanto no País como no partido que fundara. E não teve tempo nem, decorrentemente, oportunidade de provar uma estirpe de estadista ou uma compleição de político. Arrebatado, autoritário, impositivo, impulsivo e, diz quem o conheceu, um ser despótico que não ocultava a irritação quando contrariado. Possuía uma ideia de Portugal e um projecto inovador e socialmente equilibrado e justo para o País? Os seus textos não são concludentes. A sua conduta ideológica, emaranhada. Tanto social-democrata como demoliberal. Dependia dos humores. Dispunha de um pessoal conceito de liberdade e uma teimosia formal, calculada e dispersa, que desconcertava os seus próximos. Essa ciclotimia provinha, sem dúvida, da rígida educação católica, um espartilho sufocante de que nunca, em definitivo, se libertou. Mesmo quando a bela, doce, inteligente e culta Snu lhe iluminou a vida e lhe despertou a ideia de que a felicidade pode não ser ilusão e, por vezes, aparece em qualquer idade e vicissitude.

Resta-nos admitir que as coisas possuem, quase sempre, uma relação clara ou subtil, e que a História é uma deusa cega. O legado de Francisco Sá Carneiro está centralizado no "eu", e na invasão da esfera pública pela esfera privada. A lógica desse procedimento leva à desvalorização ou à mediocretização do mando. O resultado está à vista: Cavaco, Santana, Durão são produtos do mesmo molde, crias da mesma matriz. Definem-se pela ausência do sujeito de razão, e pela expressão de um equilíbrio muito frágil entre a sua identidade íntima e as representações da realidade.

Que fundada dimensão possui esta herança?
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«DN» de 8 Dez 10

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Excepção

Mais uma vez, o presidente do Governo Regional dos Açores lançou uma pedrada para o pântano de águas turvas da política portuguesa.

Desta vez, o Governo do socialista Carlos César decidiu atribuir um subsídio compensatório aos funcionários que, auferindo vencimentos entre 1500 e 2000 euros, seriam abrangidos por cortes salariais. A decisão do Governo Regional dos Açores levantou de imediato uma vozearia de condenação, abrangendo um largo espectro político, de correligionários PS do líder açoriano, ao excêntrico Governo Regional da Madeira e às hostes do PSD acrescentadas neste caso pelo chefe de Estado.

A crítica mais viperina à decisão do Governo Regional açoriano procurava igualizá-la às numerosas excepções que o Governo da República tem vindo a instituir para pôr a "boysada" das empresas públicas e sectores da classe política a salvo da austeridade que vai deixar de rastos a sociedade portuguesa. Nada mais falso. O Governo do socialista Carlos César não pretende beneficiar quem já é de si privilegiado, por razões de sangue ou de cartão partidário. Não pretende salvaguardar os que auferem pensões e salários escandalosos, num país pelintra. Os visados na decisão do Governo Regional são trabalhadores comuns.

A classe política central, centralizadora e centralista, ficou em polvorosa. O chefe de Estado, que quando lhe falam no Governo dos Açores puxa logo pelas tábuas da lei, suscitou dúvidas sobre a constitucionalidade da decisão. O chefe do Governo invocou suposta falta de solidariedade. Mas o que verdadeiramente os incomoda é que o Governo Regional dos Açores por mais de uma vez se constituiu num perigoso exemplo para a estabilidade da paz podre. Nem tudo está bem assim e as coisas podem fazer-se de outra forma.
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«DE» de 7 Dez 10

Se non è vero

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Por Nuno Crato

EM CIÊNCIA, como em tudo, há historietas que são mitos ou simplificações da realidade e que, muitas vezes, são ditas porque estão bem apanhadas ou porque servem para enquadrar as ideias numa narrativa sedutora.

Conta-se, por exemplo, que Gauss, ainda criança, conseguiu fazer de cabeça a soma de uma sucessão de números de um a cem, deduzindo a fórmula dessa soma. A estória é curiosa e serve por vezes de intróito à discussão das progressões aritméticas, ou seja, das sucessões de números que progridem somando sempre a mesma quantidade ao número anterior. A sucessão 1, 2, 3, … é uma progressão aritmética, tal como 7, 10, 13, 16, …

Gauss teria reparado que podia somar os números de 1 a 1000 somando 1 com 1000, depois 2 com 999, depois 3 com 998, e por aí adiante. Cada uma destas somas parciais tem 1001 como resultado. Como deveria fazer 500 para esgotar todos os termos de 1 a 1000, Gauss teria simplesmente calculado 500 x 1001 = 500500. Nada mal para uma criança de sete ou oito anos!
A história é engraçada. Tem apenas um senão: é que não existe nada que prove que ela realmente tenha acontecido. Que se deve concluir daqui? Que se trata de uma lenda que deve ser banida dos livros?

Em “Tudo é Relativo e Outras Lendas da Ciência e da Tecnologia”, uma obra acabada de ser traduzida para português pela Gradiva, o físico Tony Rothman apraz-se a contar algumas destas histórias, para a seguir as questionar.

Na realidade… Na realidade, os cálculos de Leverrier que levaram à descoberta de Neptuno em 1846 acertaram na localização do planeta apenas por um acaso feliz — uns anos mais tarde ou uns anos mais cedo, a divergência entre a posição calculada pelo mesmo processo e a posição real do planeta seria demasiadamente grande para que este pudesse ser localizado. Na realidade, não foi Henry Becquerel quem descobriu a radioactividade em 1896 — o oficial de cavalaria Abel Niépce tinha já feito essa descoberta em 1857. Na realidade, não há provas documentais de que Galileu tenha atirado pesos de chumbo e de madeira do topo da Torre de Pisa e, dessa forma, contrariando Aristóteles, tenha chegado à conclusão de que os corpos caem à mesma velocidade, independentemente do seu peso. Na realidade, é questionável que as medidas dos desvios das estrelas no eclipse de 1919 tenham comprovado inequivocamente as previsões de Einstein. Na realidade…

Na sua obra, Tony Rothman, ajuda a reabilitar alguns nomes esquecidos da história da ciência e diverte-nos com muitos dos erros comuns da histórias que, por vezes com a maior boa vontade, nos são contadas. O autor, contudo, não cai no erro muito comum a alguns sociólogos e historiadores pós-modernos, que deduzem da fragilidade dessas histórias a impossibilidade de se saber o que na realidade se passou. Nem cai no erro, ainda mais grave, de dizer que a história da descoberta científica é uma história de arbitrariedades “socialmente construídas”, convencionadas entre os actores de um grupo social, o dos cientistas, de forma a gerar “narrativas da realidade”, tão arbitrárias como quaisquer outras.

Habitualmente, as simplificações da realidade contidas nas lendas e nas estórias simplificadas que se contam sobre as descobertas científicas contêm uma parte da realidade e são instrutivas. Os profissionais da história da ciência não se podem ficar pelas lendas. Mas não há mal nenhum em conhecê-las. Por vezes, “se non è vero è ben trovato”, como dizem os italianos. Nada mais.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 4 Dez 10

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

4 de Dezembro (1980-2010) - Solução: pág. 117

Pág. 117
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Quem mais se tenha aproximado tem 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada para envio do livro. (Em caso de empate tem prioridade o 1.º apostador).
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Actualização (20h16m): O vencedor foi jgoncal, com erro de 4 páginas.

O problema não é bem esse

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Por Helena Matos

A QUESTÃO dos vencimentos dos funcionários públicos dos Açores não é propriamente um assunto de solidariedade ou de falta dela. Não partilho duma visão igualitária da sociedade e não me choca particularmente que um governo regional possa alterar o sistema de vencimentos da função pública daquela região. (O que já não me parece normal é que uma região autónoma possa alterar os poderes do seu parlamento, do parlamento nacional e do presidente da república, como tentou fazer o governo regional dos Açores, e que os partidos assobiem para o ar, deixando o único que tentou travar efectivamente este desmando, no caso o presidente da república, a falar sozinho).

Mas voltemos aos cortes nos vecimentos dos funcionários públicos dos Açores. Quando Carlos César declara que o apoio aos funcionários “não custa um cêntimo” ao Estado porque vai ser utilizado dinheiro que já está afecto à Região Autónoma dos Açores revela duas coisas: a primeira prende-se com a concepção do Estado como um fabricante de dinheiro. Donde vem o dinheiro que já está afecto à Região Autónoma dos Açores: do céu? Dos vulcões? Da Atlântida? A não ser que as rotativas loucas tenham voltado a trabalhar o dinheiro vem dos impostos ou de empréstimos pagos com impostos. Logo todos os cêntimos dessa medida do governo dos Açores virão do bolso dos contribuintes. Mas enfim até aqui nada de novo: todos os dias somos bombardeados com o SNS gratuito e com a escola gratuita, quando na verdade esse gratuito nos sai caríssimo.

O verdadeiro escândalo desta medida de Carlos César é que ela revela que ele trata dos interesses da rede indispensável à sua manutenção no poder - funcionários públicos – e se está bem nas tintas para o povo dos Açores: para que os funcionários públicos ganhem mais os açoreanos que não são funcionários públicos vão receber menos. Pois se a verba estava afecta à Região Autónoma para algo seria. Ou não? Enfim, já se sabe que os serviços, as acções de promoção, os gabinetes, as direcções disto e daquilo… absorvem a quase totalidade dos recursos do estado dito social. O que Carlos César fez foi assumir sem rodeios que o dinheiro é mesmo para isso: para sustentar a malta. Aquela malta que mal se fala em abrir sectores à iniciativa privada, em acabar com a mistificação do gratuito… faz um ar piedoso, gritam solidariedade e clama pelo estado social. Ou seja o seu tacho.
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In Blasfémias

domingo, 5 de dezembro de 2010

Um inestimável serviço à democracia

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Por Rui Tavares

QUE FOI AGORA? Quando a wikileaks publicou documentos das guerras do Iraque, — incluindo um vídeo que mostrava assassinatos cruéis e gratuitos por parte das tropas americanas — a resposta foi que “era verdade mas não era notícia”. O Pentágono, com a ajuda de um jornal preterido na divulgação, tentou alegar que a wikileaks estava a pôr vidas em risco e não a salvá-las (recuaram meses depois, quando já não era notícia). Agora, a divulgação de 250 mil de documentos diplomáticos também tem sido alvo de tentativas de desvalorização, desde os que dizem que “isto tudo já se sabia” até àqueles que acham que “há segredos importantes que é preciso guardar”.

Reparem como estes argumentos são contraditórios: se “isto tudo já se sabia” é porque não são “segredos importantes”, sacou?

Ora, por mais que “achemos que sabemos” o que pensam os sauditas acham iranianos, não conheço nenhum jornalista que não ficasse doido por uma citação do rei saudita chamando ao Irão “a cabeça da serpente”. E quanto à falta de interesse público, vejamos o príncipe André de Inglaterra justificando subornos no Cazaquistão — país de onde, uns meses mais tarde, saiu o homem que lhe comprou uma mansão por quinze milhões de libras, mais três milhões do que o pedido —; será que o contribuinte inglês e o cidadão cazaque, pelo menos, não têm interesse em saber como se faz uma “diplomacia económica” que tresanda a corrupção?

Como nota futura, duas coisas só aparentemente menores chamaram a minha atenção.

Em primeiro lugar, as ordens que diplomatas norte-americanos receberam para coligir informação pessoal (número de cartão de crédito, número de passageiro frequente, dados biométricos, senhas de email) de altos-funcionários internacionais, e em particular de Ban Ki-Moon, o secretário-geral das Nações Unidas. Esta ordem, provavelmente ilegal, não significa apenas que os diplomatas fazem espionagem (sabe Zeus que farão então os espiões). Com alguns desses dados, é possível saber muito sobre uma pessoa: por onde andou e que coisas comprou, se empresta dinheiro ou tem falta dele, em que hotel ficou e quem mais estava no quarto. Não precisa de ser nada muito profundo; mas saber que o ministro x tem uma amante (ou um amante) pode vir a dar jeito um dia.

Não gostei de saber que os EUA recolhem deliberadamente estes dados, e por uma razão: são os dados que, nos casos “SWIFT” ou “PNR”, eles pretendem ter de milhões de cidadãos europeus como você ou eu. Os dados “PNR” — de passageiros, incluindo cartão de crédito e email — são guardados em servidores nos EUA e tratados antes de você embarcar num avião; os dados “SWIFT” — basicamente, as suas transferências bancárias na Europa — já são enviados para os EUA à razão de noventa milhões de mensagens por mês.

E aqui vem a segunda parte. Os documentos agora revelados mostram que quando o Parlamento Europeu chumbou o acordo SWIFT, em fevereiro, os EUA desenvolveram pressões junto dos governos, em particular do alemão, para que estes “controlassem” os seus eurodeputados. É uma pena, aliás, que as fugas de informação se fiquem por fevereiro; é que em maio um acordo levemente diferente foi a votos e passou: que pressões terão ocorrido dessa vez, nomeadamente junto da presidência espanhola?

O futuro da liberdade passa pela segurança e pela integridade dos nossos dados pessoais — e não sei se os EUA, depois de terem perdido 250 mil dos seus documentos secretos, estarão em condições de garantir qualquer delas.
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RuiTavares.Net

sábado, 4 de dezembro de 2010

Passatempo-relâmpago de 3-5 Dez 10

Página 101
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O passatempo foi ganho por C. Eliseu que deu a resposta exacta. Tem, agora, 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada para envio do livro.

E vem aí o 'tio' FMI?

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Por João Duque

PORQUE É QUE acusam os mercados de serem impiedosos se não somos capazes de fechar a boca aos bolos e às guloseimas?

O tio FMI foi ajudar a nossa prima irlandesa. Jovem e estouvanada, a nossa prima é uma gastadora como não há. Imaginem que o Orçamento do Estado irlandês é 93% do nosso em termos de despesa total quando eles são um pouco menos de metade que nós em termos de população, mas com a mesma dimensão em termos de PIB. Ainda por cima, a pequena meteu-se com um banqueiro a quem arruinou e a quem a família quis compensar.

Conclusão, como os primos da Irlanda não têm fortuna para tudo, ajoelham aos pés do tio solteirão, para a habitual ajuda: o tio FMI, aquele velho solitário, mas cheio de dinheiro, a quem todos recorrem em caso de aperto sério.

Mas o velho é exigente. Empresta e safa quando necessário, mas depois não larga a porta... Sempre de volta de nós, não deixa fazer mais nada. Não podemos ir passar férias, não podemos jantar fora, não podemos mudar de guarda-roupa, jóias ou automóvel. As festas passam a ser vistas de fora e passados um ou dois anos já suspiramos com saudades do tempo em que nos ríamos na cara dos credores com o descaramento de quem pede e sabe que não vai pagar, pelo menos com o suor do seu rosto...

A Irlanda estava em apuros. Gastava muito mais do que nós. No curto prazo o caso parece mais grave, mas ela tem várias qualidades que invejo. É jovem (a população de jovens abaixo dos 15 anos de idade é de 21% enquanto a nossa é de 16%). Tem menos velhotes para cuidar (a população de idosos acima dos 65 anos de idade é de 12% enquanto a nossa é de 18%). A língua materna é o inglês, faz parte da cultura e da mentalidade anglo-saxónica, e é mais educada. A composição do PIB irlandês ainda depende mais de 50% da agricultura (5%) e da indústria (46%), bens que pode exportar e com isso recuperar a beleza de outrora. O nosso PIB depende 74% dos serviços, a vasta maioria deles não transacionáveis...

Somos mais pobres do que a nossa prima, gastamos menos per capita em termos de despesa pública e não desgraçámos (por enquanto) nenhum banqueiro de vulto (há dois que se queixam, mas nada que se compare com a encrenca irlandesa).

Agora sentimo-nos sós e abandonados ao sabor dos maus investidores que não dão tréguas ao custo da nossa dívida. E a dúvida é saber se seremos capazes de fazer o que prometemos. Até agora, mês a mês, a nossa execução orçamental é uma vergonha no confessionário. A promessa de que "para o mês não voltarei a pecar" esbarra com a nossa incapacidade para estancar a gula pecaminosa... Mais dois pai-nossos e duas avé-marias... O ano de 2010 ainda está para acabar e todos sabemos que não vamos conseguir cumprir as juras prometidas sem malabarismos contabilísticos. E não são os juros... Eles só desequilibram quem já está em queda!

Porque é que acusam então os mercados de serem impiedosos se nós não somos capazes de fechar a boca aos bolos e às guloseimas?

Acabámos de prometer descer os salários e já corremos a excecionar um grupo!

O tio FMI chegou a Dublin e já começou a apertar: 25 mil funcionários borda fora, cortes adicionais ao prometido.

Alguém tem dúvidas que, dado o nosso trajeto de incumprimento sucessivo, vamos mesmo chamar o tio FMI? Então o melhor é gostar dele. Tratá-lo por um carinhoso 'tio' é um bom começo.
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«Expresso» de 27 de Nov 10

O Dia da Restauração

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Por Antunes Ferreira

O DIA DA RESTAURAÇÃO já lá vai. Passados dois dias do feriado (motivo que leva muito boa gente a comemorá-lo patrioticamente) dou-me conta de uma entrevista sobre o tema, dada pelo chefe da Casa Real, D. Duarte de Bragança, à Lusa. Disse o ilustre Senhor que os cem anos de regime republicano, recentemente comemorados, têm sido «uma grande perda de tempo», visto que todas as realizações da república estavam igualmente ao alcance da monarquia e podiam ter sido obra desta. O eterno pretendente à Coroa, no singular, poderia muito bem ter afirmado, convictamente, que se o pai dele não tivesse morrido, ainda hoje era vivo.

D. Duarte Pio ainda teve tempo para se referir ao facto, no seu entender, de o País estar falido, o que nem é de espantar pois, após esses cem anos de desgraças, Portugal volta «à situação dramática em que nos encontrávamos no começo da República», ou seja, a falência. De passagem, aproveitou para igualizar os três movimentos militares que marcaram o século XX português: «Cada um desses golpes militares - 1910, 1926 e 1974 - provocou grandes perturbações, grandes atrasos na nossa economia, até situações de perseguição e perturbações políticas gravíssimas».

O chefe da Casa de Bragança repetiu que «um rei facilitaria a unidade dos países lusófonos porque não se punha tanto o problema de quem seria a chefia de Estado dessa união». Donde, é mais do que absolutamente necessária a restauração da monarquia. Se houvesse um referendo, D. Duarte acredita, piedosamente, que a esmagadora maioria dos Portugueses escolheria o regime monárquico.

Até aqui, nada de inédito, nem de muito mérito. O curioso foi a novidade que revelou: pediu a nacionalidade timorense, devido às «relações profundas com Timor-Leste». Presume-se que são as dele, porque acentuou especificamente que «gostaria de ter a nacionalidade timorense»; para isso, «a Casa Real já encetou os contactos para a obtenção da dupla nacionalidade, portuguesa e timorense, através de um pedido comunicado ao Presidente José Ramos Horta». E que sempre apoiou a causa da independência timorense. «Eu sou o liurai de Portugal». Bonita comparação, acrescento eu.

Estas declarações do pretendente desenganado, levam-me a que vos confidencie que tenho defendido, entre a brincadeira e a convicção (mais a segunda do que a primeira), que face às ocorrências do Primeiro de Dezembro de 1640, quem devia ter estátuas por toda a parte era o senhor Miguel de Vasconcelos, o que quer dizer que o defenestrado teria sido o senhor João Pinto Ribeiro.

Aliás, este último teve, logo no momento, muitas dificuldades em convencer D. João de Bragança a colocar a coroa real. E foi uma andaluza, D. Luisa de Guzmán, pelo casamento Gusmão, que o empurrou para a aventura: mais vale ser rainha um dia do que duquesa toda a vida. Parece que a forma terá sido ligeiramente diferente, mas a substância era mesmo essa.

Donde, hoje seríamos una Región Autonomica, falando Português e confrontando-nos com o Señor Zapatero, mas tendo um rei que fala a nossa língua. Deste modo, outro galo cantaria e não apenas o de Barcelos. Sou, assim, um traidor, de acordo com o que me têm dito frequentemente. Há, porém, que tomar em conta uma circunstância. Farto de dez milhões de loucos gastadores e ingovernáveis, Madrid, a braços com problemas também quanto aos juros da dívida pública, já nos teria concedido a independência. Daí, porquê continuarmos a festejar o Primeiro de Dezembro?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

«Dito & Feito»

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Por José AntónioLima

O PRESIDENTE da PT, Henrique Granadeiro, recusa entregar ao Parlamento o relatório da auditoria feita à actuação de Rui Pedro Soares e Paulo Penedos no caso TVI .

E recusa, sublinhe-se, faltando à palavra e ao compromisso assumido pelo CEO da PT, Zeinal Bava, de facultar essa auditoria à Comissão Parlamentar de Inquérito. Granadeiro alega agora, para sonegar os factos apurados, que são «questões do foro interno» da PT. Não, obviamente não são. São questões de interesse público. E do foro da sociedade portuguesa como um todo, pois ajudam a perceber até que ponto se desenvolveu uma malsã promiscuidade entre o poder político e o poder económico e financeiro. Uma promiscuidade que permitiu (ao que por enquanto se sabe) fazer ascender boys da clientela partidária, como estes Soares e Penedos, a altos cargos de grandes empresas, deixá-los manipularem milhões de euros a seu bel-prazer, porem em prática esquemas para controlar a comunicação social e a liberdade de expressão, etc., etc.

Questões de foro interno da PT?! Granadeiro está muito enganado. E ver-se-á obrigado a perceber que é insustentável manter o encobrimento num caso que exige absoluta transparência cívica. Que é inaceitável caucionar a insalubridade político-empresarial numa questão onde se impõe a mais profiláctica decência democrática.

ASSINALE-SE que a PT beneficiou nas últimas décadas de condições verdadeiramente privilegiadas, por parte do poder político, para exercer a sua actividade - tal como a EDP, a Galp e outras empresas do sector não transaccionável -, em situação de monopólio ou duopólio, impondo os seus preços, as suas taxas, as suas próprias regras de mercado ao país e aos consumidores. Acumularam milhares e milhares de milhões, chamaram a si os maiores talentos universitários e os melhores quadros (com condições de salário, de investigação e de carreira incomportáveis para a maioria das outras empresas - por exemplo, as exportadoras que enfrentam a concorrência internacional), distribuíram prémios milionários.

E, no momento em que se cortam salários, se aumenta a carga fiscal e redobram os sacrifícios para a maioria dos portugueses, a PT recorre à artimanha de antecipar os dividendos aos accionistas para, assim, fugir a pagar 70 ou 80 milhões em impostos.

Cabe, pois, perguntar: quanto valem, nesta altura, para a PT valores como a responsabilidade social, a ética empresarial ou a solidariedade nacional? Estes dois exemplos respondem por si.
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«SOL» de 3 Dez 10

Fome

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Por João Paulo Guerra

AS REPORTAGENS mais ou menos dramáticas que começam a encher páginas de jornais e revistas com o retrato de um país de miséria e fome – este país, o País da Fome, chama-lhe esta semana a revista Visão – não retratam ainda resultados da presente crise nem da próxima austeridade.

Reflectem, isso sim, efeitos de uma política seguida nas últimas décadas. Mas, muito particularmente, reproduzem consequências da política do Governo actual: o poder de compra dos salários e das pensões degradou-se, o desemprego acelerou, o número de pessoas com trabalho em risco de pobreza explodiu, a percentagem de crianças pobres no conjunto da população escolar disparou, a desigualdade impôs-se como regra ao longo dos mandatos do governo de um partido que se chama socialista.

Já não há termos de comparação com outras situações em democracia mas lá chegaremos - a tempos mais dolorosos que os da fome em Setúbal nos anos 80 - não tanto por efeito da crise mas por consequência da cura decidida pelo Governo PS apoiado à bengala do PSD. Como chegaremos, muito provavelmente, aos tempos da penúria salazarista. Esta semana, o primeiro nevão do Outono trouxe notícias de milhares de crianças privadas de ir às aulas, porque não tinham transporte para escolas longínquas das suas residências, uma vez que as escolas mais próximas fecharam. A diferença é apenas que nos tempos negros da ditadura as crianças percorriam aqueles caminhos a pé e descalças. Mas também não sabemos se com a austeridade sobrará dinheiro para a gasolina da camioneta da Câmara e mesmo para os sapatos.

Começa a ser urgente que o Governo promova um lauto almoço de trabalho com os parceiros do costume para discutir, na hora dos fumos e dos néctares raros, o problema da fome em Portugal.
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«DE« de 3 Dez 10

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A malta do "bloco" - Solução

AS FOTOS são de Lagos, e os blocos de betão têm a função de bancos de jardim e de pilaretes, para impedir o estacionamento em cima deste passeio, recentemente feito. No entanto, o pessoal habituou-se de tal forma a estacionar em cima deles que, quando aparecem obstáculos como estes, a primeira reacção é ignorá-los! Veja-se nas duas imagens de baixo como a rua não lhes basta...

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A generosidade e o rancor

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Por Baptista-Bastos

E, DE REPENTE, abriu-se o caminho de uma vida generosa. O português com extremas dificuldades veio socorrer o português com fome. A grande força espiritual que se move nas horas de desespero, e parecia ameaçada de inanidade, irrompeu no último fim-de-semana. Uma ruptura surda com a indiferença, uma explosão de solidariedade, a contrariar os sinais do tempo e a cupidez que nos tem sido inculcada. As toneladas de comida entregues ao Banco Alimentar podem não constituir a fulguração de uma felicidade perpétua, mas representam sentimentos que rasgam os silêncios de uma sociedade cercada.

A ideologia dominante, que estimula o individualismo, a insensibilidade social e a neutralidade cívica, não sai derrotada desta acção, nem esta experiência de generosidade resolve o drama português. Se a boa vontade não é esclarecida, e os limites do amparo não forem definidos pela política, o balanço da iniciativa apenas momentaneamente é positivo.

O sistema de ganância, de dissolução de valores, destruiu os laços relacionais formativos dos povos e das instituições. É necessário não só renunciar mas, sobretudo, combater esta doutrina que não concilia o respeito mútuo com a dimensão e as exigências civilizacionais. As nossas heranças só serão desiguais quando desinvestimos no carácter humanista da condição a que pertencemos. As decepções e as insatisfações permanentes talvez justifiquem algumas das nossas debilidades morais, como a indiferença ante o sofrimento dos outros. Mas não podem nunca caucionar a duplicidade dos nossos comportamentos nem a capitulação das nossas batalhas.
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NO MOMENTO - O Miguel Sousa Tavares fez publicar, na gazeta semanal onde costuma deixar as escorrências a que chama artigos, um texto sobre a greve, cujo teor me abstenho de qualificar. A meio, insere um comentário, pretendidamente espirituoso, à minha crónica da última quarta-feira. Não lhe acerta uma. Deseja, apenas, fazer chicana. E demonstra uma impiedosa crueldade para quem gosta de prosa escorreita e asseada: não consegue escrever com tino, brio e gramática. Aquilo é um emaranhado de disparates, de espinoteantes tolejos, e apenas traduz a conjunção do que de mais retrógrado existe na sociedade. Ele é o xamã dessa tendência. Como só o leio quando se me refere, obriga-me, nessas funestas ocasiões, ao penoso exercício de tentar perceber o que quer dizer. Saí da árdua leitura em estado de exaustão. Sobre manifestar uma atroz inimizade com a língua portuguesa, o pobre homem é desprovido do mais escasso pingo de humor. E não é difícil descortinar, no seu carácter amolgado, sinais de ressentimento, de rancor e de despeito. É só. Mas acaso seja necessário, voltarei a tão encantador assunto...
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«DN» de 1 Dez 10

terça-feira, 30 de novembro de 2010

As botas mágicas dos macacos aranha

Por Nuno Crato

UM HOMEM BÊBADO, passeando ao acaso pelas ruas, sem memória do percurso andado nem ideia da direcção a tomar, é a imagem mais frequentemente usada para ilustrar o conceito matemático de passeio aleatório. Falámos deste conceito várias vezes, desde a primeira crónica que aqui saiu com este título genérico até uma outra de há poucos meses atrás. Se a ideia é repetida, é porque este modelo matemático tem aplicações em áreas tão diversas que estão sempre a surgir notícias das suas aplicações.

O passeio aleatório, entendido como um movimento ao acaso obtido por choques de impulsos, apareceu pela primeira vez em 1900 nos trabalhos dum obscuro matemático francês chamado Louis Bachelier — o objectivo era modelar os movimentos de preços nas bolsas de valores. Cinco anos mais tarde reapareceu pelas mãos de Albert Einstein para explicação dos movimentos de pequenos grãos de pólen mergulhados num líquido, um fenómeno que tinha sido pela primeira vez observado pelo botânico Robert Brown e que acabou por servir de prova experimental da existência de átomos e moléculas.

Em 1935 e nos anos seguintes, outro matemático francês, Paul Lévy, começou a estudar um tipo de movimento em que os saltos podem ser tão bruscos que, de um golpe, se pode andar mais do que em milhares de pequenos saltos (tecnicamente: a distribuição normal é substituída por uma outra de variância infinita). Chamou-se a este tipo de passeio aleatório “voos de Lévy” (Lévy flights). Tudo se passa como se o nosso bêbado, de repente, passasse a usar botas mágicas, como o Pequeno Polegar da história das botas de sete léguas.

Foi preciso passarem muitos anos sobre os trabalhos teóricos do matemático francês para que se encontrassem na natureza fenómenos deste tipo. Foram descobertos por acaso em 1990, no movimento microscópico de moléculas arrastadas em agregados de longos filamentos (micelas). Depois disso, encontraram-se muitos exemplos semelhantes. Ainda recentemente, em Junho deste ano, descobriu-se que os tubarões praticavam voos de Levy quando procuravam comida em águas de caça pouco abundante.

Este mês foi feita uma nova descoberta (doi: 10.1103/PhysRevLett.105.190601). Estudando os movimentos dos macacos aranha — uma família de símios de pernas e braços muito longos que vivem na floresta amazónica — dois investigadores da Universidade da Califórnia notaram que esses animais descrevem trajectórias semelhantes aos voos de Levy: passam muito tempo movimentando-se aleatoriamente em pequenos movimentos e, de repente, cobrem grandes distâncias.

Notaram ainda que os movimentos que fazem, com saltos longos que lhes permitem explorar em pouco tempo vastas zonas da floresta, são especialmente propícios a caçadas dispersas em que os caçadores evitam encontrar-se. Tudo se passa como se, na procura de comida, esses símios procurassem a maneira de maximizar a plausibilidade de encontro de comida e a minimizar a probabilidade de encontros adversos. Os dois investigadores chamaram a estes movimentos “voos de Lévy viciosos” (vicious Lévy flights) e estudaram matematicamente as implicações deste modelo. Os macacos aranha só têm a lucrar com as botas mágicas do Pequeno Polegar.

RECTIFICAÇÃO: Na última crónica afirmei, erradamente, que a exposição de Escher em Évora era a primeira no nosso país. Na verdade, uma outra mostra, que desconhecia, teve lugar na Fundação Calouste Gulbenkian em Janeiro de 1982. Peço perdão aos leitores e à Fundação pelo erro, que um leitor notou e generosamente me indicou.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 27 Nov 10

Passatempo Caos e Impunidade

O da esquerda é português e o da direita é austríaco.
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Os vencedores, 'Mg' e João Rodrigues, têm 24h para escreverem para medina.ribeiro@gmail.com, indicando morada para envio dos livros, que são: «Prova os melhores vinhos portugueses», de Jancis Robinson e «Austria - Guide to fine wines», de Manfred Flieser.

Penúria

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Por João Paulo Guerra

O LÍDER DO PSD vaticinou, qual Bandarra, 8 anos de penúria para que Portugal se restabeleça da crise. Certamente que o guru do PSD, tal como o régulo do PS, entendem que basta o vaticínio para que os portugueses amochem numa apagada e vil resignação perante os desígnios do destino. A política conduziu ao desastre, a banca promoveu o crédito e o endividamento com todas as facilidades e para todos os fins, o País caminhou para o abismo perante a alegre e irresponsável política das promessas irrealizáveis para arrebanhar votos... E agora, tomem lá oito anos de penúria, escassez, miséria, pobreza para pagar a irresponsabilidade dos políticos - que vão aliás continuar a governar em alternância de impunidade - e o endividamento mais os astronómicos lucros da banca.

Oito anos de penúria significam miséria para a generalidade do povo e perda de oportunidades para milhares de jovens construírem o seu futuro. Mas claro que isso não é questão que preocupe a classe política e económica dominante que, entre velhos e novos-ricos, vai cada vez constituindo uma casta de opulência num país de miséria. Segundo o próprio FMI, é este fosso entre ricos e pobres que está na origem da crise. Portanto, o empobrecimento geral de um país mergulhado em oito anos de penúria só vai gerar novas crises.

A greve geral do passado dia 24, para lá do ilusionismo do Governo em relação aos números, mostrou uma quantidade e qualidade de contestação raramente vista em Portugal. Mas tanto o primeiro-ministro do PS como um eventual primeiro-ministro do PSD sabem que têm na mão o queijo da democracia como a faca da repressão. Ou, em linguagem mais terra-a-terra, a imposição da política da penúria como os blindados e outro equipamento que sobrou da Cimeira de Lisboa.
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«DE» de 30 Nov 10

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Por Manuel João Ramos

Interrrupção da democracia. Por seis meses apenas?

“Não sei se temos capacidade de resistir”

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Por João Duque


«DE»: Portugal deve pedir ajuda?

JD: Se Portugal tiver de pedir ajudaé porque os mercados assim o impõem e em resultado daquilo que pode ser a incapacidade de Portugal vir a recolher financiamento no mercado internacional. Ou seja, é um pouco resultado daquilo que é uma impossibilidade. Agora, de livre e espontânea vontade é difícil de dizer, até porque esse tipo de pedidos agravam as condições do rigor do controlo orçamental e normalmente nãoé fácil. É preferível não a pedir e pedirmos créditos e controlara despesa, admitindo que temos condições e que o mercado não nos penalize.

«DE»: Em que condições deveria Portugal negociar essa ajuda se a pedisse?

JD: Pedir ajuda depende das condições financeiras do apoio. Seria caricato pedir ajuda para estarmos a pagar o mesmo preço sem ajudas. O custo de capital terá de ser mais baixo. Mas o que deveria acontecer era haver emissão de dívida europeia, era um passo importante. Se conseguíssemos emitir dívida federal, duvido que o preço fosse além dos 3,5 ou 4%, o que é completamente diferente do que financiá-lo a 7% como estamos agora. Se conseguíssemos crédito em condições razoáveis, acho que era bom não termos de recorrer à ajuda. Para mim, o ‘trade off' é: se forem razoáveis as condições que nos oferecem para o custo desta dívida, devemos pensar se de facto vale a pena.

«DE»:Até Dezembro, a pressão para pedir apoio vai ser maior?

JD: Infelizmente, acho que a pressão já é enorme e eu não sei se temos capacidade para resistir. O problema põe-se ao nível dos bancos. O BCE vai começar a empurrar os bancos para o mercado do crédito internacional e aí, sim, temos um grande problema porque depois o mercado não concede crédito aos bancos. Ou o mercado internacional está depois aberto ou então o Estado tem de entrar com dinheiro fresco no capital dos bancos para não deixar cair em incumprimento. E isso piorava a situação. O Estado teria de recorrer a mais financiamento.
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«DE» de 29 Nov 10

domingo, 28 de novembro de 2010

Em greve

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Por Rui Tavares

HÁ 17 ANOS, salvo erro, passei este dia em frente à Assembleia da República, numa manifestação de estudantes contra o aumento das propinas.

Não éramos muitos; mas estávamos determinados a ficar ali o tempo que fosse preciso. Tinha havido um jogo de avanços e recuos com a polícia nas escadarias do parlamento. Eles ganharam. Ao fim da tarde, estávamos arrinconados no pequeno largo cá em baixo das escadarias de São Bento.

De repente, sem dar aviso, avançou sobre nós a polícia de choque. A intenção era limpar o largo, e conseguiram-no. Alguns de nós fugiram pela rua de São Bento. Outros — entre os quais eu — pela Rua do Quelhas. A violência foi inesperada e, mais do que desproporcional, injustificada. Num recanto ajardinado da Rua do Quelhas lembro-me de ter visto em espasmos e com dificuldade de respiração uma miúda frágil e perfeitamente inofensiva.

Portugal não tinha então — e não voltou a ter, valha a verdade — hábitos de repressão policial sistemática e agressiva. Ficámos surpreendidos, embora pouco tempo antes de nós tivesse acontecido com os trabalhadors da TAP. Pouco depois viria a acontecer, de forma mais séria, com os trabalhadores da Pereira Roldão na Marinha Grande. E depois, de forma grave e mesmo criminosa, na repressão aos acontecimentos da Ponte 25 de Abril.

Desde então, muitos governos nossos têm caído, cada um à sua maneira: em fuga ou em farsa. Mas nenhum como esse governo terminou com aquela mistura de agressividade, repressão e teimosia, com um bocadinho de burla e faturas falsas à mistura.

O primeiro-ministro era Cavaco Silva. O ministro do interior era Dias Loureiro.

É curioso ver como parte dos nossos problemas têm as suas raízes naqueles tempos. Quando nos aumentavam as propinas e tornavam os estudos mais caros, os ministros de Cavaco diziam-nos que seríamos compensados com empréstimos bancários. A sugestão era: endividem-se para estudar, antes de se endividarem para comprar casa. Esses estudantes estão hoje sub-empregados ou no estrangeiro, e as dívidas acumulam-se.

O outro lado dessa moeda foi a banca, com a sua mistura de irresponsabilidade, promiscuidade com a política e práticas predatórias — tudo tão bem representado pelo mesmo Dias Loureiro que Cavaco Silva manteve até à última no Conselho de Estado já em pleno caso BPN.

A última Greve Geral convocada por duas centrais sindicais foi em 1988, mais uma vez no tempo de Cavaco Silva, e um dos poucos sucessos da oposição nesses anos.

As coisas mudaram muito entretanto. Esta é provavelmente a primeira Greve Geral para essa geração de há dezassete anos, e para os jovens que vieram depois dela. Estes já não são o trabalhador clássico, mas uma nova mão-de-obra precarizada e subaproveitada — as vítimas do neoliberalismo, e da crise do neoliberalismo.

E esta é também uma greve geral em que não há um único adversário definido. Não basta escolher um primeiro-ministro mal-amado. À nossa frente está uma constelação de ideias erradas, debilidades institucionais em Bruxelas, egoísmos nacionais na Europa, os termos enviesados de uma competição injusta com a China — e as nossas boas velhas dificuldades estruturais.

O sentido de uma greve, no entanto, continua o mesmo. É o povo parar e perguntar — sem os nossos braços que fariam vocês? Para quem governam afinal? Chegou o momento de o usar.
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RuiTavares.Net - 25 Nov 10

Palavras para quê? É um ministro da propaganda à portuguesa

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De Manuel João Ramos


No Semanário SOL de 26/11/2010

CAOS NAS MULTAS DE TRÂNSITO

Auditoria da IGAI alerta para a “grave situação” da Autoridade de Segurança Rodoviária
Sónia Graça

UMA AUDITORIA bastou para pôr a nu o que o Governo nunca admitiu: a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), sucessora da Direcção-Geral de Viação, encontra-se numa “grave situação: os serviços demonstraram um “elevado nível de incapacidade para dar seguimento, em tempo útil, às diversas fases de tramitação dos autos”. Só no ano passado, prescreveram 600 mil processos; em média, por ano, a Polícia abre um milhão.

Em causa, segundo uma auditoria financeira da Inspecção-Geral da Administração Interna (IGAI), estão várias lacunas. Desde logo, a manifesta falta de pessoas: para 164 lugares previstos no quadro, apenas 72 estavam preenchidos no início do ano.

A auditoria - a que o SOL teve agora acesso - foi entregue em Abril ao ministro Rui Pereira. Desconhece-se se foram entretanto adoptadas as recomendações da IGAI.

Só... estruturas

As deficiências apontadas à ANSR, colmatadas pelo outsoursing, estão na origem de outras anomalias. Criada em Maio de 2007, a ANSR ainda não tem um conselho administrativo com serviços de tesouraria e contabilidade para gerir as contas bancárias e os movimentos financeiros.

Uma das 10 contas, por exemplo, é do BES e está reservada para verbas das contra-ordenações. No entanto, nem o BES nem o instituto de Gestão da Tesouraria e Crédito Público enviam à ANSR extractos detalhados sobre as centenas de milhares de movimentos de conta, cujo controlo é “quase inexistente”.

Razões pelas quais, denuncia a IGAI, “não estão garantidas, de forma alguma, as boas práticas da gestão dos dinheiros públicos”. Passados três anos, não existe um arquivo de documentação dos processos que dê resposta quer às necessidades da própria ANSR, quer às múltiplas solicitações de entidades externas. Há uma grande dificuldade de preparação dos processos para remessa a tribunal”, lê-se na auditoria.

Os inspectores confirmaram o pior quando solicitaram a responsáveis deste organismo 39 processos (suporte físico) para verificar o seu controlo: 14 pura e simplesmente não foram localizados e os restantes estavam deficientemente organizados”, dada a falta de documentação (originais dos autos, gulas de pagamento, avisos de recepção de notificações, etc).

86%de prescrições...

Quase todos os processos analisados, aliás, tramitaram no SIGA (sistema informático de gestão de autos) sem que existisse o original do auto ou o comprovativo do seu pagamento. São, portanto, tomadas decisões como se o infrator ainda não tivesse pago a coima. À conta deste erro, acaba por ser condenado ao agravamento da multa, acrescida de custas e da aplicação da sanção acessória.

As fragilidades do sistema informático são muitas: como o SIGA não gera listagens de situações relativamente às quais devem ser feitos reembolsos. Nem existem mecanismos de controlo automático para o efeito, são muitas vezes os próprios condutores que reclamam a devolução das quantias, uma vez absolvidos ou prescrito o auto.

A prescrição é, de resto, o desfecho da maioria dos processos. No ano passado, assim terminaram 598.013 autos - dos quais 516.400 (86%) “morreram” numa “fase muito embrionária” antes de ter sido proferida qualquer decisão (297.048 ainda não tinham sido registados no sistema).

Recorde-se que em Março de 2008, quando a ANSR celebrou um protocolo com a Ordem dos Advogados, sob orientação do Ministério da Administração Interna (MAI), para agilizar o processamento dos autos, o ministro Rui Pereira prometia: “Daqui a um ano não haverá processos atrasados nem em risco de prescrição».

E menos 12 miIhões de receita

Em termos práticos, a prescrição significa que deixam de ser aplicadas sanções acessórias de inibição de condução e ficam por registar, no Registo Individual do Condutor, as infracções graves e muito graves. Resultado: o condutor continua muitas vezes a beneficiar de penas suspensas e atenuação especial das sanções», diz a IGAl. Facto que, advertem os inspectores, “em nada contribui para a diminuição dos comportamentos de risco na estrada, antes potencia convicções de impunidade”.

Quando, além disso, as decisões implicam sanções pecuniárias (coimas e custas), a prescrição significa a não arrecadação da receita – que registou, aliás, uma quebra de 13% entre 2008 e 2009, equivalente a cerca de 12milhões de euros.

Mas há erros - descobriu a IGAl -, que começam nas entidades fiscalizadoras. Em 2009, a ANSR devolveu nove caixotes com originais e duplicados de autos à Direcção-Nacional da PSP e seis ao Comando Geral da GNR. Uns foram recebidos em situação irregular ou sem documentação essencial. Outros diziam respeito a infracções cometidas há mais de dois anos (neste caso, a IGAI recomenda que se apurem os motivos que levaram à prescrição dos autos na posse das polícias).

Enviada ao presidente do Sistema de Controlo Interno da Administração Financeira do Estado e ao controlador financeiro do MAl, o relatório da IGAl deixa um recado ao Governo: “Esta realidade deverá motivar uma cuidada reflexão, sob pena de estarmos perante a completa descredibilização das entidades intervenientes em todo o processo relacionado com as infracções estradais”.

sábado, 27 de novembro de 2010

Um mágico português – só?

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Por Antunes Ferreira

O MÁGICO Luís de Matos assinou contrato com a cadeia britânica BBC para uma série de cinco programas a serem emitidos em Janeiro do próximo ano. Isto de acordo com a assessoria de imprensa do ilusionista português. Mais se soube que o programa, com o título de «The Magicians» será apresentado pelo britânico Lenny Henry, e Luís de Matos aparecerá ao lado do norte-americano Chris Korn e da dupla britânica Barry & Stuart, contando cada episódio com diversas celebridades britânicas convidadas.

Neste Portugal a fingir, nada mais natural que um mágico da casa se notabilize lá fora. Lá fora é um velho bordão que, se usado frequentemente, se transforma em chavão mais ou menos calino, mais ou menos cabotino. Não admira que numa terra em que uma boa quantidade de gente, nomeadamente com responsabilidades, anda a tentar enganar menos os restantes, um prestidigitador se alcandore a níveis mundiais.

Matos não é um David Cooperfield, não será um Houdini, nem sequer um Dai Vernon. Mas é portuga. E lá diz o Nicolau Bryner no anúncio televisivo, prefira produtos portugueses. De resto, deixem-me que diga que é repetitivo, pois já anteriormente se dizia tal. Mesmo assim, concordo. O difícil é encontrá-los.

Retrocedo até o mago Merlin e continuo à procura ao longo dos séculos de um semelhante a Luís de Matos. Tarefa difícil, pois nisto de ludibriar o próximo somos dos melhores. Socorro-me da banda desenhada: o Mandrake e o seu ajudante Lotar, a Maga Patalógika, a Madame Min são de outras estórias, doutros quadradinhos, não podem entrar nestas comparações.

Fico-me, então pelo panorama da magia da actualidade, do ilusionismo da crise, dos passes dos políticos que tiram os coelhos das cartolas; no caso, é mais o Coelho e são passos, com o, sem e. Neste espectáculo circense quotidiano, o que não falta, por conseguinte, são os ilusionistas. E os mentirosos, com o pedido de perdão aos magos. Mas, não nos esqueçamos de que mentir é enganar. Daí que tenhamos parido o rifão com a verdade me enganas.

O OE 2011? Um presságio? Nada disso: uma fatalidade mágica. Porém, no contexto dos dias de hoje, a aprovação dele na Assembleia da República já entra perfeitamente no ilusionismo do seu cumprimento. Que não é o mesmo do seu comprimento. A greve geral? Uma prestidigitação. Como se tornou habitual, as forças sindicais falam em esmagadores 90% de adesão; o Governo nuns escassos 20%. Quem se terá enganado? Quem terá sido enganado?

E o FMI? E a União Europeia? E o senhor presidente Durão Barroso? E o Banco Central Europeu? E o senhor ministro Teixeira dos Santos? E o senhor deputado Miguel Relvas? E o senhor secretário geral Jerónimo de Sousa? E o senhor grande educador Francisco Louçã? E outros senhores? E, enorme Raphael Bordallo Pinheiro, o pobre Zé Povinho?

Basta de tanto sofrer. Ó senhor Luís de Matos, faça o favor de explicar televisivamente aos súbditos de Sua Graciosa Majestade que a Aliança mais velha do Mundo foi, na verdade uma magia de encantar. Nos. Na verdade, mágicos da casa não fazem milagres.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Meninas e senhoras «M/F»

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«Correio da Manhã»

Mudar a vida, transformar o mundo

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Por Baptista-Bastos

PODEM NÃO ESTAR de acordo, e ainda bem!; podem, por vezes, ser mal-educados e até grosseiros, quando ocultam a cobardia no anonimato - mesmo assim, desde que inteligentes, vale a pena lê-los. Ao longo de uma vida de combates e causas tenho sido objecto de comentários azedos e indecorosos. Não me afectam. Já o disse e escrevi em amiudadas ocasiões. Evidentemente, as injúrias ficam com quem as pratica e, acaso esses correspondentes fossem decentes e dignos, escrever-me-iam directamente. O meu correio electrónico está aposto no final das crónicas que subscrevo. E tenho por costume responder a toda a gente.

Mas há políticos, comentadores, analistas, jornalistas que são objecto de frases escabrosas, comportando insultos pessoais. Há quem não aguente esta onda de canalhice. Ainda há tempos, uma jornalista conhecida solicitou, à direcção do diário onde trabalha, a supressão dos "comentários" que leitores desbocados faziam electronicamente. Eram pequenos textos absolutamente repugnantes. Os artigos dessa jornalista atingiam os objectivos a que se propusera: zurzir nos lombos de reaccionários, de biltres e de safados. Estes reagiam com a cobardia de quem não dá a cara.

O escrevinhador anónimo não fornece, somente, a dimensão do infame. Trata-se de um espírito doente, da ordem da psiquiatria, a que os psiquiatras atribuem uma catalogação específica. O correio electrónico quase se transformou num confessionário de medrosos (e de merdosos), habitualmente ressentidos, de Direita, antigos legionários e filhos e netos de pequenos fascistas de trazer por casa.

Há artigos e ensaios que explicam estas situações. A circunstância de não haver regulação permite que indivíduos caluniem todos aqueles que entendam. Geralmente, pessoas de quem não gostam, por este ou aquele motivo, por esta ou por aquela razão. Frequentemente, essas aleivosias seguem a dignidade do visado, pegam-se-lhe como lapas e prejudicam, profundamente, a pessoa e as famílias.

Tenho para mim que a gravidade da questão reside, essencialmente, aí. E como sou absolutamente contra qualquer espécie de censura, prefiro o carácter fraudulento e desprezível do canalha anónimo do que a redução do que ele diz a uma mordaça.

A existência, e a prática, do leitor inteligente permitem que a discussão atinja níveis elevados. No caso vertente, há correspondentes (não me refiro a blogues, bem entendido) cujo grau cívico, intelectual e cultural é tão baixo que repugna. Não é de estranhar. O nível de leitura dos portugueses é baixíssimo; a escolaridade obrigatória não é nada obrigatória; os seus interesses limitam-se ao conhecimento dos nomes dos futebolistas, aos clubes a que pertencem ou a que vão pertencer; e a ter comportamentos selváticos, antes, durante e depois de certos desafios.

Digamos, sem rebuço, que o português comum ignora o que se passa em Portugal nos domínios da política, da arte, da literatura, da ciência. O programa da RTP-1, "Quem quer ser milionário" é elucidativo. Às perguntas mais rudimentares sobre História, Geografia, os concorrentes respondem com autênticas bojardas. E muitos deles possuem cursos superiores!

Na quarta-feira, p.p., o "Público" noticiava que jovens, dos mais qualificados que até hoje existiram no nosso País, estão em debandada para o estrangeiro. Não são nenhum daqueles que aparecem no tal programa, certamente. Mas a imagem de Portugal é-nos também devolvida pela Imprensa que temos. Um Imprensa acrítica, preguiçosa, notoriamente tendenciosa e sempre, ou quase sempre, favorecedora de quem está no poder - ou para lá caminha. O contra-senso é que, entre os mais novos, há excelentes jornalistas… e péssimo jornalismo.

Há dias, o meu velho camarada Germano Silva, grande jornalista e admirável historiador da cidade do Porto, telefonou-me. Discreteámos, levemente, sobre as coisas gerais e sobre o jornalismo em particular. Ele, como eu, não ocultámos a nossa perplexidade ante a regressão que a Imprensa portuguesa tem assinalado, nas duas últimas décadas. Regressão intelectual, moral, ética e estética, estilística, filosófica. Que aconteceu? Uma apressada "licenciatura" em comunicação social e logicamente, uma aberrante entrada nos jornais de pessoas mal preparadas, que são exploradas até ao tutano e, a seguir, atiradas pela porta fora.

O desleixo, a preguiça mental, a mediocridade instalaram-se em todos os sectores da vida nacional. Quando escutamos o prof. Medina Carreira há quem o acuse de apocalíptico e negativista. Porém, ele toca nas questões fundamentais do nosso viver. E há anos que no-lo diz, servindo-se de um idioma luminoso e extremamente pedagógico. Quantos políticos encartados se exprimem com a clareza meridiana de que Medina Carreira é exemplo?, quantos? Acrescente-se que ele é um homem sério, digno e fecundo porque nos ensina sem nada pedir em troca.

A crise moral do País é muito mais grave do que dizem os preopinantes que por aí pululam. Os exemplos, maus, vêm de cima. Como é que os diferentes ramos sociais poderiam ser diferentes? Que fazer? Mudar a vida, transformar o mundo.
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«J. Negócios» de 26 Nov 10