quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Previsão

.
Por João Paulo Guerra

DESDE A CRÓNICA de 1 de Outubro passado, a respeito do PEC III, que escrevo nesta coluna que a austeridade, tal como é pensada e posta em prática pelo Governo, arrastará inevitavelmente o país para a recessão económica, com todas as suas consequências.

E nem sequer estou a gabar-me de qualquer modalidade de presciência. A crónica de 1 de Outubro citava o vaticínio da Ernst & Young sobre o perigo de nova recessão, considerando errado que "a solução em que o Estado pensa sistematicamente" seja a de pedir aos contribuintes que "paguem as suas ineficiências".

Três meses volvidos, vem o Banco de Portugal prever que a austeridade, agravada entretanto para extremos inimagináveis do PEC III para o Orçamento de Estado, irá provocar a maior quebra de sempre do consumo privado em Portugal. E, como se está mesmo a ver, da previsão da queda do consumo privado no abismo à previsão da recessão económica vão só alguns parágrafos no relatório do Banco central. Portanto, só não vê quem não quer ver que são, como se sabe, os piores dos cegos.

O objectivo da austeridade em curso é precisamente a derrocada do consumo privado. O Governo entende que Portugal e os portugueses não merecem mais que o rótulo de um dos países mais pelintras da Europa. As consequências serão a diminuição brutal do nível de vida do comum dos portugueses, falências em cadeia de sectores da produção e comércio, ainda mais desemprego.

Andamos nisto há três décadas, pela mão dos partidos do costume: recessão austeridade, austeridade recessão. A única diferença é que o actual Governo, e os que viabilizam e promulgam as suas políticas, decidiram que desta vez seria muito mais doloroso e até mesmo fatal. Garrett interrogar-se-ia: quantos ricos vão engordar em Portugal à custa de tantos pobres?
.
«DE» de 13 Jan 11

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Éramos todos tão novos...

.
Por Baptista-Bastos

VÍTOR ALVES foi embora deixando a pátria numa situação que ele não desejava. Gostava muito deste homem sereno, culto, generoso, cordial a afável, que jogara, no regueirão de todos os perigos, a sorte pessoal e o desígnio colectivo. Ele e outros como ele são credores da minha maior gratidão. Ele e outros como ele resgataram os silêncios impostos e os medos compulsivos da minha geração e os das anteriores. O risco que Vítor Alves correu foi soberano entre os demais: o da vida, o da carreira, o da família.

Os jovens capitães de Abril possuem uma dimensão de coragem adveniente da espessura comovente do seu humanismo. Há qualquer coisa de épico e de poético na arrancada militar desse dia tão longínquo, tão próximo e tão delido no tempo e no esquecimento dos nossos desleixos. "O dia inicial inteiro e limpo", como lindamente lhe chamou Sophia, era o dia esperado pelos melhores de nós. E os melhores de nós desanimavam de o conhecer quando um grupo de homens muito novos nos convidou a ressurgir.

Às vezes, ia conversá-lo no seu gabinete. Os dias eram incertos, mas os sonhos nada tinham de indecisos. Ele transportava consigo uma cultura transeunte e uma bonomia que jamais ocultou as preocupações nascidas dos grandes embates ideológicos. Também bebíamos o uísque da amizade no João Sebastião Bar, reduto privilegiado de todos os imprevistos. Mais tarde, Álvaro Guerra, embaixador, escritor e jornalista, reunia, em almoços prolongados, nas casas de Mafra ou de Vila Franca de Xira, um grupo imponderável de amigos, em diálogos já perfumados de passado e de esperanças partidas. E era reconfortante ouvir este homem, apesar de tudo jovial e sorridente, a rematar os desalentos com uma frase benfazeja: "Mas as coisas estão muito melhores do que eram." A juventude já se fora; éramos uns senhores portugueses de cabelos brancos a quem a sabedoria do tempo ensinara a falar escasso para se dizer muito.

Queríamos mais do que havíamos obtido, porque sabíamos o que a "recuperação" consigo arrastava. A responsabilidade não deve ser dissimulada. Fomos nós todos que fizemos "isto". Víamo-nos mais espaçadamente. Mandava-lhe os meus livros, dirigia-me cartas generosas, calorosas e fraternas. Disse-me, há anos, que estava com problemas de saúde. Vasco Lourenço revelou-me a gravidade desses problemas. Estavam a ir alguns daqueles que eu mais respeitava; alguns daqueles, agora transfigurados em memórias e em penumbras, que tinham dado consistência à História.

Nada do que foi voltará a ser. Mas estar é, já em si, o bastante. Observo, na gelada noite da igreja do Paço da Rainha, os capitães de Abril, que se curvam ante o esquife do camarada de armas. Tínhamos todos a mesma idade.
Adeus.
.
«DN» de 12 Jan 11

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Alimentos

.
Por João Paulo Guerra

PORTUGAL e os portugueses, sugados pelos credores e esmifrados pelo Estado, têm ainda no horizonte a ameaça de uma nova crise alimentar.

É que os preços das matérias-primas alimentares estão a disparar nos mercados internacionais e Portugal passou a ser um país indigente sem produção própria de quase nada daquilo que come. Um trabalho do jornal Público revelava ontem os défices e fragilidades da balança alimentar do país.

A questão é que, olhando os indicadores dos textos do Público, os portugueses são necessariamente induzidos a reflectir - os que ainda reflectem - sobre o destino trágico deste país que transitou das hortas e dos latifúndios salazaristas para a destruição da agricultura e pescas: Portugal importa mais de 60 por cento da carne e dos cereais que consome, deixou de produzir açúcar, o olival é em grande parte espanhol, todos os dias abate mais unidades de pesca.

Em parte, esta política alimentar tem sido ditada pela Europa e pelos interesses dos gigantes europeus da produção agrícola. Mas a Europa não veio a Portugal arrancar culturas nem varar barcos de pesca na areia das praias. Isso foi obra de sucessivos governos de Portugal que até criaram algumas castas de "agricultores" de subsídios, que enriqueceram a arrancar culturas ou, eventualmente, a nem sequer as plantarem. Como se conta - talvez como anedota - que em França um espertalhão se inscreveu como candidato a subsídios para não criar porcos e, já agora, para ser ressarcido pela perda de rações que os porcos não criados não iriam consumir.

Décadas de políticas de liquidação da independência do país não poderiam ter outros efeitos. Mas eles aí estão, os agentes dessas políticas ruinosas, nos cadeirões do poder ou inscritos na dança das cadeiras para a valsa seguinte.
.
«DE» de 11 Jan 11

Amigo de Sócrates

.
Por Nuno Crato

QUANDO SE QUER separar conhaque de negócio ou falar honestamente sem com isso comprometer uma amizade, costuma dizer-se que se é amigo de Sócrates, mas mais amigo ainda da verdade. É um grande dito, que deveria ser tão aplicado como afirmado.

Tal como muitos dos grandes aforismos, a sua origem é obscura. Discute-se se a verdadeira frase, a original, não terá o nome de Platão em vez do de Sócrates. De facto, se recuarmos a 1615, lemos na segunda parte de «D. Quixote», numa carta do cavaleiro dirigida ao seu escudeiro Pança (2-LI), que, «conforme a lo que suele decirse: ‘amicus Plato, sed magis amica veritas’» («conforme é hábito dizer-se, ‘sou amigo de Platão, mas mais amigo da verdade’»). Se recuarmos um século atrás, vemos que, em 1515, Martinho Lutero não conseguia escolher de entre os dois filósofos — na sua obra «De servo arbítrio» escreveu «Amicus Plato, amicus Socrates, sed praehonoranda veritas» («Sou amigo de Platão, amigo de Sócrates, mas mais honrada deve ser a verdade»).

Isaac Newton, no seu caderno de estudante em Cambridge, por ele usado posteriormente para anotações filosóficas, introduz ainda outro filósofo. Em 1664, ou pouco depois, no topo da primeira página do caderno escreve «Amicus Plato amicus Aristoteles magis amica veritas».

Na tentativa de descobrir o dito original pode recuar-se a Platão. Na «República», o filósofo escreve que Sócrates afirmara que «um homem não deve ser mais reverenciado que a verdade». E em «Fédon» exorta a «que pensem na verdade e não em Sócrates».

A lista podia continuar. Alguns eruditos, tais como Henry Guerlac e Leonardo Tarán, escreveram artigos em que discutem longamente as diversas versões desta frase famosa. É interessante que os filósofos de ciência apareçam repetidamente a usá-la, numa ou noutra forma. Francis Bacon é quem a apresenta na maneira mais conhecida. Na sua «Opus majus» (I, vii) afirma que Platão dissera «Sou amigo de Sócrates, mas mais amigo da verdade.»

Em ciência, sobretudo nas chamadas ciências exactas, a ideia central deste dito é praticada todos os dias e todas as horas. Não há matemáticos anti-Gauss nem pró-Pitágoras, tal como não há físicos anti-newtonianos ou pró-Feynman. O alinhamento por perspectivas ou métodos de análise é algo de estranho. Usa-se o que funciona e tenta-se respeitar a verdade. Evitam-se as referências pessoais.

Quando viram o título desta crónica, alguns leitores poderão ter pensado que se tratava de uma alusão a um outro Sócrates. Desiludiram-se. Aqui não há aqui nenhuma mensagem escondida, embora as ambiguidades possam ser engraçadas. É o que aconteceu num episódio passado há mais de 50 anos no Instituto Superior Técnico e que os alunos do matemático Mira Fernandes gostam de contar. Reza assim:

Tinha o famoso professor dado instruções aos estudantes para chegarem a horas ao exame e advertido que não admitiria retardatários. Chegado o dia, deixou entrar os alunos e fechou a porta. Distribuiu os enunciados e sentou-se calmamente, esperando. A primeira meia hora passou e alguém bateu à porta. Visivelmente incomodado, Mira Fernandes perguntou «Quem é?». A resposta ouviu-se do outro lado, abafada, «É um aluno». O professor irritou-se e perguntou «Quem?». Do outro lado, a voz respondeu, ainda mais baixo, «Sócrates». A turma riu-se e o professor abriu a porta dizendo «Sendo assim, faça favor de entrar».
.
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 8 Jan 11

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Poeta romano contra barbudos

Por Ferreira Fernandes

NO DIA 4 de Janeiro, Salmaan Taseer, o governador do Punjab, a província mais populosa do Paquistão, foi morto com 27 balas disparadas por um polícia que o protegia. Ontem, Sherhbano Taseer escreveu no New York Times sobre o seu pai: um homem dedicado ao Paquistão tal como este foi fundado por Muhammad Ali Jinnah, em 1947 - um estado secular. Hoje o Paquistão é um Estado minado por terroristas islâmicos como Mumtaz Qadri, o polícia assassino. Mas o fundador Jinnah quis um país em que todos os cidadãos frequentassem os templos ou as mesquitas, ou nenhum, como quisessem. Jinnah foi o primeiro advogado em Londres originário da península indiana e da Inglaterra adoptou convictamente a democracia. Apesar de mumificado num mausoléu e considerado o Pai da Nação, as ideias de Jinnah já não têm muitos adeptos no Paquistão actual. Por isso a sentença estava lavrada contra o seu seguidor, o governador do Punjab que visitava as minorias religiosas quando eram vítimas dos ataques dos fundamentalistas. Por isso o polícia assassino foi recebido com beijos quando chegou ao tribunal. No texto sobre o seu pai, Sherhbano Taseer cita Juvenal: "Quem guardará os próprios guardas?" Citar um poeta latino de há dois mil anos no Paquistão de 2011 não é só uma demonstração de cultura. É uma bela provocação: é afirmação de que o mundo é mais vasto do que querem os barbudos ignorantes.
.
«DN» de 10 Jan 11

Passatempo Pedro Barroso - «Os Jeitosos» - Solução

Pág. 91
.
Actualização (12h24m): o passatempo foi ganho por «lilia_torres_amb», com erro de 4 páginas. Tem agora 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada para envio do livro.

sábado, 8 de janeiro de 2011

O financiamento dos partidos

.
Por Antunes Ferreira

AS LEIS DO FINANCIAMENTO dos partidos são sempre motivo de controvérsia, com os contras muito superiores aos prós, o que é absolutamente natural. Os primeiros fazem parte das oposições; os segundos são os seus autores, ou seja os governos. É matéria em que as abstenções não contam, pois uns, ainda que dizendo mal, estão à espera dos financiamentos; os outros produziram aquilo que lhes traz mais benefícios e mais rapidamente.

Recebi há dias um mail que me pareceu de tal modo significativo e bem humorado, o que não é normal na crise, que não resisto a fazer sobre ele esta crónica. Não posso citar o autor, porque não constava da mensagem. Nestes preparos nunca ninguém os assina, partindo do princípio de que a voz do Povo é a voz de Deus. Assim fosse.

Em plena discussão, uma televisão decide fazer um inquérito/reportagem de rua. E fá-lo em directo, o que é sempre uma aventura, pois não pode fazer-se depois a montagem mais conveniente. Mas, dizia um programa dos idos que «o perigo é a minha profissão»; os riscos correm-se e o resto é conversa.

Um cidadão com todo o aspecto de ser um denodado cumpridor das suas obrigações fiscais e de outras está sentado à mesa de um café, tomando a quantidade quotidiana de cafeína que lhe apetece e a que se julga ter direito. Note-se que ainda não há balão para o grau de rubiácea no sangue, daí a tranquilidade do sujeito.

Microfone em punho, aproxima-se o jornalista acompanhado do operador de câmara. O visado repara de imediato que vai sair na televisão e arma um sorriso um tanto alvar na face mal escanhoada. À volta, os mirones tentam passar por trás do fulano, na esperança de igualmente passarem na televisão, sendo que alguns dão-se ao cuidado de fazer adeus para a família que talvez esteja na frente do ecrã.

Mau amigo, estamos em directo para a TV Xis e queremos fazer-lhe umas perguntas, coisas simples, de resto. Concorda? Claro que concorda, oportunidade daquelas não surge todos os dias, há que aproveitá-la. Então, a primeira é… O pessoal emudece, o que será ela?

Se tivesse dez milhões de euros, dariam cinco milhões para o seu partido? Certíssimo, não tenha dúvidas. O repórter sorri, o povo também, os empregados de mesa que se foram chegando igualmente. E se tivesse dois Rolls Royce daria um para o seu partido?

Era tiro e queda, claro que sim. As convicções partidárias do homem são grandes. E se tivesse duas mansões de cinco milhões cada, era capaz de oferecer uma ao seu partido? Nem hesita. Absolutamente, teria o maior prazer nisso.

A última, agradecendo-lhe desde já a sua atenção e a sua disponibilidade. E se tivesse dois frangos, entregaria um deles ao seu partido? Nem pensar; nem pó!

Caro amigo, porquê a negativa, depois de tantos sins? Ora essa: os dois frangos são meus. Tenho-os.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Oposição

.
Por João Paulo Guerra

UM DIA DESTES dei por mim a tropeçar numa frase na leitura de uma notícia de jornal. Dizia assim: "os partidos da oposição, com excepção do PSD...". Mas espera... O PSD é da oposição? O caso concreto era que a oposição de esquerda, Bloco e PCP, e de direita, CDS, queria saber as razões da mudança nos métodos da Estatística numa altura em que se espera aumento do desemprego. O PSD não queria saber coisa alguma, nem a respeito de estatísticas, como em relação ao que for que o Governo decida. A verdade é que o Governo decide, o PSD aprova e o chefe de Estado promulga. O barco da governação tem uma tripulação tripartida e só não se sabe ao certo quem será o verdadeiro homem do leme.

Quanto ao PSD, depois das farroncas com que a direcção assumiu funções - rever a Constituição, acabar com a justa causa para despedimentos, ameaças de chumbo do Orçamento - reviu em baixa as expectativas e amodorrou-se à lareira do poder: acordou com o Governo o aumento de impostos, liquidou o inquérito da Comissão Parlamentar ao caso PT/TVI, opôs-se à greve geral, deixou passar o Orçamento, etc., etc.

De maneira que se isto fosse oposição, não haveria razões para o Governo do PS ter outras preocupações. A menos que o estatuto de oposição do PSD siga a estrelinha de Belém. Com efeito, o PSD acomodou de algum modo a sua agenda à estratégia de Belém, dando o sim do PSD ao Orçamento do PS mesmo em cima do acontecimento da apresentação da recandidatura de Cavaco Silva. E, deixando para o PS o ónus do trabalho sujo, este PSD ou outro poderá aspirar a constituir uma alternativa de poder executivo pós-presidenciais.

Seja como for, no presente o PSD é uma oposição na gaveta, sendo que todas as malfeitorias do poder têm o seu voto e a sua impressão digital.
.
«DE» de 7 Jan 11

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

6.º aniversário do 'Sorumbático' - Solução

2180 gramas
.
FOI decidido premiar todos os leitores que tenham dado palpites com erros inferiores a 1000 gramas. Esses deverão escrever, nas próximas 24h, para medina.ribeiro@gmail.com, indicando morada para envio do prémio, que poderão escolher entre os indicados [aqui]. Em "assunto" deverão escrever "Passatempo do 6.º aniversário" e proceder da seguinte forma:

O 1.º classificado poderá escolher o livro que preferir.
O 2.º classificado deverá indicar 2, por ordem decrescente de preferência.
O 3.º classificado deverá indicar 3, por ordem decrescente de preferência.
E assim sucessivamente.
.
RESULTADO

Os nomes dos vencedores (e os títulos livros que vão sendo atribuídos à medida que as suas respostas vão chegando) são :

1.º - R. da Cunha-erro de 185g [confirmado: «Justiça Fiscal»]
2.º - Luis Bonito-erro de 305g [confirmado: «Cão velho entre flores»]
3.º - Mg-erro de 387g [confirmado: «Diz que é uma espécie de democracia»]
4.º - Eliseu-erro de 520g
[confirmado: «Crónicas da InforFobia»]
5.º - Humaneasy-erro de 620g [confirmado: «Operação JEREMIAS»]
6.º - Paulo Costa-erro de 666g [confirmado: «Diz que é uma espécie de democracia»]
7.º - Luiz-erro de 695g [confirmado: «O Bruxo de Ceide»]
8.º - Moralitos-erro de 770g [confirmado:«...Assim Acontece-Na rádio»]
9.º - Fátima André-erro de 820g [confirmado: Chocolate]
10.º - Al-erro de 895g [confirmado: «Crónicas da InforFobia»]
11.º - McManager-erro de 915g [74 horas depois de expirado o prazo para reclamar o prémio, ainda não o tinha feito ficando, pois, excluído]
12.º - Ramiro-erro de 970g [idem]
13.º - Ribas - erro de 970 g [confirmado: «Jeremias dá uma mãozinha»]
.
Os vencedores que se tenham identificado com nicknames deverão, também, referi-los.
Os que, eventualmente, não respondam dentro das 24h estipuladas terão mais 24h para o fazer, mas 'perdendo a vez'.

12h27m: foram detectados 3 erros na classificação, que acaba de ser corrigida. Atenção, agora, ao prazo de 24h (a contar a partir deste momento) para reclamar os prémios.

"Freep...", perdão, "BPN, BPN, BPN..."

.
Por Ferreira Fernandes

HÁ ALGUMA COISA de errado nesta maneira de conduzir uma campanha: "Eu fiz uma pergunta a Cavaco Silva...", diz Manuel Alegre, com ar de quem encostou o adversário à parede. Não encostou. Numa campanha, qualquer debate, diálogo e entrecruzadas conferências de imprensa não são para que os candidatos se esclareçam reciprocamente, são para conduzirem os eleitores a uma conclusão. Assim, uma pergunta só é assassina quando empurra o opositor para aquele lugar que a opinião pública já tinha dele. Ora a convicção de que Cavaco Silva é desonesto não me parece que seja maioritária entre os portugueses. Se havia que atacá-lo sobre a compra e venda de acções do BPN, a maneira de o fazer não devia passar por uma pergunta a ele, mas por um dossier bem preparado. E o interlocutor não seria Cavaco Silva, mas os portugueses: ele fez isto, e isto não devia ser feito, por causa disto e disto. Essa explicação iria poupar-nos do "BPN, BPN, BPN, BPN..." que vamos tragar por semanas, prima direita do "Freeport, Freeport, Freeport..." que tragámos durante anos, ambas netas da nossa incapacidade de saber do que estamos a falar, sobretudo quando estamos a falar muito.
Da enxurrada de palavras preguiçosas ficamos a saber que há lucros de 140% e que Sócrates tem primos. Dá para fazer de conta, nos cafés, que seguimos o mundo. Mas é insuficiente para chegarmos a cidadãos conscientes.
.
«DN» de 6 Jan 11

Excepções

.
Por João Paulo Guerra

TODOS OS DIAS os jornais anunciam magnânimas excepções ao regime ferrabrás do Governo contra a generalidade dos portugueses, os que pagam a crise.

Assim, enquanto congela promoções na administração pública, o poder vai abrindo mão de excepções para algumas castas de afilhados da situação. E não há dia que não saia a público a promoção de altos e intermédios funcionários que assim vão escapar, pela mão esquerda do Governo, ao que a mão direita tira à generalidade dos trabalhadores do Estado. "Pagam todos", apregoa o poder. Todos, menos os tais. Dizem os jornais que as promoções no Estado dispararam 15% após o anúncio do congelamento das carreiras. E assim, o próprio Estado contorna e sabota a sua norma de não promover nem aumentar ninguém na Função Pública, promovendo, e desse modo aumentando, alguns eleitos.

Mesmo quando decide dar um arzinho filantrópico, o poder político não esconde as suas preocupações e opções de fundo. E é assim, por exemplo, que o Estado anuncia que está a ajudar mais de 2.300 famílias a pagar empréstimos para habitação... aos bancos. Ou seja, esta é simplesmente uma outra vertente da linha que vai pôr os contribuintes a pagar o buraco deixado pela gestão anterior do BPN e, de um modo geral, a ajudar a banca.

"Pagam todos", insiste o poder político. Mas enquanto o comum dos cidadãos já começou - dando ou não dando por isso - a pagar mais impostos e preços mais elevados no consumo, a banca ainda não começou a pagar a respectiva contribuição extraordinária para acalmar a crise. E porquê? Porque o poder político ainda não teve vagar para elaborar, aprovar e pôr em vigor a respectiva portaria.

Sim, porque em Portugal qualquer portaria faz política de facto. Basta que não saia.
.
«DE» de 6 Jan 11

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Os riscos de ler Sandokan

.
Por Ferreira Fernandes

NÃO É UM rapaz do meu tempo mas é do meu tempo de rapaz: Emilio Salgari, o pai de Sandokan. Neste 2011 vai voltar a falar-se de Salgari, a sua morte faz cem anos. Eu li-o nas velhas edições da João Romano Torres & Cª., as capas desenhadas com o pirata malaio. Livros de aventuras, pois. Mas também, como alguém já disse, "um rapaz que tenha lido Salgari, quando adulto não pode ser racista." Antigo príncipe desapossado, Sandokan lutava contra os colonialistas ingleses e holandeses e isso, chamar um asiático para herói, era raro num escritor europeu que morreu há um século. Em Os Tigres de Mompracem, o malaio amava e era amado por uma loura de olhos azuis - é bom ler estas obviedades quando se é garoto. Salgari passou a vida a mentir, dizendo que conhecia o mundo que contava - as suas aventuras passearam-se pelos mares do Bornéu, Caraíbas e Faroeste americano, quando, se ele mareou, foi só em barcos de cabotagem pelo Adriático. Mas se essa irrealidade o fazia cometer erros de aparência - o principal companheiro e amigo de Sandokan era um português com o nome improvável de Yanez de Gomera -, a generosidade de Salgari fazia-o acertar no mundo. Há 50 anos, frente à minha casa, em Luanda, um grupo de homens linchou um negro. Eu tinha 12 anos, saltei para a rua e alguém me calou com um murro. Ler Emilio Salgari trazia alguns riscos, mas nunca me arrependi.
.
«DN» de 4 Jan 11

Carrões

.
Por João Paulo Guerra

OS PORTUGUESES têm razões que a razão não entende. E em ano de crise bateram não só o recorde da compra de automóveis que se mantinha galhardamente desde 2002 - o ano da revelação do "pântano", da fuga de António Guterres e da chegada de Durão Barroso - como melhoraram também os máximos da compra de carros de luxo. Assim é que é: cabecinhas formatadas pelas escrituras do consumismo e pelos manuais do marketing, respondendo aos apelos de mais consumo, mais endividamento.

O parque automóvel português, cujo espavento é motivo de espanto por parte de europeus mais ricos e mais esclarecidos, não cede ao choradinho da crise. E se no ano passado o brilho da chapa já ofuscava a ladainha do endividamento e do défice e afrontava a crescente pobreza do país, este ano há que manter as aparências, a ostentação. E em que modalidade poderão exibir-se os portugueses? Pela elevação do saber? Pela profundidade do pensamento e da análise? Pelo civismo dos costumes? Pelo requinte dos hábitos? Nada disso: pelo topo da gama, pelo espalhafato da carroçaria, pelo aparato da cilindrada, tudo isto apresentado em locais de grande exposição, como seja em cima dos passeios ou das passadeiras.

Aliás, os portugueses são nesta matéria muito bem conduzidos e educados pelos protagonistas e figurantes da classe política. Os carrões do Estado, em frotas permanentemente renovadas e de custos invariavelmente agravados - haja crise ou, o que não há memória, não haja - revestem e disfarçam muitas vezes a mediocridade e banalidade dos ocupantes. Qualquer funcionário de meia tigela tem direito a carro e esse é um direito adquirido com direitos colaterais: o carro pressupõe a sua própria renovação, por troca com um carro melhor. Ou, pelo menos, mais pomposo e mais caro.
.
«DE» de 5 Jan 11

Da inépcia como virtude

.
Por Baptista-Bastos

DEVO CONFESSAR, à puridade, um desejo modesto, porém ardente: gostava de que o Presidente fosse um homem culto, lido, cordial e descontraído. Não o é. E o meu recatado desgosto consiste no facto de ele desencadear, com as deficiências culturais e aleijões de carácter que demonstra, um generalizado reflexo condicionado. Os dez anos que levou de primeiro-ministro constituíram um cerco e o esmagamento das desenvolturas e das exaltações que o 25 de Abril nos tinha proporcionado. O País cedeu ao mito do político severo, austero, hirto e denso. E admitiu, como sua, a imagem brunida que ele expunha. Um chato. Mas um chato perigoso por aquilo que representa.

Nada tenho de pessoal contra o senhor. Ele pertence a uma sociedade velha e relha, que apenas assegura formas de autoritarismo. Estes cinco anos de Presidência acentuaram o infortúnio. Os debates nas televisões foram expressivos do desagrado que algumas intervenções causavam no dr. Cavaco. Trejeitos de ira, contorções dos músculos faciais, movimento descomedido dos lábios, frases desmedidamente agressivas. A medonha panóplia de exercícios paliativos forneceu-nos a estirpe do indivíduo e a compleição do político.

O pior foi o discurso da quadra. Se o de José Sócrates representou a vacuidade total, o do dr. Cavaco fundamentou a admissão de uma era vindoura de incertezas. Apenas a reiterada advertência de que "eu bem avisei a tempo". O disperso, confuso e absurdo afastamento de responsabilidades que também lhe cabe. Depois, o caso do BPN e da Caixa Geral de Depósitos. Então, as debilidades da natureza moral do candidato emergiram de roldão. Ao acusar de incompetência a administração do banco das fraudes, trucidou alguns dos seus antigos comparsas de Governo, entre os quais o perplexo e honesto Faria de Oliveira. Procedeu como o fizera com Fernando Nogueira, Santana Lopes, Fernando Lima: serviu-se e descartou-se. Perante as acusações de tibieza que lhe foram feitas, o homem, atabalhoadamente, tentou proteger-se usando o pretexto que lhe é comum: disse que não dissera o que tinha dito e acusou os jornalistas de interpretação abusiva. Uma televisão retransmitiu a verdade dos factos e as declarações proferidas. Nem por isso o prevaricador se retractou.

Já cansa repetir que o dr. Cavaco é um incidente desgraçado na nossa história próxima recente. Metáfora de um país sem juízo, também não chega. Ele resulta de uma confusão entre a ignorância e a beatífica admissão de uma cultura de aparências. Surpreende (o não?) haver gente de envergadura intelectual e moral a apoiar, para reeleição, uma criatura que, por incultura, inépcia e desadequação nunca encontrou a fórmula de viver e de actuar perto das questões e do coração dos portugueses.
.
«DN» de 5 Jan 11

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Indicadores

.
Por João Paulo Guerra

LEMBRO-ME dos tempos em que os portugueses tinham vergonha dos indicadores sociais que identificavam um país atrasado, pobre e tacanho, um baldio de uma Europa civilizada: o analfabetismo, a mortalidade infantil, a miséria, a emigração para fugir à má sina de ser português.

Acontece que hoje, lentamente, sinistramente, esses indicadores estão a voltar a retratar a realidade portuguesa e não se dá, ao menos, que tais dados envergonhem os titulares do poder das últimas décadas, tão cheios de si, tão ufanos não se entende bem de quê, tão convencidos e, no entanto, com a verdade dos números a atestar a sua irremediável mediocridade e incompetência.

Enquanto a classe política tagarela sobre a saúde pública confrontando-se com esse problema terrível para o Estado que são os utentes, os índices da mortalidade infantil em Portugal retrocederam 25 anos: estamos nessa matéria de novo em 1985, quando em Portugal se decidiu que "quem quer saúde, paga-a". E assim, esse indicador que revela o grau de civilização de uma sociedade, depois de ter dado tímidos passos para a frente, andou para trás num recuo desordenado.

Entretanto, na educação, uma auto-avaliação do sistema concluiu que os alunos do oitavo ao décimo segundo ano de escolaridade "não sabem raciocinar nem escrever". Mas constituindo esta sentença um chumbo categórico e sem apelo de um sistema de ensino, nada acontece para lá da constatação. É assim e paciência. Os alunos não sabem o elementar para saberem mais e melhor. Mas não consta que tenha havido um ministro, um secretário de Estado, um director-geral da Educação chamado à responsabilidade.

Portugal enfrenta muitos problemas. Mas na raiz de todos eles está a incompetência de uma classe política que se perpetua e alterna no poder.
.
«DE» de 4 Jan 11

6.º aniversário do 'Sorumbático' - Prémios

*



A Língua Franca da tecnologia

Por Nuno Crato

O MUNDO DAS LÍNGUAS dá voltas inesperadas. O imperador Carlos V gostava de dizer que falava em latim com Deus e em italiano com os músicos, enquanto usava o francês para as senhoras e o inglês para os cavalos… Que diria ele se soubesse que esse idioma desprezado, falado na altura por pouco mais que uns ilhéus excêntricos, se tornaria na mais internacional das línguas?

Ao contrário de Carlos V, os falantes de diferentes idiomas precisaram sempre de recorrer a uma língua única para comunicar. Podia ser para as trocas comerciais, para a expansão de uma fé religiosa, para a guerra ou para a administração de impérios. Um século antes de Cristo, quem soubesse grego podia viajar desde a Península Ibérica até à Índia usando esse idioma, com a certeza de encontrar sempre alguém que o compreendesse. No século XIV, era preciso saber árabe para o poder fazer. Dois séculos mais tarde, o português era entendido por mercadores desde a costa ocidental de África até à Índia. Uma língua como essas, que serve para comunicar entre falantes de diferentes idiomas, recebe a designação de “língua franca”.

De todas as línguas francas, o latim foi a mais duradoura. Dois milénios depois do seu aparecimento, era a linguagem de comunicação entre cientistas e europeus cultos — Pedro Nunes escrevia em latim, tal como Copérnico, Newton e Thomas Moore. Mas o inglês é a língua mais universal. É o idioma que os turistas alemães falam quando estão em França e que os empresários japoneses usam quando chegam a Timor. Não é apenas o idioma do comércio ou da gestão. É também a língua do turismo, da ciência e da navegação. É em inglês que os pilotos falam quando se aproximam de um aeroporto, mesmo que sejam franceses e aterrem em Paris.

A partir da segunda grande guerra, o inglês impôs-se no mundo científico — até então usava-se igualmente o francês, o alemão, o russo ou o italiano. Nos fins do século XX, o domínio da língua de Charles Darwin e Alan Turing tornou-se indisputável entre os que fazem ciência. Usá-la não é escolher uma língua de um país em detrimento de outra. É simplesmente escrever ou falar de forma a se ser entendido em todo o mundo. Usa-se como se utilizava o latim, com a vantagem de ser uma língua viva, que tem outros préstimos, além dos científicos.

Até quando? Se nunca nenhuma língua franca perdurou, que acontecerá ao inglês daqui a algumas décadas? Nicholas Ostler, um estudioso britânico da história das línguas, tem uma teoria que está a levantar celeuma entre os linguistas. Diz ele que o inglês está condenado a breve prazo. Não para ser substituído por outra língua, mas para dar origem a uma fragmentação dos idiomas. As ferramentas de tradução automática são, diz ele, o futuro. No seu livro “The Last Lingua Franca: English Until the Return of Babel” (Princeton 2010), sugere que o inglês está no seu apogeu, que sobreviverá enquanto grande idioma, mas que deixará de ser usado para a comunicação internacional. Os computadores tomarão o lugar dos tradutores nas Nações Unidas e os leitores digitais poderão traduzir automaticamente os diversos textos. Os cientistas poderão escrever na língua que entenderem, sabendo que poderão ser entendidos em todo o mundo. A tecnologia, que espalhou o inglês pelo mundo, seria responsável pelo fim dessa língua franca e pelo aparecimento de uma nova Babel.

Este futuro — a ser assim o futuro — está longe. Entretanto, tenha um Bom Ano!
.
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 30 Dez 10

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Tendências

Por João Paulo Guerra

AS TAXAS moderadoras da Saúde “tendencialmente gratuita”, como diz a Constituição da República Portuguesa, estão tendencialmente mais caras e vão ser cobradas a desempregados e reformados. Claro que o conjunto de pessoas que formam o poder, de Belém a São Bento, pode discordar da Constituição e tentar alterá-la. Mas terá forçosamente que a alterar por meios legítimos, e não como faz o poder. Em Portugal, o poder toma posse nos termos de uma Constituição da qual discorda e que, por isso, não só não respeita como a desrespeita. E é assim que antes de alterar o preceito constitucional que manda que a Saúde seja "tendencialmente gratuita", o poder altera o preceito na prática, dando a alteração como facto consumado. E isto não incomoda nenhum dos agentes políticos que, ao tomar posse, jura solenemente respeitar e fazer respeitar a Constituição da República.

Quanto aos salários, estão tendencialmente mais baixos. A Constituição manda que as condições de remuneração do trabalho sejam "de forma a garantir uma existência condigna". Mas, como vimos, a Constituição da República é uma flor de estufa da democracia que não é respeitada nem sequer pelos seus mais elevados zeladores. De maneira que depois de décadas de baixos salários e congelamento salarial chegou a grande novidade: o Governo propõe-se baixar salários. Ora o que manda a Constituição é a actualização salarial, tendo em conta, entre outros factores, as necessidades dos trabalhadores, o aumento do custo de vida. Mas parece que a Constituição é cada vez mais um rosário de letras mortas, sem efeito na vida da comunidade e sem respeito dos agentes do poder.

Ou seja: as tendências para 2011 são do piorio. Porque não são apenas injustas como, à luz da Constituição, são ilegais.

«DE» de 3 Jan 11

domingo, 2 de janeiro de 2011

«A Quadratura do Circo» - A poupança dos portugueses

.
Por Pedro Barroso

ESTOU muito preocupado com o problema da falta de poupança das famílias portuguesas.
É uma enorme falta de consciência cívica não serem solidárias com os esforços do governo e da nação. Não sei que se passará na cabeça dos chefes de família em Portugal para não conseguirem poupar.
Uma vez mais, ouvi a notícia no telejornal e, perante uma crise tão profunda e mundial, é de uma falta total de solidariedade não conseguirem colaborar no esforço colectivo. Creio que todas as famílias portuguesas deviam tentar poupar, pelo menos, um ou dois mil euros por mês, para criarem elas próprias um fundo de crise.

Vejamos. Vêm aí tempos difíceis e é preciso não gastar assim com tanta displicência e inconsciência a torto e a direito.
É um exagero o que se gasta em alimentação. Tomemos uma família de quatro pessoas, por exemplo. Bastava que uma delas não comesse nada, semana sim, semana não. E ninguém morre por isso, pois está provado que o ser humano pode aguentar até três semanas sem comer. Ora bastaria isso para dar um enorme incremento de aforro doméstico.

A avó, por exemplo. Não produz nada, ou muito pouco. De resto, já ninguém precisa de mais rendas e crochés para as mesinhas da sala, nem pegas para a cozinha. Fazê-la parar é quase uma necessidade. Portanto, é obriga-la carinhosamente a uma dieta de pão e água, para seu próprio beneficio. Passará a comer ainda, como bónus se estiver quietinha, uma sopinha semanal ao domingo, o que permite perfeitamente viver, evitando assim níveis elevados de colesterol, que só lhe fazem mal com aquela idade. Apenas há que nunca lhe faltar com aguinha todos os dias, para não desidratar; pelo menos enquanto não assinar os documentos que nós muito bem sabemos quais são.

A mania dos remédios também é um ataque diário à política de contenção económica. É sabido que os remédios são coisas químicas que só fazem mal e, no fundo, apenas prolongam a agonia de quem está doente. Gastar em farmácia é, portanto, inútil. Aí tem mais um conselho a seguir.

Ir para o emprego a pé, parece também ser uma solução a pôr em pratica o mais possível. O mau hábito de andar de carro provoca espondilose e obesidade mórbida, além de stress e despesas várias, provenientes de multas, seguros e acidentes. São vários milhares que se poupam por ano, se andarmos todos a pé ou de carroça.
Se você trabalha longe não seja preguiçoso e levante-se mais cedo. Caminhar só lhe vai fazer bem. Se for de charrette passará inclusive, a ser produtor do seu próprio estrume para usar na horta. Um luxo de excêntrico, sobretudo se viver em Massamá.

A escola e colégio para os miúdos também são despesas estupidamente elevadas que podem facilmente evitar-se estudando em casa. A televisão, os jogos, o teatro, o cinema, as revistas e jornais também são coisas sem as quais dantes se vivia muito bem e ninguém morria por causa disso. Andar informado só serve para ficar mais deprimido.

Nas férias, fique casa. Sair para o Algarve… para quê, afinal? Quem é que precisa de gastar um dinheirão em portagens e refeições e alugueres só para tomar banho de água salgada e ficar cheio de areia? Você vai irritar-se nas filas nos restaurantes horas à espera em Agosto, e vai voltar ainda mais cansado que à partida. Não vá. Poupe.

Os exageros da moda são outra tentação. Há que ter uma gabardina para a chuva, um casaco para o frio, duas calças e duas camisas. Quando uma está suja, lava-se e usa-se a outra. Eu, por exemplo, tenho estes sapatos há mais de dez anos e nunca comprei uma gravata. Não morri por isso.

O país precisa do seu esforço e os gestores públicos agradecem.
Portanto, poupe, homem! Não seja indisciplinado.
Como vê, é só uma questão de querer.

sábado, 1 de janeiro de 2011

2011: ano para recordar

.
Por João Duque

2011 VAI SER um ano diferente dos anos anteriores porque a lua de mel acabou e vem aí, finalmente, o doce remanso do casamento.

Na campanha eleitoral o partido do Governo tinha-nos prometido uma vida santa. Aumentaram-me em 2009 e baixaram-me o IVA. Apaixonei-me logo e votei. Agora andam para aí uns neoliberais a dizer que vamos morrer este ano. Mentira! Não acreditem! Vejam bem como vai ser 2011...

O início de janeiro não vai ser a hecatombe. Em janeiro pouco se vai sentir o efeito do novo Orçamento de 2011 porque vamos todos viver esse mês com o ordenado de dezembro. Só o IVA será um pouco mais pesado. Mas o que são 2%? Uma ninharia ao pé do resto da conta que já são 121%!

Depois virá fevereiro. Mas como o mês é mais curto, logo chegará o desafogo e a folia, porque mais depressa receberemos o novo ordenado!

Aí vem março. Longo e interminável, com 31 dias, vamos ter alguma dificuldade em enganar a barriga, mas este é o momento de iniciar a dieta saudável para prepararmos a praia. Não é o que dizem os médicos? Se queremos estar com barrigas invejáveis de saúde em julho e agosto este é o mês certo para se começar a dieta! Além de mais, já os enganámos em dois meses e se a coisa correr bem o FMI ainda cá não entrou...

Depois abril. É possível que as taxas Euribor continuem a subir, que algumas famílias parem de pagar a hipoteca, mas estou otimista porque finalmente vamos ter os testes de stresse à séria: em vez de simulações vamos ter os nossos bancos a ver como é que o capital se comportará! E mesmo que o mês acabe a 15, não se esqueçam de que o mês tem um feriado que este ano calha à 2ª feira!

E logo a seguir há o 1º de maio! Todos para a rua e um enorme piquenique. Os neoliberais ainda não perceberam o benefício da contestação. As centrais sindicais darão muito dinheiro a ganhar à rapaziada das bifanas e coiratos que os vendem nas rulotes de apoio às manifs. E, além disso, para apoio às manifestações ainda temos os negócios dos bonés, das T-shirts, das bandeiras e das faixas de apoio ou contestação, dos transportes para o Marquês de Pombal e volta, a partir de São Bento ou Terreiro do Paço. Estou certo de que estes economistas de terceira ainda não contaram com este impulso à economia...

A maio segue-se junho, e com ele os subsídios de férias! E assim vamos pagar os saldos do cartão de crédito que tivemos de acumular! Estão a ver? Qual crise? E já se foi meio ano!

Julho e agosto são férias. Mesmo repartidas não faz mal. Ou vamos nós ou eles não vêm...

E logo setembro, outubro e novembro... Mas aqui vamos ter mais um subsídio e as festas de Natal e final de ano com muito amor, carinho e solidariedade. Estou certo de que ainda irei encher um saquinho de plástico com apoio caritativo a entregar à saída do supermercado e que irei levantar no outro lado da fila. Estou certo que o amor que nutro pelos pobrezinhos como eu não morrerá e não me deixarei cair!

Queriam deitar-me abaixo? Nem pensem! E lembrem-se: se lá chegarmos, estamos vivos! E assim poderemos votar neles outra vez! O que mais quereis?
.
«Expresso» de 23 de Dez e 2010

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

ALÉM de não ter sucedido nada ao carro cinzento (que esteve ali o tempo que quis e lhe apeteceu - como sucede a todos os que, neste 'curioso' local, fazem o mesmo), ainda foram chegando mais (como se pode ver em último plano).
.
Repare-se, já agora, nas poças de água - em abatimentos do passeio provocados, especialmente, pelas camionetas que ali estacionam todos os dias. A própria tampa da caixa-de-visita da EPAL (que se vê no canto inferior direito) já foi destruída.

E enquanto tudo isto se passa (há anos e anos, perante a mais escandalosa passividade de uns tantos pantomineiros a quem pagamos 14 meses de ordenado por ano),
o 'Zé' paga, não bufa, e vota novamente 'neles'.

… só no fim do jogo

.
Por Antunes Ferreira

NO PRIMEIRO DIA deste 2011, falar do predecessor que acaba de finar-se não tem qualquer originalidade. Mal o Ano Velho começa a deixar as muletas para passar à cadeirinha de todas, logo toda a gente o empurra para a carreta funerária. Cumpre-se, assim, o caminho para a cova? Mal parecia: actualmente é mais para o forno crematório. Que a Servilusa o acompanhe. Passe a publicidade.

Antever o que vai ser o que hoje começa, não é, de todo impossível. Em tal estado nos encontramos que a pitonisa lá em Delfos prescindiria dos fumos sulfúricos. No entanto, a afirmação que ficou para os anais da História, da autoria do Senhor João Pinto, antigo defesa esquerdo do FêCêPê e treinador de futebol, continua, impávida e serena: «Previsões, só no fim do jogo».

Quando o ainda-PR-futuro-PR promulgou anteontem o Orçamento de Estado para estes 365 dias a contar de hoje, as coisas não têm muito para descobrir. É apenas apertar o cinto. Dos mesmos de sempre. Foram-se os tempos de Henrique de Sagres a empurrar os seus marinheiros para que fossem descobrir que o fim do Mundo afinal não o era. E o Instituto de Meteorologia de Portugal, IP, vai caindo no risco de ser desnecessário.

A famigerada bola de cristal já deu também o que tinha a dar. Resumindo: até neste particular a pasmaceira do Rossio e adjacentes corre o risco de não passar disso mesmo. Na Baixa pombalina já não se descobre nada; as termas romanas vulgarizaram-se, o metro já passa, submarino, sob o Terreiro do Paço. Está definitivamente perdida a expectativa. Normalizou-se o ram-ram. A isto chegámos. Pessimista? Sou, como todo o Português que se preze.

É a crise a nível nacional em que o Governo nos encerrou – enterrou? Ou é a crise a nível internacional que, de acordo com o mesmo Governo, a tal estado nos atirou? Cara ou coroa? Funerárias ou futebolísticas? O Senhor Mourinho bem poderia dar uma ajudinha. Mas, se ele nem à selecção deu…

Não há-de, portanto, ser nada. Quem vier a seguir nem precisará de fechar a porta. Porque, pelos vistos, haverá quem venha a seguir, localmente falando? De fora? Isso, já são outros quinhentos mil réis.

Trágico balanço

.
UM TRÁGICO balanço, o do presente ano de guerra civil nas estradas. Mas, no mundo de fantasia em que vivem o MAI e a ANSR, está tudo "no melhor dos mundos" (como diria o Cândido, o de Voltaire, ao ser lançado para a fogueira de um auto-da-fé no Rossio lisboeta).

Semanário O SOL
30/12/10

«PROVAVELMENTE este ano vai encerrar com mil mortos». A previsão é de José Trigoso, director-geral da Prevenção Rodovíária Portuguesa, referindo-se ao novo método de contagem da sinistralidade (‘mortos a 30 dias’), que entrou em vigor este ano e vai permitir saber quantas vítimas perdem a vida já nos hospitais, após o acidente.

Só até 21 de Dezembro, note-se, já morreram 725 pessoas, mais cinco do que em igual período de 2009.

Defendendo que este padrão se aproxima mais da «realidade», Trigoso sublinha que é preciso redireccionar esforços para a segurança dos peões e dentro das localidades: «Os dados (disponíveis apenas até Maio) mostram que existe um acréscimo geral de 35% de mortos. Dentro das localidades, o aumento é de 48% e, na categoria dos peões, o agravamento é de 82%».

Rede nacional de radares por criar

Esta, porém, foi «a única alteração visível» introduzida este ano. «A Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária (aprovada em Conselho de Ministros em Maio de 2009) previa muitas outras acções, mas até agora esta foi a única posta em prática. Os grupos de trabalho constituídos há mais de um ano não voltaram a reunir», critica Trigoso, temendo que este documento, cuja execução compete à Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), «não saia do papel», como sucedeu com o Plano Nacional de Prevenção Rodoviária, de 2003.

Segundo o calendário das acções, que se prolongam até 2015, a rede nacional de radares, por exemplo, já devia ter sido executada (o prazo terminava este ano). Mas, até agora, nem o concurso público internacional foi lançado para esta operação, que envolve dois mulhões de euros.

Por outro lado, também a fiscalização policial, observa Trigoso, te pecado por defeito: «Somos os país da União Europeia com menos condutores punidos por excesso de velocidade; a Holanda chega aos nove milhões».

No terreno, atesta o coronel Lourenço da Silva, que comandou a Brigada de Trânsito (BT), os problemas perpetuam-se, desde logo com uma «visível» ausência de policiamento: «A criação da Divisão de Trânsito e Segurança Rodoviária não foi mais que um mero órgão burocrático que, tardiamente, pre-tendeu, sem qualquer resultado, dar sequência ao trabalho da comissão criada para corrigir as consequências da destruição da BT».

Uma situação «difícil de inverter a curto prazo», considera Manuel João Ramos, da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados: «O impressionante aumento de mortes infantis (mais de 20%, mesmo ainda sem a contagem a 30 dias) e de vítimas em motorizadas (mais 20%) são sinais da dísfuncionalidade na fiscalização».

Auditoria arrasa ANSR

Manuel João Ramos vai mais longe: «Temos um ministro desgastado , sem capacidade de dialogo e de acção, que se tornou parte do problema em vez de ser parte da solução».

O balanço das políticas de 2010 é, portanto, pouco optimista: «Mesmo que a contragosto e por imposição europeia, o Estado português transpõs duas importantes directivas: a contagem de mortos a 30 dias e as auditorias de segurança rodoviária».

A primeira medida, embora com dados ainda frágeis, aponta já «graves problemas estruturais». A segunda está por aplicar, porque o diploma só foi aprovado anteontem – o prazo fixado era até 2009.

«Benéfica», acrescenta João Ramos, foi ainda a auditoria realizada pela Inspecção Geral da Administração Interna à ANSR (divulgada pelo SOL em Novembro passado), por ter «evidenciado que este organismo está a funcionar muito mal (600 mil multas prescritas nos últimos anos)», A resolução do problema, defende, «poderá passar pela demissão da equipa dirigente».

Para já, a ANSR anunciou apenas uma actualização do SCOT (Sistema de Contra Ordenações de Trânsito) que vai «encurtar os prazos de notificação dos infractores, ao mesmo tempo que lançou mais uma campanha de prevenção, desta feita intitulada ‘Nestas festas o melhor que pode oferecer é estar presente’.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O ano em que a crise ganhou

.
Por Rui Tavares

NUNCA GOSTEI da frase “a única coisa a temer é o próprio medo” que Roosevelt disse no seu discurso de investitura no mês de março de 1933, em plena Grande Depressão. Nunca gostei da frase porque a achava pirosa, o que é uma péssima mania; eu era novo e não queria admitir que uma boa parte das coisas verdadeiras e/ou importantes acabam por força sendo pirosas. O problema das pessoas novas é — mais do que não terem experiência — não terem imaginação para recriar mentalmente um momento em que uma frase destas possa ganhar todo o seu sentido.

(O problema das pessoas velhas é igualmente falta de imaginação. Por experiência a mais ou a menos, a falta de imaginação é sempre um problema.)

Pela mesma mania, nunca gostei de outra frase, desta vez dita por Lula quando perdeu uma eleição: “o medo ganhou à esperança”. Parecia-me, igualmente, uma frase pirosa. Mas acontece o medo ganhar à esperança, tal como acontece ficarmos tolhidos pelo próprio medo. Agora sei, porque o vi acontecer.

Esta crise formou-se subterrânea desde a década de 1980, e nos primeiros anos deste milénio era já inevitável e (digam o que disserem) previsível. Foi aliás, prevista: a única questão era saber se a queda ia ser dura ou suave. Quando, no verão de 2007, a bolha imobiliária americana deu os primeiros sinais de rebentar, ficámos à espera: agora íamos saber.

Ainda assim, durante um ano inteiro esta crise foi observada em embrião por uma minoria de curiosos, enquanto ainda era teimosamente negada pelos poderosos, cuja frase de eleição era: “os fundamentos da economia são sólidos”. Ah, sim! Chegou setembro de 2008 e os alicerces da economia desmoronaram-se sob os nossos olhos. Uma série de falências em cadeia teria levado bancos e seguradoras para o buraco se as suas perdas não tivessem sido, no fundo, nacionalizadas. E quando se experimentou deixar cair um banco aparentemente dispensável — o Lehman Brothers — a economia mundial viu o abismo. A crise foi tão má como nas piores previsões.

Logo no fim desse ano de 2008, apesar de tudo, a sociedade reagiu e, num primeiro combate, a crise apanhou um belo soco no olho. A eleição de Obama foi uma vitória da esperança contra o medo, a frase não deixa de ser pirosa, mas foi o que foi. E até achámos que estávamos preparados para fazer frente à crise. Não seria fácil mas conhecíamos o exemplo histórico da Grande Depressão, sabíamos o que estava em causa, tínhamos alguma ideia do que fazer e, sobretudo, os erros da ideologia dominante estavam identificados.

Era cedo para cantar vitória; como num daqueles jogos de futebol em que uma equipa voluntariosa mas desorganizada marca um golo nos primeiros minutos, o resto do tempo tem sido passado a ver a vantagem fugir, primeiro, e uma derrota avolumar-se depois.

Nos EUA, Obama passou este tempo todo com medo de tudo: da Fox News, do Tea Party, de ser acusado de ser “socialista”. Logo no início do mandato, recusou nacionalizar os bancos por parecer uma coisa “não-americana”. Roosevelt não teve medos desses quando, poucos dias depois de chegar à presidência, fechou todos os bancos por uns dias e reabriu apenas os que se revelaram sólidos.

Na Europa, a influência do medo tem sido ainda mais penosa. Não é um medo-pânico, como talvez devesse ser, mas uma cobardia instintiva, feita de receio, mesquinhez e paralisia. Em 2010 instalou-se, e não se vê como vamos sacudir esta coisa de cima dos ombros.

Sabemos como estas coisas continuam: com um enfraquecimento da cidadania, primeiro, e da democracia depois. Eu, apesar dos sinais, ainda me recuso a admitir que a democracia não seja mais forte. Mas pode ser que — tendo vivido em democracia desde os dois anos de idade — simplesmente me falte imaginação.
.
RuiTavares.Net

Euro ou novo escudo?

.
Por João Duque

QUANDO EM 1998 nos preparávamos para aderir ao euro participei em inúmeras reuniões de trabalho para prever as consequências e questões práticas dessa adesão. Para além das questões legais que se colocavam, os detractores de tanto tempo consumido em reuniões e demais preparações sumariavam todo o esforço à "questão dos arredondamentos". Isto é, para além de leis que obrigavam a que nenhum devedor se furtasse ao pagamento de dívidas em escudos (moeda que ia desaparecer, podendo invocar-se que não se poderia entregar o que já não existia), as questões resumiam-se a muito trabalho de computação para preparar os sistemas às novas unidades monetárias, à educação para a nova moeda, e aos arredondamentos (para que contas iriam verter todos os arredondamentos feitos em milhões de contas).

Hoje há já países recentemente chegados ao euro que expressam opinião pública, através dos seus ministros, de que Portugal deveria sair do euro e é com tristeza que assisto a um governo impávido e sereno a ver pespegarem-lhe com tudo isto na cara sem que tenha a mais pequena reacção ao tema ou que explique aos portugueses quais os problemas que se colocariam a essa nova mudança.

Podemos pensar que sair do euro é simplesmente o movimento inverso ao da entrada. Isto é, pode imaginar-se que o problema se resume, mais uma vez, à lei, à educação, à informática e aos arredondamentos. Mas não. O problema é que agora, ao contrário do que sucedeu na entrada, a moeda de que sairíamos continuaria a existir, pelo que a questão legal passa a ser bem diferente da anterior, porque teria imediatas e pouco conhecidas consequências económicas. Antes, quando entrámos, bastava decretar que todos os títulos expressos em escudos (e que são passivos ou deveres de uns, são activos ou direitos para outros) seriam automaticamente convertidos em euros. Caso o não fossem caducariam pela impossibilidade de entrega do que já não existia. Hoje, porém, se saíssemos do euro, essa moeda ainda existiria e haveria que decidir se converteríamos ou não na nova moeda todos, só alguns, ou só os novos os activos e passivos, à medida que fossem criados.

A discussão da valorização das variáveis ‘stock' (direitos existentes), associada à da valorização das variáveis fluxo (rendimentos futuros gerados já na nova moeda escudo se originados internamente, ou noutra moeda, se produzidos externamente), e, ainda mais relevante, a discussão em torno da potencial reacção dos mercados a esta conversão, ou sobre o interesse desses mercados por activos expressos no novo escudo está ainda por fazer. Mas uma coisa parece-me certa: se convertermos todos os direitos e responsabilidades na nova moeda, com a desvalorização imediata que prevejo, com o pouco crescimento que a nossa economia parece prometer, mesmo num regime de câmbios livre e controlado pelo nosso Banco Central, teríamos a debandada generalizada dos credores internacionais que veriam nessa desvalorização um forte ‘hair cut' nas suas posições. E pergunto, quem depois subscreveria novas emissões de dívida feitas em escudos? E que taxas não teríamos de oferecer para atrair novos credores? Deus queira que essa não seja a contrapartida exigida pelos "amigos" (FMI e Fundo Europeu de Estabilização Financeira) que prevejo cada vez mais prováveis a envolverem-se na nossa recuperação.
.
«DE» de 30 Dez 10

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Sonata para um menino que está a chegar

.
Por Baptista-Bastos

VENS JUNTAR-TE a nós e, em si mesma, a tua vinda é já um acto de comovente beleza. Há muito que te esperávamos, provindo dessa interminável sequência na qual se tecem os fios da nossa condição. As coisas não estão boas, por aqui. Mas os tormentos que nos assolam não calam a voz das nossas esperanças. Vem, menino. Pertences a uma estirpe que acendeu o seu lume em muitos campos alheios e fez um leito de nações num concerto de poesia que dura há séculos. Que quer, rigorosamente, dizer isto? Que o parágrafo das nossas vidas tem sido extenso e que, no encontro com os outros, alargámos os laços da nossa pessoal intimidade.

Vem, menino. Menino novo, cujo coração unânime vai bater como o coração de um anjo que sorri e nos acena. Sei que vais ser um menino feliz, como eu sou feliz ao escrever esta afirmação pausada. Menino feliz porque te espera um coro de risos, de faces radiantes; a paixão de quem quer dar tudo pela fortuna de te ter consigo e o regozijo de nos pertenceres para te pertencermos.

Há muito que te esperávamos. Há muito que te esperava, como o louvor de uma boa nova ou o sinal de uma luz rigorosa para a festa de todas as festas. E aí vens.

Já se sabe como é o mundo: sombrio e venal, cobarde e duro, obscuro e triste, glorioso e valente, tímido e arrogante, calado e grosseiro. Já se sabe. Mas a qualidade áurea das criaturas que o habitam e que o moldam, com a argila das suas individuais deficiências, faz com que, todos os anos, continuemos a acreditar. E assim nascem meninos como tu, produtos dessa crença confusa na concórdia que nos impele para todos os recomeços.
Em cada ano que atravessa outro ano renovam-se os risos, remoçam os alvoroços, renascem os velhos no olhar dependente dos meninos, porque os velhos são meninos que se prolongam na pontualidade e no espanto das coisas permanentemente inauguradas. A vida, como é hábito.

Espero-te com a emoção de quem viajou por muitos bares, muitas cartografias, por muitas palavras, por muitos socalcos. Mas não quero dar-te conselhos. Os conselhos são o modo de os antigos imporem uma ridícula superioridade. A expressão: "No meu tempo..." é o início de algo de enfadonho; a fastidiosa e inútil frase que pretende doirar o passado de misérias e afrontas. Como se isso fosse possível. O tempo é todo nosso, o teu e o meu, pode levar tudo, mas nunca lava tudo.

O mundo anda atrapalhado e aflito. Há quem pense que deixou de haver lutas e que a nitidez do entendível perdeu-se no opaco e na desistência. Vais ver que as realidades não são bem assim e que as razões da existência dispõem de argumentos poéticos com os quais se pode enfrentar a manipulação, a omissão, o medo e a mentira.

Não te demores.
.
«DN» de 29 Dez 10

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

«Dito & Feito»

.
Por José António Lima

NUMA DAS MUITAS entrevistas que José Sócrates vem dando, a cada dia mais crente nas virtudes da propaganda, o primeiro-ministro contesta que o Governo tenha falhado, ultimamente, todas as suas previsões. «Em 2009, temos um défice de 9,3% - que aumentámos de 2,7%, salvo erro -, mas há uma boa razão: é que tivemos a maior crise internacional dos últimos 80 anos», alega Sócrates.

Ora, esta justificação é apenas uma parte da verdade. Pois foram razões nacionais (a crise do nosso crónico endividamento, o despesismo do Estado e a falta de competitividade da economia) que levaram o défice português para valores bem acima da maioria dos parceiros da UE - e o nosso PIB para valores bem na cauda da lista europeia.

E foram razões político-eleitorais que levaram o Governo socialista a distribuir em 2009, ano de legislativas, generosas benesses, como aumentos de salários ou a descida do IVA - só admitindo que havia uma enorme derrapagem do défice já depois de realizadas as eleições.

Quanto ao igualmente problemático défice deste ano de 2010, o primeiro-ministro explica assim o recurso à receita extraordinária do fundo de pensões da PT: «Tivemos também uma despesa extraordinária chamada submarinos. Como compensaríamos os mil milhões de euros dessa despesa extraordinária sem recorrermos a uma receita extraordinária?». Ora isto é, mais uma vez, uma meia-verdade. O fundo da PT vai pagar os mil milhões dos submarinos, mas ainda sobram 1,7 mil milhões. Que vão servir para quê? Para encobrir muitas outras derrapagens extraordinárias.

Como o incontrolável buraco da Saúde. Onde as dívidas do SNS, dos hospitais-empresa, às farmacêuticas, etc., atiraram o défice para um nível alarmante. Que a ministra Ana Jorge recusa confirmar, mas não ousa desmentir. E, pela primeira vez desde há muitos anos, o seu Ministério da Saúde omitiu agora o valor do défice acumulado nos mapas que o Governo entregou no Parlamento para a discussão do OE.

Eis como se gere a política da meia-verdade. Ou da meia-mentira, como se quiser.
.
«SOL» de 23 Dez 10

O MENINO JESUS

.
Por Maria Filomena Mónica

QUANDO a minha mãe morreu, deixou-me um Menino Jesus. Depois de alguma hesitação sobre o seu destino, segui o conselho das minhas netas e coloquei-o ao lado da árvore de Natal. Devido à composição da família moderna, com segundos e terceiros casamentos, tal é o número de avós que as criancinhas têm de visitar que, cá em casa, a Consoada tende a prolongar-se até aos Reis. Assim, em vez de apenas ser exibido um ou dois dias, o Menino fica na sala até o último embrulho desaparecer. Não tive outro remédio que não fosse o de me habituar à sua presença.

Da minha infância católica, ficaram-me vestígios nem sempre evidentes. Gosto de Anunciações, de Nossas Senhoras do Ó, de Anjos sobrevoando humanos. Sou capaz de ficar horas a olhar as madonnas de Filippo Lippi, as adolescentes com asas de Boticelli, o menino salvador do mundo de Josefa de Óbidos. Tantas saudades albergo do latim dominical da minha infância que, este Verão, dei comigo na Igreja de St Aloysius, em Oxford, pela qual, ao longo de trinta anos, passara sem jamais nela ter entrado, a fim de ouvir a missa celebrada segundo o antigo ritual. Uma vez em Lisboa, decidi rever os anjinhos, em talha barroca, que decoram a capela de Nossa Senhora da Piedade na igreja de S. Roque. E, chegada a quadra natalícia, considerei apropriado ouvir, vezes sem conta, o exaltante coro «For unto us a child is born…», do Messiah, de Handel.

Mas nada me comove tanto quanto o Menino Jesus da minha mãe. Com aqueles olhinhos de vidro, aquela tanga doirada e aquela camisinha decorada a estrelas, parece um menino qualquer, só que mais bonito. Depois de o ter retirado do armário, onde fica guardado durante o resto do ano, tive um sonho, no qual ele aparecia ao lado de um senhor desconhecido, que disse chamar-se Alberto Caeiro. O Menino vinha, com ele, a correr, rolando-se pela erva do jardim, arrancando as hortênsias dos canteiros, rindo-se com gargalhadas que ecoavam por todo o prédio. Tinha fugido do céu, após ter chegado à conclusão de que lá tudo estava em desacordo com as flores e as árvores e as pedras deste mundo. Descobrira que, no Paraíso, não o deixavam, como sucedia com outras crianças, ter pai e mãe. O seu pai era duas pessoas: um velho chamado José, um carpinteiro que não era bem pai dele; e uma pomba estúpida, que não era do mundo nem pomba. E a sua mãe não tinha amado antes de o ter. Um dia, em que Deus estava a dormir e em que o Espírito Santo andava a voar, fora à caixa dos milagres e roubara aquele truque que permite a alguém fugir sem que tal facto seja notado. Em 2006, descendo pelo primeiro raio de sol, aterrou em minha casa.

Hoje, é uma criança saudável, alegre e brincalhona. Atira pedras aos gatos, rouba a fruta da nespereira e foge dos cães. Corre atrás das raparigas que, em rancho, vão pela rua, levantando-lhes as saias, porque sabe que elas não gostam e que toda a gente se ri do disparate. A mim, mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as tem na mão, conta-me que a Virgem Maria leva as tardes da Eternidade a fazer meia e que o Espírito Santo se coça com o bico. Quando adormece, levo-o, devagarinho, até à sua almofada carmim, decorada com um resplendor monumental. Vive na minha cave, entre garrafas de vinho do Porto vintage, que considera demasiado doce para o seu paladar, e meia dúzia de atoalhados de linho, que aprecia. No Natal, dá-me a mão, a mim e aos meus três netos, a Rita, a Joana e o Miguel, e vamos os cinco pelo caminho que houver, gozando o nosso segredo, que é o de saber que não há mistério no mundo e que tudo vale a pena.

O Menino e eu damo-nos tão bem que não nos interrogamos jamais sobre a sua origem. Ao anoitecer, conto-lhe histórias dos homens de carne e osso, sorrindo ele, porque tudo lhe parece incrível. Ri dos reis, que não são reis, e não gosta de ouvir falar de guerras, porque são cruéis. Às vezes, acorda de noite e vira os meus sonhos de pernas para o ar, batendo palmas. Quando morrer, depois de ter despido o meu cansado e humano ser, levar-me-á até ao meu prado favorito, perto do rio Isis, onde depositará as minhas cinzas. Eis a história do meu Menino Jesus. Por que razão não há-de ser mais verdadeira do que aquela que os teólogos nos impingem? A minha versão não teria agradado à minha mãe, mas, seja onde for que se encontre, pode estar sossegada. O seu Menino encontrou um lar onde se sente feliz.

«GQ» de Janeiro 2010

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Newton e o Homem Aranha

.
Por Nuno Crato

QUEM É MAIS conhecido? Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar a Lua, ou Marylin Monroe, a actriz com mais sucesso em Hollywood? Quem é mais popular? O Homem Aranha ou o Rato Mickey? Há tempos, esta questão podia entreter-nos em animados debates. Hoje, basta ir ao Google, digitar os nomes e contar o número de ocorrências. Claro que há alguns cuidados a ter, por exemplo restringir-nos a páginas escritas numa determinada língua ou escrever “Mickey Mouse” e “Spyder Man”, se nos centrarmos no idioma original destes dois. Se, contudo, quisermos saber quem era mais popular nos anos 1970, já o Google de pouco nos serve.

Também se quisermos discutir, como muitos nacionalistas o fazem, qual é a língua que tem mais um vocabulário mais extenso, teremos de usar outras técnicas. Podemos, por exemplo, ver os maiores e mais completos dicionários desses idiomas e contar os vocábulos que cada um deles comporta. Este método é discutível, claro, pois pode-se dizer que algumas línguas não têm a felicidade de ter dicionários tão bons como outras. E ainda maior dificuldade teremos se quisermos saber como aumentaram os respectivos vocabulários. Em 1700, o inglês tinha mais palavras que o alemão? E em 1800, o italiano tinha a primazia sobre o francês?

Todas estas perguntas, que há poucos anos pareciam nunca poder alcançar resposta condigna, começam a ser objecto de estudos quantitativos muito sérios. Num artigo que esta semana foi publicado pela “Science” (doi: 10.1126/science.119964), relatam-se resultados de um estudo linguístico que se enquadra no que se pode chamar “culturologia” (“culturomics” em inglês).
Um grupo de investigadores de Harvard, que inclui o linguista Steven Pinker e colaboradores da Enciclopédia Britânica e da Google, usou os frutos do trabalho desta última empresa para começar a perceber como tem evoluído quantitativamente o corpus linguístico.

Até hoje, a Google reuniu uma biblioteca digital de mais de 15 milhões de livros, o que representa aproximadamente 12% de todos os volumes publicados. Desses, os investigadores seleccionaram cinco milhões, com uma digitalização de melhor qualidade. No total, isso corresponde a 500 mil milhões de palavras, nas quais predominam 361 mil milhões em inglês, 45 mil milhões em francês e outros tantos milhões em espanhol. Os livros mais antigos são de 1500, totalizando nas primeiras décadas do século XVI apenas algumas centenas de milhares de palavras. O total de palavras sobe para 60 milhões por ano em 1800, 1,4 mil milhões em 1900 e 8 mil milhões em 2000.

Há muitas perguntas profundas que podem começar a ser respondidas com esta gigantesca base de dados. Os investigadores concluíram, por exemplo, que o léxico da língua inglesa subiu de 554 mil palavras em 1900 para 597 mil em 1950 e para um pouco mais de um milhão em 2000. Na última década, o crescimento tem sido inacreditável, de cerca de 8500 palavras por ano.

Como há muito se sabe, o uso das palavras é muito desigual. Há as que são utilizadas frase sim frase sim e as que muito raramente aparecem. A sua distribuição estatística é bem descrita pela célebre lei de Zipf, que postula que a ocorrência de cada palavra é inversamente proporcional à sua ordem na lista de frequências. Assim, no caso mais simples, a palavra mais frequente ocorre duas vezes mais que a segunda na lista, três vezes mais que a terceira, e por aí adiante. Os investigadores verificaram mais uma vez que esta lei estatística se aplica ao léxico e estimam que 52% das palavras em língua inglesa têm um uso tão raro que os dicionários não as documentam.
Notaram também que as presenças femininas na literatura têm vindo a sobrepor-se às masculinas. Da mesma forma, Newton fica acima do Homem Aranha em número de ocorrências.

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 23 Dez 10

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O rebuçado

.
Por Baptista-Bastos

ÍAMOS, OS CINCO,
nos Restauradores. O dinheiro era pouco e, por isso mesmo, rateado. Fazia frio e éramos felizes. Decidimos, dentro do frio e na nossa felicidade frugal, sentarmo-nos na casa dos sorvetes e comer meia cassata. Antigamente, no tempo do frio, ninguém, em Lisboa, comia gelados, e arrepiávamo-nos quando víamos, nos filmes, miúdos e graúdos a lamber cones de sorvete. Mais tarde, muito mais tarde, em Moscovo, surpreendi o deleite, para mim inaudito, de ver magotes de gente a medir-se com enormes invólucros de plástico repletos de sorvetes de várias cores. Caminhava pelas ruas cheias de neve, na companhia do meu amigo José David Lopes, camarada do Diário de Notícias, e resolvemos beber vodca pelo gargalo de uma garrafa avulsa, acaso como retaliação absurda pela quantidade de pessoas lambedoras de sorvete.

Mas, naquele dia, éramos os cinco e não havia infelicidade que nos tocasse no batente. Sorríamos uns para os outros, e eu estava com aquele orgulho, um pouco tolo, um pouco ufano, do patriarca que nunca se desentende da sua condição. Os nossos três rapazes estavam naquela idade em que a música dos sonhos nunca se esfuma e tudo é permitido e possível. A minha mulher, jovem, serena e vigilante, observava-nos a todos, e eu sentia a pulsão do imperativo que a animava. Um dia, pensei, hei-de escrever sobre este momento, no qual se desprende o íntimo de um coração, e se ignora a metáfora. Não sei se chegou a altura.

Ela e eu tínhamos combinado comprar umas prendas aos filhos, era Natal, e eu recebera um bónus do jornal onde trabalhava. Dava para muito pouco, o bónus, mas sempre dava para alguma coisa. Por outro lado, o nosso filho do meio decidira trabalhar, na quadra de Natal, numa empresa de mudanças, a fim de amealhar trinta contos, o preço de umas botas de bico longo, suas preferidas que eu detestava por as considerar grosseiras. Ele tinha 17 anos e contrariávamos essa ideia tida por nós como disparatada. Por fim, ganhara a sua perseverança, e lá andara, durante um período, a carregar móveis. A mãe, preocupada e inquieta; eu, um pouco orgulhoso.

Chupávamos a cassata, calculados no que fazíamos e exactos no prazer modesto, na felicidade pequena que nos abrangia. Eis senão quando o nosso filho do meio se ergueu, sorriso de ponta a ponta da boca, braços abertos na exuberância afortunada que até hoje se lhe mantém. "Ah!, ganda Gabriel!", exclamou, para outro rapaz que se lhe aproximava, também exuberante e também alegre. "É um amigo meu das mudanças." Abraçaram-se, no júbilo de um reencontro inesperado. O Gabriel meteu a mão no bolso. Procurava o que não descobria ou não tinha. Por fim, extraiu algo pequeno e, pelo seu olhar, fútil. Estendeu um rebuçado.

"Bom Natal!", disse
.
«DN» de 22 Dez 10