terça-feira, 8 de março de 2011

Heresias da ciência…

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Por Nuno Crato

NO VERÃO de 1996 comecei a escrever para o Expresso sobre ciência. Daí até ao fim de 2010 escrevi artigos de divulgação, notícias, comentários e crónicas. O “Passeio Aleatório”, que ocupava este espaço, apareceu 351 vezes, ao longo de 10 anos. Como conseguiram os leitores e o Expresso aturarem-me durante tanto tempo? A verdade é que nunca este semanário alguma vez me pressionou para que escrevesse ou para que não escrevesse alguma coisa. Foi um exercício de liberdade.

O convite continua, agora para escrever sobre educação. O espaço será partilhado com três distintos cronistas, que escrevem sobre outros temas igualmente importantes. Para mim é um descanso. Para os leitores também.

Em educação, tal como em muitos outros temas, faz falta a liberdade de discutir e questionar as teorias que há vinte ou trinta anos dominam a teoria educativa. O espírito crítico e a razão podem ajudar-nos a questionar ideias caducas. Mas há uma ajuda mais poderosa. É a ciência. Sobretudo nas últimas décadas, a psicologia cognitiva, a economia da educação e outras áreas científicas têm vindo a questionar muitas ideias feitas e a colocar o debate educativo noutros moldes.

Basta folhear as revistas científicas. No mês passado, por exemplo, um grupo de investigadores das universidades de Chicago e Harvard, reportaram nos “Proceedings of the National Academy of Sciences” (PNAS) um estudo sobre as relações entre as palavras e a capacidade de representação numérica (doi: 10.1073/pnas.1015975108). Sabe-se, por vários estudos culturais comparativos, que a existência de palavras para representar números está associada à representação mental rigorosa de largas quantidades. Nas culturas que não têm palavras para números grandes (por exemplo, algumas tribos amazónicas não possuem numerais além de dois ou três), os indivíduos não conseguem avaliar com precisão quantidades elementares. Chamados a comparar dois conjuntos de elementos apresentados separadamente, confundem 7 com 10. Mas, nessas culturas, os indivíduos também não têm uma prática, por exemplo, em trocas comerciais, que os obriguem a desenvolver a contagem. Daí que seja difícil saber de onde vem a dificuldade, se da ausência de palavras que denotam as quantidades se da falta de prática numérica.

Neste estudo, os investigadores conseguiram dissociar os dois factores, analisando a capacidade de surdos-mudos que comunicam por meio de uma linguagem gestual própria e pouco rica, onde não existem símbolos para números, mas que estão integrados numa cultura (nicaraguense) em que há transacções comerciais frequentes e em que os números permeiam a vida. Descobriram que, apesar de conseguirem usar o dinheiro com precisão e fazer trocos acertadamente, em contagens abstractas esses surdos-mudos enganam-se mais do que os que estudaram a linguagem gestual convencional, em que existem elementos simbólicos distintos que representam quaisquer números inteiros.

Os investigadores concluíram que as lengalengas escolares, como a recitação da sequência de números (“um, dois, três, … “), que os alunos por vezes praticam ainda antes de saber o seu significado, ajudam posteriormente a identificar as quantidades. Não há mal em recitar a palavra “quatro”, mesmo antes de a entender, concluem, isso ajuda a identificar mais tarde o conceito. Por vezes, não há mal em se decorar sem se perceber, pois isso pode favorecer a compreensão dos conceitos. Que heresia para algumas teorias educativas! Ao que os cientistas se atrevem!
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«Números e Letras» - «Expresso» de 5 Mar 11

segunda-feira, 7 de março de 2011

As Universidades em Portugal

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Por Maria Filomena Mónica

O QUE TÊM EM COMUM a Universidade de Lisboa, o Observatório Meteorológico da Ajuda e o Censo de 2011? Aparentemente nada. Vale todavia a pena olhar mais de perto. A propósito do Centenário daquela Universidade, o Reitor organizou uma série de «Cem Lições» proferidas por ex-alunos. Composta por meia dúzia de gatos-pingados, entre os quais me encontrava, a assistência revelou o óbvio: em Portugal, não existem Universidades.

Há alguns meses, um médico ordenou-me que andasse 40 minutos por dia. Comecei pela Tapada da Ajuda. Uma vez ali, deparei-me com o Observatório Meteorológico mandado construir, na década de 1850, por D. Pedro V. Faz este mês 150 anos que a primeira pedra foi por ele lançada. Apesar de o interior conter, ao que me dizem, um conjunto fascinante de instrumentos, não pode ser visto. Por outro lado, a beleza do edifício neo-clássico tão pouco estimulou o restauro. Perguntei a quem pertencia. A resposta deixou-me estupefacta: à Universidade de Lisboa.

Chegamos ao Censo de 2011: acabo de ser informada que 34% dos 50.000 candidatos à distribuição dos questionários porta a porta tem formação superior. Mas foi para esta tarefa que as Universidades andaram a preparar gente? É esta a geração «qualificada» de que o engº Sócrates gosta de falar? Como se sentirão os jovens que, dentro de dias, nos abordarão, envergando um colete verde reflector?

Se procurarmos averiguar quem são os responsáveis pela deplorável situação a que chegámos, temos que colocar, na primeira fila, os Ministros da Educação. Mas nem toda a responsabilidade é deles. Na medida em que, por preguiça ou indiferença, as Universidades abdicaram de ter uma palavra a dizer sobre os seus alunos, tornaram-se cúmplices. Por surpreendente que pareça, quem escolhe os jovens que entram no ensino superior é um computador.

Não minimizo as dificuldades sentidas, depois de 1974, pelas Universidades. Sem um passado em que ancorar os cursos, defrontando uma classe média exigindo que os filhos a ela tivessem acesso, não dispondo de um corpo docente qualificado, o regime democrático viu-se perante um problema. A direita, por covardia, e a esquerda, por convicção, acordaram em que o ingresso na Universidade era um direito fundamental. Ora, pela sua natureza, esta é elitista.

Uma boa Universidade é uma comunidade. A ausência de salas quer para professores que para alunos revela o que ali se passa: os docentes chegam, dão as aulas e desaparecem. Eis tudo. Ora, longe de ser uma corrida durante a qual os concorrentes procuram chegar em primeiro lugar, uma Universidade é o local onde tem lugar uma conversa. Sim, uma conversa, ou seja, um debate. Eis o que não existe. Olho a Universidade como o fazia Almeida Garrett quando falava dos frades, em Viagens na Minha Terra. Tenho saudades, não do que foi, mas do que poderia ter sido. Quando a critico, não é baseada em sentimentos nostálgicos, mas em nome daquilo que, em 1974, imaginei ser possível.
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«Expresso» de 5 Mar 11

sábado, 5 de março de 2011

O ovo de Colombo

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Por Antunes Ferreira

É DO CONHECIMENTO geral que as coisas vão de mal a pior por estas nossas bandas. Tudo o que é gente e/ou instituição que se preze vem vaticinando o futuro mais negro para Portugal. Dos mimos das agências de rating até aos solavancos que continuam sobre os juros da dívida soberana lusa, a questão já é apenas saber-se quando o FMI ou o Fundo de Estabilização Europeu põem aqui a bota.

Bem se esforçam Sócrates e Teixeira dos Santos por tentar passar a mensagem que se resume facilmente: não precisamos de «ajuda» externa para nada. Safamo-nos sozinhos. O paternal ditador de Santa Comba Dão falava no «orgulhosamente sós». Tratava-se do problema colonial, ou ultramarino, para o regime. Sem pretender mais do que recordar a afirmação calina, não faço comparações espúrias.

Andamos numa roda-viva em busca de um iluminado que ponha em pé o ovo mágico que resolveria o imbróglio. Mas, o Mestre Cristóvão já se finou há tempo suficiente para inviabilizar a procura e muito menos a solução. Bom seria se conseguíssemos atingir o objectivo; porém, nem a Senhora Merkel consegue tal milagre ovíparo. É muito chato, mas é.

Este assunto, traz-me à memória uma estória muito curiosa que aconteceu na Bolívia. Essa agora?, perguntar-me-ão. Eu conto-a para os que ainda me conseguem seguir, corajosa e denodadamente. Nos princípios do século passado tinha sido fundado em La Paz «El Diario». O seu primeiro director e proprietário foi um nome grande do jornalismo boliviano: Don Jose Carrasco Torrico.

Homem ocupadíssimo, como se compreende, por vezes as inúmeras solicitações que tinha impediam-no de estar tão presente no periódico tanto quanto ele desejava. Mas, uma coisa havia que para ele era sagrada: o editorial quotidiano. Estivesse onde estivesse, o escrito chegava pontualmente à tipografia. Nem um terramoto abalaria essa determinação.

O 12 de Outubro de 1492 foi a data do descobrimento da América; por isso se tornou no Dia da Raça. A figura de Cristóvão Colombo, autor confesso da ocorrência, foi por inúmeras vezes citada na Imprensa e sempre associada ao famoso episódio do ovo em pé.

Num desses dias, Don Jose Carrasco, episodicamente fora do jornal, enviou por mensageiro o seu texto intitulado precisamente El huevo de Colón. O linotipista de serviço iniciou de imediato a composição, mas logo no título lhe surgiu uma dúvida. Huevo, na gíria da fala castelhana menos educada tem ou outro significado.

O bom homem pensou que el señor Director nunca utilizara, nem utilizaria tal calão. E dada a ausência do editorialista, o compositor permitiu-se a correcção que entendeu absolutamente necessária. No dia seguinte, «El Diario» publicava o editorial intitulado El testículo de Colón. Isto porque o termo lhe pareceu mais correcto e menos indelicado. Imaginam-se as reacções e as gargalhadas do público, a actuação de Don Carrasco e as consequências para o zeloso tipógrafo.

Neste nosso pobre País, a estória parece-me ser adequada, ainda que com uma ligeira adaptação: é o que se diz meter o tomate na virilha. Para não utilizar terminologia mais vernácula. Isto é que vai uma crise.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O meu nome numa estrela…

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Por Nuno Crato

VLADIMIR NABOKOV, o genial escritor de que aqui falámos na semana passada, escreveu um poema em que descrevia o seu trabalho de entomólogo, mais precisamente, de estudioso de borboletas. Orgulhava-se de se ter tornado «padrinho de um insecto», depois de o ter descoberto e descrito pela primeira vez, e concluía: «não quero outra fama».

Um grupo de jovens da Escola Secundária de Alvide, Cascais, acaba de descobrir um asteróide, que recebeu a designação 2011 BG16 e que terá um nome português. Não querem outra fama!
A descoberta é motivo de orgulho para eles. E para todos nós. Constituem um dos grupos de 20 escolas portuguesas que participaram nas últimas campanhas da Colaboração Internacional para a Procura de Asteróides, um programa de ensino e de divulgação científica que tem atraído estudantes de todo o mundo. O programa, coordenado em Portugal pela professora Ana Costa e dinamizado pelo NUCLIO, Núcleo Interactivo de Astronomia, consiste no estudo de imagens obtidas por vários telescópios para detecção visual de asteróides e posterior determinação das suas órbitas.

São pequenos pontos luminosos que aparecem disfarçados entre miríades de outros pontos luminosos e que apenas se destacam como planetas menores, cometas, ou asteróides por se deslocarem lentamente, noite após noite, contra o fundo estelar. É assim que se percebeu que havia no céu astros diferentes das chamadas «estrelas fixas» e foi por isso que os Gregos chamaram planetas, isto é, passeantes, a Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno. Chamaram também planetas à Lua e ao Sol, pois também esses mudam de posição contra o fundo das estrelas. A designação demorou a mudar. Quando Camões falava do «Planeta que no céu primeiro/ Habita» (Lusíadas, V 24), referia-se à Lua; e quando falava do «lúcido Planeta/ Que as horas do dia vai distinguindo» (II 1), referia-se ao Sol. Um século depois, com a revolução astronómica, percebeu-se que a Lua era nosso satélite e que a Terra orbitava o Sol. O termo «planeta» mudou de acepção.

Úrano e Neptuno foram descobertos mais tarde, já com telescópios potentes. O mesmo se passou com os primeiros asteróides a serem conhecidos. Mas foi com a fotografia que se passou a poder pesquisar sistematicamente o céu à procura de astros mais pequenos ou mais distantes, demasiadamente pálidos para se acompanharem visualmente. Plutão foi descoberto em 1930 graças à persistência de um jovem norte-americano chamado Clyde Tombaugh, que passou anos à volta de fotografias do céu procurando verificar quais os pontos luminosos que mudavam de posição.

Com a fotografia digital e a internet abriram-se novas possibilidades. As fotografias tiradas por um telescópio no Chile podem ser vistas por estudantes em Tóquio e as imagens obtidas na Austrália podem ser esquadrinhadas por estudantes em Cascais. São olhos vivazes de jovens ocupados nesta procura internacional.

É uma ajuda para a astronomia, por modesta que seja, e é, sobretudo, uma ajuda aos jovens. Participando num esforço científico internacional, aprendem. Alguns aprendem muito. Agora que tiveram sucesso na descoberta de um pequeno asteróide até à data desconhecido, Carlos Martins, Karan Manghnani, Rafaela Silva, Rúben Costa e Rui Pimenta estão muito contentes. Nós também.

Nota: esta é a minha última crónica “Passeio Aleatório”. Foram 351 passeios ao longo de dez anos, e terminam com uma boa notícia! Regresso em 5 de Março com “Números e Letras”. Até breve!
N.C.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 19 Fev 11

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Passatempo-relâmpago de 18-20 Fev 11 - Solução

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A CENA começa com a EMEL, na sexta-feira passada, a fazer algo nunca visto: reprimir o estacionamento selvagem na paragem da Carris da Av. João XXI, junto ao n.º 21. É o que a 1ª foto documenta.

Ora, o facto de "toda a gente" ali estacionar, desde sempre, sem ser incomodada, leva a que outros condutores vão chegando, parando ou estacionando, e tratando da sua vida - completamente alheios ao que se está a passar! - incluindo uma carrinha de transporte de valores (última foto).

Durante todo o tempo que ali estive (que, como se percebe, não foi pouco) mais ninguém foi incomodado: nem bloqueado, nem multado, nem sequer advertido.
Como já aqui se disse, essa arbitrariedade na actuação dos fiscais (que actuam ou não, a seu bel-prazer) é uma das principais causas do descrédito da empresa junto dos lisboetas.
E repare-se que, ao estacionar ali, estorvou ainda mais do que o carrinho que puniu...
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Resumindo e concluindo: a resposta certa (carro "C") foi dada por João Rodrigues, que tem agora 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com, indicando morada para envio do prémio, que deverá escolher entre os seguintes:

«Prisioneiro do Círculo» (de Ricardo Gontijo), porque seria bom que António Costa dedicasse, a estes problemas, uma ínfima parte do que dedica à «Quadratura do Círculo», na SIC-N.
«O Ministro» (de Uanhenga Xitu), porque seria bom que Rui Pereira, MAI, mandasse a DT da PSP tratar - também - destes assuntos, até porque a EMEL só actua algumas horas por dia (e nem mesmo todos os dias).
«Vontade de ser Ministro» (de Fernando Luso Soares), pelas mesmas razões, acrescidas do facto de ele dar barraca atrás de barraca - para já não o referir o facto de ter abandonado o cargo de juiz do Tribunal Constitucional para ser ministro!
«Difícil é Educá-los» (de David Justino) e «Autoridade» (de Miguel Morgado), por motivos óbvios.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O crime da flatulência

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Por Antunes Ferreira

PUBLICOU O SOL que “É reconfortante saber que pelo menos um país no Mundo tem as suas prioridades bem definidas. Na nação africana do Malawi, está a ser votada uma lei que tem como objectivo «moldar cidadãos responsáveis e disciplinados», tornando para isso a flatulência pública ilegal. Por vontade do Executivo, episódios desses em público deixaram de ser apenas um acto rude e de má educação para passarem a ser crime. Finalmente, existe um governo que não teme fazer frente a um crimes mais antigos que a humanidade comete impunemente”.

De acordo com órgãos de comunicação internacionais, a lei terá sido discutida na quarta-feira no Parlamento do país, mas até então ainda não havia notícias sobre se a proibição foi ou não adiante. Nestes temas de gritante actualidade não se compreende que não se esteja “em cima do acontecimento”. Não há desculpas para tal procedimento.

Há que ter a noção da importância dos assuntos no contexto globalizado em que vivemos, e que começou com a publicação da “Aldeia Global” pelo Sr. Marshall McLuhan. Há que hierarquizá-los e, assim, há que os escolher cuidadosamente. Sem qualquer rebuço a criminalização da flatulência em público no Malawi está no grupo da frente.

Andamos nós (e muitos outros) ouvindo e seguindo, com mais ou menos atenção, questões menores, como o fado corrido “Entra não entra”, interpretado pelo Governo Português, acompanhado à guitarra pelo Fundo Monetário Internacional e à viola pelo Fundo de Estabilização Europeu – e descuramos a flatulência em público.

Surge o Senhor Cardeal Patriarca a comunicar que vai apresentar a sua resignação a Roma, invocando ter acabado o seu prazo de validade e nós ficamos numa expectativa tensa. Aceitará o Santo Padre o pedido do Senhor Dom José Policarpo, ou rejeitá-lo-á? Outra dúvida atroz aqui por casa. Ainda que emérito eclesiástico nos tenha informado que nunca nos abandonará interneticamente, os pontos de interrogação acentuam-se. Quanto à flatulência em público, pelos vistos, estamo-nos borrifando sobre a sua possível caracterização criminal.

O Malawi é um exemplo mundial. O seu Parlamento – como todas as Assembleias em regimes democráticos – pode já ter dado o passo decisivo – e nós, moita, carrasco. Não procuramos estar informados, não nos preocupamos com a formação, ignoramos as novas oportunidades. Somos uns distraídos ou persistimos em dormir na forma?

Conta-se que o nosso Elmano Sadino assistia a uma sessão artístico-cultural, quando uma Senhora flatulenciou, motivando que os assistentes a interrogassem, ainda que de boca calada, mas com os olhares críticos acerados. Em surdina, a dama pediu ao poeta que a salvasse da humilhação.

E o Manuel Maria de Barbosa l’Hedois du Bocage levantou-se e disse claramente: “Minhas Senhoras e meus Senhores, o traque que esta Senhora deu, não foi ela, fui eu”. Olha se a cena tivesse decorrido no Malawi, depois da lei aprovada e promulgada por sua Excelência o Senhor Presidente Bungu wa Mutharika, depois de aprovada na Assembleia Nacional de Lilongwe. Pena maior, quiçá.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

«Os Exemplares» - Passatempo de 16-17 Fev 11 - Solução

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Cena habitual à porta da Assembleia Municipal de Lisboa.
Carro da Polícia Municipal 'devidamente' estacionado.
Idem, carrinha da mesma polícia
15 Fev 11 - fim da tarde
Idem (carros de vereadores? de deputados municipais?)
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NOTA: no passatempo que usou, como pretexto, a foto de baixo, acrescentou-se (recorrendo ao Paint do Windows) a placa que lá não existe mas podia (e devia estar) - um texto do género «Excepto serviço da CML (ou da AML)» resolveria o problema de uma vez por todas.
Mas esta gente julga-se acima de lei - e, pelos vistos, com toda a razão!!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Passatempo «Calçada Portuguesa» - Solução

Há cada coincidência! Ia eu a passar no Rossio, ao fim da tarde, quando vejo parar uma carrinha da PT (mesmo ao lado do local que eu havia referido horas antes), e saírem de lá dois funcionários, com ferramentas e um papel na mão...
Dirigiram-se de imediato às tampas trocadas, e corrigiram a situação em menos de meio minuto.

Isso sucedeu às 19h15m. Assim, entre o meu aviso por mail (às 13h55m) e a correcção decorreram 3h 20m.
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Actualização: O leitor "Carluz", que foi quem mais se aproximou deste valor, tem agora 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com, indicando morada para que lhe seja enviado o prémio.

As borboletas de Nabokov

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Por Nuno Crato

NOS ANOS 1940, um homem pouco conhecido pelos seus estudos de história natural analisou com cuidado um tipo de borboletas conhecidas como «Polyommatus blues». Trata-se de um grupo de espécies que se encontram por toda a América do norte e que se pensava estarem estreitamente relacionadas. No entanto, esse homem descobriu estarem ligadas apenas através de ascendentes comuns de há vários milhões de anos. Classificando as borboletas pelos seus órgãos genitais, o que implicou uma recolha de muitos especímenes e uma paciência infinita, o investigador concluiu que seria provável que tivessem vindo de Ásia, onde se encontravam os seus progenitores longínquos, passando através do estreito de Bering em cinco vagas sucessivas. Só assim conseguia explicar a diversidade encontrada.

Na altura, não se conhecia a estrutura do DNA e os raciocínios baseavam-se na morfologia das espécies. Na semana passada, contudo, um grupo de investigadores de Harvard, de Barcelona e de várias universidades norte-americanas publicou nos «Proceedings of the Royal Society» de Londres um artigo que relata um estudo do DNA dessas borboletas e conclui a favor dessa teoria migratória (doi:10.1098/rspb.2010.221). Como verificaram os autores do artigo, muitas espécies que existem no Novo Mundo estão geneticamente mais relacionadas com as que se encontram na Ásia do que entre si, de tal forma que se conseguem detectar cinco grupos nas Américas, relacionados com outros tantos grupos asiáticos, o que sustenta a hipótese das cinco migrações. As divergências genéticas reforçam também a hipótese de as migrações se terem realizado há 10 milhões de anos, altura em que havia uma ponte terrestre entre a Ásia e a América do Norte no que é hoje o estreito de Bering.

Tudo isto são grandes notícias para os entomólogos, mas são também notícias interessantes para os amantes da boa literatura. É que o investigador em causa recolheu as borboletas que lhe permitiram fazer todo o estudo enquanto passeava pelo oeste norte-americano escrevendo os seus romances. O homem chamava-se Vladimir Nabokov. É o autor de «Lolita» e de outras grandes obras da literatura do século XX.

Nabokov nasceu em São Petersburgo em 1899 e abandonou a sua terra natal em 1919. Estudou línguas eslavas e românicas em Cambridge, no Reino Unido, e juntou-se depois à família em Berlim. Com a subida dos nazis ao poder refugiou-se em França e depois nos Estados Unidos, onde chegou em 1940. Trabalhou no Museu Americano de História Natural, em Nova Iorque. Deslocou-se depois para Massachusetts, ensinou em Wellesley e em Cornell e trabalhou no Museu de Zoologia Comparada de Harvard. Falava e escrevia fluentemente em russo e em inglês e, o que é extremamente raro, tanto produziu boa literatura num idioma como no outro.

Em 1953, enquanto passeava pela costa oeste coleccionando borboletas, escreveu «Lolita», o romance que lhe deu fama internacional e que lhe permitiu passar a viver apenas da escrita. Deslocou-se para a Suíça, onde veio a falecer em 1977.

No seu tempo, Nabokov era considerado um simples coleccionador de borboletas, um homem com persistência e capacidade de observação, mas sem capacidade para fazer avançar a ciência. No ano passado, contudo, veio-se a descobrir que o que ele tinha descrito como uma nova espécie (Karner Blues) e que na altura tinha sido considerado um erro de classificação era de facto uma espécie distinta. Agora, a análise genética vem corroborar a sua especulação sobre as migrações de borboletas. Seria um feito para um cientista profissional. É um feito espectacular para um cientista amador.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 12 Fev 11 (adaptado)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

O algodão não engana

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Por João Duque

POR QUE RAZÃO anda o Banco de Portugal a dar conselhos onde não deveria ser chamado? Afinal os bancos são ou não privados?

Nos dias de hoje a dúvida que ronda os conselhos de administração é a seguinte: vamos, ou não, propor à assembleia-geral o pagamento de dividendos aos acionistas?

À medida que são apresentadas contas públicas, é cada vez maior o número de empresas portuguesas cotadas que anunciam que não vão "abrir os cordões à bolsa" para pagar dividendos.

A questão é antiga e sempre foi e será discutida não só pelos executivos, mas também pelos académicos.

Se os impostos forem exatamente iguais para qualquer tipo de remuneração (distribuição de resultados ou mais-valias) do ponto de vista teórico será exatamente igual para os acionistas receber ou não receber dividendos. Quem quer liquidez que se desfaça de uma parte das suas ações. Quem não quer que fique com elas. Se receber dinheiro direto ou indireto é manter intacta a riqueza do acionista, é então indiferente pagar ou não pagar dividendos.

E até a ideia de entregar ações a acionistas em lugar de dividendos em dinheiro é indiferente porque no dia em que os acionistas receberem as novas ações o valor das 'velhas' cai na exata medida do valor das 'novas' distribuídas, e a riqueza do acionista fica exatamente igual.

E pode suceder que pagar dividendos seja prejudicial para os acionistas se o mecanismo fiscal penalizar mais o pagamento às mais-valias.

Ora quando a fiscalidade é neutra, então há outras forças que influenciam a decisão, e a mais importante, como sempre, é a psicológica, ou não fosse a economia uma ciência social...

Se uma empresa não distribui lucros, fica mais forte do ponto de vista do equilíbrio financeiro, com mais capital próprio acionista a suportar as dívidas contraídas, fica com mais dinheiro disponível para aplicar na sua atividade e por isso o custo do dinheiro tenderia a baixar porque estaríamos perante uma empresa mais sólida.

Mas se não paga dividendos, o mercado poderá ler isso como uma preocupante fraqueza de tesouraria, um aumento dos capitais próprios que são os mais caros para remunerar, e mais dinheiro nas mãos da gestão que pode ser menos cuidada na defesa do interesse do acionista nas suas aplicações... E aqui o algodão não engana.

Qual das duas teses vai vingar na atual situação de Portugal? Depende. Na maioria dos casos o mercado vai ler caso a caso. Mas na banca vai ler sectorialmente. Aqui todos sabemos que a banca portuguesa não consegue a liquidez que desejava e necessita de reforçar os capitais próprios por exigências crescentes da regulação bancária internacional. Se não fosse o Banco Central Europeu a usar um mecanismo de financiamento de curtíssimo prazo para sustentar a banca (e o Estado português) no médio prazo (sim, porque já lá vai mais de um ano nesta marmelada de financiamento europeu), a atividade económica em Portugal já tinha sido pulverizada.

A decisão de distribuição de dividendos cabe aos acionistas e deve partir da iniciativa da gestão. Por isso não se compreende por que razão anda o Banco de Portugal a dar conselhos onde não deveria ser chamado. Afinal os bancos são ou não empresas privadas?

«Expresso» de 21 Jan 11

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

As teleconfissões

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Por Antunes Ferreira

O BLOGUE dn.notícias.pt do Funchal publicou na sua edição de quinta-feira um curioso comentário do jornalista João Filipe Pestana. O interesse que tem, na minha modesta opinião, leva-me a transcrevê-lo com os agradecimentos devidos ao autor e ao jornal mais do que centenário da Madeira.

O teme é quente. Como poderão ler de seguida é o caso das confissões telefonadas. Estou já a descortinar os sorrisos entre o condescendente e o lamento, bem a ouvir os comentários daqueles que ainda me conseguem ler. “Pobrezinho. O homem ensandeceu, pifou, está nas mãos dos psiquiatras. Confissões telefonadas é o que não falta, a toda a hora, minuto e segundo… Segredos, amores, dinheiros, compadrios, cuidado com as escutas. Era tão bom rapaz e, afinal…”

Alto lá; compreendo a perplexidade de leitores, mas não estou completamente passado. Refiro-me às confissões católicas, obviamente nos confessionários eclesiásticos, à atenção do padre confessor que é o fiel depositário das penitências a atribuir ao pecador confesso. Penas sem direito a recurso, aliás. Creio que me expliquei. Vamos, portanto, à transcrição.

«Confession: A Roman Catholic App'. Memorize o nome desta aplicação para o iPhone. Mas, já agora, é católico(a)? Então, esqueça este nome. E rápido. É isto que exige o Vaticano a todos os fiéis que têm um iPhone, proibindo-os de descarregarem este 'software' criado em parceria com a Igreja Católica dos EUA com a intenção de ajudar pessoas a 'recuperar' a fé, ou seja, permitindo uma espécie de confissão virtual.
Tal como a FIFA, sempre avessa às novas tecnologias quando não lhe convém, o Vaticano disse, por intermédio de Frederico Lombardi, que 'Confession: A Roman Catholic' "não serve como substituto para a absolvição dos pecados por um sacerdote, como há séculos é feito".
Curiosamente, lá foi reconhecendo, no passado, que era comum que os católicos se preparassem para a confissão escrevendo os pecados e os pensamentos em papel e que é natural, na era digital, que eles sejam substituídos por recursos de informática, como esta aplicação.
Será que a Igreja teme um esvaziamento ainda maior dos templos ou será que dá jeito continuar a saber os pecados da aldeia?
A título de curiosidade, esta aplicação plena de fé digital - e que é paga - permite ao utilizador fazer um exame de consciência tendo em conta factores como idade, sexo e estado civil. E pode fazê-lo sem se ajoelhar...
Aliás, o iPhone e o iPad estão cada vez mais carregadinhos de aplicações para fiéis, basta ter uns euros ou dólares para investir. É que isto de ter fé não é para gente pobre... de espírito».

Feito o registo, pouco me resta acrescentar face à qualidade do escrito, que é excelente. Plenamente de acordo com o confrade João Filipe Pestana, só me permito aditar umas quantas linhas.

A primeira é um aviso e uma advertência: Pestana, cuidado, as excomunhões, por muito menos do que escreves, continuam em vigor, em perfeito estado de conservação e de aplicação; e um excomungado sabe-se lá por que terá de passar para ser readmitido no rebanho fidelíssimo. Missão muito difícil, portanto.

A segunda abarca o universo das Comunicações e, em especial, o das tele. Uma absolvição, após a remissão dos pecados, quaisquer que sejam eles, não pode, diz o Vaticano, ser dada por via telefónica, por mais sofisticada que ela seja. A confissão é um dos sete sacramentos, que tem de ser presencial, e dada por pessoas habilitadas e qualificadas para o fazer, ou seja, os curas. Mesmo apesar da cada vez maior falta de vocações sacerdotais.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Passatempo «Estamos bem entregues» - Solução

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Pergunta:
Qual o motivo próximo deste gigantesco engarrafamento na Av. de Roma?

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Resposta:
Dia 22 Out 10, sexta-feira, hora de ponta da manhã.
Com a preciosa colaboração de quem de direito, uma empresa coloca iluminações de Natal - aqui, em frente ao n.º 45 da Av. da Roma.
À medida que o trabalho vai sendo executado, as tralhas vão sendo movimentadas para Sul. Aqui, vê-se o 'circo' novamente armado, mas agora em frente ao n.º 43.
Dado que entre o n.º 45 e o 43 se perde uma faixa BUS (em proveito do estacionamento particular), o caos é garantido, tanto mais que, durante a manhã, este é, precisamente, o lado de maior volume de tráfego (Norte-Sul, entrada na cidade).
Melhor era impossível!
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E ainda:
Esta foto, tirada no dia anterior, mostra a situação inversa: do outro lado da avenida, junto ao n.º 34, também em hora de ponta - mas desta vez da tarde -, precisamente no sentido do maior volume de tráfego (Sul-Norte, saída da cidade).
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Actualização (11 Fev 11 - 12h10m): O passatempo foi ganho por Duarte, que tem agora 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada para envio do livro «O Preço da Incompetência».
Se preferir, poderá escolher outro, dos indicados na lista que se pode ver [AQUI].

Passatempo de 10 Fev 11 - Prémio

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Mail e texto de John Chambelain

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No seguimento da crónica de John Chambelain, no Guardian, lamentando a degradação de Lisboa (ver, p. ex., AQUI), escrevi-lhe a sugerir que visse os «Prémios António Costa», nomeadamente o chamado «Local M», que mostra o estado do Pátio do Tronco - local histórico bem no coração da capital, onde Luís de Camões esteve preso (ver AQUI).

Respondeu-me, primeiro, que só estava a abordar o problema dos graffiti e, hoje, com o seguinte texto:

Some of the comments on the Guardian blog in response to my reply need clarification.

see annex.


regards

John Chambelain

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“Quick on the draw” Rachel Dixon

Lisbon Graffiti & Rehabilitation

Blog comments on the response column were mostly positive, but missed the point.
Dixons column was a travelogue not a political comment, but provoked comment. Editorial reductions apart due to space limitations my comment focused on the political element and provoked some negative reaction needing comment.

Firstly, my concern was with the necessity of an alternative rehabilitation policy. My original reply to Rachel NIxon contained positive reference, projects such as the LX Factory in Alcantara, a reference to Bristol and London examples, stemming from the 70,s. Dryden St. in London, the Arnofini, the Woolhall and King Street Bristol. All rehabs for multi occupation for creative industries. Public and private investment with the building being leased from the council stock at a reduced cost.

I am no apologist for the city centre policy of Bristol since (I left for Lisbon in 72).

Presentations were made to the Lisbon council in 1989, to the then cultural representative Joâo Soares, later President of the council. A report on “Espaços Multi-Empresarial”was also given to the Port of Lisbon authority. The idea was to provide cheap”starter” space for creative industries using empty buildings in Lisbon . Rehabilitation with economy , cheap space for artists, architects and the like, using the council stock of empty buildings, minimum rehabilitation to reduce costs to provide economic rents for the “creative industries”. Now it’s a policy platform for most politicians, including the President!

There was interest but no action. I also mentioned a conference on rehabilitation initiated by the British Embassy on dockland areas. Terry Farrell was proposing a planning project for the riverside, highly criticized and trashed without debate or discussion. Presumably another “Fancy British Architect”.

Further conferences have been organized since by the council, including agencies with many years of experience.

Little has been achieved.

I also mentioned the failure of several projects, including the recent dismantling of the Municipal quango for the Baixa District and adjacent areas with its 2.5 million costs wasted. Many sites now empty have been for years and are still awaiting solution. There’s no money but what exists can be wasted !
Dixon’s article illustrates my point. The list is long.

Secondly, regarding my proposals.” The Itinary Project”. Not one but twenty proposals
Other than the 1989 proposals, we suggested twenty or so uses for public space in the centre. Together with student staff, the” ITINERARIO PROJECTO” took a central corridor from Praça de Saldanha to Cais de Sodre and offered uses and projects, some ephemeral some permanent, which would act as discussion topics for a wider debate. These projects were fully worked out proposals, over 600 drawings sketches 3D and structure studies. A large investment involving Portuguese engineers and specialists.

The idea was to promote debate. Repeated requests for a meeting with three different presidents’ and even the President Sampaio. All went without reply. I spoke to those concerned more than thirty times letters, personal approaches and requests to lessor bodies, no reply either.

Thirdly, regarding my response.

My response to Nixon´s article was more explicit, hardly “whining, patronizing or arrogant”, perhaps frustration as an architect in not being able to get ideas across or involve debate. Perhaps one of the reasons why many Portuguese architects are working in London and northern Europe, while most here are unemployed...

(Those who drew up “Itinerary” are all presently working abroad!)

Typically, and very Portuguese the xenophobic taunt, a “Fancy British architect”. I hardly have the profile of the pink expat procrastinating about the natives from the back of a taxi during a weekend colonial visit. The response is commonplace. However, I studied here in 1966, worked for Atelier Conceicâo Siva, (a noted Portuguse architect), returned in 72 and with short excursions abroad have practiced here for the last forty years! Hardly “Fancy”, not very British and earning my right to criticize and speak out.

“Fancy British architects have no right to say bad stuff about my country” suggests prejudice and xenophobia, not unusual in an economic downturn.

Lisbon must address urgently the lack of initiative, the many buildings empty and derelict, both old and new.

Even buildings like the Amoreiras Golf , Sizes Expo pavilion, Arco Cego, Feira Popular are empty, many older buildings could be rehabilitated . By naming Lisbon the “Cinderella City” of Europe I had hoped to call attention to the neglect of which, graffiti is only a part. Also there is a lack of a forum for presenting ideas and access for display and discussion of new projects. The council should make one of its many old buildings into a citizens display case, promoting new ideas, experiments and public discussion.

We need desperately a forum for new ideas and debate, accessible and open to all, whether fancy British architects or the home grown variety.

O milagre da recuperação

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Por Nuno Crato

A MENTE HUMANA arquiva informação e recupera informação. Até há pouco tempo admitia-se que estes processos cognitivos funcionavam separadamente: arquiva-se a informação na memória e vai-se buscá-la depois. No entanto, alguns estudos recentes da psicologia cognitiva sublinharam que o processo de retenção da informação não é distinto do processo da sua recuperação e que este último reforça o primeiro. Sendo assim, a actividade de teste torna-se um processo de aprendizagem, pois a recuperação de conhecimentos vai consolidar a sua assimilação.

A experiência dos professores dá indicações no mesmo sentido: testando os alunos está-se a ajudá-los a aprender. No entanto, algumas teorias pedagógicas separaram os dois processos e desenvolveram argumentos contra a avaliação, opondo-a à chamada «aprendizagem significativa». Esta última necessitaria de uma construção activa do conhecimento e, segundo algumas correntes educativas radicais, a memorização seria um inimigo da compreensão.

Num estudo agora publicado na revista «Science», dois psicólogos norte-americanos, Jeffrey D. Karpicke e Janell L. Blunt, trouxeram novos argumentos a favor do papel da avaliação no aumento do conhecimento (doi: 101126/science.1199327).

Numa experiência envolvendo 200 estudantes, compararam diversos métodos de estudo. Deram a todos um mesmo texto científico para ler e formaram quatro grupos. No primeiro grupo, os estudantes tiveram simplesmente cinco minutos para ler o texto. No segundo, estudaram o mesmo texto em quatro sessões consecutivas de cinco minutos cada. No terceiro, analisaram o texto usando um tipo de diagramas agora em voga, os chamados «concept mapping», por vezes traduzidos como «mapas de conceitos» ou «diagramas conceptuais». No quarto, testaram o que tinham percebido: o texto foi primeiramente lido e recolhido, os estudantes escreveram um resumo do que se lembravam, leram novamente o texto e foram de novo testados.

Qual destes grupos terá apreendido melhor os conceitos?

Não causará surpresa saber que, uma semana depois, os estudantes do primeiro grupo (simples leitura) eram os que pior tinham retido a informação. O que é verdadeiramente surpreendente é que os estudantes do segundo e terceiro grupos (leitura repetida e construção de diagramas) retiveram o mesmo nível de conhecimentos. Surpresa maior ainda é o facto de os estudantes do quarto grupo (testes repetidos) terem sido os melhores. Poder-se-á pensar que estes se limitaram a memorizar mais. Mas não. Os estudantes que foram duplamente testados também responderam melhor a questões mais profundas, que obrigavam a relacionar os conceitos.

Este estudo, que vem desenvolver alguns resultados da psicóloga experimental norte-americana Sean Beilock, de que já aqui falámos, e de outros cientistas, coloca em causa a prática repetida dos diagramas conceptuais. Para quem detesta aquelas figuras com muitas bolinhas e muitas setas que agora se usam para ilustrar conceitos, estas são boas notícias. Mas há algo mais profundo. Como dizem os autores, «o facto de uma tarefa (no ensino) ser ou não considerada ‘activa’ não é indicador da aprendizagem que ela induza».

São más notícias para as teorias que defendem um ensino baseado em «actividades investigativas» dispersas, que alegadamente permitiriam a «construção activa do conhecimento». Ou para as que criticam a simples recapitulação de conceitos, por ser «acrítica». E são boas notícias para as que defendem um ensino estruturado, com metas claras e com avaliação repetida.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 6 Fev 11

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Semáforos armadilhados

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Por Antunes Ferreira

UNA MOEDINHA, tenho fome. E faz com a mão que leva à boca, o gesto característico. Pelo acento, reconheço a nacionalidade do homem: é romeno. Agarra um pequeno maço da Cais e do Borda d’Água, o trivial. Com a janela fechada, nunca é de fiar, faço-lhe sinal que não quero. O semáforo continua no vermelho. Baixo o vidro: Mulţumesc, dar nu vreau. Muito obrigado, mas não quero.

Olha-me, espantado e avisa os outros membros do clã: Uite, el vorbeşte română. Olhem, ele fala romeno. O pessoal, atrás, começa a apitar; como continuo a ser parvo, chego-me ao passeio para o esclarecer: eu nu vorbesc limba română, dar am înţeles. Eu não falo a língua romena, mas compreendo um pouco, puţin. São quatro estrategicamente colocados a cada esquina. Una moedinha, va rogam sa, por favor. Deixo um euro e safo-me. La revedere, adeus.

Permito-me acrescentar que fui várias vezes à Roménia, entrevistei tovarăşul Niculae Ceauşescu, ou seja o camarada Niculae Ceausescu, e reportei o terramoto de 1977, bem como as primeiras eleições ditas “democráticas” depois da execução do ditador e de sua mulher, sempre e naturalmente para o Diário de Notícias. Fui aprendendo umas frases, o que nem me foi muito difícil, porque o romeno é uma língua novi-latina, como a nossa. Fechado o esclarecimento, continuo.

É uma chusma que se encontra aqui e acolá nesta cidade dita das sete colinas. Uma boa parte dela cigana da Roménia e da Moldávia. Fronteira comum, a língua é praticamente a mesma, tal como o Português daqui e os outros com acentos diferentes, a modos que um portuñol raiano com termos abrasileirados ou angolanizados. Há ainda os que tentam limpar o para-brisas das viaturas. No meu, nem pó. Nunca. Já se têm verificado casos de ameaças e até roubos. Armadilhas aproveitando o vermelho dos semáforos. Um perigo.

Uma boa parte deles não é flor que se cheire. Emigraram dos seus países, entraram como imigrantes pela Europa, Bucareste já é membro da União Europeia, mas cheiram a esturro. Preconceito? Suspeitas? Racismo? Numa terra como a nossa, habitada por gentes muito diversas e nós próprios resultantes de cruzamentos consecutivos, tal não deveria acontecer. O exemplo, mau, da França do monsieur Sarkozy, que os mandou expulsar, foi verberado energicamente, por quase todo o Mundo. E com carradas de razão. Mas, os franceses fingiram que não tinha ouvido nada.

O problema maior nem são estes pequenos nadas que, mesmo assim, chateiam um pacífico cidadão ao volante da sua viatura. São as máfias. Como as dos russos, dos ucranianos, dos chineses, por exemplo. De resto, os gangs não têm cor, são como o dinheiro, sejam eles de brasileiros, de portugueses ou de quem que seja mais. O crime organizado é um flagelo; e a sociedade, cada dia mais permissiva, quase não consegue responder-lhe. Um polícia para cada cidadão é muito difícil…

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O relatório de Lorde Jenkin

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Por Nuno Crato

OUVE-SE FALAR negativamente da grande especialização e da dificuldade teórica da ciência moderna. E há quem culpe os investigadores e professores pelo afastamento entre a ciência e a sociedade. No entanto, ao contrário da alquimia e de outras práticas fechadas, a ciência moderna nasceu interessada em se dar a conhecer.

Para que os seus compatriotas, e não apenas os académicos, pudessem entendê-lo, Galileu Galilei, o fundador da física moderna, escreveu em italiano e não apenas em latim. Charles Darwin redigiu vários livros compreensíveis para qualquer leitor culto. E Albert Einstein publicou trabalhos de divulgação da teoria da relatividade.

Nos anos 1980, contudo, começou-se a falar de um afastamento progressivo entre a ciência e a sociedade. Paradoxalmente, foi numa época de espectaculares progressos da ciência e da técnica que algumas críticas se transformaram no cepticismo pós-moderno, questionando o valor da ciência e do conhecimento racional e empírico.

Em 2000, numa iniciativa célebre, a House of Lords, no Reino Unido, fez um debate aprofundado destes problemas e elaborou o conhecido “Jenkin’s Report”, que percorreu meio mundo e que influenciou inúmeras políticas de divulgação científica. Em Portugal, por exemplo, nos últimos 10 anos, em parte sob influência desse relatório, surgiram novos museus e centros de ciência, dezenas de jovens cientistas começaram a preocupar-se com a divulgação e muita imprensa passou a dar mais atenção ao noticiário científico.

No décimo aniversário do relatório e para apreciar o seu impacto, o British Council promoveu um encontro internacional em Londres. Durante dois dias, mais de uma centena de convidados de todo o mundo, em reuniões fechadas, trouxeram as suas experiências e pontos de vista. A abrir os trabalhos, o próprio Lorde Patrick Jenkin explicou como um político como ele, duas vezes membro do governo de Sua Majestade e sem formação científica para além da escola básica, encara com admiração a ciência e pretende manter-se informado dos seus desenvolvimentos principais. Aproveitou a oportunidade para esclarecer alguns equívocos.

O relatório Jenkin substituiu a expressão «public understanding of science», que corresponde à preocupação de disseminação da ciência, por «public engagement with science», que traduz a vontade de envolvimento activo do público. O que isso realmente significa pode ser ambíguo — «não conseguimos definir realmente o que queríamos dizer com ‘envolvimento’ [engagement]», esclareceu Patrick Jenkin. Pior, muitos têm traduzido a vontade de evitar um discurso unidireccional do cientista para o público por uma pretensa participação do leigo nas decisões sobre a investigação científica. Jenkin sublinhou que essas atitudes extremas “não só não têm significado como podem ser verdadeiramente enganadoras”. No entanto, são elas que, por vezes, ficam no ouvido dos que nem estudam ciência nem praticam divulgação, mas teorizam sobre a ciência e a divulgação.

Tal como no ensino, a vontade de diálogo dos professores com os estudantes e de envolvimento destes no seu próprio estudo não deve fazer esquecer que a aprendizagem se desenvolve a partir dos professores e em direcção aos estudantes. Também em divulgação científica o conhecimento é decisivo. Não há envolvimento do público na ciência sem alguma compreensão da ciência, sublinhou repetidamente Lorde Jenkin. Batemos palmas.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 29 Jan 11

sábado, 29 de janeiro de 2011

Medo, pânico ou pavor?

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Por João Duque

A CHINA com medo da fraqueza do dólar. Os cristãos com medo dos árabes. Os árabes com medo da dívida portuguesa.

Andam todos assustados. Os funcionários públicos com medo do dinheiro não chegar ao fim do mês. Os açorianos dependentes do orçamento, com medo de não poderem ser compensados pelos cortes. Os médicos reformados com medo de não poderem acumular. Os bolseiros com pavor por terem de devolver parte do que receberam. Os jovens licenciados com medo do desemprego.

O desemprego com medo do INE. O INE com medo de não conseguir baixar o número de desempregados com a nova metodologia. O IGCP em pânico com os leilões. O mercado com medo de Portugal. As escolas privadas com medo de fecharem.

Manuel Alegre assustado só de pensar em ficar atrás de Fernando Nobre. Francisco Lopes de ficar atrás do Coelho da Madeira. A Alemanha com medo da crise espanhola. A França com medo das atitudes alemãs. O Governo com pavor de não conseguir travar as providências cautelares dos professores. A minha filha com medo de não terminar o curso.

O Ministério das Finanças em pânico com a execução orçamental. A Direção-Geral dos Impostos com medo de não cobrar o que todos lhe imploramos. Os juízes com medo dos cortes nos complementos salariais.

O BCE com medo de ficar demasiado exposto aos créditos exorbitantes a bancos portugueses e ao Tesouro nacional. José Sócrates com pavor do FMI. A China com medo da fraqueza do dólar. Os cristãos com medo dos árabes. Os árabes com medo da dívida portuguesa. As Fundações e institutos públicos com medo do FMI. José Eduardo Bettencourt com medo das derrotas do Sporting. Os reformados com medo de cortes nas pensões. As eólicas com medo de serem devidamente avaliadas. Os irlandeses, gregos e portugueses emitentes com medo das agências de rating. Teixeira dos Santos com medo dos 7%, dos 8%, dos 9%... As agências de rating com medo de serem pouco conservadoras.

A Caixa Geral dos Depósitos com medo do BPN. A Galp com medo do Amorim. O mercado com medo de Steve Jobs. O José Mourinho com medo de não ganhar a liga espanhola. O Bloco de Esquerda com medo de ter razão. Os nossos submarinos com pavor de meterem mais água. A WikiLeaks com medo de não ter mais informações para divulgar.

Os portugueses com medo do estado do Estado Social que lhes mentem manter. As famílias numerosas com medo da perda do subsídio. O FMI com medo de Portugal. O Reino Unido com medo da inflação. O Benfica com medo de não ganhar nada. A RAVE com medo de não ter TGV. Todos com medo dos preços do petróleo. O Banco de Portugal com medo do preço do ouro. Os exportadores com medo do euro. Os importadores com medo do euro.

O Medina Carreira em pânico porque tem razão. O Alberto João Jardim com medo de fumar. E eu com pavor da Conceição!

Que raio de maneira de começar a década!

Até o António de Almeida está com medo...
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«Expresso» de 21 de Jan 11
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NOTA (CMR): O António de Almeida referido no fim do texto é o autor das crónicas publicadas no «Expresso-Economia», nas colunas ao lado das de João Duque.

Lisboa tem de ir ao dentista

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Por Antunes Ferreira

LISBOA PRECISA de ir ao dentista; está cariada por tudo o que é sítio. É uma boca desgraçada com uma dentadura desdentada. A odontologia é como o algodão: não engana. Já lhe implantaram duas pontes, mas precisa de uma terceira. Só que não há euros; e os que vai havendo são cada vez mais caros e raros. A sabedoria popular não é de meios-termos: quem não tem dinheiro, não tem vícios. A capital não tem dinheiro, mas tem vícios. E cáries.

E qual é o objecto destas mal alinhavadas linhas? Trata-se da saga dos prédios tristes. Logo no início de quem sobre a Domingos Sequeira, a caminho da Ferreira Borges, entrando em Campo de Ourique, à direita há um exemplar incontornável do propósito que me anima, no caso presente, me desanima. É o fantasma vivo do que foi o Cinema Paris. Utilizo já a palavra vergonha, fazendo o aviso de que ela seria repetitiva ao longo de todo o texto. Daí que tenha a intenção de não a repetir, tantas vezes teria de a usar. Tantos e tamanhos são os crimes urbanístico-alfacinhas, que a partir de agora só com o Dicionário de Sinónimos.

O amarelo sujo da fachada apodrecida tenta esconder a estrumeira no interior. É só merda, o que por ali abunda. Porque tudo o que é submundo, tudo o que sem abrigo, tudo o que é drogado ali satisfaz as necessidades fisiológicas, um verdadeiro reino de dejectos. Envolvendo o infeliz há tapumes repintados de cartazes os mais diversos, desde os espectáculos de circo, até às orações a São Judas Tadeu. E grafiti; mal pareceria se não existissem em tal local.

Está devoluto há mais de uma vintena de anos. Em 2008, a Câmara, timidamente, mandou um buldozer e uns quantos operários para retirar o entulho e o resto. Debalde. Bastaram uns quinze dias para tudo voltar ao mesmo, incluindo as varejeiras. Há um alerta de ameaça, apesar do escoramento, o edifício pode ruir. De cansaço de estar em pé, muitos já caíram. Mais um, menos um…

O bairro é, de resto, zona de mais prédios decrépitos. De janelas e portas entaipadas a tijolo, de frontarias esburacadas, de vidraças estilhaçadas. Não é, infelizmente, o único. Bem pelo contrário. Volto atrás no percurso. Que não é, de forma nenhuma, passeio; é uma coisa bem diferente. Consulto o dicionário, como avisei antes. Opróbrio deve servir. É, por conseguinte, uma forma de opróbrio.

Madragoa e a própria Lapa têm muitas. Esta última é um bairro fino, de tias a estacionar em cima dos carris dos eléctricos na Rua de Buenos Aires, lado a lado, conversando de carro para carro com os guarda-freios a olhar e os passageiros a protestar. Pois por ambos os bairros o que não falta são casas em ruínas. Onde se acoitam os mais diversos representantes das desgraças.

Descendo a Santos, continua a saga. E pelo Calvário, e por Alcântara, e pelo Dafundo, e pelo Lumiar e por toda a parte. O centro da cidade não escapa. Basta sair do Marquês do Pombal e logo na Fontes Pereira de Melo há um quarteirão delas. Que esteve anos tapado por uma cobertura enorme onde se lia o número de prédios… recuperados pela CML e que hoje está pintalgado de desenhos mais ou menos abstractos, uma anedota.

Na Avenida da Liberdade, na Avenida da República, no Saldanha, na Graça, no Bairro das Colónias, em Sapadores, na cidade inteira e arredores é um formigueiro de alvenaria morto. Aqui e além ponteado por gente de passagem, sem eira nem beira, nem pé de figueira, nem muda de roupa de baixo. O rol estende-se aos arredores, eu sei. E pelo País fora. Em todo o Mundo deve haver disto. No Brasil é o que se conhece.
Mas, Lisboa, a bem ou a mal, é a minha terra, porra! Quando ainda se consegue abrir num sorriso, o que se vê é uma dentadura com muitas teclas pretas; demasiadas. Vendo bem: será caso para dentista ou para um afinador de pianos?

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

E se não desculparmos?

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Por João Duque

PORTUGAL está assim. A organização do acto eleitoral fica manchado pela incapacidade dos sistemas electrónicos funcionarem adequadamente em momento da exigência.

O planeamento desta actividade falhou. A execução da mesma foi gravemente desadequada. Não houve maneira de resolver o assunto nem forma de o mitigar. Tratou-se de um assunto menor, trivial? Não. A base da Democracia é o voto e o sistema eleitoral. Por isso, há delegados dos organismos internacionais às eleições dos países emergentes. Em qualquer país da Europa o ministro tinha pedido a demissão. Em qualquer ditadurazeca o ministro tinha sido posto no olho da rua. Em Portugal pede-se desculpa. Por cá só Jorge Coelho assumiu as responsabilidades políticas pela queda de uma ponte. Queda da ponte que não supervisionou, por uns burocratas que não mandaram vistoriar, por um sub-director geral que não sub-dirigiu, por um director geral que não dirigiu, por um Secretário de Estado que não secretariou... O assunto foi grave. Ele assumiu. Isso elevou o estatuto da política em Portugal.

2. O Ministro das Finanças apresenta a execução orçamental de 2010. Apesar de estar há 5 anos no lugar e de ser urgente tomar medidas para corte nas despesas do sector Estado, o resultado da péssima execução de 2010 é feito à custa de aumento de despesa financiada por um aumento de receita. A ideia foi simples: como dá trabalho e é impopular cortar despesa, como é difícil escolher, vai-se buscar onde "ele" está, e que é o bolso dos portugueses, sempre na ideia vã de que fazendo as coisas sob a tutela do Estado se faz melhor que no privado. Para o subsector Estado o saldo primário, o saldo corrente e o saldo global, tiveram pior desempenho que os do ano de 2009. Salvou-se o saldo dos Fundos e Serviços Autónomos à custa do célebre artifício contabilístico do Fundo de Pensões da Portugal Telecom. Viva a habilidade! O dinheiro que recebemos é receita de hoje, mas a sua contrapartida que são as pensões a pagar no futuro, são despesa dos que as pagarem! Quem vier atrás que feche a porta e apague as luzes. Aqui nem desculpas houve.

O Governo embandeirou em arco com a vitória de um défice mascarado e irreal, abaixo do prometido, e a única satisfação que me dá, no meio de tudo isto, é saber que os actuais ministros e primeiro-ministro irão ser mais tarde pensionistas de Portugal, e que assim, irão ficar com as migalhas do pão que eles próprios destruíram. É pouco o consolo, mas é algum e a prazo...

O reconhecimento do erro de más execuções sistemáticas é agora patente. O Governo acaba de aprovar o Decreto-Lei que estabelece as normas de execução do Orçamento do Estado para 2011. E aqui se reconhece como não se pode funcionar. E como só se mexe em equipa que perde, esta perdeu. Desculpe?...
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«DE» de 27 Jan 11

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

E de Alegre se fez triste a leda madrugada

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Por Pedro Barroso


E POR MAIS cinco anos, crispado Silva viverá seu esgar altivo de glória financeira mal explicada... eleito por 1/4 dos eleitores nacionais!
Percebesteis? Vamos lá a ver. Então eu explico melhor o que sinto.

A democracia vale pela expressão do voto. Claro. Que, por sua vez, reflecte um sentimento perante a conjuntura actual e a sensibilidade popular aos candidatos, suas propostas, ideias e as eventuais mudanças que signifiquem.

Nesta conjuntura, apesar das acusações que ficam por explicar – e todos aguardamos que isso aconteça...- Cavaco é legitimamente eleito, sem espinhas. Nem outra coisa eu esperava, sinceramente.
Mas as pessoas que não saíram a voto são metade dos portugueses. E trezentas mil ainda votaram branco ou nulo.

Não gosto de abstenção, nem me revejo nela; tal como duvido da eficácia politica do voto branco ou nulo.
Mas sinto que isso significa o descrédito duma classe politica que tem os mesmos protagonistas há quase 40 anos. Um cansaço.

Alegre, curiosamente tal como se sentia ab initio, foi prejudicado - na 1ª vez por não ter o PS consigo; e desta vez por ter o PS consigo.
Porque há cansaço deste PS. Autismo mesmo, face à revolta montante do povo e ao paleio cansativo dos "tais sacrifícios" eternos. Sem dar exemplo.

Alegre perde por, como eu próprio lho disse, ninguém poder querer ser e não ser ao mesmo tempo. Devia reformar-se e pronto. Cumpriu o seu papel. É um histórico, fica histórico. Ninguém lhe roubará o "canto e as armas" nem o seu lugar de qualidade na "praça da canção". Para mim, já deitara tudo a perder quando teve um milhão e cinquenta mil votos e fundou uma coisa que não era partido, nem ninguém percebeu muito bem o que fosse. Chamada MIC, ainda por cima; nome a meio caminho entre a esferográfica barata e a sempre indesejável micose.

Procurar eludir o espantástico de uma união entre o BE e o PS actual, é também uma forma de se reformar da análise politica por sério problema de dioptrias. Este PS contem em si o toque de Midas, só que ao contrário - tudo o que toque definha, empobrece e desaparece.

Nobre revelou que ser outsider compensa; mas ficou com uma vitória "moral". Vale o que vale. E a falar em público falta-lhe alma, audácia, panache, fascínio, grito, ardor, não sei... Se o homem fosse artista e tivesse à sua frente público para seduzir, o pessoal adormecia.

Ganhou humanidade e força com o andamento da campanha. No fim... estava pronto a começar. Mas é obviamente um vencedor.

O discurso-revolta tipo motorista de táxi cristaliza no Coelho. Mas atenção nele. O homem fala como o povo na rua entende; e tem muito mais valor do que aparentava. Deram-lhe o estatuto de indigente mental e acabou como um dos grandes vencedores da noite. E ganhar no Funchal ao Jardim não é para todos.

O Dr. Moura deu a descasca que se tinha proposto dar no Aníbal e nela se cumpriu. Nada mais o pareceu interessar muito e ressentiu-se disso.

Digno, discreto, omisso. Esteve lá? Valeu a pena?

O Lopes é o candidato do PC e levou 7%. Tudo normal. Viva o PCP, punho erguido, avante camaradas, e etc etc. "Fixou eleitorado, confirmou alternativa, dignificou os democratas" etc.

Já sabemos todos. Viva. Chega.

Conclusão:
Cavaco ganha bem; porque, de certo modo, não havia alternativas.

Cavaco ganha mal; porque, na realidade, perde meio milhão.

E porque nunca nenhum "já Presidente" foi reeleito por tão pouca margem.

Já agora, para ficarmos todos amigos, convinha agora que nos explicasse os 140%, a casa de luxo de cuja escritura não se lembra, e as amizades sujas que o estornicam cada vez que se mexe no BPN.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Peças do 'puzzle'

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Por Baptista-Bastos

MÁRIO SOARES foi o vencedor das eleições. A astúcia e a imaginação do velho estadista permitiram que Fernando Nobre, metáfora de uma humanidade sem ressentimento, lhe servisse às maravilhas para ajustar contas. É a maior jogada política dos últimos tempos. Um pouco maquiavélica. Mas nasce da radical satisfação que Mário Soares tem de si mesmo, e de não gostar de levar desaforo para casa. Removeu Alegre para os fojos e fez com que Cavaco deixasse de ser tema sem se transformar em problema. O algarvio regressa a Belém empurrado pelos acasos da fortuna, pelos equívocos da época, pelo cansaço generalizado dos portugueses e pelos desentendimentos das esquerdas (tomando esta definição com todas as precauções recomendáveis). Vai, também, um pouco sacudido pelo que do seu carácter foi revelado. Cavaco não possui o estofo de um Presidente, nem um estilo que o dissimulasse. Foi o pior primeiro-ministro e o mais inepto Chefe do Estado da democracia. Baço, desajeitado, inculto sem cura, preconceituoso, assaltado por pequenas vinganças e latentes ódios, ele é o representante típico de um Portugal rançoso, supersticioso e ignorante, que tarda em deixar a indolência preguiçosa. Nada fez para ser o que tem sido. Já o escrevi, e repito: foi um incidente à espera de acontecer. Na galeria de presidentes com que, até agora, fomos presenteados, apenas encontro um seu equivalente: Américo Tomás. E, como este, perigoso. Pode praticar malfeitorias? Não duvido. Sobre ser portador daqueles adornos é uma criatura desprovida de convicções, de ideologia, de grandeza e de compaixão. Recupero o lamento de Herculano: "Isto dá vontade de morrer!"
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«DN» de 24 Jan 11

domingo, 23 de janeiro de 2011

Prémios António Costa (Correcção)

Este texto, publicado no suplemento Domingo do Correio da Manhã de 23 Jan 11, tem algumas incorrecções, como se pode ver comparando-o com o texto original - [AQUI].

sábado, 22 de janeiro de 2011

Abertura fácil

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Por Antunes Ferreira

HÁ ALGEMAS em Portugal que são como os pacotes de Tetra Pak: com abertura fácil. Não se sabe ao certo se são muitas ou são poucas. Mal pareceria, num País em que não se pode acreditar em sondagens (pelo menos no entender de muitos candidatos ao que quer que seja), em que não se pode acreditar nos dados do Instituto Nacional de Estatística, em que não se pode acreditar nas previsões meteorológicas, que se soubesse a quantidade delas. Em tempo: e, ainda, em que se não pode acreditar no Governo, uma cambada de mentirosos a começar pelo chefe.

Diz-se por aí que as algemas distribuídas às forças de segurança são tão fraquinhas que há agentes que compram das fiáveis com a bolsa própria. O tema veio à cena, a propósito do episódio trágico-caricato da fuga de três perigosos traficantes de droga, que se terão livrado delas numa carrinha de transporte de presos e fugido nas barbas dos guardas prisionais que os custodiavam – e à porta da local onde iam ser interrogados: o DCIAP, sigla que quer dizer Departamento Central de Investigação e Acção Penal. Dois dos fugitivos continuam a monte. O terceiro consta que não tinha nada a ver com o assunto: limitou-se a aproveitar a deixa. Curiosa situação que, no entanto, não causa grande espanto: nesta terra bendita espera-se tudo.

No dia da singular ocorrência, terça-feira passada, o director-geral dos Serviços Prisionais Gomes, admitiu que ele próprio conseguira retirar com alguma simplicidade umas algemas semelhantes às usadas pelos suspeitos evadidos. «Estas algemas não são específicas nossas, são de todas as forças de segurança. Fiz uma experiência, consegui abri-las sem chave e não sou bandido. Isso preocupou-me. Uma das medidas a tomar será mudar este tipo de algemas». Lapidar.

Complementarmente, o referido dirigente não se coibiu de declarar no Parlamento, onde era ouvido, que as algemas não eram lá grande coisa. Não chegou, no entanto, ao não valem nada. Pudera. Mas, quem o quiser entender assim - está no seu direito. Pelo sim, pelo não, mandou fazer uma investigação completa sobre a anedota no mínimo inquietante.

Brada aos céus. Tudo parece indicar que uma vez mais, a culpa vai morrer solteira neste desgraçado torrão natal. Depois de casas roubadas, trancas à porta diz a sabedoria popular. Pelo andar das carruagens das investigações, sabe-se lá quando sairão as conclusões. Se saírem, ou seja, se as houver.

Sindicatos das polícias e afins declararam que a qualidade e a quantidade dos equipamentos entregues aos diversos agentes de todas as forças de segurança são irrisórias. Por outro lado, neste episódio de ópera bufa, o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (que estranha situação esta de titulares de um dos poderes do Estado serem sindicalizados), ainda que não tivesse escutado as declarações do reponsável já mencionado, estranhou o seu conteúdo. E disse que não sabia «se o director das prisões se transformou agora num instrutor de retirar algemas…»

Desde os tempos de Viriato e de Sertório, somos um caso sério. Foi o romano, depois de se passar para o lado dos lusitanos, quem escreveu numa carta para amigos na cidade do Tibre que «os lusitanos são um povo estranho: não se governam, nem se deixam governar». O mais comum dos mortais sabe disto; mas, de quando em vez, parece-me bem recordar a epístola, que até hoje retrata sucinta e concretamente o que realmente nós, os Portugueses somos. Heranças dão nisto e em muito mais.

Vivemos no domínio do surrealismo mais puro. Não vale a pena assobiar e olhar para o lado, como se tornou hábito por cá. Um episódio destes nem Franz Kafka não faria melhor. Portugal, para além de continuar a ser um caso sério, não pode ser levado a sério.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Prémios António Costa (Desenvolvimento 2)

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Local E
Saída de emergência do Centro Comercial Acqua, na Rua Oliveira Martins
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TALVEZ um dia a CML resolva desimpedir este acesso - o que deve ser fácil, até porque está a poucos metros da Assembleia Municipal.
Se isso vier a acontecer, o
1.º leitor que me enviar uma foto comprovativa receberá, como prémio, um café e um bolo no referido centro comercial.

NOTA: Outras fotos deste local - ver [aqui].

Prémios António Costa (Desenvolvimento 1)

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O condutor da carrinha cinzenta pretende aceder ao estacionamento que possui no n.º 1 da Rua Frei Amador Arrais (portão verde, a meio da foto). Como habitualmente sucede (apesar de o sinal «Art.º 50» estar bem visível), a entrada está obstruída (e duplamente!).
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Fica, então, ali parado (vê-se por detrás da carrinha branca), à espera que libertem o acesso.
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Entretanto (e devido ao estacionamento em 2ª fila - o tal que ia acabar se António Costa fosse eleito...), gera-se um gigantesco engarrafamento, que se propaga a toda a Av. de Roma.
(Vista de sul)
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(Outra vista)
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Esta foto e a seguinte mostram um cego, completamente perdido no meio do caos, perante a indiferença geral - excepto de um senhor sexagenário, que ia a passar, e que desatou aos berros «Isto é uma vergonha! Isto é uma vergonha!» (porventura passando por maluquinho).
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COMO exemplo bem elucidativo do que se denuncia na página principal dos Prémios António Costa - que se pode ver [aqui] -, esta cena decorreu nos locais referidos como B e C, ao fim da manhã do passado dia 7.
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NOTA: A 1.ª foto foi tirada dias depois das restantes 5. Mas, como a situação é recorrente (incluindo os intervenientes), aqui se afixa, para que se perceba melhor o que está em causa: o caos, a falta de civismo e a impunidade total, dia após dia, ano após ano - nada que preocupe minimamente a corja que, por acção ou omissão, é responsável por esta vergonha.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

As escolas e os números

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Por Nuno Crato

NA ÚLTIMA SEMANA assistiu-se em Lisboa a uma série de encontros sobre educação que tinham uma singularidade: quantificavam os problemas. Pode ser estranho que esse facto seja sublinhado. Mas os debates, as análises e as reflexões sobre educação são frequentemente tão manchados pelo facciosismo e pela ideologia, e têm sido tão descritivos e especulativos, que usar números para analisar o ensino é, infelizmente, uma raridade que merece ser destacada.

Eric Hanushek, um dos fundadores da Economia da Educação, uma nova disciplina que usa os métodos da análise económica e as técnicas da estatística para estudar os problemas educativos, teve oportunidade para apresentar os seus trabalhos sobre o impacto da educação no desenvolvimento económico mostrando, em particular, que as estatísticas dos diversos países não evidenciam que exista impacto do número de anos de escolaridade sobre o desenvolvimento económico. O que condiciona o desenvolvimento é, isso sim, a qualidade das aprendizagens, medida pelas comparações internacionais, e da forma que é possível, com estudos como os do PISA. Como teve oportunidade de dizer, «se os aluno se sentarem mais tempo nas aulas sem nada aprenderem, isso não tem qualquer efeito na evolução de um país». Parece óbvio. É um «no-brainer», como dizem os americanos, algo que não precisa de grande esforço para compreender. Mas é algo que, para ser evidenciado com base nos dados, precisa de instrumentos estatísticos que separem as variáveis e evidenciem a correlação existente entre a qualidade da aprendizagem e o desenvolvimento.

Os estudos de Hanushek e de outros economistas dão-nos ideia da magnitude da importância da educação, mas não explicam como pode o ensino melhorar. Outros, como o estatístico William Schmidt, que também esteve em Lisboa pretendem entrar dentro dessa «caixa preta», isto é, ver o mecanismo educativo e investigar o que funciona e o que não funciona.

Uma das conclusões quase unânimes destes estudos quantitativos é a importância da escola e o papel que ela pode desempenhar, para além das condicionantes sociais, para melhorar o ensino. Ao contrário de uma visão fatalista, que imagina que contrariar as limitações dos filhos das classes mais desfavorecidas é uma violentação da sua cultura própria e que pensa que ser-se exigente com todos condena os menos favorecidos ao fracasso, vários estudos apresentados no fim de semana passado num encontro no ISEG mostram que as escolas que são mais exigentes são, pelo contrário, as que mais favorecem os oriundos de classes mais desfavorecidas. Outros estudos europeus apresentados no mesmo encontro desmontaram outro mito, o da impossibilidade de tratar com igual exigência os filhos dos nacionais e os filhos dos emigrantes.

O citado William Schmidt destacou dois factores que condicionam a qualidade do ensino: o currículo e a qualidade dos professores. Um currículo deve ser coerente, progredir de forma sistemática e não ao sabor de problemas, actividades exploratórias ou aplicações — é o que conclui de um estudo estatístico sobre as características dos currículos escolares dos países com mais sucesso. E os professores devem ser seleccionados sobretudo com base no seu conhecimento das matérias que ensinam e não dos seus estudos de pedagogia — é outra conclusão que retira da mesma comparação internacional. Vale a pena ouvir o que nos dizem os dados.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 15 Jan 11

Nevoeiro

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Por João Paulo Guerra

“Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor baço da terra
que é Portugal a entristecer,
brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!"


AS MANHÃS de nevoeiro que se abateram sobre parte de Portugal nos últimos dias são propícias a que se evoquem profecias e se alimentem ânsias como a do regresso de D. Sebastião. Não é que os portugueses se dediquem propriamente a ler, analisar e discutir a Mensagem, os mitos pessoanos. Não é nada contra o autor da Mensagem, excelente Pessoa. Os portugueses também não se dedicam propriamente ao estudo da retórica de Vieira, como não percorrem a terra Mátria de Natália, nem sequer se procuram identificar nas Profecias do Bandarra. Excluindo alguns marginais letrados que teimam em ler, pensar, expor ideias, construir teorias, idealizar e partilhar beleza, a actividade intelectual dos portugueses não vai além da Taprobana. Aqui para nós, talvez não chegue mesmo a Cacilhas.

Mas estes nevoeiros, a envolver esta crise e a emoldurar uma melancólica campanha eleitoral, sugerem figuras de Encobertos que - quem sabe? - talvez tenham na mão, ou pelo menos na ideia, a chave do nosso futuro. Ora observando a vida política actual do Portugal do nevoeiro e dos fogos-fátuos - que emanam do metano dos pântanos - dá ideia que alguns ínclitos portugueses já encontraram para lá do nevoeiro o respectivo D. Sebastião. Chama-se FMI. Que, como o outro e como dizia Pessoa, talvez venha ou não.
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«DE» de 17 Jan 11

domingo, 16 de janeiro de 2011

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

COMPARADA com a original candidatura de 2005, insubmissa e contra a corrente, esta reincidência presidencial de Manuel Alegre apareceu como um remake sem grande imaginação, tolhido pelos compromissos das amarras partidárias e enredado nas insanáveis contradições político-ideológicas entre os seus dois alicerces oficiais, o PS e o Bloco de Esquerda.


E se o caminho presidencial já era estreito e apertado, a crise em que o país mergulhou, os PEC uns atrás dos outros e as medidas de austeridade do Governo tornaram a campanha de Alegre virtualmente impossível. O candidato ficou sem linha de orientação, hipotecou a coerência do discurso, abandonou qualquer estratégia. Apoia a greve geral? Nem sim, nem não. Votaria o OE para 2011? Nem a favor, nem contra. Concorda com o corte de salários dos funcionários públicos? Não, mas eram talvez inevitáveis. E com a redução das pensões e apoios sociais? Há o Estado Social, mas também há a necessidade do Governo...

Foi neste estado, sem ânimo nem discurso político sustentável, que Manuel Alegre chegou ao debate com Cavaco Silva. No qual foi rápida e repetidamente encostado às cordas, como se esperava. Aí abandonando qualquer esperança, se é que ainda existia, de poder forçar uma segunda volta.

É por isso - pela falta de outras armas ou argumentos - que as pequenas baixezas políticas vieram ocupar o espaço da campanha: como as tendas alugadas do 10 de Junho, a fadista a contratar, as escutas inventadas ou a venda de acções do BPN (esquecendo-se, ao mesmo tempo, a colaboração de Alegre em anúncios do BPP).

É por isso e porque ao Governo de José Sócrates interessa, no problemático e perigoso ano político de 2011, que Cavaco Silva saia o mais debilitado possível da sua inevitável reeleição. E com a menor força política para os confrontos que se avizinham com o Governo. Daí a incessante campanha sobre as acções do BPN a encher páginas de jornais. Vale tudo. E quando o desespero aumenta, vale mesmo tudo.

P.S. - Eduardo Azevedo Soares foi um militar seduzido pela política, que analisava com prazer e recusando a superficialidade. Discreto e encantador no trato, era firme nos valores e sólido nos princípios, intransigente perante o populismo e o oportunismo na vida política. Foi sempre uma companhia estimulante, um cidadão íntegro e civicamente empenhado. Como poucos.
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«SOL» de 14 Jan 11