segunda-feira, 11 de abril de 2011

Passatempo de 11 Abr 11 - Solução




Produção de biomassa num logradouro de um prédio particular situado na Rua Alves Redol, junto ao IST, em Lisboa. Ao contrário do que possa parecer, o prédio não está abandonado nem devoluto.

sábado, 9 de abril de 2011

Eles vêm aí

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Por Antunes Ferreira

HÁ MOMENTOS da vida de um homem que levam a que se diga também que há dias em que não se pode pôr um pé na rua à noite. A jigajoga do faz que ajuda mas não ajuda, diz que pede mas não pede, no fim pede e deve vir e depressa que se faz tarde, começa a ser mais exótica do que um episódio dos morangos com açúcar. E agora, enquanto eles não entram cá mas vêm aí, não nos podemos esquecer da entrega internética dos Censos e do IRS. Depois, bem, depois verá-se como diz o cego.

Os culpados desta encrenca em que nos metemos somos nós os Portugueses; os Governos que se sucederam também, como é evidente, mas os principais somos mesmo nós. Habituámo-nos de há muito tempo a gastar o que temos e o que não temos, sobretudo este último termo de comparação. Iludimo-nos com a ideia peregrina do alguém há-de pagar.

Tenho redobrada pena de escrever que, apenas por uma vez em mais de dois séculos, este preclaro procedimento foi torpedeado: no tempo da chegada de Oliveira Salazar ao poder. Que, como se sabe, começou por ser o ministro das Finanças da Ditadura militar e, com mão de ferro (que depois ele aplicaria em todos os momentos) decretou a prática da economia da dona de casa: se não se tem, não se gasta; ou só se gasta o que se tem.

Com isto, cada vez mais me convenço de que não enjeitamos, na generalidade, a prática da cenoura e do chicote; na especialidade serão outros quinhentos mil réis, mas isso não chega para ultrapassar a primeira. Aliás, mesmo na chamada época áurea dos Descobrimentos isso se verificou. Tal como agora com os ansiados fundos europeus, os enormes rendimentos que provinham das colónias foram sendo esbanjados com a maior das alegrias.

Nestes momentos que vivemos, uma boa parte de nós ainda não entendeu o que vai ser a vida sob o ditame do FMI e do Fundo Europeu. É óbvio que a gasolina a um euro e sessenta cêntimos o litro já causa preocupações; mas nas nossas auto-estradas, os Mercedes, os BMW, os Audi, os Porshe e outros que tais são o pão-nosso-de-cada-dia. É evidente que os restaurantes caríssimos estão sempre cheios. É triste que os apartamentos e vivendas que mais se compram são os de topo de gama. Somos assim.

No meio deste tremendo imbróglio, ainda existem motivos q.b., para prosseguirmos com tenacidade na prática daquilo em que na verdade somos especialistas: as anedotas. Os romanos afirmaram que ridendo castigat mores. Molière apanhou a ideia que o arlequim Domenico mandara pintar no pano de boca do seu teatro, e deu-lhe uma dimensão mundial e eterna.

Nós, por cá, não recusamos essa forma de intervenção morigeradora, mas comprazemo-nos, sobretudo, com as piadas mais fortes e ordinárias; as outras apenas debicam coisas e pessoas; vão longes os anos em que as revistas do Parque Mayer tinham cenas que faziam estoirar de riso as plateias, pelo que continham de críticas ao salazarismo, de forma mais velada ou menos encoberta, toureando a censura.

Agora, uma que outra notícia, no meio deste vale de lágrimas, consegue fazer-nos chegar algumas lágrimas insípidas aos olhos. Veja-se um exemplo.

«Encontrado esqueleto de homossexual pré-histórico
Um esqueleto com cerca de cinco mil anos foi recentemente encontrado em Praga, por uma equipa de investigadores da República Checa. Os restos mortais pertencem a um ser humano do sexo masculino mas, devido ao modo como foi sepultado, os arqueólogos julgam que possa ter sido um homossexual ou transexual.»

Deixemo-nos de tretas e soltemos umas boas gargalhadas, pois já naqueles tempos havia homens… não praticantes. Longe de mim criticar o que é a orientação sexual de cada um, mais longe ainda defender a homofobia. Mas que a notícia é muito mais gozada do que as que nos inundam sobre a ajuda externa, lá isso…

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A partilha do poder

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Por Baptista-Bastos

"Coesão" e "verdade" são termos muito utilizados nos últimos discursos do dr. Cavaco. Não querem dizer nada e não se escoram em coisa alguma. O País está dividido, desenganado, irritado e furioso com aquilo que os políticos lhe têm feito; e a palavra "verdade" faz com que fuja espavorido. Todos mentem, com maior ou menos ração, e até o dr. Cavaco não está propriamente limpo do feio pecado. Acresce que os seus textos expõem uma mediocridade de forma e de conteúdo, uma sensaboria gelada que a ninguém empolgam.

O homem pode dizer o que quiser, que veio do povo, que ao povo pertence, mas não provoca nenhum sentimento de emotiva mobilização. Ele não sente, nunca sentiu, o impulso da insubmissão e da revolta. É um ser "institucionalizado." Os indivíduos ou os grupos agem e procedem a rebeliões específicas de conduta quando as ameaças que os cercam quase elaboram a alternativa de um contra-governo. As imponentes manifestações da "geração à rasca" são sintomas e indicações.

A maneira como temos sido conduzidos e governados, prolonga a ideia de que todo o poder encontra resistência, mais tarde ou mais cedo. E a alternância, sem alternativa, entre PS e PSD, obrigando à servidão monótona do voto, atinge a sufocação. Bem pode o dr. Cavaco suspirar pela "verdade" e aspirar à "coesão." Olhe-se e veja-se. No PS de Sócrates a intriga não chegou para amolgar os 93 por cento obtidos pelo mal-amado. Os socialistas estão cegos e arfantes? Não têm é outro "camarada" que substitua Sócrates, e Sócrates representa a garantia de que talvez se mude alguma coisa para permanecer tudo na mesma. E se, nas próximas eleições, o PS voltar a ganhar e a apostar, de novo, no seu secretário-geral?

O PSD de Passos Coelho é o labirinto de onde nunca ninguém soube sair. Continuam lá todos aqueles que, através das fórmulas mais paradoxais, e dos entrelaçamentos mais duvidosos, se foram governando sem pudor nem inquietação. A ausência da tal "verdade" tem sido uma constante naquele partido, exactamente porque foi ele um dos construtores e sustentáculos do "sistema". É, pois, a título de parceiro e de adversário que o PSD e o PS têm partilhado o poder e dividido as benesses e privilégios que lhes são afins. A "mentira" começa nesse embuste da "verdade" e o dr. Cavaco é um dos arquitectos desta estática.

Torna-se cada vez mais evidente que Passos Coelho (com quem pessoalmente simpatizo) não está à altura da situação. O apelo às coligações, feito por dirigentes políticos e por jornalistas e preopinantes estipendiados, enuncia, claramente, o problema e a enorme baralhada em que nos envolveram. Em que nos envolveram aqueles mesmos ou os seus directos descendentes. No entanto, talvez as coisas, desta vez, não sejam tão felizes para eles.
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«DN» de 6 Abr 11

terça-feira, 5 de abril de 2011

Os Velhos

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Por Maria Filomena Mónica

O ESTADO está a contar-nos, cabeça a cabeça. A isto chama-se Censo, do latim censu, a lista dos nomes e a avaliação das propriedades dos cidadãos romanos. Estava hoje a preencher o questionário do INE quando notei que passara a integrar a categoria de «pessoa idosa», a designação oficial para quem tem mais de 65 anos. Dado o meu pendor melodramático, comecei logo a imaginar que me restavam poucos anos de vida. À força, fui capaz de interromper esta meditação fúnebre, para pensar naqueles que, dentro do meu grupo etário, estão em pior situação do que eu. Através de um caderninho onde anoto as coisas que me surpreendem, descobri que Portugal é hoje o sétimo país mais envelhecido do mundo.

As causas não são difíceis de encontrar. Por um lado, os casais jovens não usufruem de condições para ter filhos, por outro, em virtude dos progressos da Medicina, a esperança de vida tem aumentado. Actualmente, as mulheres vivem, em média, até aos 81 anos e os homens até aos 75. À primeira vista, estes números parecem uma bênção do Céu, mas existe um reverso da medalha. De entre os europeus, os portugueses são aqueles que durante mais tempo - dezassete anos - enfrentam uma incapacidade permanente. Aos 80 anos, 40% dos nossos velhos estão dementes. Há 190.000 portugueses, com mais de 75 anos, a viver sós, sem ninguém que os ajude nas tarefas domésticas e, mais grave, que com eles converse.

As filhas e as noras - evidentemente os homens consideram sempre que compete às mulheres, e não a eles, tratar dos seus velhos - estão a trabalhar, as famílias vivem em casas pequenas e não existem lares em número suficiente para os albergar. Adoentados, muitos sobrevivem com uma pensão miserável, nos subúrbios de Lisboa, no interior desertificado do país, nas casas dos bairros antigos das cidades. Na rua das Trinas, ao lado de onde vivo, já não me cruzo com a rapariga pálida que ali vendia alperces, mas ainda me deparo com velhinhas, espreitando-me por detrás das cortinas de renda. Os maridos estão no Jardim da Estrela, jogando cartas com os amigos, os filhos trabalham para sustentar as famílias e os netos passam os dias, na escola, aprendendo coisas de que as avós nunca ouviram falar. Para além de uma ida ao centro de saúde, do crochet que nunca termina e da conversa com as vizinhas, nada sobra. Segundo uma investigação recente, 36,5% dos idosos com mais de 65 anos passa mais de 8 horas por dia sem companhia e 28,9% admite estar «triste e deprimido». Mas há pior: os velhos constituem metade da taxa de suicídio nacional, uma situação intolerável. Quanto mais não fosse para punir o «socialista» Sócrates pelo que fez e se preparava fazer aos reformados mais pobres valeu a pena derrubá-lo.

PS: Por lapso, no meu último artigo, usei a designação «Conselho da Europa» quando me queria referir ao «Conselho Europeu». Um erro é um erro, mas o facto de o ter cometido demonstra a distância entre os cidadãos e o labirinto europeu.
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«Expresso» de 2 Abr 11

domingo, 3 de abril de 2011

Heroínas dos tsunamis

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Por Nuno Crato

NÃO HÁ REGISTO de algo semelhante se ter passado no maremoto que há semanas devastou o Japão; mas quando o tsunami de Dezembro de 2004 varreu as costas do Índico, houve uma jovem de 10 anos que salvou centenas de pessoas. Chamava-se Tilly Smith, tinha vindo de Oxshott, nos arredores de Londres e estava numa praia da Tailândia, em férias com os pais. Viu o mar esvaziar-se e os barcos agitarem-se nas águas, que se afundavam. Percebeu, pelo que tinha aprendido na escola, que esse movimento prenunciava o avanço de uma onda gigantesca. Avisou os pais, avisou todos os que estavam próximos e fê-los recuar a zona segura. Salvou muitas vidas.

Passados anos, em Setembro de 2009, passou-se algo semelhante no Pacífico. Uma jovem neo-zelandesa chamada Abby Wutzler, também com 10 anos, proveniente de Wellington, uma cidade tão acidentada que faz as colinas de Lisboa parecerem uma planície alentejana, defrontou-se com um recuo do mar numa praia de Samoa, onde estava de férias. Avisou os pais, avisou os turistas que se encontravam perto e de novo salvou muitas vidas.

Na altura, achei estas histórias curiosas. Mas o filósofo Fernando Savater, que recentemente esteve entre nós numa conferência organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, fez-me ver as coisas de outra maneira. Estas jovens são heroínas do conhecimento, explicou. Elas viviam em zonas onde a identificação de tsunamis é virtualmente inútil. Mas usaram uma sabedoria que nunca sonharam poder vir a ter utilidade prática. E usaram-na por uma única razão: por que a tinham adquirido.
Fernando Savater falava sobre «O Valor de Educar, o Valor de Instruir» e usou estas histórias para mostrar como as aplicações do que se aprende são, muitas vezes, inesperadas. Se as jovens se tivessem recusado a estudar tudo o que se relaciona com tsunamis, pois são fenómenos que não as afectam nas suas localidades, jamais teriam tido possibilidade de salvarem a sua vida e a de outros.

Esta história deveria ser contada em todas as escolas. Sabemos como, muitas vezes, os alunos protestam contra a pretensa falta de utilidade do que aprendem; e como, por vezes, pais e alguns teóricos de educação se juntam a esse protesto. Herbert Spencer (1820–1903), o conhecido filósofo e sociólogo inglês, é um dos mais culpados por ter justificado essa moda. Tornou-se famosa a sua frase «O objectivo da educação não é o conhecimento, mas a acção», precursora da actual teoria das «competências», ou «conhecimento em acção», que seria o único objectivo válido e o único a que a escola se deveria dedicar.

É evidente que todos gostamos que o saber seja aplicável. Mas há muito conhecimento que não tem utilidade prática imediata e não podemos limitar o ensino por esse espartilho. Quando os alunos protestam dizendo que não vêm utilidade no que aprendem, estão na realidade a protestar por não estarem a perceber as matérias em causa. Quantas vezes nos deleitamos com conhecimentos aparentemente inúteis, mas que nos fascinam?

As ideias antiquadas de Spencer e dos seus seguidores continuam a perverter o sentido do ensino. Na escola e na vida, o saber deve valer por si. Mesmo que a sua aplicabilidade seja tão remota como a de jovens de 10 anos salvarem a família de um tsunami.
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«Números e Letras» - «Expresso» de 2 Abr 11

sábado, 2 de abril de 2011

A crise ao rubro: Ronaldo vira as costas

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Por Antunes Ferreira

O PINGUE-PONGUE entre Belém e São Bento (e com a rua de São Caetano a bolar por fora) é mais um episódio lamentável neste Portugal em crise. A questão é saber quem tem competência para solicitar a famigerada ajuda externa. O PR diz que o Governo - cuja demissão aceitou e já foi publicada no Diário da República – pode pedi-la.
O Executivo e o grupo parlamentar socialista dizem que não. Obviamente o PSD diz que sim. E para cúmulo, Bruxelas também vai pela afirmativa. Estamos perante mais um tristíssimo episódio desta política desregrada e obnóxia que vigora. E vem-me à cabeça, uma outra vez, a sabedoria popular: em terra em que não há pão, todos ralham e nenhum tem razão. Porra! Decidam-se.
Ontem, num País de mentira, foi o dia das mentiras; extraordinário, é o mínimo que posso dizer. Não foi uma coincidência, foi uma agravante. No entanto, a data serviu para os Lusos desanuviarem. Já anteriormente tinham-se borrado a rir com as declarações de Paulo Futre sobre a necessidade de contar com a China, na campanha eleitoral do Sporting.
No fundo – cuidado, utilizei a caixa baixa, não me refiro ao outro, perigosíssimo, até diabolizado no entender do senhor que se prepara para governar (?) uma terra que não se governa, deixa ser governada – nós, os Portugueses, gostamos da peta. De pouco mais, aliás, mas desta somos realmente adeptos, militantes e praticantes.
No entretanto, o melhor estava para vir, uma vez mais de origem britânica; desta feita, porém, o gozo é aceitável. «Portugal vende Cristiano Ronaldo à Espanha em operação de 160 milhões contra a dívida pública.» E mais: a Inglaterra está a pensar numa contra-proposta de 200 milhões. Vem assim mesmo, no jornal britânico “The Independent.”

«Vergado à dívida, e a digerir a mais recente desvalorização do estatuto do crédito do país, o ministro das Finanças de Portugal assegurou a cooperação do jogador mais bem pago do futebol, numa manobra audaciosa para tirar o país da ameaça do colapso económico», diz o artigo. E Cristiano Ronaldo, patriota, concordou. «Numa jogada que para muitos observadores vai levar à destruição do Mundial».

E surge, de seguida a explicação do plano governamental: «A verba, embora seja o dobro do actual recorde (pago pelo Real Madrid ao Manchester United por Ronaldo em 2009), nem se aproxima dos 12 milhares de milhões que Portugal deve, mas o senhor Sócrates, agora primeiro-ministro de gestão, acredita que os mercados internacionais encararão a operação como um símbolo da determinação de Portugal em atacar a crise, e responderão em conformidade.»

E o texto termina: «Ao fim da noite de ontem (Quinta-feira), relatos sugeriam que David Cameron está a preparar uma contra-proposta, de 200 milhões, para convencer Ronaldo a jogar pela Inglaterra.» Vince Cable, o ministro britânico das finanças, «propôs um imposto Ferrari para o pagar, embora ao próprio Ronaldo fosse dada isenção».
A ser assim, Ronaldo viraria as costas a Portugal, à Madeira, a Alberto João Jardim, a Paulo Bento e a Gilberto Madaíl, no mínimo; o que não admiraria, depois de o ter feito, e bem, ao mal educadão Carlos Queiroz. O texto tem piada, é oportuno e não ofende; motiva até umas boas gargalhadas. E enorme preocupação aos méis incautos e ingénuos.
Ficou célebre a frase «É Carnaval, ninguém leva a mal». No caso presente, prefiro «É dia das Mentiras, vê lá para onde te viras»…

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O que é que a placa anuncia? - Solução

A resposta certa foi dada por 'Mg' que vai, portanto, receber o livro.

Passatempo comemorativo do 3.º aniversário dos «Prémios António Costa»

DOS TRÊS veículos que se vêem em infracção nas duas fotos de cima, apenas um foi multado pela EMEL - decerto por razões muito válidas, porque nem um dos que que figuram nas imagens de baixo (e inúmeros outros cujas fotos se omitem) foram incomodados pela referida entidade - nem por qualquer outra.
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A pergunta que aqui se deixa é a seguinte: «Supondo que quem colocou o placard (que aqui se vê a vermelho) o fez com um magnífico sentido de oportunidade, o que é que lá fez constar (ou anunciar)?»
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ATENÇÃO:
As respostas não deverão ser dadas neste post, mas sim [AQUI].

segunda-feira, 28 de março de 2011

A verdadeira casa de «A Cidade e as Serras», que 'apareceu', primeiro, no conto «Civilização»
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In «Imagens do Portugal Queirosiano», de Campos Matos, Ed. «Terra Livre»

sábado, 26 de março de 2011

Ao que chegámos…

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Por Antunes Ferreira

DAS AGÊNCIAS - O jornal Financial Times ironiza esta sexta-feira com a situação portuguesa e sugere a anexação de Portugal pelo Brasil. Na coluna “Lex” é, ainda, assegurado que as maiores vantagens seriam para Portugal.

«A União Europeia considera Portugal problemático: sem governo, com alta resistência à austeridade e fraca performance económica crónica (o PIB estagnou na última década). As negociações são duras» prossegue o articulista que, depois, escreve: «Aqui está uma ideia inovadora para lidar com a situação: a anexação pelo Brasil». E faz de seguida o elenco das virtudes brasileiras: um país onde se fala português e onde o PIB tem crescido, em média, 4% ao ano na última década.

«Portugal seria uma grande província, mas longe de ser dominante: 5% da população e 10% do PIB», acrescenta a coluna que termina por apontar que «Claro, o antigo colonizador ia ressentir-se da perda de status. Mas a anterior colónia tem algo a oferecer, além de spreads mais baixos no crédito e défices corrente e do Estado proporcionalmente muito inferiores. O Brasil é um dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), o centro emergente do poder mundial. Para casa, soa melhor do que a velha e cansada União Europeia».

Poderia, perfeitamente, ficar por aqui, pedindo apenas desculpa aos que me lêem por me contentar, preguiçoso, com a transcrição. Mas, acrescento umas linhas, pelo menos para me auto-penitenciar. O nosso ‘Sorumbático’ e o Carlos Medina Ribeiro não ficariam, também e por certo, muito satisfeitos com o autor destas linhas…

O diário económico (e não só) mais conhecido do Mundo goza com Portugal. Não posso classificar de outro modo, o texto que acima se lê. Com Portugal, principalmente, mas outrossim com o Brasil. Se nós merecemos ser assim tratados, já a grande Nação da outra margem do Atlântico, não. O desconchavo está em que o nosso pobre torrão se comporta tão mal que se sujeita a ser gozado desta maneira…

O jornal cor de salmão é originário do País que constitui com Portugal a mais velha Aliança da Europa. Mas, igualmente, o que originou o Mapa cor-de-rosa que antecedeu outra crise de tal ordem por aqui, que iria desaguar na substituição do regime político português. Entre as duas balizas, ficam uns quantos símbolos da colonização britânica entre nós, desde a Carris até aos TLP, desde o vinho do Porto até ao da Madeira. E por aí fora.

Ao estado a que chegámos. Motivo de galhofa, ainda que provinda de quem também anda arredado dos melhores caminhos, de quem perdeu um Império para se refugiar na Europa a que se refere, mas que não teve a coragem e a determinação suficientes para ter entrado no euro.
Tudo medido e tudo pesado, não posso deixar de me repetir: ao que nós chegámos…

quinta-feira, 24 de março de 2011

Solução 1154 gramas


OS DOIS leitores que mais se tenham aproximado deste valor têm 24h, a partir de agora, para escreverem para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada e 2 dos livros que prefiram.
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Actualização (20h08m): se não me enganei nas contas, o vencedor foi o leitor "500" (palpite 1135g, um erro de 19 gramas) e o 2.º classificado foi M. Araújo (palpite 1075g, erro de 104 gramas). Atenção agora ao prazo para reclamar os prémios, pois não haverá prorrogação.

terça-feira, 22 de março de 2011

A minha Europa e a deles

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Por Maria Filomena Mónica

EM 1962, fui viver para uma ilha, a Grã-Bretanha, situada dentro ou perto da Europa. Apaixonei-me logo pela civilização europeia, de que Portugal parecia estar, há séculos, arredado. Em 1986, quando Portugal aderiu à CEE, aprovei o gesto de forma incondicional. Mas o entusiasmo não durou. Não tardei a reparar que a União Europeia produzia subsídios para os agricultores, cotas para o pescado e regras sobre lâmpadas, mas não europeus.

Nesta organização, o poder é detido pelo Conselho da Europa, um somatório de interesses nacionais, e pela Comissão, uma casta que não responde perante ninguém. Regiamente pagos, os seus funcionários querem estar bem instalados. No ano passado, decidiram construir uma nova sede para o Conselho, com 40.000 m2, a qual custará uma fortuna. Por seu lado, o Parlamento é um clube itinerante onde apenas se debatem coisas menores, pelo que não espanta que os seus membros se vinguem, entretendo-se a pensar na forma de melhorar a vidinha. Como não há uma ligação real entre eles e os eleitores, fazem o que lhes passa pela cabeça.

Num momento de crise como aquele que atravessamos, não encontraram nada melhor do que proceder a um aumento generalizado das despesas correntes (dos 22 eurodeputados portugueses, só Miguel Portas votou contra). Além dos chorudos vencimentos que recebem, usufruem de 300 euros de ajudas de custo diárias quando estão em Bruxelas e Estrasburgo, têm direito a bilhete de avião de ida e volta em 1ª classe em 1ª classe para o país de origem (os serviços só compram passagens em turística quando recebem ordens expressas nesse sentido). Nem o mais ínfimo pormenor foi deixado ao acaso. O percurso entre a casa e o aeroporto – e vice-versa – é pago pela instituição, sendo o respectivo montante calculado em quilómetros. No corrente ano, para a contratação de «assistentes» (muitos deles familiares sem habilitações para o exercício das tarefas exigidas) passarão a dispor de uma verba mensal de 21.200 euros, ou seja, mais 3.000 do que em 2010. Não admira que a proposta do Orçamento para o corrente ano inclua, na rubrica «recursos dos deputados», um aumento de 27 milhões de euros.

Todos os empreendimentos colectivos – e a União Europeia é um deles - exigem confiança a quem neles está envolvido. Quando pagamos impostos é por imaginar que outros o farão e que, mais importante, o dinheiro será bem aplicado. Durante anos, os alemães subsidiaram as economias do sul, acreditando que tal contribuiria para criar uma Europa mais solidária. Depois do que se passou com as contas públicas dos PIGS – Portugal, Itália, Grécia e Espanha – o pacto está à beira da ruína. Os alemães não acreditam que o engº Sócrates saiba administrar o nosso dinheiro. Nem eu.

PS: Na última crónica, enganei-me no título do Observatório da Ajuda: é Astronómico e não Meteorológico. Peço desculpa aos leitores e aos astros.
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«Expresso» de 19 Mar 11

sábado, 19 de março de 2011

Eleições e soluções

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Por Antunes Ferreira

AS ELEIÇÕES estão à porta. Trocam-se acusações, a crise foi originada pelo desgoverno, as finanças estão de rastos, os cidadãos cada vez mais desconfiados, farto de promessas está o Inferno cheio, as vitórias estão ali mesmo à biquinha, os maus (maus? Péssimos!) resultados têm de ser ultrapassados.

A crise é isso mesmo. Uma amálgama de maus procedimentos de há anos a esta parte, de ilusões frustradas, de tropeções constantes, de desencantos generalizados. Em suma: um real pot pourri. Nunca se tinha vivido uma como esta. As pessoas já deviam estar habituadas, já deviam saber o que a casa gastava, já deviam desconfiar dos que mandavam, c’os diabos, era a altura de mudar.

Mudar para quê? Para que tudo ficasse na mesma? Para que os bosses fossem sempre os mesmos, das mesmas famílias, dos mesmos desconchavos, dos mesmos procedimentos? Quando a dúvida se instala é mau; quando as dívidas o fazem é muito pior. É péssimo. Como pagá-las, esse é o busílis da questão.

Os adversários chegaram às últimas; só faltam mesmo as agressões físicas, a trolha, o pontapé, os olhos negros, a facada pelas costas. Também tu, bruto? Numa tal terra de cegos, um que tem um só olho é rei, diz a sabedoria popular e diz muito bem. Anda uma geração à rasca? Andamos todos. Ainda que sem manifestações de centenas de milhar.

Os elencos apresentam-se, os dinheiros são prometidos e garantidos. Nestes preparos, é tudo bem-vindo para que as coisas entrem nos eixos e, logo, que se levantem. Chega de rastejar na lama, basta de jogadas subterrâneas, está-se farto dos esgotos; viva quem vai ganhar, porque é sempre melhor estar do lado dos vencedores.

Estou, naturalmente, a falar das eleições no meu paupérrimo clube, de que nem sou sócio mas apenas simpatizante. A verde e branco, é óbvio. No Sporting Clube de Portugal; pois que mais havia de ser? Que são daqui a oito dias, a 26 deste mês e se esperam que sejam as mais concorridas de sempre. Ao contrário das outras, em que a abstenção sobe mais do que os juros da dívida pública.

Eram seis os candidatos, mas já desistiu um, o senhor Zeferino Boal de seu nome. Ficaram na luta os senhores Godinho Lopes, Bruno de Carvalho, Dias Ferreira, Pedro Baltazar e Abrantes Mendes. Todos se afirmam homens de bem, salvadores dos leões, carregados de euros, com fundos e… mundos.

Todos amam o clube desde pequeninos, alguns mesmo são sócios de berço, para não dizer uterinos. Todos têm treinadores de nomeada, todos apresentam jogadores do melhor que há pelo orbe fora, todos se rodeiam de figuras gradas, de velhas glórias, de ídolos do passado.

É o fartar vilanagem, é o regabofe. Se o leão está moribundo, todos lhe atiram… remédios miraculosos. Também diz o povo que antes a morte que tal sorte. Eu, não sendo associado, não vou votar. E se o fosse e se fosse votar era no Paulinho roupeiro. Tiro e queda.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Passatempo de 18 Mar 11 - Solução

16h46m
Depois de uma grande trabalheira (que implicou virar o carro infractor ao contrário...) a EMEL lá levou o prevaricador.
16h49m
No local agora vago, um outro carro estaciona.
Atrás, um outro (da PSP) faz o mesmo. Dele saem 3 agentes, que atravessam a avenida e vão a um estabelecimento.
17h00m
O carro claro vai-se embora, e um outro ocupa o seu lugar.
17h02m
Os agentes da PSP continuam na loja.
17h07m
Os agentes da PSP regressam ao carro-patrulha, vão-se embora, e tudo retorna à normalidade.
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Curiosidade: este local é o chamado «Local D» dos Prémios António Costa - Ver [aqui].

quarta-feira, 16 de março de 2011

FRANCISCO LOUÇÃ, O REVOLUCIONÁRIO

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Por Maria Filomena Mónica

DEZ ANOS depois da sua fundação, o Bloco de Esquerda pode orgulhar-se de ter hoje no Parlamento 16 deputados. Nascido da união de vários grupúsculos da Extrema-Esquerda, está em expansão, o que justifica o interesse pela personalidade do seu chefe. A 24 de Abril de 1974, então com 17 anos, Francisco Louçã era membro dos órgãos directivos da trotskista «Liga Comunista Internacionalista» (LCI). Nessa noite, depois de ter sido informado que iria ter lugar um golpe de Estado, deslocou-se para uma casa na Rua da Beneficência, em Lisboa. Começou logo a preparar acções de propaganda, entre as quais dois cartazes, com as seguintes frases «Nem mais um soldado para as colónias» e «Fim à Guerra Colonial, Independência já», a serem colocados na Praça da Figueira. Foi daqui que, às 8 horas da manhã, tentou juntar alguns camaradas, a fim de planear o que deveriam fazer após uma insurreição tida como vitoriosa.

Mas nada estava assegurado. No momento em que ele chegava à Baixa, o seu pai, o capitão-de-fragata Seixas Louçã, comandante do navio Almirante Gago Coutinho, descia o Tejo, integrado numa força da NATO prestes a rumar em direcção a Nápoles. A certa altura, recebeu indicações para sair da formatura, colocando-se em frente ao Terreiro do Paço, onde estavam estacionadas as forças rebeldes. O vice-chefe do Estado-Maior da Armada, contra-almirante Jaime Lopes, deu-lhe ordem para disparar. Alegando estar muita gente no local, além de cacilheiros a chegar e a partir, o comandante ter-se-á recusado, mas a eventual carnificina não impressionou o vice-chefe, que insistiu. O comandante optou então por mandar dar «uns tirinhos para o ar», uma ordem que os oficiais se recusaram a cumprir. Diante do Tejo, além das tropas de Salgueiro Maia, havia agora tanques do Regimento de Cavalaria 7, comandados por um alferes miliciano que optara por aderir ao Movimento, o mesmo tendo acontecido aos pelotões de Lanceiros 2.

Na Outra Banda, uma bateria da Escola Prática de Artilharia, que se juntara aos revoltosos, seguia os movimentos da fragata. Sob o nome de guerra de «Tigre», Otelo ordenava a «Charlie Oito» (Salgueiro Maia), que protegesse os blindados, após o que o comandante Vítor Crespo anulava a ordem dada ao comandante Louçã. Perto do meio-dia, este fundeava o navio no Alfeite. A 27 de Maio, solicitava a passagem à reserva, um pedido deferido pelo almirante Pinheiro de Azevedo, o qual não se absteve de lhe dizer: «Eh pá, você atrasou a revolução meia hora.» Não sabemos o que pai e filho se terão dito, mas uma coisa é certa: estivemos à beira de uma guerra civil. Em 1799, Goya publicou uma série de desenhos, os «Caprichos». Num dos mais famosos, o n.º 43, está inscrita a seguinte frase, «El sueño de la razon produce monstruos». O pintor conhecia por dentro os horrores que as utopias revolucionárias podem trazer ao mundo. A fragata nacional não disparou, mas jamais esqueci a frase, aliás ambígua, aposta na gravura espanhola.

O facto de ser descendente de um militar explica alguns traços de Francisco Louçã. Foi ao pai, e não ao avô materno, António Neves Anacleto, um algarvio que, tendo começado no anarquismo, acabou no PPD, que o líder do Bloco foi buscar o seu amor à disciplina. Aos 10 anos, numa redacção, defendia que as férias «servem para descansar, para estudar, e, naturalmente para atacar os pontos fracos nos estudos». Seu colega de turma, Santana Lopes conta que de tal forma o puritanismo do rapaz o irritava que, um dia, lhe prometera 20 escudos, se ele dissesse «merda» em voz alta, o que o outro teria recusado.

A rebeldia, se é que o termo se lhe aplica, reservava-a Francisco Louçã para a política. Em 1972, fora a França. Como tantos de nós, dirigiu-se à livraria Joie de Lire, no Quartier Latin, pertença de um militante trotskista. Era demasiado cedo – tinha apenas 15 anos – para saber o que desejava da vida. Marcelo Caetano resolveu-lhe o problema. No aniversário de uma amiga dos pais, ao saber que o jovem desejava ir para «Económicas», o Presidente do Conselho tentou dissuadi-lo, informando-o ser o ISCEF «um antro de comunistas». Tanto bastou para o entusiasmar. O menino viajou, estudou, casou, tendo hoje uma carreira académica respeitada. Mas nada disto alterou as suas ideias: o capitalismo é mau, o socialismo é bom, a globalização deve ser combatida. Que na adolescência se acredite em tais coisas, compreendo: o que me custa a perceber é como, passado o limiar dos 50 anos, alguém ainda assim pense.

«GQ» de Março 2010

domingo, 13 de março de 2011

A malta do "É igual ao litro"

Obra de autor anónimo
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O local é o mesmo (arcadas na Rua Visconde de Santarém, perto do IST, em Lisboa), pelo que é evidente que, quem faz mal, também sabe fazer bem. Então, porque é que...?

sábado, 12 de março de 2011

Somos os primeiros

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Por Antunes Ferreira

JÁ NOS HABITUÁMOS a ter o primeiro lugar em muitas questões europeias. Desta feita, até nos distanciámos do segundo classificado. Os aplausos são, por conseguinte, absolutamente desnecessários; o mérito dispensa as palmas. O que não nos dispensa de nos orgulharmos com a distinção: não é todos os dias que se nos reconhece a dianteira.

Passemos aos factos. De acordo com a Comunicação Social, Portugal é o país da Europa com mais fraudes na Saúde. Todos os anos, o Estado português é lesado em 839 milhões de euros.
Os dados foram revelados pela Rede Europeia de Combate à Fraude e Corrupção na Saúde, com Portugal a liderar o ranking que inclui 23 países. A seguir a nós, estão a Finlândia (722 milhões) e a Irlanda (709 milhões).

Bem pelo contrário a Alemanha (13 milhões), a Espanha (4,33 milhões) e a Áustria (1,39 milhões) estão no outro extremo da lista. Feliz exemplo do mosaico que é o Velho Continente, mas também o destes países bem comportados. Diz o saber popular que cada um é como cada qual, somos todos iguais, mas há uns mais iguais do que os outros.

O Senhor Paul Vincke, que é o presidente da Rede Europeia de Combate à Fraude e Corrupção, afirmou, face à lista, que o dinheiro que se perde com as fraudes na Europa dava para pagar um ano de salários a dois milhões e meio de enfermeiros. Nem com o aumento da dotação do famigerado Fundo Europeu a situação se equilibraria. Mais a mais, com o rotundo não de Frau Angela.

Quem diria que na União Europeia e arredores se verificaria um caso destes. Com membros diversos, cada cor seu paladar, o que não se esperava de todo. Ou antes, esperar-se esperava-se, mas alguns protagonistas eram impensáveis, como é o caso da Finlândia, que até tem a Casa do Pai Natal em Rovaniemi. Já não se pode acreditar em ninguém, sequer na própria sombra.

Volto ao nosso caso. Recentemente, uma investigação levantou a lebre quanto a mais de uma dezena de médicos, acusados de falsificação de receitas e de uso indevido do nome dos doentes. Mas, as fraudes resultaram da actividade de vários intervenientes desde o doente ao médico, passando pelos fornecedores de serviços, farmacêuticos, laboratórios e instituições da área da saúde. Enfim, o verdadeiro tudo-ao-molho-e-fé-em-Deus que o Senhor José Estebes celebrizou.

Estamos, portanto, de parabéns por mais esta performance. Neste particular e utilizando terminologia do ciclismo já não nos encontramos na cauda do pelotão comunitário. Bem pelo contrário; protagonizamos uma bem sucedida fuga, com o Hino à Alegria em fundo musical. O Senhor Ludwig van Beethoven deliraria.

Não existe vacina para este despautério verdadeiramente criminoso. E se houvesse, tantas seriam administradas que o Serviço Nacional de Saúde então é que abriria falência. Lá ficaria a Senhora Ministra no desemprego, tendo de aderir, aliás muito justa e justificadamente, à Geração à Rasca. Claro que sem pedir atestado médico para justificar a baixa.

terça-feira, 8 de março de 2011

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

OS JUROS da dívida pública portuguesa, tanto a dez anos como a cinco anos, mantêm-se há 20 dias consecutivos acima do fatídico limiar dos 7%. Há um ano, sublinhe-se, estes mesmos juros impostos a Portugal situavam-se em metade, entre os 3% e os 4%.


É um custo da dívida insustentável por muito mais tempo. Daí que responsáveis internacionais, como a gestora francesa de activos Axa Investment, tenham esta semana alertado: «A Irlanda e a Grécia tiveram de pedir ajuda quando os seus custos de endividamento subiram para esse nível [dos 7%]» e, por isso, é de crer «que Portugal também o faça nas próximas semanas». A Grécia, recorde--se, viu-se obrigada a recorrer à ajuda externa e do FMI 17 dias depois de a sua taxa de juro ultrapassar os 7%. A Irlanda não chegou a resistir um mês.

MAS, enquanto também a Standard & Poors assinalava esta semana que Portugal «pode ver-se forçado a solicitar o Fundo Europeu de Emergência Financeira e o FMI», o Governo de José Sócrates, em desespero de causa, fazia publicar nos jornais dados provisórios e cosmeticamente cor-de-rosa da execução orçamental em Fevereiro. E o ministro Teixeira dos Santos aproveitava para se alijar - a ele e ao Governo - de responsabilidades: «Os nossos esforços terão de ser acompanhados também pelo esforço europeu. Espero que a Europa seja capaz de dar os passos decisivos que se impõem. Se não der estes passos, receio que todo este esforço seja em vão». Ou seja: se isto correr mal, a culpa não é nossa... mas da Europa, que não fez o que devia para nos ajudar - além, é claro, de financiar há anos e anos a nossa imparável dívida e de sustentar artificialmente o nosso incorrigível despesismo.

É o estilo Sócrates de recusar responsabilidades e de se vitimizar que aí está, de novo, em curso. Para as medidas adicionais de austeridade que se perfilam e para a inevitabilidade do recurso à ajuda externa. A culpa será, obviamente, dos outros. Dos mercados, da Europa, da ingrata senhora Merkel, dos partidos de oposição, etc. E não de quem nos governa há seis anos e conduziu o país a este buraco.
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«SOL» de 4 Mar 11

Heresias da ciência…

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Por Nuno Crato

NO VERÃO de 1996 comecei a escrever para o Expresso sobre ciência. Daí até ao fim de 2010 escrevi artigos de divulgação, notícias, comentários e crónicas. O “Passeio Aleatório”, que ocupava este espaço, apareceu 351 vezes, ao longo de 10 anos. Como conseguiram os leitores e o Expresso aturarem-me durante tanto tempo? A verdade é que nunca este semanário alguma vez me pressionou para que escrevesse ou para que não escrevesse alguma coisa. Foi um exercício de liberdade.

O convite continua, agora para escrever sobre educação. O espaço será partilhado com três distintos cronistas, que escrevem sobre outros temas igualmente importantes. Para mim é um descanso. Para os leitores também.

Em educação, tal como em muitos outros temas, faz falta a liberdade de discutir e questionar as teorias que há vinte ou trinta anos dominam a teoria educativa. O espírito crítico e a razão podem ajudar-nos a questionar ideias caducas. Mas há uma ajuda mais poderosa. É a ciência. Sobretudo nas últimas décadas, a psicologia cognitiva, a economia da educação e outras áreas científicas têm vindo a questionar muitas ideias feitas e a colocar o debate educativo noutros moldes.

Basta folhear as revistas científicas. No mês passado, por exemplo, um grupo de investigadores das universidades de Chicago e Harvard, reportaram nos “Proceedings of the National Academy of Sciences” (PNAS) um estudo sobre as relações entre as palavras e a capacidade de representação numérica (doi: 10.1073/pnas.1015975108). Sabe-se, por vários estudos culturais comparativos, que a existência de palavras para representar números está associada à representação mental rigorosa de largas quantidades. Nas culturas que não têm palavras para números grandes (por exemplo, algumas tribos amazónicas não possuem numerais além de dois ou três), os indivíduos não conseguem avaliar com precisão quantidades elementares. Chamados a comparar dois conjuntos de elementos apresentados separadamente, confundem 7 com 10. Mas, nessas culturas, os indivíduos também não têm uma prática, por exemplo, em trocas comerciais, que os obriguem a desenvolver a contagem. Daí que seja difícil saber de onde vem a dificuldade, se da ausência de palavras que denotam as quantidades se da falta de prática numérica.

Neste estudo, os investigadores conseguiram dissociar os dois factores, analisando a capacidade de surdos-mudos que comunicam por meio de uma linguagem gestual própria e pouco rica, onde não existem símbolos para números, mas que estão integrados numa cultura (nicaraguense) em que há transacções comerciais frequentes e em que os números permeiam a vida. Descobriram que, apesar de conseguirem usar o dinheiro com precisão e fazer trocos acertadamente, em contagens abstractas esses surdos-mudos enganam-se mais do que os que estudaram a linguagem gestual convencional, em que existem elementos simbólicos distintos que representam quaisquer números inteiros.

Os investigadores concluíram que as lengalengas escolares, como a recitação da sequência de números (“um, dois, três, … “), que os alunos por vezes praticam ainda antes de saber o seu significado, ajudam posteriormente a identificar as quantidades. Não há mal em recitar a palavra “quatro”, mesmo antes de a entender, concluem, isso ajuda a identificar mais tarde o conceito. Por vezes, não há mal em se decorar sem se perceber, pois isso pode favorecer a compreensão dos conceitos. Que heresia para algumas teorias educativas! Ao que os cientistas se atrevem!
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«Números e Letras» - «Expresso» de 5 Mar 11

segunda-feira, 7 de março de 2011

As Universidades em Portugal

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Por Maria Filomena Mónica

O QUE TÊM EM COMUM a Universidade de Lisboa, o Observatório Meteorológico da Ajuda e o Censo de 2011? Aparentemente nada. Vale todavia a pena olhar mais de perto. A propósito do Centenário daquela Universidade, o Reitor organizou uma série de «Cem Lições» proferidas por ex-alunos. Composta por meia dúzia de gatos-pingados, entre os quais me encontrava, a assistência revelou o óbvio: em Portugal, não existem Universidades.

Há alguns meses, um médico ordenou-me que andasse 40 minutos por dia. Comecei pela Tapada da Ajuda. Uma vez ali, deparei-me com o Observatório Meteorológico mandado construir, na década de 1850, por D. Pedro V. Faz este mês 150 anos que a primeira pedra foi por ele lançada. Apesar de o interior conter, ao que me dizem, um conjunto fascinante de instrumentos, não pode ser visto. Por outro lado, a beleza do edifício neo-clássico tão pouco estimulou o restauro. Perguntei a quem pertencia. A resposta deixou-me estupefacta: à Universidade de Lisboa.

Chegamos ao Censo de 2011: acabo de ser informada que 34% dos 50.000 candidatos à distribuição dos questionários porta a porta tem formação superior. Mas foi para esta tarefa que as Universidades andaram a preparar gente? É esta a geração «qualificada» de que o engº Sócrates gosta de falar? Como se sentirão os jovens que, dentro de dias, nos abordarão, envergando um colete verde reflector?

Se procurarmos averiguar quem são os responsáveis pela deplorável situação a que chegámos, temos que colocar, na primeira fila, os Ministros da Educação. Mas nem toda a responsabilidade é deles. Na medida em que, por preguiça ou indiferença, as Universidades abdicaram de ter uma palavra a dizer sobre os seus alunos, tornaram-se cúmplices. Por surpreendente que pareça, quem escolhe os jovens que entram no ensino superior é um computador.

Não minimizo as dificuldades sentidas, depois de 1974, pelas Universidades. Sem um passado em que ancorar os cursos, defrontando uma classe média exigindo que os filhos a ela tivessem acesso, não dispondo de um corpo docente qualificado, o regime democrático viu-se perante um problema. A direita, por covardia, e a esquerda, por convicção, acordaram em que o ingresso na Universidade era um direito fundamental. Ora, pela sua natureza, esta é elitista.

Uma boa Universidade é uma comunidade. A ausência de salas quer para professores que para alunos revela o que ali se passa: os docentes chegam, dão as aulas e desaparecem. Eis tudo. Ora, longe de ser uma corrida durante a qual os concorrentes procuram chegar em primeiro lugar, uma Universidade é o local onde tem lugar uma conversa. Sim, uma conversa, ou seja, um debate. Eis o que não existe. Olho a Universidade como o fazia Almeida Garrett quando falava dos frades, em Viagens na Minha Terra. Tenho saudades, não do que foi, mas do que poderia ter sido. Quando a critico, não é baseada em sentimentos nostálgicos, mas em nome daquilo que, em 1974, imaginei ser possível.
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«Expresso» de 5 Mar 11

sábado, 5 de março de 2011

O ovo de Colombo

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Por Antunes Ferreira

É DO CONHECIMENTO geral que as coisas vão de mal a pior por estas nossas bandas. Tudo o que é gente e/ou instituição que se preze vem vaticinando o futuro mais negro para Portugal. Dos mimos das agências de rating até aos solavancos que continuam sobre os juros da dívida soberana lusa, a questão já é apenas saber-se quando o FMI ou o Fundo de Estabilização Europeu põem aqui a bota.

Bem se esforçam Sócrates e Teixeira dos Santos por tentar passar a mensagem que se resume facilmente: não precisamos de «ajuda» externa para nada. Safamo-nos sozinhos. O paternal ditador de Santa Comba Dão falava no «orgulhosamente sós». Tratava-se do problema colonial, ou ultramarino, para o regime. Sem pretender mais do que recordar a afirmação calina, não faço comparações espúrias.

Andamos numa roda-viva em busca de um iluminado que ponha em pé o ovo mágico que resolveria o imbróglio. Mas, o Mestre Cristóvão já se finou há tempo suficiente para inviabilizar a procura e muito menos a solução. Bom seria se conseguíssemos atingir o objectivo; porém, nem a Senhora Merkel consegue tal milagre ovíparo. É muito chato, mas é.

Este assunto, traz-me à memória uma estória muito curiosa que aconteceu na Bolívia. Essa agora?, perguntar-me-ão. Eu conto-a para os que ainda me conseguem seguir, corajosa e denodadamente. Nos princípios do século passado tinha sido fundado em La Paz «El Diario». O seu primeiro director e proprietário foi um nome grande do jornalismo boliviano: Don Jose Carrasco Torrico.

Homem ocupadíssimo, como se compreende, por vezes as inúmeras solicitações que tinha impediam-no de estar tão presente no periódico tanto quanto ele desejava. Mas, uma coisa havia que para ele era sagrada: o editorial quotidiano. Estivesse onde estivesse, o escrito chegava pontualmente à tipografia. Nem um terramoto abalaria essa determinação.

O 12 de Outubro de 1492 foi a data do descobrimento da América; por isso se tornou no Dia da Raça. A figura de Cristóvão Colombo, autor confesso da ocorrência, foi por inúmeras vezes citada na Imprensa e sempre associada ao famoso episódio do ovo em pé.

Num desses dias, Don Jose Carrasco, episodicamente fora do jornal, enviou por mensageiro o seu texto intitulado precisamente El huevo de Colón. O linotipista de serviço iniciou de imediato a composição, mas logo no título lhe surgiu uma dúvida. Huevo, na gíria da fala castelhana menos educada tem ou outro significado.

O bom homem pensou que el señor Director nunca utilizara, nem utilizaria tal calão. E dada a ausência do editorialista, o compositor permitiu-se a correcção que entendeu absolutamente necessária. No dia seguinte, «El Diario» publicava o editorial intitulado El testículo de Colón. Isto porque o termo lhe pareceu mais correcto e menos indelicado. Imaginam-se as reacções e as gargalhadas do público, a actuação de Don Carrasco e as consequências para o zeloso tipógrafo.

Neste nosso pobre País, a estória parece-me ser adequada, ainda que com uma ligeira adaptação: é o que se diz meter o tomate na virilha. Para não utilizar terminologia mais vernácula. Isto é que vai uma crise.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O meu nome numa estrela…

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Por Nuno Crato

VLADIMIR NABOKOV, o genial escritor de que aqui falámos na semana passada, escreveu um poema em que descrevia o seu trabalho de entomólogo, mais precisamente, de estudioso de borboletas. Orgulhava-se de se ter tornado «padrinho de um insecto», depois de o ter descoberto e descrito pela primeira vez, e concluía: «não quero outra fama».

Um grupo de jovens da Escola Secundária de Alvide, Cascais, acaba de descobrir um asteróide, que recebeu a designação 2011 BG16 e que terá um nome português. Não querem outra fama!
A descoberta é motivo de orgulho para eles. E para todos nós. Constituem um dos grupos de 20 escolas portuguesas que participaram nas últimas campanhas da Colaboração Internacional para a Procura de Asteróides, um programa de ensino e de divulgação científica que tem atraído estudantes de todo o mundo. O programa, coordenado em Portugal pela professora Ana Costa e dinamizado pelo NUCLIO, Núcleo Interactivo de Astronomia, consiste no estudo de imagens obtidas por vários telescópios para detecção visual de asteróides e posterior determinação das suas órbitas.

São pequenos pontos luminosos que aparecem disfarçados entre miríades de outros pontos luminosos e que apenas se destacam como planetas menores, cometas, ou asteróides por se deslocarem lentamente, noite após noite, contra o fundo estelar. É assim que se percebeu que havia no céu astros diferentes das chamadas «estrelas fixas» e foi por isso que os Gregos chamaram planetas, isto é, passeantes, a Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno. Chamaram também planetas à Lua e ao Sol, pois também esses mudam de posição contra o fundo das estrelas. A designação demorou a mudar. Quando Camões falava do «Planeta que no céu primeiro/ Habita» (Lusíadas, V 24), referia-se à Lua; e quando falava do «lúcido Planeta/ Que as horas do dia vai distinguindo» (II 1), referia-se ao Sol. Um século depois, com a revolução astronómica, percebeu-se que a Lua era nosso satélite e que a Terra orbitava o Sol. O termo «planeta» mudou de acepção.

Úrano e Neptuno foram descobertos mais tarde, já com telescópios potentes. O mesmo se passou com os primeiros asteróides a serem conhecidos. Mas foi com a fotografia que se passou a poder pesquisar sistematicamente o céu à procura de astros mais pequenos ou mais distantes, demasiadamente pálidos para se acompanharem visualmente. Plutão foi descoberto em 1930 graças à persistência de um jovem norte-americano chamado Clyde Tombaugh, que passou anos à volta de fotografias do céu procurando verificar quais os pontos luminosos que mudavam de posição.

Com a fotografia digital e a internet abriram-se novas possibilidades. As fotografias tiradas por um telescópio no Chile podem ser vistas por estudantes em Tóquio e as imagens obtidas na Austrália podem ser esquadrinhadas por estudantes em Cascais. São olhos vivazes de jovens ocupados nesta procura internacional.

É uma ajuda para a astronomia, por modesta que seja, e é, sobretudo, uma ajuda aos jovens. Participando num esforço científico internacional, aprendem. Alguns aprendem muito. Agora que tiveram sucesso na descoberta de um pequeno asteróide até à data desconhecido, Carlos Martins, Karan Manghnani, Rafaela Silva, Rúben Costa e Rui Pimenta estão muito contentes. Nós também.

Nota: esta é a minha última crónica “Passeio Aleatório”. Foram 351 passeios ao longo de dez anos, e terminam com uma boa notícia! Regresso em 5 de Março com “Números e Letras”. Até breve!
N.C.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 19 Fev 11

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Passatempo-relâmpago de 18-20 Fev 11 - Solução

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A CENA começa com a EMEL, na sexta-feira passada, a fazer algo nunca visto: reprimir o estacionamento selvagem na paragem da Carris da Av. João XXI, junto ao n.º 21. É o que a 1ª foto documenta.

Ora, o facto de "toda a gente" ali estacionar, desde sempre, sem ser incomodada, leva a que outros condutores vão chegando, parando ou estacionando, e tratando da sua vida - completamente alheios ao que se está a passar! - incluindo uma carrinha de transporte de valores (última foto).

Durante todo o tempo que ali estive (que, como se percebe, não foi pouco) mais ninguém foi incomodado: nem bloqueado, nem multado, nem sequer advertido.
Como já aqui se disse, essa arbitrariedade na actuação dos fiscais (que actuam ou não, a seu bel-prazer) é uma das principais causas do descrédito da empresa junto dos lisboetas.
E repare-se que, ao estacionar ali, estorvou ainda mais do que o carrinho que puniu...
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Resumindo e concluindo: a resposta certa (carro "C") foi dada por João Rodrigues, que tem agora 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com, indicando morada para envio do prémio, que deverá escolher entre os seguintes:

«Prisioneiro do Círculo» (de Ricardo Gontijo), porque seria bom que António Costa dedicasse, a estes problemas, uma ínfima parte do que dedica à «Quadratura do Círculo», na SIC-N.
«O Ministro» (de Uanhenga Xitu), porque seria bom que Rui Pereira, MAI, mandasse a DT da PSP tratar - também - destes assuntos, até porque a EMEL só actua algumas horas por dia (e nem mesmo todos os dias).
«Vontade de ser Ministro» (de Fernando Luso Soares), pelas mesmas razões, acrescidas do facto de ele dar barraca atrás de barraca - para já não o referir o facto de ter abandonado o cargo de juiz do Tribunal Constitucional para ser ministro!
«Difícil é Educá-los» (de David Justino) e «Autoridade» (de Miguel Morgado), por motivos óbvios.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O crime da flatulência

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Por Antunes Ferreira

PUBLICOU O SOL que “É reconfortante saber que pelo menos um país no Mundo tem as suas prioridades bem definidas. Na nação africana do Malawi, está a ser votada uma lei que tem como objectivo «moldar cidadãos responsáveis e disciplinados», tornando para isso a flatulência pública ilegal. Por vontade do Executivo, episódios desses em público deixaram de ser apenas um acto rude e de má educação para passarem a ser crime. Finalmente, existe um governo que não teme fazer frente a um crimes mais antigos que a humanidade comete impunemente”.

De acordo com órgãos de comunicação internacionais, a lei terá sido discutida na quarta-feira no Parlamento do país, mas até então ainda não havia notícias sobre se a proibição foi ou não adiante. Nestes temas de gritante actualidade não se compreende que não se esteja “em cima do acontecimento”. Não há desculpas para tal procedimento.

Há que ter a noção da importância dos assuntos no contexto globalizado em que vivemos, e que começou com a publicação da “Aldeia Global” pelo Sr. Marshall McLuhan. Há que hierarquizá-los e, assim, há que os escolher cuidadosamente. Sem qualquer rebuço a criminalização da flatulência em público no Malawi está no grupo da frente.

Andamos nós (e muitos outros) ouvindo e seguindo, com mais ou menos atenção, questões menores, como o fado corrido “Entra não entra”, interpretado pelo Governo Português, acompanhado à guitarra pelo Fundo Monetário Internacional e à viola pelo Fundo de Estabilização Europeu – e descuramos a flatulência em público.

Surge o Senhor Cardeal Patriarca a comunicar que vai apresentar a sua resignação a Roma, invocando ter acabado o seu prazo de validade e nós ficamos numa expectativa tensa. Aceitará o Santo Padre o pedido do Senhor Dom José Policarpo, ou rejeitá-lo-á? Outra dúvida atroz aqui por casa. Ainda que emérito eclesiástico nos tenha informado que nunca nos abandonará interneticamente, os pontos de interrogação acentuam-se. Quanto à flatulência em público, pelos vistos, estamo-nos borrifando sobre a sua possível caracterização criminal.

O Malawi é um exemplo mundial. O seu Parlamento – como todas as Assembleias em regimes democráticos – pode já ter dado o passo decisivo – e nós, moita, carrasco. Não procuramos estar informados, não nos preocupamos com a formação, ignoramos as novas oportunidades. Somos uns distraídos ou persistimos em dormir na forma?

Conta-se que o nosso Elmano Sadino assistia a uma sessão artístico-cultural, quando uma Senhora flatulenciou, motivando que os assistentes a interrogassem, ainda que de boca calada, mas com os olhares críticos acerados. Em surdina, a dama pediu ao poeta que a salvasse da humilhação.

E o Manuel Maria de Barbosa l’Hedois du Bocage levantou-se e disse claramente: “Minhas Senhoras e meus Senhores, o traque que esta Senhora deu, não foi ela, fui eu”. Olha se a cena tivesse decorrido no Malawi, depois da lei aprovada e promulgada por sua Excelência o Senhor Presidente Bungu wa Mutharika, depois de aprovada na Assembleia Nacional de Lilongwe. Pena maior, quiçá.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

«Os Exemplares» - Passatempo de 16-17 Fev 11 - Solução

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Cena habitual à porta da Assembleia Municipal de Lisboa.
Carro da Polícia Municipal 'devidamente' estacionado.
Idem, carrinha da mesma polícia
15 Fev 11 - fim da tarde
Idem (carros de vereadores? de deputados municipais?)
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NOTA: no passatempo que usou, como pretexto, a foto de baixo, acrescentou-se (recorrendo ao Paint do Windows) a placa que lá não existe mas podia (e devia estar) - um texto do género «Excepto serviço da CML (ou da AML)» resolveria o problema de uma vez por todas.
Mas esta gente julga-se acima de lei - e, pelos vistos, com toda a razão!!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Passatempo «Calçada Portuguesa» - Solução

Há cada coincidência! Ia eu a passar no Rossio, ao fim da tarde, quando vejo parar uma carrinha da PT (mesmo ao lado do local que eu havia referido horas antes), e saírem de lá dois funcionários, com ferramentas e um papel na mão...
Dirigiram-se de imediato às tampas trocadas, e corrigiram a situação em menos de meio minuto.

Isso sucedeu às 19h15m. Assim, entre o meu aviso por mail (às 13h55m) e a correcção decorreram 3h 20m.
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Actualização: O leitor "Carluz", que foi quem mais se aproximou deste valor, tem agora 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com, indicando morada para que lhe seja enviado o prémio.

As borboletas de Nabokov

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Por Nuno Crato

NOS ANOS 1940, um homem pouco conhecido pelos seus estudos de história natural analisou com cuidado um tipo de borboletas conhecidas como «Polyommatus blues». Trata-se de um grupo de espécies que se encontram por toda a América do norte e que se pensava estarem estreitamente relacionadas. No entanto, esse homem descobriu estarem ligadas apenas através de ascendentes comuns de há vários milhões de anos. Classificando as borboletas pelos seus órgãos genitais, o que implicou uma recolha de muitos especímenes e uma paciência infinita, o investigador concluiu que seria provável que tivessem vindo de Ásia, onde se encontravam os seus progenitores longínquos, passando através do estreito de Bering em cinco vagas sucessivas. Só assim conseguia explicar a diversidade encontrada.

Na altura, não se conhecia a estrutura do DNA e os raciocínios baseavam-se na morfologia das espécies. Na semana passada, contudo, um grupo de investigadores de Harvard, de Barcelona e de várias universidades norte-americanas publicou nos «Proceedings of the Royal Society» de Londres um artigo que relata um estudo do DNA dessas borboletas e conclui a favor dessa teoria migratória (doi:10.1098/rspb.2010.221). Como verificaram os autores do artigo, muitas espécies que existem no Novo Mundo estão geneticamente mais relacionadas com as que se encontram na Ásia do que entre si, de tal forma que se conseguem detectar cinco grupos nas Américas, relacionados com outros tantos grupos asiáticos, o que sustenta a hipótese das cinco migrações. As divergências genéticas reforçam também a hipótese de as migrações se terem realizado há 10 milhões de anos, altura em que havia uma ponte terrestre entre a Ásia e a América do Norte no que é hoje o estreito de Bering.

Tudo isto são grandes notícias para os entomólogos, mas são também notícias interessantes para os amantes da boa literatura. É que o investigador em causa recolheu as borboletas que lhe permitiram fazer todo o estudo enquanto passeava pelo oeste norte-americano escrevendo os seus romances. O homem chamava-se Vladimir Nabokov. É o autor de «Lolita» e de outras grandes obras da literatura do século XX.

Nabokov nasceu em São Petersburgo em 1899 e abandonou a sua terra natal em 1919. Estudou línguas eslavas e românicas em Cambridge, no Reino Unido, e juntou-se depois à família em Berlim. Com a subida dos nazis ao poder refugiou-se em França e depois nos Estados Unidos, onde chegou em 1940. Trabalhou no Museu Americano de História Natural, em Nova Iorque. Deslocou-se depois para Massachusetts, ensinou em Wellesley e em Cornell e trabalhou no Museu de Zoologia Comparada de Harvard. Falava e escrevia fluentemente em russo e em inglês e, o que é extremamente raro, tanto produziu boa literatura num idioma como no outro.

Em 1953, enquanto passeava pela costa oeste coleccionando borboletas, escreveu «Lolita», o romance que lhe deu fama internacional e que lhe permitiu passar a viver apenas da escrita. Deslocou-se para a Suíça, onde veio a falecer em 1977.

No seu tempo, Nabokov era considerado um simples coleccionador de borboletas, um homem com persistência e capacidade de observação, mas sem capacidade para fazer avançar a ciência. No ano passado, contudo, veio-se a descobrir que o que ele tinha descrito como uma nova espécie (Karner Blues) e que na altura tinha sido considerado um erro de classificação era de facto uma espécie distinta. Agora, a análise genética vem corroborar a sua especulação sobre as migrações de borboletas. Seria um feito para um cientista profissional. É um feito espectacular para um cientista amador.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 12 Fev 11 (adaptado)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

O algodão não engana

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Por João Duque

POR QUE RAZÃO anda o Banco de Portugal a dar conselhos onde não deveria ser chamado? Afinal os bancos são ou não privados?

Nos dias de hoje a dúvida que ronda os conselhos de administração é a seguinte: vamos, ou não, propor à assembleia-geral o pagamento de dividendos aos acionistas?

À medida que são apresentadas contas públicas, é cada vez maior o número de empresas portuguesas cotadas que anunciam que não vão "abrir os cordões à bolsa" para pagar dividendos.

A questão é antiga e sempre foi e será discutida não só pelos executivos, mas também pelos académicos.

Se os impostos forem exatamente iguais para qualquer tipo de remuneração (distribuição de resultados ou mais-valias) do ponto de vista teórico será exatamente igual para os acionistas receber ou não receber dividendos. Quem quer liquidez que se desfaça de uma parte das suas ações. Quem não quer que fique com elas. Se receber dinheiro direto ou indireto é manter intacta a riqueza do acionista, é então indiferente pagar ou não pagar dividendos.

E até a ideia de entregar ações a acionistas em lugar de dividendos em dinheiro é indiferente porque no dia em que os acionistas receberem as novas ações o valor das 'velhas' cai na exata medida do valor das 'novas' distribuídas, e a riqueza do acionista fica exatamente igual.

E pode suceder que pagar dividendos seja prejudicial para os acionistas se o mecanismo fiscal penalizar mais o pagamento às mais-valias.

Ora quando a fiscalidade é neutra, então há outras forças que influenciam a decisão, e a mais importante, como sempre, é a psicológica, ou não fosse a economia uma ciência social...

Se uma empresa não distribui lucros, fica mais forte do ponto de vista do equilíbrio financeiro, com mais capital próprio acionista a suportar as dívidas contraídas, fica com mais dinheiro disponível para aplicar na sua atividade e por isso o custo do dinheiro tenderia a baixar porque estaríamos perante uma empresa mais sólida.

Mas se não paga dividendos, o mercado poderá ler isso como uma preocupante fraqueza de tesouraria, um aumento dos capitais próprios que são os mais caros para remunerar, e mais dinheiro nas mãos da gestão que pode ser menos cuidada na defesa do interesse do acionista nas suas aplicações... E aqui o algodão não engana.

Qual das duas teses vai vingar na atual situação de Portugal? Depende. Na maioria dos casos o mercado vai ler caso a caso. Mas na banca vai ler sectorialmente. Aqui todos sabemos que a banca portuguesa não consegue a liquidez que desejava e necessita de reforçar os capitais próprios por exigências crescentes da regulação bancária internacional. Se não fosse o Banco Central Europeu a usar um mecanismo de financiamento de curtíssimo prazo para sustentar a banca (e o Estado português) no médio prazo (sim, porque já lá vai mais de um ano nesta marmelada de financiamento europeu), a atividade económica em Portugal já tinha sido pulverizada.

A decisão de distribuição de dividendos cabe aos acionistas e deve partir da iniciativa da gestão. Por isso não se compreende por que razão anda o Banco de Portugal a dar conselhos onde não deveria ser chamado. Afinal os bancos são ou não empresas privadas?

«Expresso» de 21 Jan 11

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

As teleconfissões

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Por Antunes Ferreira

O BLOGUE dn.notícias.pt do Funchal publicou na sua edição de quinta-feira um curioso comentário do jornalista João Filipe Pestana. O interesse que tem, na minha modesta opinião, leva-me a transcrevê-lo com os agradecimentos devidos ao autor e ao jornal mais do que centenário da Madeira.

O teme é quente. Como poderão ler de seguida é o caso das confissões telefonadas. Estou já a descortinar os sorrisos entre o condescendente e o lamento, bem a ouvir os comentários daqueles que ainda me conseguem ler. “Pobrezinho. O homem ensandeceu, pifou, está nas mãos dos psiquiatras. Confissões telefonadas é o que não falta, a toda a hora, minuto e segundo… Segredos, amores, dinheiros, compadrios, cuidado com as escutas. Era tão bom rapaz e, afinal…”

Alto lá; compreendo a perplexidade de leitores, mas não estou completamente passado. Refiro-me às confissões católicas, obviamente nos confessionários eclesiásticos, à atenção do padre confessor que é o fiel depositário das penitências a atribuir ao pecador confesso. Penas sem direito a recurso, aliás. Creio que me expliquei. Vamos, portanto, à transcrição.

«Confession: A Roman Catholic App'. Memorize o nome desta aplicação para o iPhone. Mas, já agora, é católico(a)? Então, esqueça este nome. E rápido. É isto que exige o Vaticano a todos os fiéis que têm um iPhone, proibindo-os de descarregarem este 'software' criado em parceria com a Igreja Católica dos EUA com a intenção de ajudar pessoas a 'recuperar' a fé, ou seja, permitindo uma espécie de confissão virtual.
Tal como a FIFA, sempre avessa às novas tecnologias quando não lhe convém, o Vaticano disse, por intermédio de Frederico Lombardi, que 'Confession: A Roman Catholic' "não serve como substituto para a absolvição dos pecados por um sacerdote, como há séculos é feito".
Curiosamente, lá foi reconhecendo, no passado, que era comum que os católicos se preparassem para a confissão escrevendo os pecados e os pensamentos em papel e que é natural, na era digital, que eles sejam substituídos por recursos de informática, como esta aplicação.
Será que a Igreja teme um esvaziamento ainda maior dos templos ou será que dá jeito continuar a saber os pecados da aldeia?
A título de curiosidade, esta aplicação plena de fé digital - e que é paga - permite ao utilizador fazer um exame de consciência tendo em conta factores como idade, sexo e estado civil. E pode fazê-lo sem se ajoelhar...
Aliás, o iPhone e o iPad estão cada vez mais carregadinhos de aplicações para fiéis, basta ter uns euros ou dólares para investir. É que isto de ter fé não é para gente pobre... de espírito».

Feito o registo, pouco me resta acrescentar face à qualidade do escrito, que é excelente. Plenamente de acordo com o confrade João Filipe Pestana, só me permito aditar umas quantas linhas.

A primeira é um aviso e uma advertência: Pestana, cuidado, as excomunhões, por muito menos do que escreves, continuam em vigor, em perfeito estado de conservação e de aplicação; e um excomungado sabe-se lá por que terá de passar para ser readmitido no rebanho fidelíssimo. Missão muito difícil, portanto.

A segunda abarca o universo das Comunicações e, em especial, o das tele. Uma absolvição, após a remissão dos pecados, quaisquer que sejam eles, não pode, diz o Vaticano, ser dada por via telefónica, por mais sofisticada que ela seja. A confissão é um dos sete sacramentos, que tem de ser presencial, e dada por pessoas habilitadas e qualificadas para o fazer, ou seja, os curas. Mesmo apesar da cada vez maior falta de vocações sacerdotais.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Passatempo «Estamos bem entregues» - Solução

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Pergunta:
Qual o motivo próximo deste gigantesco engarrafamento na Av. de Roma?

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Resposta:
Dia 22 Out 10, sexta-feira, hora de ponta da manhã.
Com a preciosa colaboração de quem de direito, uma empresa coloca iluminações de Natal - aqui, em frente ao n.º 45 da Av. da Roma.
À medida que o trabalho vai sendo executado, as tralhas vão sendo movimentadas para Sul. Aqui, vê-se o 'circo' novamente armado, mas agora em frente ao n.º 43.
Dado que entre o n.º 45 e o 43 se perde uma faixa BUS (em proveito do estacionamento particular), o caos é garantido, tanto mais que, durante a manhã, este é, precisamente, o lado de maior volume de tráfego (Norte-Sul, entrada na cidade).
Melhor era impossível!
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E ainda:
Esta foto, tirada no dia anterior, mostra a situação inversa: do outro lado da avenida, junto ao n.º 34, também em hora de ponta - mas desta vez da tarde -, precisamente no sentido do maior volume de tráfego (Sul-Norte, saída da cidade).
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Actualização (11 Fev 11 - 12h10m): O passatempo foi ganho por Duarte, que tem agora 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada para envio do livro «O Preço da Incompetência».
Se preferir, poderá escolher outro, dos indicados na lista que se pode ver [AQUI].