terça-feira, 1 de novembro de 2011

Entrevista de Nuno Crato ao «Público» em 31 de Outubro 2011

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Por Clara Viana, João d"Espiney e Miguel Gaspar

No próximo ano lectivo chega ao ensino secundário o primeiro grupo de alunos abrangido pela escolaridade obrigatória até aos 18 anos. Num contexto de contenção de custos vai ser possível cumprir este objectivo?

Está tudo em aberto. Estamos a estudar como será possível prolongar a escolaridade obrigatória com o que isso significa em número de turmas, de alunos, de professores. Não queremos que este prolongamento seja, pura e simplesmente, a continuação do ensino tal como existe hoje. Precisa de ser repensado em termos de oferta profissional. Estamos a ver quais são as possibilidades de diversificar a oferta também para que alguns alunos possam iniciar uma vida profissional ao mesmo tempo que continuam na escola.

Os cortes propostos para a Educação são mais do que o triplo do previsto no acordo com a troika. Porque é que foram mais longe?

No memorando há um tecto que é estabelecido a partir da redução do défice e da dívida. Além deste tecto estão identificadas algumas áreas em que devem ser tomadas medidas de racionalização. Mas não está, de forma alguma, explícito ou implícito que, tomadas essas medidas, tudo está feito. Estas medidas são um subconjunto daquilo que é necessário fazer. São o que foi possível identificar na altura, pelo Governo, como sendo obrigatório fazer para atingir o objectivo geral.

A Educação não deveria ser considerada um sector estratégico e de alguma forma ser poupada a esse tipo de cortes?

Os sacrifícios têm de ser repartidos por todos. É verdade que a educação é um sector estratégico, mas também a saúde ou a segurança pública. Quase metade (46,7 por cento) do pessoal da administração central está no Ministério da Educação. É um valor extraordinário. Isso significa que as reduções têm de ser, em grande parte, em pessoal e que têm de se reflectir na educação. Não há nenhum menosprezo pela educação.

Qual é a ordem de grandeza da redução da dotação do ministério em 2012? É de 400, 600 ou mais de 800 milhões de euros?

Depende do quadro que se leia. Estamos a falar de 1500 milhões de euros. Temos três vectores. 644 milhões que derivam dos cortes dos subsídios de férias e de Natal. Depois temos 268 milhões que são aquilo que se pode chamar uma redução prudencial das receitas consignadas. Houve em 2011 uma sobrestimação da capacidade de obter fundos comunitários que nós agora não fazemos. E depois há 600 milhões de medidas de racionalização, das quais 150 milhões para o superior e 450 para o básico e secundário.

Uma das medidas previstas é a reorganização e racionalização dos currículos. Quais são os princípios que vão presidir a essa reorganização?

A lógica geral é independente desta lógica monetária. Defendo, independentemente de todos estes cortes, que é necessário reduzir o número de disciplinas no ensino básico, que é necessário concentrar nas disciplinas essenciais, que é necessário eliminar a dispersão na oferta curricular, que é necessário reforçar o Português e a Matemática, que é necessário dar mais atenção à História, à Geografia, às Ciências, ao Inglês. O princípio da reorganização é este: como é que vamos conseguir que os jovens saibam mais nestas questões centrais?

Mas esta reorganização também é apresentada como uma medida de poupança.

Também é uma medida de poupança. Por exemplo, a eliminação de Área de Projecto no 2.º e 3.º ciclo permite uma poupança de 50 milhões.

Em professores?

Em deslocamento de professores para outras áreas. São números brutais quando multiplicados por cinco mil escolas, 140 mil professores. É altura de se falar verdade e começar a ver que tudo isto tem um efeito brutal sobre o contribuinte. Num momento que estamos a tentar racionalizar tantas coisas, temos também de pensar no ensino o que é essencial. Mas claro que não estão em causa os lugares dos professores dos quadros. Não estamos a pôr nada disso em causa. Mas temos de tomar uma série de medidas para que apenas sejam contratados, para além dos professores dos quadros, aqueles que sejam estritamente necessários [serão cerca de 28 mil os professores que não estão nos quadros].

Está a dizer que temos professores a mais?

É preciso dizer isto com clareza: não estamos em época de contratar mais professores do que o estritamente necessário. Isto significa que vamos ter uma grande contenção na contratação de professores.

O número de disciplinas vai ser reduzido?

Existem duas medidas principais que estão em estudo neste momento. Uma diz respeito à disciplina de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) no 9.º ano de escolaridade. Nesta idade, a maioria dos jovens já domina os computadores perfeitamente e é questionável que seja necessário ter uma disciplina de TIC no 9.º ano.

A outra tem a ver com o chamado par pedagógico em Educação Visual e Tecnológica (EVT). Percebo que seja bom ter dois professores na sala de aula, mas não estamos em época de o fazer. Estamos em época de pensar se não se deverá separar curricularmente a Educação Visual e a Educação Tecnológica e os professores alternarem a docência.

O actual ministro Paulo Portas foi um dos que mais se insurgiram contra o fim do par pedagógico em EVT quando isso foi proposto pela sua antecessora.

Não me compete estar a defender ninguém, mas nós não estamos a pensar nos termos anteriores. Porque nos termos anteriores havia um currículo, um programa, que incluía o par pedagógico. E havendo um programa que o incluía, não fazia sentido acabar com ele. Estamos a pensar é numa reformulação curricular que permita ter as duas disciplinas em separado.

Na sua opinião, qual é então o número de professores estritamente necessário?

É um bocado menos do que temos hoje. Não consigo quantificar. Apesar de todo o esforço que fizemos para racionalizar o recrutamento de professores, temos no sistema 1858 professores com horários zero. Era o número no final de Setembro. Isto é preocupante. Significa que há alguma insuficiência do sistema e não estamos em condições para poder ter estes 1858 professores sem horário.

Voltando ao corte dos 600 milhões de euros na despesa: falou de 50 milhões na Área de Projecto. Como é que chegamos aos 450 milhões no ensino básico e secundário?

Há uma série de medidas já identificadas de cerca de 100 milhões. Há uma série de medidas estudadas de outros 100 milhões. Há cerca de 150 milhões de fundos comunitários que estamos a tentar captar para o ensino profissional, fazendo a substituição de OE por estes fundos. E há 100 milhões de medidas que estamos a identificar.

Qual a poupança com a supressão de Estudo Acompanhado?

No 3.º ciclo é de cerca de 17 milhões. No 2.º ciclo, cerca de 15 milhões. Mas substituímos estas áreas [Área de Projecto e Estudo Acompanhado] pelo reforço de Português e Matemática, o que representa um acréscimo de despesa de 40 milhões. Foi obtida alguma poupança, mas sobretudo reforçaram-se as disciplinas fundamentais. O Estudo Acompanhado era dado por dois professores no 2. º ciclo. Uma turma de Matemática tem um professor. Uma hora de Estudo Acompanhado custava o dobro de uma hora de Matemática. Se utilizarmos de forma mais racional os professores do quadro, estamos a proteger o seu emprego e a evitar contratações suplementares.

Na proposta de OE defende-se a racionalização da rede escolar, aproveitando os recursos existentes. Isto significa que vão alargar os contratos de associação com escolas particulares?

Gostaríamos muito de ter um alargamento dos contratos de associação e de autonomia. Ao contrário de outras pessoas, não temos nada contra o ensino privado. Não vamos tentar suprir necessidades que já estão resolvidas, e bem, com o ensino privado. É uma função do Estado facultar o ensino a todos, mas isso também se pode fazer com os contratos de associação. Têm as mesmas obrigações das escolas públicas, acolher todos os alunos gratuitamente, e alguns têm resultados fantásticos.

Ao longo deste ano vamos avaliar os contratos de autonomia que foram feitos [com 22 escolas públicas] e estudar como esta pode ser prolongada e alargada. Um dos vectores fundamentais do programa do Governo, e daquilo que esta equipa quer fazer, é dar mais autonomia às escolas.

Outro factor fundamental é que os alunos saibam mais. Não é admissível um aluno chegar ao 9.º ano, ao fim da escolaridade obrigatória, e ter dificuldade em ler um jornal. Não podemos pactuar com esta situação.

No orçamento está inscrita uma poupança de 54 milhões com a rede escolar. Quantas escolas do 1.º ciclo vão ser encerradas?

Vamos tentar encerrar mais umas 300. Digo tentar, porque isto não se faz por decreto. É um processo em diálogo com as autarquias.

As autarquias também vão ser objecto de cortes. Algumas já alertaram que vão cortar, por exemplo, na área do transporte escolar. A oferta de serviços escolares não poderá ser afectada?

[suspiro com ar resignado] As autarquias estão com grandes dificuldades, sabemos disso. Herdámos uma dívida para as autarquias que estamos a tentar identificar e resolver. Vai ser um processo demorado. Nas actividades extracurriculares, que são da responsabilidade das autarquias, temos de ver também o que é essencial e o que é acessório. Se é só para manter as crianças nas escolas para ajudar os pais enquanto estão no trabalho, é uma coisa. Mas se é para lhes dar alguma componente educacional, então temos que pensar o que podemos fazer melhor.

E vai continuar o processo de fusão de agrupamentos?

O processo foi parado porque estava a ser conduzido de forma um pouco desconexa. É um processo que faz sentido quando permite uma melhor coordenação entre escolas. Vai continuar, mas com calma.
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A suspensão dos prémios de mérito dos alunos do secundário não está em contradição com o que sempre defendeu?

Não. Isso foi muito empolado e houve uma grande falha de comunicação. Nós não suspendemos os prémios de mérito. Queremos mesmo generalizá-los. O que achámos é que não fazia sentido retribuir o mérito com dinheiro. Não é a mensagem certa. As mensagens certas são duas. Primeira: és um bom aluno, mereces ser reconhecido como tal com um diploma. É o símbolo do orgulho que a sociedade tem em ti. Segunda: quem recebe o dinheiro deve ser apoiado mas face a programas específicos. Queremos apoiar quem precisa de dinheiro para prosseguir os seus estudos. As bolsas de acção social do ensino superior são a expressão disso.

Como viu a sociedade civil a mobilizar-se para pagar esses prémios?

Bem.

Mas era uma contestação à posição do ministério.

Houve casos em que isso aconteceu, mas a contestação em democracia é normal. No entanto, houve quem entregasse os prémios e dissesse que não era uma contestação ao ministério, como a Ordem dos Engenheiros.

Essa falha de comunicação que mencionou tem a ver com a máquina do ministério?

É uma máquina tão grande...

O que vai acontecer ao programa Novas Oportunidades?

A Agência Nacional de Qualificação, que agora vai mudar de nome e ser reorientada para a formação profissional de jovens, teve coisas positivas e negativas. É negativo estar a distribuir diplomas como que a vulgarizar algo que deve estar associado claramente à competência. Claro que é importante reconhecer as capacidades dos adultos.

Como é que o ministro Nuno Crato convive com o crítico da Educação com o mesmo nome?

Convivo bem [risos]. Eu acho que há uma coerência. O que há de novo em mim é uma consciência das dificuldades do país que eu não tinha, e que o país não tinha, há um ano. A preocupação com a qualidade do ensino, com o conhecimento, com o mérito, com a avaliação, mais exames e mais rigorosos, tudo isso é exactamente a mesma coisa.

Não teve um choque com a realidade que tenha mudado a sua perspectiva ao perceber que nem sempre se consegue fazer tudo aquilo que queremos...

Isso de certeza. Nem sempre conseguimos.

Não se vê como um mero executante dos cortes, como já se diz em alguns blogues de docentes?

Eu tenho que fazer as duas coisas. Tenho procurado fazer melhor com menos. É difícil mas vamos conseguir.

Está arrependido de ter aceite o desafio?

[risos] Não, não estou. Mas há de facto um choque com a realidade e com a tarefa imensa que tenho pela frente e que, como dizem os americanos, eu recebo com humildade.

Quer ficar até ao fim da legislatura?

Claro. Quando assumimos um compromisso destes é para toda a legislatura. Não fazia sentido assumi-lo de outra maneira.

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Já sabe o que vai fazer à Parque Escolar?

A Parque Escolar está a ser auditada pelo Tribunal de Contas e pela Inspecção-Geral de Finanças. O problema é o seguinte: deixada em roda livre, iria conduzir a um endividamento de 2500 a 3000 milhões de euros, que é uma coisa brutal. O que fizemos? Dissemos à Parque Escolar para suspender todos os concursos e para reavaliar os custos nas obras que estão em curso em 72 escolas. Seria completamente disparatado pará-las, mas é preciso procurar soluções mais económicas e eliminar partes não-essenciais da construção. Por exemplo, se estavam previstos dois auditórios, ver se é possível construir só um.

E prolongar as obras mais tempo, de forma a não concentrar todos os custos neste ano.

Faz ou não sentido haver uma empresa como a Parque Escolar?

Não vejo mal nenhum no modelo da empresa. O que vejo mal é partir-se do princípio de que o dinheiro é infinito e que se fazem obras luxuosas sem atender às limitações financeiras do país. Mas, neste momento, não há nenhuma verba para a Parque Escolar no orçamento de 2012. Existem receitas próprias de cerca de 95 milhões de euros: de rendas, que são um pagamento que se tem de fazer, e de outras receitas da empresa, O investimento do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional é de 333 milhões e 80 milhões de endividamento ao Banco Europeu de Investimento. Tudo isto faz 508 milhões. Mas a dotação do Orçamento do Estado é zero.

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Qual é o valor da redução das transferências do Orçamento do Estado para as universidades e politécnicos?

A redução anda à volta de 100 milhões (8,5%). O montante das transferências será de cerca de 861 milhões. Para as universidades, incluindo as três que são fundações, 596,1 milhões; politécnicos 240,1 milhões e para as escolas superiores não-integradas 24,3.

Os reitores e presidentes dos politécnicos estão muito preocupados com a dimensão dos cortes. O presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, António Rendas, afirma que Portugal vai perder competitividade com o resto da Europa. O reitor da Universidade de Lisboa, Sampaio da Nóvoa, diz que o "corte brutal" vai pôr em causa o funcionamento e a autonomia das universidades. No politécnico, há escolas que já fecharam e outras estão a caminho...

Compreendo que os reitores defendam as suas universidades. É perfeitamente legítimo e normal. Mas o que estamos a pedir a todos é que participem neste esforço conjunto. E julgo que as universidades têm demonstrado grande capacidade de inovação, de resistência, de funcionar mais com menos recursos e de obter mais receitas próprias. É preciso alguma racionalização de recursos, a par do encerramento de algumas ofertas e de pólos, que possam revelar-se menos necessários.

Há universidade e politécnicos que têm ofertas que não são necessárias?

Há algumas ofertas e alguns pólos que podem ser racionalizados.

Vai tomar a iniciativa de promover essa racionalização?

Já falámos várias vezes com os reitores e continuaremos a fazê-lo e a acompanhar os seus esforços. Há a autonomia universitária mas queremos dialogar com os reitores para identificar esses casos e tentar ver como podemos ter uma política de afectação de recursos que melhore o essencial da oferta, mesmo que algumas coisas tenham de ser sacrificadas.

Defende a fusão de universidades?

É um processo interessante. Em Lisboa está a decorrer uma tentativa interessante [Universidade Técnica e Universidade Clássica] que é o um protótipo. Temos duas universidades que muito facilmente se fundem, porque têm ofertas diferentes. O que se está a passar em Lisboa insere-se num movimento geral de reforço da massa crítica nas universidades. Estamos a viver um processo de competição a nível mundial porque a oferta de ensino é vista também como capacidade de exportação. O ensino é um bem transaccionável.

Por isso é que o presidente do CRUP diz que Portugal pode perder competitividade a nível europeu...

Estou a falar da fusão de universidades. O movimento de agrupamento das universidades permite situá-las melhor nesta concorrência internacional e na procura dos grandes projectos internacionais. Para concorrer é necessário uma massa crítica que dê confiança e garantias aos parceiros internacionais e contratantes de que a universidade vai conseguir cumprir esse contrato. Mas ninguém defende cortes. Este é o orçamento possível e acarreta sacrifícios que tentamos minorar e repartir da melhor maneira possível.

O reitor de Lisboa diz que os cortes são de 25 por cento.

O corte líquido das transferências é de 8,5%. A esse corte podem-se somar outras parcelas. Mas há uma coisa importante que conseguimos e que corresponde às aspirações das universidades: na proposta de Orçamento do Estado conseguimos inserir a isenção das cativações sobre as receitas próprias. Isto é muito importante, porque existindo cativações nas receitas próprias há um menor incentivo à sua captação através de contratos de investigação, de projectos internacionais ou de consultoria. Há outro aspecto, quase semiótico, mas que é importante: quando a universidade tem uma certa dimensão, aparece mais bem situada nos rankings. O facto de termos poucas universidades de grande dimensão pode ser ultrapassado com estes movimentos.

Temos 15 universidades. Qual acha que deveria ser o número para um país como Portugal?

Quinze parece-me de mais. Mas não quero avançar um número.

O modelo de financiamento do ensino superior vai ser alterado?

Este ano fizemos o que era possível com o tempo que tínhamos. Foi olhar para a execução orçamental do ensino superior e distribuir o dinheiro pelas universidades de acordo com a mesma fórmula do ano passado. Seria completamente disparatado em um mês ou dois tentar repensar a fórmula de distribuição de dinheiro pelas universidades. Mas vamos ter de repensar isso tudo para o ano.

Com que objectivo?

Está tudo em aberto.

Que critérios é que poderão entrar?

Vamos pensar nisso.

Já começaram a pagar as bolsas de estudo?

Ainda não.

Tem ideia de quantos alunos perdem direito à bolsa com o novo regulamento?

Ainda não. O novo regulamento foi feito de forma a acomodar aproximadamente o mesmo número de alunos. E a acomodar as mesmas necessidades de uma forma mais justa. Não é um regulamento perfeito. Mas corrigimos algumas imperfeições.

Chegou a dizer que o valor da bolsa máxima se mantinha. Há quem diga que muitos alunos vão passar a receber 11 indexantes dos Apoios Sociais e não 12 como no anterior regulamento.

É natural que haja estudantes que passem a receber menos e outros que passem a receber mais. Não há um modelo perfeito. O valor mais alto de bolsa paga mantém-se o mesmo.

Já está concluída a investigação da Inspecção-Geral da Educação ao caso dos alunos de Medicina que entraram no ensino superior pela via do ensino recorrente?

A inspecção está a ser finalizada e os resultados serão conhecidos em breve, mas ficou claro que é preciso alterar as regras de acesso ao ensino superior. Estão a ser estudadas algumas mudanças, que entrarão em vigor progressivamente nos próximos anos.

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Há bolseiros da Fundação para a Ciência e Tecnologia que se queixam de atrasos no pagamento das bolsas de investigação. O número de bolsas vai diminuir, tendo em conta que o orçamento da FCT caiu para os níveis de 2006?

Não quero adiantar coisas concretas sobre isso antes do Orçamento do Estado ser aprovado. O que posso dizer é que vamos procurar sobretudo duas coisas: manter os compromissos que temos tanto em bolsas como em contratos, parcerias, racionalizando e renegociando alguns; e vamos procurar continuar a apoiar e reforçar o apoio à excelência. Estamos a privilegiar o apoio aos cientistas, aos centros com classificação internacional de excelência. São essas áreas que no fundo puxam pelas outras e que nos permitem competir internacionalmente. Estamos a procurar que a Ciência seja particularmente protegida e que o investimento na melhor ciência não seja prejudicado.

Os cortes não põem em causa esse objectivo?

Com menos recursos podemos proteger as coisas essenciais na Ciência. Estamos a fazer um grande esforço para a substituição de fundos nacionais por comunitários. Julgo que vamos ultrapassar este momento difícil e manter o nível de apoio à Ciência. É uma área que foi muito protegida nos últimos 20 anos e que teve um carinho especial de sucessivos Governos. É uma área em que se fizeram grandes progressos e progressos sustentados. Há outras áreas em que se fizeram progressos, mas não foram sustentados.

A Minha Solução para a Crise

Por Maria Filomena Mónica

AO RETIRAR-ME os subsídios de férias e de Natal – uma forma idiota, reconheço, de pagar os trabalhadores - o governo acaba de anunciar que vai cortar 25% do dinheiro que ganho anualmente. Isto não é justo. Trabalho desde os 19 anos e nunca patrão algum teve queixa de mim: fui intérprete no Ministério da Saúde, tirei o Curso de Filosofia como estudante-trabalhadora, fui bolseira da Fundação Gulbenkian, assistente na Universidade Nova e, em 1977, doutorei-me na Universidade de Oxford, numa área, a Sociologia, apenas escolhida porque o Prof. Oliveira Salazar a proibia, o que demonstra a pouca iluminação que habitava a sua alma e os extremos a que o temperamento me pode conduzir.

Com quem todavia gostaria de falar não era com o Velho mas com o Ex-Primeiro Ministro, com o Presidente da República, com o Primeiro-Ministro, com o Ministro das Finanças e com o Ministro da Educação. Ao primeiro, gostaria de lhe dizer que, após ter empurrado o país para o abismo, o mínimo que dele se esperaria era que não andasse a pavonear-se por restaurantes chiques de Paris, ao segundo de lhe lembrar que o Monstro é, em grande medida, obra sua. Aos três últimos, a mensagem pode ser dada em conjunto: despeçam os funcionários que nada fazem.

Durante anos, considerei isto difícil, por imaginar que seriam usados critérios partidários. Mesmo no mundo universitário, onde pensava que se deveria manter a chamada nomeação definitiva, por conferir maior liberdade de expressão, mudei de opinião. A contemplação do abismo aumentou, como se vê, a minha capacidade intelectual. O que o país precisa não é de economistas, que entendam de spreads, swaps e hedge funds, mas de alguém com imaginação sociológica. É aqui que entro.

Encontrei uma solução que gostaria de apresentar. Em vez de me cortarem um quarto do vencimento, bastaria despedir nove de entre os meus colegas que, ao longo dos anos, não escreveram dez linhas aproveitáveis. Já agora, talvez não fosse má ideia pôr na rua os docentes que não preparam aulas, os que faltam aos compromissos académicos, os que promovem os amigos e os que andam a «salvar» o mundo com propaganda que introduzem dentro da sala de aula.

Dir-me-á o Ministro das Finanças que o país se levantaria em revolta. Nada disso, garanto-lhe, sucederia. Porque há «justa causa». Bastaria pedir a estes «intelectuais» para exibirem uma prova do que, ao longo dos anos, fizeram com os milhares de euros que receberam do Estado. Se falo da Universidade é por ser o habitat que melhor conheço, mas tenho a certeza de que, por essas repartições e empresas públicas, existem casos piores.

Livre desta canga, o Ministério das Finanças poderia distribuir o dinheiro de forma mais justa. Vejamos o meu caso: com a verba dos nove colegas dispensados, eu passaria a receber uma remuneração idêntica à auferida pelos colegas suíços, num escalão da carreira universitária idêntico ao que ocupo, o que contribuiria para aumentar a minha alegria de viver.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Amanhã, vou comprar um iPad

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Por Maria Filomena Mónica


NUMA SEMANA em que toda a gente escreveu sobre Steve Jobs é difícil ser-se original, por isso nem tentarei, mas desejo louvar uma sua invenção menos referida, o iPod. Sem este aparelho, que permite ouvir música fora de casa, há muito que teria deixado de fazer as caminhadas que me salvaram a vida. Habituada ao meu walkman, quando este desapareceu do mercado, fiquei sem saber como amenizar o tédio dos meus forçados passeios. Finalmente, em Janeiro, comprei um iPod nano.

Mal abri a caixinha transparente, contendo um rectângulo com uma rodela, apercebi-me que, estética e tecnologicamente, estava a ingressar num mundo novo. Tudo – o grafismo, os fios, a cor – era diferente. Não me foi fácil configurar e menos sincronizar as óperas que lá meti – o Puccini andou, durante uns dias, misturado com o Bellini – mas, no final, acabei por conseguir meter as árias no devido lugar.

A minha dificuldade em lidar com este tipo de máquinas, para as quais os dedos são fundamentais, tem uma origem dupla: a primeira de natureza pessoal, a segunda institucional. Na minha família, era considerado de mau gosto tocarmo-nos. Após uma estadia prolongada fora de casa, a minha mãe podia condescender em fazer-nos uma festa no cabelo, mas não me recordo de ter recebido outros afagos. Daí resultou que lidar fisicamente com botões se tenha tornado numa tarefa complexa.
Até ao dia em que comprei um computador isso pouco me incomodou. Em adolescente, havia tirado um curso de dactilografia, pelo que o problema não era o teclado – embora o americano fosse diverso daquele que o Dr. Salazar inventara para consumo doméstico – mas a velocidade. Mal tocava no rato, uma invenção de Steve Jobs, aquele entrava em delírio. Depois de ter conseguir domesticar o bicho, o mundo informático surpreendeu-me com outras mudanças, entre as quais uma espécie de clítoris, colocada a meio do teclado.
O modo de produção capitalista ou lá o que é obrigou-me a comprar sucessivos computadores, todos PC´s, uma vez que, por razões financeiras, a Universidade optara por estas máquinas. Precisando de apoio técnico, convinha-me seguir o rebanho, mas, se exceptuar o que era essencial ao trabalho, pouco avancei. Nunca me adaptei, por exemplo, ao telemóvel, o que, tendo em conta o número de divórcios causados por este aparelhinho, talvez tenha sido positivo.

Seja como for, reconheço que, em matéria de hábitos, sou rotineira. Mais uma razão para admirar Steve Jobs, alguém que, um dia, declarou: «Muitas vezes as pessoas não sabem o que querem até que lhes mostramos». A frase recorda-me outra, de Henry Ford, o impulsionador do automóvel, que igualmente desprezava as sondagens: «Se tivesse interrogado as pessoas sobre o que desejavam, provavelmente ter-me-iam dito que desejavam uma carruagem com cavalos mais velozes». O mundo precisa de gente capaz de sonhar para além do que existe. É por isso que, mesmo sem perceber qual a sua utilidade, amanhã vou comprar um iPad.

«Expresso» de 15 Out 11

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A GUERRA DO FIM DO MUNDO,
de Mario Vargas Llosa (ed. Livraria Bertrand)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Há Mercedes e Mercedes...

Com a bênção de Sto. António (Costa), entre 4 e 6 camiões ocupam, há já vários dias, uma placa na Praça de Alvalade, em Lisboa

Embora alguns camiões sejam Mercedes, o único veículo dessa marca que foi multado é o que se vê em 1.º plano e na foto de baixo.
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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Entrevista de Nuno Crato à «Única» de 3 Set 11

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EM FEVEREIRO, quando nem sonhava ser ministro, Nuno Paulo de Sousa Arrobas Crato, 59 anos, disse que tinha vontade de fazer desaparecer o Ministério da Educação, para que se criasse “uma coisa muito mais simples”. Há dois meses que tutela a Educação e a Ciência do país. E, agora, apesar de querer mexer em todo o sistema, não quer fazer uma revolução.

Já comprou a bomba? Para implodir o Ministério da Educação.

(Risos) Ou seja, se já estamos a trabalhar para simplificar os procedimentos administrativos e criar maior autonomia às escolas, de forma a que o ministério deixe de ser uma central que decide sobre quase todos os aspetos da vida escolar e seja um organismo de referência e de ajustamento de processos? Sim, estamos a trabalhar para isso. Agora, é óbvio que chegámos no pior momento, quando a crise económica se está a manifestar de uma forma muito grave e as preocupações de contenção são muito grandes. A equipa do Ministério da Educação chegou numa altura em que o ano letivo está a arrancar, semipreparado, que é o pior. Os ajustamentos que podem ser feitos são muito poucos, e muitas coisas que estão a ser lançadas precisam de ser retificadas...

Teve grandes surpresas?

Sim. Diria que as primeiras semanas foram de surpresas todos os dias, de contactos com realidades novas.

Boas?

Em muitos aspetos não era diferente do que esperava. É uma máquina gigantesca, tem muitas responsabilidades, muitos funcionários, muitas direções-gerais, muitos organismos autónomos, muitas agências, muitos problemas...

Muitos pequenos poderes...

Tem muitos pequenos poderes, tem. É uma máquina em que qualquer alteração pequena tem repercussões. É difícil de mudar. Como num navio: uma pessoa vai num barquinho a remos e muda de rumo rapidamente, se é o “Titanic”... Se é um navio grande, o navio demora mais tempo a mudar.

A alegoria com o “Titanic” não deixa de ser interessante... É um exemplo?

Não, não é um exemplo.

Quando falou em surpresas, estava a falar de que tipo de coisas?

A primeira surpresa é chegar a um ministério que tem os últimos andares vazios. Estou a falar da ‘5 de Outubro’. Só tem a secretaria-geral e o gabinete do ministro... Aqui [Palácio das Laranjeiras], o gabinete era mais pequeno, mas também havia muitos lugares vazios... É a surpresa de chegar a uma casa e ter de montar a casa de novo.

E podem não ter acabado.

Podem, ainda há muitas coisas que se vão descobrindo, de certeza. Uma máquina que tem quase quatro mil funcionários, na parte da administração, e tem, fora, cerca de 140 mil professores e funcionários...

E porque é que um professor catedrático, que tem programas na televisão, escreve para jornais, percorre o país a dar conferências... Tem aquilo que se diz uma vida boa, quer ser ministro da Educação?

E ter uma vida má. [risos]

A conclusão é sua.

É evidente que a vida de ministro é uma vida de muitas mais preocupações do que a de um cidadão que procura intervir na vida pública. Há problemas imediatos a resolver, e grandes. É difícil.

O facto de ter andado a falar sobre educação dá-lhe essa responsabilidade de ter de aceitar?

É evidente que sim. Fui, durante muitos anos, muito crítico do sistema educativo, não me sentiria bem comigo próprio se não aceitasse esta responsabilidade, no momento em que ela me é pedida.

E quando é que começou esse interesse pela educação? Foi para Economia, fez o doutoramento em Matemática...

Tenho interesses variados, mas há muito anos que me interesso muito por educação. O primeiro livro de pedagogia que li foi um de Claparède [Édouard], um psicólogo e pedagogo famoso. Li-o, talvez, com uns 16 anos. Desde jovem que me interesso pelos aspetos pedagógicos.

Quando era estudante já tinha essa preocupação?

Tinha curiosidade pela pedagogia, como é que as pessoas aprendem, porque é que aprendem. Tinha ideias bastante românticas sobre a aprendizagem.

E hoje mantém essa ideia romântica sobre a aprendizagem?

Não, não, nem sobre a aprendizagem nem sobre muitas coisas.

Uma ideia romântica e revolucionária...

A ideia que eu tinha, muito comum na juventude, é que a aprendizagem deriva toda do interesse dos jovens, que estes só devem aprender aquilo que lhes interessa, que devem descobrir o caminho por si próprios. A ideia romântica (no sentido filosófico) típica da juventude.

Fez parte de organizações estudantis?

Fiz parte de muitas organizações associativas...

E estudou onde?

Estudei em vários sítios, essencialmente estive na Faculdade de Ciências e depois estive no ISEG... Antes estive no João de Deus, depois no Pedro Nunes, que foi uma grande escola e onde tive professores fantásticos, nomeadamente o professor Rómulo de Carvalho, que me marcou imenso: o gosto pela ciência, o sentido de organização, o gosto pela divulgação científica, pelo Português, pelo rigor da expressão.

Esteve no Movimento Associativo dos Estudantes do Ensino Secundário de Lisboa.
Fui dirigente do MAEESL, depois colaborei na criação da Associação da Faculdade de Ciências, estive envolvido no movimento estudantil, também em Economia... Eram tempos muito diferentes dos de hoje...

Que autocaracterização política faz?

Sou uma pessoa tolerante, com respeito pela liberdade e pela individualidade das pessoas. Talvez seja mais liberal do que qualquer outra coisa.

Qual é a marca que gostava que ficasse associada à sua passagem pelo Ministério?

Duas ou três coisas. Comecemos pelo ensino básico e secundário. Eu gostaria que, à saída deste Governo, houvesse muito maior autonomia das escolas e maior responsabilidade.
Isso passa por um professor em Bragança não ser nomeado pela 5 de Outubro?

Exatamente. Passa por as nomeações serem feitas de forma mais descentralizada.

Escola a escola?

São tudo modelos que temos de discutir. Vamos iniciar um grande debate nacional sobre como é que vamos criar o procedimento da autonomia das escolas. É a primeira coisa. Segunda: queremos um ensino que seja mais exigente.

Mais exigência significa mais exames, ou não necessariamente?

Em abstrato, não. Neste momento, significa mais exames ou mais provas de avaliação. São processos de aferição do sistema para dizer ao público em que estado estamos, e isso é fundamental. Quando temos objetivos claros na vida, trabalhamos melhor.

Regressando às marcas que gostava de deixar...

O ensino superior está a passar um processo de concertação de esforços de criação de massas críticas, com vista a ter uma concentração de qualidade que permita processos de doutoramento e o desenvolvimento da investigação. Julgo que esse processo vai ser acelerado ao longo dos próximos anos. E é importante manter o sistema dual, em que estejam mais claramente definidas quais as funções das universidades e dos politécnicos.

E para encerrar esse assunto?

A ciência. Temos que manter um esforço que foi feito, nas últimas décadas, por Portugal, e que foi um dos grandes sucessos do país. Chegámos a uma etapa de consolidação e de proteção, sobretudo da excelência.

Como é que se faz, dadas as contenções financeiras?

Mais uma vez, com avaliação e apoio aos melhores.

Está tranquilo quanto ao arranque do ano letivo?

Estou. Acho que vai começar com grande tranquilidade. Há sempre problemas, há questões que estão a ser discutidas e vamos discuti-las em paralelo.

Como é que têm corrido as negociações com os sindicatos sobre o modelo de avaliação dos professores?

Bastante bem. Acreditamos que seja possível chegar a acordo. Há várias propostas que fazem sentido e que foram já incorporadas na versão discutida esta semana.

Por exemplo?

A nossa proposta de avaliação é formativa e hierárquica. Faz todo o sentido que incida sobretudo sobre os professores em início e meio da carreira. Na nova proposta que está em cima da mesa, após as primeiras rondas negociais, os professores em topo de carreira terão também um processo de avaliação. Por se tratar de um modelo de avaliação hierárquico, optou-se por avançar com uma avaliação simplificada. Posso também adiantar que, nos casos em que haja avaliação externa, a proposta apresentada esta semana estabelece uma ponderação de 42% sobre a notação final. Ou seja, tem um peso significativo, embora não seja o único factor.

Por quem vai ser feita essa avaliação dos professores do topo da carreira?

Pela direção da escola e pelo conselho pedagógico.

É um modelo que vai evoluir?

É. Espero que daqui a quatro anos estejamos numa situação bastante diferente, com maior autonomia das escolas, mesmo na avaliação dos professores.

Que opinião é que tem do dirigente da Fenprof Mário Nogueira?

Conheço-o mal... Tive duas conversas com ele...

Vai lançar agora os exames do 6.º ano. Que planos é que há para os do 4.º?

Queremos chegar lá também, mas não há nenhum calendário previsto. Foi uma alteração mais fácil. Porquê o 6º e não o 4º, independentemente de ser mais fácil ou mais difícil? Porque reparámos que surgem grandes dificuldades nesta transição. Há muitos jovens que chegam ao fim do 1º ciclo e que dominam aquilo que deveriam dominar, mas que parece que depois entram no 3º ciclo tendo esquecido uma série de coisas e perdido uma série de rotinas, de miniprocessos e conhecimentos que já tinham adquirido no 4º ano de escolaridade. É um fenómeno internacional, não é só português.

Os exames são para manter só a Português e Matemática?

Gostaríamos de alargar.

E o que gostaríamos significa?

Que temos de estudar tudo isso.

Isso já dizia no seu livro “O ‘eduquês’em Discurso Direto”. É um pouco seguir aquilo que já tem pensado...

É. O essencial é que haja uma avaliação, no fim de cada ciclo, que seja rigorosa e clara, que aponte patamares de aprendizagem.

Este ano foi muitas vezes usada a expressão ‘desaire’ a propósito dos resultados dos exames nacionais. Acha que são imputáveis a quê ou a quem?

É todo o sistema de ensino, é um problema global. São jovens a quem não é pedido o esforço que podiam dar, porque os programas não são suficientemente exigentes, são anos em que os programas não são claros, em que se dispersam por muitas coisas. São problemas muito gerais, para além dos sociais, que sabemos que existem em muitas regiões do país. Não podemos nem queremos facilitar artificialmente os exames, de forma a que tenham melhores notas. Queremos mexer no sistema todo sem fazer uma revolução. Com medidas transitórias, bem pensadas e avaliadas à medida que vão sendo feitas. Vai demorar algum tempo.

E implica também uma reorganização do que é neste momento o tempo de um professor, tão ocupado com burocracias...

Queremos reduzir imenso a burocracia nas escolas. Mesmo no processo de avaliação que propomos, estamos a tentar que seja o menos burocrático possível.

Mas a burocracia não é só isso.

Não, não é só isso. Ela existe, em grande parte, porque existe esse sistema centralizado e quando o sistema está centralizado...

As funções administrativas...

Crescem, porque é preciso dar indicações em relação a tudo. Não sei se conhecem aquela anedota dos parafusos. Segue uma diretiva a dizer que é preciso fazer seis toneladas de parafusos e a fábrica faz um parafuso de seis toneladas. No ano seguinte segue a diretiva de que é preciso fazer seis toneladas de parafusos, mas cada parafuso não pode ser maior do que um determinado tamanho e então os parafusos são tão pequenos que ninguém os vê... Quando estamos a dirigir à distância uma organização, precisamos de burocracia. Nós queremos dar mais incentivos às escolas e aos professores para que eles próprios se organizem da melhor forma, dadas as condições locais, para atingir os objetivos gerais. A redução da burocracia é isso.

A descentralização passa também por as moradas deixarem de fazer sentido na colocação dos alunos?

Passa por haver muito maior liberdade de escolha, não só dentro da escola pública como escolha entre escola pública e privada.

Passa pela possibilidade de haver cheque-ensino?

O cheque é um símbolo. Passa por haver maiores possibilidades de as famílias escolherem a sua escola. Tudo isto são coisas para as quais existem ideias gerais que nós durante este ano vamos concretizar.

Há algum modelo de ensino com que se identifique mais e que gostasse de importar?

Julgo que os anglo-saxónicos são bons. Existe talvez demasiada dispersão no sistema norte-americano e demasiada centralização no oposto, que é o francês e o português. Infelizmente ou felizmente, não há um modelo que eu possa dizer: é este o ideal. Se houvesse já estava em muitos países...

O que lhe agrada no anglo-saxónico?

Agrada-me uma grande autonomia das escolas. Uma grande intervenção das comunidades locais e das famílias, a existência de incentivos para que a escola tenha melhores resultados. Autonomia e liberdade são coisas que destacaria acima de tudo.

Faz sentido uma aula ter 90 minutos?

Acho que isso deve ser decidido pelas escolas. As escolas que se organizem da melhor maneira. Era isso que gostaríamos que viesse a acontecer muito em breve.

É possível então que uma escola tenha aulas com 30 minutos, outra 40, outra 90?

Claro que sim. É para isso que vamos caminhar, desde que dê o programa...

O mesmo programa?

Pode não ser o mesmo, mas os aspetos essenciais devem ser os mesmos e desde que as escolas tenham um mínimo de horas às disciplinas fundamentais. A ideia é que o Ministério deve estabelecer apenas uns limites amplos dentro dos quais as escolas se organizem. Assim como quanto aos manuais. É uma coisa incrível estarem sempre a mudar. De que é que precisamos? De manuais escolares que tenham as coisas essenciais. E se os programas também forem racionalizados no sentido de ser obrigatório o essencial, o resto vem por acréscimo.

A um ano de distância, o que é que acha que pode começar a ser concretizado no ano lectivo de 2012-2013?

Vamos fazer reajustamentos nos programas fundamentais - Português e Matemática -, de forma a não criar grandes alterações nos processos. Foram estabelecidas metas pela ministra anterior; a ideia de metas é boa, mas infelizmente não foi tão longe quanto podia. E estiveram sempre balizadas por documentos que precisam de ser alterados. Há um documento orientador de todo o ensino básico que tem de ser revogado rapidamente, que é o chamado Currículo Nacional de Competências Essenciais, porque tem orientado de forma negativa a maneira como os programas estão a ser construídos e estão a ser interpretados. Vamos trabalhar aí e nas metas, de forma a que o osso dos programas se torne mais claro.

O que é que se pode fazer para repor a autoridade dos professores?

Logo na apresentação do Governo, fomos muito claros e dissemos: nós estamos com os professores na procura de exigência, na dignificação da profissão, na procura de uma aula tranquila, disciplinada, onde se possa aprender. Respeitem os vossos professores é uma mensagem que eu gostaria de deixar para a abertura das aulas: alunos, respeitem os vossos professores.

Sim, mas os alunos que entram com facas na escola não vão ligar muito a esse discurso.

Claro que não. Mas o discurso é muito importante. Depois, há coisas no Estatuto do Aluno que precisam de ser revistas. Não podemos permitir a indisciplina.

O que devia mudar no Estatuto do Aluno?

Não tenho coisas concretas a dizer neste momento.
Mas já tem umas ideias sobre isso... Tenho várias ideias. Por exemplo, a formação de professores é outro aspeto em que nós temos de ser mais rigorosos.

Defende o exame de entrada na carreira?

Sempre defendi. Já está na lei, agora temos que a regulamentar e pôr em prática. E vamos tomar uma série de medidas, em colaboração com as escolas de formação de professores, para que seja mais rigorosa.

Também fará com que sejam mais respeitados...

Sim. As pessoas dizem que não basta saber, é preciso saber ensinar. É verdade, mas sublinharia que não se pode ensinar aquilo que não se sabe muito bem e, quanto melhor se souber, melhor se saberá ensinar.

Sente que em Portugal o ensino garante a igualdade de oportunidades?

Não, não garante.

Mas a função da escola pública...

Não só da escola pública. A escola em geral deveria garantir a igualdade de oportunidades. Ainda não acontece, por problemas gerais que demoram muitos anos a resolver e que nenhum país do mundo resolveu por completo. Não tenhamos ilusões, há problemas gerais, há comunidades e zonas do país em que há maiores dificuldades, maior pobreza. A escola não está ainda a ser um garante da igualdade de oportunidades porque, em muitos casos, se desiste dos alunos mais mal preparados e porque se tem tomado, em muitos casos, a atitude de baixar os braços e não ser exigente, pensando que a exigência vai prejudicar os pobres, quando no fundo é exatamente o contrário - vai dar mais oportunidade aos pobres.

Basta olhar para o topo dos rankings: a percentagem das privadas que ocupam os lugares cimeiros deve querer dizer alguma coisa. Isso não o incomoda?

Incomoda-me que as coisas não estejam a avançar como gostaríamos. Há um aspeto em que todos podemos apoiar muito esses jovens à entrada da escola, que é o pré-escolar. Isso é uma preocupação internacional, em todos os países se percebeu que o ensino pré-escolar cria maior igualdade de oportunidades. É um caminho que estamos a trilhar e temos de trilhar cada vez mais.

Os rankings foram uma coisa boa ou nem por isso?

Houve uma coisa muito boa, que foi os resultados serem revelados. O que é importante por parte do Estado é disponibilizar a informação. Vejo os rankings como uma ajuda a ler os dados disponibilizados. É muito importante que os pais percebam que há escolas a funcionar muito melhor do que outras. E isso é um incentivo a todas para que melhorem.

Este ano, muito por causa da crise, houve uma grande saída de alunos de colégios privados para o ensino público. Qual é a dimensão do problema?

Não sabemos ainda, saberemos em breve quando vierem os dados das escolas.

O número de professores com horário zero também ainda não está quantificado?

Não, não está. Mas há uma coisa de que devemos ter consciência. Este ano, em virtude de muitas coisas - redução da população escolar, alguns ajustamentos curriculares - vai haver um número grande de professores não colocados. É uma situação preocupante, do ponto de vista social. Temos todos de ter consciência de que estamos a viver momentos difíceis e que vai haver dificuldades.

E números?

Não tenho ainda números, mas dentro de semanas teremos.

O reitor da Universidade de Lisboa disse há tempos que a rede do ensino superior, com 15 universidades e 15 politécnicos, é uma barbaridade para um país desta dimensão. É preocupante ou irrelevante?

Nós temos um grande respeito pela autonomia universitária. O que nos preocupa, em geral, é que haja cooperação, se criem consórcios e se unam esforços, de forma a criar a massa crítica que é necessária na competição internacional. Não é só um problema dos rankings internacionais, mas de competição por projetos e por bolsas em que a massa crítica é fundamental e há muitas coisas em que as universidades quando se juntam competem melhor.

Se tivesse 18 anos e a perspetiva de ficar a estudar em Portugal, o que escolheria? O que é verdadeiramente atrativo para alguém que está a chegar ao ensino superior?

Diria que, se tivesse 18 anos, ainda mais indeciso estaria. Há tantas coisas atrativas para os jovens, desde a Matemática, a Física, a Biologia, claro (que muita gente diz que vai ser a ciência do século XXI), até às áreas sociais, a História, a Filosofia... O mundo está cheio de coisas atrativas.

A ideia da Matemática como projeto de vida num curso superior não é tão óbvia quanto isso.

A Matemática dá grande empregabilidade, abre muitas portas. É disso que os jovens talvez não tenham consciência: abre portas às ciências da computação, à Física, à Química, à Biologia. Esta é cada vez mais uma ciência matematizada. Veja-se a biologia molecular e a genética, necessitam muito de instrumentos matemáticos. Há mesmo quem diga que o estudo do gene implica a descoberta ou a criação de instrumentos matemáticos que ainda não existem. Há grandes desafios matemáticos, como trabalhar aquelas bases de dados imensas que são a sequenciação do genoma humano.

Mas esteve muito indeciso quando tinha 18 anos?

Estive muito indeciso, claro que estive.

Entre quê?

Entre tantas coisas. Matemática, Física, Economia... estive muito indeciso... Astronomia... Astronomia não existia na altura.

Como ministro mais velho do Governo, é possível mandar calar os outros?

Nunca gostei de calar ninguém, muito menos tenho autoridade para calar qualquer ministro.

Há ministros de 30 e poucos anos, muito mais novos...

Que admiro imenso.

E faz diferença, estar num Conselho de Ministros em que é o mais velho?

Por enquanto não reparei.

E ser independente, faz diferença?

Também não reparei ainda.

Muda a maneira como se olha para um Governo ou nem por isso? Aí, ou muda ou não muda, já deve ter reparado.

Não tenho experiência de estar num Governo com filiação partidária, portanto, não tenho um termo de comparação.

Sente-se mais ministro da Educação, do Superior ou da Ciência?

Sinto-me ministro de tudo. Acho que é um conjunto.

E essa ideia de ser ministro de tudo pode continuar, até ser primeiro-ministro?

Não, não pode.

Um ministro tem de acreditar que é possível a redenção do país, e que é possível o país sair da crise, não?

Tenho uma grande admiração por este Governo e por todas as pessoas que estão neste Governo. Uma grande admiração pelo primeiro-ministro e uma grande confiança de que este Governo está aqui para trabalhar e fazer aquilo que é necessário. É evidente que tenho essa confiança e sem essa confiança não estaria no Governo.

O futuro depende do Governo? Não depende em boa parte também de movimentos que o Governo não pode controlar, na Europa, no mundo?

Há coisas que o Governo não pode controlar, mas nós temos de fazer a nossa parte, temos de nos preparar por nós...

Recuemos aos 18 anos, se não se importa.

Não me importava de recuar aos 18...

Estávamos a falar da indecisão. E depois optou pela Economia quando entrou para a faculdade. E gostou?

Gostei imenso da minha experiência universitária. Foi uma experiência num momento diferente, mais descontraído. Nós todos sabíamos que, quando acabássemos o curso, qualquer que fosse o curso e a nota que tirássemos, e mesmo antes de acabar o curso, já teríamos emprego - aliás, comecei a trabalhar (com 21 anos, julgo eu) enquanto estudava e não tive dificuldade.

Em quê?

Estive a trabalhar no antigo Ministério das Corporações e Previdência Social.

O que é que fazia?

Trabalhei num sítio onde aprendi imenso. Trabalhei na Divisão de Organização e Métodos (risos). Foi antes do 25 de abril, era a divisão onde se estabeleciam formulários, normas. Aprendi imenso. Aprendi o que era papel A4, os envelopes B4 e C4, coisa que ninguém sabe hoje em dia, uma série de coisas interessantes em termos de organização e métodos. Não, é verdade, aprendi coisas interessantes nesse emprego.

E trabalhou na Norma.

Estive na Norma, também, que era sondagens.

Isto tudo antes de ser professor?

Ao mesmo tempo. Quando acabei o curso fui para professor do secundário, no D.Leonor, e logo a seguir universitário. E, ao mesmo tempo, trabalhei na Norma. Durante bastantes anos, tive uma vida ligada às empresas e uma vida académica.

Houve uma passagem pelos Açores, certo?

No dia em que casei, fui para os Açores, onde vivi três anos (e onde nasceu o meu filho mais velho). E depois para os Estados Unidos...

Foram quantos anos nos Estados Unidos?

Treze, salvo erro.

Era muito nerd como estudante universitário?

Era um bocadinho.

O que é que isso quer dizer?

Todos os jovens são um bocadinho desajeitados. Acho que era um bocadinho desajeitado na vida social.

Mas foi durante a vida universitária. Não é uma coisa que tenha continuado a sentir ao longo da vida?

Não sei... Não sei responder. Como jovem acho que sim, mas depois adaptei-me bem à sociedade. Há umas pessoas que são um bocado cientistas malucos, eu pareço uma pessoa normal.

Tem dois filhos?

Dois filhos, de 19 e 24 anos. Não gostaria muito de falar dos meus filhos, nem da minha mulher. Eles detestam que eu fale deles.

Onde é que eles estão a estudar?

O meu filho está a estudar na Califórnia, a minha filha está a estudar em Delaware e a minha mulher está a trabalhar (num projeto da União Europeia) em Itália. E eu estou sozinho em Lisboa.

Porque é que o ministro da Educação tem os filhos a estudar no estrangeiro? Não acredita no nosso ensino?

Foi opção deles. Têm grandes ligações aos Estados Unidos. Viveram lá a maior parte da vida, é natural.

Como pai, teve algum contacto com a escola pública ou não?

Deixe lá ver... Não. Eles estiveram quase sempre fora, depois tiveram aqui um período de transição e foram-se embora, foi pouco tempo. O meu filho nasceu nos Açores, foi para os Estados Unidos com um ano e pouco. A minha filha nasceu nos Estados Unidos.

A sua mulher é doutorada em Ciências da Educação. É um apoio nestas suas decisões como ministro?

A minha mulher não é meu apoio nas decisões como ministro. Não discuto os temas ministeriais com ela, mas é evidente que falo muito com ela sobre aspectos gerais de educação.

E o ser ministro?

Se discuti com ela? Claro. É uma decisão difícil, com custos da vida pessoal e familiar. Foi uma decisão que tivemos que tomar em conjunto. A minha mulher tem sido sempre muito apoiante de tudo o que tenho feito, é um grande apoio que eu tenho. Uma das coisas mais aborrecidas de ser ministro é a pessoa deixar de ter vida privada. Isso é uma coisa muito aborrecida...

Como é que foi parar ao Taguspark?

Boa pergunta. Tive um convite da parte dos acionistas. Estava a trabalhar na Reitoria da Universidade Técnica de Lisboa como pró-reitor. A Universidade Técnica é accionista do Taguspark. Este tem um projecto de desenvolvimento de um polo do Instituto Superior Técnico, de colaboração com a Universidade Técnica, muito grande e, portanto, foi natural que aceitasse esse convite. Devo dizer também que a minha passagem pelo Taguspark foi muito enriquecedora. Aprendi muito e acho que é um projecto interessante e que se vai desenvolver cada vez mais.

O facto de ter lá entrado depois de ter havido um semiescândalo... Também foi um sítio com surpresas?

Sim, houve uma série de surpresas, mas foi fácil arrumar aquilo. Foi pedida uma auditoria, a auditoria detetou uma série de problemas, foi entregue aos acionistas. E a Assembleia Geral decidiu entregar a auditoria ao Ministério Público para fornecer todos os dados.

Havia suspeitas concretas de crime?

Houve suspeitas nos jornais de que tinha havido irregularidades no Taguspark e os accionistas acharam que deviam entregar o caso ao Ministério Público.

Veio do Taguspark para o ministério.

Sim. E se baixei o salário? Baixei.

Teve férias?

Este ano? Um dia e uma tarde. Foi bom.

Melhor que nada. Ainda vai ter?

Talvez. Vou tentar ter uns fins-de-semana prolongados.

E saudades de escrever nos jornais, já tem? Foram muitos anos, desde 1996.

Tenho.

E continua a brincar com o telescópio ou já não tem tempo?

Não tenho tempo. Mas ainda ontem, ao princípio da noite, estive na praia com a minha filha a identificar algumas constelações. Agora há uma coisa extraordinária, aplicações que permitem apontar um telemóvel para o céu e encontrar os nomes das estrelas. Estivemos os dois a brincar um bocado com isso.

Onde vão ser poupados os 195 milhões que a troika diz que têm de ser cortados?

Identificámos uma série de programas em que estamos a fazer poupanças. E estamos a olhar para as coisas com grande rigor. Algumas já estão identificadas.

Tais como?

São poupanças por todo o lado, em todas as áreas. Estamos a cortar... Estamos a cortar eu diria em todas as áreas.

Um exemplo ou outro?

Vamos reduzir muito o número de organismos dependentes do Ministério, vamos fundir organismos, vamos acabar com uma série de chefias superiores.

Mas por enquanto sobre isso também é o que pode ser dito?

Naquilo que está a ser estudado, a racionalização da rede de ensino, por exemplo. Escolas que estão a ser fechadas. Esse encerramento de escolas é uma coisa que é bastante significativa pelo seguinte: ao mesmo tempo é uma medida de poupança e é uma medida pedagogicamente importante. É muito limitativo da experiência dos estudantes estarem numa escola com 19 colegas. É muito limitativo.

Vão fechar mais escolas?

Sim, vão fechar umas 300 escolas - um número quase igual às que já fecharam. É inevitável.

Qual é a posição sobre o acordo ortográfico?

É um facto. Como disse, salvo erro, o ministro dos Negócios Estrangeiros, neste momento não é uma questão de opinião.

Lembra-se onde estava quando foi a manifestação de professores no Terreiro do Paço?

Não. Houve várias, não foi? Não, não me lembro. Não é como no assassínio do Kennedy, que toda a gente se lembrava onde é que estava.

E no dia 25 de abril?

No dia 25 de abril, lembro-me onde estava. Estava no Ministério das Corporações (onde trabalhava), na Praça de Londres, de onde saí para ir para o Carmo.

Era muito idealista?

Bastante.

Em quê?

Em ter ideias generosas sobre a sociedade e sobre o apoio aos mais desfavorecidos.

E isso ficou lá longe ou manteve alguma coisa?

Mantive algumas, claro, mantive algum idealismo, mas agora muito temperado por muito realismo e pragmatismo.

E essa réstia de idealismo?

Mesmo perguntas concretas peço que concretizem, agora uma pergunta tão geral... é tão difícil responder.

Estamos a falar de?

De grande confiança num mundo melhor. E grande confiança em que as pessoas sejam movidas não só por interesses pessoais mais também por altruísmo.

Isso não é uma réstia de idealismo, isso é...

Isso é totalmente idealismo, então deixem- me falar de uma coisa concreta relacionada com isso: já repararam nos milhares de pessoas que perdem horas e horas da sua vida, gratuitamente, para fazer a Wikipédia. É um grande idealismo. Pessoas que estão ali, a explicar o que é um átomo. Perdem horas a fazer uma entrada enciclopédica.

Já deu algum contributo?

Fiz uma vez uma retificação sobre um erro de definição do que é um processo estocástico, aleatório. A Wikipédia é um dos grandes exemplos de altruísmo humano. E repare-se, se for a uma entrada da Wikipédia e fizer um erro, passado pouco tempo é corrigido, há pessoas atentas que corrigem logo. É uma coisa espantosa e o produto final é comparável ao melhor produto profissional do mundo.

Tem Facebook?

Não. Mas tenho aqui no telemóvel uma série de chamadas...
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Entrevista de Anabela Natário Bárbara Simões e Henrique Monteiro. Fotografias de Jorge Simão

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Moinho

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O compadrio em política - extracto d' «As Farpas»

«As Farpas» - «Aspectos vários» - Cap XXIII
Dezembro de 1882
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(Clicar nas imagens, para as ampliar)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

ATENÇÃO

Prémios António Costa

Para aceder ao post correspondente clicar [AQUI].

Pág. 13 do «JN» de 25 Abr 11
(Clicar nas imagens, para as ampliar)

domingo, 31 de julho de 2011

CARDIA, UM PIONEIRO ANTI-EDUQUÊS

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Por Guilherme Valente

‘O segredo da felicidade é a liberdade. O segredo da liberdade é a coragem.’
Tucídides (460-404 a.C.)


AGORA que a lucidez e a coragem levaram a diferença para o ME, é útil relembrar as evidências.

A tragédia educativa é inquestionável. Nunca, em todos estes anos, apesar da estatura e do propósito de dois ou três ministros, foi atenuada. Resultados sempre piores, apesar dos poucos e duvidosos exames, sempre mais fáceis; ambiente de crescente imbecilidade nas escolas; desbaratamento de avultados recursos materiais; desvalorização programada do conhecimento, da cultura e do ensino enquanto transmissão dos saberes que contam; deliberado apagamento do papel do professor. Os efeitos estão à vista na sociedade: ignorância, desqualificação profissional; agravamento da desigualdade de oportunidades; aumento as desigualdades sociais, da exclusão e da delinquência, desinteresse cívico.

Tudo isto ocorre comprovadamente devido à ideologia igualitarista e às teorias pedagógicas, de origem e natureza bem determinadas, veiculadas pelos autodesignados «especialistas da educação», que, com um poder tentacular, do ME às escolas de formação de professores, se instalaram e dominaram totalitariamente a educação nos últimos 30 anos. Fanática ou interesseiramente indiferentes às consequências dramáticas da sua acção.

Deve-se-lhes alguma coisa de positivo? Nada. A massificação do ensino? Não. Era uma inevitabilidade histórica. Comprometeram aliás, o seu benefício, com a percentagem intolerável de abandono escolar, gerada pela inutilidade real da sua escola para cerca de 50% dos alunos (na Finlândia 36% dos estudantes seguem a via vocacional profissional).

Mas não fomos nós, no início quase sozinhos, os primeiros a perceber a natureza e a dimensão do que foi sendo imposto ao país. Tive acesso agora a uma entrevista em que um grande intelectual, que teve a coragem necessária para ser livre, antecipa a análise da praga e as confirmadas previsões sobre os seus efeitos na escola e no futuro de Portugal: Mário Sottomayor Cardia. Alguns breves excertos*:

«Aceitei participar do Governo porque era uma tarefa difícil, em que se jogava, e jogou, o destino do pluralismo na cultura portuguesa e a credibilidade e utilidade do ensino público.

«É esta última aposta que me afasta dos titulares do Ministério desde pelo menos 1985, com a excepção de Manuela Ferreira Leite. […]

«Estão a destruir o que tanto custou a reedificar naqueles anos longínquos […]. Sabotar o ensino público – desqualificando-o em nome da democratização, da ausência de selectividade escolar, da pedagogia não directiva, da proibição de memorizar, mesmo da dispensa de aprendizagem da tabuada, da proclamação do prazer como única motivação do saber e do pensar – é, directa ou indirectamente, uma forma extrema e repugnante de liquidação do sistema público de ensino.


«Respeitando e disciplinando o ensino privado […], foi a defesa do ensino público que inalteravelmente me moveu e animou.

«A democracia directa é sempre (ou quase sempre) a antecâmara (ou o disfarce institucional) da ditadura. A democracia directa ignora os direitos individuais. É o que hoje penso. Foi o que na altura percebi, independentemente de teorizações politológicas a que ainda não tivera acesso.»

«Fundamentalista anti-eduquês», foi como uma tão inocente ex-secretária de Estado, Ana Benavente - pasme-se! - se referiu ao actual Ministro.

Fundamentalista Nuno Crato nunca será. Anti-eduquês estou certo de que continuará a ser. Na honrosa companhia de Mário Sottomayor Cardia. Como o País precisa e a esmagadora maioria dos professores espera.

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* Vale a pena ler na íntegra: As Políticas de Educação em Discurso Directo, 1955-1995, de António Teodoro.

sábado, 30 de julho de 2011

terça-feira, 26 de julho de 2011

Na Finlândia há exames e retenções, estúpida!

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Por Guilherme Valente

"A soberania do conhecimento é a única que nos resta"
J. Veiga Simão

1. QUANDO a ignorância, a leviandade e a audiência se combinam, a mistura é explosiva. Um exemplo: «na Finlândia não há exames nem retenções». Da AR ao comentário loiro numa televisão, a asneira tornou-se moda e arrogância.

Na Finlândia há retenções e exames. Não é por não haver a possibilidade de retenções que a escola na Finlândia é boa. É por a escola ser boa que as retenções são ali residuais. E a que se deve essa qualidade?

Em cenário de fundo, o respeito pela educação e o prestígio da escola. Os pais, em geral com instrução elevada, acompanham com exigência o trabalho escolar dos filhos.

Depois, a arquitectura do ensino, a cultura de exigência, a qualidade da formação dos professores, programas e currículos assentes nos saberes que contam (libertos das tretas, que impedem o trabalho e a concentração no essencial. Responsabilidade e responsabilização dos directores, que respondem perante o ministério e as «autarquias». Directores que não são eleitos pelos pares.

Quando, há anos, apontei para a necessidade da figura do director, acusaram-me de defender a escola «de antigamente». Escola de antigamente, alas, com que o Prof. Veiga Simão, com a sua Grande Reforma aliás, já acabara - a seguir - como escreveu, tão lucidamente, Sottomaior Cardia, foi só destruir esse projecto iluminado e corajosíssimo, que teria conduzido ao desenvolvimento do País.

(Hoje há directores nas escolas, embora a legislação que os instituiu limite a sua eficácia… ideologia oblige.)

2. Na Finlândia a educação é descentralizada, cabendo às autarquias uma grande responsabilidade na sua organização, que assenta numa autonomia estruturante das escolas.

Professores qualificados e respeitados. Numa escola hierarquizada, sob a orientação de um director, a quem cabe, em ligação com as autoridades locais, a contratação dos docentes. Mecanismos de apoio multidisciplinar para os alunos com dificuldades. Combate eficaz à retenção e ao abandono precoce. Ensino responsabilizante desde muito cedo. Uma aposta na qualidade e não tanto na quantidade (9 anos no ensino básico, sem horas excessivas na escola). Todos têm que contribuir para a qualidade do ensino: ministério, professores, alunos e pais. Uma rede de escolas «primárias», pequenas, muito ampla.

3. Com o CNE o ME estabelece a arquitectura nacional da educação, designadamente, os currículos nacionais, cabendo a cada escola complementá-los.

Escolaridade obrigatória até ao 9.º Depois, duas vias: científica (54% dos alunos), três anos, que termina com um exame nacional, base para a continuidade dos estudos; um ramo profissionalizante, de três anos, escolhido pela generalidade dos que não optaram pela via científica. Os que obtiverem uma qualificação profissionalizante adicional podem prosseguir estudos em escolas politécnicas ou em outras instituições de ensino superior. A escola, através da orientação permanente aos alunos e em contacto com os pais, encaminha-os para a via mais indicada para cada um.

(Durante anos, insistimos no facto da percentagem aberrante de abandono escolar em Portugal ser devida à inexistência de uma via profissionalizante. Uma escola igualitária - facilitista, ignorante, iletrada e boçal - gera, como entre nós se verifica, maior desigualdade social. O primeiro-ministro José Sócrates, parecendo perceber o problema, terá levado o ME a anunciar a possibilidade da criação de cursos técnicos profissionais nas escolas… nas escolas que tomassem a iniciativa de os propor. De facto o ME não disponibilizou os meios materiais e humanos que seriam necessários, devendo-se os cursos criados graças apenas à «carolice» de alguns directores e professores. Mas mesmo assim o abandono escolar diminuiu significativamente nas escolas que passaram a oferecer esses cursos. Na ocasião pensei tratar-se de sabotagem do que julguei ser um lúcido propósito do primeiro-ministro (até cheguei a manifestar-lhe apoio!), mas recentemente explicaram-me que a criação desses cursos não terá passado de um expediente para obter fundos da União.)

3. Na educação finlandesa não existe uma avaliação nacional de professores. A avaliação é feita nas escolas, presentes as características de cada uma, através dos resultados alcançados e do acompanhamento do trabalho dos docentes, que passa pelo director e pelo organismo de educação constituído no âmbito da «autarquia». Nada que lembre o modelo de avaliação imbecil, injusto, impraticável e desmotivador inesperadamente ainda em vigor entre nós.

4. Para transitarem, os alunos têm de obter aprovação em todas as disciplinas. Quando entram na escola percebem logo, portanto, ao que vão... A avaliação, realizada por cada escola, resulta de exames formais (no fim dos ciclos e com notas numéricas) e avaliação permanente, com provas regularmente realizadas.

5. Se não é possível, entre nós, reproduzir aquele cenário social de fundo, é no entanto, praticável e imperativo adoptar e adaptar a arquitectura do ensino, a cultura de exigência e responsabilização, que determinam a qualidade da educação na Finlândia, e… reproduzem, promovem, os valores que distinguem a sociedade finlandesa. Sem essa mudança de cultura e de ambiente nas nossas escolas – ensino centrado nos saberes que contam , valorização do papel do professor - servirá de muito pouco aumentar o número de aulas de Matemática e Português - apenas mais aulas… iguais, mais tempo de caos e frustração dos docentes.

Exemplo duma diferença exigida pelo estado concreto do nosso ensino: um regime correctivo intensivo de exames, instrumento de regulação incontornável, de responsabilização e incentivo de toda a vida escolar, que gerará, finalmente, os bons resultados.

É tudo isto que, com o entusiasmo dos professores e a convergência patriótica das organizações sindicais e das associações de pais, gerindo bem e economizando milhões, este Ministro e este Governo novos, legislando como e quanto for necessário, seguramente querem e têm que realizar. Nunca um Ministro teve, como Nuno Crato, uma tão larga confiança dos professores, um tão largo apoio político e social para o fazer. Já. Mesmo que seja necessário assumir um ano escolar com atrasos e perturbação. Porque não poderá ser pacífico o extirpar da serpente…

«Público» de 24 Jul 11

quarta-feira, 20 de julho de 2011

quarta-feira, 13 de julho de 2011

«São rosas, Senhor...!»

Este VW, actualmente exposto no Casino Lisboa (no Parque das Nações), está completamente recoberto de moedas verdadeiras (quase todas de 1 euro e de 50 cêntimos), que foram douradas e firmemente coladas. Elas cobrem tudo - incluindo o tejadilho, as jantes... e até o tablier.

Pode colocar-se uma curiosa pergunta: devido a esses milhares de euros (que, de facto, estão ali - e em cash!), quanto vale o carro?

domingo, 24 de abril de 2011

Passatempo de 26 Mai 11 - Solução

O passatempo foi ganho por R. da Cunha

Passatempo de 17-19 Mai 11 - Solução



Exemplar número 404

Quem mais se tenha aproximado deste valor (e, em caso de empate, quem o tenha feito primeiro) tem 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada para envio do livro.
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Actualização: o passatempo foi ganho por "papoila_rubra", com o palpite "400", a que corresponde um erro de 4. Atenção, agora, ao prazo para reclamar o prémio.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Páscoa à portuguesa

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Por Antunes Ferreira

ESTAMOS numa Páscoa diferente. Como sempre, comemora-se a morte de Cristo e a sua ressurreição, como sempre os rituais são os mesmos, a mesma é a Via-Sacra, as cores dos paramentos, as cerimónias religiosas. Como sempre ainda, assa-se o cordeiro, comem-se os folares, com ovos ou sem eles, esgotam-se as amêndoas, saboreiam-se os ovos de chocolate. Aparentemente, nada mudou.

Porém, os passos do padecimento do filho de Deus este ano são Passos. E o coelho pascal este ano é Coelho. E a refeição nobre este ano é do Nobre. Mais ainda; este ano temos por cá a troika; este ano estamos falidos e mal pagos; este ano ajoelhamo-nos a pedir esmola; este ano devíamos ter vergonha das tristes figuras que fazemos. Mas não temos. Somos assim, irresponsavelmente catitas.

Daí que esta Páscoa, repito, seja diferente, de mão estendida, de cotão nas algibeiras, de dívidas pública e privada gigantescas, de juros engordados nos leilões estatais. Se as dívidas aumentam, aumentam também as dúvidas. Não se trata de trocadilho espúrio; é a verdade sem retoques. Que faz doer, mas parece que não faz; que vem atrasada porque já passou o Carnaval. Ainda que este seja perpétuo por estas bandas.

O calvário é nosso, a cruz também, como o são os cravos (os que se pregaram e pregam e pregarão, onde vão os de Abril?), a coroa de (muitos) espinhos, e nem se sabe por onde anda a verónica, se é que a houve. E por falar nela, há que mencionar que esta tourada em que nos metemos não tem forcados, mas tem forçados. A aguentar o que vem aí, de seguida ao que já aguentamos.

A crise, a famigerada, a dolosa e dolorosa, a fatal, instalou-se nos camarotes, nos balcões, nas plateias, nos galinheiros e até nas coxias. Porque é uma farsa sem Fernão e sem perdão, porque este nosso teatro é mais uma arena de circo romano, porque os actores não sabem as deixas, nem as deixam sair, porque os palhaços somos todos nós, a bem ou a mal.
Com um Presidente da República que assobia para o ar e se dirige aos cidadãos através do Facebook, com um Senhor Doutor que se candidata uma outra vez a Presidente, se bem que desta feita à Assembleia da República, sem passar por deputado, com uma falta de pudor e de dignidade, com um atraso minimamente mental, esta terra vai de vento em popa. Sem, sequer, rondar as bóias.

Esta Páscoa à portuguesa é muito nossa e muito sui generis. Conserva os ritos, logo, rejeita as revoluções; enjeita, felizmente, o sangue, fica-se pelos ameaços, engole a violência, fica-se pelos protestos. Atente-se, por favor: nós é que pedimos ajuda lancinantemente, mas nós é que pretendemos impor as condições para esse auxílio.

Ou seja, somos como o pobre que estende a mão à porta duma igreja mas que avisa os que se condoem dele e abrem a carteira, que só quer moedas brancas, nada de castanhas, e que prefere as notas às espécies metálicas. E mais ainda, com décimo terceiro mês e subsídio de Natal, atempadamente.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A esquerda

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Por Maria Filomena Mónica

DESDE 1974 que voto no Partido Socialista. Por isso me entristece o que lhe tem acontecido. Ao longo dos últimos seis anos de governação, o Primeiro-Ministro teve uma única ideia, o «plano tecnológico», e até essa é um disparate. Além disso, mentiu, mentiu e voltou a mentir. Não se pense que foi uma doutrina que me empurrou para a esquerda. A proeza ficou a dever-se ao comportamento da direita nacional. O Portugal dos anos 1950 era de tal forma desigualitário que me era impossível aceitar pacificamente a minha posição social. Os adultos podiam – e tentaram – explicar-me que «pobres sempre os teríamos entre nós», lição que nunca entrou na minha alma. Os amigos de infância ainda me consideram «comunista», enquanto os colegas universitários pensam que sou «reaccionária»: os primeiros porque me preocupo com as desigualdades sociais, os segundos porque valorizo o mérito.

O meu país deu muitas voltas e eu com ele. Deixei de pensar que o capitalismo era um mau sistema, admitindo ser uma forma de organização económica compatível com regimes diversos - basta olhar os EUA e a China - mas tal não me aproximou da direita. É a Adam Smith que recorro para explicitar aquilo em que acredito: «Nenhuma sociedade pode florescer e ser feliz se a grande maioria dos seus membros forem pobres e miseráveis». Se abomino que o Estado se meta na minha vida, considero todavia que tem um papel a desempenhar.

De todos os objectivos a incluir num programa socialista, a redução das desigualdades sociais deveria ser prioritária. Mas enunciá-lo não basta: é preciso tomar medidas. Há dias, li um documento delirante, aprovado em Conselho de Ministros a 20 de Março, intitulado Portugal 2020 – Programa Nacional de Reformas. Numa terminologia que me abstenho de qualificar, diz-se que, até 2020, a meta é fazer com que o número de pobres diminua em 200.000. Depois, afirma-se que, nos cinco anos após 2004, se reduziu «o risco de pobreza» de 20,4% para 17,9% da população. Uns dias depois, o Presidente da República corrigiu o engº Sócrates: afinal, a segunda percentagem seria de 26%. Em suma, ninguém sabe o que se passa.

No ambiente de cinismo em que vivemos, parece ingénuo afirmar que vale a pena lutar por uma sociedade mais justa. O amoralismo dos anos 1990´s congelou o pensamento de esquerda, tornando-o incapaz de criticar a direita. E, no entanto, a denúncia não é difícil. Os governantes que acreditam religiosamente no mercado, que afirmam que os pobres apenas existem porque não querem trabalhar, que exaltam a ganância como valor supremo estão a minar a coesão das sociedades.

Há espaço para uma esquerda, mas não com o engº. Sócrates. Mesmo que sofra uma derrota nas próximas eleições, duvido que se demita de Secretário-Geral. Isto não tem impedido os jornais de imaginar quem lhe poderia suceder. Os três nomes mais citados são os de Seguro, Costa e Assis. Surpreende-me que ninguém tenha pensado em Jaime Gama. Não tem carisma e não é amado pelo aparelho, mas tem um passado de democrata, espessura intelectual e uma honestidade à prova de bala.

«Expresso» de 16 Abr 11

Passatempo de 28 Abr 11 - Solução

O estranho texto que em cima se vê aparece na embalagem deste produto "Made in China"...

sábado, 16 de abril de 2011

Nobre futebol

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Por Antunes Ferreira

VAI SER uma noite em cheio, a de amanhã. No estádio do Dragão, o Futebol Clube do Porto recebe o Sporting e o jogo começa às 20:15. É transmitido pela Sport TV. A expectativa é grande; os leões, quiçá moribundos, estão no estado em que estão. Os campeões não perdem uma.
Por seu turno, o Dr. Fernando Nobre, presidente da AMI e ex-candidato a Belém, vai ser entrevistado, pelas 21:00, por Fátima Campos Ferreira, na RTP Especial Informação onde o assunto principal é a sua polémica candidatura a Presidente da AR… nas listas do PSD. Parece que nem sequer quer ser deputado.
O médico que se dizia independente e defensor da cidadania pura, donde sem mácula, reiterara, desde as presidenciais, que nunca mais se meteria na política e obviamente em qualquer força partidária. De boas intenções está o Inferno cheio, mas o poleiro tem muita força e origina todos os golpes de rins imagináveis e até os inimagináveis.
Esta atitude de Nobre tem sido acusada de pouco nobre. Ou seja, ele tem sido objecto dos mais duros comentários e das mais violentas críticas, depois de Pedro Passos Coelho ter anunciado que o clínico seria o cabeça de lista do PSD por Lisboa. Prevê-se que o presidente da Associação Médica Internacional irá defender o que se pode considerar… indefensável. Mas, nesta terra de tristeza também o pensável pode ser impensável e o possível, impossível .
Na Cidade Invicta, os verdes e brancos também vão tentar defender o indefensável. E por aí fora. Ou seja, continuar a lutar pelo sonho do terceiro lugar na Liga maior do futebol cá do burgo. Tarefa muito difícil, impensável e quiçá impossível; mas pois se não obtiverem uma vitória na casa dos portistas o sonho não passará de um pesadelo.
Ainda que os horários não sejam exactamente coincidentes, estou crente que, a nível televisivo, o espectáculo portuense que se antevê emocionante, terá um share infinitamente maior do que o entremez lisboeta. Poucos estarão interessados em visionar uma caricata versão do Médico e o Monstro, em que o primeiro tentará abater o segundo, ainda que um e o outro sejam uma só pessoa.
Os cidadãos que já sentem bastante a austeridade podem orgulhar-se da figura que os futebolistas portugueses têm vindo a fazer. As três vitórias da quinta-feira passada são o anti-depressivo de que necessitam. Mas, serão mesmo? A troika BCE, UE e FMI já tem as garras de fora. E os políticos portugueses - que já deviam ter vergonha na cara – não a têm.
Por essas e por outras é que digo que amanhã à noite, a valer-nos alguma coisa, será o Santo Futebol. Fátima foi chão que deu uvas.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Passatempo de 11 Abr 11 - Solução




Produção de biomassa num logradouro de um prédio particular situado na Rua Alves Redol, junto ao IST, em Lisboa. Ao contrário do que possa parecer, o prédio não está abandonado nem devoluto.

sábado, 9 de abril de 2011

Eles vêm aí

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Por Antunes Ferreira

HÁ MOMENTOS da vida de um homem que levam a que se diga também que há dias em que não se pode pôr um pé na rua à noite. A jigajoga do faz que ajuda mas não ajuda, diz que pede mas não pede, no fim pede e deve vir e depressa que se faz tarde, começa a ser mais exótica do que um episódio dos morangos com açúcar. E agora, enquanto eles não entram cá mas vêm aí, não nos podemos esquecer da entrega internética dos Censos e do IRS. Depois, bem, depois verá-se como diz o cego.

Os culpados desta encrenca em que nos metemos somos nós os Portugueses; os Governos que se sucederam também, como é evidente, mas os principais somos mesmo nós. Habituámo-nos de há muito tempo a gastar o que temos e o que não temos, sobretudo este último termo de comparação. Iludimo-nos com a ideia peregrina do alguém há-de pagar.

Tenho redobrada pena de escrever que, apenas por uma vez em mais de dois séculos, este preclaro procedimento foi torpedeado: no tempo da chegada de Oliveira Salazar ao poder. Que, como se sabe, começou por ser o ministro das Finanças da Ditadura militar e, com mão de ferro (que depois ele aplicaria em todos os momentos) decretou a prática da economia da dona de casa: se não se tem, não se gasta; ou só se gasta o que se tem.

Com isto, cada vez mais me convenço de que não enjeitamos, na generalidade, a prática da cenoura e do chicote; na especialidade serão outros quinhentos mil réis, mas isso não chega para ultrapassar a primeira. Aliás, mesmo na chamada época áurea dos Descobrimentos isso se verificou. Tal como agora com os ansiados fundos europeus, os enormes rendimentos que provinham das colónias foram sendo esbanjados com a maior das alegrias.

Nestes momentos que vivemos, uma boa parte de nós ainda não entendeu o que vai ser a vida sob o ditame do FMI e do Fundo Europeu. É óbvio que a gasolina a um euro e sessenta cêntimos o litro já causa preocupações; mas nas nossas auto-estradas, os Mercedes, os BMW, os Audi, os Porshe e outros que tais são o pão-nosso-de-cada-dia. É evidente que os restaurantes caríssimos estão sempre cheios. É triste que os apartamentos e vivendas que mais se compram são os de topo de gama. Somos assim.

No meio deste tremendo imbróglio, ainda existem motivos q.b., para prosseguirmos com tenacidade na prática daquilo em que na verdade somos especialistas: as anedotas. Os romanos afirmaram que ridendo castigat mores. Molière apanhou a ideia que o arlequim Domenico mandara pintar no pano de boca do seu teatro, e deu-lhe uma dimensão mundial e eterna.

Nós, por cá, não recusamos essa forma de intervenção morigeradora, mas comprazemo-nos, sobretudo, com as piadas mais fortes e ordinárias; as outras apenas debicam coisas e pessoas; vão longes os anos em que as revistas do Parque Mayer tinham cenas que faziam estoirar de riso as plateias, pelo que continham de críticas ao salazarismo, de forma mais velada ou menos encoberta, toureando a censura.

Agora, uma que outra notícia, no meio deste vale de lágrimas, consegue fazer-nos chegar algumas lágrimas insípidas aos olhos. Veja-se um exemplo.

«Encontrado esqueleto de homossexual pré-histórico
Um esqueleto com cerca de cinco mil anos foi recentemente encontrado em Praga, por uma equipa de investigadores da República Checa. Os restos mortais pertencem a um ser humano do sexo masculino mas, devido ao modo como foi sepultado, os arqueólogos julgam que possa ter sido um homossexual ou transexual.»

Deixemo-nos de tretas e soltemos umas boas gargalhadas, pois já naqueles tempos havia homens… não praticantes. Longe de mim criticar o que é a orientação sexual de cada um, mais longe ainda defender a homofobia. Mas que a notícia é muito mais gozada do que as que nos inundam sobre a ajuda externa, lá isso…

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A partilha do poder

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Por Baptista-Bastos

"Coesão" e "verdade" são termos muito utilizados nos últimos discursos do dr. Cavaco. Não querem dizer nada e não se escoram em coisa alguma. O País está dividido, desenganado, irritado e furioso com aquilo que os políticos lhe têm feito; e a palavra "verdade" faz com que fuja espavorido. Todos mentem, com maior ou menos ração, e até o dr. Cavaco não está propriamente limpo do feio pecado. Acresce que os seus textos expõem uma mediocridade de forma e de conteúdo, uma sensaboria gelada que a ninguém empolgam.

O homem pode dizer o que quiser, que veio do povo, que ao povo pertence, mas não provoca nenhum sentimento de emotiva mobilização. Ele não sente, nunca sentiu, o impulso da insubmissão e da revolta. É um ser "institucionalizado." Os indivíduos ou os grupos agem e procedem a rebeliões específicas de conduta quando as ameaças que os cercam quase elaboram a alternativa de um contra-governo. As imponentes manifestações da "geração à rasca" são sintomas e indicações.

A maneira como temos sido conduzidos e governados, prolonga a ideia de que todo o poder encontra resistência, mais tarde ou mais cedo. E a alternância, sem alternativa, entre PS e PSD, obrigando à servidão monótona do voto, atinge a sufocação. Bem pode o dr. Cavaco suspirar pela "verdade" e aspirar à "coesão." Olhe-se e veja-se. No PS de Sócrates a intriga não chegou para amolgar os 93 por cento obtidos pelo mal-amado. Os socialistas estão cegos e arfantes? Não têm é outro "camarada" que substitua Sócrates, e Sócrates representa a garantia de que talvez se mude alguma coisa para permanecer tudo na mesma. E se, nas próximas eleições, o PS voltar a ganhar e a apostar, de novo, no seu secretário-geral?

O PSD de Passos Coelho é o labirinto de onde nunca ninguém soube sair. Continuam lá todos aqueles que, através das fórmulas mais paradoxais, e dos entrelaçamentos mais duvidosos, se foram governando sem pudor nem inquietação. A ausência da tal "verdade" tem sido uma constante naquele partido, exactamente porque foi ele um dos construtores e sustentáculos do "sistema". É, pois, a título de parceiro e de adversário que o PSD e o PS têm partilhado o poder e dividido as benesses e privilégios que lhes são afins. A "mentira" começa nesse embuste da "verdade" e o dr. Cavaco é um dos arquitectos desta estática.

Torna-se cada vez mais evidente que Passos Coelho (com quem pessoalmente simpatizo) não está à altura da situação. O apelo às coligações, feito por dirigentes políticos e por jornalistas e preopinantes estipendiados, enuncia, claramente, o problema e a enorme baralhada em que nos envolveram. Em que nos envolveram aqueles mesmos ou os seus directos descendentes. No entanto, talvez as coisas, desta vez, não sejam tão felizes para eles.
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«DN» de 6 Abr 11

terça-feira, 5 de abril de 2011

Os Velhos

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Por Maria Filomena Mónica

O ESTADO está a contar-nos, cabeça a cabeça. A isto chama-se Censo, do latim censu, a lista dos nomes e a avaliação das propriedades dos cidadãos romanos. Estava hoje a preencher o questionário do INE quando notei que passara a integrar a categoria de «pessoa idosa», a designação oficial para quem tem mais de 65 anos. Dado o meu pendor melodramático, comecei logo a imaginar que me restavam poucos anos de vida. À força, fui capaz de interromper esta meditação fúnebre, para pensar naqueles que, dentro do meu grupo etário, estão em pior situação do que eu. Através de um caderninho onde anoto as coisas que me surpreendem, descobri que Portugal é hoje o sétimo país mais envelhecido do mundo.

As causas não são difíceis de encontrar. Por um lado, os casais jovens não usufruem de condições para ter filhos, por outro, em virtude dos progressos da Medicina, a esperança de vida tem aumentado. Actualmente, as mulheres vivem, em média, até aos 81 anos e os homens até aos 75. À primeira vista, estes números parecem uma bênção do Céu, mas existe um reverso da medalha. De entre os europeus, os portugueses são aqueles que durante mais tempo - dezassete anos - enfrentam uma incapacidade permanente. Aos 80 anos, 40% dos nossos velhos estão dementes. Há 190.000 portugueses, com mais de 75 anos, a viver sós, sem ninguém que os ajude nas tarefas domésticas e, mais grave, que com eles converse.

As filhas e as noras - evidentemente os homens consideram sempre que compete às mulheres, e não a eles, tratar dos seus velhos - estão a trabalhar, as famílias vivem em casas pequenas e não existem lares em número suficiente para os albergar. Adoentados, muitos sobrevivem com uma pensão miserável, nos subúrbios de Lisboa, no interior desertificado do país, nas casas dos bairros antigos das cidades. Na rua das Trinas, ao lado de onde vivo, já não me cruzo com a rapariga pálida que ali vendia alperces, mas ainda me deparo com velhinhas, espreitando-me por detrás das cortinas de renda. Os maridos estão no Jardim da Estrela, jogando cartas com os amigos, os filhos trabalham para sustentar as famílias e os netos passam os dias, na escola, aprendendo coisas de que as avós nunca ouviram falar. Para além de uma ida ao centro de saúde, do crochet que nunca termina e da conversa com as vizinhas, nada sobra. Segundo uma investigação recente, 36,5% dos idosos com mais de 65 anos passa mais de 8 horas por dia sem companhia e 28,9% admite estar «triste e deprimido». Mas há pior: os velhos constituem metade da taxa de suicídio nacional, uma situação intolerável. Quanto mais não fosse para punir o «socialista» Sócrates pelo que fez e se preparava fazer aos reformados mais pobres valeu a pena derrubá-lo.

PS: Por lapso, no meu último artigo, usei a designação «Conselho da Europa» quando me queria referir ao «Conselho Europeu». Um erro é um erro, mas o facto de o ter cometido demonstra a distância entre os cidadãos e o labirinto europeu.
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«Expresso» de 2 Abr 11

domingo, 3 de abril de 2011

Heroínas dos tsunamis

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Por Nuno Crato

NÃO HÁ REGISTO de algo semelhante se ter passado no maremoto que há semanas devastou o Japão; mas quando o tsunami de Dezembro de 2004 varreu as costas do Índico, houve uma jovem de 10 anos que salvou centenas de pessoas. Chamava-se Tilly Smith, tinha vindo de Oxshott, nos arredores de Londres e estava numa praia da Tailândia, em férias com os pais. Viu o mar esvaziar-se e os barcos agitarem-se nas águas, que se afundavam. Percebeu, pelo que tinha aprendido na escola, que esse movimento prenunciava o avanço de uma onda gigantesca. Avisou os pais, avisou todos os que estavam próximos e fê-los recuar a zona segura. Salvou muitas vidas.

Passados anos, em Setembro de 2009, passou-se algo semelhante no Pacífico. Uma jovem neo-zelandesa chamada Abby Wutzler, também com 10 anos, proveniente de Wellington, uma cidade tão acidentada que faz as colinas de Lisboa parecerem uma planície alentejana, defrontou-se com um recuo do mar numa praia de Samoa, onde estava de férias. Avisou os pais, avisou os turistas que se encontravam perto e de novo salvou muitas vidas.

Na altura, achei estas histórias curiosas. Mas o filósofo Fernando Savater, que recentemente esteve entre nós numa conferência organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, fez-me ver as coisas de outra maneira. Estas jovens são heroínas do conhecimento, explicou. Elas viviam em zonas onde a identificação de tsunamis é virtualmente inútil. Mas usaram uma sabedoria que nunca sonharam poder vir a ter utilidade prática. E usaram-na por uma única razão: por que a tinham adquirido.
Fernando Savater falava sobre «O Valor de Educar, o Valor de Instruir» e usou estas histórias para mostrar como as aplicações do que se aprende são, muitas vezes, inesperadas. Se as jovens se tivessem recusado a estudar tudo o que se relaciona com tsunamis, pois são fenómenos que não as afectam nas suas localidades, jamais teriam tido possibilidade de salvarem a sua vida e a de outros.

Esta história deveria ser contada em todas as escolas. Sabemos como, muitas vezes, os alunos protestam contra a pretensa falta de utilidade do que aprendem; e como, por vezes, pais e alguns teóricos de educação se juntam a esse protesto. Herbert Spencer (1820–1903), o conhecido filósofo e sociólogo inglês, é um dos mais culpados por ter justificado essa moda. Tornou-se famosa a sua frase «O objectivo da educação não é o conhecimento, mas a acção», precursora da actual teoria das «competências», ou «conhecimento em acção», que seria o único objectivo válido e o único a que a escola se deveria dedicar.

É evidente que todos gostamos que o saber seja aplicável. Mas há muito conhecimento que não tem utilidade prática imediata e não podemos limitar o ensino por esse espartilho. Quando os alunos protestam dizendo que não vêm utilidade no que aprendem, estão na realidade a protestar por não estarem a perceber as matérias em causa. Quantas vezes nos deleitamos com conhecimentos aparentemente inúteis, mas que nos fascinam?

As ideias antiquadas de Spencer e dos seus seguidores continuam a perverter o sentido do ensino. Na escola e na vida, o saber deve valer por si. Mesmo que a sua aplicabilidade seja tão remota como a de jovens de 10 anos salvarem a família de um tsunami.
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«Números e Letras» - «Expresso» de 2 Abr 11