sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O Marcolino (*)

CONTINUANDO a abordar temas da actualidade nacional, dificilmente se poderá fugir ao tema da moderna insegurança urbana. E, de facto, neste espaço tem-se falado de criminosos comuns, de condutores que se comportam como assassinos, da forma como a Justiça lida com o problema, etc. etc. E, evidentemente, tem-se procurado dar destaque aos esforços que o Salvador faz para pôr ao serviço da Lei e da Ordem os seus conhecimentos tecnológicos.
Há dias fui dar com ele, sentado na leitaria da D. Deolinda, nervoso, a fazer estranhas pesquisas na Internet. Vi, de longe, que o monitor apresentava gatafunhos e mais gatafunhos, uns mais feios do que outros, e não resisti a perguntar à dona da loja (para não interromper o Grande Consultor) se sabia o que é que se passava.
- Não o incomode agora! Sabe? É que o afilhado parece que anda com problemas com a Justiça e ele está a informar-se sobre crimes.
Fiquei gelado! Apesar de não conhecer o rapaz, a situação não era nada agradável. Resolvi, então, ficar por ali perto, folheando umas revistas, até se proporcionar o momento certo para me intrometer no assunto. Finalmente, o Salvador lá reparou em mim, e chamou-me para ao pé de si, não alterando – nem sequer procurando disfarçar - o seu ar preocupado.
E passou a explicar:
- Trata-se do Marcolino, o meu jovem afilhado que tem a mania que é artista... Mas até agora só deu em pintor de paredes! Anda a encher a cidade com a sua bonecada, e nem o facto de ter várias páginas na Web o salva de ir parar à prisão. Não leste a entrevista do homem que foi Mayor de Nova Iorque e que sugere que se prendam os artistas como o Marcolino?
De facto lera, e a coisa podia ficar feia para o rapaz. O Salvador, suspirando, desligou o computador e saímos. Mas o certo é que há coincidências engraçadas, e logo fomos encontrar o Marcolino, encostado a uma parede, pensativo. Estava em frente à Fundação Gulbenkian e uma lata de spray espreitava do bolso direito das calças.
O Salvador apresentou-nos, conversámos um pouco, e eu  tive uma ideia fabulosa: levei a conversa para a arte, e, como quem não quer a coisa, convenci-os a irem comigo a ver «a verdadeira arte», na exposição permanente da Fundação. Mas, face ao desinteresse do Marcolino, a breve trecho estávamos cá fora... Porém, não desistindo, arranjei forma de nos encaminharmos de seguida para o edifício anexo, o Centro de Arte Moderna. E, desta vez, sim! O nosso jovem saiu de lá com um sorriso nos lábios! Alguma coisa lhe dizia que, ali por aqueles lados, a sua arte seria compreendida!
Mas confesso que fiquei preocupado quando, já na rua, o Marcolino quis voltar atrás, fascinado com a brancura de alguns pilares e paredes do Museu...
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(*) - CMR - Revista Valor – 31 de Maio 2001
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NOTA adicional: seguem-se alguns dos desenhos que o cartoonista José Abrantes fez para ilustrar as histórias desta personagem.
 

sábado, 23 de novembro de 2013

O desnorte


Por Antunes Ferreira
QUINTA-FEIRA passada foi um marco no desnorte do (des)Governo. Foi o que pode considerar um dia horribilis. Se se entendesse necessário encontrar uma justificação para o que acaba de afirma, bastaria referir que nunca se tinham verificado em Portugal tantos desencontros na maioria parlamentar, no (des)Governo, na Presidência da República, na União Europeia e no Fundo Monetário Internacional. Resumindo: cada cabeça, cada sentença.
O dia começou mal, com o ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares a lamentar que nem sempre o que afirmam os responsáveis máximos dos organismos internacionais coincida com o que os técnicos da Troica depois defendem nas reuniões em Portugal. Pouco faltou para que Marques Guedes lançasse uma advertência à entidade de três organismos que vêm governando o nosso país: Falem em consonância, porra! Não o disse, mas se me  permitem extrapolo.
Nessa quinta-feira trágica o Comissário Europeu dos Assuntos Económicos Oli Rehn tinha dito que está na altura dos Estados Membros começarem a abrandar a austeridade e o ritmo de consolidação orçamental, dando como exemplo Portugal, e concentrar-se em políticas que promovam o crescimento da economia e do emprego.
Mas também o FMI foi objecto da crítica do (des)governante  que afirmou que “Já ouvimos a presidente do FMI várias vezes pronunciar-se sobre a necessidade de abrandar e de alterar o programa de austeridade dos países sob ajustamento, mas depois a atitude dos técnicos do FMI e dos relatórios do FMI sobre a matéria dizem rigorosamente o contrário daquilo que é dito nas entrevistas pela presidente do FMI”.
Entretanto em Bruxelas a União desconfiou dos números do défice e do desemprego apresentados pelo (des)Executivo, passando assim um atestado de incompetência ao Instituto Nacional de Estatística. Zangavam-se as comadres descobriam-se as verdades. Mas, os ataques à politica de austeridade não ficaram por aqui, muito longe disso.
Já à noite, na reunião das esquerdas promovida por Mário Soares sob a defesa da Constituição da democracia e do estado social, as referências feitas pelo ex-Presidente ao actual ocupante do Palácio de Belém, levaram ao rubro a sala da Aula Magna da Universidade de Lisboa. O antigo secretário-geral do Partido Socialista não esteve com paninhos quentes: “É por isso que digo que o Presidente e o Governo devem demitir-se, enquanto podem ainda ir para suas casas pelo seu pé. Caso contrário, serão responsáveis pela onda de violência que também os atingirá”.
E singularmente quase na mesma altura a manifestação das forças de segurança, desde a PSP às polícias municipais, passando pelos Serviços de Fronteiras, agentes da Polícia Judiciária e GNR, rompendo as barreiras de segurança subiu em sinal de protesto a escadaria da Assembleia da República protestando contra o ataque de vinham sendo alvo do (des)Governo.
E um destacado representante das associações sindicais que convocaram a manifestação sublinhou também a falta das condições de segurança originada pelos sucessivos cortes que se verificavam e dando o seu aviso de que em 2014 com o OE que já estava em discussão no Parlamento as coisas seriam ainda piores. Foi a maior que algum dia se verificou dos elementos das forças de segurança. Que terminou pacificamente. O que motivou a “felicidade” de Assunção Esteves, presidente da AR.
O mesmo já não aconteceu ontem, sexta-feira. O superintendente Paulo Valente Gomes, Director Nacional da PSP colocou o lugar à disposição “na sequência dos acontecimentos ocorridos ontem (quinta-feira) em frente à Assembleia da República”, informou através de uma nota do MAI enviada à comunicação social. O ministério acrescentava que Miguel Macedo tinha aceitado o pedido de demissão e que ia “iniciar o processo tendo em vista a designação de um novo Director Nacional” da PSP.
Um pot-pourri desta dimensão é mais do que preocupante. Até porque, na Aula Magna também estiveram altas patentes militares. Ocorreu-me até o que se passara na revolução de Outubro na Rússia e que conduziu à eliminação do czar e de quase todos os Romanov e originou a criação da falecida URSS. Exagero, talvez. Mas, convém não esquecer que quem semeia ventos colhe tempestades.

sábado, 16 de novembro de 2013

"A Spielberg case"

Por Antunes Ferreira
EU BEM SUSPEITAVA que transportava comigo uma segunda derme, perfeitamente acoplada à pele, talvez mesmo indissociáveis ambas. Especifico: à minha pele; ou seja à minha epiderme. A este propósito e antes de me alongar (prometo que me encurtarei), venha a clássica consulta à Wikipédia. epiderme (do grego Επιδερμίδα epi+derme; em cima da pele) é a camada mais superficial da pele, ou seja, a que está directamente em contacto com o exterior. É um epitélio escamoso estratificado que actua como importante barreira do corpo em ambientes inóspitos, protegendo a pele contra infecções, perdas de calor e outras, nomeadamente em partes mais sensíveis, contra traumas.
Mas nunca pensei que essa duplicidade dérmica fosse suficientemente evidente para que outras pessoas a descortinassem. Como andava enganado? Aqui há uns dias, por obra de amigo comum, reencontrei o Ilídio Guedes, meu companheiro até à quarta classe (quando a havia). Daí para a frente nunca mais puséramos os olhos em cima dos outros do outro e vice-versa. Foi uma alegria, podem crer. Mas, depois, uma ansiedade, para terminar numa completa desilusão. Palavra puxa palavra, frase puxa frase e a dada altura, surdiu a clássica… e como vais de amores?
Dado que o autor confesso da inquirição era (ou fora) da minha inteira confiança, respondi-lhe que estava casado quase há cinquenta anos, ao que o Guedes me perguntou, com um ar de espanto afivelado na face, e sempre com a mesma mulher? Perante a minha anuência, o camarada olhou-me de alto a baixo e desfechou, fala-se muito em study cases, que se dividem em muitas alíneas, mas o teu caso é realmente como o lince da Malcata, ou seja em vias de extinção. Visto que eu persistia na imobilidade esbugalhada (característica que é apanágio do chamado Presidente da República em Belém) Ilídio acrescentou  que o meu era um verdadeiro Spielberg case pois eu me aproximava muito de um dinossauro, mais precisamente do anquilossauro.
Nesta altura da ocorrência, costumam as autoridades deslocar-se ao local onde ela se verificou. E esta era precisamente um bom exemplo da presença de agentes devidamente uniformizados que oportunamente iriam dar, supostamente, conta do que acontecera face à espinhosa situação de eu, ainda que subtilmente, possuir duas peles, duas dermes, até mesmo duas cútis. Interrogar-me-iam, por certo, sobre esse estranho anacronismo.
Entretanto, Guedes continuava a olhar-me entre o divertido e o admirado, pelo que de imediato me ocorreu que o sujeito estava a abusar de uma velha camaradagem desde os dois lugares da mesma carteira do externato Mouzinho da Silveira, isto é, estava a gozar-me. Tive ganas de lhe citar o Franz Kafka, mas contive-me. Sabia lá se ele me questionaria de forma acintosa, mas esse gajo joga na Primeira Liga ou na Segunda? O nome não me é estranho…
Pela minha parte, continuava a matutar na forma como lhe responderia, se a situação se tornasse numa calamidade. E, mentalmente equacionei que lhe poderia atirar que quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de insecto. E acrescentaria que era assim que Kafka  inicia a história do caixeiro-viajante, que numa manhã, ao acordar para o trabalho, vê que durante a noite se transformara num insecto horrível com um "dorso duro e inúmeras patas". Estive prestes a despejar no frontispício irónico do Ilídio que assim era o início da obra chamada “A Metamorfose” da autoria do escritor checo.
Logo de seguida continuei a elucubração, relembrando também “A Mosca”, filme que retracta a transformação repulsiva de um cientista numa enorme mosca, por intermédio de uma máquina de teletransporte que tinha inventado. As duas estórias juntas, ainda que separadas por mais de meio século, seriam mais do que suficientes para esmagar o Guedes. De tal sorte que acabariam as insinuações torpes sobre a suposta mutação ocorrida sobre mim mesmo. E o homem a dar-lhe, isso nem parece teu, mas vendo bem essa estória dos cinquenta anos casado sempre com a mesma mulher leva-me a corrigir a primeira avaliação; na verdade pareces-me mais um gorgossauro…
Só consegui responder-lhe com um angustiado – nota-se muito? E ele, a fazer de sério, se não abrisses a boca, não notaria nada e aproveitou para aditar que por fora, ou seja, a nível da epiderme, ninguém diria que eu era um sepielberguiano caso, em tradição livre e literal. Convicto de que não fazia parte de um qualquer Parque Jurássico, suspirei fundo. No entanto, assoberbado pela dúvida, foi então que me descobri portador dessa pele elevada ao quadrado, ainda que da mais firme, sincera e impoluta formação legal, moral e familiar. E assim me mantenho, sem traumas, graças ao meu epitélio escamoso estratificado.


quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Vamos ajudar a Galp

Por Antunes Ferreira
Há momentos na vida de um homem em que a tristeza e até a desilusão imperam por força das desgraças que acontecem a outrem. Pessoas e instituições que se lamentam da desdita merecem-me a afirmação de que estou com elas, lhes dou a minha solidariedade mais sincera, e que estou disposto – se tal for necessário – a enxugar-lhe as lágrimas.
Ombro em que se amparem ofereço-lhes desinteressadamente, e nele podem estar certas que podem chorar as suas mágoas. Os amigos têm de ser assim sobretudo nas ocasiões mais difíceis. Por isso compreendo as lamentações, aliás justíssimas, dos que sofrem na carne e nos órgãos (refiro-me obviamente a entidades, as mais das vezes pouco habituadas ao negativo da vida e por isso mal preparadas para reagir ao descrédito) as inclemências e os desvarios que existem neste planeta azul.
Feita esta declaração muito sentida em virtude de preocupações ciclópicas (parece-me que o termo foi utilizado por um governante que sucedeu a outro no antigo regime) que apoquentam homens e organizações, debruço-me verdadeiramente preocupado sobre notícia que obnubila uma empresa que nos acompanha a todos (ou quase) no dia-a-dia e que se esforça por nos servir bem. Vamos, pois, ao augúrio: “A Galp apurou um lucro de 218 milhões de euros nos nove primeiros meses do ano, menos 58 milhões (ou 21%) do que no mesmo período do ano passado” Numa confissão pública – o que é sempre de louvar – foi a própria petrolífera portuguesa que o revelou há dias.
E num revolver o punhal da angústia na ferida (diga-se que não foi um haraquíri) juntou logo em seguida que o resultado foi penalizado pelo desempenho no terceiro trimestre, período em que a empresa apresentou uma deterioração dos resultados financeiros e teve um aumento das amortizações e provisões no negócio de refinação e distribuição.
O povo que gosta de ser informado e portanto elucidado carregou o cenho. Podia lá ser? Um tal desastre de dimensão nacional era quase um cataclismo para não dizer mesmo um tsunami. Receou. Seria necessário recorrer à Igreja que nos momentos mais complicados está sempre ao dispor dos que sofrem? Umas novenas? Umas procissões? Umas penitências? A hipótese de umas voltas de joelhos à volta do recinto sagrado de Fátima?
As declarações do Emérito Cardeal Policarpo vieram, porém, lançar a hesitação sobre a intercepção da casa de Deus. Isto porque o ilustre purpurado/reformado tinha afirmado que lhe parecia “ que ninguém sabe que Portugal está numa crise e dá a ideia que todos reagem como se o estado pudesse satisfazer as suas reivindicações». Mas, não se ficou por aqui o prelado resignatário.
Disse mais: que não encontrara ”ninguém das oposições - todas elas - que apresentasse soluções. E se falhasse este mecanismo da economia liberal, Portugal só teria dinheiro para mês e meio», frisou, acrescentando que, nesse cenário, «não haveria dinheiro para pagar salários e pensões». É certo que D. Policarpo se considerou a si próprio fora do prazo de validade, mas não é menos o que entendeu sobre isso a Santa Sé. Donde, para ajudar a Galp, tinha de haver outras soluções que não a intervenção divina, mesmo dando de barato que o auxilio da Senhora de Fátima poderia ser ineficaz. A testá-lo, o Imóvel de Belém continuou – imóvel. Nem com a ajuda da ilustríssima esposa falou. E se o fizesse certamente diria mais uma vez asneirada da grossa, já que em alternativa nenhuma mosca se arriscaria em entrar em boca tão suja, vingativa e mentirosa.
Daí que reafirme a minha irrecusável piedade pela Galp. Que já foi Sacor fundada pelo judeu Martin Saim, residente em Paris e que teve nos seus corpos gerentes figuras importantes do salazarismo, a mais conhecida delas foi Francisco Casal Ribeiro, o ultra mais ultra no combate ao “primaveril” Marcelo Caetano.
Estou mesmo na expectativa do aparecimento no Facebook de uma proposta para a constituição de uma associação cujo escopo será a angariação de fundos para ajudar a gasolineira. Para tal sugiro a contratação da Dona Isabel Jonet, especialista em peditórios a nível nacional, com especial incidência às portas das grandes superfícies comerciais. Com uma condição sine qua non: que o litro da gasolina vá descendo a pouco e pouco, até que me seja possível encher o depósito do meu carro sem recorrer ao método usado pelo (des)Governo: assalto e roubo à mão desarmada.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

“Eu não tenho amigos!”

Por Antunes Ferreira
“Ó SR. DEPUTADO, eu não tenho amigos!”,  afirmou Pedro Passos  Coelho, em resposta a Jerónimo de Sousa. “Não admira!”, exclamou de imediato o líder da bancada comunista, num aparte bem audível no plenário. E a oposição rompeu em gargalhadas, o que motivou que Coelho corrigisse logo a seguir, “Eu não tenho amigos… no Banif”. Assim respondia ao secretário-geral do PCP que afirmara que o (des)Governo só tinha mãos largas para os amigos. Referia-se ao estranho caso do BPN. E perguntou ainda se estava “em condições de garantir que os portugueses não vão ser chamados a pagar outro BPN no caso do Banif”.
Coelho não gostou da pergunta do líder do PCP. Mas nos minutos que tinha para responder a Jerónimo o chefe do Governo acabou por não dizer se o Banif já liquidara ou não as tranches das ajudas estatais que recebeu. Teve de esperar até ao final do debate para, com um papel na mão, dizer que o Banif “já devolveu 150 milhões de euros com o primeiro reforço de capital que foi realizado”.
A sessão par(a)lamentar de quarta-feira foi um tremendo desastre para o nosso primeiro. Se quisermos sintetiza-la numa curta frase não será difícil: foi um circo. Com Passos sem compasso como palhaço aparentando ser rico, mas no fundo sendo pobre. De espírito. Os deputados da coligação espúria aplaudiram-no, defenderam-no, mas, pouco, com convicção alegro ma non tropo. Os da oposição riram-se – e não tiveram pena dele. Nem tinham de ter.
João Semedo já o “incomodara”; ou seja, a oposição toureava-o e naturalmente a pseudo serenidade de Passos foi-se esbatendo, chegando ao ponto de ruptura do verniz com que tenta disfarçar as mentiras que diz aos Portugueses. Encostado às cordas sobra-lhe em irritação o que tenta passar de calma e tranquilidade a quem todos os dias é roubado por ele próprio ou pelos seus capangas.
Erro pornográfico
Na sua edição on-line de quinta-feira, como habitualmente, o Expresso publica a coluna Politicoesfera assinada pelo seu titular João Lemos Esteves. Com este não estou de acordo por diversas vezes; mas o seu texto merece-me um aplauso, de tal forma que, se mo permitisse a minha cabeça (e o meu teclado) não teria pejo de o assinar na totalidade. Mas, assim, limito-me a transcrever dois passos dele.
“João Semedo afirmou, ontem no debate parlamentar, que não sabe se o Governo ainda tem tropas - mas certamente já não tem generais. Pois bem, acrescento que o general Passos Coelho nunca existiu e já está praticamente deposto - e as tropas, face à inexistência política absoluta do general (e inexistência, como se sabe, é mais grave do que nulidade política), as tropas - e as melhores tropas - de Portugal continuam a desertar.
(…)

Passos Coelho cometeu um erro pornográfico: afirmou que o Orçamento de Estado para o próximo ano comporta vários riscos. Portanto, já não bastava que o OE tivesse sido elaborado a trouxe-mouxe , nos últimos dias legalmente previstos para a sua apresentação; já não bastava as indefinições e o défice de esclarecimento sobre algumas medidas pré-anunciadas do Orçamento - ontem, Passos Coelho confessou a sua impotência para executar o Orçamento! Já não é um problema da troika. Já não é um problema de gestão política do executivo e a nossa dependência face ao exterior: é um problema de incompetência exclusiva do Governo, pois é o único órgão que tem poderes para aplicar o Orçamento de Estado e garantir a sua aplicação!”
(O destaque em negro é do autor, a quem felicito pelo artigo.
Aliás, aproveito esta oportunidade para referir que parte deste comentário é respigada do “Público” e de outros órgãos da comunicação social. A todos, o meu obrigado)

Entretanto, António José Seguro também entrou na dança. Não falou em eleições, mas não deixou de insinuar a necessidade de chamar os portugueses às urnas caso o país recorra a um segundo pedido de ajuda. O que também irritou Coelho que, na reposta, recusou debater "clichés". E porquê? Porque o líder socialista acusou o (des)Governo de chamar "programa cautelar" ao que na prática não passa de um "segundo resgate". Seguro notou que "existem quatro formas de regressar aos mercados e só uma delas é independente e dispensa condicionalidades".
Seguro frisou que "se houver um segundo pedido de ajuda", Passos deverá "tirar consequências" e não terá "perdão" porque significa que "o programa falhou". Com o semblante carregado, Passos considerou que "é lamentável que o PS pense em confundir os portugueses". E renovou o desafio ao líder dos socialistas: "No dia em que quiser fechar o nosso programa sem populismo e sem demagogia, eu estou disponível para fazer uma discussão séria”. Por isso, a comunicação social considerou que o frente-a-frente entre Passos e Seguro foi o momento mais quente do debate quinzenal.
A dado passo da sua intervenção, Seguro recordou as afirmações do "ministro do CDS" (Pires de Lima, em Londres, sobre o programa cautelar que já estaria a ser preparado). Passos corrigiu: "não é um ministro do CDS. É um ministro do meu Governo". E até garantiu que a preparação de um programa cautelar não estava na sua mesa, nem na da ministra das Finanças, nem na mesa das negociações com a troika. Foi uma tentativa desesperada de interpretar “As pombinhas da Catrina”. Cruxificado, ainda assumiu pateticamente do cimo do Calvário de São Bento que está a aguardar o fim do programa na Irlanda para decidir como é que Portugal vai ter assistência no regresso aos mercados. Além de não saber – confessou-o – qual será o futuro da economia, está à espera de ver em que param as modas. Irlandesas.
Foi assim, com esta afirmação – que deve ser lida segundo o ditado “quem espera sempre alcança”? – que Coelho deixou uma vez mais no ar a irresponsabilidade de um (des)Governo de putos mal preparados (e mal educados) quando dizem que não foram eles que tinham ido à lata dos biscoitos que a mãe tinha usado para impedir, em vão, o furto desses bolos secos. Porque o roubo que acontece quotidianamente não é de biscoitos. É daquilo com um cidadão em primeiro lugar usa para se alimentar a si e aos seus: dinheiro. Por isso estão muitos Portugueses a morrer de fome.

NA – A expressão (des)Governo é de minha responsabilidade

sábado, 26 de outubro de 2013

Andar por aí

Por Antunes Ferreira
PEDRO SANTANA LOPES criou a frase que ficou nos anais da história política de Portugal: “vou andar por aí…” Numa remake deturpada, Aníbal Cavaco Silva, quando confrontado pelos jornalistas para que esclarecesse a sua enigmática declaração sobre a possibilidade de enviar ao Tribunal Constitucional o Orçamento de 2014, afirmou com um sorriso (o que é raro, e os que exibe são no mínimo forçados) que face à questão, pedissem ao ministro Poiares Maduro que elucidasse o que ele, Cavaco tinha querido dizer, pois “ele anda por aí”.
Curiosa esta “delegação de poder para explicar afirmação alheia”. Não consta que a nova “figura política” esteja contemplada em algum código jurídico. Donde, o apelidado Presidente da República que já inventara o façarei e os cidadões, criou agora uma também nova legislação (?) ad hoc. No meio da balbúrdia que grassa nos meios presidências/governamentais – o que é o mesmo -, esta sentença é, realmente, inesperada, mas simultaneamente sintética, concisa e clara. Muito obrigada, Senhor Professor Doutor.
De homens como este, sábios, brilhantes, cultos, dialogantes, inspirados – quiçá pela Senhora de Fátima e pela sua (dele) caríssima esposa – carece este País. Porém, felizmente, eles emergem das águas mais revoltas; para ser mais específico, ele emerge. Sem margem para dúvidas, Cavaco emerge, contrariando assim os que afirmam que imerge. Arquimedes enunciou que "Todo o corpo mergulhado num fluido em repouso sofre, por parte do fluido, uma força vertical para cima, cuja intensidade é igual ao peso do fluido deslocado pelo corpo."
Aliás, é bom que não se esqueça a sua deslocação às Desertas, a fim de visitar as cagarras. Ainda que em navio da Armada Portuguesa ele nunca imergiu. Fá-lo-ia talvez se tivesse utilizado um dos submarinos que Paulo Portas “arranjou”; mas não foi esse o caso. E sem pretender abandalhar este escrito, poder-se-á dizer que o Senhor Silva também não emergiu; não andou sob as águas do mar revolto, mas sim, sobre. Está-se, portanto, perante um émulo do Cristo. O mais alto magistrado da Nação – expressão utilizada, como é sabido, nos tempos salazarentos, mas que a Cavaco se aplica como uma luva – tem, pois, uma aura divina. E apóstolos.
Relembra-se aqui o episódio evangélico do caminhar sobre as águas, protagonizado pelo filho (?) do carpinteiro e pelos doze discípulos que o acompanhavam habitualmente. Conta a estória (que não se pode confirmar por não existir documento comprovativo) que o Nazareno recomendara à dúzia que o seguia, “Tende fé, camaradas, e andareis sobre as águas” – ressalve-se o termo aqui utilizado, que pode ser substituído por amigos - que nesse caso eram as do mar da Galileia. 
Em abono da verdade – e antes de concluir o ocorrido – há que dizer que uma outra versão do milagre foi relatada por Mateus (14:22-33), Marcos (6:45-52) e João (6:16-21). Mas, para o caso, há que retomar o que se vinha relatando. Evangelhos há muitos; pelo menos quatro; mas se contarmos com os apócrifos, que se diz serem cinco a coisa toma outro perfil e, bem entendido, outra dimensão. Adiante.
Os treze intérpretes do suposto milagre começaram, então, a caminhar sobre as águas, com os doze acólitos maravilhados e, ao mesmo tempo, espantados com o feito. Perdão, a dúzia, não; os onze. Isto por que Judas Iscariotes começou a imergir. Já preocupado, ele bateu no ombro de Filipe que o antecedia, solicitando-lhe que passasse palavra a fim de que o Mestre soubesse que ele, Judas, já tinha OH2 pela cintura.
Assim se fez; e o Senhor, voltou-se para Pedro que o seguia uns passos atrás e disse-lhe que, segundo em caminho inverso ao que se verificara, fosse acentuado a Judas que tivesse fé e andaria sobre as águas. Mas, quando a informação chegou ao Iscariotes, este já tinha água pelo peito. E de novo, o caso repetiu-se, com a transmissão oral – que me seja permitida a expressão um tanto pecadora, em linguagem politicamente correcta e usada em campanhas eleitorais, boca a boca.
Quando já estava imerso até aos primeiros pelos da barba, o apóstolo e futuro bufo repetiu o apelo. Este chegou a Jesus que, entre o preocupado e o irónico, respondeu a Pedro: “pronto, não se fala mais nisso; ensinem-lhe a localização das pedras. Estas sim, estas emergiam. Passe o anedótico da estória, há que reconhecer que ela tem algum fundamento: não se deve acreditar nem na própria sombra. Si non e vero, e bene trovato.
Voltando à expressão utilizada na política nacional, o andar por aí já ganhou foros de consagrado de tão repetido. A única dúvida que subsiste consiste em tentar saber que o próprio Cavaco não entendeu o que antes afirmara. O que é absolutamente natural nele, até mesmo com laivos de patológico. Mas o ministro Maduro baldou-se: ele também não entendeu. Apesar do apelido, ele está ainda muito verde.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Em 2014 não baixarão os impostos


Por Antunes Ferreira

VEM AÍ outro orçamento rectificativo para o ano em curso, afirmou na quarta-feira Pedro Passos Coelho na RTP, durante a primeira emissão do novo programa O País pergunta. Isso permite, referiu, que através dele poderão ser introduzidas “novas condições de competitividade fiscal”. E apesar das perguntas feitas por vinte cidadãos presentes no estúdio não especificou quais eram essas “novas condições”.

Mas fez uma afirmação respondendo a pergunta posta por uma empresária da restauração que naturalmente queria saber se e quando baixaria o IVA a 23% para o anterior a 13%. Apesar de ter informado que a questão ia ser objecto de análise nos Conselhos de Ministros de ontem e extraordinário de amanhã, domingo, sublinhou que não queria “alimentar essa expectativa.

Se nos detivermos em pormenor no que afirmou neste particular, repararemos que Coelho teve a desfaçatez de sublinhar que o problema não diz respeito apenas ao valor do imposto, mas sim porque “as pessoas não têm dinheiro para ir ao restaurante”. Porém, num rasgo de bondade complementou que que o Governo espera que, tendo em conta a tendência de estabilização da economia, “uma parte das pessoas que deixaram de ir ao restaurante possa progressivamente retomar” [esse procedimento]. Isto porque a economia está a estabilizar e a procura interna está praticamente a estabilizar.”

Mas também afirmou que em 2014 não haverá diminuição dos impostos. Porém não disse se estes iam em contrapartida aumentar. Muito mais disse Passos Coelho, mas um tema mais foi abordado, quando respondeu aos jornalistas à saída do estúdio que lhe referiram o problema levantado por Rui Machete, o ministro dos Negócios Estrangeiros, em especial com o pedido de desculpas a Luanda. Com desplante a sua afirmação foi um espanto. Não houvera “nada de grave” no procedimento do ministro.

Misturou uma falsa humildade quando reconheceu que a classe média é a mais prejudicada com as medidas tomadas para combater a crise, em resumo, com a austeridade que, no seu entender é necessária para pagar aos credores aquilo que nos emprestaram. Um (des)Governo honesto tem a obrigação de cumprir o combinado para se alcançar esse objectivo. Pelo que disse é preciso salvar a Nação e os cidadãos mesmo que ela e eles não queiram ser salvos.

Foi um chefe do (des)Governo que se apresentou ufano da “retoma da economia” mas que, bem vistas as coisas, foi verdadeiramente patético. As fintas que usou face às questões mais incómodas não são próprias de um primeiro-ministro. Realisticamente, o programa serviu-lhe para propagandear o que o seu (des)Executivo já fizera em prol da Pátria e dos cidadãos vítimas dos erros enormes cometidos por aqueles que o tinham antecedido. Apetece perguntar se o que disse é  “a sério” e se esta postura é “irrevogável”. E perguntar se se referiu aos Governos do primeiro-ministro Cavaco Silva. É que eles foram também culpados desses erros enormes.

Ter-se-á tratado de mais umas quantas mentiras de um mentiroso crasso? Ter-se-á referido à honestidade da quadrilha que diz que nos governa, mas que na realidade nos (des)governa. Como pode ser honesta um (des)governante que deita para o lixo as promessas que fez na campanha eleitoral para chegar ao poder? Como pode ser honesta uma entidade que permite ditos e desditos em cadeia dos titulares dos seus ministérios?

Como acreditar num ministro – e não é preciso relembrar as trapalhadas relvadas – que depois de ter mentido quanto às qualificações estudantis, até foi premiado com um tacho soberbo? Como se interrogar sobre a Ministra Maria “suópes” Luís Albuquerque que usou mentiras sobre mentiras no Parlamento e ainda se mantém à frente do Ministério das Finanças?

Se a honestidade é isto, bem a podemos comparar com uma peça que é uma farsa – Ali Babá e os 40 ladrões. E na qual somos espectadores enfiados temerosamente nas cadeiras de pau e desconjuntadas de uma plateia amorfa. Mas que honestidade é esta que o (des)Governo interpreta à boca de cena, sem necessidade de ponto?

Alto lá. Sem necessidade de ponto não é verdade. Porque o ponto de interrogação e o de exclamação são inevitáveis- pois existem e têm de ser usados. Porque o ponto principal está metido na sua caixa, o palácio de Belém. Com a ajuda da Senhora de Fátima que ele invocou ao dirigir-se aos “cidadões” e que afirmou que nunca mais “façaria” coisas que lhe parecessem complicadas como a sinistra avaliação. Como por exemplo a sua intervenção, digo eu, no escabroso caso do BPN.

Seja-me permitido recordar que Portugal ( só mais dois países, a Irlanda e a Espanha) apresentou a Berlim as condolências pela morte de Adolfo Hitler. Mais: Salazar mandou colocar a bandeira nacional a meio mastro por motivo do “infausto acontecimento”. Foi então que o Senhor Winston Churchill respondeu ao seu MNE, Antony Eden num memorando com a típica arrogância britânica misturada cum um pouco do humor que o caracterizava. Pelo seu conteúdo, transcreve-se aqui um extracto desse documento.

“Creio que seria mais sensato deixá-los (os Portugueses) continuar a brincar e não sermos demasiado duros com eles (…) Afinal de contas, quando se é um aliado há mais de quatrocentos anos, há que ter permissão para andar de vez em quando por aí à deriva, conforme os caprichos. Devo tratá-los como se fossem crianças amorosas que fazem caretas absurdas”  (Gabinete do Primeiro-Ministro, 10 de Maio de 1945)

Chega? Chega.

sábado, 5 de outubro de 2013

Putin 1 – Nobel 0 (?)

Por Antunes Ferreira
LÊ-SE – e não se quer acreditar; mas tem-se de o fazer perante os textos distribuídos pelas agências noticiosas. Vladimir Putin foi proposto para o Prémio Nobel da… Paz. A proposta foi anunciada na terça-feira passada pelo presidente da Academia Internacional da União das Nações do Mundo pela voz do presidente da instituição, Gueorgi Trapeznikov.
A bem da verdade, nunca se tinha ouvido falar desta Academia cujo nome se afigura, no mínimo, incongruente. Se ela é Internacional, para quê a União das Nações do Mundo? Ou será que esta última precisa de ser internacional para que seja conhecida? E num Mundo em que as guerras, os atentados, os golpes de Estado, a confrontação, será que é possível falar nessa união de todas as nações? Ou serão “quase” todas?
A ser assim, ter-se-á de mudar a designação da Academia? Cuidado. O presidente da Associação sedeada em Moscovo – pois que outra haveria de ser? – o senhor (ou talvez ainda seja “camarada”) Trapeznikov não esteve com meias medidas, afirmando que "Conhecemos bem o papel pacificador que desempenhou o nosso presidente em zonas conflituosas". E deu o exemplo do caso sírio. Pronto, já está.
Aliás, e para que não se verifiquem quaisquer mal entendidos, a carta - para efeitos da candidatura do presidente da Rússia –já foi enviada à Comissão Nobel, mais precisamente a 16 de Setembro tendo sido acusada a sua recepção a 20 do mesmo mês. O processo arrancou, portanto. E quem o transmite é a agência noticiosa oficial ITAR-TASS.
Cabe aqui um esclarecimento: a TASS era a abreviação de Telegrafnoie Agentstvo Sovetskogo Soiuza, ou seja a Agência Telegráfica da União Soviética que foi a agência de notícias soviética oficial, de 1922 a 1991. Mas como o nome TASS era muito conhecido, ele foi posteriormente adicionado à sigla ITAR, ficando agora como a   Telegrafnoye Agentstvo Svazi i Soobshcheniya, o que quer dizer  Agência Telegráfica de Comunicações e Reportagem.
Sem desprimor, foi mais ou menos o que aconteceu quando Marcelo Caetano chegou ao poder depois da queda do “mais belo dos ditadores europeus”, epíteto com que um veterano oficial britânico mimoseou Salazar no princípio da II Guerra Mundial. A União Nacional foi transformada na Acção Nacional Popular, a PIDE mudou para Direcção Geral de Segurança e por aí adiante.
Por singular coincidência – finalmente elas existem… - o ministro Crato, garantiu há dias aos reitores das universidades públicas portuguesas que a intenção de criar um novo sistema de autonomia reforçada, já anunciado, levaria em linha de conta "o que as universidades-fundação já conseguiram". Não há mudança, a não ser na designação. Resumindo: mudam-se os tempos, mudam-se as vontades? Não, mudam-se os nomes para ficar tudo na mesma, na paz do Senhor.

Vladimir Vladimirovitch Putin  é o actual presidente da Rússia, depois de um jogo de cabra-cega com Dimitri Mdvedev. Enquanto Putin foi presidente, Medvedv era primeiro-ministro; depois inverteram-se as funções entre os dois. E agora voltou tudo à primeira forma. Curioso. Mas, Putin foi agente e chefe dos serviços secretos soviéticos, KGB, e após a queda da URSS, ainda foi o patrão da FSB, que substituiu a sua antecedente. Uma espécie de jogo das cadeiras. 
A KGB, como se recorda, tinha a sua sede na Praça Lubianka em Moscovo, e por isso a polícia secreta ficou conhecida pelo mesmo nome. Ficou tristemente “famosa” pelas milhares de mortes e brutais interrogatórios realizados no seu subsolo; mas também foi o laboratório da criação de venenos do governo, que fizeram algumas das vítimas mais conhecidas dos regimes dos ditadores Estaline e Brejnev.
É este mesmo Putin que foi proposto para o Nobel da Paz. Por uma organização a respeito da qual o seu porta-voz, Dmitri Peskov, disse que desconhecia as pessoas que tinham feito a proposta e se essas pessoas tinham as "necessárias faculdade" para o fazer. Aliás, ainda acentuou que "Putin não é partidário de receber condecorações ou prémios. É, sim, partidário de encontrar satisfação conseguindo resultados com o seu trabalho".
Os proponentes, entretanto, aquando da comunicação da proposta, tinham sublinhado que se o Nobel da Paz fora já atribuído a Obama, mais do que razão para que fosse dado a Putin. Lógica irrefutável. E irrevogável.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A derrota do Coelho, a vitória do Seguro, o surgimento dos homens livres e um misterioso desaparecimento


Por Pedro Barroso

O POVO falou ontem e explicou bem que, apesar de não lhe apetecer muito, lá foi aparecendo e dizendo que quer outra coisa.
Claro que o braço fiscal da Merkl tinha de sofrer as consequências e Seguro estava sempre seguro disso. Ganharia sempre. Era claro que sim. Portas, o rei da ubiquidade, conseguiu perder e ganhar ao mesmo tempo. O Governo afunda-se mas já mostrou não ter vergonha na cara; já nada espero destes senhores, para não lhes chamar garotos.
Agora há um problema que me merece uma análise especial.
O António, a Pipas e o Bernardo estão tristes. O BE desapareceu.
Ocupados como estavam com as respectivas questões maiores de suas vidas, foram acreditando que tal força lhes acabaria por resolver os diferendos entre as coisas do quotidiano e a política, numa intervenção sagaz, mas sonhadora, pratica mas flexível, socialista mas com estilo próprio.
Tão distraídos andaram, que nem se deram conta que já saíram devagar os homens inteligentes que fundaram tal ideia e a tornaram eventualmente em tempos, uma lufada de ar fresco na política, incisiva e argumentativa, sabedora e autorizada, diferente.
Vejamos. António militava no sector ecológico e absorvia-se diariamente com os urgentes problemas dos linces da Malcata e de Silves. Ultimamente entrara em empenhado mestrado sobre o stress traumático das gaivotas ribeirinhas, após verificar os numerosos atropelamentos das graciosas aves no Terreiro do Paço e Cais Sodré.
A Pipas era uma militante de primeira hora. A causa feminista preenchia todo o espectro da sua actividade cívica e não só. A privada também. Embora puxe a barba nos braços e na cara com navalha, para aumentar a pilosidade, usa corte de cabelo à homem, curto; fala com palavrões e profere insultos ao volante. A sua feminilidade equivale à do senhor Lopes do talho e foi uma lutadora desde sempre pelo casamento lésbico, pena até agora não se ter ainda fixado o suficiente numa parceira para que isso lhe pudesse acontecer.
O Bernardo é um ser vocacionado para a arte e a performance. São conhecidas as suas obras de plástico ornamental, bem com os concertos para almofariz e tuba, muito aplaudidos por todos os amigos reunidos na sala, em número de dezassete, um dia, em Braço de Prata.
O Morais, ex militante da UDP, em tempos que já lá vão, anda furioso, pois isto só lá ia mas era à cacetada; e olhando à sua volta não vê pessoal que queira andar à porrada nas ruas impondo a evidente razão das suas perspectivas.
O Antunes apela ao bom senso dos camaradas no sentido de uma esquerda organizada evoluída e sensível, que saberá sempre fazer a diferença dos grosseiros e cristalizados comunistas, e terá sempre espaço político - excepto se não tiver e se devorar a si mesma.
Rosalina, militante distraída durante o Verão, ajuda na limpeza das praias, mas continua a acreditar que o que é urgente mesmo para o país é dar águas limpas à truta do rio Ave e combater a poluição no Sousa, pois só assim as pessoas poderão encontrar emprego na região.
Já o Ricardo, sindicalista, acha que não, e que é preciso primeiro empregar as pessoas e depois, sim, ir limpar os rios e puta que pariu os efluentes e a Rosalina.
Resultado: os militantes BE estão tristes, derrotados, impotentes e não se entendem. Habituados a causas delicadas e sensíveis, coisas evoluídas e de bom gosto, acontece que a troika trouxe-nos problemas grossos - um Estado que rouba, reformados que são assaltados, impostos cruéis, um Governo desgovernado e mentiroso. E a coisa não se remedeia com a aprovação da adopção para o casamento gay, nem com a reconstrução da linha do Tua.
Habituados a bordar, agora é preciso rasgar, romper. Habituados a apanhar folhas, agora é preciso cavar. Política agora, por assim dizer, tem de fazer-se de tractor. E para tal propósito que haverá melhor que o velho, absolutamente inefável, mas sempre confiável Partido Comunista Português, com seus valores tipo Condado portucalense, foice e martelo, avante camaradas, internacional e tudo isso, caramba? Um luxo! Viu-se ontem; meio Portugal vermelho, ao bom estilo 25/4. Ora bem.
Quanto a mim os dirigentes nacionais do BE não souberam explicar-nos afinal, na prática, qual a diferença, no verbo e no voto com o PCP. Não quiseram – ou quiseram mas não souberam…- construir a Grande Esquerda Unida que sonhara Louçã. Mantiveram uma direcção bífida e mista, suponho que mais para respeitar a paridade sexual que outra coisa. Mantiveram o pensamento em bloco - infeliz e vaga expressão para tão dispersa e afastada gente. Não souberam entender nem facturar, apoiando as candidaturas independentes - aos milhares - que por toda a parte surgiram pelo país.
Essas foram, aliás, as grandes vencedoras de ontem. Essas sim, de gente livre que não deve nada a ninguém e se desiludiu há muito, por não ver saídas nem rotas de alcançar que não seja irmos, agarrarmos no Futuro e fazê-lo por nossas próprias mãos, com os erros possíveis e as glórias possíveis, mas num acto de desespero e esperança ao mesmo tempo.
A responsabilidade está em nós.
Os partidos estão falidos. De ridículo, de ideias e de credibilidade.
Houvesse candidaturas livres a deputados nas Legislativas e veríamos a hecatombe…

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Jesus e as autárquicas


Por Antunes Ferreira
NUMA SEMANA em o Tribunal Constitucional deu mais uma machadada na credibilidade do (des)Governo considerando inconstitucionais seis normas propostas por São Bento para alterar a Lei do Trabalho;
Numa semana em que o porta-voz do PSD, Marco António Costa, considerou que seria encontrada uma solução que torne viáveis as normas do Código do Trabalho declaradas inconstitucionais, que assinalou terem sido aprovadas "sem terem o voto contra do PS";
Numa semana em que terminou a campanha eleitoral para as autárquicas que decorrem neste domingo, 29 de Setembro, e na qual esta deliberação do TC veio servir de arma de arremesso para a esquerda e para a direita, o assunto mais falado em Portugal foi a situação de Jorge Jesus, o treinador do Sport Lisboa e Benfica. Isto exemplifica bem o pensamento dominante da população portuguesa.
Uma esmagadora maioria dos cidadãos seguiu e segue e seguirá o evoluir da situação criada pelo técnico encarnado que no final do jogo no estádio D. Afonso Henrique, na cidade de Guimarães ao envolver-se num distúrbio resultante da entrada em campo de adeptos benfiquistas e que motivou a intervenção da PSP.
Como acontece sempre em desacatos com esta dimensão, cada parte arrogou a sua justificação para a desordem. A Polícia entendeu que o técnico do Benfica se portou mal, tendo agredido agentes da força pública e seguranças que tinham intervindo no que se passara. Jesus negou que assim tivesse sido, no que foi acompanhado pelo presidente do clube, Luís Filipe Vieira.
A PSP anunciou, entretanto, que iria interpor a acção que entende corresponder ao destempero do treinador junto dos tribunais competentes. O advogado do técnico declarou que o caso não passava de uma tempestade num copo de água, que o seu constituinte não agredira ninguém, obviamente polícias.
Porém, a situação complicou-se com a entrada em cena da Federação Portuguesa de Futebol, através do seu Conselho de Disciplina ter ordenado a instauração de um inquérito disciplinar a Jorge Jesus, pelo episódio ocorrido em Guimarães. Este seguiu, em conformidade, para a Comissão de Instrução e Inquéritos (CII) da Liga Profissional.
Esta última também abriu de abriu de imediato processos disciplinares a todos os envolvidos nos incidentes, nomeadamente ao treinador do Benfica, à equipa de arbitragem (liderada por Bruno Esteves e composta ainda por Mário Dionísio, Rui Teixeira e Manuel Oliveira) e aos delegados da Liga (Paulino Carvalho e Carlos Santos).

Se em relação a Jorge Jesus o procedimento surgiu com naturalidade, dado que já era esperado, não deixa de causar estranheza que também árbitros e delegados estejam sob a alçada disciplinar. Segundo a Lusa, tal deve-se ao facto de a CII da Liga entender que existem indícios de omissão do dever de informação nos respetivos relatórios.
A decisão da Comissão de Instrução e Inquéritos foi tomada com base nos relatórios da PSP e dos delegados, e fundamentalmente através das imagens televisivas dos incidentes. E aqui o principal problema que pode complicar a vida de Jorge Jesus resulta das cenas capturadas pelas câmaras das televisões. Mais ainda: as redes sociais encarregaram-se de passar essas imagens que, desta forma, se espalharam pelo Mundo.
O próximo passo para o apuramento de responsabilidades, ao nível da justiça desportiva, é chamar todos os intervenientes e testemunhas para prestarem declarações. Caso seja provada a agressão, o que é o pior dos cenários em termos disciplinares, Jorge Jesus será suspenso entre três meses e três anos.
Estão, pois, reunidos os ingredientes para se cozinhar um prato altamente picante e, até, tóxico. Os Portugueses, que pouca atenção dispensaram à campanha eleitoral, viraram-se para este tema escaldante. No fundo, estão nas tintas para a política e voltaram-se, como habitualmente para o futebol.
Há muito que esta atenção se verifica a nível da população. Recordo que no tempo do salazarismo existiu um ditado elucidativo: “Quem não é do Benfica não é bom chefe de família”. Complementado de resto por outro slogan cabotino: “A minha política é o trabalho!”
Tal como nas primeiras telenovelas apresentadas na RTP, já lá vão uns bons anos se informava que eram apresentados de seguida “cenas do próximo episódio” Ora este “importantíssimo assunto “ leva ao desencanto quanto às eleições para as autarquias, em detrimento do caricato “Processo Jesus”.
Vamos ver no que isto dá: em primeiro lugar este último; depois, os resultados dos votos introduzidos nas urnas. Já o Estado Novo defendia que em Portugal havia a trilogia dos três F: Fátima, futebol e Fado. Mas o fado que vivemos não é apenas triste: é catastrófico.


domingo, 22 de setembro de 2013

O fim do Mundo e o cozido à portuguesa

Por Antunes Ferreira
OS HUMANOS - com as características que hoje temos - sempre se preocuparam com o fim do Mundo e muitos dentre eles previram e anunciaram como isso ia acontecer e, sobretudo, quando. Essas “profecias” continuamente indicaram a data fatal e fizeram-no para que a Humanidade se preparasse a fim de se precaver contra o cataclismo universal.
Aproveitando mais um falhanço da “previsão” do pastor protestante Harold Camping, que pela segunda vez pressagiava o dia da ocorrência final, a Times publicou em 2011 um curioso trabalho em que alinhavava as dez mais importantes conjecturas alinhadas ao longo da História. Trabalho complexo, simultamente de compilação e de motivo de ironia.
É dele que respigo uns quantos apontamentos, não pretendendo que sejam lidos como um suposto tratado sobre a matéria. Se o tentasse fazer morreria de exaustão, naturalmente antes do fim do Mundo. Na verdade e retomando os “cálculos “de Camping, em 1992 ele anunciara que dois anos depois, ou seja em meados de Setembro de 1994 estaríamos todos no Paraíso ou no Inferno… Penso, no entanto, que nessa data ainda existia o Purgatório e por isso ele também poderia ser o último apeadeiro do comboio do nosso planeta azul.
Face ao desabar da congeminação, ele não descansou e voltou à carga em 2011, desta feita garantindo que não se enganava na data do apocalipse final: 12 de Dezembro de 2012. O diabo é também a decepção foi total. Perante esta segunda “desgraça” o futurólogo decidiu aposentar-se da sua função de anunciador do tal fim e dedicar-se a obras de benemerência ou, quiçá, à pesca, de acordo com fontes idóneas e bem informadas.
 Mas já no século XIX um outro pastor norte-americano,  William Miller, a quem a Time chamou "provavelmente o mais famoso falso profeta da história", se dedicara a essa tarefa, verdadeira terapêutica ocupacional. Ele começou a pregar o fim do Mundo no começo da década de 1840, dizendo que Jesus retornaria à Terra e o planeta arderia em fogo em alguma data entre 21 de Março de 1843 e 21 de Março de 1844. Naufragou.

Faça-se uma tangente pelo mais do que famoso bug dos milénios: na passagem de 1992 para 2000 os computadores soltariam o seu último clique e os homens não poderiam fazer mais do que resignar-se e preparar-se para o Big Bang do fim do tempo. Outra presciência, outra desilusão. O ano de 2000 entrou decidido a dar cabo da antevisão. Nada feito. E até os Maias…

Mas, a que vem este arrazoado?

O fim da Humanidade está em contagem decrescente, revelou há dias um estudo britânico que esclarece que o planeta Terra só será habitável nos próximos 2 350 milhões de anos. Já não é mau. A mim não tira o sono…O cálculo é de investigadores da Universidade de East Anglia, no Reino Unido e foi publicado na revista Astrobiology. Nele, os cientistas explicam que a Terra deverá entrar na zona quente do Sol, acabando assim com as condições de habitabilidade do planeta, uma vez que os oceanos se devem evaporar.

«Haverá uma extinção catastrófica e terminal para toda a vida», disse o diretor do estudo, Andre Rushby, citado pelo Daily Mail. Porém, alertam ainda, o planeta pode deixar de ser habitável antes, daqui a 1 750 milhões de anos, uma vez que o estudo determina que a entrada na zona quente do Sol deve acontecer entre as duas datas milionárias- de anos.
Vá lá acreditar-se em prescientes. É que agora a roca fia mais fino. Não se trata de mais uns aldrabões; são cientistas, ainda que com uns laivos de Nostradamus. Eles não brincam e usaram os mais sofisticados meios para chegarem a uma tal conclusão. Mas, com esta mania de não confiar em ninguém, sequer mesmo da própria sombra, permito-me ter as minhas dúvidas.
Repare-se: eles não afirmam concludentemente que a desgraça acontecerá pelas 19:46 do dia 18 de Março do ano de 235000000. Nada disso: ficam-se por uma indecisão de 600 milhões de anos. Não se faz; mas pergunto: então a ciência não é exacta? Sempre me disseram que sim e eu, ainda que um tanto com um pé atrás, acreditei piamente. E agora, que fazer?
Para já – e escrevo no dia do meu aniversário, 20 de Setembro - não vou marcar nada na minha agenda entre 2350 e 1750 milhões de anos. E embora já o tivesse apontado, nem um cozido à portuguesa.

domingo, 15 de setembro de 2013

Uma lei imoral

Por Antunes Ferreira
COMO DIZEM os Brasileiros - no que respeita à lei que estabelece a convergência das pensões entre o sector público e o sector privado, e que reduz 10% as pensões dos reformados do Estado de valor superior a 600 euros - a coisa está preta. E está. A antiga líder do PSD, e ministra das Finanças e da Educação do Governo chefiado por Cavaco Silva, afirmou no seu comentário habitual no programa Política Mesmo da TVI24 que essa lei é “imoral”.

O (des)Governo chefiado (???) por Passos Coelho avançou com esta medida e muita gente interpretou-a como se ela fosse uma vingança contra o Tribunal Constitucional. De que o (des)Executivo não gosta e Coelho ainda muito menos. Vejam-se os comentários infelizes por ele proferidos no encerramento da Universidade de Verão dos ditos sociais-democratas. Que, de resto, não foram refutadas, nem sequer contestadas.

Pode-se referir que Manuela Ferreira Leite estará a tentar recuperar o facto de ter perdido a liderança laranja justamente contra Passos. A ser assim, bem podemos estar a assistir a passos de dança, onde um parceiro da mesma cor tenta desforrar-se do outro, no caso presente, uma parceira a tentar dar cabo do outro.

Ferreira Leite usou uma linguagem muito dura e cáustica ao referir-se ao assunto, chegando mesmo a dizer que se trata de socializar a classe dos reformados do Estado, deixando uma conclusão acérrima: para ela é uma medida que um  qualquer Governo Comunista não enjeitaria. Mas a economista não se coibiu de acusar quem produziu a lei, afirmando que ela, a lei aprovada na última quinta-feira em Conselho de Ministros  “antes de ser constitucional ou não ser constitucional (…) no ponto fundamental é profundamente imoral. E na política, como na vida, nós, a despeito dos objectivos, temos de olhar aos meios que utilizamos para atingir esses objectivos”.

A antiga presidente do PSD falou mesmo em “leviandade, ligeireza e superficialidade” como esta matéria está a ser encarada pelo (des)Governo, - o parênteses, como sempre, é meu - fazendo ressaltar que o diploma “Agride uns princípios tão fundamentais e tão básicos do que é a relação entre as pessoas, do que é a construção de vida das pessoas, do que é o drama que implica nas pessoas, que não creio que haja o direito de ele ser aplicado sem ser com uma profunda ponderação que deve envolver as forças vivas deste país”.
Mas foi ainda mais longe considerando ainda uma “brincadeira de mau gosto” que esta medida seja apresentada pelo Governo como temporária enquanto o país estiver em crise porque os objectivos do Governo não serão atingidos”. “O único objectivo disto é transmitir ao Tribunal Constitucional que esta é uma medida temporária e não definitiva. Não sei quem acredita nisto”.
Ferreira Leite prevê também que dentro de algum tempo o Governo apresente cortes nas reformas que vão atingir todos e não apenas os aposentados da função pública. “Esta medida é um teste a pessoas que não fazem greve, que não têm representação na concertação social, que não têm nenhuma legislação que os proteja. Mas é evidente que isto não resolve nenhuma reforma orçamental”.
Basta de citações. O ditado que diz que “com amigos destes mais vale ter inimigos” tem aqui plena validade; outro rifão afirma que “zangam-se as comadres descobrem-se as verdades”. Coelho e os seus asseclas estão uma vez mais confrontados com uma castanha que lhes pode explodir nas bocas. E, ainda por cima, daquelas que não se podem tirar das brasas.

Porém, infelizmente, tudo indica que o poder já se habituou a tentar todos os golpes para dar cabo dos cidadãos, começando pelos trabalhadores da Função Pública até chegar aos das empresas privadas. O que quer dizer que é necessário estarmos todos preparados para o que pode ocorrer – e que é plausível que a todos nós, Portugueses, nos bata à porta.  

Que fazer, então? Sendo profundamente pacifista, não descarto a hipótese de aparecer por aí um Buiça ou mais, que comecem a sua tarefa em Belém e a acabem em São Bento, passando por outros locais onde existam (des)governantes. Infelizmente, se tal acontecer, poderemos ter uma guerra civil. Mas também há quem diga que estamos tão mal que esse seria o menor.

Nós, os Portugueses, somos uns sujeitos que no entender do falecido Padre Américo se enquadram no que disse: “não há rapazes maus”. O problema é que logo acrescentaram (e perdoe-se-me o vernáculo): “mas há por aí uns quantos filhos da puta”.