quarta-feira, 12 de março de 2014

'Deu borem dis dium'



Por Antunes Ferreira
Deu borem dis dium. Ou seja, bom dia, em concani.

NA MINHA casa ouve-se o mar, as ondas marulhando a uns duzentos metros, ou seja quase aqui à porta. No quintal mesmo ao lado cresce um coqueiro – olha que novidade – uma árvore que dá pão, uma pãozeira, portanto, uma mangueira e muitas buganvílias. Nuns trezentos metros da minha rua, caso curioso, existem três cabeleireiros, um dos quais unissexo, dois restaurantes, um bar, três ourives, duas agências bancárias, um consultório médico e uma farmácia. Só falta a loja do caju. Mas, não se pode ter tudo. Para todos os gostos, enfim. Frutas pão e mangas ainda não estão prontas como aqui se diz, em vez de maduras que nós usamos em Portugal.
A propósito, abro aqui uma parentética para dar conta de episódio ocorrido em Luanda, quando estávamos por lá. A Raquel tinha tido os partos do Miguel e do Paulo em Lisboa, na clínica de São Miguel, sob o cuidado atento do Prof. Castro Caldas e o acompanhamento posterior pelo primo e padrinho de casamento, Prof. Mário Cordeiro, aliás primo da minha consorte e pediatra de mão cheira. Recordo que fora, em casa dele que tinha descoberto a miúda que viera de Goa alegadamente para estudar na Faculdade de Ciências: Mas, creio que me caçar e depois casar.
Então, na capital angolana onde tínhamos produzido o terceiro descendente ou terceira, na altura não havia ecografias, e quase findos os nove meses habituais, fomos no carrito que comprara, um pequenino Mitsubichi Colt (anos de colonialismo já me tinham permitido entrar pelo desvario…) à Casa de Saúde do SNECIPA onde o/a rebento/a viria ao Mundo. Enquanto a mina consorte – tinha casado comigo, daí o nome – subia ao primeiro andar para mirar a enfermaria, eu ficara no minúsculo boguinhas acompanhado dos dois primeiros infantes: o Miguel com cinco anos e o Paulo com três.
O primogénito era desde sempre o mais crédulo e ingénuo, o seguinte caracterizava-se pela esperteza um tanto saloia, mandando bocas aqui e ali e contestando quase sempre as normas maternas e paternas. E foi o Miguel que me perguntou, ó Pai, onde foi a mãe?, ao que respondi (estávamos ainda nos anos sessenta) que a mãe tinha ido ao local onde iria buscar o mano. Silêncio. Desceu a Raquel com umas trombas elefantinas. É mau? Perguntei-lhe. É péssimo. Nisto, o Miguel, ó mãe então o mano? E o Paul, galharda e convictamente, não vês que ele ainda não estava pronto!!! Fecho o parêntesis.
Voltando à minha rua; é por ela que se chega à praia de Miramar, daí os murmúrios do  Índico. Passa-se pelo colégio Dhempé, antes Dempó, uma enorme instituição mandada construir pelo magnata do mesmo nome. Rapazes e raparigas de todas as classes, desde a primária até aos cursos superiores são fotocópias de todos os estudantes do orbe terráqueo; a mochila é fundamental. E os namoricos vão aumentando, ao invés do que se passava no antigamente.
No fundo da rua – aqui é road em vez de street – está plantado um templo hindu, moderno, onde para as pessoas entrarem têm de se descalçar. O mesmo acontece nos consultórios de médicos hindus, escritórios de advogados e outros. Fui ao estaminé do Dr. Ashish Surlenkar onde ouvi uma estória para dar que pensar, eu conto, o clínico é uns anos mais velho do que a Raquel e conversou com[HAF1] igo num Português escorreito.
Tinha lá ido por via de um problemazito intestinal, nada de grave, e depois ficámos a conversar e fiquei sabendo que ele completara o curso na Escola Médica de Goa e pretendia depois ir para Lisboa fazer uma série de cadeiras para a equiparação, “quando aconteceu aquilo, a libertação , como aqui dizem…” Pasmei. Da boca de um hindu ouvir uma tal frase, 53 anos depois dos acontecimentos de Dezembro de 61, deixou-me espantado; mas calei-me e começámos a falar do Benfica, como bom sportinguista retorqui-lhe, rimo-nos – e não me cobrou  a consulta , aliás seria caríssima , 2,2 €…
Do outro lado da marginal que une a capital a Miramar, há mais um restaurante, o Foodland (do Turismo de Goa) e também hotel, uma pastelaria, a Canapé, grupo   hoteleiro de grande dimensão que existe por todo o estado. É, por conseguinte, uma rua muito importante, onde os pregões das peixeiras, vendedoras de hortaliças, vendedores de baldes e outras alfaias de plástico, se misturam com a buzina da bicicleta do padeiro. Que, vejam lá, começou a entregar o pão à nossa porta quando viu a minha mulher com um pé elástico. Gentil, o homem. Gentil, o procedimento.
É, como já compreenderam, uma rua com pedigree. Embora com poucos passeios, o que em Goa é absolutamente natural, são os que sobrevivem às monções e nos quais é mais perigoso  peotonar do que na beira da road, vincando olimpicamente o destemor do cidadão e confiando na boa vontade e na falta de pontaria dos condutores. Estes, além disso, são verdadeiros malabaristas, funâmbulos num tráfego diabólico e ao som triunfal das buzinas de todas as espécies, tonalidades, decibéis et aliut. Há passadeiras, é certo; mas pouco falta para multar os temerosos que as tentem utilizar para atravessar uma qualquer road.
Porquê uma tal opção galharda e valente? Os suspeitos passeios, esses sim, são um perigo constante, armadilhados, traiçoeiros, esventrados. As monções têm as costas largas. As chuvas são permanentes, ou quase, de acordo com fontes fidedignas e presenciais e as alturas das águas atingem por vezes os 30/40 centímetros; donde os lancis são altíssimos, onde alpinistas conceituados teriam o maior êxito. E as sarjetas, entupidas até mais não, recusam-se honestamente a escoar o OH2 pluviométrico e sujo.
Fico a imaginar a saga trágico-marítima dos riquexós durante a estação chuvosa. Penso até que veículos tão prestimosos deverão nessas ocasiões possuir como equipamento adicional  - boias. Para flutuar, está visto; mas também de salvação. A propósito, no princípio da minha rua há uma praça desses triciclos pretos e amarelos, fabricados por uma tal Bajaj que deve ter resultados espampanantes, a julgar pela miríade de tais engenhocas rodoviárias que quais enxames se espalham por todo este imenso subcontinente, Goa incluída, como é óbvio. O CEO dessa frota já nos conhece e apenas chegamos, faz-nos sinal para aguardarmos do nosso lado, que o riquexó mais próximo atravessa a road e vem tomar-nos como passageiros.
E até já não é preciso acertar previamente o valor da corrida, prática costumeira: daqui a Pangim são setenta rupias. E se o digno condutor é goês e ouve que a passageira é também patrícia, de Raia, então, sessenta. Já estou convencido de que, perante esta prática deve haver uma maçonaria dos goeses. Mas, claro, não o digo, guardo a convicção no mais recôndito de mim e ando de riquexó a preço regional. Sou um pacló, um branco, bem o sei, mas a minha patroa é de Salcete no Sul, gente boa, e o condutor também é daqueles lados, quase vizinho. Não são como os de Bardez, deus os criou mas mal fez…
Na frente da minha casa (que é um apartamento porreiríssimo, como já disse) estão os Bobby Apartments, num segundo andar dos quais vive uma família de pai, mãe, filha (uns 13 anos) e filho (talvez uns dez). O chefe tem uma vespa, da marca Hero, indiana como o sari. Há-as aos montes, no caso presente os Gates, de todos os modelos, feitios, cores e sei lá que mais. Fazem parte da ciclópica família Motobike, incluindo-se nela motorizadas e motos. Ontem, vi-os sair, aperaltados – por certo iam a casamento, baptizado, quejandos. Os quatro na Hero. Já vi seis. Estes nossos vizinhos são comedidos.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

GRALHAS SEM GRALHAS

Por Antunes Ferreira 
Ontem, caí ou melhor recaí na asneira, feiras: fui à Feira do Algodão, era o último dia do certame que decorreu aqui mesmo ao lado, ou seja a uns quatrocentos metros da rotunda de Gaspar Dias, que hoje é Daias. O i é ai, como se recordam os que têm umas luzes ainda que incipientes do English do terceiro ano do liceu. Incauto mas paciente ouvi relatar as maravilhas apresentadas, a magnífica oportunidade de comprar mais barato, o último dia é a ocasião indicada, os feirantes estão a tentar despachar a mercadoria antes de emalar a trouxa. Fui. Fomos. 
De acordo com a Indira – a Costa, esposa do Carminho, colega da Raquel no Liceu Nacional Afonso de Albuquerque, já desaparecido, ou seja no plural, o Capitão-Mor e o liceu – esta era muito diferente das outras por que eu já passara e por isso não valia a pena torcer o nariz. Guardei, portanto, para outra oportunidade a torcedela. Confesso: pequei, sem perdão nem bula. À primeira, cai quem quer – mas à nonagésima segunda só os burros ou os distraídos. Por mais que me digam o contrário creio que me considero integrando o grupo último… 
Já estivera, ao longo dos muitos anos em que venho andando por Goa, em outras feiras, também com algodão, mas não só, e tiradas a papel químico (deve ainda haver gente que se recorda do que é) umas das outras. Para dar um exemplo, junto, apenas, umas quantas: Anjuna, Arporá, esta nocturna, Margão, Mapuçá. Já chega, não necessito de explicar que se trata das localidades onde elas decorrem. Mas, esta é diferente neste particular. Acontece no Campal, antes mesmo de Miramar e a caminho de Dona Paula. Ou seja na zona chique de Pangim. Feira fina é realmente outra coisa. 
Uma feira é uma feira, aqui ou na rotunda do Relógio, em Kuala Lumpur, Banguecoque, Bruxelas ou em A dos Cunhados. Muitos vendedores, bastantes candidatos a compradores, mirones em barda, um que outro agente da autoridade, honestidade 9,6%., marosca 54,7 %, ingenuidade 41,7 % e outros componentes com as percentagens correspondentes ao método de Hondt. Ressalve-se um que outro caso e creio que este , não sendo excepção, é pelo menos paradigmático. Uma feira, por aqui é um mundo de mini pormenores, ainda que não sejam surpresa. 
As coisas não são tão simples como parecem. Por vezes, o estofo das pessoas é pior do que o dos bancos dos automóveis com o prazo de validade ultrapassado; mas no caso em curso não se pode dizer que a Feira do Algodão fosse uma decepção. Além dos tecidos propriamente ditos, incluindo os saris multicolores , havia uma panóplia de artigos diversos de espantar um santo ou o Vishnu que é mau como as cobras. De resto, este deus tem enroladas ao pescoço, aos braços e correlativos diversas serpentes. A figura é porém adorada não vá os ofídios tecê-las. 
As senhoras estavam nas suas sete quintas, isto é várzeas, não havia expositor que lhes escapasse. O grupo era constituído pelas já citadas Raquel e Indira Costa, e também pela Tina Viegas, esposa do Ivo, outro colega da minha caríssima metade. Apalpavam os materiais expostos, este algodão é tão suave que mais parece seda, as cores parecem seguras, por vezes a tinta é um tanto suspeita, kitlé (quanto é) aqui, kitlé acolá, com muitas discussões de preços, muitas vezes usando os vendedores máquina de calcular para que não haja enganos - sempre lamentáveis. 
Coabitando com o algodão, há cabedais diversos, carteiras de couro verdadeiro, não é plástico, veja, isqueiro aceso na pele curtida do animal não arde, bugigangas em metal amarelo – abundam os budas, os elefantes, as lâmpadas, os crocodilos, os ganeshes e os cristos e até a Senhora de Fátima . Pulseiras e colares, nem falar, tantos são. Na banca ao lado há os produtos artesanais de Cachemira, os papiê-machês, as caixas, as caixinhas, os sahkris (as gôndolas do lago Dal) e, desafiando o nome do certame, as sedas polícromas:; só faltam as house.boats (as casas barcos) certamente por falta de espaço. E o haxixe, pelo menos às claras. 
Recordo-me de, já lá vão uns bons anos, em Shrinagar, uma das duas capitais do estado que continua a ser discutido entre a Índia e o Paquistão, o ministro chefe (primeiro ministro só no Governo Central), Sheique Abdalah , durante um almoço que me oferecera, me perguntou se eu já tinha experimentado o haxe. Respondi-lhe que não, nunca me metera em tais assados, ao que ele me respondeu que dois ou três cigarros por dia não faziam mal, bem pelo contrário, até davam saúde. Tente, tente, recomendara-me - mas eu não tentei. Feitios.
Fechada a parentética, volte-se ao mercado. De seguida havia os brinquedos de madeira, os patos que grasnam quando “andam” nas suas quatro rodas, as galinhas que põem ovos, os reco-recos, os piões, convivendo com as cordas de saltar com punhos no material lenhoso, as casinhas regionais, os jogos educativos, até um ábaco elementar, para os putos aprenderem a fazer contas e compras. Singularmente descobri um triciclo, todo de pau polido e uma scooter desta feita pintada. Aliás, motos, motociclos, scooters e correlativos são mais do que as mães nas ruas e estradas.
A peregrinação feminil arrastava-se por via das buscas minuciosas, das negociações fiduciárias, das comparações algodonais, das cores, dos acabamentos dos saris, dos seus bordados, penso que este é mesmo a fio de ouro (não é, mas parece), das blusinhas do vestuário tradicional da Índia e dos modelos cristãos, vestidos, saias, blusas, calças para senhoras, e ao invés do calçado típico, sapatos de corte ocidental, sandálias e até botas de tacão alto. Uma inundação de roupas e sapatos que nem vos conto.
Ah, já me esquecia da Valentina Tereskova, uma jovem russa que sabia dizer ok e thank you em inglês e pouco mais - mas que era o que podem ver na gravura, nela acompanhada por uma miudinha que “adoptara “ a termo certo. Isto explicou-me o nosso condutor privativo desde há sete anos, o Premanand em tradução livre do infantil concani ou konkani como agora se escreve. O Premanand já faz parte da mobília (e da família), é hindu, casado, com uma filha que vamos conhecer em breve. A cara-metade, essa , já a conhecêramos há dois anos.
Repetiam-se as doses para gentlemen de todas as cores e feitios a condizer com a cor da pele de cada um. Eu abstive-me, pois já mandara fazer, naturalmente por medida dois fatos de meia estação, umas calças e quatro camisas de manga comprida que me tinham custado a enormidade de 230 euros, mais cêntimo, menos cêntimo, o que me parecera caríssimo, a vida é feita de alegrias mas também de contrariedades, 
Resumindo. Vim para fora do enorme pavilhão da feira, com mais de setenta ventoinhas, pelo menos as que contei sem garantia. Para não vir de mãos vazias comprei um cinto King Kong size, ou seja a minha medida, o que é difícil de encontrar. Três euros e poucos cêntimos de cabedal. Acabei assim a minha Feira. Não acabei, não senhor. À saída encontrava-se um vendedor de aperitivos diversos, mas com um denominador comum: o picante. Adquiri uns quantos de cinco qualidades, 300 gramas cada saco de plástico pesado cuidadosamente em balança de Robervale. Um euro e oitenta cêntimos – uma gastadeira.
As senhoras saíram, comentando as mercas e porque torna e porque deixa e etc. Jurei, para mim mesmo, acautelando a minha integridade física arriscada por possível agressão marital, que não voltaria a cair na esparrela feiral. Decisão irrevogável-temporal. Até à próxima feira.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Lisboa, Reino do Absurdo

Rua de São Ciro - 30 Nov 2013
Apesar de ser sábado, dia de estacionamento gratuito, este condutor prefere ocupar o passeio. De caminho, ele (e outros como ele) vão destruindo a calçada...

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

No Reino do Absurdo

Esta zona (as 2 esquinas da Av. de Roma com a Conde de Sabugosa) foi intervencionada pela autarquia, com alteração do pavimento (substituição da calçada por cimento). 
Há quem diga que é para ajudar os cegos. Pois bem; cego é quem não vê situações como a destas imagens - para já não falar do escândalo monumental que é a impunidade - permanente e absoluta - do estacionamento em cima do passeio na esquina oposta (junto ao n.º 1 da Rua Frei Amador Arrais), que dura há anos e anos!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O (ex) tiro de Draghi

Por Antunes Ferreira
Debaixo dos pés levantam-se os trabalhos. O acerto deste ditado é total no que respeita ao tema dum programa (chame-se-lhe o que se quiser, desde cautelar até segundo resgate) que não se vê bem onde e quando parará. O (des)Governo começara a embandeirar em arco e, de repente descobriu que metera água – e de que maneira.
Não adianta tecer mais comentários sobre o que foi o tiro de Mario Draghi ao declarar em Bruxelas que o nosso país vai precisar de mais um programa quando o actual programa de resgate terminar, de tal forma ele atingiu o porta-aviões de São Bento, os submarinos de Portas, a nau Catrineta do Imóvel de Belém que os vai levar a naufragar, para não dizer mesmo, a ir ao fundo.
Nestas coisas de batalha naval nunca se sabe quando o adversário atira a matar. Normalmente, ele faz movimentos exploratórios antes de dispara os canhões e/ou os torpedos de que está munido. É uma chatice, mas delas está a vida cheia e o Mundo também. Mais ou menos como os indispensáveis que, naturalmente enchem os cemitérios.
Mas, não há nada melhor do que realmente e as armadilhas da sorte estão sempre prontas a enterrar o desgraçado que nelas cai. Tome-se como exemplo, o texto que se segue, publicado na edição on-line do “Público” de segunda-feira, que cada vez mais é um órgão da comunicação social que ganhou o seu espaço e agora defende-o tenazmente. O que também é muito natural…
“Os mercados já estavam a dar como certo que Portugal não ia precisar de um segundo resgate. A questão que se colocava nesta altura era saber se Portugal iria ter um programa cautelar ou se, eventualmente, conseguiria uma ‘saída limpa’ da troika como conseguiu a Irlanda. Aliás, ainda ontem, na conferência para a apresentação dos resultados da décima avaliação, Maria Luís Albuquerque e Paulo Portas fizeram questão de mostrar que as duas portas ainda estavam abertas. O problema é que a seguir à conferência chegavam notícias contraditórias de Bruxelas, onde Mario Draghi estava a ser ouvido na Comissão de Assuntos Económicos e Monetários do Parlamento Europeu. A uma pergunta do eurodeputado do CDS-PP Diogo Feio, o presidente do Banco Central Europeu veio dizer aquilo que poucos esperavam que dissesse: que Portugal vai precisar de mais um programa quando o actual programa de resgate terminar. Draghi não especificou os contornos desse novo programa – que se supõe ser o tal cautelar –, mas a afirmação vem fechar as portas para que Portugal possa ter a tal ‘saída limpa’, isto é, sem a ajuda de terceiros. As palavras de Mario Draghi não deixam de ser um balde de água fria para o Governo e, a esta altura, o próprio Diogo Feio já estará arrependido de ter feito a pergunta. Ao pôr de lado o cenário de uma saída ‘à irlandesa’ de uma forma tão precoce, Mario Draghi está a dar um mau sinal para os mercados. Ou seja, nem ele próprio parece acreditar que daqui a seis meses os juros de Portugal já estejam a níveis que permitam ao país um regresso tranquilo aos mercados. É uma daquelas profecias que correm o risco de se auto-realizar, já que os nossos credores vão questionar-se: "Se Dragui não acredita, porque haveríamos nós de acreditar?". É caso para dizer que Draghi, no mínimo, falou fora de tempo.” 
Entretanto, e já hoje, Draghi afirmou que as autoridades portuguesas é que decidirão sobre um novo programa, depois de ontem, segunda-feira, ter garantido que Portugal teria um programa após o actual resgate. "Cabe exclusivamente às autoridades portuguesas decidir sobre um possível novo programa", disse o presidente do Banco Central Europeu numa nota enviada às redacções, em resposta às muitas questões levantadas sobre as suas afirmações de ontem no Parlamento Europeu.
O alarme “às baleeiras” regrediu: nenhum navio tinha ido ao fundo, muito menos em vias de isso acontecer. O manda-chuva italiano do banco que manda nos euros, entende que se houver um alerta ele resultará dos pulhas dos jornalistas que distorcem sem dó nem piedade as afirmações que fez e das quais há registos que testemunham que as… fez. A comunicação social usa e abusa da gente séria, prática que se tornou recorrente. 
Estamos perante um facto raríssimo: o BCE copia o (des)Governo português. Este distinguiu-se ao ter de manhã uma qualquer opinião, à hora de almoço outra contrária à matinal e ao jantar servir mais uma que não correspondia nem à primeira, nem à segunda. A cópia feita por Mario Draghi é menos emocionante: ontem dissera uma coisa, hoje, perante a gaffe veio informar que o que ontem afirmara não era exactamente assim… Ou seja, copiar é uma coisa, plagiar é outra; mutatis mutandis: plagiar é uma coisa, copiar é outra.
Entrementes o suposto primeiro-ministro, antevendo mais um plausível chumbo dos malandros do Tribunal Constitucional, reafirmou que o seu (des)Governo não tem um plano B para aplicar, mas revelou que a 10.ª apreciação da trica, ops, da Troika correra bem (Portas e Maria Merkel Luís já o tinham feito numa consonância quase perfeita), mas no caso de … a única forma de cumprir o acordo com as três sinistras entidades era… aumentar os impostos, o que atrasaria a alegada retoma da Economia.
Coelho ou quer classificar os Portugueses, para além de maricas, completamente obtusos, ou ameaça com mais impostos. É cada vez mais o vampiro que suga o sangue (e a linfa) de nós. Estamos, na verdade, perante mais um passo no caminho da chantagem que se vem fazendo sobre os juízes do Palácio Ratton, ainda que tentando disfarçá-la de forma canhestra, como o gato escondido mas com o rabo de fora.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Mordomias e bananas

Por Antunes Ferreira
NA PASSADA quinta-feira pudemos confirmar o que já sabíamos: em Portugal há filhos e enteados. Naturalmente que era do conhecimento público que isso acontecia nos mais diversos sectores da sociedade e em especial no que concerne à política. Que no caso vertente é mais Pulhítica, o que lamentavelmente já se tornou corriqueiro. No entanto, agora, essa duplicidade maniqueísta teve confirmação oficial, ou seja em termos de lei.
Não sendo totalmente motivo de preocupação, tanto mais que continuamos denodadamente a manter o cinto apertadíssimo – ainda que, graças ao esplêndido (des)Governo, já tenhamos saído da recessão técnica e portanto nos sintamos muito aliviados, ela dá que pensar que, pensar pensamos ainda não é proibido. Em época de crise (ou terá também ela saído dessa recessão técnica que, confesso o meu pecado, não sei bem o que é, mas de forma tão sigilosa que nem deu para entender a subtileza?) os políticos da Madeira, nomeadamente governantes e deputados regionais, vão continuar a acumular a pensão de reforma com a remuneração do exercício do cargo.
Convém que apresente um ponto de ordem à mesa – neste caso do Orçamento. E porquê? Porque a proposta de lei do Orçamento de Estado para 2014 proibia os titulares de cargos políticos das regiões autónomas de continuarem a acumular reforma com vencimento, em consonância com a regra que vigora no Continente e nos Açores. A proposta do Governo, no seu artigo 76º, alterava a lei 52/A/2005, passando a incluir os membros dos órgãos de governo próprio das regiões autónomas e os deputados às assembleias legislativas regionais na lista dos titulares de cargos políticos sujeitos ao novo regime relativo a pensões e subvenções.
Mas eis que providencialmente em sede de comissão especializada, os actuais governantes e deputados madeirenses foram excluídos da proibição que atinge, entre outros, o alegado PR, ou seja o Imóvel de Belém e a insigne presidente da AR Assunção Esteves, a tal que considera que manifestações nas galerias do Parlamento são crime.
Este regime de excepção em todo o país vai continuar a privilegiar o presidente do governo madeirense, Alberto João Jardim (PSD), o presidente da Assembleia regional, Miguel Mendonça (PSD), a secretária do Turismo, Conceição Estudante (PSD) e a vice-presidente do parlamento, Isabel Torres (CDS). Maximiano Martins (PS) recusou a benesse, decidindo doar o seu vencimento de deputado a instituições de solidariedade.
Desnecessário se torna, pois, mais qualquer explicação da dupla cada vez mais famosa Filhos & Enteados, S.A. Metendo a mão na consciência - podem não acreditar, mas ainda uso disso -, há algo de errado na qualificação de Sociedade Anónima, que, pelo contrário é perfeitamente nominal. Basta ver os nomes constantes do parágrafo anterior para entender a correcção. É certo que estes não entram em lista inserida na lei; mesmo assim, são uns felizardos.
Curiosamente, a iniciativa de alterar o artigo 76º da proposta orçamental partiu dos quatro deputados da Assembleia da República que representam o PSD-Madeira, que alegaram que a matéria do estatuto remuneratório dos governantes e deputados madeirenses “é da reserva da iniciativa da Assembleia Legislativa da Madeira, não podendo ser objecto de lei ordinária”, Guilherme Silva, Hugo Velosa, Correia de Jesus e Cláudia Aguiar propuseram a não inclusão dos titulares de órgãos de governo próprio das Regiões autónomas na proibição de acumular a pensão com a respectiva remuneração do exercício do cargo.
A discussão dos Orçamentos tem sempre aspectos muito peculiares; veja-se como as coisas decorreram. Posteriormente, em substituição do aditamento defendido pelos quatro deputados madeirenses, os lideres parlamentares do PSD e CDS/PP, Luís Montenegro e Nuno Magalhães,  subscreveram uma proposta de eliminação,  segundo a qual os actuais governantes e deputados regionais, embora incluídos no regime nacional, poderão continuar a acumular os dois valores “até a cessação do mandato ou ao termo do exercício daquelas funções”. Na votação na especialidade, esta proposta  foi aprovada com os votos dos dois partidos da coligação, os votos contra do PS e a abstenção do PCP e BE.
Victor Freitas, o líder do PS na Madeira classificou de “inaceitável e eticamente reprovável” a cedência do PSD e CDS, considerando um “escândalo nacional” que a coligação valide “benefícios pessoais do presidente do governo regional”. E acrescentou que era lamentável que os deputados do PSD eleitos por esta região tivessem trocado “o seu voto a favor do Orçamento pela manutenção da acumulação do salário com a reforma do dr. Jardim”.
Mas as coisas não ficaram por aqui. Em protesto contra a alteração à versão inicial do Orçamento de Estado para 2014, o deputado regional do PND, Hélder Spínola, anunciou para ontem uma iniciativa na Assembleia da República. “Como agradecimento pelo favor prestado na manutenção de uma mordomia que representa para Alberto João Jardim mais de dez mil euros por mês”, ele ofereceu um cacho de bananas da Madeira ao grupo parlamentar do PSD.
Pelo menos, daqui se deseja que as bananas sejam da Região Autónoma da Madeira.

sábado, 30 de novembro de 2013

Francisco e o poder

Por Antunes Ferreira
AS DECLARAÇÕES, práticas e decisões do Papa Francisco têm provocado as mais diversas opiniões dentro e fora Igreja Católica Apostólica e Romana. Parecendo ser uma verdade do amigo Banana ou de Monsieur de la Palice, a verdade é que não é. O que disse, por exemplo, sobre os homossexuais veio abanar um dos pontos de honra do Vaticano: ele tem vindo permanentemente a considera-los pecadores.
O primeiro cardeal do continente americano e oriundo dos jesuítas de seu nome Jorge Mario Berglogio, de acordo com uma senhora Amália que namorou quando adolescente, tinha pedido a sua mão e, em caso de recusa, seria padre. E a Papa chegou, escolhido ao segundo dia do Consistório, mais precisamente a 13 de Março deste ano que está prestes a terminar. E logo na sua primeira aparição aos fiéis que enchiam a praça de S. Pedro, deu uma indicação de algo iria mudar na Santa Sé: apareceu à varanda usando apenas a batina Branca.
Tudo o que a seguir viria a acontecer demonstrou que Francisco (escolheu em homenagem ao santo dos pobres, S. Francisco de Assis) trilhava novos caminhos para religião católica. Despoja do que considerou o excesso de pompa, decidiu morar na residência dos cardeais quando estes se deslocam a Roma. Para não estar só, disse então, pois precisava de gente para conversar, trocar ideias, em última análise, pessoas com quem queria conviver.
Daí em diante esforçou-se numa conduta para demonstrar essas intenções, o que para o ramo mais conservador da Igreja começou a parecer um exagero. Porém, por outra facção mais liberal foi entendido como um reformador. O povo dos fiéis achou-o simpático, simples, com quem se podia conversar; o episódio do seu telefonema para um jovem que lhe enviara uma carta, transformou-o num Papa aberto, civilizado, actualizado.
No entanto não se pode esconder que o marketing tem cada vez maior importância no Mundo. E os que o organizam no Vaticano sabem o que estão a fazer. Uma figura constrói-se à volta de quem tem condições para isso. Francisco tem-nas. Facilitou assim o trabalho dos especialistas. Mas, simultaneamente, começou a correr que era demasiadamente “incómodo”. E de pronto se apontou o Papa João Paulo cuja morte continua a provocar as mais diversas especulações resumíveis numa pergunta: teria sido eliminado, assassinada para bastantes investigadores?
De repente, Francisco divulgou o primeiro documento importante de seu pontificado, a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho). Ao longo de 84 páginas, o papa faz um apelo à protecção dos cristãos nos países muçulmanos, condena os excessos do capitalismo financeiro e defende reformas na Igreja Católica. Mas, por outro lado, continua intransigente em relação a questões como a ordenação das mulheres e o aborto.
No texto, o papa exorta os líderes das principais potências mundiais a lutar contra a pobreza e as desigualdades geradas pelo capitalismo financeiro, que ele chama de "nova tirania invisível". Ele denuncia "a nova idolatria do dinheiro" e um sistema económico que causa "exclusão". O papa sublinha que "o dever dos ricos, em nome de Cristo, é ajudar os pobres".
"Não é possível que um idoso obrigado a viver na rua morra de frio na indiferença de todos, enquanto dois pontos de alta na bolsa de valores se tornem manchete nos jornais", escreve o papa num capítulo dedicado aos desafios globais da actualidade. "A desigualdade social é a raiz dos males da sociedade", afirma. Pode assim sintetizar-se este “programa de governo” numa frase do texto: quando acenta que o sistema económico criou “algo de novo: os excluídos não são explorados, são desperdícios, lixo”.
"Enquanto os problemas dos pobres não forem radicalmente resolvidos por meio da rejeição da autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira, e pelo ataque às causas estruturais da desigualdade, nenhuma solução será encontrada para os problemas do mundo ou, nessa matéria, para quaisquer problemas", ainda escreveu..
O papa argentino pretende renovar a Igreja, mas apenas até certo ponto. Há temas, como atrás se refere: são intocáveis, por mais liberal que seja a “reforma” preconizada: o aborto e a ordenação das mulheres. E mesmo a discussão entre os católicos,  de forma organizada, dos mais variados assuntos da religião foi encarada – e é – por muitos deles que torceram o nariz perante a iniciativa papal. Receiam que se esteja a demonstrar o mons parturiens. Ou dito de forma diferente: tanta publicidade na inovação para no fim continuar o mesmo produto, ou seja tudo como dantes.
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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O Marcolino (*)

CONTINUANDO a abordar temas da actualidade nacional, dificilmente se poderá fugir ao tema da moderna insegurança urbana. E, de facto, neste espaço tem-se falado de criminosos comuns, de condutores que se comportam como assassinos, da forma como a Justiça lida com o problema, etc. etc. E, evidentemente, tem-se procurado dar destaque aos esforços que o Salvador faz para pôr ao serviço da Lei e da Ordem os seus conhecimentos tecnológicos.
Há dias fui dar com ele, sentado na leitaria da D. Deolinda, nervoso, a fazer estranhas pesquisas na Internet. Vi, de longe, que o monitor apresentava gatafunhos e mais gatafunhos, uns mais feios do que outros, e não resisti a perguntar à dona da loja (para não interromper o Grande Consultor) se sabia o que é que se passava.
- Não o incomode agora! Sabe? É que o afilhado parece que anda com problemas com a Justiça e ele está a informar-se sobre crimes.
Fiquei gelado! Apesar de não conhecer o rapaz, a situação não era nada agradável. Resolvi, então, ficar por ali perto, folheando umas revistas, até se proporcionar o momento certo para me intrometer no assunto. Finalmente, o Salvador lá reparou em mim, e chamou-me para ao pé de si, não alterando – nem sequer procurando disfarçar - o seu ar preocupado.
E passou a explicar:
- Trata-se do Marcolino, o meu jovem afilhado que tem a mania que é artista... Mas até agora só deu em pintor de paredes! Anda a encher a cidade com a sua bonecada, e nem o facto de ter várias páginas na Web o salva de ir parar à prisão. Não leste a entrevista do homem que foi Mayor de Nova Iorque e que sugere que se prendam os artistas como o Marcolino?
De facto lera, e a coisa podia ficar feia para o rapaz. O Salvador, suspirando, desligou o computador e saímos. Mas o certo é que há coincidências engraçadas, e logo fomos encontrar o Marcolino, encostado a uma parede, pensativo. Estava em frente à Fundação Gulbenkian e uma lata de spray espreitava do bolso direito das calças.
O Salvador apresentou-nos, conversámos um pouco, e eu  tive uma ideia fabulosa: levei a conversa para a arte, e, como quem não quer a coisa, convenci-os a irem comigo a ver «a verdadeira arte», na exposição permanente da Fundação. Mas, face ao desinteresse do Marcolino, a breve trecho estávamos cá fora... Porém, não desistindo, arranjei forma de nos encaminharmos de seguida para o edifício anexo, o Centro de Arte Moderna. E, desta vez, sim! O nosso jovem saiu de lá com um sorriso nos lábios! Alguma coisa lhe dizia que, ali por aqueles lados, a sua arte seria compreendida!
Mas confesso que fiquei preocupado quando, já na rua, o Marcolino quis voltar atrás, fascinado com a brancura de alguns pilares e paredes do Museu...
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(*) - CMR - Revista Valor – 31 de Maio 2001
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NOTA adicional: seguem-se alguns dos desenhos que o cartoonista José Abrantes fez para ilustrar as histórias desta personagem.
 

sábado, 23 de novembro de 2013

O desnorte


Por Antunes Ferreira
QUINTA-FEIRA passada foi um marco no desnorte do (des)Governo. Foi o que pode considerar um dia horribilis. Se se entendesse necessário encontrar uma justificação para o que acaba de afirma, bastaria referir que nunca se tinham verificado em Portugal tantos desencontros na maioria parlamentar, no (des)Governo, na Presidência da República, na União Europeia e no Fundo Monetário Internacional. Resumindo: cada cabeça, cada sentença.
O dia começou mal, com o ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares a lamentar que nem sempre o que afirmam os responsáveis máximos dos organismos internacionais coincida com o que os técnicos da Troica depois defendem nas reuniões em Portugal. Pouco faltou para que Marques Guedes lançasse uma advertência à entidade de três organismos que vêm governando o nosso país: Falem em consonância, porra! Não o disse, mas se me  permitem extrapolo.
Nessa quinta-feira trágica o Comissário Europeu dos Assuntos Económicos Oli Rehn tinha dito que está na altura dos Estados Membros começarem a abrandar a austeridade e o ritmo de consolidação orçamental, dando como exemplo Portugal, e concentrar-se em políticas que promovam o crescimento da economia e do emprego.
Mas também o FMI foi objecto da crítica do (des)governante  que afirmou que “Já ouvimos a presidente do FMI várias vezes pronunciar-se sobre a necessidade de abrandar e de alterar o programa de austeridade dos países sob ajustamento, mas depois a atitude dos técnicos do FMI e dos relatórios do FMI sobre a matéria dizem rigorosamente o contrário daquilo que é dito nas entrevistas pela presidente do FMI”.
Entretanto em Bruxelas a União desconfiou dos números do défice e do desemprego apresentados pelo (des)Executivo, passando assim um atestado de incompetência ao Instituto Nacional de Estatística. Zangavam-se as comadres descobriam-se as verdades. Mas, os ataques à politica de austeridade não ficaram por aqui, muito longe disso.
Já à noite, na reunião das esquerdas promovida por Mário Soares sob a defesa da Constituição da democracia e do estado social, as referências feitas pelo ex-Presidente ao actual ocupante do Palácio de Belém, levaram ao rubro a sala da Aula Magna da Universidade de Lisboa. O antigo secretário-geral do Partido Socialista não esteve com paninhos quentes: “É por isso que digo que o Presidente e o Governo devem demitir-se, enquanto podem ainda ir para suas casas pelo seu pé. Caso contrário, serão responsáveis pela onda de violência que também os atingirá”.
E singularmente quase na mesma altura a manifestação das forças de segurança, desde a PSP às polícias municipais, passando pelos Serviços de Fronteiras, agentes da Polícia Judiciária e GNR, rompendo as barreiras de segurança subiu em sinal de protesto a escadaria da Assembleia da República protestando contra o ataque de vinham sendo alvo do (des)Governo.
E um destacado representante das associações sindicais que convocaram a manifestação sublinhou também a falta das condições de segurança originada pelos sucessivos cortes que se verificavam e dando o seu aviso de que em 2014 com o OE que já estava em discussão no Parlamento as coisas seriam ainda piores. Foi a maior que algum dia se verificou dos elementos das forças de segurança. Que terminou pacificamente. O que motivou a “felicidade” de Assunção Esteves, presidente da AR.
O mesmo já não aconteceu ontem, sexta-feira. O superintendente Paulo Valente Gomes, Director Nacional da PSP colocou o lugar à disposição “na sequência dos acontecimentos ocorridos ontem (quinta-feira) em frente à Assembleia da República”, informou através de uma nota do MAI enviada à comunicação social. O ministério acrescentava que Miguel Macedo tinha aceitado o pedido de demissão e que ia “iniciar o processo tendo em vista a designação de um novo Director Nacional” da PSP.
Um pot-pourri desta dimensão é mais do que preocupante. Até porque, na Aula Magna também estiveram altas patentes militares. Ocorreu-me até o que se passara na revolução de Outubro na Rússia e que conduziu à eliminação do czar e de quase todos os Romanov e originou a criação da falecida URSS. Exagero, talvez. Mas, convém não esquecer que quem semeia ventos colhe tempestades.

sábado, 16 de novembro de 2013

"A Spielberg case"

Por Antunes Ferreira
EU BEM SUSPEITAVA que transportava comigo uma segunda derme, perfeitamente acoplada à pele, talvez mesmo indissociáveis ambas. Especifico: à minha pele; ou seja à minha epiderme. A este propósito e antes de me alongar (prometo que me encurtarei), venha a clássica consulta à Wikipédia. epiderme (do grego Επιδερμίδα epi+derme; em cima da pele) é a camada mais superficial da pele, ou seja, a que está directamente em contacto com o exterior. É um epitélio escamoso estratificado que actua como importante barreira do corpo em ambientes inóspitos, protegendo a pele contra infecções, perdas de calor e outras, nomeadamente em partes mais sensíveis, contra traumas.
Mas nunca pensei que essa duplicidade dérmica fosse suficientemente evidente para que outras pessoas a descortinassem. Como andava enganado? Aqui há uns dias, por obra de amigo comum, reencontrei o Ilídio Guedes, meu companheiro até à quarta classe (quando a havia). Daí para a frente nunca mais puséramos os olhos em cima dos outros do outro e vice-versa. Foi uma alegria, podem crer. Mas, depois, uma ansiedade, para terminar numa completa desilusão. Palavra puxa palavra, frase puxa frase e a dada altura, surdiu a clássica… e como vais de amores?
Dado que o autor confesso da inquirição era (ou fora) da minha inteira confiança, respondi-lhe que estava casado quase há cinquenta anos, ao que o Guedes me perguntou, com um ar de espanto afivelado na face, e sempre com a mesma mulher? Perante a minha anuência, o camarada olhou-me de alto a baixo e desfechou, fala-se muito em study cases, que se dividem em muitas alíneas, mas o teu caso é realmente como o lince da Malcata, ou seja em vias de extinção. Visto que eu persistia na imobilidade esbugalhada (característica que é apanágio do chamado Presidente da República em Belém) Ilídio acrescentou  que o meu era um verdadeiro Spielberg case pois eu me aproximava muito de um dinossauro, mais precisamente do anquilossauro.
Nesta altura da ocorrência, costumam as autoridades deslocar-se ao local onde ela se verificou. E esta era precisamente um bom exemplo da presença de agentes devidamente uniformizados que oportunamente iriam dar, supostamente, conta do que acontecera face à espinhosa situação de eu, ainda que subtilmente, possuir duas peles, duas dermes, até mesmo duas cútis. Interrogar-me-iam, por certo, sobre esse estranho anacronismo.
Entretanto, Guedes continuava a olhar-me entre o divertido e o admirado, pelo que de imediato me ocorreu que o sujeito estava a abusar de uma velha camaradagem desde os dois lugares da mesma carteira do externato Mouzinho da Silveira, isto é, estava a gozar-me. Tive ganas de lhe citar o Franz Kafka, mas contive-me. Sabia lá se ele me questionaria de forma acintosa, mas esse gajo joga na Primeira Liga ou na Segunda? O nome não me é estranho…
Pela minha parte, continuava a matutar na forma como lhe responderia, se a situação se tornasse numa calamidade. E, mentalmente equacionei que lhe poderia atirar que quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de insecto. E acrescentaria que era assim que Kafka  inicia a história do caixeiro-viajante, que numa manhã, ao acordar para o trabalho, vê que durante a noite se transformara num insecto horrível com um "dorso duro e inúmeras patas". Estive prestes a despejar no frontispício irónico do Ilídio que assim era o início da obra chamada “A Metamorfose” da autoria do escritor checo.
Logo de seguida continuei a elucubração, relembrando também “A Mosca”, filme que retracta a transformação repulsiva de um cientista numa enorme mosca, por intermédio de uma máquina de teletransporte que tinha inventado. As duas estórias juntas, ainda que separadas por mais de meio século, seriam mais do que suficientes para esmagar o Guedes. De tal sorte que acabariam as insinuações torpes sobre a suposta mutação ocorrida sobre mim mesmo. E o homem a dar-lhe, isso nem parece teu, mas vendo bem essa estória dos cinquenta anos casado sempre com a mesma mulher leva-me a corrigir a primeira avaliação; na verdade pareces-me mais um gorgossauro…
Só consegui responder-lhe com um angustiado – nota-se muito? E ele, a fazer de sério, se não abrisses a boca, não notaria nada e aproveitou para aditar que por fora, ou seja, a nível da epiderme, ninguém diria que eu era um sepielberguiano caso, em tradição livre e literal. Convicto de que não fazia parte de um qualquer Parque Jurássico, suspirei fundo. No entanto, assoberbado pela dúvida, foi então que me descobri portador dessa pele elevada ao quadrado, ainda que da mais firme, sincera e impoluta formação legal, moral e familiar. E assim me mantenho, sem traumas, graças ao meu epitélio escamoso estratificado.


quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Vamos ajudar a Galp

Por Antunes Ferreira
Há momentos na vida de um homem em que a tristeza e até a desilusão imperam por força das desgraças que acontecem a outrem. Pessoas e instituições que se lamentam da desdita merecem-me a afirmação de que estou com elas, lhes dou a minha solidariedade mais sincera, e que estou disposto – se tal for necessário – a enxugar-lhe as lágrimas.
Ombro em que se amparem ofereço-lhes desinteressadamente, e nele podem estar certas que podem chorar as suas mágoas. Os amigos têm de ser assim sobretudo nas ocasiões mais difíceis. Por isso compreendo as lamentações, aliás justíssimas, dos que sofrem na carne e nos órgãos (refiro-me obviamente a entidades, as mais das vezes pouco habituadas ao negativo da vida e por isso mal preparadas para reagir ao descrédito) as inclemências e os desvarios que existem neste planeta azul.
Feita esta declaração muito sentida em virtude de preocupações ciclópicas (parece-me que o termo foi utilizado por um governante que sucedeu a outro no antigo regime) que apoquentam homens e organizações, debruço-me verdadeiramente preocupado sobre notícia que obnubila uma empresa que nos acompanha a todos (ou quase) no dia-a-dia e que se esforça por nos servir bem. Vamos, pois, ao augúrio: “A Galp apurou um lucro de 218 milhões de euros nos nove primeiros meses do ano, menos 58 milhões (ou 21%) do que no mesmo período do ano passado” Numa confissão pública – o que é sempre de louvar – foi a própria petrolífera portuguesa que o revelou há dias.
E num revolver o punhal da angústia na ferida (diga-se que não foi um haraquíri) juntou logo em seguida que o resultado foi penalizado pelo desempenho no terceiro trimestre, período em que a empresa apresentou uma deterioração dos resultados financeiros e teve um aumento das amortizações e provisões no negócio de refinação e distribuição.
O povo que gosta de ser informado e portanto elucidado carregou o cenho. Podia lá ser? Um tal desastre de dimensão nacional era quase um cataclismo para não dizer mesmo um tsunami. Receou. Seria necessário recorrer à Igreja que nos momentos mais complicados está sempre ao dispor dos que sofrem? Umas novenas? Umas procissões? Umas penitências? A hipótese de umas voltas de joelhos à volta do recinto sagrado de Fátima?
As declarações do Emérito Cardeal Policarpo vieram, porém, lançar a hesitação sobre a intercepção da casa de Deus. Isto porque o ilustre purpurado/reformado tinha afirmado que lhe parecia “ que ninguém sabe que Portugal está numa crise e dá a ideia que todos reagem como se o estado pudesse satisfazer as suas reivindicações». Mas, não se ficou por aqui o prelado resignatário.
Disse mais: que não encontrara ”ninguém das oposições - todas elas - que apresentasse soluções. E se falhasse este mecanismo da economia liberal, Portugal só teria dinheiro para mês e meio», frisou, acrescentando que, nesse cenário, «não haveria dinheiro para pagar salários e pensões». É certo que D. Policarpo se considerou a si próprio fora do prazo de validade, mas não é menos o que entendeu sobre isso a Santa Sé. Donde, para ajudar a Galp, tinha de haver outras soluções que não a intervenção divina, mesmo dando de barato que o auxilio da Senhora de Fátima poderia ser ineficaz. A testá-lo, o Imóvel de Belém continuou – imóvel. Nem com a ajuda da ilustríssima esposa falou. E se o fizesse certamente diria mais uma vez asneirada da grossa, já que em alternativa nenhuma mosca se arriscaria em entrar em boca tão suja, vingativa e mentirosa.
Daí que reafirme a minha irrecusável piedade pela Galp. Que já foi Sacor fundada pelo judeu Martin Saim, residente em Paris e que teve nos seus corpos gerentes figuras importantes do salazarismo, a mais conhecida delas foi Francisco Casal Ribeiro, o ultra mais ultra no combate ao “primaveril” Marcelo Caetano.
Estou mesmo na expectativa do aparecimento no Facebook de uma proposta para a constituição de uma associação cujo escopo será a angariação de fundos para ajudar a gasolineira. Para tal sugiro a contratação da Dona Isabel Jonet, especialista em peditórios a nível nacional, com especial incidência às portas das grandes superfícies comerciais. Com uma condição sine qua non: que o litro da gasolina vá descendo a pouco e pouco, até que me seja possível encher o depósito do meu carro sem recorrer ao método usado pelo (des)Governo: assalto e roubo à mão desarmada.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

“Eu não tenho amigos!”

Por Antunes Ferreira
“Ó SR. DEPUTADO, eu não tenho amigos!”,  afirmou Pedro Passos  Coelho, em resposta a Jerónimo de Sousa. “Não admira!”, exclamou de imediato o líder da bancada comunista, num aparte bem audível no plenário. E a oposição rompeu em gargalhadas, o que motivou que Coelho corrigisse logo a seguir, “Eu não tenho amigos… no Banif”. Assim respondia ao secretário-geral do PCP que afirmara que o (des)Governo só tinha mãos largas para os amigos. Referia-se ao estranho caso do BPN. E perguntou ainda se estava “em condições de garantir que os portugueses não vão ser chamados a pagar outro BPN no caso do Banif”.
Coelho não gostou da pergunta do líder do PCP. Mas nos minutos que tinha para responder a Jerónimo o chefe do Governo acabou por não dizer se o Banif já liquidara ou não as tranches das ajudas estatais que recebeu. Teve de esperar até ao final do debate para, com um papel na mão, dizer que o Banif “já devolveu 150 milhões de euros com o primeiro reforço de capital que foi realizado”.
A sessão par(a)lamentar de quarta-feira foi um tremendo desastre para o nosso primeiro. Se quisermos sintetiza-la numa curta frase não será difícil: foi um circo. Com Passos sem compasso como palhaço aparentando ser rico, mas no fundo sendo pobre. De espírito. Os deputados da coligação espúria aplaudiram-no, defenderam-no, mas, pouco, com convicção alegro ma non tropo. Os da oposição riram-se – e não tiveram pena dele. Nem tinham de ter.
João Semedo já o “incomodara”; ou seja, a oposição toureava-o e naturalmente a pseudo serenidade de Passos foi-se esbatendo, chegando ao ponto de ruptura do verniz com que tenta disfarçar as mentiras que diz aos Portugueses. Encostado às cordas sobra-lhe em irritação o que tenta passar de calma e tranquilidade a quem todos os dias é roubado por ele próprio ou pelos seus capangas.
Erro pornográfico
Na sua edição on-line de quinta-feira, como habitualmente, o Expresso publica a coluna Politicoesfera assinada pelo seu titular João Lemos Esteves. Com este não estou de acordo por diversas vezes; mas o seu texto merece-me um aplauso, de tal forma que, se mo permitisse a minha cabeça (e o meu teclado) não teria pejo de o assinar na totalidade. Mas, assim, limito-me a transcrever dois passos dele.
“João Semedo afirmou, ontem no debate parlamentar, que não sabe se o Governo ainda tem tropas - mas certamente já não tem generais. Pois bem, acrescento que o general Passos Coelho nunca existiu e já está praticamente deposto - e as tropas, face à inexistência política absoluta do general (e inexistência, como se sabe, é mais grave do que nulidade política), as tropas - e as melhores tropas - de Portugal continuam a desertar.
(…)

Passos Coelho cometeu um erro pornográfico: afirmou que o Orçamento de Estado para o próximo ano comporta vários riscos. Portanto, já não bastava que o OE tivesse sido elaborado a trouxe-mouxe , nos últimos dias legalmente previstos para a sua apresentação; já não bastava as indefinições e o défice de esclarecimento sobre algumas medidas pré-anunciadas do Orçamento - ontem, Passos Coelho confessou a sua impotência para executar o Orçamento! Já não é um problema da troika. Já não é um problema de gestão política do executivo e a nossa dependência face ao exterior: é um problema de incompetência exclusiva do Governo, pois é o único órgão que tem poderes para aplicar o Orçamento de Estado e garantir a sua aplicação!”
(O destaque em negro é do autor, a quem felicito pelo artigo.
Aliás, aproveito esta oportunidade para referir que parte deste comentário é respigada do “Público” e de outros órgãos da comunicação social. A todos, o meu obrigado)

Entretanto, António José Seguro também entrou na dança. Não falou em eleições, mas não deixou de insinuar a necessidade de chamar os portugueses às urnas caso o país recorra a um segundo pedido de ajuda. O que também irritou Coelho que, na reposta, recusou debater "clichés". E porquê? Porque o líder socialista acusou o (des)Governo de chamar "programa cautelar" ao que na prática não passa de um "segundo resgate". Seguro notou que "existem quatro formas de regressar aos mercados e só uma delas é independente e dispensa condicionalidades".
Seguro frisou que "se houver um segundo pedido de ajuda", Passos deverá "tirar consequências" e não terá "perdão" porque significa que "o programa falhou". Com o semblante carregado, Passos considerou que "é lamentável que o PS pense em confundir os portugueses". E renovou o desafio ao líder dos socialistas: "No dia em que quiser fechar o nosso programa sem populismo e sem demagogia, eu estou disponível para fazer uma discussão séria”. Por isso, a comunicação social considerou que o frente-a-frente entre Passos e Seguro foi o momento mais quente do debate quinzenal.
A dado passo da sua intervenção, Seguro recordou as afirmações do "ministro do CDS" (Pires de Lima, em Londres, sobre o programa cautelar que já estaria a ser preparado). Passos corrigiu: "não é um ministro do CDS. É um ministro do meu Governo". E até garantiu que a preparação de um programa cautelar não estava na sua mesa, nem na da ministra das Finanças, nem na mesa das negociações com a troika. Foi uma tentativa desesperada de interpretar “As pombinhas da Catrina”. Cruxificado, ainda assumiu pateticamente do cimo do Calvário de São Bento que está a aguardar o fim do programa na Irlanda para decidir como é que Portugal vai ter assistência no regresso aos mercados. Além de não saber – confessou-o – qual será o futuro da economia, está à espera de ver em que param as modas. Irlandesas.
Foi assim, com esta afirmação – que deve ser lida segundo o ditado “quem espera sempre alcança”? – que Coelho deixou uma vez mais no ar a irresponsabilidade de um (des)Governo de putos mal preparados (e mal educados) quando dizem que não foram eles que tinham ido à lata dos biscoitos que a mãe tinha usado para impedir, em vão, o furto desses bolos secos. Porque o roubo que acontece quotidianamente não é de biscoitos. É daquilo com um cidadão em primeiro lugar usa para se alimentar a si e aos seus: dinheiro. Por isso estão muitos Portugueses a morrer de fome.

NA – A expressão (des)Governo é de minha responsabilidade

sábado, 26 de outubro de 2013

Andar por aí

Por Antunes Ferreira
PEDRO SANTANA LOPES criou a frase que ficou nos anais da história política de Portugal: “vou andar por aí…” Numa remake deturpada, Aníbal Cavaco Silva, quando confrontado pelos jornalistas para que esclarecesse a sua enigmática declaração sobre a possibilidade de enviar ao Tribunal Constitucional o Orçamento de 2014, afirmou com um sorriso (o que é raro, e os que exibe são no mínimo forçados) que face à questão, pedissem ao ministro Poiares Maduro que elucidasse o que ele, Cavaco tinha querido dizer, pois “ele anda por aí”.
Curiosa esta “delegação de poder para explicar afirmação alheia”. Não consta que a nova “figura política” esteja contemplada em algum código jurídico. Donde, o apelidado Presidente da República que já inventara o façarei e os cidadões, criou agora uma também nova legislação (?) ad hoc. No meio da balbúrdia que grassa nos meios presidências/governamentais – o que é o mesmo -, esta sentença é, realmente, inesperada, mas simultaneamente sintética, concisa e clara. Muito obrigada, Senhor Professor Doutor.
De homens como este, sábios, brilhantes, cultos, dialogantes, inspirados – quiçá pela Senhora de Fátima e pela sua (dele) caríssima esposa – carece este País. Porém, felizmente, eles emergem das águas mais revoltas; para ser mais específico, ele emerge. Sem margem para dúvidas, Cavaco emerge, contrariando assim os que afirmam que imerge. Arquimedes enunciou que "Todo o corpo mergulhado num fluido em repouso sofre, por parte do fluido, uma força vertical para cima, cuja intensidade é igual ao peso do fluido deslocado pelo corpo."
Aliás, é bom que não se esqueça a sua deslocação às Desertas, a fim de visitar as cagarras. Ainda que em navio da Armada Portuguesa ele nunca imergiu. Fá-lo-ia talvez se tivesse utilizado um dos submarinos que Paulo Portas “arranjou”; mas não foi esse o caso. E sem pretender abandalhar este escrito, poder-se-á dizer que o Senhor Silva também não emergiu; não andou sob as águas do mar revolto, mas sim, sobre. Está-se, portanto, perante um émulo do Cristo. O mais alto magistrado da Nação – expressão utilizada, como é sabido, nos tempos salazarentos, mas que a Cavaco se aplica como uma luva – tem, pois, uma aura divina. E apóstolos.
Relembra-se aqui o episódio evangélico do caminhar sobre as águas, protagonizado pelo filho (?) do carpinteiro e pelos doze discípulos que o acompanhavam habitualmente. Conta a estória (que não se pode confirmar por não existir documento comprovativo) que o Nazareno recomendara à dúzia que o seguia, “Tende fé, camaradas, e andareis sobre as águas” – ressalve-se o termo aqui utilizado, que pode ser substituído por amigos - que nesse caso eram as do mar da Galileia. 
Em abono da verdade – e antes de concluir o ocorrido – há que dizer que uma outra versão do milagre foi relatada por Mateus (14:22-33), Marcos (6:45-52) e João (6:16-21). Mas, para o caso, há que retomar o que se vinha relatando. Evangelhos há muitos; pelo menos quatro; mas se contarmos com os apócrifos, que se diz serem cinco a coisa toma outro perfil e, bem entendido, outra dimensão. Adiante.
Os treze intérpretes do suposto milagre começaram, então, a caminhar sobre as águas, com os doze acólitos maravilhados e, ao mesmo tempo, espantados com o feito. Perdão, a dúzia, não; os onze. Isto por que Judas Iscariotes começou a imergir. Já preocupado, ele bateu no ombro de Filipe que o antecedia, solicitando-lhe que passasse palavra a fim de que o Mestre soubesse que ele, Judas, já tinha OH2 pela cintura.
Assim se fez; e o Senhor, voltou-se para Pedro que o seguia uns passos atrás e disse-lhe que, segundo em caminho inverso ao que se verificara, fosse acentuado a Judas que tivesse fé e andaria sobre as águas. Mas, quando a informação chegou ao Iscariotes, este já tinha água pelo peito. E de novo, o caso repetiu-se, com a transmissão oral – que me seja permitida a expressão um tanto pecadora, em linguagem politicamente correcta e usada em campanhas eleitorais, boca a boca.
Quando já estava imerso até aos primeiros pelos da barba, o apóstolo e futuro bufo repetiu o apelo. Este chegou a Jesus que, entre o preocupado e o irónico, respondeu a Pedro: “pronto, não se fala mais nisso; ensinem-lhe a localização das pedras. Estas sim, estas emergiam. Passe o anedótico da estória, há que reconhecer que ela tem algum fundamento: não se deve acreditar nem na própria sombra. Si non e vero, e bene trovato.
Voltando à expressão utilizada na política nacional, o andar por aí já ganhou foros de consagrado de tão repetido. A única dúvida que subsiste consiste em tentar saber que o próprio Cavaco não entendeu o que antes afirmara. O que é absolutamente natural nele, até mesmo com laivos de patológico. Mas o ministro Maduro baldou-se: ele também não entendeu. Apesar do apelido, ele está ainda muito verde.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Em 2014 não baixarão os impostos


Por Antunes Ferreira

VEM AÍ outro orçamento rectificativo para o ano em curso, afirmou na quarta-feira Pedro Passos Coelho na RTP, durante a primeira emissão do novo programa O País pergunta. Isso permite, referiu, que através dele poderão ser introduzidas “novas condições de competitividade fiscal”. E apesar das perguntas feitas por vinte cidadãos presentes no estúdio não especificou quais eram essas “novas condições”.

Mas fez uma afirmação respondendo a pergunta posta por uma empresária da restauração que naturalmente queria saber se e quando baixaria o IVA a 23% para o anterior a 13%. Apesar de ter informado que a questão ia ser objecto de análise nos Conselhos de Ministros de ontem e extraordinário de amanhã, domingo, sublinhou que não queria “alimentar essa expectativa.

Se nos detivermos em pormenor no que afirmou neste particular, repararemos que Coelho teve a desfaçatez de sublinhar que o problema não diz respeito apenas ao valor do imposto, mas sim porque “as pessoas não têm dinheiro para ir ao restaurante”. Porém, num rasgo de bondade complementou que que o Governo espera que, tendo em conta a tendência de estabilização da economia, “uma parte das pessoas que deixaram de ir ao restaurante possa progressivamente retomar” [esse procedimento]. Isto porque a economia está a estabilizar e a procura interna está praticamente a estabilizar.”

Mas também afirmou que em 2014 não haverá diminuição dos impostos. Porém não disse se estes iam em contrapartida aumentar. Muito mais disse Passos Coelho, mas um tema mais foi abordado, quando respondeu aos jornalistas à saída do estúdio que lhe referiram o problema levantado por Rui Machete, o ministro dos Negócios Estrangeiros, em especial com o pedido de desculpas a Luanda. Com desplante a sua afirmação foi um espanto. Não houvera “nada de grave” no procedimento do ministro.

Misturou uma falsa humildade quando reconheceu que a classe média é a mais prejudicada com as medidas tomadas para combater a crise, em resumo, com a austeridade que, no seu entender é necessária para pagar aos credores aquilo que nos emprestaram. Um (des)Governo honesto tem a obrigação de cumprir o combinado para se alcançar esse objectivo. Pelo que disse é preciso salvar a Nação e os cidadãos mesmo que ela e eles não queiram ser salvos.

Foi um chefe do (des)Governo que se apresentou ufano da “retoma da economia” mas que, bem vistas as coisas, foi verdadeiramente patético. As fintas que usou face às questões mais incómodas não são próprias de um primeiro-ministro. Realisticamente, o programa serviu-lhe para propagandear o que o seu (des)Executivo já fizera em prol da Pátria e dos cidadãos vítimas dos erros enormes cometidos por aqueles que o tinham antecedido. Apetece perguntar se o que disse é  “a sério” e se esta postura é “irrevogável”. E perguntar se se referiu aos Governos do primeiro-ministro Cavaco Silva. É que eles foram também culpados desses erros enormes.

Ter-se-á tratado de mais umas quantas mentiras de um mentiroso crasso? Ter-se-á referido à honestidade da quadrilha que diz que nos governa, mas que na realidade nos (des)governa. Como pode ser honesta um (des)governante que deita para o lixo as promessas que fez na campanha eleitoral para chegar ao poder? Como pode ser honesta uma entidade que permite ditos e desditos em cadeia dos titulares dos seus ministérios?

Como acreditar num ministro – e não é preciso relembrar as trapalhadas relvadas – que depois de ter mentido quanto às qualificações estudantis, até foi premiado com um tacho soberbo? Como se interrogar sobre a Ministra Maria “suópes” Luís Albuquerque que usou mentiras sobre mentiras no Parlamento e ainda se mantém à frente do Ministério das Finanças?

Se a honestidade é isto, bem a podemos comparar com uma peça que é uma farsa – Ali Babá e os 40 ladrões. E na qual somos espectadores enfiados temerosamente nas cadeiras de pau e desconjuntadas de uma plateia amorfa. Mas que honestidade é esta que o (des)Governo interpreta à boca de cena, sem necessidade de ponto?

Alto lá. Sem necessidade de ponto não é verdade. Porque o ponto de interrogação e o de exclamação são inevitáveis- pois existem e têm de ser usados. Porque o ponto principal está metido na sua caixa, o palácio de Belém. Com a ajuda da Senhora de Fátima que ele invocou ao dirigir-se aos “cidadões” e que afirmou que nunca mais “façaria” coisas que lhe parecessem complicadas como a sinistra avaliação. Como por exemplo a sua intervenção, digo eu, no escabroso caso do BPN.

Seja-me permitido recordar que Portugal ( só mais dois países, a Irlanda e a Espanha) apresentou a Berlim as condolências pela morte de Adolfo Hitler. Mais: Salazar mandou colocar a bandeira nacional a meio mastro por motivo do “infausto acontecimento”. Foi então que o Senhor Winston Churchill respondeu ao seu MNE, Antony Eden num memorando com a típica arrogância britânica misturada cum um pouco do humor que o caracterizava. Pelo seu conteúdo, transcreve-se aqui um extracto desse documento.

“Creio que seria mais sensato deixá-los (os Portugueses) continuar a brincar e não sermos demasiado duros com eles (…) Afinal de contas, quando se é um aliado há mais de quatrocentos anos, há que ter permissão para andar de vez em quando por aí à deriva, conforme os caprichos. Devo tratá-los como se fossem crianças amorosas que fazem caretas absurdas”  (Gabinete do Primeiro-Ministro, 10 de Maio de 1945)

Chega? Chega.