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terça-feira, 1 de outubro de 2013

A derrota do Coelho, a vitória do Seguro, o surgimento dos homens livres e um misterioso desaparecimento


Por Pedro Barroso

O POVO falou ontem e explicou bem que, apesar de não lhe apetecer muito, lá foi aparecendo e dizendo que quer outra coisa.
Claro que o braço fiscal da Merkl tinha de sofrer as consequências e Seguro estava sempre seguro disso. Ganharia sempre. Era claro que sim. Portas, o rei da ubiquidade, conseguiu perder e ganhar ao mesmo tempo. O Governo afunda-se mas já mostrou não ter vergonha na cara; já nada espero destes senhores, para não lhes chamar garotos.
Agora há um problema que me merece uma análise especial.
O António, a Pipas e o Bernardo estão tristes. O BE desapareceu.
Ocupados como estavam com as respectivas questões maiores de suas vidas, foram acreditando que tal força lhes acabaria por resolver os diferendos entre as coisas do quotidiano e a política, numa intervenção sagaz, mas sonhadora, pratica mas flexível, socialista mas com estilo próprio.
Tão distraídos andaram, que nem se deram conta que já saíram devagar os homens inteligentes que fundaram tal ideia e a tornaram eventualmente em tempos, uma lufada de ar fresco na política, incisiva e argumentativa, sabedora e autorizada, diferente.
Vejamos. António militava no sector ecológico e absorvia-se diariamente com os urgentes problemas dos linces da Malcata e de Silves. Ultimamente entrara em empenhado mestrado sobre o stress traumático das gaivotas ribeirinhas, após verificar os numerosos atropelamentos das graciosas aves no Terreiro do Paço e Cais Sodré.
A Pipas era uma militante de primeira hora. A causa feminista preenchia todo o espectro da sua actividade cívica e não só. A privada também. Embora puxe a barba nos braços e na cara com navalha, para aumentar a pilosidade, usa corte de cabelo à homem, curto; fala com palavrões e profere insultos ao volante. A sua feminilidade equivale à do senhor Lopes do talho e foi uma lutadora desde sempre pelo casamento lésbico, pena até agora não se ter ainda fixado o suficiente numa parceira para que isso lhe pudesse acontecer.
O Bernardo é um ser vocacionado para a arte e a performance. São conhecidas as suas obras de plástico ornamental, bem com os concertos para almofariz e tuba, muito aplaudidos por todos os amigos reunidos na sala, em número de dezassete, um dia, em Braço de Prata.
O Morais, ex militante da UDP, em tempos que já lá vão, anda furioso, pois isto só lá ia mas era à cacetada; e olhando à sua volta não vê pessoal que queira andar à porrada nas ruas impondo a evidente razão das suas perspectivas.
O Antunes apela ao bom senso dos camaradas no sentido de uma esquerda organizada evoluída e sensível, que saberá sempre fazer a diferença dos grosseiros e cristalizados comunistas, e terá sempre espaço político - excepto se não tiver e se devorar a si mesma.
Rosalina, militante distraída durante o Verão, ajuda na limpeza das praias, mas continua a acreditar que o que é urgente mesmo para o país é dar águas limpas à truta do rio Ave e combater a poluição no Sousa, pois só assim as pessoas poderão encontrar emprego na região.
Já o Ricardo, sindicalista, acha que não, e que é preciso primeiro empregar as pessoas e depois, sim, ir limpar os rios e puta que pariu os efluentes e a Rosalina.
Resultado: os militantes BE estão tristes, derrotados, impotentes e não se entendem. Habituados a causas delicadas e sensíveis, coisas evoluídas e de bom gosto, acontece que a troika trouxe-nos problemas grossos - um Estado que rouba, reformados que são assaltados, impostos cruéis, um Governo desgovernado e mentiroso. E a coisa não se remedeia com a aprovação da adopção para o casamento gay, nem com a reconstrução da linha do Tua.
Habituados a bordar, agora é preciso rasgar, romper. Habituados a apanhar folhas, agora é preciso cavar. Política agora, por assim dizer, tem de fazer-se de tractor. E para tal propósito que haverá melhor que o velho, absolutamente inefável, mas sempre confiável Partido Comunista Português, com seus valores tipo Condado portucalense, foice e martelo, avante camaradas, internacional e tudo isso, caramba? Um luxo! Viu-se ontem; meio Portugal vermelho, ao bom estilo 25/4. Ora bem.
Quanto a mim os dirigentes nacionais do BE não souberam explicar-nos afinal, na prática, qual a diferença, no verbo e no voto com o PCP. Não quiseram – ou quiseram mas não souberam…- construir a Grande Esquerda Unida que sonhara Louçã. Mantiveram uma direcção bífida e mista, suponho que mais para respeitar a paridade sexual que outra coisa. Mantiveram o pensamento em bloco - infeliz e vaga expressão para tão dispersa e afastada gente. Não souberam entender nem facturar, apoiando as candidaturas independentes - aos milhares - que por toda a parte surgiram pelo país.
Essas foram, aliás, as grandes vencedoras de ontem. Essas sim, de gente livre que não deve nada a ninguém e se desiludiu há muito, por não ver saídas nem rotas de alcançar que não seja irmos, agarrarmos no Futuro e fazê-lo por nossas próprias mãos, com os erros possíveis e as glórias possíveis, mas num acto de desespero e esperança ao mesmo tempo.
A responsabilidade está em nós.
Os partidos estão falidos. De ridículo, de ideias e de credibilidade.
Houvesse candidaturas livres a deputados nas Legislativas e veríamos a hecatombe…

terça-feira, 10 de abril de 2012

La Lys

Por Pedro Barroso

NÃO FAÇO uma ideia onde seja, nem que tamanho tenha o raio da terra.
Será sempre um nome, uma memória dividida, no seu sabor para mim.
Criança apenas, todos os dias nove de Abril, meu pai tinha a antipática rotina de me levar ao cemitério da aldeia, precisamente ao talhão dos combatentes da Grande Guerra. Em memória de meu avô.
E eu, contrariado, lá ia. Pela mão. Vestindo o meu fatinho de veludo azul.
Pequenino e tropeçando. Olhando de lado para aqueles mortos todos.
Um pesadelo garantido para meses a fio.
Não achava piada nenhuma àquilo, sinceramente. Tinha de se ter um ar sério.
Penteavam-me o cabelo de uma forma estúpida e o fato tinha costuras que arranhavam.
Logicamente. Aquilo era um castigo.
Mesmo que eu nada tivesse feito de errado, a cada dia nove de Abril, era sabido – visita cultural ao cemitério!
Restará acrescentar que se tratava de uma espécie de package de férias de Páscoa. Coisa que só viria a ser descoberta muito mais tarde, quando as pessoas arranjaram dinheiro e vocação para viajar.
Na realidade o meu pai fazia anos a dez, a sua mãe – e minha avó Emília – a onze. Porém, ao que parece, a data maior associada a meu avô não era, nunca seria, a data de seu aniversário, mas sim o dia nove de Abril. Data da Batalha de La Lys.
Dia em que – ao que se descobriria mais tarde, com grande orgulho da família – ele invadira, sozinho, com inaudita coragem, o poderoso exército alemão!

Eu explico.
Pobres homens de campo e gente humilde, mandámos para a guerra – convencidos que o velho prestígio guerreiro e conquistador lusitano de outrora, só por si, sobraria para amedrontar quaisquer inimigos – uns milhares de homens impreparados, mal armados, recrutados à pressa, meio esparvoados e sem saber ao que iam. Uma espingarda, um capacete e um cobertor …e ala, vamos para a Guerra! A pé.
Ora a guerra que lhes tinham contado era, com efeito, uma coisa distante. Uma história romanesca. Uma cruzada pelo bem e pela paz, a que urgia aderir, ao que parece, para mais completa glória da Nação.
Cheios de Afonsos Henriques e Aljubarrotas na memória, lá foram.
Aquilo eram favas contadas. Assim que chegassem lá os portugueses, o resto do pessoal acobardava-se todo e pronto. Fugiam. Estava resolvido.
Guerra?! Aquilo era coisa de jornais, para quem lesse.
Nada de grave. Romance. Uma autêntica passeata. Conversa de jornais e da rádio. Se já houvesse telefonia, porque, a bem dizer, a TSF convencional ainda nem balbuciava os primeiros sinais!...
Havia, isso sim, emissões em morse, que eram captadas e transmitidas aos centros militares por pessoal das Transmissões, e o caos no sector era geral.
Telexes descreviam, desse modo lento e precário, o evoluir das coisas.
Quantas vezes interceptados pela contra-informação inimiga e alterados para quebrar o moral do opositor, num mar de dúvidas e mentiras, em que todos os exércitos navegavam, sem solução alternativa, nem certezas.
Aliás, os próprios generais se apercebiam de que ganharia a Guerra nessa altura quem ganhasse a guerra das transmissões. A telegrafia sem fios dava os seus primeiros passos, ainda com vários sistemas, todos eles bem incompletos, apesar de Marconi já se revelar o melhor e mais activo a vender o seu invento e a lutar pela sua implementação.
Era necessário activar as toscas maquinetas receptoras, com a chamada luminária ou tríodo TM. E para transmitir era necessário, ou estar em alcance visual e fazer comunicação semafórica, ou passar fio até à zona desejada, para que o telégrafo pudesse trabalhar. E tornavam-se necessários, obviamente, postes suportadores pelo caminho, entre os pontos desejados para comunicação das notícias.
Postes cavados no terreno minado. E tudo ainda transmitido à manivelada.
Deste modo, do que chegava, do que se recebia e da sua controversa utilidade, sobrava uma imensa desconfiança de que o inimigo já tivesse ouvido a conversa toda; ou que o morse do parceiro fosse mais rápido que o do nosso operador.
Ou, enfim, que os carregadores de postes fizessem uma greve de zelo.
Era, com efeito, difícil a colocação – ainda por cima sob fogo inimigo – dos paus pesadíssimos que haviam de endireitar-se enfiados em covas imensas, cavadas a braço mal alimentado, por homens com uma coragem sem espingarda, apenas armados de cordas e fios e pás de valar.
Tudo isto, enquanto, supostamente, os companheiros os protegiam da sua invulgarmente braçal e pouco lembrada maneira de participar na guerra. Mas tão importante e fulcral.
Pobre guerra, com efeito, a destes moços; heróis – sem lhes reconhecerem qualquer heroísmo – de picaretas e pás na mão, num dia a dia estúpido, esgotante e perigosamente igual.

Conclua-se, já agora, que a cada dia se avançava um pouco na descoberta de novos processos de tornar todo o processo de transmissão mais veloz e aperfeiçoado. Mas só no fim do conflito a TSF, pela primeira vez convertida em radiotelefonia, transmitiria a voz humana, num milagre sonhado há muito tempo por Marconi.
Demasiado tarde para estes heróis do código morse e do pau de fio às costas.
Sabia-se assim, mais ou menos, o que a informação permitia que se soubesse – que era pouco. E compreendia-se de tudo aquilo ainda menos que pouco, para não dizer nada.

Ora bem. A função de meu avô era montar fio.
Pobre herói de braço forte e corpulento, ribatejano rotundo e avantajado. O pessoal da sua especialidade andava em grupo, mas a fome com que os portugueses andavam, fazia com que os percursos nem sempre fosse os mais directos.
E lá haveria uma quinta que ficava sem galinhas, a outra sem uns ovos, outra ainda sem alguma fruta...
Se o inimigo atacava, havia que recolher. De novo se fariam ao campo, mais tarde, na esperança de não terem maus encontros. Outra vez cavar buracos e passar fio. Outra vez a fome, o abandono, o frio, a miséria, uma desorganização total.
Para onde é agora? Por onde? E como chegamos lá?
A cadeia de comando caótica, por sua vez, distante, dispersa, raras vezes concordante, debaixo de fogo. Também eles sem saber… Gente de várias nações sem se entender. Enfim, facilmente se imagina e se calcula a confusão…

Acontece que o meu avô era um homem destemido, desbragado, positivo. Com um copito era capaz de tudo até de trepar pau nas fuças do inimigo.
E um belo dia, ao que parece, o nevoeiro fez-lhe uma partida.
Ficou lá no alto do pau, sozinho e começou a chamar pelos camaradas mas em vão. O pessoal tinha todo largado o material e fugido, sabe-se lá para onde.
Que se passaria?- pensou ele, já aflito.
Entretanto, um barulho cavo e surdo se ouvia cada vez mais perto. O exército inimigo avançava, passo a passo, destruidor e temível.
E quando pensou em descer do pau, era demasiado tarde. Eles aí estavam!
O meu avô ficou transido e rezou à virgem, aos santos todos. Encomendou a alma sete vezes a Deus e preparou-se para levar um tiro, talvez muitos, e cair como um tordo apanhado em galho de árvore.
Mas o nevoeiro denso da velha Flandres, dessa vez, ia ser seu amigo.
Ninguém o viu!
O exército alemão passou, passou, passou, demorou horas a passar… e o herói lá se mantinha suspenso. Com o coração a bater mais que as máquinas de guerra cá em baixo, o peito num estertor, as pernas já sem sentir nada, as mãos em desespero agarradas ao pau de fio, o corpo dormente do arnês. O frio e o nevoeiro a enregelarem os ossos e a alma. A espera da morte a qualquer momento. Na vaga incerteza de uma improvável sorte que o salvasse.
Não os via. A neblina era espessa como leite. Pressentia-os.
Pareciam falar uma lingua estranhíssima, arranhada e gutural. E soavam mais jovens que supunha. Rapazitos seriam, gritando muito uns com os outros. Infantaria. Um barulho ensurdecedor de granadas explodindo e de gritos por todo o lado.
Por um momento, pararam junto ao poste. Discutiam-lhe, decerto, a sorte. Mas os fios largados pelo chão denunciavam que não tinha nunca chegado a ser útil e tornavam-no manifestamente inofensivo. Era inútil perder tempo a derrubar aquilo pois não servia para nada ao inimigo. Era apenas um pau levantado no chão. À cautela atiraram uma rajada para o alto oculto no densíssimo nevoeiro.
O pobre Manel aí, confessemos, teve sorte. Nada lhe acertou. As balas rasaram-lhe o corpo, mais nada. E mordeu-se todo com medo de morrer. Mas para sua muita sorte os inimigos desistiram. Todo o material largado no chão – fio, pás, enxadas…- indicava a fuga. E havia que avançar, avançar sempre.
- Weiter gehen!
Isso mesmo. Adiante.
E lá seguiram.

Depois vieram os carros, e o chão tremia debaixo dos seus pés. Perdão. O chão tremia, mas ele já só mal o podia sentir agarrado ao grosso madeiro, que vibrava a cada rodado que passava. Porque os pés, suspensos e frios, já tinham congelado na espera.
Demoraram uma hora a passar. Ou mais. Seriam duas. Ele nunca soube.
Depois, devagar, os gritos e estampidos foram-se perdendo na distância.
Seria possível? Depois de deixar passsar uma margem de segurança sem ouvir mais nada, o seu coração ouvia-se mais alto que o silêncio.
O nevoeiro não levantava. A cinco metros já ninguém via nada. Os postes tinham dez ou mais. Ele próprio não via o chão.
Deu ainda mais uma e outra margem de segurança. A tremer todo, lá se arriscou a descer. Devagar, espreitando sempre.
O exército alemão passara.
Havia no ar um cheiro imenso a pólvora e a morte.
Estava completamente só.
Exausto. Borrado de medo. Enregelado. Faminto. A tremer. Mas vivo.

Acontece que na aldeia nada se sabia. E se, de vez em quando, aparecia uma carta, normalmente, para desgraça da família, eram sempre más notícias. Assim, calhou, em certo dia, a minha avó receber do Ministério do Exército – ou da Guerra, como então se chamava – a sibilina e curva notícia.
O seu marido fora dado como desaparecido em combate.
O choque foi brutal. Chorou-se a morte e receou-se pela vida futura. O pai e o sustento iam faltar. Como sobreviver, pobre mulher, com dois filhos para sustentar?
Pos-se luto e carpiram-se noites de uma tristeza profunda. Uma mágoa, assim, sem ter corpo para funeral é uma mágoa especialmente funda, estúpida e perplexa. Não se percebe como terminou tudo e, no entanto, tudo terminou.
Lá longe, sem se saber como, nem porquê.
Aliás há um eufemismo imenso na terminologia militar, quando trata da morte de seus filhos. Se não há corpo, o que se regista estatisticamente é um desaparecimento. Não conta como morte. É uma sensação esquisita.
- Que é feito de teu pai? … De teu irmão? De teu filho? Morreu?
- Não sei. Desapareceu.
Estranha e violenta resposta, a que teriam de ensinar aos filhos.
Junto de um amigo sargento que conhecia um capitão em Lisboa, toda a família tentou indagar novas do pobre Manuel Miguel. Nada. Tinha sido apanhado num ataque. Esmagado pela frente inimiga. Desaparecido.
Mas afinal não eram todos eles desaparecidos em combate na sua maioria? Aquilo foi, relembre-se, a maior chacina humana sofrida pelo exército português depois de Alcácer Quibir!
Uma razia total. Um país inteiro de luto.

A mãe Anita nunca desistiu. Nunca quis acreditar.
Prometeu a Nossa Senhora ir todos os dias à Igreja Velha, nem que fosse entrar e sair, se o seu filho voltasse. E só Deus sabia como arriscava, pois o seu João Ralhão não era homem para brincadeiras e tampouco dado a assuntos clericais.
Enganou-o toda a vida com uma caixa de fósforos, sempre novinha, que trazia escondida, num bolso oculto duma das muitas saias que então se usavam.
Era o pretexto, se ele desse conta de sua falta. E ele sabia.
- Onde andaste, mulher dum raio? - perguntava ele furibundo.
- Olha, fui comprar fósforos, que já não tinha… – respondia ela prontamente.
Morreram os dois com uma semana de intervalo.
O coração do velho João não aguentou mais que esse tempo de saudades e morreu de fastio pelo Mundo e amor pela sua mulher.
História bonita e verdadeira de meu sangue, acontecida bem antes de mim.

Mas voltemos à história de seu filho, evoluindo, sem dicionário, em pátria alheia.
Passava o tempo.
O bom do Manuel, sem falar a língua e com medo dos ocupantes, arrastou-se semanas por França, numa vida furtiva, sem saber onde estava, nem ver parceiros.
Voltar para trás, nem pensar. Ia dar de caras com os alemães. Era a morte certa.
Aos poucos, vindos daqui e dali, alguns outros colegas, todos famintos e esfarrapados, começaram a juntar-se e, em dois meses, um grupo de insólitos soldados, cuja roupa rota e suja apenas muito longinquamente se assemelhava já a um uniforme militar, constituía um triste espectáculo de pobreza e mendicidade.
Alguns franceses, embora muito a medo, iam sustentando o pobre grupo de maltrapilhos. Por vezes trabalhavam pela comida em fazendas e quintas. Os olhos encovados e o aspecto denunciavam-nos a qualquer olhar mais atento.
Foi isso que aconteceu, largos meses depois, quando alguém foi avisar representantes do exército português de que andariam homens extraviados em tal parte.
Regressaram então aos respectivos Batalhões, que eram uma espécie de babilónia de línguas e culturas. Os portugueses que haviam sobrado de tamanha má sorte eram, apesar de tudo, os mais afortunados, de entre tantos milhares de pobres compatriotas que morreram, sem saber bem por que causa combatiam…
Eram sobreviventes estropiados, encolhidos, desorientados, doentes e feridos no corpo e na alma e que, finalmente, iam sendo, aos poucos, repatriados para casa.
A derrota na consciência, a fome no corpo e a morte na memória.

Quando chegou à terra, o meu avô estava magro como um cão vadio.
Era, por outro lado, um morto-vivo, com tudo o que a desagradável sensação lhe podia trazer.
- Oh Manel! Oh Homem! Mas então afinal tu não tinhas morrido?! – Diziam.
Mas a alegria de voltar foi tamanha que o morto-vivo em breve recuperou, com um tratamento intensivo à base de matanças de porco sucessivas, celebrações de vida, enchidos de boa curtimenta, tinto de Alcorochel, sopas de fressura e avantajadas migas.
O meu querido avô – Manuel Miguel Chora.
De quem herdei, ao que parece, as mãos, o vigor e a rotundidade.
…Promovido a cabo por serviços heróicos ao Exército Português na Grande Guerra de 1914-18!...

O tal herói que, um dia – sem querer, nem saber bem como... – “Invadiu” sozinho o exército inimigo, na célebre Batalha de La Lys, num dia 9 de Abril de que nunca perderei memória!

E por ser tudo verdade aqui se passa, embora tardio, o competente Auto.

Seu neto,

Pedro Barroso

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

E de Alegre se fez triste a leda madrugada

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Por Pedro Barroso


E POR MAIS cinco anos, crispado Silva viverá seu esgar altivo de glória financeira mal explicada... eleito por 1/4 dos eleitores nacionais!
Percebesteis? Vamos lá a ver. Então eu explico melhor o que sinto.

A democracia vale pela expressão do voto. Claro. Que, por sua vez, reflecte um sentimento perante a conjuntura actual e a sensibilidade popular aos candidatos, suas propostas, ideias e as eventuais mudanças que signifiquem.

Nesta conjuntura, apesar das acusações que ficam por explicar – e todos aguardamos que isso aconteça...- Cavaco é legitimamente eleito, sem espinhas. Nem outra coisa eu esperava, sinceramente.
Mas as pessoas que não saíram a voto são metade dos portugueses. E trezentas mil ainda votaram branco ou nulo.

Não gosto de abstenção, nem me revejo nela; tal como duvido da eficácia politica do voto branco ou nulo.
Mas sinto que isso significa o descrédito duma classe politica que tem os mesmos protagonistas há quase 40 anos. Um cansaço.

Alegre, curiosamente tal como se sentia ab initio, foi prejudicado - na 1ª vez por não ter o PS consigo; e desta vez por ter o PS consigo.
Porque há cansaço deste PS. Autismo mesmo, face à revolta montante do povo e ao paleio cansativo dos "tais sacrifícios" eternos. Sem dar exemplo.

Alegre perde por, como eu próprio lho disse, ninguém poder querer ser e não ser ao mesmo tempo. Devia reformar-se e pronto. Cumpriu o seu papel. É um histórico, fica histórico. Ninguém lhe roubará o "canto e as armas" nem o seu lugar de qualidade na "praça da canção". Para mim, já deitara tudo a perder quando teve um milhão e cinquenta mil votos e fundou uma coisa que não era partido, nem ninguém percebeu muito bem o que fosse. Chamada MIC, ainda por cima; nome a meio caminho entre a esferográfica barata e a sempre indesejável micose.

Procurar eludir o espantástico de uma união entre o BE e o PS actual, é também uma forma de se reformar da análise politica por sério problema de dioptrias. Este PS contem em si o toque de Midas, só que ao contrário - tudo o que toque definha, empobrece e desaparece.

Nobre revelou que ser outsider compensa; mas ficou com uma vitória "moral". Vale o que vale. E a falar em público falta-lhe alma, audácia, panache, fascínio, grito, ardor, não sei... Se o homem fosse artista e tivesse à sua frente público para seduzir, o pessoal adormecia.

Ganhou humanidade e força com o andamento da campanha. No fim... estava pronto a começar. Mas é obviamente um vencedor.

O discurso-revolta tipo motorista de táxi cristaliza no Coelho. Mas atenção nele. O homem fala como o povo na rua entende; e tem muito mais valor do que aparentava. Deram-lhe o estatuto de indigente mental e acabou como um dos grandes vencedores da noite. E ganhar no Funchal ao Jardim não é para todos.

O Dr. Moura deu a descasca que se tinha proposto dar no Aníbal e nela se cumpriu. Nada mais o pareceu interessar muito e ressentiu-se disso.

Digno, discreto, omisso. Esteve lá? Valeu a pena?

O Lopes é o candidato do PC e levou 7%. Tudo normal. Viva o PCP, punho erguido, avante camaradas, e etc etc. "Fixou eleitorado, confirmou alternativa, dignificou os democratas" etc.

Já sabemos todos. Viva. Chega.

Conclusão:
Cavaco ganha bem; porque, de certo modo, não havia alternativas.

Cavaco ganha mal; porque, na realidade, perde meio milhão.

E porque nunca nenhum "já Presidente" foi reeleito por tão pouca margem.

Já agora, para ficarmos todos amigos, convinha agora que nos explicasse os 140%, a casa de luxo de cuja escritura não se lembra, e as amizades sujas que o estornicam cada vez que se mexe no BPN.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Passatempo Pedro Barroso - «Os Jeitosos» - Solução

Pág. 91
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Actualização (12h24m): o passatempo foi ganho por «lilia_torres_amb», com erro de 4 páginas. Tem agora 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada para envio do livro.

domingo, 2 de janeiro de 2011

«A Quadratura do Circo» - A poupança dos portugueses

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Por Pedro Barroso

ESTOU muito preocupado com o problema da falta de poupança das famílias portuguesas.
É uma enorme falta de consciência cívica não serem solidárias com os esforços do governo e da nação. Não sei que se passará na cabeça dos chefes de família em Portugal para não conseguirem poupar.
Uma vez mais, ouvi a notícia no telejornal e, perante uma crise tão profunda e mundial, é de uma falta total de solidariedade não conseguirem colaborar no esforço colectivo. Creio que todas as famílias portuguesas deviam tentar poupar, pelo menos, um ou dois mil euros por mês, para criarem elas próprias um fundo de crise.

Vejamos. Vêm aí tempos difíceis e é preciso não gastar assim com tanta displicência e inconsciência a torto e a direito.
É um exagero o que se gasta em alimentação. Tomemos uma família de quatro pessoas, por exemplo. Bastava que uma delas não comesse nada, semana sim, semana não. E ninguém morre por isso, pois está provado que o ser humano pode aguentar até três semanas sem comer. Ora bastaria isso para dar um enorme incremento de aforro doméstico.

A avó, por exemplo. Não produz nada, ou muito pouco. De resto, já ninguém precisa de mais rendas e crochés para as mesinhas da sala, nem pegas para a cozinha. Fazê-la parar é quase uma necessidade. Portanto, é obriga-la carinhosamente a uma dieta de pão e água, para seu próprio beneficio. Passará a comer ainda, como bónus se estiver quietinha, uma sopinha semanal ao domingo, o que permite perfeitamente viver, evitando assim níveis elevados de colesterol, que só lhe fazem mal com aquela idade. Apenas há que nunca lhe faltar com aguinha todos os dias, para não desidratar; pelo menos enquanto não assinar os documentos que nós muito bem sabemos quais são.

A mania dos remédios também é um ataque diário à política de contenção económica. É sabido que os remédios são coisas químicas que só fazem mal e, no fundo, apenas prolongam a agonia de quem está doente. Gastar em farmácia é, portanto, inútil. Aí tem mais um conselho a seguir.

Ir para o emprego a pé, parece também ser uma solução a pôr em pratica o mais possível. O mau hábito de andar de carro provoca espondilose e obesidade mórbida, além de stress e despesas várias, provenientes de multas, seguros e acidentes. São vários milhares que se poupam por ano, se andarmos todos a pé ou de carroça.
Se você trabalha longe não seja preguiçoso e levante-se mais cedo. Caminhar só lhe vai fazer bem. Se for de charrette passará inclusive, a ser produtor do seu próprio estrume para usar na horta. Um luxo de excêntrico, sobretudo se viver em Massamá.

A escola e colégio para os miúdos também são despesas estupidamente elevadas que podem facilmente evitar-se estudando em casa. A televisão, os jogos, o teatro, o cinema, as revistas e jornais também são coisas sem as quais dantes se vivia muito bem e ninguém morria por causa disso. Andar informado só serve para ficar mais deprimido.

Nas férias, fique casa. Sair para o Algarve… para quê, afinal? Quem é que precisa de gastar um dinheirão em portagens e refeições e alugueres só para tomar banho de água salgada e ficar cheio de areia? Você vai irritar-se nas filas nos restaurantes horas à espera em Agosto, e vai voltar ainda mais cansado que à partida. Não vá. Poupe.

Os exageros da moda são outra tentação. Há que ter uma gabardina para a chuva, um casaco para o frio, duas calças e duas camisas. Quando uma está suja, lava-se e usa-se a outra. Eu, por exemplo, tenho estes sapatos há mais de dez anos e nunca comprei uma gravata. Não morri por isso.

O país precisa do seu esforço e os gestores públicos agradecem.
Portanto, poupe, homem! Não seja indisciplinado.
Como vê, é só uma questão de querer.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

«A Quadratura do Circo» - Ser Anarquista

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Por Pedro Barroso


ALTO! Essa doce palavra anarquista, essa não. Por favor.
Ouvi e calei a vergonha, ao ouvir esse termo abusado nos noticiários do país como sendo o dos responsáveis pelo bombismo que grassa pela Europa.
É de uma indigência mental confundir a correntes libertárias de pensamento com um terrorismo generalista de bombas e destruição.
É uma canalhice sórdida e sem argumento nem histórico, nem filosófico.
Os atentados anarquistas, no sentido restrito do termo, foram raros, em momentos históricos de total encruzilhada e mesmo assim, controversos qb para lhes atribuirmos uma razão de causa e fundamento, ou sequer, concordância global de todos os envolvidos.
Perguntem ao rapaz Bin Laden – um especialista; aos fundamentalistas espalhados pelo planeta; ou, se calhar, até a alguns sinistros teóricos da destruição total para um mundo reconstruído à sua medida. Lembrei-me agora que o pessoal do Bilderberg Group tudo manda e tudo determina. Portanto, alguma coisa há-de saber acerca disto.
Alias, parece farisaico, por um lado, celebrar a República - que nos foi dada na bandeja carbonária - e por outro lado, chamar grupos anarquistas a quem quer se intitule responsável por estas encomendas letais aos lideres europeus.
Sempre que não conseguem entender nem o pacifismo, nem o existencialismo, nem a independência de vistas, nem a acção de iniciativas de rua, nem a proverbial inventiva apartidária e seu humor anarquista, a tendência dos governos status quo atribui, como colagem imediata, a grupos anarquistas a culpa de todas as Brigadas Rossas e Baader Meinhoff’s do Mundo.

Quando ainda adolescente, desconfiei da catequese e dos conhecimentos místico-superiores do senhor prior de Santa Catarina. Quando comecei a suspeitar que se calhar aquele senhor de saias não era afinal intermediário de coisa nenhuma, mas apenas mais um palhaço de Deus “nosso senhor” travestido de incenso e influências. Tal como Fátima.
Quando me fascinei pelas matérias do século, do conhecimento e da História. Quando percebi que as nossas glórias eram muitas vezes fundadas na pirataria e no roubo descarado, por tudo onde andámos, em nome da fé e do Império.
Quando repudiei Franco e Salazar, primeiro de forma incipiente e instintiva, depois mais integrado em acções concertadas. Quando, por uma qualquer inexplicável ideia de liberdade, adoptei a crítica, o sentido das perguntas, o caminho da dialéctica, mas ao mesmo tempo da inquietação. Quando me revoltei contra a guerra e a injustiça e parti, sem jeito de saber nada daquilo ao que ia, menino ainda, perdido pelas fronteiras de Portalegre até à velha Albion.
Quando descobri que o Hitler fora um psicopata homicida de milhões, patético naquilo da raça, eleito, imagine-se!, por sufrágio eleitoral; e que o Mao era, ele próprio, argumentativamente, um tigre de papel e Staline um requintado criminoso.
Quando aprendi a ler a esquerda na direita e a direita na esquerda, e a corrupção instalada, por vocação, nos partidos ditos de centro, por serem partidos putativos de governo e distribuição de benesses. Quando vi o estado de graça e ingenuidade pura em que celebrámos a Liberdade e a rota envolvente que percorremos até hoje; e, no entanto, a habilidade tortuosa e florentina com que um bando de jeitosos conseguiu alcandorar-se aonde queria e subverter todos os caminhos de Abril.
Quando vejo os ordenados dos gestores públicos, as desigualdades sociais, a fanecada parlamentar, as vaidades pessoais, insultos e argumentos, e sobretudo, a gloriosa conquista da desgraça aportada por este senhor dito engenheiro - e quem sou eu para o contestar, chiça?…- eu fico parvo, pequeno, calado, sem reacção.
E o peito um calo honroso cria, - eu sempre vos disse. Não há caminhos fáceis.
Ai, amigos, camaradas de todas as cores e feitios, sindicalistas vermelhos, roxos e amarelos, … fico ainda mais convicto no meu alinhadíssimo não-alinhamento!
Fui anarquista, e acho que o vou ser o resto de meus dias, companheiros.
Emigrei cedo nessa pátria da utopia e do milagre humano por acontecer; nessa cidade nova de sonho e amizade, nessa sociedade sem trancas nas portas, algures entre a intimidade forçada da ilha do Corvo e a hombridade colectivista de Rio de Honor.
Assim me cooptei e convenci, se preciso fosse. Alinhado, mas livre. Nem Deus, nem Nietsche, nem Bakunine, nem sequer Trotsky. Ou até Dalai Lama. Livre.
Tristemente descrente, diria um observador atento.
Quando vi os gritos, confusões e exageros após a Liberdade; e de caminho, comecei a ver tantos homens de bem transformados em carrascos; e tantos homens de bem transformados em criminosos, eu fiquei tremendo na fímbria da razão e do desespero.
E revoltei-me; e fiquei ainda mais descrente e anarquista.
A vida, as desilusões, os amores e desamores, tudo trocado e ao lado do que houvera de ser e conseguir-se, o difícil da vida, os partidos que existem, as guerras de poder, a involução estúpida da espécie, a constatação evidente da irreversível destruição do planeta, tudo me reconfirma, a cada dia nos dai hoje, a irreprimível sensação de doloroso acerto. E como gostaria de enganar-me.
Mas a utopia é doce. Em nome de todas as crenças e de todos os que têm a suprema graça de acreditar nalguma coisa, não conspurquem o seu sagrado nome - Anarquia.
Para que eu possa olhar-me ao espelho todas as manhãs conforme sou.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

«A Quadratura do Circo» - O Queiroz que eu conheço

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Por Pedro Barroso

CUSTA SEMPRE bater num amigo. Sempre tive com ele o privar cordial e companheiro de alguém com a mesma formação e geracionalmente próximo.

Era eu já razoavelmente conhecido no mundo da canção e o Carlos, um pouco mais novo, debutava nos iniciados do meu Belenenses, o que nos aproximava sobremaneira. Ficou uma amizade tranquila, confirmada por encontros posteriores, onde ele me confidenciava do seu desejo de férias e sossego secreto num Algarve privado que me revelou. Mas onde talvez hoje não possa arriscar muito o passeio público, pois estaria sujeito a ouvir imprecações de menos nobreza a cada esquina, e insultos animosos de um qualquer pescador mais impulsivo.

Mas adiante; isso… foram confidências que não denuncio. E em nome da sua privacidade tem direito mantê-las.

Também eu sei o que custa entrar num sítio e ter de aturar um sujeito que nunca vimos, já bebeu demais, e nos trata por tu, só porque esteve na sétima fila de um qualquer concerto que dei há 20 anos em Santa Comba do Semicúpio. E nos bate nas costas como se fosse nosso amigo de infância ou mesmo irmão de longa data. E nos chateia o resto do jantar, sem ter objectivamente nada para dizer, só porque é insolente e grosseiro na sua etílica condição e calhou estarmos ali.

Mas o que me liga ao Carlos é tão distante já como o seu olhar superior e altaneiro, sempre posto num horizonte longe, indefinido, talvez ausente. Um olhar de iluminado, cientista e conhecedor que tem de contemporizar com a plebe assanhada e pobre, curtas pessoas de ideias pequenas, sem conhecimento nem saber para discutir as decisões doutas e autorizadas do grande Professor.
Passam-lhe por isso ao lado as críticas maldosas, feitas com acinte e aleivosia, por meia dúzia de energúmenos, ciente que está da sua suprema razão e de seu imenso saber. Olha em torno de si - com dificuldade, acrescente-se…- e, quando o faz, é apenas para pensar tão alto que todos nós conseguimos ouvir:

- Que importa o que dizeis? Para mim os cães ladram e a caravana passa.

Já nos idos de oitenta, quando privávamos diariamente com a humildade de um laborar conjunto e a intimidade do desabafo, dia a dia, anos seguidos, no Liceu de S. João do Estoril, o Carlos era assim. Tranquilo, educado, correcto, cordial; mas um tanto inseguro, defensivo, elaborado, meticuloso, gestor de palavras e projectos, investigador, evasivo, contornante.

Vínhamos ambos de um INEF, onde ambos tínhamos sido alunos de topo com três anos de diferença, mas a minha vocação de autor e poeta sobrepôs-se à minha ambição monetária. Aí, assumi causas, escrevi combate, abracei a vida difícil de músico e compositor, arrisquei opinião, defendi a cultura convivida e esqueci-me dessa secreta ambição que me poderia ter dado fortunas impensáveis e colossais. Acresce que fui ainda “colega” - uns mais novos, outros mais velhos…- de Jesualdo, Vingada, Mourinho, Caçador, etc. por aí fora.

Coube-me ainda, por acasos da vida, vir a ser professor dos internacionais irmãos Xavier, precisamente no sítio onde fui professor e colega de Queiroz.

Tudo isto para justificar que ainda tenho os galões e sei dos livros. Bem podia ter sido treinador, tivesse a vida virado por aí… Não fui. Mas sei do que digo, quando ainda hoje falo de Fisiologia do esforço, treino físico, táctica e técnica de jogo, motivação, etc.

Por isso me sinto autorizado a dizer que falhaste.

Depois daquela geração de ouro, com que foi fácil ser campeão do Mundo de juniores, havia que sedimentar outra densidade humana e outra leitura alta para… frutificar.

O tecido humano de uma equipa de futebol a alto nível é ainda vaidoso, inconsequente irreverente, difícil. Os jogadores de topo são normalmente jovens ricos e mimados, com todos os defeitos da imaturidade; mas há outros que entretanto começaram a aparecer com um discurso adulto, assente em muito saber e experiência e já não admitem ensaios nem improvisos. Já foram treinados por pessoas e métodos muito variados e sabem num minuto avaliar a segurança e o valor do seu comandante.

Eu também tremeria se visse o dentista enganar-se, trocar os instrumentos e dar ordens contraditórias. Tudo isto para dizer que um treinador não escapa ao olhar crítico, não só da massa associativa, como dos próprios jogadores. E todos pensam, avaliam, julgam.

Ora uma representação nacional é uma montra do país. E a massa associativa são todos os portugueses. Que, aliás, são eles a pagar - e bem, ao que parece…- o servicinho…

As tuas equipas Carlos, tornam-se um pouco aquilo que tu és.

Se queres transmitir que não sofrer toques no gilet já é triunfo; se achas que defender, para não sofrer humilhação, é uma forma de vitória; se admites que é preferível empatar a zero a arriscar a estocada que nos expõe; se queres ganhar sem risco, através de alguma cartomancia ocasional; se preferes convocar 18 jogadores com características médio/defensivas em cada 23, muito bem.
Isso és tu. Tal qual te conheci.

Continuas temperamentalmente na mesma. Cauteloso, ponderado, estudioso.

Mas no futebol de competição e de selecção nacional - e dispondo, como dispunhas, dos melhores e de todos os meios à disposição para fazer um enorme Mundial – há que arriscar a glória, para não sair por falta de coragem.

Ser agressivo, objectivo, ambicioso. E desportivamente astuto, líder, entusiasta, galvanizante. E, ao nível de grupo, companheiro, amigo e confidente, criando empatias totais, emocionais, sinceras com os jogadores. Coisas que nunca mostraste.
As tuas convocações, as tuas estratégias, as tuas substituições, os teus jogos ocultos - que transparecem, Carlos, desculpa, mas transparecem demais e são evidente falta de alegria no seio da equipa…- foram quase sempre negativos.

Mas há mais.

As lesões convenientes do Ruben, para não levantar mais polémica; do Nani, por mistério interno que ninguém sabe mas, sem nunca haver boletim médico, tudo indica que foi por forte falta disciplinar não assumida; do Deco, nitidamente por espírito de vingança, o que é feiíssimo.

As ordens do banco, as palestras de intervalo, as escolhas tácticas, as trocas de jogadores - que nem eles próprios aceitam, nem compreendem; o rigor oculto por um sorriso farisaico, para que tudo pareça controlado, quando o que está a ver desenvolver-se todos os dias é revolta e discordância…

A obsessiva tendência defensiva, as indecisões infantis em lugar e momentos chave. Precisar de municiar atacantes com passes a rasgar, largos e imaginativos e manter o Deco no banco, por birra, é infantil. Ver os ataques passarem por trás do R. Costa, pois não é bem um defesa direito, e ter dois defesas direitos no banco, é, no mínimo, ou teimosia ou autismo. Insistir no Pepe sempre Pepe para destruir, quando se sabe que ainda não pode estar a 100%...

Mas há ainda mais.

Precisar de atacar e retirar avançados. Deixar as linhas de defesa e médias próximas e desterrar lá para a frente os sacrificados pontas, sem apoio, nem bola, nem municionamento à vista, a vinte metros de distancia, dependendo das explosões de Fábio C. ou de outros eventuais e raros passes a rasgar, sempre fora do desenlace pretendido. Não estruturar ataque. Não se ver uma construção apoiada e consistente de teia de jogo, vivendo do génio e inspiração de cada um. Não incentivar ataque.

Não apresentar um único esquema de livre estudado, em tantas ocasiões que se prestavam para experimentar. Idem também não haver combinações visíveis na marcação de cantos.

Outra coisa.

Ronaldo lá por ter sido o melhor, - se calhar… coisa boa e má, por prematura, que lhe aconteceu… - não deixa de ser um jovem mimado que bate na relva em fúria quando as coisas lhe correm mal. Capitão de equipa? Nunca. Capitão era o Coluna, ou o Germano. Caramba! - Bastava um olhar reprovador e o colega enfiava-se pelo chão!

E já agora… Motivação psicológica de balneário era …aquilo?

“Portugal ganhar - Portugal ganhar??!”

Aquilo é pobre e bimbo, Carlos. Não está ao nível da tua formação académica, rapaz! Um discurso patriótico, iluminado, transbordante de História e força, entusiasta - tipo egrégios avós e às armas, talvez! … Agora “Portugal ganhar - Portugal ganhar??!”

É fraquíssimo, é pimba, motivacionalmente nulo, quase regressivo, infantil, sem criatividade, nem slogan, nem eficácia. O Deco fez muito bem em virar costas.

Eu faria o mesmo. Achava ridículo.

Outra coisa, embora mais subjectiva, mas lá vai. Convocar o Castro e o Costa e não levar o Carlos Martins, nem o Ruben, nem o Moutinho?! Convocar o Daniel não sei que e não convocar o Quim?! Há para aí alguma embirração escondida? Este não é um interesse nacional acima de quaisquer ódios caseiros, como tanto proclamaste?

Portugal não podia ganhar sem atacar. Ficar à espera que Ronaldo “aconteça”, sem apoios, nem ataque estruturado, é mau para ambas as partes e nunca vai acontecer.

Tal como o superlativo bloco defensivo que desenhaste, há que construir um bloco enredante e ofensivo que terás de imaginar. Ou alguém por ti. Com espontaneidade e alegria criativa. Que é uma coisa que não incutes, com esse ambiente, nem com esses escassíssimos e espartilhados atacantes, em lugares e funções de que não gostam, e onde não são rentáveis.

Para dirigir uma selecção de um Pais é preciso o estudo, a calma, a cultura e ponderação que inegavelmente possuis. Mas é preciso a ambição, o golpe de génio, a raiva, o combate, a capacidade motivacional, o cuspo, o grito, o abraço sincero e a agressividade atacante que inegavelmente sofreias.

E a relação humana com os jogadores, não sei, Carlos, porque ninguém sabe.

Mas cheira que não pode ser boa. Eu, se fosse internacional, declarava a minha indisponibilidade já amanhã, pelo menos enquanto andasses por lá.

Uma pequena e persistente fissura na clavícula impede-me de ser mais explícito.

Mas a essa cura-se, mais semana menos semana.

E tu se calhar também continuas - ou não - mais milhão, menos milhão.

Sempre ao dispor,
O meu abraço amigo,

Pedro Chora Barroso
Licenciado em Educação Física
Post grad em Psicoterapia Comportamental

PS – se a FPF me quiser contratar, como Consultor animador, Especialista motivacional e Analista comportamental para dinâmica de grupos… estou ao dispor na volta do correio e muito obrigado. Quaisquer 50000€/mês e fecho contrato.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Os valores tão simples da razão

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Por Pedro Barroso

O PAÍS VOTA HOJE, ao que parece, o cancelamento do TGV. Depois de ser o progresso e a rede fantasiosa de uma teia cheia de futuros, tornou-se vagamente condicional, para passar a ser hoje, mais que provavelmente, simplesmente pretérito. Ou coisa adiada, indefinida, adiante se saberá.

No Ensino, hoje reconsidera-se o neo-liberalismo, fundado nos super livres direitos do jovem a uma educação aberta, generosa e passiva, pedagogicamente suave, sem peias disciplinares, nem aprendizagens exigentes nem dolorosas. Porque, afinal, se calhar, é preciso repensar e tornar a ensinar, com a responsabilidade de preparar quem vai gerir o futuro.
Isto é, com conhecimento e responsabilidade.

Nas Obras públicas a 3ª travessia do Tejo já foi e deixou de ser várias vezes. Impressionante o papel que se gasta com coisas que são e não são, para talvez renascerem em projecto, cujo, afinal, não se confirma. Não há taco para fazer – calem-se e aguardem por melhores dias. É como eu faço.

Na questão do Aeroporto, o Mundo também mudou, ao que parece. Sorrio com o que sentirão os investidores que apostaram em compras maciças em desertos da Camelândia, território coutado do “jamais”, para, afinal, hoje, muito provavelmente, aquilo continuar simplesmente a ser vinha - e da boa…- e o pessoal do Poceirão continuar a ter tomates!

Sinceramente, gosto.

No Freeport, na PT e mais não sei quantos episódios novelescos da vida pública, julga-se que há mentira que, afinal, nunca foi, mas, agora, noutro mais moderno desenvolvimento… parece ter sido mesmo mentira.

Nada melhor para anular de vez o nosso já desconfiado e proverbialmente difícil convívio com a ilustre classe politica. Nem vale a pena roubar gravadores. Já todos sabemos que o que se promete não é para se gravar.

Na política de barragens; na gestão de Natureza; na Justiça – o maravilhoso pagão revisitado no saboroso episódio da Braga Parques, meu Deus, que delícia… – no investimento público; nas privatizações; na Cultura – neste caso, permito-me inquirir, qual política de Cultura? Mas enfim… – em quase todas as matérias de Estado, vemos sempre tudo mais do mesmo. A promessa incumprida com valor muito efémero e normalmente contradita pela evolução das coisas.

Ai, senhores! O simples bom-senso teria conseguido decidir o mesmo, em menos tempo, mais barato e com menos consultores…

Na política de Saúde diminuiu-se o número de Hospitais. Muito bem. Para as pessoas nascerem, ou tratarem das pernas partidas, AVC’s, etc descobre-se em seguida que estão a horas de penoso caminho e difícil sobrevivência do local onde vivem. Por isso, agora, já ouvi admitir que, afinal, se calhar, os Centros Regionais de Saúde têm de ter valências alargadas. E que os Hospitais distritais estão cheios de carências e resposta a todo o nível.

Na fiscalidade, uma politica de aumentos de IVA levou-nos a crescer até aos 21% para baixar o IVA para 20%, para afinal agora, tornar a subir o IVA. Para 21% outra vez, até ver. Já que a nossa vocação é sofrer, mais valia estar quieto.

Yes! Prime-minister!...
A saudosa e humorística serie britânica não saberia fazer melhor!

Acontece que o meu saudoso e destrambelhadíssimo empregado Luís fazia o mesmo. Um dia apareceu-me todo vaidoso com uma aparelhagem de som que mal cabia no seu quarto. Coisa de luxo – som de envergonhar o patrão.
Dois meses depois, o acumulado calote levou-lha, pois o comerciante não esteve com meias medidas e veio buscá-la. Mas o saudoso Luís bebia demais e, não sendo, de modo algum, estúpido, era digamos, clinicamente tontinho. Fraco de miolo e completamente descabelado de responsabilidade. Nem o Bilhete de Identidade tinha actualizado. Vivia em Marte, onde talvez hoje - sinceramente lho desejo – seja feliz.

Mas um Governo?! Pessoas de fato e gravata? Bem pagos? Chiça, senhores!

Que tal meter a mão na consciência, abordar os conhecedores nas matérias, aconselhar-se bem antes de decidir, não olhar a interesses privados, mas ao superior interesse nacional, legislar em função de um País que se pretende fiável, competente e funcionante?

Pessoalmente acho facílimo ser competente.

E honesto, então, nem se fala. Basta dizer a verdade, que a mentira dá sempre um trabalhão.

Eu disse um trabalhão?
Disparate, claro!
Queria obviamente dizer que a mentira dá sempre um trambolhão.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

«A Quadratura do Circo» - Lisboa é linda e está feia

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Por Pedro Barroso

AS OBRAS são eternas. A programação é pouca, quase descuidada.
Fecha-se um pavimento e festeja-se e, aparentemente, termina-se; para afinal, depois, se descobrir já não ser assim. Aí, três meses depois, tem de se tornar a expor as tripas de fora e, num intestinal exibir de canos e tubos, esburacar de novo para fechar nunca se sabe quando. Porque, afinal, faltava o plano de pormenor, a planta do metro, o acordo com o gás. E o orçamento escorregou.
Lisboa está feia porque se alonga num Terreiro de Paço eternamente manco e sem fim à vista. Cais das colunas lindo e limpinho, mas sem sequência marginal. Calcetamento de bom gosto mas que vai dar à velha estação para Cacilhas. Vai ser difícil compor aquele puzzle.
Meu Deus, acabem Lisboa de uma vez por todas. Parece que nunca está acabada.
Componham os canos e todas as tripas obscenas da cidade. Reparem as águas, os esgotos, e o gás, e as calçadas, e os buracos das chuvas. E ponham as netcabos todas, e as fibras ópticas todas, já por conta de tudo o que há-de vir. Programem!
E mais. Mantenham vigilância, que diabo! Eu não sou funcionário da Câmara e vejo todos os dias coisinhas por fazer que eram, sei lá, uma hora de trabalho, no máximo duas. Um instante, e ficavam bem.
Será que não há piquetes de ronda a ver o mesmo que todos nós vemos? Ou não há dinheiro para executar coisas tão simples? Ou o que falta é a mera organização e coordenação dos serviços?
Lisboa está feia porque uma estúpida lei de inquilinato, ou arrendamento, ou lá o que foi, permitiu que senhorios morressem à fome antes de poderem actualizar rendas de vinte e trinta escudos. Os prédios, obviamente, caíram, estão feios, a rachar, ou ruirão com mais um próximo Inverno ou dois. E as suas fachadas feias poderão ser telegénicas, mas integram um filme triste de torpor, tristeza e pobreza colectiva de que dificilmente nos podemos orgulhar.
Lisboa está feia porque os velhos símbolos geracionais não são preservados como memória.
O velho cinema Paris, ali à Estrela, onde eu ia fingir que tinha dezassete anos e ver filmes para adultos - pedaços avulsos de nudez, passados na lente envelhecida de uma censura descuidada - é um insulto por onde não passou ainda a vergonha da cidade.
Catedral dos sentidos me foste, velho e abandonado teatro de emoções e calafrios.
Que será feito dos outros?
O Ideal, no Loreto; o Rex; o Condes, hoje Rock; o Olímpia, hoje, tanto quanto percebo, saída traseira do La Feria; o Bélgica; o Cinearte, hoje Barraca; o Jardim Cinema, hoje estúdio de televisão; o Chiado Terrasse, hoje Banco, salvo erro… o Restelo… o Cine Oriente…
E tantos outros que morreram às mãos da história transformada, por vício de up grade de economias em investimentos putativamente mais rentáveis.
Ai amigos, a idade já tem memoria demais, é o que é…
Já vi partirem o velho e inesquecível D Maria, onde vi o velho Assis Pacheco dar lições de representar. O Avenida, onde ainda lembro a Guida Maria, ainda criança, fazer o papel da sua vida. O Laura Alves, que deu em sapataria, e hoje nem sei quê. O Vasco Santana, onde cheguei a ajudar a Luzia, a Helena Feliz e o Luís Santos nas “Mãos de Abrãao Zacut”. O Monumental, onde actuei. E os velhíssimos Capitólio e Maria Vitoria e ABC, que por vezes lá renascem com umas valentes vassouradas, para logo mergulharem num vazio sem protecção, nem futuro desenhado com clareza… O Belém Clube, que está adormecido. E tantas salas e salinhas lindas velhas esfarrapadas que eram tertúlia e sonho e fantasia, mergulhadas no descalabro de uma cidade que perdeu respeito à sua história íntima.
Estão como o velho Olympia na minha terra, que, por ter os Castello Lopes entre os seus ilustres, teve direito ao privilégio de cinema a sério desde os idos de cinquenta. Hoje com sala às osgas e cadeiras às aranhas. Assuntos complicados, eu sei.
Pelo país fora encontraria motivo para aqui ficar fazendo livro e muro de lamentações. Conheci teatrinhos demais por esse Portugal afora, hoje tristes, mortos, abandonados.
Vergonha. Quando será que as verbas da Cultura, tão esbanjadas e magnânimas, por vezes em iniciativas de muito discutível utilidade, e algumas edilidades menos atentas compreendem que estes são espaços de memória colectiva, teatrinhos de bolso, testemunhos de uma época singular, mas onde se formou e germinou - discreta mas determinada - uma geração que, afinal, teve força e dessa vivência fabricou a Liberdade?
Mas regresso a Lisboa, onde fui menino.
A tal que está feia e é linda. E sendo linda, insiste em estar feia.
E não falo dos Jerónimos, Torre de Belém, Castelo, Igrejas ou Conventos. Não.
Falo de memórias de vida vivida que foram paradigma de gerações. Esses contemporâneos espaços, - incluindo o mais recente Quarteto, porque não? - são também eles arquivos de uma memória ameaçada que diz respeito a todos nós. São história recente, ainda em estado de lembrança viva. Apetece por isso perguntar.
Caramba, seria assim tão caro e difícil comprar e requalificar essas referências? Acabar as obras? Dar à cidade o descanso enriquecido de parques e jardins tratados? Oferecer-nos finalmente o usufruto benigno das prometidas esplanadas? E duma beira estuário tranquila, à maneira…grega… turca…portuguesa?
A doença prolongada dos tapumes e buracos é uma espécie de epidermólise bulhosa, que ataca as cidades incautas e distraídas, e devora a alma dos que lá queriam viver com felicidade.
Lisboa é linda, mas está feia, descuidada.
Porque a sua história era fácil de repor no sítio certo. E não está.
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Foto: Cinema Paris - in Lisboa S.O.S.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

«A Quadratura do Circo»

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Voto - O drama de um Anarquista

Por Pedro Barroso

O NUNO MELO era o mais bonito e o mais exportável. Preparou muito bem os dossiers e defendeu-se bem nos debates. Gostei muito. E ofendeu e atacou selvaticamente o Constâncio, pessoa de quem não gosto nada, nem do penteado. Claro que aqueles senhores, antes católicos, hoje populares, apesar de terem tirado o Freitas da galeria, são muito antigos. E são contra o aborto, a eutanásia e outras decisões assim, cujas eu indefectivelmente defendo, em nome da liberdade de escolha. Gente de bem. Jeans e blazer, agora sem gravata. O Portas é o mais directo no discurso, sem dúvida. E quando diz aquilo do sustentar quem não quer trabalhar, quem pode discordar dele? A grande e melhor oposição, se existiu, foi dele. Sem espinhas. Mas toda aquela populice me cheira a peixaria contratada. E como ainda não sei se a Katia Vanessa ficou grávida ou não desde aquele passeio que demos a Cacilhas… não me convém. Desconfiemos.

Portanto, então não. Fica à espera.

O Louçã é um rapaz muito alto e inteligente e explica tudo muito bem, mesmo quando não percebo nada e os outros também não, mas fazem de conta que sim. Eu, sinceramente, até me apetece votar no rapaz, porque se vê logo que é uma sumidade. Pena não deixar falar o Tomé, ter trucidado a divertidíssima e inefável UDP e, sobretudo, ser contra as touradas. Chiça, mas alguém no Ribatejo aguenta uma parvoíce destas? O único espectáculo público em que o árbitro não pode ser comprado? O gozo que eu tenho a ver sair um touro! A festa, as cortesias, os cavalos, os forcados, a cor, a imprevisibilidade. A Arte! O perigo! A adrenalina! Não. Assim também não. Há qualquer coisa de monge nele que me desagrada. E aquela mania do casamento gay e de combater a depressão das carpas nas barragens, por obstrução ao livre trajecto do seu percurso sexual natural… Ná! Sou gajo. Gosto de gajas. Estou-me nas tintas para a vida sexual das carpas e gosto de touradas.

Por aqui, nesse caso, visto isto, estamos conversados.

Vejamos então o que nos falta.

O Sócrates nem pensar, caramba. O homem blindou as carreiras, as férias, as reformas, os impostos, rodeou a saúde, importou a gripe e formou-se a um domingo? Teve 4 anos para brilhar e a única coisa que vejo luzir nele é o fatinho de alpaca?! E sobreiros? Quantos sobreiros foram cortados para fazer o Freeport? E envelopes? Tudo muito mal contado. Ou muda de tios e primos, enfim, … a família toda, ou tem de explicar-me como foi a prova de Inglês técnico por Braille, que eu ainda não percebi nada, e a furiosa das sextas foi embora. O homem era mesmo o Primeiro-ministro? Responsável por aquela ministra da Educação? Chiça! É pena, que a criatura até tem boa figura. E a roupa fica-lhe bem - não é como um politico que eu conheço, que mais parece que engoliu um pau e dá uns ares a um manequim que há na Rua dos Fanqueiros. Mas é mais teimoso que um cepo, só para não admitir erro. O ministro da Agricultura perdeu 64 milhões de euros da Europa – isto admite-se? Mas será que alguém sabe fazer contas? E o da Cultura? Existe? Ai Governo, ai Sócrates! Ide dar sangue, carago!

Portanto, é simples: - mesmo que me tenha distraído numa ocasião, desta vez não.

Então o que me resta? Vejamos.

A Senhora Dias Ferreira é um erro de casting. Não era para ser, não devia ser, não tem figura, nem discurso, nem imagem, nem passado glorioso para se meter em apertos destes, e é uma crueldade pedir-lhe que seduza o eleitorado. Ao que parece, quando foi Ministra da Educação, até os filhos fizeram greve. Tirem-na depressa deste filme e ponham lá o outro, uma figura de rapaz alto, louro, apessoado, muito bem-parecido e que ela não quis mais ouvir falar, nem para candidato na freguesia de Stª Comba do Assobio. Aliás, os barões laranja fugiram todos, uns para a privada, outros para os Bancos, outros mergulhados até ao tutano em negócios de milhões. E a senhora, sem staff nem coorte pretoriana que se veja, tem de defender a honra do convento, pondo sapatilhas e fazendo as arruadas para que nunca teve jeito, coitadinha. Reclamo solenemente – é uma crueldade. Em nome da social-democracia. Tenham juízo.

Portanto, nem me alongo mais. Nem pensar.

O Jerónimo é um pão. Um velho charmeur. O homem sabe da poda. Com aquele ar de operário reformado há oito dias e ainda a fazer descontos, enganou-me bem, que o sujeito não é nada parvo. Defende-se na Economia, recita a cassette com algumas alterações, não deixa de ter figura - é mais alto do que parece, e mais ágil do que a idade poderia fazer supor - e foi a melhor aquisição que o partido poderia ter feito. Custa-me que o Carvalhas, coitado, que arcou com aquela crise toda dos reformistas, tenha sumido e ignoro, até, se ainda é vivo. Mas não tinha jeito nenhum para aquilo, graças a Deus. Falava axim. Atrapalhava-se. E os dissidentes, com a sua coragem e inteligência, deram-lhe cabo da pinha. Este não. Hábil, rápido, simpático, arguto, humano, ultrapassou essa fase, limpou a casa e deu um líder muito digno. Claro que mantém uns verdes a fingir, que são uns queridos, acho-lhes imensa graça. Mas não voto nele. Se eu tivesse menos memória, se Karl Marx fosse uma marca de relógios alemã e Lenine uma colónia da Boss, talvez. Se fosse há oitenta anos, talvez acreditasse. Mas sou alérgico a bafio, lembro a Primavera de Praga, Staline, o muro da vergonha. E vivi tudo isso, sendo claustrofóbico em último grau. Um sufoco feio, em nome da liberdade da nomenklatura. Ah! Velhos camaradas de cravo ao peito, como me comoveis! Gente boa e acreditando. Se eu perder a minha carteira, eu quero que ela seja achada por um comunista. Gente séria e honrada, sei que me chegará às mãos. Mas para governar o meu país? Lamento. Há dogmas demais no vosso catecismo.

Nesse caso, portanto, mais uma vez, deixa ficar.

Ah! Restam os pequeninos.

Oh! Como eu gostaria de ir colar cartazes com Carmelinda; investigar um caso diabólico com aquele parecido com o Sherlock Holmes, já sei o nome…! – Garcia Pereira; revoltar-me de portugalidade doentia e fazer tatuagens com os não sei quê renovador; fazer parvoíces na Madeira com o outro, coitado, o sozinho; embarcar no sonho de esperança da Laurinda ou mandar todos para a Cochinchina, como o SMS, perdão msn, perdão,… não sei mesmo o nome daquilo. Ou ser trabalhista, um luxo, que futuro! Ou ser fadista e lutar pelo Rei, caramba, que heroísmo! Ou, em Braga, ser da nova Democracia, se ainda houver. Como me apetecia ver os comícios de toda a gente. Intervir, até, se tivesse paciência, e andar rouco, de bandeira ao vento, apitando o claxon cansado, por estradas de nem sei onde. Tocar bombo. Pôr boné.

E comer cozidos e migas pantagruélicas, e festejar com o povo, sempre generoso.

E acreditar, acreditar mesmo, numa dessas modernidades bem-intencionadas e pândegas.

Ou nas outras; nas opções maiores.

Porém.
…………………………………………….

Maior reflexão não poderia haver. Sou muito sério comigo próprio, mesmo que não pareça. Mas.

Tudo conferido - todos derrotados em mim.

E juro-vos que tenho votado, e vou continuar a votar. Não voto branco. Não voto nulo.

Mas garanto-vos que, apesar de votar em consciência, me estou a divertir imenso. Viva a Democracia.

quinta-feira, 26 de março de 2009

A Quadratura do Circo – Impostos indirectos

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Por Pedro Barroso
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EM GUERRA CHAMAM-LHE “danos colaterais”. Em gíria de conversa de café, seriam “acidentes de percurso”. Em amor, talvez fossem “escapadelas parvas”. Em saúde, o médico diria “efeitos secundários”. Se fossem na infância, seriam “palermices sem sentido”. Se ocorressem num percurso, seriam “perdas de tempo”.
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Vou chamar-lhes talvez sociológica, talvez psicológica, talvez politicamente “impostos indirectos”. Ou, em comentário/cognome prosaico e imediatista – “já não há paciência”!
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São, com efeito, marcas indirectas de um viver português sem qualidade, nem civilidade e que, de algum modo, configuram uma boçalidade, um desnorte, um grotesco gritar urgente por mais cidadania, mais eficácia na coisa pública, mais elevação e mais urbanidade no viver português. E que nos fazem perguntar: que povo é este?
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Há coisas inacreditáveis neste quotidiano português que nos recordam, a cada momento, que estamos num país que parou na cultura, na probidade e na honra de si mesmo, nas mais desnorteantes flutuações e oscilações no critério, na arbitrariedade de decisões, na demora instituída na justiça, na perda de sentido estético, na ausência de interpretação inteligente das disposições normativas, na confusão do essencial com o acessório, culminando, até, no mais simples, estúpido e alarve vandalismo.
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De que ninguém nos consegue ressarcir. Imposto indirecto, portanto, por vivermos em Portugal. E do qual, infelizmente, nenhuma Repartição de Finanças nos passa recibo.
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Quando nos demoram uns minutos para fazer uma empresa, e um mês por uma segunda via dum código da segurança social que nos impede qualquer movimento efectivo dessa empresa.
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Quando se põem os professores a preencher 5 páginas de formulários e não sei quantos gráficos para classificar alunos que, afinal, são obrigados a passar de ano, porque essa é a politica governamental.
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Quando nos exasperamos pelo tempo que perdemos para tratar de tudo o que não é construção nem produção, mas apenas perífrases burocráticas de empenamento lógico da nossa vida.
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Quando uma decisão judicial nos dá razão, mas não nos devolve nem o tempo perdido, nem os prejuízos registados.
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Quando nos exigem o recibo antes da cobrança ou pagamento, e nós, humildes, obedecemos… e é se queremos receber.
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Quando todas as construções públicas derrapam no orçamento e no tempo, mas isso é considerado normal.
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Quando a sensação de corrupção se generaliza e vulgariza e encolhemos os ombros porque, afinal, sempre foi assim.
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Quando vivemos na fímbria duma insegurança que não tem caução, nem responsáveis, nem vigilantes e nela morremos ou ficamos estropiados para sempre.
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Quando somos assaltados no carro ou em casa e não nos descobrem mais o que foi roubado, nem se ralam muito em perseguir os assaltantes e sentimos que somos uns chatos que apenas incomodamos as forças da lei porque estamos aflitos.
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Quando habitamos uma casa no campo ou na montanha e nos pegam fogo em redor e perdemos tudo o que amealhamos uma vida.
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Quando nos riscam um carro e já só uma pintura nova poderá resolver o problema. Ou furam um pneu, e idem idem.
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Quando nos perdem um processo, um documento, um requerimento e lamentam, mas nada se pode fazer, senão recomeçar tudo de novo.
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Quando nos marcam uma cirurgia aos olhos para daqui a quatro anos e, entretanto, ou cegamos, ou vamos a Barcelona, se tivermos capital para isso.
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Quando os artistas vão à televisão e actuam à borla, e isso é considerado natural e ainda devem agradecer terem-se lembrado deles, porque isso é “promocional”.
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Quando lidamos com a estupidez embotada de um qualquer decreto camarário que exige e impede ao mesmo tempo uma actividade, obra, acesso, muro, manifestação.
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Quando a publicidade enganosa não tem culpa nem constitui crime.
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Quando a democracia é teoricamente participada, mas ouvimos e vemos sempre a opinião dos mesmos, nos mesmos sítios, defendendo os mesmos interesses, com a cupidez de sempre, lançando as mesmas promessas, para voltarem aos mesmos lugares.
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Desculpem amigos, mas cansei.
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Há milhares de situações que todos viveram já, ou podem facilmente imaginar para completarem este puzzle de enormidades cívicas e políticas, ou meras desgraças do nosso quotidiano viver.
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Pensem só, se puderem, no quanto tempo, riqueza, energia e produção teríamos se não tivéssemos que habitar este país de aflitiva indigência comportamental e maus costumes, onde nem os malandros são inteligentes, nem os políticos são competentes, nem os novos banqueiros são diferentes.
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A alarvidade de um riscador de carros, um incendiário, um professor caramba, um cantor de bacalhau e alho, um vândalo de cemitérios, um atendedor de guichet incompetente, um agente da PSP que apreende livros de arte, uma política da ASAE que quer acabar com a sardinha assada, ou até um ladrão que adormece no local de assalto, fala bem da qualidade da massa cinzenta de um país.
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Fomos invadidos pela estupidez. Pela cupidez mais sórdida e afinal mais parva do planeta na fraude bancária. Pela reacção de desconfiança mais grosseira e tosca face a tudo o que não conhecemos. Até na própria alarvidade e vandalismo os nossos marginais tornaram-se demasiado bimbos para discernirem o acto ilícito útil do inútil.
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E nós, vitimas - que perdemos um dia inteiro para tratar de um papel escusado, ou vemos tudo queimado à nossa volta, ou ficamos a olhar perplexos para o nosso carro completamente riscado por um imbecil troglodita - lá vamos pagando o imposto indirecto imenso de viver aqui.
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Senhores ladrões, marginais, bimbos, tolinhos, incultos, funcionários embirrativos e sacanas em geral do meu país: queiram evoluir! Tenham vergonha da péssima imagem que estão a dar à nossa terra!
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Alves dos Reis, volta, por favor. Tudo perdoado.
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A Quadratura do Circo - Os tristíssimos portugueses

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Por Pedro Barroso

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O CENÁRIO JÁ É HABITUAL. Passa-se no meu bairro mas poderia acontecer em qualquer ponto do país. Música de fado em fundo. Coisa canalha, de faca e alguidar.
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Abre o pano. A senhora que conversa ao balcão com o último e moribundo merceeiro de bairro não tem outra conversa, outra matéria. Ela lamenta-se. Choraminga, funga e expõe a sua vida sem pudor.
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Não tem motivos, de resto, conforme pode ver-se, para se vangloriar de nada. A vida está difícil; a reforma não dá para os medicamentos; os filhos labutam lá longe; a neta, apesar de licenciada em não sei quê de recursos humanos, está desempregada; a casa está a cair mas o senhorio está mais pobre que ela e não tem dinheiro para fazer nada. As paredes da casa onde vive estão rachadas e os esgotos sem arranjo.
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Enfim, a senhora tem razão. O seu ar triste e descuidado adivinha abluções matinais resumidas talvez motivadas pelo receio da conta do gás. A raiz dos cabelos revela o verdadeiro envelhecimento, mal disfarçado por um produto barato que tenta dar colorido ao penteado. A roupa é desabrigada para o frio que se faz sentir, e a pobre, além de lamuriar, pinga do nariz, curtindo uma imensa constipação. O quadro humano é triste, deprimente.
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Por sua vez, o merceeiro está ao balcão, também ele tiritando, de luz apagada, pois conforme me confessou no outro dia, já não ganha nem para a luz estar acesa. Sem luz acesa, eu sinceramente, quando entro de fora não vejo nada dentro da mercearia e duvido que alguém assim tope o que quer que seja e se lembre, de repente, que já não tem água ou fósforos em casa. No outro dia explicou-me, entre lágrimas secas de um chorar de vida que já nem tem expressão nem consciência, que a máquina de cortar o fiambre avariou e já não vai encomendar mais nenhuma. Desistiu.
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O povo do bairro, obviamente, por muita pena que sinta dele, também já desistiu de ir lá buscar o que quer que seja. Começou a não haver fruta de jeito, depois fiambre, um dia requeijão. Essa do requeijão, eu lembro. Era só à terça-feira e tinha de se encomendar. Um dia, um senhor bem-posto apareceu e encomendou dois para a terça-feira seguinte. Acontece que no dia aprazado não apareceu e o Sr. Saavedra, coitado, ficou com o prejuízo, pois na vizinhança ninguém se interessou por tal produto. Ainda hoje ele reconta a história, já lá vão 4 anos. Por aí se vê quanto foi importante para ele a perda de tão aparentemente insignificante negócio.
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Mas do bairro passamos à cidade. Amarga a face dos comerciantes, em risco de fechar a porta. Triste o semblante dos utentes, enlatados nos autocarros da manhã. Amargo o humor dos intelectuais, fechados num beco entre a revolta e a incerteza. Ácida a reacção de governantes aos governados e ainda mais ácida a reacção dos governados aos governantes.
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Por toda a parte gente maldisposta e contando histórias de desgraças. Os telejornais, um paradigma de infelicidades classificadas. O fogo no Verão; a neve no Inverno. A impotência dos Bombeiros num e noutro caso e um imbecil alto posto da Protecção Civil que diz que a culpa das estradas estarem cortadas pela neve é por estar a nevar demasiado.
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Pois. Tussa! - Dizia o médico novato. - Tussa mais! E sentenciou com um ar sério: Pois; o seu problema é que o senhor está com muita tosse.
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Um qualquer La Palisse de camuflado não diria melhor. Com efeito, os problemas que estamos a sentir são devidos ao mau tempo. E o mau tempo é devido, ao que parece, às grandes quantidades de precipitação, gelo, frio, neve e granizo e ao mau estado do mar. Que poderão classificar-se na generalidade como mau tempo. Brilhante círculo. Infelicidade, também.
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Estamos, portanto, envolvidos por um pensar de crise, limitado, trágico, redondo e inútil mas inelutavelmente infeliz.
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O senhor do Restaurante já não atende com aquele sorriso de antes. O segurança embirra com as chaves, o corta-unhas, o pente, tudo. As firmas e Ministérios, desconfiados, põem antipáticos torniquetes para controlo do pessoal. Outras firmas fecham sem autorização, em falências inesperadas e mandam fora o pessoal, sem justificação que se compreenda. Os desempregados, também eles, vão engrossar a fila dos infelizes. O tempo entristece. As guitarras gemem, mas o povo já não canta. Cala-se acabrunhado e sonha os impossíveis que hão-de vir.
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Ser português, hoje, na cara deste país que não comprei, é o paradigma de um fado menor. Mal tocado, modorrento, baço. Vil, injusto, amargurado, dorido, farto de ser assim.
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Garganta rouca de sofrer. Sem jeito.
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Gozamos na lama de um viver sem alegrias, nem luxos, nem fantasia, nem excentricidade. À espera que o euromilhões no-la traga, um dia, conforme ajustado, numa manhã de nevoeiro.
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Não contem comigo. Se me sair, emigro para um país alegre. Fica prometido.
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Imagem obtida [aqui].
Este post é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A Quadratura do Circo - Que mais será preciso, Manuel?

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Por Pedro Barroso
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HÁ MOMENTOS NA VIDA em que, mesmo que não quisermos, ascendemos a um ponto em que já somos mais do que queremos.
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Há momentos em que, com efeito, significamos muito para lá do indivíduo - que tão bem conhecemos de o vermos todos os dias ao espelho, pela manhã - e temos de ser nós a avançar. E temos de dar o exemplo duma dignidade acima de nós mesmos.
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Há momentos na vida em que somos a vontade que nos amarra ao leme de uma ideia, sobretudo quando um mar português conturbado se declara.
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Momentos em que devemos escalar uma escarpa de confiança, mesmo que não tenhamos todo o equipamento e nos falte alguma certeza para o fazermos. Mesmo que seja à revelia do nosso próprio entendimento.
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Há momentos em que a vontade tem de estar para lá de nós, num projecto de alma colectiva.
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Porque é necessário abanar, arejar e ajeitar as coisas. Reconverter, renovar, arriscar o grito. Porque os cinzentos ganharam e tudo mudou.
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Porque a penumbra, meu irmão, derrotou a claridade.
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Nesses momentos, não basta dizer que estamos atentos e que desejamos uma nova ideia de esquerda e uma reflexão sobre os valores da sociedade. E o equacionamento de novas sinergias catalisadoras do pensamento politico no espaço de uma contextualização cívica alternativa. Caramba. Deixemos de perífrases, amigo.
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Não se pode mais querer e não querer ao mesmo tempo.
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Vejamos. Otelo depois das presidenciais inventou os GDUP’s, para não sei quê de vontade popular; Pintassilgo criou Núcleos de trabalho, para não sei quê de reflexão cristã; Eanes depois da presidência criou o PRD, para não sei quê.
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E também tu - da tua enorme e transversal estrada de emoções e multidão - inventaste uma coisa chamada MIC - nome infeliz e triste, a meio caminho entre algum misterioso Ministério e doença de pele - destinado a eficácia dúbia e desgaste rápido. Depois de ti, também a corajosa Helena Roseta congregou lisboetas e catalisou um grupo de acção Cidadãos por Lisboa.
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Ora bem.
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Estive de alma e coração em todas estas lutas. Mas sempre fui muito céptico face a esse tipo de generosas iniciativas de continuação do sonho.
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Não porque não devesse, numa sociedade ideal, ser assim. Não porque os grupos de cidadãos não devam lutar e abrir brechas. Não porque a luta não deva continuar para lá do elã inicial. E também não porque seria injusto deitar fora milhares de votos de um acreditar significativo e entusiasta. No teu caso um milhão.
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Mas passa-se que no espaço português e na nossa lei a intervenção verdadeira ao mais alto nível politico está interdita a grupos autónomos de cidadãos e apenas reservada a Partidos convencionais - mesmo que, quantas vezes, insignificantes e formados sem ideologia nem espaço próprios.
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Por isso as outras soluções, desculpa-me, Manuel, mas são espaços que têm o valor que têm, e nada mais valem que o horizonte limitado de uma acção evocativa, com uma componente cívica híbrida, a meio caminho entre as ONG’s e a tertúlia de café. Destinadas a uma duração efémera, quase diria a um arrastar inglório e triste de uma ideia saudosa, por vezes entusiasta, mas em rota de declínio anunciado.
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Mas tu sabes como ninguém que há espaço de alma na esquerda para este novo rumo. E que é preciso acreditar de novo, pois o partido Socialista que temos desapareceu do mapa da verdade e criou autismos indisfarçáveis face ao Ensino, à Justiça, à Saúde, ao Sindicalismo, à Banca, à Pobreza e à Vida.
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Não se pode dizer que não se avança, quando tudo pede que avancemos. Este partido, com efeito, de socialista nada tem. Um filho nosso, por muito que o tenhamos criado e amado, também pode estar errado. E manda a hombridade que o assumamos, com o desgosto maior mas a alma aberta de desassombro e lhaneza de quem sabe melhor do que ninguém que nada mais há para fazer. Como um médico desliga uma máquina a um doente que faleceu, ou mais, que tinha mandato para viver mas se desviou da vida e que desejou falecer de sua vontade. Em corpo, teoria, propósitos, programa, espírito e inspiração.
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Olha à tua volta, Manuel.
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Cargos e tachos perlando de carteira recheada os conjurados de outrora. Desses estudantes aguerridos, desses intelectuais desassombrados, desses homens de mão destemidos, dessa verve exaltada e desse gosto imenso a liberdade, afinal que nos resta hoje? Onde estão eles?
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Andam aí. Vestem fatos elegantes e são consultores em várias empresas. Aprenderam a mentir e prometer. São a reles imitação do que já foram e da alma enorme que tiveram. Constituem um Circulo central estabelecido de equívocos e serviços, integram uma agradável e blindada tertúlia de favores em eternas e escabrosas promiscuidades entre o poder e a causas públicas. Assim se fazem as cousas, como escreveu o mestre Gil.
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Entre o poder dos cargos e o sofrer dos encargos será que não podemos fazer nada?
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Creio que sim – PODEMOS.
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Porque, se assim ficarmos sempre, eles já ganharam e ganharão sempre, Manuel.
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E nós ficaremos, na fímbria do terreno - muito atentos e solidários, muito construtivos e opiniosos, muito “pensadores e reflexivos” sobre os problemas da esquerda e do Mundo - a observar a injustiça galopante, o autismo, o clientelismo, a corrupção, o fascismo autoritário, a ilusão maquilhada de competência. Vendendo Magalhães ao preço de Guantanamo e comprando empresários ao preço dos milhões que, afinal, nunca valeram.
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Quando os Bancos nos mentem e a Alta Autoridade Constância não sabe, não viu, não deu por isso, não tinha competências nem meios para agir.
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Quando a prioridade é salvar os ricos; os podres de tão ricos; podrissimamente podres de tão podremente ricos. E não o sujeito passivo, o que come uma sopa apressada numa qualquer manjedoura urbana, porque as prestações obrigam a que faça contas, e chegou à triste conclusão de que já não pode almoçar.
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Quando nas escolas se reconverteram funções sagradas e fulcrais de ensino e aprendizagem por trabalhos de secretaria, confundindo, baralhando e ocupando os professores em actividades de autoflagelação e viroses titulares conduzindo a uma guerra sem igual, perante a ferocidade de uma mulher demente.
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Quando, nos media, as playlist, a imbecilidade, o analfabetismo, o compadrio e o relaxe constituem novos modos de censura sem lápis azul; quando a liberdade de opinião e o conhecimento se convertem num handicap de acesso; e quando a grande Cultura incomoda por ainda preservar uma vaga noção moral diluída num universo da culpa perseguida.
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Quando os socialistas todos se interrogam sobre se isto tudo o que estamos a viver é vida; se esta é uma governação socialista; se este não é um acto de intenções a eternizar-se no futuro, perante a inércia e a placidez critica e contemplativa de grande parte da melhor massa cinzenta nacional que, ou se demite, ou emigra, mas acaba por se acobardar no momento do confronto social.
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Quando o bom senso desapareceu. E o governo pensa que é eterno, perfeito e infalível. E esvaziou maiorias absolutas, valores, programas, ideologias e oportunidades. Quando a esquerda pensa, pensa, mas não gera. Quando os comunistas fazem o que sempre souberam fazer, isto é: - comunistam comunistãmente. E a oposição pensa, e ainda julga que é, mas não é, nem contem alternativa. Ou, se calhar, não pensa, não sabe escolher, não é, nem quer ser alternativa…
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Então…
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Não é tempo de pensar, nem repensar, nem reflectir, nem discutir, nem tecer considerandos filosóficos sobre a ideia de socialismo. É tempo de avançar da única forma possível activa e consequente. O resto é o manto diáfano da fantasia cobrindo a nudez forte da verdade. Enquanto temos a memória dos dias vividos e o milhão de pessoas que connosco acreditaram, desculpa que te ponha a coisas deste modo meu caro amigo, mas…
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…porra! … De que mais precisas, Manuel?
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Estamos todos aqui à tua espera.
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.