quinta-feira, 24 de abril de 2014

GRALHAS SEM GRALHAS - Trinta e um



Por Antunes Ferreira
Trinta e um, contados a toque de sino, nem mais nem menos, trinta e um. Sem querer recordo o velho fado que Carlos Ramos celebrizou. Como este não há nenhum... Como esta só há em Roma, dizem os entendidos, com a correspondente prosápia. Deixemo-nos de trocadilhos que o tema é sério, sem nenhuma justificação; já dizia a minha avó Maria da Assumpção que graças a Deus, sempre; graças como Deus, nunca.

Mas, antes da explicação deste aparente enigma, tenho de acrescentar que não o é, bem pelo contrário. Passo a relatar a ocorrência, como diria um diligente soldado da GNR, após ter-se deslocado ao local da mesma. Nestas letras de viagens, perco-me, por vezes, em textos a latere que apenas servem para instiliar a confusão; que me perdoem os escasos leitores que ainda me aturam, quantificação que julgo pertinente face aos também escassos comentários depositados neste blogue.

Gozava, ou mais precisamente, gozavamos a Raquel e eu, o calor reinante na praia de Colvá, uns 38º, indo à água co Índico – não posso deixar de repeti-lo -  a 30º e convenientemente besuntados de creme  de protecão epidérmica grau 50, que o sol não é para brincadeiras. Escolheramos para base o restaurante Benny’s Place  já nosso conhecido de há dois  anos e que serve todas as qualidades de peixe acabado de  pescar: Kingfish, que aqui leva o nome de peixe-serra; redfish, tunafish, smal sharck, ou seja o cação,  lulas e pomfret, da família dos linguados. E, para juntar à oferta, caranguejo grandalhão, quase santola.

Reparei, entretanto, que no restaurante ao lado estava um empregado envergando... a camisola alternativa da selecção portuguesa, com o 7 e o Ronaldo nas costas; fiz-lhe sinal para que me autoriasse a fotografá-lo, e depois do sim dele, clic. Os pavilhões das comidas e bebidas seguem-se uns aos outros. São todos  com excelentes confecções, mas, helas, os sanitários são uma desgraça. Há dois dias começaram as obras para a construção de um edifício onde ficarão os toiletes para os banhistas.

Noto também que há um cartaz de publicidade a um vinho branco, indiano. E o slogan: eu Goa nunca bebo água, diz um cavalheiro em calção de banho, com uma garrafa de vinho numa mão e uma prancha de surf na outra. Curioso, por estas bandas ainda se bebe pouco vinho, mas o hábito faz o monge. Donde, ali está o convite para o sumo de uva convenientemente vinificado. Como há dois anos escrevi, Portuguese wine nothing. No comments.

Logo à entrada da praia existe um caneiro a céu aberto com duas pequenas pontres para o acesso ao areal. Lembrei-me do que existia, anos a fio, na Cruz Qubrada, antes do emissário. O cheiro é pouco intenso, mas é... cheiro. Atravessado o caneiro, há um cartaz que publicita todos os serviços que podem ser utilizado pelos banhistas. A este propósito, convém deixar aqui duas  curiosidades que não são novas, pois são práticas antigas, mas sempre me impressionaram.

A primeira: os indianos, e aqui também os goeses (distinção que é praticada por cá...) vão à praia vestidos e as senhoras  com os seus saris tomam banho assim. Vêm que nem sopas, à volta. A segunda: os russos e obviamente as russas, algumas bem bonitas com os seus biquinis reduzidos, já vi fios dentais, são aos magotes. Gastam menos do que inicialmente, queixam-se os locais, mas, mesmo assim, são fonte de receita muito apreciável. Os empregados e vendedores diversos, já dizem umas coisas em cirílico falado... E os anúncios e os menus dos restaurantes debitam-no tranquilamente.

Estava observando um parapente, cheio de tentação, mas também carregadinho de cagaço, quando me telefonou o Carminho Costa, já repetidas vezes mencionado. Falava de Mapuçá, sua terra, onde há dois anos vivemos num excelente apartamento de urbanização construída pelo antigo colega da Raquel no Liceu Nacional Afonso de Albuquerque, mais um. Vinha propor uma ida a Goa Velha para assistir a uma procissão muito especial; trinta e um andores, cada um com o seu santo. Está explicada a afirmação inicial.

Esclareça-se já uma confusão  que ataca os menos informados: Goa Velha não tem nada a ver com Velha Cidade, ou seja Old Goa . Esta última foi a primeira capital  do tempo dos Portugueses. Tem várias igrejas entre as quais a  catedral e a do Bom Jesus onde repousa o corpo do apóstolo das Índias, Francisco Javier, nascido espanhol, mas santificado como Português. Na sua urna de prata cravejada de pedras preciosas, já é uma múmia, aliás deteriorada pelo tempo. Incorrupto, sim, mas tanto não. No entanto continua a conglomerar os fiés e os... infiés. Para além dos católicos, podem ver-se hindus, maometanos e até judeus em fila junto ao túmulo. Uma mini Babel, pois as línguas utilizadas são mais que muitas.

Um governador do “Estado Português da Índia”, nos idos do antigamente próximo, um tal Bossa, quando foi confrontado pelos  devotos que pretendiam ir de autocarro até Velha  Cidade na festa da exposição do corpo, terá respondido “quem tem fé vai a pé”. Mas, no caso vertente  a cerimónia decorre em Goa Velha, uma vila que como o nome indica, é de provecta idade , dizendo-se que se trata de localidade mais velha do que  o período dos Portugueses. Não me foi possível confirmar a afirmação, mas também não senti grande preocupação com ela, pois não pretendia escrever História.



Tive a oportunidade de assistir a uma parte da celebração. Uma multidão e, para mais, numa sexta-feira. Porém a fé dos católicos goeses é enorme e, por isso todos os lugares em que um crente se poderia sentar, nem vê-los. Por isso, decidi alterar a frase do governador Bossa: quem tem fé fica em pé. Terminada a missa com sete sacerdotes a concelebrá-la, e ministrada a comunhão, que foi de dimensão também enorme, seguiu-se a procissão dos trinta e um andores, cada um saindo da igreja anunciado com uma sonora badalada.

Os santos sucediam-se e tive a oportunidade de registar que entre eles, e para além do inevitável São Francisco Xavier, alinhavam dois lusos, o andor da Raínha Santa Isabel com as rosas no regaço e o do Santo António com o menino Jesus ao colo. Informa-me o Carminho que antigamente eram cento e trinta os andores. Assim, já entendo que a procissão é chamada de todos os santos. A corte celestial, se não estavam todos, tinha a maioria suficiente para tal qualificação. Hoje, a diminuição é grande, ainda que não haja por aqui qualquer resquicio de austeridade.

A criançada abunda levada pelos progenitores e fiquei entusiasmado com a diversidade infantil. Uns seguem cuidadosamente as cerimónias, outros mais miúdos vão correndo com os pais ou as mães atrás deles, ainda para aqui Francisco, ainda te perdes. E outros ainda mais miúdos, vão ao colo e não resistindo ao cansaço uma menininha  adormece no ombro do papá. São anjinhos sem asas.

Passam os andores e por baixo deles os fiés vão passando também. Para que os eleitos do Senhor os abençoe e lhes dê sorte. As religiões têm sempre seguidores que misturam a crença com a tradição. De longe, mulheres hindus observam o evento com respeito e recolhimento. Se a humanidade visse o que se estava a passar, não haveria guerra, nem crimes, muito menos o mistério do voo 370 do boeing 777 da Malasia Airways.

terça-feira, 8 de abril de 2014

GRALHAS SEM GRALHAS

Por Antunes Ferreira
 
O Santosh é o empregado de mesa do restaurante George com mais pinta. Os outros são meros comparsas e olham-no de soslaio. Já o conheço  - e ele a mim – há quase  oito anos, começou então por dizer uns sins e uns nãos em Português macarrónico, a que depois acrescentou  o clássico como está, o bom dia, o obrigado e (muito) pouco mais. Sempre que entrávamos no estabelecimento e ele dava conta disso comunicava o facto ao patrão e saía Amália Rodrigues ou o rancho folclórico de Santa Marta de Portuzelo. Simpático.

No George - que fica na praça da Igreja - há comida goesa de três estalos; atrevo-me a dizer que no domínio do caril, do sarapatel, do balchão, dos croquetes é o melhor de cá. Sem grandes espaventos, mas a publicidade que faz nos sacos de plástico é absolutamente verdadeira: the best sea food always fresh. Este ano o Santosh alargou o seu vocabulário e as frases em Português: Faz muita calor. Quer gelo? Agora? Depois? Sorpatel muita bom. A lingua roasted está grande boa. Esperimenta os croquetes; nas sextas há batatshop. E os liver da galinha  também está boa. Vou oferecer-lhe, antes de voltar para Lisboa, um livrinho que já comprei e que ensina umas coisas de português, inglês e concani. O rapaz merece. Só não sei se sabe ler...

Curiosamente conheci a autora, a D. Silvette D’Sá Mesquita e a sua filha Cheryl aqui mesmo no George. Tenho em minha casa em Lisboa um exemplar que adquiri aqui há dois anos, mas o meu concani persiste em ser uma lástima. Porém, já sei dizer sim ou seja ôi e não, que é . Kitlé poiça?, quanto custa? E cossó assai?, Como está? A preguiça, aliás congénita, a falta de persistência no estudo, mas, sobretudo, falta de prática ajudam a explicar o meu fracasso; mas também a Raquel não pesca nada, esqueceu o que só usava para falar com as criadas. As classes, pois claro, à mistura com as castas. No resto, era só o português. A prática mantém-se ainda hoje. Faz-me comichão, mas passa-me. E já que vou falar em militares cito o ditado calino-castrense sobre as escoriações: isso incha, desincha e passa.

No primeiro andar (aqui em Pangim e por toda a Goa há o costume dos melhores restaurantes serem nesse piso, não sei porquê) a sala tem AC – não,não se trata de ser antes de Cristo – é ar condicionado. Os preços são bem acessíveis, digo até baratos; um almoço para nós dois e um Amigo fica por cerca de dez euros, ou menos. Há por esta capital restaurantes mais caros e mais sofisticados. Desde o Motil Mahal, com um porteiro de bigodaças, até ao Aroma, passando pelo Uper House, pelo Ritz e pelo Sree Punjab. Mas, são sobretudo de cozinha indiana.


Já lá vão uns bons dias fomos almoçar ao George já citado, com o Ivo Viegas e a sua Tina já regressados a Lisboa, ou melhor a Queijas onde moram. Numas três mesas ao lado da nossa falava-se português castiço, com alguns vocábulos mais vernáculos. Averiguei quem eram os sujeitos e descobri, um tanto admirado, que tinham sido soldados no tempo dos Portugueses e até ficaram prisioneiros. Grupo patusco, bem disposto, em que se integrava também uma Senhora, esposa de um dos ex-militares. Andavam à roda dos setentas anos, mas cheios de vitalidade e boa disposição.

Conversa pra cá, conversa pra lá e deram-me os nomes e as moradas, bem como se deixaram fotografar quando lhes disse quem era e que iria publicar a sua caprichosa estória neste blogue. Enfim, tudo numa boa. O Santosh estava nas suas sete quintas e transformara-se em grafonola despejando português safável, antevendo bakshishes diversos e avultados. Explico: são gorjetas e têm origem árabe, são usadas em todos os países muçulmanos. O império dos Shah dominou a Índia e esta palavra é uma verdadeira herança.

Registei, portanto, os nomes dos visitantes. Deles aqui ficam alguns. Joaquim Isidoro Santos, da Atalaia¸ João Leocádio Gomes, Santo Antão do Tojal, Sabino Godinho Saturnino, Alpiarça, António dos Santos Neto, Montemor-o-Velho. Eram oito, mas não apontei todos. Fizeram-se umas saúdes com cerveja, uísque e gin; eu fiquei-me pela fresh lime soda, a doutora Alice Nobre não me permite mais. Desgraças... Uns estiveram presos no campo de prisioneiros de Pondá, outros em Alparqueiros. Mas todos, apesar dos transes por que passaram, unânimes: Goa é uma terra bendita, por isso aqui estão de viagem.

O Salazar ia-nos fodendo, mas o maior político foi um Senhor chamado Nerhu que impediu que fossemos trucidados. Ele, o Governador Geral general Vasalo e Silva e o patriarca D. José Alvernaz. Não fossem eles e a coisa podia ter dado um banho de sangue pois o Botas dissera até à última gota. Mas, assim, safámo-nos, os indianos não nos trataram mal, os goeses foram porreiraços, levavam-nos cigarros, comida picante e boa, sabão. Claro que não eram todos, mas eram muitos, muitos – e muitas.

Por isso aqui vinham em romagem de saudade, rever “as paisagens deste Paraíso”, reencontrar alguns velhotes amigos que ainda falam português, beber uns copos de feni e de  urraca, bebidas que não encontram em Portugal. E, quase em surdina face à satisfação deles fui perguntando o que fariam se encontrassem os seus carcereiros. “Íamos tomar umas bebidas, éramos todos militares, só que com  fardas e armas diferentes...” E, de lado, o Leocádio: “com as guerras só ganham os graúdos; os mais pequenos são sempre quem paga as favas...”.

Era tempo de despedidas, nós ficávamos eles seguiam viagem, uma peregrinação, “é tão bom voltarmos cá”. E, chiça !, só mais tarde descobriria que as fotos que tirara aos viajantes estavam mais tremidas do que se tivessem apanhado um susto. Uma merda impublicável. Entrementes, o nosso Santosh ia empochando as bakshishes, satisfeito da vida, um maná em rupias não cai do céu todos os dias. Homem bons os portugueses, vem mais e eu muito bem do dinheiro. Lá fora, o calor aperta. A igreja branqueia no alto da sua escadaria. A malta da pesada, ou seja o nosso grupo, na cerveja, no uísque e no gin tónico. E eu a fresh lime soda. Porra! A vida está cheia de injustiças.  

sábado, 29 de março de 2014

GRALHAS SEM GRALHAS - O Senhor Sabe Tudo

Por Antunes Ferreira

É uma sala recheada de mobília indo-portuguesa, um aparador precioso, cadeirões magníficos, uma espreguiçadeira desenhada pelo Senhor que me recebe e veste, descontraído, calções e camisa de manga curta, É toda desmontável, esclarece, com uns poucos parafusos, basta desenrosca-los e já está, mandei doze ou treze para Portugal, vêm cá goeses de férias e pedem-me para as encomendar e enviar. As recordações vogam por ali, reflectidas nos quadros que povoam as paredes. Uma osga, plácida e imóvel, espera talvez mosquito para o pequeno-almoço.


Um brasão do Estado Português da Índia também está pendurado numa delas. Ontem e hoje misturam-se sem brigar com imagens de Santo António e Ganeshes; convivem. Com o Holi a rapariga deixou-me a comida já feita, vou vivendo sozinho até que desça à tumba. E não me aborreço, tenho sempre coisas para fazer, não posso estar parado. Lá fora o barulho, os tambores, a gente pintada de várias cores, da cara ao vestuário, sem esquecer o cabelo, brincando, berrando, pulando, é um dia especial, o Carnaval hindu, meio pagão meio santo, enquanto a bebedeira não toma conta dos foliões. É o Holi e está tudo dito.


Percival Noronha já fez 90 anos, confessa-o sorrindo, mas está de memória perfeita, explanação clara, desfia anos como quem desfolha as pétalas do malmequer, bem-me- quer, finta o tempo, sabe tudo, A Raquel é filha do director da Alfândega, o Carlos Melo, bom homem, competente na Raia, tinha uma bela casa de família agora reconstruída mas já não é que era. Conta as contas do rosário goês, conhece as famílias, enfim, as suas desditas e por aí fora: é omnisciente e omnipresente, um deus enraizado na terra. Ouço-o desbobinar a História e apenas lhe faço uma que outra pergunta. Responde logo. Um espanto!


Quem me levou à casa dele, nas Fontaínhas, a Alfama de Panjim, foi o Zito Menezes, médico aposentado, sportinguista ferrenho, bué da fixe, de quem já falei noutras ocasiões. Foi colega da Raquel durante os sete anos do Liceu Nacional Afonso de Albuquerque e conhece perfeitamente Percival. Aliás, falou-lhe na semana passada da nossa visita ao que ele acedeu, Gosto de receber pessoas, de falar com elas e nós a ouvi-lo, a Raquel também alinhou na visita, quase não respiro face ao que ouço e vejo.


O Senhor desculpe-me, estou um tanto surdo, e puxa a orelha para ouvir melhor, o ruído dos holiões é catastrófico, mas mesmo assim, vai relatando o que aconteceu no tempo dos Portugueses e depois. Caso elucidativo que desmente a versão criminosa posta a circular no tempo salazarento. Recordo a declaração do ministro da Presidência Correia de Oliveira, aliás o Correio do Oliveira como então dizíamos na galhofa. Segundo ele, tinham morrido três mil e mais umas centenas de militares na defesa do solo sagrado da Roma do Oriente, a Pátria fora miseravelmente atacada e conquistada pela invasão das tropas indianas do pandita, o que era igual a bandita, bandido.


O Diário de Notícias publicou em caixa a mentira do regime. E também referiu o bombardeamento dos depósitos de combustíveis em Vasco da Gama, com incontáveis baixas na população. Estava-se a 22 de Dezembro de 1961, eu começara a namorar com a Raquel em 22 de Agosto e pude acompanhar os dias de angústia que ela vivia. Os seus pais e cinco irmãos moravam ali. Podiam estar todos mortos, de acordo com os noticiários falsos e os comentários pseudo-patrióticos que circulavam.


Foi então que me lembrei de recorrer aos meus amigos e vizinhos no Bairro do Restelo, os Solano de Almeida, cujo pai, comandante dos TAIP, Transportes Aéreos da Índia Portuguesa, cometera o feito de descolar com o seu Douglas DC 4, da pista bombardeada do aeroporto de Dabolim. Tinha demonstrado uma perícia, um sangue-frio e um destemor realmente notáveis. Na casa dele e depois de eu ter explicado ao que vinha, o piloto informou-me das mentiras que circulavam em  Portugal e que até conhecia os meus futuros sogros, encontrando-se a família de perfeita saúde. Não gostava do regime salazarento, sabia. Claro que a Raquel passou o Natal muito mais sossegada. E eu também.


Agora e aqui, Percival  limita-se a concordar: foi mesmo assim. Pergunto-me quem é este homem de saberes imensos, cronista, viúvo, orador, combatente de muitas causas, repositório vivo de noventa anos de História, completados em 22 de Junho do ano passado? Recorro a notas biográficas publicadas no semanário “Goan” em inglês e por mim adaptadas em Português. Tenho de agradecer à publicação, de outro modo teria de encher-me de paciência para seleccionar dados sobre ele, tantos são os que existem. O que em férias seria de criticar e de eu ser considerado, pelo menos, maluco…


 “Percival não é um cronista do passado, ele é o passado, Em 1961, quando a Índia recuperou Goa, ele era funcionário, tendo chegado a Chefe do Gabinete de Informação, que reportava directamente ao último Governador Português, Vassalo Silva, com quem viajou por inúmeras vezes para Damão e Diu. A sua tranquila eficiência e capacidade de elaborar e aplicar regras, fê-lo osubir na hierarquia sob o Governo indiano tornando-se chefe do Protocolo Oficial no final dos anos setenta e, em seguida, subsecretário de departamentos-chave - saúde, indústria, informação e turismo.

 Realmente continua a ter um talento especial, com raízes ancestrais nas aldeias de S. Matias em Mala de onde veio sua mãe Aurora Vital e Noronha  e Loutolim, a vila de seu pai Antonio José de Noronha. Este partiu para o Uganda com Percival, então quase bebé, e voltou em 1929, quando  tinha sete anos; deu entrada no Liceu para completar a sua escolaridade”.

 Durante a nossa conversa apontou a herança de Goa que se encontra em ruínas. Posso dizer que Percival é a herança que ainda está de pé, e sublinha que os arquivos de Goa estão a perder-se e em estado decadente, bem como os edifícios antigos que não foram persevados. Mas, perante o seu saber e a sua lucidez, ele continua a ser um arquivo permanente que acentua como Goa desliza em plano inclinado e se torna uma sombra do seu passado.

 Saio da casa de Percival no bairro das Fontaínhas perfeitamente esmagado; alias, saímos os três, o Zito, a Raquel e eu. Descemos os degraus que nos tinham levado ao primeiro andar e lá em cima Percival como bom anfitrião despede-se, acenando cordialmente. Pede-me para voltar, tem um livro para me oferecer. Claro que voltarei. Na parede do cimo do patamar da escada tem uma roda de madeira também trabalhada. É a última informação que nos dá, trata-se de uma peça que mandou fazer e é uma reprodução das que em pedra fazem parte de templos hindus que são carros.

 Cá fora os foliões hindus bem pintados continuam a  carnavalar o Holi. Por toda a Goa este é um dia especial e feriado, as lojas fecham e, singularmente apenas umas quantas de hindus se mantêm abertas. No resto da Índia também. Nas Fontaínhas, bairro castiço, onde os habitantes são particularmente católicos, de cultura e tradições lusas, estes festejos vão durar todo o dia, parando apenas amanhã que é dia de trabalho. Três moças, alias bem bonitas, perguntam-nos sorridentes se nos deixamos pintar. Faço um gesto evasivo, mas respondo-lhes um não, também sorrindo. Soltam gargalhadas cristalinas e berrantes como os saris que usam – e afastam-se. Goa  também é   isto.

quarta-feira, 12 de março de 2014

'Deu borem dis dium'



Por Antunes Ferreira
Deu borem dis dium. Ou seja, bom dia, em concani.

NA MINHA casa ouve-se o mar, as ondas marulhando a uns duzentos metros, ou seja quase aqui à porta. No quintal mesmo ao lado cresce um coqueiro – olha que novidade – uma árvore que dá pão, uma pãozeira, portanto, uma mangueira e muitas buganvílias. Nuns trezentos metros da minha rua, caso curioso, existem três cabeleireiros, um dos quais unissexo, dois restaurantes, um bar, três ourives, duas agências bancárias, um consultório médico e uma farmácia. Só falta a loja do caju. Mas, não se pode ter tudo. Para todos os gostos, enfim. Frutas pão e mangas ainda não estão prontas como aqui se diz, em vez de maduras que nós usamos em Portugal.
A propósito, abro aqui uma parentética para dar conta de episódio ocorrido em Luanda, quando estávamos por lá. A Raquel tinha tido os partos do Miguel e do Paulo em Lisboa, na clínica de São Miguel, sob o cuidado atento do Prof. Castro Caldas e o acompanhamento posterior pelo primo e padrinho de casamento, Prof. Mário Cordeiro, aliás primo da minha consorte e pediatra de mão cheira. Recordo que fora, em casa dele que tinha descoberto a miúda que viera de Goa alegadamente para estudar na Faculdade de Ciências: Mas, creio que me caçar e depois casar.
Então, na capital angolana onde tínhamos produzido o terceiro descendente ou terceira, na altura não havia ecografias, e quase findos os nove meses habituais, fomos no carrito que comprara, um pequenino Mitsubichi Colt (anos de colonialismo já me tinham permitido entrar pelo desvario…) à Casa de Saúde do SNECIPA onde o/a rebento/a viria ao Mundo. Enquanto a mina consorte – tinha casado comigo, daí o nome – subia ao primeiro andar para mirar a enfermaria, eu ficara no minúsculo boguinhas acompanhado dos dois primeiros infantes: o Miguel com cinco anos e o Paulo com três.
O primogénito era desde sempre o mais crédulo e ingénuo, o seguinte caracterizava-se pela esperteza um tanto saloia, mandando bocas aqui e ali e contestando quase sempre as normas maternas e paternas. E foi o Miguel que me perguntou, ó Pai, onde foi a mãe?, ao que respondi (estávamos ainda nos anos sessenta) que a mãe tinha ido ao local onde iria buscar o mano. Silêncio. Desceu a Raquel com umas trombas elefantinas. É mau? Perguntei-lhe. É péssimo. Nisto, o Miguel, ó mãe então o mano? E o Paul, galharda e convictamente, não vês que ele ainda não estava pronto!!! Fecho o parêntesis.
Voltando à minha rua; é por ela que se chega à praia de Miramar, daí os murmúrios do  Índico. Passa-se pelo colégio Dhempé, antes Dempó, uma enorme instituição mandada construir pelo magnata do mesmo nome. Rapazes e raparigas de todas as classes, desde a primária até aos cursos superiores são fotocópias de todos os estudantes do orbe terráqueo; a mochila é fundamental. E os namoricos vão aumentando, ao invés do que se passava no antigamente.
No fundo da rua – aqui é road em vez de street – está plantado um templo hindu, moderno, onde para as pessoas entrarem têm de se descalçar. O mesmo acontece nos consultórios de médicos hindus, escritórios de advogados e outros. Fui ao estaminé do Dr. Ashish Surlenkar onde ouvi uma estória para dar que pensar, eu conto, o clínico é uns anos mais velho do que a Raquel e conversou com[HAF1] igo num Português escorreito.
Tinha lá ido por via de um problemazito intestinal, nada de grave, e depois ficámos a conversar e fiquei sabendo que ele completara o curso na Escola Médica de Goa e pretendia depois ir para Lisboa fazer uma série de cadeiras para a equiparação, “quando aconteceu aquilo, a libertação , como aqui dizem…” Pasmei. Da boca de um hindu ouvir uma tal frase, 53 anos depois dos acontecimentos de Dezembro de 61, deixou-me espantado; mas calei-me e começámos a falar do Benfica, como bom sportinguista retorqui-lhe, rimo-nos – e não me cobrou  a consulta , aliás seria caríssima , 2,2 €…
Do outro lado da marginal que une a capital a Miramar, há mais um restaurante, o Foodland (do Turismo de Goa) e também hotel, uma pastelaria, a Canapé, grupo   hoteleiro de grande dimensão que existe por todo o estado. É, por conseguinte, uma rua muito importante, onde os pregões das peixeiras, vendedoras de hortaliças, vendedores de baldes e outras alfaias de plástico, se misturam com a buzina da bicicleta do padeiro. Que, vejam lá, começou a entregar o pão à nossa porta quando viu a minha mulher com um pé elástico. Gentil, o homem. Gentil, o procedimento.
É, como já compreenderam, uma rua com pedigree. Embora com poucos passeios, o que em Goa é absolutamente natural, são os que sobrevivem às monções e nos quais é mais perigoso  peotonar do que na beira da road, vincando olimpicamente o destemor do cidadão e confiando na boa vontade e na falta de pontaria dos condutores. Estes, além disso, são verdadeiros malabaristas, funâmbulos num tráfego diabólico e ao som triunfal das buzinas de todas as espécies, tonalidades, decibéis et aliut. Há passadeiras, é certo; mas pouco falta para multar os temerosos que as tentem utilizar para atravessar uma qualquer road.
Porquê uma tal opção galharda e valente? Os suspeitos passeios, esses sim, são um perigo constante, armadilhados, traiçoeiros, esventrados. As monções têm as costas largas. As chuvas são permanentes, ou quase, de acordo com fontes fidedignas e presenciais e as alturas das águas atingem por vezes os 30/40 centímetros; donde os lancis são altíssimos, onde alpinistas conceituados teriam o maior êxito. E as sarjetas, entupidas até mais não, recusam-se honestamente a escoar o OH2 pluviométrico e sujo.
Fico a imaginar a saga trágico-marítima dos riquexós durante a estação chuvosa. Penso até que veículos tão prestimosos deverão nessas ocasiões possuir como equipamento adicional  - boias. Para flutuar, está visto; mas também de salvação. A propósito, no princípio da minha rua há uma praça desses triciclos pretos e amarelos, fabricados por uma tal Bajaj que deve ter resultados espampanantes, a julgar pela miríade de tais engenhocas rodoviárias que quais enxames se espalham por todo este imenso subcontinente, Goa incluída, como é óbvio. O CEO dessa frota já nos conhece e apenas chegamos, faz-nos sinal para aguardarmos do nosso lado, que o riquexó mais próximo atravessa a road e vem tomar-nos como passageiros.
E até já não é preciso acertar previamente o valor da corrida, prática costumeira: daqui a Pangim são setenta rupias. E se o digno condutor é goês e ouve que a passageira é também patrícia, de Raia, então, sessenta. Já estou convencido de que, perante esta prática deve haver uma maçonaria dos goeses. Mas, claro, não o digo, guardo a convicção no mais recôndito de mim e ando de riquexó a preço regional. Sou um pacló, um branco, bem o sei, mas a minha patroa é de Salcete no Sul, gente boa, e o condutor também é daqueles lados, quase vizinho. Não são como os de Bardez, deus os criou mas mal fez…
Na frente da minha casa (que é um apartamento porreiríssimo, como já disse) estão os Bobby Apartments, num segundo andar dos quais vive uma família de pai, mãe, filha (uns 13 anos) e filho (talvez uns dez). O chefe tem uma vespa, da marca Hero, indiana como o sari. Há-as aos montes, no caso presente os Gates, de todos os modelos, feitios, cores e sei lá que mais. Fazem parte da ciclópica família Motobike, incluindo-se nela motorizadas e motos. Ontem, vi-os sair, aperaltados – por certo iam a casamento, baptizado, quejandos. Os quatro na Hero. Já vi seis. Estes nossos vizinhos são comedidos.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

GRALHAS SEM GRALHAS

Por Antunes Ferreira 
Ontem, caí ou melhor recaí na asneira, feiras: fui à Feira do Algodão, era o último dia do certame que decorreu aqui mesmo ao lado, ou seja a uns quatrocentos metros da rotunda de Gaspar Dias, que hoje é Daias. O i é ai, como se recordam os que têm umas luzes ainda que incipientes do English do terceiro ano do liceu. Incauto mas paciente ouvi relatar as maravilhas apresentadas, a magnífica oportunidade de comprar mais barato, o último dia é a ocasião indicada, os feirantes estão a tentar despachar a mercadoria antes de emalar a trouxa. Fui. Fomos. 
De acordo com a Indira – a Costa, esposa do Carminho, colega da Raquel no Liceu Nacional Afonso de Albuquerque, já desaparecido, ou seja no plural, o Capitão-Mor e o liceu – esta era muito diferente das outras por que eu já passara e por isso não valia a pena torcer o nariz. Guardei, portanto, para outra oportunidade a torcedela. Confesso: pequei, sem perdão nem bula. À primeira, cai quem quer – mas à nonagésima segunda só os burros ou os distraídos. Por mais que me digam o contrário creio que me considero integrando o grupo último… 
Já estivera, ao longo dos muitos anos em que venho andando por Goa, em outras feiras, também com algodão, mas não só, e tiradas a papel químico (deve ainda haver gente que se recorda do que é) umas das outras. Para dar um exemplo, junto, apenas, umas quantas: Anjuna, Arporá, esta nocturna, Margão, Mapuçá. Já chega, não necessito de explicar que se trata das localidades onde elas decorrem. Mas, esta é diferente neste particular. Acontece no Campal, antes mesmo de Miramar e a caminho de Dona Paula. Ou seja na zona chique de Pangim. Feira fina é realmente outra coisa. 
Uma feira é uma feira, aqui ou na rotunda do Relógio, em Kuala Lumpur, Banguecoque, Bruxelas ou em A dos Cunhados. Muitos vendedores, bastantes candidatos a compradores, mirones em barda, um que outro agente da autoridade, honestidade 9,6%., marosca 54,7 %, ingenuidade 41,7 % e outros componentes com as percentagens correspondentes ao método de Hondt. Ressalve-se um que outro caso e creio que este , não sendo excepção, é pelo menos paradigmático. Uma feira, por aqui é um mundo de mini pormenores, ainda que não sejam surpresa. 
As coisas não são tão simples como parecem. Por vezes, o estofo das pessoas é pior do que o dos bancos dos automóveis com o prazo de validade ultrapassado; mas no caso em curso não se pode dizer que a Feira do Algodão fosse uma decepção. Além dos tecidos propriamente ditos, incluindo os saris multicolores , havia uma panóplia de artigos diversos de espantar um santo ou o Vishnu que é mau como as cobras. De resto, este deus tem enroladas ao pescoço, aos braços e correlativos diversas serpentes. A figura é porém adorada não vá os ofídios tecê-las. 
As senhoras estavam nas suas sete quintas, isto é várzeas, não havia expositor que lhes escapasse. O grupo era constituído pelas já citadas Raquel e Indira Costa, e também pela Tina Viegas, esposa do Ivo, outro colega da minha caríssima metade. Apalpavam os materiais expostos, este algodão é tão suave que mais parece seda, as cores parecem seguras, por vezes a tinta é um tanto suspeita, kitlé (quanto é) aqui, kitlé acolá, com muitas discussões de preços, muitas vezes usando os vendedores máquina de calcular para que não haja enganos - sempre lamentáveis. 
Coabitando com o algodão, há cabedais diversos, carteiras de couro verdadeiro, não é plástico, veja, isqueiro aceso na pele curtida do animal não arde, bugigangas em metal amarelo – abundam os budas, os elefantes, as lâmpadas, os crocodilos, os ganeshes e os cristos e até a Senhora de Fátima . Pulseiras e colares, nem falar, tantos são. Na banca ao lado há os produtos artesanais de Cachemira, os papiê-machês, as caixas, as caixinhas, os sahkris (as gôndolas do lago Dal) e, desafiando o nome do certame, as sedas polícromas:; só faltam as house.boats (as casas barcos) certamente por falta de espaço. E o haxixe, pelo menos às claras. 
Recordo-me de, já lá vão uns bons anos, em Shrinagar, uma das duas capitais do estado que continua a ser discutido entre a Índia e o Paquistão, o ministro chefe (primeiro ministro só no Governo Central), Sheique Abdalah , durante um almoço que me oferecera, me perguntou se eu já tinha experimentado o haxe. Respondi-lhe que não, nunca me metera em tais assados, ao que ele me respondeu que dois ou três cigarros por dia não faziam mal, bem pelo contrário, até davam saúde. Tente, tente, recomendara-me - mas eu não tentei. Feitios.
Fechada a parentética, volte-se ao mercado. De seguida havia os brinquedos de madeira, os patos que grasnam quando “andam” nas suas quatro rodas, as galinhas que põem ovos, os reco-recos, os piões, convivendo com as cordas de saltar com punhos no material lenhoso, as casinhas regionais, os jogos educativos, até um ábaco elementar, para os putos aprenderem a fazer contas e compras. Singularmente descobri um triciclo, todo de pau polido e uma scooter desta feita pintada. Aliás, motos, motociclos, scooters e correlativos são mais do que as mães nas ruas e estradas.
A peregrinação feminil arrastava-se por via das buscas minuciosas, das negociações fiduciárias, das comparações algodonais, das cores, dos acabamentos dos saris, dos seus bordados, penso que este é mesmo a fio de ouro (não é, mas parece), das blusinhas do vestuário tradicional da Índia e dos modelos cristãos, vestidos, saias, blusas, calças para senhoras, e ao invés do calçado típico, sapatos de corte ocidental, sandálias e até botas de tacão alto. Uma inundação de roupas e sapatos que nem vos conto.
Ah, já me esquecia da Valentina Tereskova, uma jovem russa que sabia dizer ok e thank you em inglês e pouco mais - mas que era o que podem ver na gravura, nela acompanhada por uma miudinha que “adoptara “ a termo certo. Isto explicou-me o nosso condutor privativo desde há sete anos, o Premanand em tradução livre do infantil concani ou konkani como agora se escreve. O Premanand já faz parte da mobília (e da família), é hindu, casado, com uma filha que vamos conhecer em breve. A cara-metade, essa , já a conhecêramos há dois anos.
Repetiam-se as doses para gentlemen de todas as cores e feitios a condizer com a cor da pele de cada um. Eu abstive-me, pois já mandara fazer, naturalmente por medida dois fatos de meia estação, umas calças e quatro camisas de manga comprida que me tinham custado a enormidade de 230 euros, mais cêntimo, menos cêntimo, o que me parecera caríssimo, a vida é feita de alegrias mas também de contrariedades, 
Resumindo. Vim para fora do enorme pavilhão da feira, com mais de setenta ventoinhas, pelo menos as que contei sem garantia. Para não vir de mãos vazias comprei um cinto King Kong size, ou seja a minha medida, o que é difícil de encontrar. Três euros e poucos cêntimos de cabedal. Acabei assim a minha Feira. Não acabei, não senhor. À saída encontrava-se um vendedor de aperitivos diversos, mas com um denominador comum: o picante. Adquiri uns quantos de cinco qualidades, 300 gramas cada saco de plástico pesado cuidadosamente em balança de Robervale. Um euro e oitenta cêntimos – uma gastadeira.
As senhoras saíram, comentando as mercas e porque torna e porque deixa e etc. Jurei, para mim mesmo, acautelando a minha integridade física arriscada por possível agressão marital, que não voltaria a cair na esparrela feiral. Decisão irrevogável-temporal. Até à próxima feira.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Lisboa, Reino do Absurdo

Rua de São Ciro - 30 Nov 2013
Apesar de ser sábado, dia de estacionamento gratuito, este condutor prefere ocupar o passeio. De caminho, ele (e outros como ele) vão destruindo a calçada...

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

No Reino do Absurdo

Esta zona (as 2 esquinas da Av. de Roma com a Conde de Sabugosa) foi intervencionada pela autarquia, com alteração do pavimento (substituição da calçada por cimento). 
Há quem diga que é para ajudar os cegos. Pois bem; cego é quem não vê situações como a destas imagens - para já não falar do escândalo monumental que é a impunidade - permanente e absoluta - do estacionamento em cima do passeio na esquina oposta (junto ao n.º 1 da Rua Frei Amador Arrais), que dura há anos e anos!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O (ex) tiro de Draghi

Por Antunes Ferreira
Debaixo dos pés levantam-se os trabalhos. O acerto deste ditado é total no que respeita ao tema dum programa (chame-se-lhe o que se quiser, desde cautelar até segundo resgate) que não se vê bem onde e quando parará. O (des)Governo começara a embandeirar em arco e, de repente descobriu que metera água – e de que maneira.
Não adianta tecer mais comentários sobre o que foi o tiro de Mario Draghi ao declarar em Bruxelas que o nosso país vai precisar de mais um programa quando o actual programa de resgate terminar, de tal forma ele atingiu o porta-aviões de São Bento, os submarinos de Portas, a nau Catrineta do Imóvel de Belém que os vai levar a naufragar, para não dizer mesmo, a ir ao fundo.
Nestas coisas de batalha naval nunca se sabe quando o adversário atira a matar. Normalmente, ele faz movimentos exploratórios antes de dispara os canhões e/ou os torpedos de que está munido. É uma chatice, mas delas está a vida cheia e o Mundo também. Mais ou menos como os indispensáveis que, naturalmente enchem os cemitérios.
Mas, não há nada melhor do que realmente e as armadilhas da sorte estão sempre prontas a enterrar o desgraçado que nelas cai. Tome-se como exemplo, o texto que se segue, publicado na edição on-line do “Público” de segunda-feira, que cada vez mais é um órgão da comunicação social que ganhou o seu espaço e agora defende-o tenazmente. O que também é muito natural…
“Os mercados já estavam a dar como certo que Portugal não ia precisar de um segundo resgate. A questão que se colocava nesta altura era saber se Portugal iria ter um programa cautelar ou se, eventualmente, conseguiria uma ‘saída limpa’ da troika como conseguiu a Irlanda. Aliás, ainda ontem, na conferência para a apresentação dos resultados da décima avaliação, Maria Luís Albuquerque e Paulo Portas fizeram questão de mostrar que as duas portas ainda estavam abertas. O problema é que a seguir à conferência chegavam notícias contraditórias de Bruxelas, onde Mario Draghi estava a ser ouvido na Comissão de Assuntos Económicos e Monetários do Parlamento Europeu. A uma pergunta do eurodeputado do CDS-PP Diogo Feio, o presidente do Banco Central Europeu veio dizer aquilo que poucos esperavam que dissesse: que Portugal vai precisar de mais um programa quando o actual programa de resgate terminar. Draghi não especificou os contornos desse novo programa – que se supõe ser o tal cautelar –, mas a afirmação vem fechar as portas para que Portugal possa ter a tal ‘saída limpa’, isto é, sem a ajuda de terceiros. As palavras de Mario Draghi não deixam de ser um balde de água fria para o Governo e, a esta altura, o próprio Diogo Feio já estará arrependido de ter feito a pergunta. Ao pôr de lado o cenário de uma saída ‘à irlandesa’ de uma forma tão precoce, Mario Draghi está a dar um mau sinal para os mercados. Ou seja, nem ele próprio parece acreditar que daqui a seis meses os juros de Portugal já estejam a níveis que permitam ao país um regresso tranquilo aos mercados. É uma daquelas profecias que correm o risco de se auto-realizar, já que os nossos credores vão questionar-se: "Se Dragui não acredita, porque haveríamos nós de acreditar?". É caso para dizer que Draghi, no mínimo, falou fora de tempo.” 
Entretanto, e já hoje, Draghi afirmou que as autoridades portuguesas é que decidirão sobre um novo programa, depois de ontem, segunda-feira, ter garantido que Portugal teria um programa após o actual resgate. "Cabe exclusivamente às autoridades portuguesas decidir sobre um possível novo programa", disse o presidente do Banco Central Europeu numa nota enviada às redacções, em resposta às muitas questões levantadas sobre as suas afirmações de ontem no Parlamento Europeu.
O alarme “às baleeiras” regrediu: nenhum navio tinha ido ao fundo, muito menos em vias de isso acontecer. O manda-chuva italiano do banco que manda nos euros, entende que se houver um alerta ele resultará dos pulhas dos jornalistas que distorcem sem dó nem piedade as afirmações que fez e das quais há registos que testemunham que as… fez. A comunicação social usa e abusa da gente séria, prática que se tornou recorrente. 
Estamos perante um facto raríssimo: o BCE copia o (des)Governo português. Este distinguiu-se ao ter de manhã uma qualquer opinião, à hora de almoço outra contrária à matinal e ao jantar servir mais uma que não correspondia nem à primeira, nem à segunda. A cópia feita por Mario Draghi é menos emocionante: ontem dissera uma coisa, hoje, perante a gaffe veio informar que o que ontem afirmara não era exactamente assim… Ou seja, copiar é uma coisa, plagiar é outra; mutatis mutandis: plagiar é uma coisa, copiar é outra.
Entrementes o suposto primeiro-ministro, antevendo mais um plausível chumbo dos malandros do Tribunal Constitucional, reafirmou que o seu (des)Governo não tem um plano B para aplicar, mas revelou que a 10.ª apreciação da trica, ops, da Troika correra bem (Portas e Maria Merkel Luís já o tinham feito numa consonância quase perfeita), mas no caso de … a única forma de cumprir o acordo com as três sinistras entidades era… aumentar os impostos, o que atrasaria a alegada retoma da Economia.
Coelho ou quer classificar os Portugueses, para além de maricas, completamente obtusos, ou ameaça com mais impostos. É cada vez mais o vampiro que suga o sangue (e a linfa) de nós. Estamos, na verdade, perante mais um passo no caminho da chantagem que se vem fazendo sobre os juízes do Palácio Ratton, ainda que tentando disfarçá-la de forma canhestra, como o gato escondido mas com o rabo de fora.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Mordomias e bananas

Por Antunes Ferreira
NA PASSADA quinta-feira pudemos confirmar o que já sabíamos: em Portugal há filhos e enteados. Naturalmente que era do conhecimento público que isso acontecia nos mais diversos sectores da sociedade e em especial no que concerne à política. Que no caso vertente é mais Pulhítica, o que lamentavelmente já se tornou corriqueiro. No entanto, agora, essa duplicidade maniqueísta teve confirmação oficial, ou seja em termos de lei.
Não sendo totalmente motivo de preocupação, tanto mais que continuamos denodadamente a manter o cinto apertadíssimo – ainda que, graças ao esplêndido (des)Governo, já tenhamos saído da recessão técnica e portanto nos sintamos muito aliviados, ela dá que pensar que, pensar pensamos ainda não é proibido. Em época de crise (ou terá também ela saído dessa recessão técnica que, confesso o meu pecado, não sei bem o que é, mas de forma tão sigilosa que nem deu para entender a subtileza?) os políticos da Madeira, nomeadamente governantes e deputados regionais, vão continuar a acumular a pensão de reforma com a remuneração do exercício do cargo.
Convém que apresente um ponto de ordem à mesa – neste caso do Orçamento. E porquê? Porque a proposta de lei do Orçamento de Estado para 2014 proibia os titulares de cargos políticos das regiões autónomas de continuarem a acumular reforma com vencimento, em consonância com a regra que vigora no Continente e nos Açores. A proposta do Governo, no seu artigo 76º, alterava a lei 52/A/2005, passando a incluir os membros dos órgãos de governo próprio das regiões autónomas e os deputados às assembleias legislativas regionais na lista dos titulares de cargos políticos sujeitos ao novo regime relativo a pensões e subvenções.
Mas eis que providencialmente em sede de comissão especializada, os actuais governantes e deputados madeirenses foram excluídos da proibição que atinge, entre outros, o alegado PR, ou seja o Imóvel de Belém e a insigne presidente da AR Assunção Esteves, a tal que considera que manifestações nas galerias do Parlamento são crime.
Este regime de excepção em todo o país vai continuar a privilegiar o presidente do governo madeirense, Alberto João Jardim (PSD), o presidente da Assembleia regional, Miguel Mendonça (PSD), a secretária do Turismo, Conceição Estudante (PSD) e a vice-presidente do parlamento, Isabel Torres (CDS). Maximiano Martins (PS) recusou a benesse, decidindo doar o seu vencimento de deputado a instituições de solidariedade.
Desnecessário se torna, pois, mais qualquer explicação da dupla cada vez mais famosa Filhos & Enteados, S.A. Metendo a mão na consciência - podem não acreditar, mas ainda uso disso -, há algo de errado na qualificação de Sociedade Anónima, que, pelo contrário é perfeitamente nominal. Basta ver os nomes constantes do parágrafo anterior para entender a correcção. É certo que estes não entram em lista inserida na lei; mesmo assim, são uns felizardos.
Curiosamente, a iniciativa de alterar o artigo 76º da proposta orçamental partiu dos quatro deputados da Assembleia da República que representam o PSD-Madeira, que alegaram que a matéria do estatuto remuneratório dos governantes e deputados madeirenses “é da reserva da iniciativa da Assembleia Legislativa da Madeira, não podendo ser objecto de lei ordinária”, Guilherme Silva, Hugo Velosa, Correia de Jesus e Cláudia Aguiar propuseram a não inclusão dos titulares de órgãos de governo próprio das Regiões autónomas na proibição de acumular a pensão com a respectiva remuneração do exercício do cargo.
A discussão dos Orçamentos tem sempre aspectos muito peculiares; veja-se como as coisas decorreram. Posteriormente, em substituição do aditamento defendido pelos quatro deputados madeirenses, os lideres parlamentares do PSD e CDS/PP, Luís Montenegro e Nuno Magalhães,  subscreveram uma proposta de eliminação,  segundo a qual os actuais governantes e deputados regionais, embora incluídos no regime nacional, poderão continuar a acumular os dois valores “até a cessação do mandato ou ao termo do exercício daquelas funções”. Na votação na especialidade, esta proposta  foi aprovada com os votos dos dois partidos da coligação, os votos contra do PS e a abstenção do PCP e BE.
Victor Freitas, o líder do PS na Madeira classificou de “inaceitável e eticamente reprovável” a cedência do PSD e CDS, considerando um “escândalo nacional” que a coligação valide “benefícios pessoais do presidente do governo regional”. E acrescentou que era lamentável que os deputados do PSD eleitos por esta região tivessem trocado “o seu voto a favor do Orçamento pela manutenção da acumulação do salário com a reforma do dr. Jardim”.
Mas as coisas não ficaram por aqui. Em protesto contra a alteração à versão inicial do Orçamento de Estado para 2014, o deputado regional do PND, Hélder Spínola, anunciou para ontem uma iniciativa na Assembleia da República. “Como agradecimento pelo favor prestado na manutenção de uma mordomia que representa para Alberto João Jardim mais de dez mil euros por mês”, ele ofereceu um cacho de bananas da Madeira ao grupo parlamentar do PSD.
Pelo menos, daqui se deseja que as bananas sejam da Região Autónoma da Madeira.

sábado, 30 de novembro de 2013

Francisco e o poder

Por Antunes Ferreira
AS DECLARAÇÕES, práticas e decisões do Papa Francisco têm provocado as mais diversas opiniões dentro e fora Igreja Católica Apostólica e Romana. Parecendo ser uma verdade do amigo Banana ou de Monsieur de la Palice, a verdade é que não é. O que disse, por exemplo, sobre os homossexuais veio abanar um dos pontos de honra do Vaticano: ele tem vindo permanentemente a considera-los pecadores.
O primeiro cardeal do continente americano e oriundo dos jesuítas de seu nome Jorge Mario Berglogio, de acordo com uma senhora Amália que namorou quando adolescente, tinha pedido a sua mão e, em caso de recusa, seria padre. E a Papa chegou, escolhido ao segundo dia do Consistório, mais precisamente a 13 de Março deste ano que está prestes a terminar. E logo na sua primeira aparição aos fiéis que enchiam a praça de S. Pedro, deu uma indicação de algo iria mudar na Santa Sé: apareceu à varanda usando apenas a batina Branca.
Tudo o que a seguir viria a acontecer demonstrou que Francisco (escolheu em homenagem ao santo dos pobres, S. Francisco de Assis) trilhava novos caminhos para religião católica. Despoja do que considerou o excesso de pompa, decidiu morar na residência dos cardeais quando estes se deslocam a Roma. Para não estar só, disse então, pois precisava de gente para conversar, trocar ideias, em última análise, pessoas com quem queria conviver.
Daí em diante esforçou-se numa conduta para demonstrar essas intenções, o que para o ramo mais conservador da Igreja começou a parecer um exagero. Porém, por outra facção mais liberal foi entendido como um reformador. O povo dos fiéis achou-o simpático, simples, com quem se podia conversar; o episódio do seu telefonema para um jovem que lhe enviara uma carta, transformou-o num Papa aberto, civilizado, actualizado.
No entanto não se pode esconder que o marketing tem cada vez maior importância no Mundo. E os que o organizam no Vaticano sabem o que estão a fazer. Uma figura constrói-se à volta de quem tem condições para isso. Francisco tem-nas. Facilitou assim o trabalho dos especialistas. Mas, simultaneamente, começou a correr que era demasiadamente “incómodo”. E de pronto se apontou o Papa João Paulo cuja morte continua a provocar as mais diversas especulações resumíveis numa pergunta: teria sido eliminado, assassinada para bastantes investigadores?
De repente, Francisco divulgou o primeiro documento importante de seu pontificado, a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho). Ao longo de 84 páginas, o papa faz um apelo à protecção dos cristãos nos países muçulmanos, condena os excessos do capitalismo financeiro e defende reformas na Igreja Católica. Mas, por outro lado, continua intransigente em relação a questões como a ordenação das mulheres e o aborto.
No texto, o papa exorta os líderes das principais potências mundiais a lutar contra a pobreza e as desigualdades geradas pelo capitalismo financeiro, que ele chama de "nova tirania invisível". Ele denuncia "a nova idolatria do dinheiro" e um sistema económico que causa "exclusão". O papa sublinha que "o dever dos ricos, em nome de Cristo, é ajudar os pobres".
"Não é possível que um idoso obrigado a viver na rua morra de frio na indiferença de todos, enquanto dois pontos de alta na bolsa de valores se tornem manchete nos jornais", escreve o papa num capítulo dedicado aos desafios globais da actualidade. "A desigualdade social é a raiz dos males da sociedade", afirma. Pode assim sintetizar-se este “programa de governo” numa frase do texto: quando acenta que o sistema económico criou “algo de novo: os excluídos não são explorados, são desperdícios, lixo”.
"Enquanto os problemas dos pobres não forem radicalmente resolvidos por meio da rejeição da autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira, e pelo ataque às causas estruturais da desigualdade, nenhuma solução será encontrada para os problemas do mundo ou, nessa matéria, para quaisquer problemas", ainda escreveu..
O papa argentino pretende renovar a Igreja, mas apenas até certo ponto. Há temas, como atrás se refere: são intocáveis, por mais liberal que seja a “reforma” preconizada: o aborto e a ordenação das mulheres. E mesmo a discussão entre os católicos,  de forma organizada, dos mais variados assuntos da religião foi encarada – e é – por muitos deles que torceram o nariz perante a iniciativa papal. Receiam que se esteja a demonstrar o mons parturiens. Ou dito de forma diferente: tanta publicidade na inovação para no fim continuar o mesmo produto, ou seja tudo como dantes.
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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O Marcolino (*)

CONTINUANDO a abordar temas da actualidade nacional, dificilmente se poderá fugir ao tema da moderna insegurança urbana. E, de facto, neste espaço tem-se falado de criminosos comuns, de condutores que se comportam como assassinos, da forma como a Justiça lida com o problema, etc. etc. E, evidentemente, tem-se procurado dar destaque aos esforços que o Salvador faz para pôr ao serviço da Lei e da Ordem os seus conhecimentos tecnológicos.
Há dias fui dar com ele, sentado na leitaria da D. Deolinda, nervoso, a fazer estranhas pesquisas na Internet. Vi, de longe, que o monitor apresentava gatafunhos e mais gatafunhos, uns mais feios do que outros, e não resisti a perguntar à dona da loja (para não interromper o Grande Consultor) se sabia o que é que se passava.
- Não o incomode agora! Sabe? É que o afilhado parece que anda com problemas com a Justiça e ele está a informar-se sobre crimes.
Fiquei gelado! Apesar de não conhecer o rapaz, a situação não era nada agradável. Resolvi, então, ficar por ali perto, folheando umas revistas, até se proporcionar o momento certo para me intrometer no assunto. Finalmente, o Salvador lá reparou em mim, e chamou-me para ao pé de si, não alterando – nem sequer procurando disfarçar - o seu ar preocupado.
E passou a explicar:
- Trata-se do Marcolino, o meu jovem afilhado que tem a mania que é artista... Mas até agora só deu em pintor de paredes! Anda a encher a cidade com a sua bonecada, e nem o facto de ter várias páginas na Web o salva de ir parar à prisão. Não leste a entrevista do homem que foi Mayor de Nova Iorque e que sugere que se prendam os artistas como o Marcolino?
De facto lera, e a coisa podia ficar feia para o rapaz. O Salvador, suspirando, desligou o computador e saímos. Mas o certo é que há coincidências engraçadas, e logo fomos encontrar o Marcolino, encostado a uma parede, pensativo. Estava em frente à Fundação Gulbenkian e uma lata de spray espreitava do bolso direito das calças.
O Salvador apresentou-nos, conversámos um pouco, e eu  tive uma ideia fabulosa: levei a conversa para a arte, e, como quem não quer a coisa, convenci-os a irem comigo a ver «a verdadeira arte», na exposição permanente da Fundação. Mas, face ao desinteresse do Marcolino, a breve trecho estávamos cá fora... Porém, não desistindo, arranjei forma de nos encaminharmos de seguida para o edifício anexo, o Centro de Arte Moderna. E, desta vez, sim! O nosso jovem saiu de lá com um sorriso nos lábios! Alguma coisa lhe dizia que, ali por aqueles lados, a sua arte seria compreendida!
Mas confesso que fiquei preocupado quando, já na rua, o Marcolino quis voltar atrás, fascinado com a brancura de alguns pilares e paredes do Museu...
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(*) - CMR - Revista Valor – 31 de Maio 2001
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NOTA adicional: seguem-se alguns dos desenhos que o cartoonista José Abrantes fez para ilustrar as histórias desta personagem.
 

sábado, 23 de novembro de 2013

O desnorte


Por Antunes Ferreira
QUINTA-FEIRA passada foi um marco no desnorte do (des)Governo. Foi o que pode considerar um dia horribilis. Se se entendesse necessário encontrar uma justificação para o que acaba de afirma, bastaria referir que nunca se tinham verificado em Portugal tantos desencontros na maioria parlamentar, no (des)Governo, na Presidência da República, na União Europeia e no Fundo Monetário Internacional. Resumindo: cada cabeça, cada sentença.
O dia começou mal, com o ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares a lamentar que nem sempre o que afirmam os responsáveis máximos dos organismos internacionais coincida com o que os técnicos da Troica depois defendem nas reuniões em Portugal. Pouco faltou para que Marques Guedes lançasse uma advertência à entidade de três organismos que vêm governando o nosso país: Falem em consonância, porra! Não o disse, mas se me  permitem extrapolo.
Nessa quinta-feira trágica o Comissário Europeu dos Assuntos Económicos Oli Rehn tinha dito que está na altura dos Estados Membros começarem a abrandar a austeridade e o ritmo de consolidação orçamental, dando como exemplo Portugal, e concentrar-se em políticas que promovam o crescimento da economia e do emprego.
Mas também o FMI foi objecto da crítica do (des)governante  que afirmou que “Já ouvimos a presidente do FMI várias vezes pronunciar-se sobre a necessidade de abrandar e de alterar o programa de austeridade dos países sob ajustamento, mas depois a atitude dos técnicos do FMI e dos relatórios do FMI sobre a matéria dizem rigorosamente o contrário daquilo que é dito nas entrevistas pela presidente do FMI”.
Entretanto em Bruxelas a União desconfiou dos números do défice e do desemprego apresentados pelo (des)Executivo, passando assim um atestado de incompetência ao Instituto Nacional de Estatística. Zangavam-se as comadres descobriam-se as verdades. Mas, os ataques à politica de austeridade não ficaram por aqui, muito longe disso.
Já à noite, na reunião das esquerdas promovida por Mário Soares sob a defesa da Constituição da democracia e do estado social, as referências feitas pelo ex-Presidente ao actual ocupante do Palácio de Belém, levaram ao rubro a sala da Aula Magna da Universidade de Lisboa. O antigo secretário-geral do Partido Socialista não esteve com paninhos quentes: “É por isso que digo que o Presidente e o Governo devem demitir-se, enquanto podem ainda ir para suas casas pelo seu pé. Caso contrário, serão responsáveis pela onda de violência que também os atingirá”.
E singularmente quase na mesma altura a manifestação das forças de segurança, desde a PSP às polícias municipais, passando pelos Serviços de Fronteiras, agentes da Polícia Judiciária e GNR, rompendo as barreiras de segurança subiu em sinal de protesto a escadaria da Assembleia da República protestando contra o ataque de vinham sendo alvo do (des)Governo.
E um destacado representante das associações sindicais que convocaram a manifestação sublinhou também a falta das condições de segurança originada pelos sucessivos cortes que se verificavam e dando o seu aviso de que em 2014 com o OE que já estava em discussão no Parlamento as coisas seriam ainda piores. Foi a maior que algum dia se verificou dos elementos das forças de segurança. Que terminou pacificamente. O que motivou a “felicidade” de Assunção Esteves, presidente da AR.
O mesmo já não aconteceu ontem, sexta-feira. O superintendente Paulo Valente Gomes, Director Nacional da PSP colocou o lugar à disposição “na sequência dos acontecimentos ocorridos ontem (quinta-feira) em frente à Assembleia da República”, informou através de uma nota do MAI enviada à comunicação social. O ministério acrescentava que Miguel Macedo tinha aceitado o pedido de demissão e que ia “iniciar o processo tendo em vista a designação de um novo Director Nacional” da PSP.
Um pot-pourri desta dimensão é mais do que preocupante. Até porque, na Aula Magna também estiveram altas patentes militares. Ocorreu-me até o que se passara na revolução de Outubro na Rússia e que conduziu à eliminação do czar e de quase todos os Romanov e originou a criação da falecida URSS. Exagero, talvez. Mas, convém não esquecer que quem semeia ventos colhe tempestades.