sábado, 7 de junho de 2014

Passos e Montesquieu


“As leis conservam a sua credibilidade e valor não porque sejam justas, mas porque são leis.”
Charles-Louis de Secondat,  Barão de Montesquieu
Por Antunes Ferreira

Seja-me permitido recordar o que a maioria das pessoas sabe, mas que por vezes, bastantes até, esquece – ou quer esquecer-se. A Revolução Francesa mudou a França, mas também a Europa e até o Mundo. É ponto assente que os acontecimento que se verificaram no século XVIII durante dez anos (1789 – 1799) deram aos cidadãos os princípios políticos consubstanciados no lema que se tornou uma realidade na Terra: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. É o momento em também se consolida a teoria dos três poderes.

A teoria dos três poderes foi consagrada pelo pensador francês Montesquieu. Baseando-se na “Política”, de Aristóteles, e no “Segundo Tratado do Governo Civil”, de John Locke, Montesquieu escreveu a obra “O Espírito das Leis” (1748) em que traçou os parâmetros fundamentais da organização política liberal. Os três poderes eram o legislativo, o executivo e o judicial. E continuam a ser.

O filósofo iluminista foi o responsável por explicar, sistematizar e ampliar a divisão dos poderes que fora anteriormente estabelecida por Locke. Montesquieu acreditava também que, para afastar governos absolutistas e evitar a produção de leis tirânicas, seria fundamental estabelecer a autonomia e os limites de cada poder. As teorias defendidas por Montesquieu exerceram uma poderosa e profunda influência no pensamento político moderno. Elas inspiraram a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, elaborada em 1789, durante a Revolução Francesa.

Neste país triste e desconchavado que é Portugal, a liberdade que nos foi trazida pelo 25 de Abril (ainda se recordam do que foi?) assentou imediatamente na teoria dos três poderes. Na vigência do “Estado Novo” ela tinha sido vilipendiada, arremedando-se através da Constituição corporativo-fascista de 1933, que contemplava os três poderes iguais, só que um, o executivo, mais igual do que os outros. A mente rebuscada de Oliveira Salazar fora encontrar este artifício para o regime autoritário em que ele era o chefe.

Por cá, mas já no ano corrente, 2014, um novo e jovem chefe do Executivo(?) resolveu fazer uma nova revolução e elaborar uma nova teoria política. Ele defendeu, enquanto poder legislativo, que deveria “dar conselhos” ao poder judicial, já que este (ou pelo menos uma parte deste, ou seja o Tribunal Constitucional) se andava a comportar mal. Os juízes do Palácio Ratton tornaram-se assim, uma nova “força de bloqueio” expressão que Cavaco Silva já utilizara nos fins dos anos 90. Na altura, Cavaco ficou conhecido pela frase calina “deixem-me trabalhar!”.

Nesta semana PC (Passos Coelho) declarou que o Tribunal Constitucional - a quem pedira a “aclaração” dos três artigos do Orçamento para este ano que os juízes tinham declarado inconstitucionais, pedido a que o TC torceu a orelha - com esta sentença punha em risco o final do “programa do ajustamento estrutural” que o seu (des)Governo vinha executando servilmente perante a famigerada troika. Quer isto dizer que o tribunal da rua do Século, em suma, não o deixava trabalhar. Mas o mais gritante foi o que disse quanto ao “recrutamento” dos juízes do TC, pois afirmou que tinha de haver uma peneira mais fina para eles serem escolhidos.

Estará Passos contra a Revolução Francesa? Estará Coelho contra Montesquieu? E por arrastamento, dado que são da mesma cor política, a laranja, estará Cavaco contra a Revolução Francesa? Estará Silva contra Montesquieu? E ainda nessa enxurrada alaranjada estará Assunção contra a Revolução Francesa? Estará Esteves contra Montesquieu? Penso que não, mas as atitudes do (des)Governo português em termos financeiros e económicos pode indiciar que nem não nem sim. Como diria o nosso Eça – nim.
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Suas teorias exerceram profunda influência no pensamento político moderno. Elas inspiram a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, elaborada em 1789, du Do Espírito das Leis (em francês: De l'esprit des lois), publicado em 1748, é o livro no qual Montesquieu elabora conceitos sobre formas de governo e exercícios da autoridade política que se tornaram pontos doutrinários básicos da ciência política. Suas teorias exerceram profunda influência no pensamento político moderno. Elas inspiram a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, elaborada em 1789, durante a Revolução Francesa.rante a Revolução Francesa.

sábado, 31 de maio de 2014

A tremenda derrota do (des)Governo

Por Antunes Ferreira
As eleições para o Parlamento Europeu tiveram os resultados que tiveram, já mereceram a maior (exagerada?) atenção dos comentadores políticos, mas, indubitavelmente a vitória do Partido Socialista foi o me mais motivou os especialistas – sabe-se lá de quê, embora todos digam que o são politicamente – a emitirem as respectivas opiniões, autoconsideradas as mais correctas e esclarecedoras.
Mas, sem margem para dúvidas, desde logo um ponto suscitou as críticas mais azedas dos fazedores de opinião (temos de começar a substituir denominações e expressões tais como opinion makers): a euforia de Francisco Assis, imediatamente após terem sido conhecidas as primeiras projecções dos resultados, que foi acompanhada pelo secretário nacional do PS, António José Seguro.
Isto porque a  eufórica vitória alcançada contra a direita, se veio concretizar nuns escassos 3,7% sobre o alcançado pela coligação Aliança Portugal composta pelos dois partidos que aguentam o Executivo encabeçado por Pedro Passos Coelho. Estava aceso o rastilho da bomba que se supunha ser a vantagem bastante mais substancial do PS e no que, ao fim e ao cabo, dera o que Mário Soares consideraria uma vitória de Pirro.

Mas, no meu modesto entender, tapou-se o céu com uma peneira, uma vez mais. Enquanto se discutia o resultado dos socialistas, a fragmentação dos resultados, a ascensão meteórica do Partido da Terra, que obteria dois lugares no anfiteatro de Estrasburgo, porque Marinho e Pinto, o iconoclasta ex-bastonário da Ordem dos Advogados veio abanar o statu quo da política à portuguesa, a subida acentuada dos comunistas e a queda dos bloquistas, a maior percentagem de sempre de abstenções, etc. esqueceu-se um facto que me parece extremamente relevante.
Socorro-me da matemática e da estatística, matéria em que sempre fui quase um zero à esquerda da vírgula. Mas a ousadia dos que pouco sabem leva-me a enunciar a minha teoria. O universo dos Portugueses que votaram, para efeitos de percentagens, representou 100%. Se me engano, peço o favor de me corrigirem, obrigado. Desses 100% a Aliança Portugal obteve quase 28%. Daí que, contra ela se tenham verificado, mais coisa, menos coisa, 72%. O que quer dizer que estas eleições europeias, que em Portugal eram, sobretudo, para avaliar o comportamento do (des)Governo PSD/CDS-PP, se saldaram por uma enorme derrota para esta coligação da direita..

A rejeição desse caminho abstruso que se consubstanciou na terrível austeridade praticada e avalizada pela troika nacional (Cavaco, Coelho e Portas) e nas consequências funestas para (quase) todos os Portugueses foi repito  e sublinho, uma tremenda derrota para Belém e São Bento. Sobre isto, não me parece haver dúvidas, ou então, como diz a vox populi, a matemática é uma batata…
É sabido que esses resultados originaram um imbróglio no Partido Socialista, cuja dimensão se poderá avaliar melhor depois da reunião de hoje da sua Comissão Nacional. O largo do Rato é, assim, hoje, o patamar de uma escada que começou no Hotel Altis e poderá chegar sabe-se lá onde. Talvez ao Congresso do PS em que os dois Antónios dirimirão forças para saber qual deles sai, qual deles entra. O que está em causa, como se sabe, é a liderança do partido da rosa, mas que continua a ser, presumo, também o do punho erguido.

sábado, 24 de maio de 2014

O fado (também) mora em Goa

Por Antunes Ferreira
 ESTAVA EU a menos de uma semana da partida para Lisboa, deixando o Paraíso em que vivera nos quatro meses da estadia, embalando as trouxas, quando aconteceram os 40 anos do libertário 25 de Abril. A Fundação Oriente resolvera assinalá-lo com um espectáculo de fado, sob a orientação do arquitecto Khol de Carvalho, seu delegado em Pangim. Era apoiada pelas seguintes instituições:  Semana de Cultura Indo-Portuguesa, Cidade de Goa e Instituto Camões. Actuaria a fadista Cláudia Duarte no salão nobre do Menezes de Braganza Institute, o anterior Instituto Vasco da Gama no tempo dos Portugueses.
Logo à entrada um deslumbramento: os painéis de azulejo azul e branco. Sobre a viagem do navegador português que pela primeira vez na História do Mundo fez a viagem Lisboa-Calecute pelo mar. Os indianos mantiveram-nos, o que não admira num país onde as artes são uma constante, desde os templos magníficos até aos quadros polícromos onde os homens do Sul, mais morenos, são pintados a azul. Para um Português, os azulejos são uma maravilha. 
Um salão com capacidade para 250 pessoas, mais coisa, menos coisa, encheu-se para ouvir a fadista, acompanhada pelo seu guitarra portuguesa, Rui Martins, e na viola Carlos Meneses, um virtuoso goês. A assistência era porém maior do que a capacidade e muita gente ficou em pé, até na antecâmara do salão. Cláudia organizara um work-shop sobre o fado e nele tinham participado as três premiadas do Concurso de Fado de Goa, Nadia Rebelo Danica Silva Pereira e Minoska Dias.
O público rendeu-se a Cláudia Duarte, com uma presença em palco perfeita, explicando em inglês e português o que ia cantar; esguia, ágil, encantadora, a fadista transmitiu os sentimentos expressos nas canções que apresentou. Falta dizer que... canta muitíssimo bem! Tem uma voz potente e vai fazendo dela o que quer, tão depressa elevando-se a sonoridades pujantes, qual Amália, tão depressa recolhendo às mais intimistas, aos sussurros, a tonalidades que ela própria compara às da saudosa  Maria Teresa de Noronha. Nas duas pausas das suas interpretações, guitarradas completaram a actuação da fadista.
Cláudia que era a primeira vez que vinha a Goa, que a deixou entusiasmada e deslumbrada, com situações diversas, como por exemplo as inúmeras lojas que ostentam nomes portugueses, bem com placas de trânsito onde eles constam também. Citou o jardim Garcia de Orta, no centro da capital, o que me faz recordar a minha professora da quarta classe, Dona Clélia Marques que quando algum de nós dizia Garcia da Orta ou Marquês do Pombal em vez do correcto de, presenteava o faltoso com umas palmadas com a menina dos cinco olhos, vulgo palmatória.

O concerto foi um êxito total, com a sala a aplaudir cada fado e a rir quando Cláudia usava o inglês, que atalhou dizendo que como sabia que na assistência havia muita gente que ainda falava o português, então iria empregar as duas línguas. Risos e aplausos misturaram-se com naturalidade. E a sala chegou ao rubro quando  Cláudia cantou juntamente com as três meninas locais. Para mim foi um espectáculo entusiástico, de tal forma que sotto voce acompanhava as letras dos fados. Era a confirmação do meu passado fadista... 
Após um final em glória, muita gente foi até junto da cantora para obter um autógrafo no seu último CD, "Povo". Eu também o fiz e disse-lhe que a sua actuação me fizera ter  orgulho de ser Português. As lamentáveis tricas das comemorações do Dia da Liberdade em Portugal nada tinham a ver com a sinceridade e a sensibilidade e a arte dela. Houve muita emoção, comoção e lágrimas entre os espectadores.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Frederika – a força do querer

Por Antunes Ferreira


Quando se chega ao topo da subida que vai da praça da Igreja para o Altinho, quase em frente do edifício da All India Radio, antiga Emissora de Goa no tempo dos Portugueses, encontra-se à esquerda a vivenda Navarro Menezes rodeada de buganvílias, onde vive a Frederika Menezes.

Antes de prosseguir com o escrito, explanem-se umas quantas informações para quem nunca esteve por aquelas bandas. Altinho é o nome de um bairro de Pangim, a capital do actual estado de Goa. É considerada a zona residencial da elite goesa, aqui se localizando a residência do ministro-chefe do estado, o paço patriarcal, a sede do comando militar, bem como os aposentos de muitos funcionários do governo e políticos. Algumas instituições de ensino estão também aqui instaladas. O Consulado de Portugal tem igualmente aí as suas instalações. Há uns oito anos  quem  assina este texto mais a sua caríssima metade viveram por lá um mês, em andar alugado. Frise-se que a casa dos Melos na Raia, Salcete, em que a Raquel viu a luz do dia, foi vendida em tempos anteriores pois, além de grande e por isso de caríssima manutenção, um bem que para a família do meu sogro que se deixara ficar por Goa representava encargos difíceis de suportar. As duas irmãs e o mano Carlos puseram-se de acordo: o varão abdicava de quaisquer resultados financeiros com a transacção.

Uma nota quase  sentimental sobre a quase mansão. Quando pela primeira vez pisei o solo goês, em 1980, naturalmente ali fomos de visita, quase romagem. Ninguém a habitava, estava completamente vazia de mobiliário (que tinha sido trazido por familiares em viagens sucessivas ou pura e simplesmente roubado). Mesmo sem a conhecer antigamente, fiquei um tanto emocionado. Subimos ao sobrado, o primeiro andar, termo que por cá também é encontrada sobretudo na província. O vazio era motivo para alguma desolação, quer da Raquel, quer de eu próprio.

Paredes nuas e escalavradas, soalho esburacado, uma tristeza espalhada no ar, uma poalha filtrada pelo sol que esmorecia ao final da tarde. Vogámos ao sabor do nada, lá em baixo no quintalão o estábulo dos búfalos também estava vazio, naquela mangueira andei a apanhar manguinhas verdes para fazer o chepeni ambli, diz a Raquel e, de supetão, numa parede uma réstia de vida: a foto do nosso casamento que tínhamos enviado para a avó Raquel. Levamo-la, diz a Raquel neta e eu que não, aí está, aí fica.

Frederika Raquel Menezes, nasceu em Pangim, em Setembro de 1979 e infelizmente portadora de paralisia cerebral, filha de dois médicos, o Dr. José Menezes e a Dr.ª Ângela Menezes. Cedo começou a exibir uma inteligência brilhante e os pais quiseram que ela frequentasse uma escola normal. Depois de algumas vicissitudes, completou a sua formação escolar quando tinha 16 anos, ou seja em 1996. Já publicou três livros e o quarto está na forja. Dona de uma grande cultura, lê muito, escreve muito e também pinta. A cadeira de rodas é-lhe indispensável, e o motorista de casa, o Sebastião, Sebi, adora-a e cuida dela como se fosse filha dele. É ele que a leva ao colo até à cadeira, é ele que a mete no carro do pai Zito, é ele, enfim que há quase 20 anos a acompanha sempre que é preciso.

Goa reconheceu que Frederika era um caso especial e logo que publicou a sua primeira obra, em 1998, uma colectânea de poemas a que deu o título The Portait, no ano seguinte foi galardoada com o J. C. Arward (Junior Citizen of the Year). Não parou mais de escrever e tem na gaveta mais alguns originais. Entretanto já neste ano saiu a público o livro que tem como título Unforgotten.  No qual deixou uma simples dedicatória. Mãe Angela informa que treinou durante horas para conseguir escrevê-la. É vê-la acima, no título. Mas, como parece que o tempo não lhe faz mossa, está já no prelo um conjunto de poemas para jovens. Tive a oportunidade de ver as ilustrações feitas pelo artista goês Justino Lobo. E são excelentes.

Converso com Frederika, o que é um prazer, dado o nível dela. É uma interlocutora do mais alto coturno. Confessa-me que tentou fazer um poema em Português, mas acha que não ficou bem; porém, acrescenta, já mo mandara por mail para apreciação. E também gostaria que eu a ajudasse a encontrar um músico que o adaptasse a canção. Resumindo, fui buscar as estrofes e achei bem. Para que me possam deixar as vossas opiniões elas aqui ficam:

Perdida

-         Frederika Menezes (lyrics)

Sinto-me perdida

Toda envolvida pelo teu olhar

Fui tão louca

Pensando que podia escapar

Este amor

Este sentimento

O teu falar

Palavras que ficam

No meu pensamento

Quando estou longe de ti

Não me lembro como sorrir

Tu tens a chave

De minha alegria

Olha querido

Não me deixes a mim!

Não sei como dizer

Tu és o meu

Sol de viver

Não quero imaginar

Minha vida

Sem você

Não quero deixar

De desejar

Que tu estás perdido

No meu olhar...

Eu sou perdida

Toda envolvida pelo teu olhar

Tão louca

Pensando que posso escapar

Este amor

Este sentimento

O teu falar

Palavras que ficam

No meu pensamento



Para primeira experiência em Português até está muito bem, digo-lhe, ainda que haja coisas que poderiam sair melhor, mas o tempo há-de burilá-las; quanto à música, já pedira parecer para Portugal, a ver se alguém estava interessado em fazê-la. Frederica está sentada na cama dela, o pai e a mãe assistem à conversa, vão buscar os desenhos que ilustram o novo livro que está para sair. Na parede, um quadro da autoria dela onde se misturam as cores deleitando-se com a proposta pictórica. Pintas muito bem e Frederika sorri. Pinto com o computador, com pincel a mão não conseguia.

O pai Zito já me dissera uns anos atrás que teria gostado de ir a Portugal, mas por mor dela, não o poderia fazer, viagem de avião era complicada e assim por diante. Mas, de repente lanço-lhe um desafio: Gostavas de ir a Portugal? Abrem-se-lhe os lábios da felicidade,  qual criança grande atira um siiiimmmmm!!!! Os pais encolhem-se, eu vou dizendo que nos aviões há todas as condições para os deficientes e farei tudo o que for possível para o desejo se concretizar. E Frederika, com o riso a iluminar-lhe o rosto, há sempre o navio… Numa árvore um pássaro entoa um piar sincopado. Anuncia chuva ou boda. Por agora, bem pode cantar.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

GRALHAS SEM GRALHAS (JÁ EM LISBOA)

Por Antunes Ferreira
 
Salustiano é nome de goês. Carlos Salustiano Caldeira. É com ele que converso. Ali ao lado corre, molengão, o Mandovi. Não há batelões que usam transportar o minério, porque há 20 meses que as minas foram encerradas porque a maior parte delas era ilegal. Mas, os navios-casinos continuam fundeados no rio e barcos de transporte dos passageiros vão ondulando entre os portos de embarque e os costados. Um dia contarei a estória destes jogos de azar. Basta, porém, que hoje diga que os naturais já estiveram proibidos de lá entrar, mas a sentença voltou atrás.

Estamos na esplanada Riviera que pertence ao Hotel Mandovi e se encontra em frente dele. É um local aprazível para conversar, tomar uns copos, discutir sobre a possibilidade de um novo aeroporto, avaliar dos prejuízos causados ao estado de Goa pelo larvar mineral. Ali mesmo ao lado, está um dos dois ferryboats que atravessam o rio engolem e vomitam pequenos pot-pourris de gente, motorizadas e automóveis e até camionetas. São barcos velhos e estão programados novos, não se sabe bem para quando.

Enquanto eu, desgraçado, vou matando a sede os graus centígrados atingiram os 40 com uma Diet Coke, misturada com a água duma garrafa e vinte quilos de gelo (os empregados de mesa já se habituaram ao insólito pedido e trazem-me quantidades substanciais dele) Salustiano escorropicha um uísque Amrut que é feito de cevada indiana, seleccionada no norte dos estados de Punjab, Haryana e Rajasthan e a sua água é proveniente do sopé do Himalaia e também de Bangalore. Com a correspondente soda. O Amrut já começou a conquistar o Mundo, e aqui só os entendidos o pedem. Salustiano é.

Curiosamente li há poucos dias que na Índia, com uma população de 1,2 mil milhões, há poucas estatísticas mundiais que o país não domina. Ligadas ao consumo mas, sobretudo, à pobreza, falta de condições sanitárias ou desigualdade social. No entanto, há dados que, aparentemente, não entrariam nas contas dos mais devotos conhecedores das estatísticas globais. De acordo com o Euromonitor International, a Índia consome metade do uísque vendido globalmente no Mundo, sendo que esta percentagem vai subir até aos 70% em 2017. Resumo: os indianos consomem 1,2 litros de whisky per capita por ano, estando atrás  dos franceses (2,15 litros por pessoa) e dos norte-americanos (1,5 litros por pessoa, por ano).


Não entrando em minudências, limito-me a referir o pormenor singular, mais um dos muitos que por aqui encontro. E fascinantes. Continuamos a charla virando-nos para o críquete. Antes de vir com alguma frequência a Goa e a outros estados deste subcontinente, pouco ou mesmo nada entendia deste desporto, a par com a ignorância similar sobre o beisebol. Agora, porém, já sigo pela televisão umas partidas em que a Índia já foi campeã mundial em 2011. Uma explicação simples sobre este jogo proveniente também do Reino Unido, tal como o futebol.


As equipas têm onze jogadores e os encontros decorrem num campo circular sem dimensões fixas, mas sempre muito amplo. Os movimentos principais passam-se numa faixa rectangular de 20,1 metros de comprimento, no centro do campo, onde a bola (de cortiça e couro) chega a voar a 150 km/h. Ela é lançada à mão pelo atirador contra o alvo do adversário (três varetas fincadas no solo, chamadas stumps, cujo conjunto é conhecido como wicket), que é defendido pelo batsman , o batedor  com o seu bastão. Este, depois de rebater o esférico corre ao longo do rectângulo. Resta acrescentar que nas bancadas igualmente circulares uma multidão delira com as jogadas.

Marcar mais de 10.000 corridas, para um batsman é considerada uma conquista significativa em One Day International Criket (ODI), ou seja o topo da carreira. O primeiro foi alcançado pelo indiano Sachin Tendulkar, que se retirou em 2011, depois de conquistado o título mundial, que acaba de ser galardoado com a condecoração mais alta da Índia. É um verdadeiro herói nacional. Sobretudo quando dava a vitória nos confrontos com o Paquistão. Que são assim a modos dum Portugal-Espanha em hóquei em patins do antigamente, mas com mais porrada o que pareceria impossível, mas não é. Sabe-se da figadal amizade entre estes dois paísesOs jogadores também são pagos a peso de ouro, tal como no desporto-rei.

Levanta-se o Salustiano, aliás sem grandes pressas, é nestas alturas que me lembro sempre do meu compadre Manel de Estremoz, tenho de ir ali ao mercado, as mal curadas já chegaram em força e o preço baixou em flecha. Elucido: é denominação das primeiras mangas que aparecem e que nada têm que ver com as grandonas que se vendem em Portugal, brasileiras, venezuelanas e afins. As goesas cheiram e sabem a mangas reais; as outras são mais a atirar para a plastic food. Quem não tem cão, caça com gato.

Também tenho que fazer: às seis e meia da tarde, vou encontrar-me no Aunty Maria do Hotel Fidalgo, com o Mário Bruto da Costa, advogado, irmão do Alfredo que já foi ministro em Portugal e é conhecido pelas suas profundas preocupações sociais, nomeadamente no que concerne a pobreza. A conversa será, tanto quanto penso, sobre o livro de que Mário é autor do livro “A Terceira Corrente” em que aborda a intervenção política do pai, o Dr. António Anastácio Bruto da Costa, o advogado que ficou bem conhecido pela tareia que deu ao então governador-geral do Estado Português da ÍndiaQuintanilha de Mendonça Dias.

Conheci Mário Bruto da Costa, já depois de ter lido o seu livro que comprara ao Vasco Pinho, a que penso dedicar também um escrito, bem como à troca de impressões com o jurista com quem iniciei mais uma bela amizade. Foi no consultório do analista Dr. Dumé onde ambos esperávamos para ser sangrados pelo ilustre clínico. Dada a flagrante parecença com o Alfredo Bruto da Costa, intrometido como sempre foi, sou e serei perguntei-lhe se seriam da mesma família. Somos irmãos, respondeu-me. Logo lhe retorqui que era então ele o autor da obra que acabara de ler. E pronto.

Como ainda rondavam as cinco e quase meia minutos, e seguindo as pegadas do Salustiano, decidi-me a ir também até ao mercado chamado pelas mangas novas e pelos chicus, estes, no entanto, de pouca qualidade para a época. Mas, quiçá poderia mercar uma ou duas papaias. À porta, como sempre, um leproso arrepiante estendia a mão à caridade. Um turista fotografava-o a troco de umas moedas que lhe atirou depois. Eu nunca o faria, achei uma desumanidade, mas, cada qual é como é. Entrei e logo à frente de uma exposição de frutos diversos dormia tranquilamente um vendedor. A sagrada hora da sesta, pelos vistos, também funciona entre cocos, bananas, peras, abacates, ananases e outros, até mesmo uvas.


quinta-feira, 24 de abril de 2014

GRALHAS SEM GRALHAS - Trinta e um



Por Antunes Ferreira
Trinta e um, contados a toque de sino, nem mais nem menos, trinta e um. Sem querer recordo o velho fado que Carlos Ramos celebrizou. Como este não há nenhum... Como esta só há em Roma, dizem os entendidos, com a correspondente prosápia. Deixemo-nos de trocadilhos que o tema é sério, sem nenhuma justificação; já dizia a minha avó Maria da Assumpção que graças a Deus, sempre; graças como Deus, nunca.

Mas, antes da explicação deste aparente enigma, tenho de acrescentar que não o é, bem pelo contrário. Passo a relatar a ocorrência, como diria um diligente soldado da GNR, após ter-se deslocado ao local da mesma. Nestas letras de viagens, perco-me, por vezes, em textos a latere que apenas servem para instiliar a confusão; que me perdoem os escasos leitores que ainda me aturam, quantificação que julgo pertinente face aos também escassos comentários depositados neste blogue.

Gozava, ou mais precisamente, gozavamos a Raquel e eu, o calor reinante na praia de Colvá, uns 38º, indo à água co Índico – não posso deixar de repeti-lo -  a 30º e convenientemente besuntados de creme  de protecão epidérmica grau 50, que o sol não é para brincadeiras. Escolheramos para base o restaurante Benny’s Place  já nosso conhecido de há dois  anos e que serve todas as qualidades de peixe acabado de  pescar: Kingfish, que aqui leva o nome de peixe-serra; redfish, tunafish, smal sharck, ou seja o cação,  lulas e pomfret, da família dos linguados. E, para juntar à oferta, caranguejo grandalhão, quase santola.

Reparei, entretanto, que no restaurante ao lado estava um empregado envergando... a camisola alternativa da selecção portuguesa, com o 7 e o Ronaldo nas costas; fiz-lhe sinal para que me autoriasse a fotografá-lo, e depois do sim dele, clic. Os pavilhões das comidas e bebidas seguem-se uns aos outros. São todos  com excelentes confecções, mas, helas, os sanitários são uma desgraça. Há dois dias começaram as obras para a construção de um edifício onde ficarão os toiletes para os banhistas.

Noto também que há um cartaz de publicidade a um vinho branco, indiano. E o slogan: eu Goa nunca bebo água, diz um cavalheiro em calção de banho, com uma garrafa de vinho numa mão e uma prancha de surf na outra. Curioso, por estas bandas ainda se bebe pouco vinho, mas o hábito faz o monge. Donde, ali está o convite para o sumo de uva convenientemente vinificado. Como há dois anos escrevi, Portuguese wine nothing. No comments.

Logo à entrada da praia existe um caneiro a céu aberto com duas pequenas pontres para o acesso ao areal. Lembrei-me do que existia, anos a fio, na Cruz Qubrada, antes do emissário. O cheiro é pouco intenso, mas é... cheiro. Atravessado o caneiro, há um cartaz que publicita todos os serviços que podem ser utilizado pelos banhistas. A este propósito, convém deixar aqui duas  curiosidades que não são novas, pois são práticas antigas, mas sempre me impressionaram.

A primeira: os indianos, e aqui também os goeses (distinção que é praticada por cá...) vão à praia vestidos e as senhoras  com os seus saris tomam banho assim. Vêm que nem sopas, à volta. A segunda: os russos e obviamente as russas, algumas bem bonitas com os seus biquinis reduzidos, já vi fios dentais, são aos magotes. Gastam menos do que inicialmente, queixam-se os locais, mas, mesmo assim, são fonte de receita muito apreciável. Os empregados e vendedores diversos, já dizem umas coisas em cirílico falado... E os anúncios e os menus dos restaurantes debitam-no tranquilamente.

Estava observando um parapente, cheio de tentação, mas também carregadinho de cagaço, quando me telefonou o Carminho Costa, já repetidas vezes mencionado. Falava de Mapuçá, sua terra, onde há dois anos vivemos num excelente apartamento de urbanização construída pelo antigo colega da Raquel no Liceu Nacional Afonso de Albuquerque, mais um. Vinha propor uma ida a Goa Velha para assistir a uma procissão muito especial; trinta e um andores, cada um com o seu santo. Está explicada a afirmação inicial.

Esclareça-se já uma confusão  que ataca os menos informados: Goa Velha não tem nada a ver com Velha Cidade, ou seja Old Goa . Esta última foi a primeira capital  do tempo dos Portugueses. Tem várias igrejas entre as quais a  catedral e a do Bom Jesus onde repousa o corpo do apóstolo das Índias, Francisco Javier, nascido espanhol, mas santificado como Português. Na sua urna de prata cravejada de pedras preciosas, já é uma múmia, aliás deteriorada pelo tempo. Incorrupto, sim, mas tanto não. No entanto continua a conglomerar os fiés e os... infiés. Para além dos católicos, podem ver-se hindus, maometanos e até judeus em fila junto ao túmulo. Uma mini Babel, pois as línguas utilizadas são mais que muitas.

Um governador do “Estado Português da Índia”, nos idos do antigamente próximo, um tal Bossa, quando foi confrontado pelos  devotos que pretendiam ir de autocarro até Velha  Cidade na festa da exposição do corpo, terá respondido “quem tem fé vai a pé”. Mas, no caso vertente  a cerimónia decorre em Goa Velha, uma vila que como o nome indica, é de provecta idade , dizendo-se que se trata de localidade mais velha do que  o período dos Portugueses. Não me foi possível confirmar a afirmação, mas também não senti grande preocupação com ela, pois não pretendia escrever História.



Tive a oportunidade de assistir a uma parte da celebração. Uma multidão e, para mais, numa sexta-feira. Porém a fé dos católicos goeses é enorme e, por isso todos os lugares em que um crente se poderia sentar, nem vê-los. Por isso, decidi alterar a frase do governador Bossa: quem tem fé fica em pé. Terminada a missa com sete sacerdotes a concelebrá-la, e ministrada a comunhão, que foi de dimensão também enorme, seguiu-se a procissão dos trinta e um andores, cada um saindo da igreja anunciado com uma sonora badalada.

Os santos sucediam-se e tive a oportunidade de registar que entre eles, e para além do inevitável São Francisco Xavier, alinhavam dois lusos, o andor da Raínha Santa Isabel com as rosas no regaço e o do Santo António com o menino Jesus ao colo. Informa-me o Carminho que antigamente eram cento e trinta os andores. Assim, já entendo que a procissão é chamada de todos os santos. A corte celestial, se não estavam todos, tinha a maioria suficiente para tal qualificação. Hoje, a diminuição é grande, ainda que não haja por aqui qualquer resquicio de austeridade.

A criançada abunda levada pelos progenitores e fiquei entusiasmado com a diversidade infantil. Uns seguem cuidadosamente as cerimónias, outros mais miúdos vão correndo com os pais ou as mães atrás deles, ainda para aqui Francisco, ainda te perdes. E outros ainda mais miúdos, vão ao colo e não resistindo ao cansaço uma menininha  adormece no ombro do papá. São anjinhos sem asas.

Passam os andores e por baixo deles os fiés vão passando também. Para que os eleitos do Senhor os abençoe e lhes dê sorte. As religiões têm sempre seguidores que misturam a crença com a tradição. De longe, mulheres hindus observam o evento com respeito e recolhimento. Se a humanidade visse o que se estava a passar, não haveria guerra, nem crimes, muito menos o mistério do voo 370 do boeing 777 da Malasia Airways.

terça-feira, 8 de abril de 2014

GRALHAS SEM GRALHAS

Por Antunes Ferreira
 
O Santosh é o empregado de mesa do restaurante George com mais pinta. Os outros são meros comparsas e olham-no de soslaio. Já o conheço  - e ele a mim – há quase  oito anos, começou então por dizer uns sins e uns nãos em Português macarrónico, a que depois acrescentou  o clássico como está, o bom dia, o obrigado e (muito) pouco mais. Sempre que entrávamos no estabelecimento e ele dava conta disso comunicava o facto ao patrão e saía Amália Rodrigues ou o rancho folclórico de Santa Marta de Portuzelo. Simpático.

No George - que fica na praça da Igreja - há comida goesa de três estalos; atrevo-me a dizer que no domínio do caril, do sarapatel, do balchão, dos croquetes é o melhor de cá. Sem grandes espaventos, mas a publicidade que faz nos sacos de plástico é absolutamente verdadeira: the best sea food always fresh. Este ano o Santosh alargou o seu vocabulário e as frases em Português: Faz muita calor. Quer gelo? Agora? Depois? Sorpatel muita bom. A lingua roasted está grande boa. Esperimenta os croquetes; nas sextas há batatshop. E os liver da galinha  também está boa. Vou oferecer-lhe, antes de voltar para Lisboa, um livrinho que já comprei e que ensina umas coisas de português, inglês e concani. O rapaz merece. Só não sei se sabe ler...

Curiosamente conheci a autora, a D. Silvette D’Sá Mesquita e a sua filha Cheryl aqui mesmo no George. Tenho em minha casa em Lisboa um exemplar que adquiri aqui há dois anos, mas o meu concani persiste em ser uma lástima. Porém, já sei dizer sim ou seja ôi e não, que é . Kitlé poiça?, quanto custa? E cossó assai?, Como está? A preguiça, aliás congénita, a falta de persistência no estudo, mas, sobretudo, falta de prática ajudam a explicar o meu fracasso; mas também a Raquel não pesca nada, esqueceu o que só usava para falar com as criadas. As classes, pois claro, à mistura com as castas. No resto, era só o português. A prática mantém-se ainda hoje. Faz-me comichão, mas passa-me. E já que vou falar em militares cito o ditado calino-castrense sobre as escoriações: isso incha, desincha e passa.

No primeiro andar (aqui em Pangim e por toda a Goa há o costume dos melhores restaurantes serem nesse piso, não sei porquê) a sala tem AC – não,não se trata de ser antes de Cristo – é ar condicionado. Os preços são bem acessíveis, digo até baratos; um almoço para nós dois e um Amigo fica por cerca de dez euros, ou menos. Há por esta capital restaurantes mais caros e mais sofisticados. Desde o Motil Mahal, com um porteiro de bigodaças, até ao Aroma, passando pelo Uper House, pelo Ritz e pelo Sree Punjab. Mas, são sobretudo de cozinha indiana.


Já lá vão uns bons dias fomos almoçar ao George já citado, com o Ivo Viegas e a sua Tina já regressados a Lisboa, ou melhor a Queijas onde moram. Numas três mesas ao lado da nossa falava-se português castiço, com alguns vocábulos mais vernáculos. Averiguei quem eram os sujeitos e descobri, um tanto admirado, que tinham sido soldados no tempo dos Portugueses e até ficaram prisioneiros. Grupo patusco, bem disposto, em que se integrava também uma Senhora, esposa de um dos ex-militares. Andavam à roda dos setentas anos, mas cheios de vitalidade e boa disposição.

Conversa pra cá, conversa pra lá e deram-me os nomes e as moradas, bem como se deixaram fotografar quando lhes disse quem era e que iria publicar a sua caprichosa estória neste blogue. Enfim, tudo numa boa. O Santosh estava nas suas sete quintas e transformara-se em grafonola despejando português safável, antevendo bakshishes diversos e avultados. Explico: são gorjetas e têm origem árabe, são usadas em todos os países muçulmanos. O império dos Shah dominou a Índia e esta palavra é uma verdadeira herança.

Registei, portanto, os nomes dos visitantes. Deles aqui ficam alguns. Joaquim Isidoro Santos, da Atalaia¸ João Leocádio Gomes, Santo Antão do Tojal, Sabino Godinho Saturnino, Alpiarça, António dos Santos Neto, Montemor-o-Velho. Eram oito, mas não apontei todos. Fizeram-se umas saúdes com cerveja, uísque e gin; eu fiquei-me pela fresh lime soda, a doutora Alice Nobre não me permite mais. Desgraças... Uns estiveram presos no campo de prisioneiros de Pondá, outros em Alparqueiros. Mas todos, apesar dos transes por que passaram, unânimes: Goa é uma terra bendita, por isso aqui estão de viagem.

O Salazar ia-nos fodendo, mas o maior político foi um Senhor chamado Nerhu que impediu que fossemos trucidados. Ele, o Governador Geral general Vasalo e Silva e o patriarca D. José Alvernaz. Não fossem eles e a coisa podia ter dado um banho de sangue pois o Botas dissera até à última gota. Mas, assim, safámo-nos, os indianos não nos trataram mal, os goeses foram porreiraços, levavam-nos cigarros, comida picante e boa, sabão. Claro que não eram todos, mas eram muitos, muitos – e muitas.

Por isso aqui vinham em romagem de saudade, rever “as paisagens deste Paraíso”, reencontrar alguns velhotes amigos que ainda falam português, beber uns copos de feni e de  urraca, bebidas que não encontram em Portugal. E, quase em surdina face à satisfação deles fui perguntando o que fariam se encontrassem os seus carcereiros. “Íamos tomar umas bebidas, éramos todos militares, só que com  fardas e armas diferentes...” E, de lado, o Leocádio: “com as guerras só ganham os graúdos; os mais pequenos são sempre quem paga as favas...”.

Era tempo de despedidas, nós ficávamos eles seguiam viagem, uma peregrinação, “é tão bom voltarmos cá”. E, chiça !, só mais tarde descobriria que as fotos que tirara aos viajantes estavam mais tremidas do que se tivessem apanhado um susto. Uma merda impublicável. Entrementes, o nosso Santosh ia empochando as bakshishes, satisfeito da vida, um maná em rupias não cai do céu todos os dias. Homem bons os portugueses, vem mais e eu muito bem do dinheiro. Lá fora, o calor aperta. A igreja branqueia no alto da sua escadaria. A malta da pesada, ou seja o nosso grupo, na cerveja, no uísque e no gin tónico. E eu a fresh lime soda. Porra! A vida está cheia de injustiças.  

sábado, 29 de março de 2014

GRALHAS SEM GRALHAS - O Senhor Sabe Tudo

Por Antunes Ferreira

É uma sala recheada de mobília indo-portuguesa, um aparador precioso, cadeirões magníficos, uma espreguiçadeira desenhada pelo Senhor que me recebe e veste, descontraído, calções e camisa de manga curta, É toda desmontável, esclarece, com uns poucos parafusos, basta desenrosca-los e já está, mandei doze ou treze para Portugal, vêm cá goeses de férias e pedem-me para as encomendar e enviar. As recordações vogam por ali, reflectidas nos quadros que povoam as paredes. Uma osga, plácida e imóvel, espera talvez mosquito para o pequeno-almoço.


Um brasão do Estado Português da Índia também está pendurado numa delas. Ontem e hoje misturam-se sem brigar com imagens de Santo António e Ganeshes; convivem. Com o Holi a rapariga deixou-me a comida já feita, vou vivendo sozinho até que desça à tumba. E não me aborreço, tenho sempre coisas para fazer, não posso estar parado. Lá fora o barulho, os tambores, a gente pintada de várias cores, da cara ao vestuário, sem esquecer o cabelo, brincando, berrando, pulando, é um dia especial, o Carnaval hindu, meio pagão meio santo, enquanto a bebedeira não toma conta dos foliões. É o Holi e está tudo dito.


Percival Noronha já fez 90 anos, confessa-o sorrindo, mas está de memória perfeita, explanação clara, desfia anos como quem desfolha as pétalas do malmequer, bem-me- quer, finta o tempo, sabe tudo, A Raquel é filha do director da Alfândega, o Carlos Melo, bom homem, competente na Raia, tinha uma bela casa de família agora reconstruída mas já não é que era. Conta as contas do rosário goês, conhece as famílias, enfim, as suas desditas e por aí fora: é omnisciente e omnipresente, um deus enraizado na terra. Ouço-o desbobinar a História e apenas lhe faço uma que outra pergunta. Responde logo. Um espanto!


Quem me levou à casa dele, nas Fontaínhas, a Alfama de Panjim, foi o Zito Menezes, médico aposentado, sportinguista ferrenho, bué da fixe, de quem já falei noutras ocasiões. Foi colega da Raquel durante os sete anos do Liceu Nacional Afonso de Albuquerque e conhece perfeitamente Percival. Aliás, falou-lhe na semana passada da nossa visita ao que ele acedeu, Gosto de receber pessoas, de falar com elas e nós a ouvi-lo, a Raquel também alinhou na visita, quase não respiro face ao que ouço e vejo.


O Senhor desculpe-me, estou um tanto surdo, e puxa a orelha para ouvir melhor, o ruído dos holiões é catastrófico, mas mesmo assim, vai relatando o que aconteceu no tempo dos Portugueses e depois. Caso elucidativo que desmente a versão criminosa posta a circular no tempo salazarento. Recordo a declaração do ministro da Presidência Correia de Oliveira, aliás o Correio do Oliveira como então dizíamos na galhofa. Segundo ele, tinham morrido três mil e mais umas centenas de militares na defesa do solo sagrado da Roma do Oriente, a Pátria fora miseravelmente atacada e conquistada pela invasão das tropas indianas do pandita, o que era igual a bandita, bandido.


O Diário de Notícias publicou em caixa a mentira do regime. E também referiu o bombardeamento dos depósitos de combustíveis em Vasco da Gama, com incontáveis baixas na população. Estava-se a 22 de Dezembro de 1961, eu começara a namorar com a Raquel em 22 de Agosto e pude acompanhar os dias de angústia que ela vivia. Os seus pais e cinco irmãos moravam ali. Podiam estar todos mortos, de acordo com os noticiários falsos e os comentários pseudo-patrióticos que circulavam.


Foi então que me lembrei de recorrer aos meus amigos e vizinhos no Bairro do Restelo, os Solano de Almeida, cujo pai, comandante dos TAIP, Transportes Aéreos da Índia Portuguesa, cometera o feito de descolar com o seu Douglas DC 4, da pista bombardeada do aeroporto de Dabolim. Tinha demonstrado uma perícia, um sangue-frio e um destemor realmente notáveis. Na casa dele e depois de eu ter explicado ao que vinha, o piloto informou-me das mentiras que circulavam em  Portugal e que até conhecia os meus futuros sogros, encontrando-se a família de perfeita saúde. Não gostava do regime salazarento, sabia. Claro que a Raquel passou o Natal muito mais sossegada. E eu também.


Agora e aqui, Percival  limita-se a concordar: foi mesmo assim. Pergunto-me quem é este homem de saberes imensos, cronista, viúvo, orador, combatente de muitas causas, repositório vivo de noventa anos de História, completados em 22 de Junho do ano passado? Recorro a notas biográficas publicadas no semanário “Goan” em inglês e por mim adaptadas em Português. Tenho de agradecer à publicação, de outro modo teria de encher-me de paciência para seleccionar dados sobre ele, tantos são os que existem. O que em férias seria de criticar e de eu ser considerado, pelo menos, maluco…


 “Percival não é um cronista do passado, ele é o passado, Em 1961, quando a Índia recuperou Goa, ele era funcionário, tendo chegado a Chefe do Gabinete de Informação, que reportava directamente ao último Governador Português, Vassalo Silva, com quem viajou por inúmeras vezes para Damão e Diu. A sua tranquila eficiência e capacidade de elaborar e aplicar regras, fê-lo osubir na hierarquia sob o Governo indiano tornando-se chefe do Protocolo Oficial no final dos anos setenta e, em seguida, subsecretário de departamentos-chave - saúde, indústria, informação e turismo.

 Realmente continua a ter um talento especial, com raízes ancestrais nas aldeias de S. Matias em Mala de onde veio sua mãe Aurora Vital e Noronha  e Loutolim, a vila de seu pai Antonio José de Noronha. Este partiu para o Uganda com Percival, então quase bebé, e voltou em 1929, quando  tinha sete anos; deu entrada no Liceu para completar a sua escolaridade”.

 Durante a nossa conversa apontou a herança de Goa que se encontra em ruínas. Posso dizer que Percival é a herança que ainda está de pé, e sublinha que os arquivos de Goa estão a perder-se e em estado decadente, bem como os edifícios antigos que não foram persevados. Mas, perante o seu saber e a sua lucidez, ele continua a ser um arquivo permanente que acentua como Goa desliza em plano inclinado e se torna uma sombra do seu passado.

 Saio da casa de Percival no bairro das Fontaínhas perfeitamente esmagado; alias, saímos os três, o Zito, a Raquel e eu. Descemos os degraus que nos tinham levado ao primeiro andar e lá em cima Percival como bom anfitrião despede-se, acenando cordialmente. Pede-me para voltar, tem um livro para me oferecer. Claro que voltarei. Na parede do cimo do patamar da escada tem uma roda de madeira também trabalhada. É a última informação que nos dá, trata-se de uma peça que mandou fazer e é uma reprodução das que em pedra fazem parte de templos hindus que são carros.

 Cá fora os foliões hindus bem pintados continuam a  carnavalar o Holi. Por toda a Goa este é um dia especial e feriado, as lojas fecham e, singularmente apenas umas quantas de hindus se mantêm abertas. No resto da Índia também. Nas Fontaínhas, bairro castiço, onde os habitantes são particularmente católicos, de cultura e tradições lusas, estes festejos vão durar todo o dia, parando apenas amanhã que é dia de trabalho. Três moças, alias bem bonitas, perguntam-nos sorridentes se nos deixamos pintar. Faço um gesto evasivo, mas respondo-lhes um não, também sorrindo. Soltam gargalhadas cristalinas e berrantes como os saris que usam – e afastam-se. Goa  também é   isto.