sábado, 23 de agosto de 2014

As bolandas do PIB

Por Antunes Ferreira 
JÁ SE SABIA que as coisas corriam (muito) mal no que concerne à dívida pública. Mas a situação passou de má a pior. Com este (des)Governo despudorado e ladrão. A dívida das administrações públicas bateu o recorde: subiu de novo no segundo trimestre do ano, fixando o seu rácio em 134% do PIB e alargando a distância face à meta traçada pelo Governo. Para este agravamento contribuiu o programa de reestruturação financeira às empresas públicas de transportes, que obrigou a reconhecer na dívida pública 3,5 mil milhões de euros de dívida bancária da CP, Carris e STCP.
Ora, em Março, ela atingira 132,9%. E com este rácio ela pulou do obtido no final de 2013: 128,9%. Mas o azar, quando bate à porta deixa sempre o infeliz visitado de cara à banda e muito preocupado. Porque, além da dívida bruta, a dívida pública líquida de depósitos da administração central ( que como se sabe é a “almofada” de liquidez que tem ajudado o IGCP a gerir a dívida) também apresentou um aumento. Os dados publicados pelo banco central indicam que a dívida líquida de depósitos passou de 118,8% do PIB no primeiro trimestre do ano, para 122,4%  no segundo trimestre.

O (des)Governo parece ter assobiado para o lado face a estas percentagens. Recordo que o estranhíssimo Documento de Estratégia Orçamental dado à luz em Abril previa que no conjunto deste ano a dívida bruta atingiria os 130,2% do PIB. Até agora, de São Bento ouve-se um silêncio assustador. Será que a desorientação habitual dos homens de Passos e de Portas também cresceu? A ser assim é pior a emenda do que soneto. Manuel Maria Barbosa du Bocage parece ter premoniado a actual situação das finanças nacionais.
Face a esta situação, António Costa, candidato às primárias do Partido Socialista (que se me afigura viver em permanente ebulição e confusão geral) referiu que no inicio desta crise, Portugal tinha a dívida publica em 97% do Produto Interno Bruto e acrescentou que com todos os aumentos dos impostos, com todos os cortes nos salários, nos serviços e nas pensões dos reformados, obra deste suposto Executivo, ela atingiu os 134% já mencionados, segundo o Banco de Portugal. Convém também mencionar que é o banco central e regulador (?) da actividade que no seu boletim estatístico, a desgraçada dívida pública na óptica de Maastricht a que conta para Bruxelas, alcançou uns… 223.270 milhões de euros em Junho deste ano. Peanuts, para a coligação.

Com a euforia representada pelas privatizações, pelas exportações, pelos resultados fantásticos na ida aos mercados (que a esmagadora maioria dos Portugueses nem sabem o que são…) há coisas que não se podem nem devem ocultar. Um só exemplo serve para desmontar a falácia das exportações: a balança comercial continua a ser altamente deficitária. Mas isso para o (des)Governo não tem qualquer relevo. É despiciendo. 

Se William Shakespeare não se tiver enganado, o to be or not to be, that’s the question continua eterno. No caso vertente, isto é, o português, o ser ou não ser, eis a questão, que Hamlet eternizou em “ A tragédia de Hamlet príncipe da Dinamarca”, tem toda a razão: ser deficitário  ou não ser deficitário, esta é a questão levantada pela Frau Angela Merkel e posta em prática pela amaldiçoada tróica. Isto quer dizer que o Orçamento do Estado, que era o último reduto das finanças portuguesas, também nos foi roubado e europeizado.

Um dia destes, para não aumentar uma vez mais o défice do PIB têm os (des)governantes de pensar em privatizar Portugal. O problema é saber quem estará interessado. No “Frei Luís de Souza” a resposta do Romeiro foi: Ninguém!
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Aditamento - texto da Lusa:


A atividade económica em Portugal voltou a abrandar em julho, fixando-se nos -0,3% e entrando pela primeira vez em terreno negativo desde setembro do ano passado, segundo indicadores divulgados hoje pelo Banco de Portugal (BdP).

De acordo com os Indicadores de Conjuntura hoje divulgados pelo banco central, o indicador coincidente mensal para a evolução homóloga tendencial da atividade económica fixou-se nos -0,3%.

Este valor indica uma queda de 0,3 pontos percentuais face a junho, mas a atividade económica vinha a abrandar desde janeiro, quando o indicador se fixou nos 0,7%.

A atividade económica entra assim em terreno negativo, o que não acontecia desde setembro de 2013, quando o indicador referente se fixou nos -0,1%, segundo os números do BdP.

Os Indicadores de Conjuntura hoje divulgados dão também conta de uma ligeira diminuição no consumo privado, com o indicador coincidente para a evolução homóloga tendencial do consumo privado a fixar-se nos 0,9%, 0,1 pontos percentuais abaixo do valor registado em junho.

Este indicador desce a valores de fevereiro, depois de se ter mantido estabilizado durante quatro meses.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

NA PRIMEIRA PESSOA - Ai a minha mãe!...



Por Antunes Ferreira

N
uma mata cerrada a diferença do dia para a noite são os animais; no resto tudo é escuridão graduada desde o cinzento carregado até ao preto tinta-da-china, mas sem tira-linhas. As árvores tapam o sol e tapam a lua, mais qual? De dia o silêncio assusta; de noite, os uivos, os grasnidos, os piares assustam também. Será que silêncio significa sossego? Bem pelo contrário. Os caludas em tom sussurrado atrofiam os homens fardados.
P

orém isto é quando os militares caminham em patrulha, na chamada bicha de pirilau ou estão alapados numa emboscada, à espera de quem caia nela – ou se safe. Aí o capim desempenha o seu próprio papel, actor mudo, sem caixa de ponto, mas importante. Porém quando segue uma coluna de camiões o caso é bem diverso. O barulho dos motores mata o psiu, alerta para longe da picada. E então, quando se constrói uma nova estrada pisando as marcas dos pés que por ali passaram, nem falar nisso. Buldózeres, cilindros, bidões de asfalto, serras mecânicas, pás, picaretas, martelos hidráulicos…

N
ão pode haver silêncio nestes transes. E quando se tem de dormir na picada, no meio da mata, ainda é mais complicado, nada de cigarros, o morrão é um excelente objectivo para eles, um olho aberto, o outro fechado, o brado da sentinela, quem vem lá? O vento no capim, o grito de um macaco, o zumbido de milhões de mosquitos são tudo motivo de suspeição: se são os sacanas estamos fodidos. Então pessoal, ninguém se deixa dormir sem a canhota à mão de semear. A segurança tem de ser tão eficaz quanto seja possível.

E
sta é a minha terceira coluna; vou, vamos, a caminho dos Dembos, dizem os conhecedores que é a pior zona do terrorismo(*) de Angola, mais precisamente para o Quibaxe para onde levamos material de guerra, alimentos e até gado vivo para abate. São 48 viaturas civis, interpoladas por outras militares: três “burros de mato”, os Unimog mais pequenos, dois maiores, dois jipes e na frente uma GMC da segunda guerra mundial, carregada de sacos cheios de areia e de pedras, com o fundo reforçado por placas de aço, bem como a cabina do condutor.

É
 o rebenta-minas, parido pelo desenrascanço português, que consiste num cilindro de metal com correntes grossas, daquelas das âncoras dos navios, penduradas, tudo soldado à frente da viatura pesadíssima na tentativa de prevenir qualquer rebentamento de bomba enterrada na terra do caminho, traiçoeira. Já vi uma não rebentada, lançada de avião, 300 quilos bem pesados, com um detonador acoplado que felizmente não… detonou. Resulta que, quando o camião se desloca, as correntes vão batendo no solo para detectar e rebentar as possíveis minas ali plantadas por eles, os turras. (*) 

C
ai a noite, caralho não conseguimos chegar ao fortim da fazenda Maria Fernanda, fartámo-nos do bate-cu nas “carroças”, de afastar uns abatises que por ali ficaram, de desenterrar camião atolado na lama vermelha, estamos feitos, temos de dormir na picada. Explicando melhor: eu comando as viaturas civis; o alferes miliciano atirador Pedro Martins, do Grafanil, comanda as militares e os soldados da escolta. Confabulamos, pigarreio e aviso a malta que passamos o breu ali mesmo. Monta-se a segurança e na medida do possível os camiões tentam formar um círculo à maneira das caravanas onde os brancos se defendem heroicamente dos sioux e outros peles vermelhas.

S
entado no estribo da Suzuki de 15 toneladas, rapo da ração de combate e melancólico abro a caixa de cartão. E logo o senhor Bravo, proprietário e condutor do camão me pergunta o que estou a fazer. Adriano Bravo é um tipo muito especial. Uma mina gamou-lhe a viatura que tinha e uma perna, a direita. Foi para o Alcoitão fazer a recuperação depois de lhe terem colocado uma artificial. E voltou a conduzir o novo camião, o Suzuki, porque esta é a minha vida e sou como os gatos, não tenho uma, tenho sete…

D
eixe-se de merdas, você vai comer connosco e dê a puta da ração ao preto que vai sentado no cimo da carga. Guerra extraordinária, em que os homens de um lado e do outro disparam com tudo o que têm à mão e, raio de prática, vão-se insultando enquanto atiram. Vai na tua terra soldado cabrão, vai meter no cu do Salazar na cona da puta da tua mãe, berram do capim. Vai levar na peida macaco, se te apanho corto-te os colhões, nunca mais tens filhos mesmo depois de morto. E assim.   
A

banco com os condutores, comemos postas de pescada do Cabo deliciosamente fritas,  lombo de porco assado já vindo de casa, batatinhas cozidas na hora, reinam os fogareiros de petróleo, guardadas as chamas por tabiques de contraplacado já trazidas de Luanda para o efeito. E tudo regado com um vinho de estalo, da colheita do Crispim que é de Viseu e rebatido com uma bagaceira do mesmo dono. Um banquete na picada, uma quase orgia nocturna, umas anedotas picantes, sabem aquela do padre e da freira? Não sabem, eu conto. E ri-se baixinho, mas ri-se. No entanto, porra, faltam as fêmeas.

N
o dia seguinte retomamos a marcha. Mais uma horitas e estamos a chegar se não houver merda. O Moreira da bazuca benze-se, pelo sim, pelo não. Há! O pessoal dum Unimog ia mas mais ou menos descontraído, já tinham passado o rebenta-minas e o camião civil onde eu ia e outro, um White curiosamente branco e, de repente, buuuummm!!! Mina controlada à distância por cordão de disparo, com certeza. Paneleiros!!!! Assassinos!!! Filhos de uma carrada de putas!!!!!!!!

P
ara espanto de todos, depois de tiros a esmo para a mata ou para o ar, não se vê ninguém, ficaram apenas três feridos. O maqueiro Lingrinhas já começou a tratar deles e, de supetão, ó Henrique! Na mata não se diz a patente, não ande por aí o Mata-alferes. Corro. Esparramado no chão, envolto em ligaduras, adesivos, pensos individuais do combatente está o Periquito, alentejano de Évora Monte, 22 anos, solteiro mas com dois filhos e um coto a jorrar sangue por troca com a perna esquerda.  O Lingrinhas faz-lhe um garrote com um cinturão bem apertado, mas… Henrique, o gajo morre-nos. Quim liga o rádio pede o heli para o evacuar! Foda-se Henrique, o cabrão não quer funcionar!

N
ão sei se alguma vez alguém morreu nos vossos braços. Eu sei. Eu sei o que custa, porque, garrotado, cheio de morfina, o Periquito engalfinhou a sua mão na minha, enquanto, sentado ao lado dele, eu o amparava, passando-lhe o meu braço sobre os ombros dele. E o sangue a empapar as ligaduras. E ele a gemer, ai a minha mãe!!... ai a minha mãe!... ai a minha mãe… Ai a minhaaa… Os olhos já vidrados. Por mais anos que viva nunca me esquecerei. Ai! O helicóptero aterra meia hora depois, foi rápido, mas não chegou a tempo. Metem-no lá numa padiola. E foi um cadáver que transportou de volta a Luanda.

P
orém, a estória vivida não fica aqui. O Zagalo, vizinho do Periquito em Évora, quando para ali se deslocaram por terem sido mobilizados abre-se comigo já no quartel: meu alferes há duas merdas estranhas; a primeira é que o moço estava amigado com uma gaiata a quem tirara os tampos quando ela tinha 16 anos; daí o casal de filhos, a miúda com oito anos e o puto com seis, logo ele tinha podido meter o amparo de família e passar à peluda, mas não fez ninguém sabe porquê, ele nunca se confessou à malta. A  segunda ainda me mete mais macaquinhos no sótão: a mãe dele já tinha falecido vai para três anos.

(*) Terminologia usada então…

quinta-feira, 19 de junho de 2014

NA PRIMEIRA PESSOA -Um pirolito igual ao nosso

Nesta rubrica escrevo, a partir de hoje, estórias
que se baseiam em episódios vividos por mim
nas mais diversas circunstâncias, desde as familiares
 até às profissionais, tentando assim repartir
com os leitores deste blogue experiências que fiz
durante a minha vida e que, na generalidade, e
 se o tempo retroagisse, voltaria a viver.
Espero que gostem. 
Por Antunes Ferreira

Fui mobilizado para Angola em 1966, depois de já ter sido promovido a alferes miliciano. Os acasos da vida aqui não entraram pois outros factores me forçaram a embarcar no “Uíge” com mais dois mil bicos fardados que foram encontrar a bordo uns quantos mais e quantas - e outros, entre as nove e as onze, mais acolhedores do que os restantes membros da tripulação. Estes últimos, poucos, tentaram de imediato fazer ralações, ups, relações mais próximas com os memb…, ups, a malta castrense. Vidas.

 A viagem correu satisfatoriamente, só houve, logo à saída da barra um soldado da Mouraria que meteu noutro três centímetros duma ponta-e-mola e quem levantou o auto adivinhem? Só a modéstia natural me impede de dizer que fui eu… E durante ela que demorou 14 dias tentei descobrir os mistérios insondáveis do brídege, tarefa que me foi quase infrutífera dada a condição do animal – eu – não me entusiasmar assaz com jogos de cartas e, sobretudo, porque as partidas eram a dinheiro e isso nunca fiz, faço e farei (conheço que disse façarei, mas isso é outra estória. A bordo, todos os oficiais gabavam a minha sorte, o que parecia ser a ironia suprema que não era; ao contrário desses militares cuja família ficava no Puto, a Raquel esperava-me em Luanda.


Minha mulher decidira ir também à guerra, uma muito especial, levando o Miguel e o Paulo como acompanhantes, porém sem guitarra nem viola. De resto, ela, quando abre a boca (até hoje) faz chorar de emoção que a ouve? Nada, faz chorar sim as pedrinhas da calçada horrorizadas perante as notas e as semifusas de tal sorte que há quem lhe chame filha da pauta. O desembarque no porto de Luanda decorreu sem grandes sobressaltos, a maioria do pessoal de trombas e eu com sorriso achincalhante.

Não resisto qui a contar anedota que corria por entre guindastes, cadernais e outros. Um soldado, pisando tereno firma vê um menino preto a vender jornais. Pergunta, “olha lá catraio o jornal é de hoje?” E a resposta pronta do negrito: “não, patrão, é doje e quinhentos”. Adiante, siga a estória ultrapassado que foi este breve parênteses. O Serviço de Justiça, minha especialidade levou-me à CCS/QJ – RMA, sigla cabalístico-militar que trocada por palavras queria dizer Companhia de Comando e Serviços do Quartel- General da Região Militar de Angola.

Salto aqui o que foi a minha vida entre autos e processos até às colunas ao mato; mas, estas merecem uma explicação mais pormenorizada. A minha especialidade como acima disse era SAM – Serviço de Justiça. Descodifico: Serviço de Administração Militar. Daí que a minha arma habitual era uma BIC laranja. Mas, de Lisboa, o ministro do Exército, general Luz Cunha, mandara um despacho para o general comandante da RMA (sigla acima) decretando que tratando-se eu de um elemento subversivo e comunista devia como prémio fazer colunas ao mato e, se possível, as piores possíveis. As possibilidades de que o alferes miliciano A. Ferreira levar um tiro eram possivelmente as mais possíveis.

Fiz umas quantas, bastantes, a locais pouco recomendáveis, desde Zala até Nambuangongo, passando por Sazaire. Pedra do Feitiço e quejandos. Sem ter apanhado o tal tiro recomendado. Passou o tempo até que completei cinco anos fardado. Por mor da PIDE que então não era DGS lá passei à peluda, jargão castrense que quer dizer passar à disponibilidade, ou seja regressar à vida civil. Se voltasse a Lisboa tinha a vida mais complicada por obra da prestimosa organização policial/política que gostava muito de mim. Para melhor, muitíssimo.

Já desfardado, um dia, ou seja, uma noite decidimos a Raquel e eu entre lençóis tentar a fabricação de uma menina pois já estávamos abonados de dois rapazes. Porém, o parto resultou numa “cachopa” que se chamou… Luís Carlos, contra todas as previsões de familiares e amigos que juravam a pés juntos o sexo feminino para a nascitura que, finalmente, foi um nascituro portador de saúde e de pulmões; na vizinhança faziam-se apostas sobre os decibéis do puto.


A Raquel entendeu dar o primeiro banho ao recém-chegado com os outros dois a assistir, a fim de desde logo conjugarem o verbo amar e o espírito de família com o júnior. E logo, depois de o desflraldar, o Miguel cochichou para o Paulo: “olha, ele tem um pirolito igual ao nosso”… E se os augúrios tivessem acertado e fosse uma catraia?

sábado, 7 de junho de 2014

Passos e Montesquieu


“As leis conservam a sua credibilidade e valor não porque sejam justas, mas porque são leis.”
Charles-Louis de Secondat,  Barão de Montesquieu
Por Antunes Ferreira

Seja-me permitido recordar o que a maioria das pessoas sabe, mas que por vezes, bastantes até, esquece – ou quer esquecer-se. A Revolução Francesa mudou a França, mas também a Europa e até o Mundo. É ponto assente que os acontecimento que se verificaram no século XVIII durante dez anos (1789 – 1799) deram aos cidadãos os princípios políticos consubstanciados no lema que se tornou uma realidade na Terra: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. É o momento em também se consolida a teoria dos três poderes.

A teoria dos três poderes foi consagrada pelo pensador francês Montesquieu. Baseando-se na “Política”, de Aristóteles, e no “Segundo Tratado do Governo Civil”, de John Locke, Montesquieu escreveu a obra “O Espírito das Leis” (1748) em que traçou os parâmetros fundamentais da organização política liberal. Os três poderes eram o legislativo, o executivo e o judicial. E continuam a ser.

O filósofo iluminista foi o responsável por explicar, sistematizar e ampliar a divisão dos poderes que fora anteriormente estabelecida por Locke. Montesquieu acreditava também que, para afastar governos absolutistas e evitar a produção de leis tirânicas, seria fundamental estabelecer a autonomia e os limites de cada poder. As teorias defendidas por Montesquieu exerceram uma poderosa e profunda influência no pensamento político moderno. Elas inspiraram a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, elaborada em 1789, durante a Revolução Francesa.

Neste país triste e desconchavado que é Portugal, a liberdade que nos foi trazida pelo 25 de Abril (ainda se recordam do que foi?) assentou imediatamente na teoria dos três poderes. Na vigência do “Estado Novo” ela tinha sido vilipendiada, arremedando-se através da Constituição corporativo-fascista de 1933, que contemplava os três poderes iguais, só que um, o executivo, mais igual do que os outros. A mente rebuscada de Oliveira Salazar fora encontrar este artifício para o regime autoritário em que ele era o chefe.

Por cá, mas já no ano corrente, 2014, um novo e jovem chefe do Executivo(?) resolveu fazer uma nova revolução e elaborar uma nova teoria política. Ele defendeu, enquanto poder legislativo, que deveria “dar conselhos” ao poder judicial, já que este (ou pelo menos uma parte deste, ou seja o Tribunal Constitucional) se andava a comportar mal. Os juízes do Palácio Ratton tornaram-se assim, uma nova “força de bloqueio” expressão que Cavaco Silva já utilizara nos fins dos anos 90. Na altura, Cavaco ficou conhecido pela frase calina “deixem-me trabalhar!”.

Nesta semana PC (Passos Coelho) declarou que o Tribunal Constitucional - a quem pedira a “aclaração” dos três artigos do Orçamento para este ano que os juízes tinham declarado inconstitucionais, pedido a que o TC torceu a orelha - com esta sentença punha em risco o final do “programa do ajustamento estrutural” que o seu (des)Governo vinha executando servilmente perante a famigerada troika. Quer isto dizer que o tribunal da rua do Século, em suma, não o deixava trabalhar. Mas o mais gritante foi o que disse quanto ao “recrutamento” dos juízes do TC, pois afirmou que tinha de haver uma peneira mais fina para eles serem escolhidos.

Estará Passos contra a Revolução Francesa? Estará Coelho contra Montesquieu? E por arrastamento, dado que são da mesma cor política, a laranja, estará Cavaco contra a Revolução Francesa? Estará Silva contra Montesquieu? E ainda nessa enxurrada alaranjada estará Assunção contra a Revolução Francesa? Estará Esteves contra Montesquieu? Penso que não, mas as atitudes do (des)Governo português em termos financeiros e económicos pode indiciar que nem não nem sim. Como diria o nosso Eça – nim.
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Suas teorias exerceram profunda influência no pensamento político moderno. Elas inspiram a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, elaborada em 1789, du Do Espírito das Leis (em francês: De l'esprit des lois), publicado em 1748, é o livro no qual Montesquieu elabora conceitos sobre formas de governo e exercícios da autoridade política que se tornaram pontos doutrinários básicos da ciência política. Suas teorias exerceram profunda influência no pensamento político moderno. Elas inspiram a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, elaborada em 1789, durante a Revolução Francesa.rante a Revolução Francesa.

sábado, 31 de maio de 2014

A tremenda derrota do (des)Governo

Por Antunes Ferreira
As eleições para o Parlamento Europeu tiveram os resultados que tiveram, já mereceram a maior (exagerada?) atenção dos comentadores políticos, mas, indubitavelmente a vitória do Partido Socialista foi o me mais motivou os especialistas – sabe-se lá de quê, embora todos digam que o são politicamente – a emitirem as respectivas opiniões, autoconsideradas as mais correctas e esclarecedoras.
Mas, sem margem para dúvidas, desde logo um ponto suscitou as críticas mais azedas dos fazedores de opinião (temos de começar a substituir denominações e expressões tais como opinion makers): a euforia de Francisco Assis, imediatamente após terem sido conhecidas as primeiras projecções dos resultados, que foi acompanhada pelo secretário nacional do PS, António José Seguro.
Isto porque a  eufórica vitória alcançada contra a direita, se veio concretizar nuns escassos 3,7% sobre o alcançado pela coligação Aliança Portugal composta pelos dois partidos que aguentam o Executivo encabeçado por Pedro Passos Coelho. Estava aceso o rastilho da bomba que se supunha ser a vantagem bastante mais substancial do PS e no que, ao fim e ao cabo, dera o que Mário Soares consideraria uma vitória de Pirro.

Mas, no meu modesto entender, tapou-se o céu com uma peneira, uma vez mais. Enquanto se discutia o resultado dos socialistas, a fragmentação dos resultados, a ascensão meteórica do Partido da Terra, que obteria dois lugares no anfiteatro de Estrasburgo, porque Marinho e Pinto, o iconoclasta ex-bastonário da Ordem dos Advogados veio abanar o statu quo da política à portuguesa, a subida acentuada dos comunistas e a queda dos bloquistas, a maior percentagem de sempre de abstenções, etc. esqueceu-se um facto que me parece extremamente relevante.
Socorro-me da matemática e da estatística, matéria em que sempre fui quase um zero à esquerda da vírgula. Mas a ousadia dos que pouco sabem leva-me a enunciar a minha teoria. O universo dos Portugueses que votaram, para efeitos de percentagens, representou 100%. Se me engano, peço o favor de me corrigirem, obrigado. Desses 100% a Aliança Portugal obteve quase 28%. Daí que, contra ela se tenham verificado, mais coisa, menos coisa, 72%. O que quer dizer que estas eleições europeias, que em Portugal eram, sobretudo, para avaliar o comportamento do (des)Governo PSD/CDS-PP, se saldaram por uma enorme derrota para esta coligação da direita..

A rejeição desse caminho abstruso que se consubstanciou na terrível austeridade praticada e avalizada pela troika nacional (Cavaco, Coelho e Portas) e nas consequências funestas para (quase) todos os Portugueses foi repito  e sublinho, uma tremenda derrota para Belém e São Bento. Sobre isto, não me parece haver dúvidas, ou então, como diz a vox populi, a matemática é uma batata…
É sabido que esses resultados originaram um imbróglio no Partido Socialista, cuja dimensão se poderá avaliar melhor depois da reunião de hoje da sua Comissão Nacional. O largo do Rato é, assim, hoje, o patamar de uma escada que começou no Hotel Altis e poderá chegar sabe-se lá onde. Talvez ao Congresso do PS em que os dois Antónios dirimirão forças para saber qual deles sai, qual deles entra. O que está em causa, como se sabe, é a liderança do partido da rosa, mas que continua a ser, presumo, também o do punho erguido.

sábado, 24 de maio de 2014

O fado (também) mora em Goa

Por Antunes Ferreira
 ESTAVA EU a menos de uma semana da partida para Lisboa, deixando o Paraíso em que vivera nos quatro meses da estadia, embalando as trouxas, quando aconteceram os 40 anos do libertário 25 de Abril. A Fundação Oriente resolvera assinalá-lo com um espectáculo de fado, sob a orientação do arquitecto Khol de Carvalho, seu delegado em Pangim. Era apoiada pelas seguintes instituições:  Semana de Cultura Indo-Portuguesa, Cidade de Goa e Instituto Camões. Actuaria a fadista Cláudia Duarte no salão nobre do Menezes de Braganza Institute, o anterior Instituto Vasco da Gama no tempo dos Portugueses.
Logo à entrada um deslumbramento: os painéis de azulejo azul e branco. Sobre a viagem do navegador português que pela primeira vez na História do Mundo fez a viagem Lisboa-Calecute pelo mar. Os indianos mantiveram-nos, o que não admira num país onde as artes são uma constante, desde os templos magníficos até aos quadros polícromos onde os homens do Sul, mais morenos, são pintados a azul. Para um Português, os azulejos são uma maravilha. 
Um salão com capacidade para 250 pessoas, mais coisa, menos coisa, encheu-se para ouvir a fadista, acompanhada pelo seu guitarra portuguesa, Rui Martins, e na viola Carlos Meneses, um virtuoso goês. A assistência era porém maior do que a capacidade e muita gente ficou em pé, até na antecâmara do salão. Cláudia organizara um work-shop sobre o fado e nele tinham participado as três premiadas do Concurso de Fado de Goa, Nadia Rebelo Danica Silva Pereira e Minoska Dias.
O público rendeu-se a Cláudia Duarte, com uma presença em palco perfeita, explicando em inglês e português o que ia cantar; esguia, ágil, encantadora, a fadista transmitiu os sentimentos expressos nas canções que apresentou. Falta dizer que... canta muitíssimo bem! Tem uma voz potente e vai fazendo dela o que quer, tão depressa elevando-se a sonoridades pujantes, qual Amália, tão depressa recolhendo às mais intimistas, aos sussurros, a tonalidades que ela própria compara às da saudosa  Maria Teresa de Noronha. Nas duas pausas das suas interpretações, guitarradas completaram a actuação da fadista.
Cláudia que era a primeira vez que vinha a Goa, que a deixou entusiasmada e deslumbrada, com situações diversas, como por exemplo as inúmeras lojas que ostentam nomes portugueses, bem com placas de trânsito onde eles constam também. Citou o jardim Garcia de Orta, no centro da capital, o que me faz recordar a minha professora da quarta classe, Dona Clélia Marques que quando algum de nós dizia Garcia da Orta ou Marquês do Pombal em vez do correcto de, presenteava o faltoso com umas palmadas com a menina dos cinco olhos, vulgo palmatória.

O concerto foi um êxito total, com a sala a aplaudir cada fado e a rir quando Cláudia usava o inglês, que atalhou dizendo que como sabia que na assistência havia muita gente que ainda falava o português, então iria empregar as duas línguas. Risos e aplausos misturaram-se com naturalidade. E a sala chegou ao rubro quando  Cláudia cantou juntamente com as três meninas locais. Para mim foi um espectáculo entusiástico, de tal forma que sotto voce acompanhava as letras dos fados. Era a confirmação do meu passado fadista... 
Após um final em glória, muita gente foi até junto da cantora para obter um autógrafo no seu último CD, "Povo". Eu também o fiz e disse-lhe que a sua actuação me fizera ter  orgulho de ser Português. As lamentáveis tricas das comemorações do Dia da Liberdade em Portugal nada tinham a ver com a sinceridade e a sensibilidade e a arte dela. Houve muita emoção, comoção e lágrimas entre os espectadores.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Frederika – a força do querer

Por Antunes Ferreira


Quando se chega ao topo da subida que vai da praça da Igreja para o Altinho, quase em frente do edifício da All India Radio, antiga Emissora de Goa no tempo dos Portugueses, encontra-se à esquerda a vivenda Navarro Menezes rodeada de buganvílias, onde vive a Frederika Menezes.

Antes de prosseguir com o escrito, explanem-se umas quantas informações para quem nunca esteve por aquelas bandas. Altinho é o nome de um bairro de Pangim, a capital do actual estado de Goa. É considerada a zona residencial da elite goesa, aqui se localizando a residência do ministro-chefe do estado, o paço patriarcal, a sede do comando militar, bem como os aposentos de muitos funcionários do governo e políticos. Algumas instituições de ensino estão também aqui instaladas. O Consulado de Portugal tem igualmente aí as suas instalações. Há uns oito anos  quem  assina este texto mais a sua caríssima metade viveram por lá um mês, em andar alugado. Frise-se que a casa dos Melos na Raia, Salcete, em que a Raquel viu a luz do dia, foi vendida em tempos anteriores pois, além de grande e por isso de caríssima manutenção, um bem que para a família do meu sogro que se deixara ficar por Goa representava encargos difíceis de suportar. As duas irmãs e o mano Carlos puseram-se de acordo: o varão abdicava de quaisquer resultados financeiros com a transacção.

Uma nota quase  sentimental sobre a quase mansão. Quando pela primeira vez pisei o solo goês, em 1980, naturalmente ali fomos de visita, quase romagem. Ninguém a habitava, estava completamente vazia de mobiliário (que tinha sido trazido por familiares em viagens sucessivas ou pura e simplesmente roubado). Mesmo sem a conhecer antigamente, fiquei um tanto emocionado. Subimos ao sobrado, o primeiro andar, termo que por cá também é encontrada sobretudo na província. O vazio era motivo para alguma desolação, quer da Raquel, quer de eu próprio.

Paredes nuas e escalavradas, soalho esburacado, uma tristeza espalhada no ar, uma poalha filtrada pelo sol que esmorecia ao final da tarde. Vogámos ao sabor do nada, lá em baixo no quintalão o estábulo dos búfalos também estava vazio, naquela mangueira andei a apanhar manguinhas verdes para fazer o chepeni ambli, diz a Raquel e, de supetão, numa parede uma réstia de vida: a foto do nosso casamento que tínhamos enviado para a avó Raquel. Levamo-la, diz a Raquel neta e eu que não, aí está, aí fica.

Frederika Raquel Menezes, nasceu em Pangim, em Setembro de 1979 e infelizmente portadora de paralisia cerebral, filha de dois médicos, o Dr. José Menezes e a Dr.ª Ângela Menezes. Cedo começou a exibir uma inteligência brilhante e os pais quiseram que ela frequentasse uma escola normal. Depois de algumas vicissitudes, completou a sua formação escolar quando tinha 16 anos, ou seja em 1996. Já publicou três livros e o quarto está na forja. Dona de uma grande cultura, lê muito, escreve muito e também pinta. A cadeira de rodas é-lhe indispensável, e o motorista de casa, o Sebastião, Sebi, adora-a e cuida dela como se fosse filha dele. É ele que a leva ao colo até à cadeira, é ele que a mete no carro do pai Zito, é ele, enfim que há quase 20 anos a acompanha sempre que é preciso.

Goa reconheceu que Frederika era um caso especial e logo que publicou a sua primeira obra, em 1998, uma colectânea de poemas a que deu o título The Portait, no ano seguinte foi galardoada com o J. C. Arward (Junior Citizen of the Year). Não parou mais de escrever e tem na gaveta mais alguns originais. Entretanto já neste ano saiu a público o livro que tem como título Unforgotten.  No qual deixou uma simples dedicatória. Mãe Angela informa que treinou durante horas para conseguir escrevê-la. É vê-la acima, no título. Mas, como parece que o tempo não lhe faz mossa, está já no prelo um conjunto de poemas para jovens. Tive a oportunidade de ver as ilustrações feitas pelo artista goês Justino Lobo. E são excelentes.

Converso com Frederika, o que é um prazer, dado o nível dela. É uma interlocutora do mais alto coturno. Confessa-me que tentou fazer um poema em Português, mas acha que não ficou bem; porém, acrescenta, já mo mandara por mail para apreciação. E também gostaria que eu a ajudasse a encontrar um músico que o adaptasse a canção. Resumindo, fui buscar as estrofes e achei bem. Para que me possam deixar as vossas opiniões elas aqui ficam:

Perdida

-         Frederika Menezes (lyrics)

Sinto-me perdida

Toda envolvida pelo teu olhar

Fui tão louca

Pensando que podia escapar

Este amor

Este sentimento

O teu falar

Palavras que ficam

No meu pensamento

Quando estou longe de ti

Não me lembro como sorrir

Tu tens a chave

De minha alegria

Olha querido

Não me deixes a mim!

Não sei como dizer

Tu és o meu

Sol de viver

Não quero imaginar

Minha vida

Sem você

Não quero deixar

De desejar

Que tu estás perdido

No meu olhar...

Eu sou perdida

Toda envolvida pelo teu olhar

Tão louca

Pensando que posso escapar

Este amor

Este sentimento

O teu falar

Palavras que ficam

No meu pensamento



Para primeira experiência em Português até está muito bem, digo-lhe, ainda que haja coisas que poderiam sair melhor, mas o tempo há-de burilá-las; quanto à música, já pedira parecer para Portugal, a ver se alguém estava interessado em fazê-la. Frederica está sentada na cama dela, o pai e a mãe assistem à conversa, vão buscar os desenhos que ilustram o novo livro que está para sair. Na parede, um quadro da autoria dela onde se misturam as cores deleitando-se com a proposta pictórica. Pintas muito bem e Frederika sorri. Pinto com o computador, com pincel a mão não conseguia.

O pai Zito já me dissera uns anos atrás que teria gostado de ir a Portugal, mas por mor dela, não o poderia fazer, viagem de avião era complicada e assim por diante. Mas, de repente lanço-lhe um desafio: Gostavas de ir a Portugal? Abrem-se-lhe os lábios da felicidade,  qual criança grande atira um siiiimmmmm!!!! Os pais encolhem-se, eu vou dizendo que nos aviões há todas as condições para os deficientes e farei tudo o que for possível para o desejo se concretizar. E Frederika, com o riso a iluminar-lhe o rosto, há sempre o navio… Numa árvore um pássaro entoa um piar sincopado. Anuncia chuva ou boda. Por agora, bem pode cantar.