quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O que está em jogo


Por Baptista Bastos

Quando se diz que na Madeira não há 'asfixia democrática', está em jogo algo de mais relevante do que uma frase suplementar.

A DR.ª MANUELA FERREIRA Leite foi à Madeira e regressou inundada de felicidade. Segundo o seu intenso regozijo, na ilha "não há asfixia democrática." Não sou especialista em falta de ar, mas a declaração da nobre senhora bastava, acaso fosse o infausto caso, para eu fugir, arquejante, do voto no PSD. Confesso aos meus dilectos que já sofri a asma de dez anos de cavaquismo; e a respiração opressa em que viveu a imprensa, aliada ao fechamento de inúmeros títulos, é uma história por contar.

Sabem-na os jornalistas com memória, aqueles que foram removidos através das cínicas "rescisões amigáveis de contrato", e os que nunca mais foram aceitos nas redacções, sob a alegação de terem "mau feitio" ou de serem "muito de Esquerda." E eram algumas das grandes assinaturas dos jornais.

É verdade que houve quem renegasse os testamentos sagrados. Ao contrário da lenda, Roma paga a traidores. Generosamente, jornais, rádios e a RTP abriram-lhes os braços. Os moralistas da profissão ficaram calados como ratos. Reaparecem sempre que surge um berbicacho: dizem umas inflamadas banalidades sobre liberdade de expressão e recebem medalhas no 10 de Junho.

Como devem calcular, sei muito bem do que falo. E o nojo que me invade, nestas situações, não esmorece com a idade. Pelo contrário: sou um casmurro que bate o pé. É sabido que não trago o retrato de Sócrates junto do coração. Tenho-me servido do sarrafo, escandalizado com as suas políticas crudelíssimas, tristes e insensíveis que deram cabo de algumas esperanças acalentadas. A lista das minhas indignações é grande. Mas nunca senti "asfixia democrática"; nunca houve recoveiros a sussurrarem--me recados ou ameaças. Ao contrário do que me aconteceu no tempo do dr. Cavaco: fui proibido de escrever "artigos políticos" por uma parelha de medíocres que trepara à direcção do Diário Popular, jornal fundado pelo meu pai, no qual eu começara a escrever, com catorze anos, e onde trabalhei durante vinte e três.

A mesa autoritária conheço-a de cor. Quando a dr.ª Manuela Ferreira Leite, onzenada pelo seu Rasputine ex-maoísta, procede à elaboração da realidade como evidência, preocupo-me com essa fumigação perigosa, que pode enganar e submeter os que são propensos ao engano e à submissão. Vivemos numa época em que o que se diz ser é o que conta. Mas precisamos de enfrentar esse ardil e resistir à falácia. Empreender um esforço de compreensão, a fim de percebermos o que é importante para a comunidade, entendida esta como "mundo comum."

Quando se diz que na Madeira não há "asfixia democrática" , está em jogo algo de mais relevante do que uma frase suplementar.

«DN» de 9 de Setembro de 2009

terça-feira, 8 de setembro de 2009

«Dito & Feito»


Por José António Lima

JOSÉ SÓCRATES ACUSA, com razão, o PSD de estar «hoje muito à direita, talvez como nunca esteve na sua história». Mas se é verdade que Manuela Ferreira Leite enquistou o PSD num discurso de cariz autoritário e redutoramente conservador, insistindo, em tom catastrofista e passadista, que se «diluíram os pilares da sociedade, como a família e o casamento», não é menos verdade que Sócrates radicalizou a mensagem do PS à esquerda. Teimando em fazer de temas fracturantes e minoritários, como a equiparação das uniões de facto ao casamento ou os direitos dos homossexuais, suas bandeiras de campanha.

Sócrates ficou muito alarmado com o que perdeu à esquerda, nas eleições de Junho, com os 21,4% que o BE e o PCP somaram, não percebendo que o PS deixou fugir a grande maioria dos seus apoiantes (mais de 400 mil votos) para o eleitorado central (abstenção mais brancos e nulos) e para o centro- direita?

Ferreira Leite não terá reparado que os seus escassos 31,7% de Junho indicam que não é ao CDS que o PSD pode e deve ir captar votos, mas à vasta faixa de eleitorado de centro e centro-esquerda que deu, no passado, as vitórias a Cavaco?

Os líderes do PS e do PSD menosprezam o centro eleitoral: eis mais um fenómeno difícil de explicar nesta campanha legislativa que assinala o fim da maioria absoluta.

Em tão ingrata conjuntura político-eleitoral, Sócrates ainda sofreu o revés de ver Pina Moura, seu influente ex-conselheiro, a elogiar o programa eleitoral do PSD como «clarificador» e «mais duro e mais focado» do que o do PS. Mais um desgosto...

O que vale a Sócrates, em contrapartida, é que a sua mandatária para a juventude, Carolina Patrocínio, veio tranquilizar o país quanto à evolução da crise e do desemprego: «Portugal foi objectivamente dos primeiros países a sair da recessão técnica e isto assinala o início da retoma económica». Com tão conceituada e reconhecida autoridade em ciência político-financeira a garantir o oásis português, Sócrates pode dormir descansado. E continuar a fazer inaugurações todos os dias: de túneis que não abriram, de fábricas que não arrancaram, de projectos de obras que ainda nem começaram. Como diz a sua especialista em finanças, Carolina Patrocínio: «Odeio perder. Prefiro fazer batota a ter de perder». Sigam, pois, as inaugurações virtuais.

Ah! e também a limpeza de jornalistas incómodos e não alinhados com o poder socialista, como Manuela Moura Guedes. Ainda que tamanha desfaçatez e tanta batota possam tornar-se eleitoralmente contraproducentes.

«SOL» de 4 de Setembro de 2009

Passatempo-relâmpago de 8 - 9 Set 09 - Soluções

2ª fase: fachada do Palácio de Seteais, séc. XVIII
referido por Eça no Cap. VIII de «Os Maias»

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1ª fase: ao fundo, o Palácio da Pena
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NOTA: estas fotos foram obtidas [aqui] e [aqui].



Passatempo-relâmpago de 8 Set 09 - Solução

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O passatempo foi ganho por Paulo.

NOTA: desta vez, pedia-se o título original (que Paulo indicou correctamente), porque, na versão portuguesa (cuja capa aqui se vê), aparece 'auto estrada', em vez de 'autoestrada' ou 'auto-estrada', e isso faria confusão.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O peso da Ibéria - Solução

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975 gramas
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Quem mais se tenha aproximado, tem agora 24h para escrever para sorumbatico@iol.pt indicando morada para envio do livro. Em caso de empate, o vencedor será o autor do 1.º alvitre.
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Actualização (7 Set 09/20h10m): pelas minhas contas, o vencedor foi Diogo Bobone Carvalho, com a aposta 990 gramas (erro=15 g).

Ainda as marquises de alumínio - Fotos das Avenidas Novas

A
Av. Frei Miguel Contreiras
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B
Av. Roma, n.ºs 39, 41 e 43
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C
Esquina da Av. Roma com Av. João XXI
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D
Av. Roma
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E
Outra esquina da Av. Roma com Av. João XXI
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F
Av. Roma
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G
Av. João XXI
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H
Esquina da Av. Roma com a R. Frei Amador Arrais
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I
Av. Roma. Ao centro, o C.C. Roma

domingo, 6 de setembro de 2009

sábado, 5 de setembro de 2009

Coisas da Ibéria

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Por Antunes Ferreira

QUÉ VIVA ESPANHA! – canta no CD que toca no meu carro Maribel Estrada, uma jovem intérprete não muito badalada no país vizinho, mas cuja voz tem uma frescura e uma sonoridade magníficas. Chamasse-se ela Iglesias ou Flores e outro galo cantaria, passe a comparação espúria.
Estou em Badajoz, onde vim uma vez mais à Universidad de Extremadura. Acontece que sou o que aqui se chama Profesor Invitado del Grado de Comunicación Audiovisual e por isso, venho algumas vezes por ano para leccionar em Cursillos de Comunicación. Não sei por que bulas, talvez mesmo porque falo e escrevo medianamente bem o Castellano. Mais do que isso, nada adianto. Favores.

Por estas bandas a crise ainda não começou a abrandar. Os desempregados continuam a aumentar. Ontem, o El País publicava a quatro colunas da primeira página uma parangona péssima: Agosto se cierra com 84.985 parados más. El repunte del paro complica el inicio del curso político a Zapatero.

O desemprego registado (como aquí se diz) atinge 3.629.080 cidadãos. E os desempregados sin cobertura estatal eram 1.040.214 em Julho deste ano. De degrau em degrau, o Governo é obrigado a a ampliar a ajuda de 420 euros - já em vigor - durante mais um semestre, a outros 255.000 desempregados pelo menos até 1 de Janeiro. Zapatero chegou a um acordo com todos os partidos da esquerda parlamentar e mesmo sem representantes nas Cortes.

O PP ficou de fora, não quis entrar nas negociações. Mariano Rajoy, na rentré, minimizou a corrupção com que o partido se debate, pois vários dos seus membros foram acusados dela e afirmou que não havia condenados no PP. El País – que, como é sabido, não tem nenhuma inclinação para a direita, acrescenta à declaração do líder que «há uma dezena de sentenças, mas o PP que se trata de ‘casos antigos’.»

Deito uma vista de olhos pelos jornais e pelas informações televisivas. Ontem, à noite, através dos canais portugueses tomei conhecimento do estranho (?) caso ocorrido na TVI. Dos ataques das oposições ao que consideraram uma intervenção governamental, do PS ou do próprio Sócrates a originar a suspensão do famigerado Jornal Nacional de Sexta e da confusão daí resultante, até ao desmentido do primeiro-ministro foi uma verdadeira girândola. Com tudo fiquei muito preocupado, a liberdade é a liberdade, censura – nunca mais. E suspeitoso. Excepto com a saída da Manuela Moura Guedes. Já não era sem tempo.

Por aqui, «la cosa» é referida como um atentado à liberdade de informação, quiçá por parte do Executivo português, mas a declaração de um porta-voz da Prisa de que as medidas tinham sido tomadas pela direcção lisboeta e pelo administrador-delegado foi mais destacada. Madrid remete, pois, para Lisboa. Será que Lisboa remeterá para Madrid? Pudera, não. Para o maior grupo espanhol da comunicação social já chegam e sobejam os imensos problemas com que se debate, nomeadamente a nível económico e financeiro. A maldita crise.

Estou já de saída, porque o que me trouxe a Espanha está no bom caminho. O que se vai tornando cada vez mais raro, mas, no caso, felizmente é assim. E quando as preocupações são muitas e enormes, mais satisfeito estou com o que se passa comigo, neste particular.

Sobretudo quando de um lado chove e do outro faz vento, embora ainda estejamos no Verão. E, cada vez mais, entendo os que defendem o iberismo. Entre os quais me situo. As desgraças são comuns, a má-língua é comum, a corrupção é comum, as atitudes perante este rol é comum.

Tudo visto, quem devia ter sido considerado traidor era o João Pinto Ribeiro. O pobre e defenestrado Miguel de Vasconcelos devia, ele sim, ter estátuas a sério espalhadas aí. Neste particular (como noutros) alinho com o Saramago. O que não falta são os Cains.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Não há avôs em Portugal?

Por Maria Filomena Mónica

NÃO SENDO DO PSD, deveria ter ficado indiferente às eleições internas para a chefia do partido, mas visto considerar que, em democracia, é bom dispor-se de uma oposição forte, prefiro que o lugar tenha ido para Manuela Ferreira Leite do que para qualquer dos rivais. Notei que não se discutiu o seu sexo – supostamente uma deficiência – mas sim a sua idade, a qual, em sociedades que valorizam a juventude, é vista com um obstáculo. Sabem quantos anos tinha Churchill quando entrou para o governo que levou à vitória dos Aliados? 65!

Deixo de lado esta questão, para me concentrar no facto de Ferreira Leite ser a primeira mulher eleita presidente de um partido em Portugal. Durante décadas, as mulheres que ascendiam ao topo da vida política – Maria Luísa van Zeller ou Maria de Lourdes Pintassilgo – ou da carreira universitária – Virgínia Rau ou Isabel Magalhães Colaço – eram obrigatoriamente feias e supostamente virgens. As coisas mudaram.

A imagem da nova Ministra da Defesa em Espanha, com uma barriga de sete meses revistando as tropas, mostra quão longe estamos do que se passava ainda há pouco tempo. E, apesar de não possuir traços da beleza clássica (note-se a assimetria dos seus traços fisionómicos) Manuela Ferreira Leite usa os mais bonitos colares da classe política europeia. Em suma, nada que a aproxime das mulheres da anterior geração.

Ao longo da campanha, declarou que nunca falaria da sua vida pessoal – na minha opinião uma decisão contestável – mas acabou por o fazer, ao comunicar que, na eventualidade de a sua filha, a viver em Londres, dar à luz, preferiria estar junto dela do que entre os seus correligionários, no dia do encerramento da campanha partidária. Poderia ser um truque de marketing – certamente que os seus conselheiros de imagem deliraram – mas há qualquer coisa que me faz pensar ter sido uma opção genuína. Porque eu teria feito o mesmo. O que me suscita uma pergunta: qual o motivo por que o problema nunca se levanta quando os candidatos são homens? Há dias em que me convenço que as mulheres são diferentes. E, claro, melhores.

Junho de 2008

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Passatempo-relâmpago de 3 Set 09 - Solução


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quarta-feira, 2 de setembro de 2009




Passatemopo «Os limites da adolescência» - prémio



Como 2.º prémio (ou em alternativa a este), está também disponível o livro de Joseph Conrad «Juventude».

A Grande Farsa

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Por Baptista-Bastos

QUE PODEMOS FAZER por nós próprios, tendo em conta que os propósitos políticos em causa pouco ou nada projectam em nosso favor? Devíamos, talvez, aplicar a sabedoria dos nossos erros para recriminar aqueles que nos conduziram à situação em que nos encontramos. Todas estas figuras chegam ao proscénio, tingidas por fora de impolutos predicados, e dizem-nos querer salvar a pátria através, claro!, do nosso voto. Sorriem, mas estão cheios de raiva e de ressentimento. Têm vindo a insultar-se com a baixa linguagem dos eguariços, e desembainham a larga espada da justiça e da solidariedade, como se estivessem a cumprir um destino. A farsa das generalizações atingiu a mais atroz das banalidades e a mais inquietante das incertezas.

Será Sócrates um mentiroso, desde os tacões dos sapatos ao corte de cabelo, e a dr.ª Manuela a imaculada guardiã de todas as verdades conhecidas? Vamos eleger caracteres. Vamos escolher entre uma pretendida compulsão para a mentira e a imagem sacrossanta da virtude como religião. Ignoramos o conteúdo dos programas e conhecemos, dos candidatos, as suas figurações e aquilo que a comunicação social quer revelar.

"O programa, venha o programa!", exigiam, coléricos, os socialistas, à chefe do PSD. Esta, com o sorriso evasivo que se lhe conhece e aquele olhar que assusta o mais destemido dos mortais, prolongava a agonia da expectativa. Até que lá fez a vontade aos importunos pedinchões, e leu um quadradinho de papel, no qual se dizia o que se planeava. Nada de novo: privatizações a eito, limitação de direitos, benesses a quem dá emprego aos outros. A dr.ª Manuela e seus asseclas parecem desejar que o Estado seja minguado até ao esqueleto, e que Portugal comece a ser governado por "gestores". A sua tese da interrupção da democracia por seis meses não é boutade, deslize momentâneo, graça pesada. É a expressão de um pensamento, afinal consubstanciado na proposta "minimalista" que fez ao País.

Enquanto a dr.ª Manuela manifesta um estremecido desprezo pela arraia-miúda, o eng.º Sócrates continua a declinação gélida das "reformas", insistindo nessa rábula do "socialismo moderno", monstruosa aldrabice que desacreditou uma ideia generosa e redentora, e a colocou no centro de todas as injúrias e de todos os chistes.

Estamos, pois, numa encruzilhada. Até que o preconceito, a ignorância e a informação omitida e dirigida permitirem uma unívoca concentração de poder, as alternativas são-nos apresentadas como as únicas construções institucionais. "Mudar tudo!", exclama, inclemente, a dr.ª Manuela. "Não mudar de rumo!", conclama o eng.º Sócrates. Um susto! Não há regeneração possível. Nenhum deles interessa; os outros constituem, presentemente pelo menos, uma impossibilidade.

«DN» de 2 de Setembro de 2009

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Em complemento do Street View


segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Desafio Street View - AML - 31 Ago 09

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Imagem da AML tal como a mostra o Google Maps, hoje.
(É possível fazer um zoom, mas não vale a pena...)
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Esta imagem é semelhante a muitas outras aqui afixadas - algumas até bem piores, com carrinhas da P.M. e da autarquia em estacionamento ilegal (estas últimas, até estacionadas em pleno jardim Fernando Pessa!).

Aqui, podemos ver 'apenas' 4 veículos em contravenção (um em 1.º plano, e 3 ao fundo), dos quais se destaca - todos os dias lá está este ou outro igual... - um carro da Polícia Municipal olimpicamente estacionado em Paragem Proibida.
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Que diabo!
Que formação têm estas pessoas, que nem sequer percebem que o mínimo que se exige às autoridades é que dêem o exemplo?!

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NOTA: Ver, [aqui], algumas fotos tiradas recentemente no mesmo local.
Disponho de muitas outras, porventura ainda 'melhores'...


O Fim do Segredo Bancário

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JL Saldanha Sanches

O SEGREDO BANCÁRIO” […]”desde sempre esteve institucionalmente presente na actividade deste sector económico, como factor e garantia do funcionamento eficiente do sistema”.

Estas doutas opiniões do nosso Tribunal Constitucional já tinham uma conotação cómica quando foram proferidas em 2007 pelo que revelavam de absoluto desconhecimento da matéria: são de um cómico irresistível hoje, quando o maior banco suíço cede às injunções de um juiz norte-americano para revelar à administração fiscal quem são os cidadãos americanos que lá têm contas e aumenta a lista dos paraísos que cedem as pressões da OCDE para se tornarem colaborantes.

Mesmo em 2007 já não tinha qualquer sentido que se dissesse, ao tratar da possibilidade de acesso da administração fiscal às contas bancárias, que o segredo bancário é um factor de funcionamento eficiente do sistema: um esforço mínimo de investigação iria revelar que nos sistemas mais eficientes – com excepção do suíço e bem sabemos porquê – convivem com o acesso permanente e regular do fisco sem qualquer intervenção de um juiz - às contas dos seus clientes. E que os paraísos fiscais são um problema sério para a supervisão bancária: recorde-se os off-shores do BCP como o melhor exemplo da ocultação de informação financeira e dos seus efeitos. Os accionistas deste banco que o digam.

Por isso, o conceito ‘segredo bancário’ – quando não se trata do dever de reserva do banqueiro perante terceiros sem qualquer interesse legítimo no acesso à informação bancária – está hoje de forma incidível ligado ao conceito paraíso fiscal.

Quando se aceita que alguns países ou territórios possam prosperar tornando-se coitos fiscais, defende-se o segredo bancário e o direito de não cooperação com as autoridades fiscais. Sempre na perspectiva da atracção de capitais interessados num secretismo que permite o incumprimento de obrigações fiscais.

Quando estas operações se tornam quase indefensáveis, aperta-se o cerco às fortalezas do crime e acaba-se com este tipo de segredo bancário.

A possibilidade de alargamento da base fiscal que estas medidas proporcionam não pode ser esquecida e deveria figurar nos programas eleitorais: deverá ou não haver uma amnistia para quem pretenda regularizar a sua situação fiscal declarando os rendimentos obtidos no exterior como está a suceder em alguns países? Se houver, em que condições?

É uma questão muito mais interessante – e com muito mais receita potencial – do que a constitucionalmente duvidosa limitação da dedutibilidade das despesas de saúde para as categorias de rendimento mais elevadas.

Exigirá a revisão de uma parte dos nossos acordos de dupla tributação em matéria de troca de informações tal como está a ser feito por outros países e a definição de uma política mais clara a este respeito: porque alguns dos nossos acordos ainda foram celebrados num período em que se considerava Portugal como uma espécie de paraíso fiscal hostil à troca de informações.

Apesar de, ao contrário dos paraísos autênticos, sempre termos tributados as contas dos não–residentes sublinhando a inconsequência deste projecto.

«Expresso» de 29 de Agosto de 2009 - www.saldanhasanches.pt

Dito & Feito

Por José António Lima

ALERTANDO SÓCRATES e o PS para as desgraças políticas que podem estar perto de bater-lhes à porta, Mário Soares veio avisar esta semana que «os resultados das próximas eleições não são nada fáceis de prever», abrindo caminho ao cenário de uma derrota socialista. E aproveitou para chamar a atenção sobre o balanço negro de quatro anos e meio de Governo PS: «A generalidade das pessoas está descontente e insegura quanto ao seu futuro próximo», o que prenuncia um voto muito volátil e facilmente transferível para outras forças políticas.


José Sócrates não precisava deste aviso à navegação dado por Soares. Ficou a perceber tudo isso na noite do desastre eleitoral socialista (e pessoal) das europeias de 7 de Junho. E sabe, por outro lado, que mais do que Oposições ganharem as eleições são os Governos que as perdem. Daí a incansável e ininterrupta actividade de pré-campanha eleitoral a que se tem devotado por estes dias, ora na pele de líder do PS ora na condição de primeiro-ministro. Aparece compungido e de gravata escura na praia Maria Luísa, exulta na primeira escavação do longínquo túnel do Marvão, passa pelo Hospital de Lamego, vai comiciar à Madeira de Jardim e acusar o PCP e o BE de quererem «enfraquecer o PS» (como se o PS não quisesse enfraquecer o PCP e o BE...), surge a gabar a redução do insucesso escolar, aterra em Santarém para receber (com lágrimas contidas) uma medalha de Moita Flores, visita a nova fábrica da Portucel que apenas será inaugurada em Novembro, etc., etc. Uma agenda interminável e um esforço, porventura, inglório.

Mas, a par das maratonas de Sócrates, o PS inaugurou agora um novo modelo de estratégia eleitoral: pôr dirigentes socialistas a dizerem mal das medidas mais impopulares do Governo igualmente socialista. Marcos Perestrello, membro do Secretariado nacional do PS, veio criticar a «atitude hostil» da ministra da Educação para com os professores, a «rigidez» de Maria de Lurdes Rodrigues, que «transformou a determinação em obstinação». Espantoso...

Que membros do Secretariado do PS se seguirão a Perestrello? Edite Estrela a arrasar a política do ministro Teixeira dos Santos pela perda de poder de compra e de apoios sociais dos funcionários públicos? António Costa a demolir os números do desemprego? No PS, em aflitivo tempo de eleições, parece que vale tudo. E o seu contrário...

«SOL» de 29 de Agosto de 2009

domingo, 30 de agosto de 2009

Passatempo «Fogos na Califórnia» - Solução

Os Amigos


Por Alice Vieira

PERDI QUATRO amigos neste mês de Agosto.

A minha cabeça e o meu coração andaram entre Lisboa e o Porto, tentando dar a cada um o pouco de mim que em vida, nalguns casos, não tive tempo de lhes dar: vamos sempre acreditando que os nossos amigos são eternos e, quando descobrimos que não são, já é tarde.

Com uma virose que teima em não me largar, e o trabalho atrasadíssimo, facilmente se compreende que este Agosto esteja a ser muito difícil de aguentar.

Felizmente os amigos que me restam conhecem-me tão bem que, sem eu dizer nada, se têm encarregado de me tornar os dias um pouco mais suportáveis.

Porque amigo é assim mesmo: conhece-nos por dentro, adivinha aquilo de que necessitamos, sabe o que nos alegra, entende os nossos silêncios, tem a capacidade de nos surpreender dando-nos aquilo de que estamos mesmo a precisar – mas sem termos de o pedir. Porque se o pedimos… qualquer estafeta serve.

Olho as rosas na minha mesa — e fico feliz por não ter tido necessidade de as pedir ao meu amigo João.

Penso no café bebido no Starbucks de Belém – e fico feliz por não ter tido necessidade de pedir à Inês que naquela manhã me levasse lá.

Espero o telefonema da Leonor, porque sei que, sem que eu o peça, ele chega sempre a meio da madrugada.

A Dina manda-me postais diariamente.

E o Vítor enfiou-me no carro e desandou comigo para o Café da Natália (em S. Pedro de Sintra, para quem não conhece) ignorando os meus protestos de que o trabalho se iria atrasar, porque sabe que nada faz melhor à alma do que as empadas que lá se comem.

Mas confesso que não esperava o telefonema do António, com quem ainda recentemente tinha estado no velório do Alberto.

À beira dos 80, o António é, de certeza, um dos melhores contadores de anedotas que existem à face da terra.

- O Alberto faz-me uma falta do caraças… – diz de repente, a meio de uma frase de circunstância — E é por isso que eu te estou a ligar.

Gaguejou mais meia dúzia de palavras, até que explicou tudo.

Do seu grupo de amigos, “amigos mesmo, mesmo a sério, tás a ver?”, já não restava ninguém.

Todas as noites o António ligava ao Alberto para lhe contar anedotas. E agora já não tinha ninguém com quem cumprir o ritual.
- Se tu não te importasses…

E pronto, todas as noites, muito antes do telefonema da Leonor, o António liga-me. Conta duas, três anedotas, ri muito, manda beijinhos, deseja boa noite e desliga.

Às vezes as anedotas são repetidas, mas eu rio à mesma, e ele fica feliz.

Só não me perdoo de não ter sido eu a pensar nisto e a tomar a iniciativa.

Acho que não fui grande amiga do António, porque precisei que ele me telefonasse a pedir o que eu deveria ter adivinhado.

Com o António, sinto que fui um bocado estafeta.

«JN» de 29 de Agosto de 2009

sábado, 29 de agosto de 2009


A cabecinha pensadora que colocou o pilarete (que, supostamente, deveria impedir a entrada de carros no espaço reservado a motociclos), foi tão generoso que até uma carrinha pode estacionar ali folgadamente.
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Neste dia, e com a chegada da EMEL (que se vê na imagem de baixo), o condutor da Mercedes tirou-a, a tempo de não ser incomodado.
A foto afixada no 'Sorumbático' (que mostra o espaço limpo) foi, portanto, tirada depois desta.

A felicidade total – ou quase


Por Antunes Ferreira

OS PORTUGUESES VÃO, FINALMENTE, ser todos – ou quase todos – muito felizes, depois do PPD/PSD e quiçá o CDS-PP chegarem ao poder, ou seja após terem vencido as legislativas que se aproximam a passos largos. Mais precisamente: elas já estão aí, ao virar da esquina, faltam umas cinco semanitas, mais coisa, menos coisa, para o 27 de Setembro.

Acabará, então, a maldita crise – é o que se pode (pelo menos eu posso) inferir das declarações programáticas dos dois partidos da Direita. Não concordam comigo? Têm todos o direito de discordar. Na vigência da Liberdade e da Democracia, é assim. Ainda que alguns queiram que não. Mas, podem-no fazer, diria até devem-no fazer. Com as necessárias justificações? Nada disso. O livre alvedrio supõe a responsabilidade. É, tão-só, a minha opinião, sublinho.

Explico-me, ainda que, face às boas propostas enunciadas, me pareça intuitiva essa felicidade que nos espera. Mesmo assim, sobretudo para os menos avisados ou para os mais distraídos, aqui deixo as minhas razões para antever esse Paraíso que nos vai abrir as portas, quiçá com as correspondentes huris, sabe-se lá se com as harpas da satisfação, as asas da abastança.

Vejamos. Manuela Ferreira Leite veio a terreiro prometer a baixa de impostos. Não de todos, está bem de ver, apenas dos suficientes para empolgar os que irão depositar os seus votos nas urnas. Bandeira agitada galhardamente mas, acentue-se, sem qualquer vermelho, sequer algo que se assemelhe a tal cor tradicionalmente perigosa – salvaguardando o Benfica, obviamente. Ainda que este seja mais encarnado.

O busílis da questão é que, em seguida, o partido da Santana à Lapa veio esclarecer que a sua líder não dissera o que aparentemente dissera. A interpretação do que afirmara é que tinha sido errada, ainda que a intenção da Senhora fosse realmente baixa-los (os impostos, naturalmente) logo que fosse possível fazê-lo. O que significava em linguagem popular, um verdadeiro tiro-e-queda. Um minúsculo quiproquó.

Além disso – que já não é pouco, destaco - o PPD/PSD vai meter ombros à tarefa ciclópica mas realizável de eliminar o estatal do… Estado. Para dar cabo do famigerado amplexo com que os socialistas têm vindo a asfixiar o País. Piedosa e excelente intenção que bem sintetiza a afirmação dos seus cartazes propagandísticos: «só prometam aquilo que podem cumprir».

Em primeira análise – e dada a limitação de espaço, sempre citada por quem escreve para publicações com ele reduzido – estes dois propósitos já chegariam, no meu modesto entender, para encher as almas da lusa gente da felicidade, gente que, aliás, merece que assim seja. Logo, assim seja. Há mais, mas ficam para melhor ocasião.

Por seu turno, o presidente do CDS-PP veio a terreiro anunciar que o "primeiro compromisso" do seu programa eleitoral é aumentar as pensões. E aditou que no referido programa se explicará «onde é que alicerçamos a melhoria de pensões, mas é o nosso primeiro compromisso social. Num país onde há um milhão de idosos que têm 245 euros ou menos para viver todos os meses não há outra prioridade social».

Porem, há mais. O “segundo compromisso” para a área social é o apoio às Instituições de Particulares de Solidariedade Social. Santo e coerente anseio. Segundo Portas, o seu partido irá avançar neste particular por entender que “o Estado, em vez de querer fazer tudo e depois não consegue, deve delegar e contratualizar nestas instituições”.

Aleluia, portanto. A felicidade vem realmente a caminho. Melhor dizendo: na prática já se vê sem necessidade de óculos ainda que com poucas dioptrias.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Lisboa - 28 Ago 09
O despertar de um sem-abrigo - em pleno Rossio, junto à estátua de D. Pedro IV

À porta do ACSantos, na Travessa Henrique Cardoso, em Lisboa.
A foto foi tirada anteontem, mas podia ter sido hoje, pois ainda está assim.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Futebol e Nacionalismo

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Por Maria Filomena Mónica

HÁ COISAS QUE SÓ A MIM acontecem. Este ano [2008] deliberei tirar férias ibéricas, a começar no dia 30 de Junho, jamais me tendo passado pela cabeça que os espanhóis pudessem vir a ganhar o campeonato europeu de futebol. Ora, como toda a gente sabe, foi isso que aconteceu. O hotel que tinha marcado ficava junto da Plaza Cólon, pelo que fui forçada a competir com os heróis do dia a fim de entrar na Calle Serrano. Evidentemente, perdi. Sem alternativa, fiquei entre os 400.000 castelhanos, bascos, catalães, galegos e andaluzes vibrando em uníssono. Pelos vistos, a nação espanhola ainda existe. Num cartaz à minha frente, pedia-se à presidente da câmara de Mostoles que atribuísse «el nombre de la madre que parió a Iker Casillas» (o guarda redes da selecção) a uma rua local: não a ele, note-se, mas à mãe. Apesar de não conhecer bem o que se passa nos esconderijos da alma lusa, conclui que os espanhóis pertenciam a uma raça diferente.

Sei que há gente inteligente, sofisticada e culta capaz de vibrar com a exibição de dois conjuntos masculinos enfrentando-se por intermédio de uma bola. Acontece que as proezas futebolísticas são incapazes de me excitar: não porque seja insensível a todo e qualquer tipo de patriotismo, mas porque o motivo tem de ser mais nobre. Apesar de escrito com intuito propagandístico, O Leão e o Unicórnio, de G. Orwell, é um ensaio que gostaria de ter assinado. Em 1941, diante da ameaça nazi, era assim que se devia reagir.

Infelizmente, o meu país tem-me dado poucas oportunidades para vibrar. Não é certamente um jogo que me levaria a colocar a bandeira nacional na janela. Até porque a que tenho cá em casa – oferecida pelo Diário de Notícias – contém erros ortográficos: «Heróis do mar, nobre povo, Nação valente, imortal. Levantai hoje de novo, o explendor de Portugal…». Os portugueses podem ter muito jeito para correr, mas estão-se nas tintas para o uso da língua. Gostaria que a primeira não impedisse a segunda: manias de uma snob cultural.

Junho de 2008

Passatempo «Melância» - Prémio

Passatempo-relâmpago de 27 Ago 09 - Solução

Solução da 1ª fase: Turim

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Passatempo-relâmpago de 26 Ago 09 - Solução

NOTA: embora na capa (como aqui se vê) o nome do autor apareça com "U" (LEU), no interior aparece com "O" (LEO).

A cega teimosia do dr. Cavaco


Por Baptista-Bastos

As eleições estão à porta. O dr. Cavaco é o Presidente de alguns portugueses - e não, definitivamente, de todos.

QUEREMOS MESMO mudar as coisas? Queremos mesmo alterar os factores políticos que nos dominam? O social fornece o cenário, e o cenário é fixo; quero dizer: os códigos sociológicos indicam que somos extremamente conservadores, tementes a qualquer reportório que suscite a apreensão de perdermos os nossos protótipos electivos. Secularmente inculcados pela Igreja. O recente veto do dr. Cavaco à lei das uniões de facto é disso exemplo. Mas não deixa de constituir um absurdo, porque as "explicações" de Belém, aludindo aos "valores", alimentam múltiplas incertezas.

O dr. Cavaco, sobre ser católico (o que ninguém leva a mal), impede-se, por uma estreita visão do mundo, de compreender as novas relações sociais. Ele não descortina os sinais do tempo; e aqueles de que dificultosamente se apercebe, fecha-os no círculo limitadíssimo das suas avaliações. Não se trata de birra; nem, sequer, admito-o, acaso ingenuamente, de um braço-de-ferro com Sócrates e o PS. Com perdão da palavra, o homem é, manifestamente, reaccionário, pouco permeável à fluidez social e tende a recuperar velhas figuras de autoridade. É o pior Presidente da II República.

Quem o lá colocou foram os mesmos que recusam, por ignorância, a pluralidade dos princípios, e apenas admitem como irretorquível aquele que lhes parece ser o "chefe." Há, nesta subserviência, algo que toca a servidão ou, pelo menos, uma redução de cidadania e uma renúncia do indivíduo aos elementos estatutários da sua própria identidade.

Os bispos rejubilaram com a decisão, que não é só triste: é escabrosa. Está ferida de insensibilidade, de desprezo pela mobilidade da sociedade humana, de abstrusa teimosia na defesa de um Portugal Velho, supersticioso, paralisado, de mentalidade pacóvia. Não enxergam, um, por ideologia cega; os outros porque continuam a reduzir o mundo à escala da abstracção, que os elos societários são animados por interesses colectivos. Mais cedo do que tarde, a lei será aprovada, porque concilia a generosidade das ideias com a dimensão colectiva.

Nesta desconsolada refrega, o dr. Cavaco esvaziou de sentido o tópico essencial das suas funções: o de mediador. Vetou, e é assim. Uma vez ainda, demonstrou que não está empenhado em estabelecer consensos, em moldar harmonias. Há uma parte da sociedade que o aplaude. Certamente, a mais anacrónica, como se tem visto. Será a mais significativa? Duvido. É nesse número de portugueses que o dr. Cavaco sustenta as decisões tomadas. O que significa uma ausência de definição geral, propícia a introduzir a instabilidade e, por consequência, a incerteza. E as eleições estão à porta. Quero dizer com isto que o dr. Cavaco é o Presidente de alguns portugueses - e não, definitivamente, de todos.

«DN» de 26 de Agosto de 2009

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Embustes marcianos

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Por Nuno Crato

DESDE QUE, EM 27 DE AGOSTO de 2003, Marte se aproximou espectacularmente do nosso planeta, que a imaginação de alguns internautas se inflamou com as notícias. Repescando e exagerando as informações que na altura circularam, todos os anos têm surgido de novo na Internet mensagens chamando apelando à observação dos céus na noite de 27 de Agosto. Este ano, ou porque o Verão tem estado menos quente, ou porque as notícias da política ou do futebol são menos animadoras, as mensagens surgem com redobrado vigor e muitos amigos me têm escrito, perguntando se é verdade que Marte vai aparecer tão grande como a Lua, como se diz nessas notícias.

Tomando como amostra os meus amigos, que prezo como pessoas sensatas — bem… quase todos! —, imagino que muitos curiosos haverá que estejam crédulos nessas notícias fantasiosas. Lamento desiludi-los, pois seria engraçado ver duas luas no céu, uma prateada e outra avermelhada. Nada disso vai acontecer. Dia 27 de Agosto, pela meia noite e meia, hora que se anuncia nas mensagens, Marte estará ainda adormecido debaixo do horizonte. Levanta-se pelas 2h da madrugada, pelo que apenas estará visível no céu para os mais noctívagos. Mesmo assim, terá uma luminosidade modesta. Não muito longe do planeta aparecerá, à sua direita, a estrela Aldebarã, de Touro, também avermelhada, mas mais luminosa do que Marte agora está.

Convém também que se diga que nunca o planeta vermelho nos poderá aparecer com tamanho aparente semelhante ao da Lua. Este nosso satélite e o Sol são os únicos dois astros que são visíveis a olho nu como discos luminosos. Todos os outros se encontram muito mais longe que a Lua e são tão mais pequenos que o Sol que, a olho nu, o seu tamanho aparente nunca é distinguível — aparecem-nos sempre como simples pontos luminosos.

A altura em que Marte é mais espectacular é a da chamada oposição, momento em que, para observadores sobre a Terra, se encontra na posição oposta à do Sol e, por isso, está frontalmente iluminado pela nossa estrela. Nessa altura está também mais perto de nós do que é usual.

Imagine o leitor que a Terra e Marte são dois corredores em pistas circulares concêntricas. A Terra é o corredor na pista mais perto do centro do estádio, por isso ligeiramente mais curta, e Marte é o corredor na pista mais afastada. A Terra dá uma volta ao estádio mais depressa do que Marte. Se os dois corredores começarem a correr, cedo estarão em pontos espalhados pelo estádio até que o corredor interior, representando a Terra, dando voltas mais rápidas, se aproxima por trás de Marte, mais lento. No momento em que estiverem ambos lado a lado, com a Terra a ultrapassar Marte, estão mais perto um do outro do que em qualquer outra posição. Nessa altura, a Terra tem à esquerda o centro do estádio, que representa o Sol, e à direita, portanto em posição oposta, estará Marte. Foi o que aconteceu em 2003, 2005 e 2007. Não este ano.

Se o leitor quiser observar o planeta vermelho em oposição — e o espectáculo vale a pena —, esqueça os dislates excêntricos dos amantes de notícias estapafúrdias. Espere apenas seis meses. Em 29 de Janeiro de 2010 terá oportunidade para ver Marte com um brilho espectacular. Até lá, neste Ano Internacional da Astronomia, contente-se com Júpiter, que aparece bem luminoso a sudeste logo que o Sol se põe. E tenha boas férias!

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 22 de Agosto de 2009