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terça-feira, 1 de novembro de 2011

A Minha Solução para a Crise

Por Maria Filomena Mónica

AO RETIRAR-ME os subsídios de férias e de Natal – uma forma idiota, reconheço, de pagar os trabalhadores - o governo acaba de anunciar que vai cortar 25% do dinheiro que ganho anualmente. Isto não é justo. Trabalho desde os 19 anos e nunca patrão algum teve queixa de mim: fui intérprete no Ministério da Saúde, tirei o Curso de Filosofia como estudante-trabalhadora, fui bolseira da Fundação Gulbenkian, assistente na Universidade Nova e, em 1977, doutorei-me na Universidade de Oxford, numa área, a Sociologia, apenas escolhida porque o Prof. Oliveira Salazar a proibia, o que demonstra a pouca iluminação que habitava a sua alma e os extremos a que o temperamento me pode conduzir.

Com quem todavia gostaria de falar não era com o Velho mas com o Ex-Primeiro Ministro, com o Presidente da República, com o Primeiro-Ministro, com o Ministro das Finanças e com o Ministro da Educação. Ao primeiro, gostaria de lhe dizer que, após ter empurrado o país para o abismo, o mínimo que dele se esperaria era que não andasse a pavonear-se por restaurantes chiques de Paris, ao segundo de lhe lembrar que o Monstro é, em grande medida, obra sua. Aos três últimos, a mensagem pode ser dada em conjunto: despeçam os funcionários que nada fazem.

Durante anos, considerei isto difícil, por imaginar que seriam usados critérios partidários. Mesmo no mundo universitário, onde pensava que se deveria manter a chamada nomeação definitiva, por conferir maior liberdade de expressão, mudei de opinião. A contemplação do abismo aumentou, como se vê, a minha capacidade intelectual. O que o país precisa não é de economistas, que entendam de spreads, swaps e hedge funds, mas de alguém com imaginação sociológica. É aqui que entro.

Encontrei uma solução que gostaria de apresentar. Em vez de me cortarem um quarto do vencimento, bastaria despedir nove de entre os meus colegas que, ao longo dos anos, não escreveram dez linhas aproveitáveis. Já agora, talvez não fosse má ideia pôr na rua os docentes que não preparam aulas, os que faltam aos compromissos académicos, os que promovem os amigos e os que andam a «salvar» o mundo com propaganda que introduzem dentro da sala de aula.

Dir-me-á o Ministro das Finanças que o país se levantaria em revolta. Nada disso, garanto-lhe, sucederia. Porque há «justa causa». Bastaria pedir a estes «intelectuais» para exibirem uma prova do que, ao longo dos anos, fizeram com os milhares de euros que receberam do Estado. Se falo da Universidade é por ser o habitat que melhor conheço, mas tenho a certeza de que, por essas repartições e empresas públicas, existem casos piores.

Livre desta canga, o Ministério das Finanças poderia distribuir o dinheiro de forma mais justa. Vejamos o meu caso: com a verba dos nove colegas dispensados, eu passaria a receber uma remuneração idêntica à auferida pelos colegas suíços, num escalão da carreira universitária idêntico ao que ocupo, o que contribuiria para aumentar a minha alegria de viver.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Amanhã, vou comprar um iPad

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Por Maria Filomena Mónica


NUMA SEMANA em que toda a gente escreveu sobre Steve Jobs é difícil ser-se original, por isso nem tentarei, mas desejo louvar uma sua invenção menos referida, o iPod. Sem este aparelho, que permite ouvir música fora de casa, há muito que teria deixado de fazer as caminhadas que me salvaram a vida. Habituada ao meu walkman, quando este desapareceu do mercado, fiquei sem saber como amenizar o tédio dos meus forçados passeios. Finalmente, em Janeiro, comprei um iPod nano.

Mal abri a caixinha transparente, contendo um rectângulo com uma rodela, apercebi-me que, estética e tecnologicamente, estava a ingressar num mundo novo. Tudo – o grafismo, os fios, a cor – era diferente. Não me foi fácil configurar e menos sincronizar as óperas que lá meti – o Puccini andou, durante uns dias, misturado com o Bellini – mas, no final, acabei por conseguir meter as árias no devido lugar.

A minha dificuldade em lidar com este tipo de máquinas, para as quais os dedos são fundamentais, tem uma origem dupla: a primeira de natureza pessoal, a segunda institucional. Na minha família, era considerado de mau gosto tocarmo-nos. Após uma estadia prolongada fora de casa, a minha mãe podia condescender em fazer-nos uma festa no cabelo, mas não me recordo de ter recebido outros afagos. Daí resultou que lidar fisicamente com botões se tenha tornado numa tarefa complexa.
Até ao dia em que comprei um computador isso pouco me incomodou. Em adolescente, havia tirado um curso de dactilografia, pelo que o problema não era o teclado – embora o americano fosse diverso daquele que o Dr. Salazar inventara para consumo doméstico – mas a velocidade. Mal tocava no rato, uma invenção de Steve Jobs, aquele entrava em delírio. Depois de ter conseguir domesticar o bicho, o mundo informático surpreendeu-me com outras mudanças, entre as quais uma espécie de clítoris, colocada a meio do teclado.
O modo de produção capitalista ou lá o que é obrigou-me a comprar sucessivos computadores, todos PC´s, uma vez que, por razões financeiras, a Universidade optara por estas máquinas. Precisando de apoio técnico, convinha-me seguir o rebanho, mas, se exceptuar o que era essencial ao trabalho, pouco avancei. Nunca me adaptei, por exemplo, ao telemóvel, o que, tendo em conta o número de divórcios causados por este aparelhinho, talvez tenha sido positivo.

Seja como for, reconheço que, em matéria de hábitos, sou rotineira. Mais uma razão para admirar Steve Jobs, alguém que, um dia, declarou: «Muitas vezes as pessoas não sabem o que querem até que lhes mostramos». A frase recorda-me outra, de Henry Ford, o impulsionador do automóvel, que igualmente desprezava as sondagens: «Se tivesse interrogado as pessoas sobre o que desejavam, provavelmente ter-me-iam dito que desejavam uma carruagem com cavalos mais velozes». O mundo precisa de gente capaz de sonhar para além do que existe. É por isso que, mesmo sem perceber qual a sua utilidade, amanhã vou comprar um iPad.

«Expresso» de 15 Out 11

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A esquerda

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Por Maria Filomena Mónica

DESDE 1974 que voto no Partido Socialista. Por isso me entristece o que lhe tem acontecido. Ao longo dos últimos seis anos de governação, o Primeiro-Ministro teve uma única ideia, o «plano tecnológico», e até essa é um disparate. Além disso, mentiu, mentiu e voltou a mentir. Não se pense que foi uma doutrina que me empurrou para a esquerda. A proeza ficou a dever-se ao comportamento da direita nacional. O Portugal dos anos 1950 era de tal forma desigualitário que me era impossível aceitar pacificamente a minha posição social. Os adultos podiam – e tentaram – explicar-me que «pobres sempre os teríamos entre nós», lição que nunca entrou na minha alma. Os amigos de infância ainda me consideram «comunista», enquanto os colegas universitários pensam que sou «reaccionária»: os primeiros porque me preocupo com as desigualdades sociais, os segundos porque valorizo o mérito.

O meu país deu muitas voltas e eu com ele. Deixei de pensar que o capitalismo era um mau sistema, admitindo ser uma forma de organização económica compatível com regimes diversos - basta olhar os EUA e a China - mas tal não me aproximou da direita. É a Adam Smith que recorro para explicitar aquilo em que acredito: «Nenhuma sociedade pode florescer e ser feliz se a grande maioria dos seus membros forem pobres e miseráveis». Se abomino que o Estado se meta na minha vida, considero todavia que tem um papel a desempenhar.

De todos os objectivos a incluir num programa socialista, a redução das desigualdades sociais deveria ser prioritária. Mas enunciá-lo não basta: é preciso tomar medidas. Há dias, li um documento delirante, aprovado em Conselho de Ministros a 20 de Março, intitulado Portugal 2020 – Programa Nacional de Reformas. Numa terminologia que me abstenho de qualificar, diz-se que, até 2020, a meta é fazer com que o número de pobres diminua em 200.000. Depois, afirma-se que, nos cinco anos após 2004, se reduziu «o risco de pobreza» de 20,4% para 17,9% da população. Uns dias depois, o Presidente da República corrigiu o engº Sócrates: afinal, a segunda percentagem seria de 26%. Em suma, ninguém sabe o que se passa.

No ambiente de cinismo em que vivemos, parece ingénuo afirmar que vale a pena lutar por uma sociedade mais justa. O amoralismo dos anos 1990´s congelou o pensamento de esquerda, tornando-o incapaz de criticar a direita. E, no entanto, a denúncia não é difícil. Os governantes que acreditam religiosamente no mercado, que afirmam que os pobres apenas existem porque não querem trabalhar, que exaltam a ganância como valor supremo estão a minar a coesão das sociedades.

Há espaço para uma esquerda, mas não com o engº. Sócrates. Mesmo que sofra uma derrota nas próximas eleições, duvido que se demita de Secretário-Geral. Isto não tem impedido os jornais de imaginar quem lhe poderia suceder. Os três nomes mais citados são os de Seguro, Costa e Assis. Surpreende-me que ninguém tenha pensado em Jaime Gama. Não tem carisma e não é amado pelo aparelho, mas tem um passado de democrata, espessura intelectual e uma honestidade à prova de bala.

«Expresso» de 16 Abr 11

terça-feira, 5 de abril de 2011

Os Velhos

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Por Maria Filomena Mónica

O ESTADO está a contar-nos, cabeça a cabeça. A isto chama-se Censo, do latim censu, a lista dos nomes e a avaliação das propriedades dos cidadãos romanos. Estava hoje a preencher o questionário do INE quando notei que passara a integrar a categoria de «pessoa idosa», a designação oficial para quem tem mais de 65 anos. Dado o meu pendor melodramático, comecei logo a imaginar que me restavam poucos anos de vida. À força, fui capaz de interromper esta meditação fúnebre, para pensar naqueles que, dentro do meu grupo etário, estão em pior situação do que eu. Através de um caderninho onde anoto as coisas que me surpreendem, descobri que Portugal é hoje o sétimo país mais envelhecido do mundo.

As causas não são difíceis de encontrar. Por um lado, os casais jovens não usufruem de condições para ter filhos, por outro, em virtude dos progressos da Medicina, a esperança de vida tem aumentado. Actualmente, as mulheres vivem, em média, até aos 81 anos e os homens até aos 75. À primeira vista, estes números parecem uma bênção do Céu, mas existe um reverso da medalha. De entre os europeus, os portugueses são aqueles que durante mais tempo - dezassete anos - enfrentam uma incapacidade permanente. Aos 80 anos, 40% dos nossos velhos estão dementes. Há 190.000 portugueses, com mais de 75 anos, a viver sós, sem ninguém que os ajude nas tarefas domésticas e, mais grave, que com eles converse.

As filhas e as noras - evidentemente os homens consideram sempre que compete às mulheres, e não a eles, tratar dos seus velhos - estão a trabalhar, as famílias vivem em casas pequenas e não existem lares em número suficiente para os albergar. Adoentados, muitos sobrevivem com uma pensão miserável, nos subúrbios de Lisboa, no interior desertificado do país, nas casas dos bairros antigos das cidades. Na rua das Trinas, ao lado de onde vivo, já não me cruzo com a rapariga pálida que ali vendia alperces, mas ainda me deparo com velhinhas, espreitando-me por detrás das cortinas de renda. Os maridos estão no Jardim da Estrela, jogando cartas com os amigos, os filhos trabalham para sustentar as famílias e os netos passam os dias, na escola, aprendendo coisas de que as avós nunca ouviram falar. Para além de uma ida ao centro de saúde, do crochet que nunca termina e da conversa com as vizinhas, nada sobra. Segundo uma investigação recente, 36,5% dos idosos com mais de 65 anos passa mais de 8 horas por dia sem companhia e 28,9% admite estar «triste e deprimido». Mas há pior: os velhos constituem metade da taxa de suicídio nacional, uma situação intolerável. Quanto mais não fosse para punir o «socialista» Sócrates pelo que fez e se preparava fazer aos reformados mais pobres valeu a pena derrubá-lo.

PS: Por lapso, no meu último artigo, usei a designação «Conselho da Europa» quando me queria referir ao «Conselho Europeu». Um erro é um erro, mas o facto de o ter cometido demonstra a distância entre os cidadãos e o labirinto europeu.
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«Expresso» de 2 Abr 11

terça-feira, 22 de março de 2011

A minha Europa e a deles

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Por Maria Filomena Mónica

EM 1962, fui viver para uma ilha, a Grã-Bretanha, situada dentro ou perto da Europa. Apaixonei-me logo pela civilização europeia, de que Portugal parecia estar, há séculos, arredado. Em 1986, quando Portugal aderiu à CEE, aprovei o gesto de forma incondicional. Mas o entusiasmo não durou. Não tardei a reparar que a União Europeia produzia subsídios para os agricultores, cotas para o pescado e regras sobre lâmpadas, mas não europeus.

Nesta organização, o poder é detido pelo Conselho da Europa, um somatório de interesses nacionais, e pela Comissão, uma casta que não responde perante ninguém. Regiamente pagos, os seus funcionários querem estar bem instalados. No ano passado, decidiram construir uma nova sede para o Conselho, com 40.000 m2, a qual custará uma fortuna. Por seu lado, o Parlamento é um clube itinerante onde apenas se debatem coisas menores, pelo que não espanta que os seus membros se vinguem, entretendo-se a pensar na forma de melhorar a vidinha. Como não há uma ligação real entre eles e os eleitores, fazem o que lhes passa pela cabeça.

Num momento de crise como aquele que atravessamos, não encontraram nada melhor do que proceder a um aumento generalizado das despesas correntes (dos 22 eurodeputados portugueses, só Miguel Portas votou contra). Além dos chorudos vencimentos que recebem, usufruem de 300 euros de ajudas de custo diárias quando estão em Bruxelas e Estrasburgo, têm direito a bilhete de avião de ida e volta em 1ª classe em 1ª classe para o país de origem (os serviços só compram passagens em turística quando recebem ordens expressas nesse sentido). Nem o mais ínfimo pormenor foi deixado ao acaso. O percurso entre a casa e o aeroporto – e vice-versa – é pago pela instituição, sendo o respectivo montante calculado em quilómetros. No corrente ano, para a contratação de «assistentes» (muitos deles familiares sem habilitações para o exercício das tarefas exigidas) passarão a dispor de uma verba mensal de 21.200 euros, ou seja, mais 3.000 do que em 2010. Não admira que a proposta do Orçamento para o corrente ano inclua, na rubrica «recursos dos deputados», um aumento de 27 milhões de euros.

Todos os empreendimentos colectivos – e a União Europeia é um deles - exigem confiança a quem neles está envolvido. Quando pagamos impostos é por imaginar que outros o farão e que, mais importante, o dinheiro será bem aplicado. Durante anos, os alemães subsidiaram as economias do sul, acreditando que tal contribuiria para criar uma Europa mais solidária. Depois do que se passou com as contas públicas dos PIGS – Portugal, Itália, Grécia e Espanha – o pacto está à beira da ruína. Os alemães não acreditam que o engº Sócrates saiba administrar o nosso dinheiro. Nem eu.

PS: Na última crónica, enganei-me no título do Observatório da Ajuda: é Astronómico e não Meteorológico. Peço desculpa aos leitores e aos astros.
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«Expresso» de 19 Mar 11

quarta-feira, 16 de março de 2011

FRANCISCO LOUÇÃ, O REVOLUCIONÁRIO

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Por Maria Filomena Mónica

DEZ ANOS depois da sua fundação, o Bloco de Esquerda pode orgulhar-se de ter hoje no Parlamento 16 deputados. Nascido da união de vários grupúsculos da Extrema-Esquerda, está em expansão, o que justifica o interesse pela personalidade do seu chefe. A 24 de Abril de 1974, então com 17 anos, Francisco Louçã era membro dos órgãos directivos da trotskista «Liga Comunista Internacionalista» (LCI). Nessa noite, depois de ter sido informado que iria ter lugar um golpe de Estado, deslocou-se para uma casa na Rua da Beneficência, em Lisboa. Começou logo a preparar acções de propaganda, entre as quais dois cartazes, com as seguintes frases «Nem mais um soldado para as colónias» e «Fim à Guerra Colonial, Independência já», a serem colocados na Praça da Figueira. Foi daqui que, às 8 horas da manhã, tentou juntar alguns camaradas, a fim de planear o que deveriam fazer após uma insurreição tida como vitoriosa.

Mas nada estava assegurado. No momento em que ele chegava à Baixa, o seu pai, o capitão-de-fragata Seixas Louçã, comandante do navio Almirante Gago Coutinho, descia o Tejo, integrado numa força da NATO prestes a rumar em direcção a Nápoles. A certa altura, recebeu indicações para sair da formatura, colocando-se em frente ao Terreiro do Paço, onde estavam estacionadas as forças rebeldes. O vice-chefe do Estado-Maior da Armada, contra-almirante Jaime Lopes, deu-lhe ordem para disparar. Alegando estar muita gente no local, além de cacilheiros a chegar e a partir, o comandante ter-se-á recusado, mas a eventual carnificina não impressionou o vice-chefe, que insistiu. O comandante optou então por mandar dar «uns tirinhos para o ar», uma ordem que os oficiais se recusaram a cumprir. Diante do Tejo, além das tropas de Salgueiro Maia, havia agora tanques do Regimento de Cavalaria 7, comandados por um alferes miliciano que optara por aderir ao Movimento, o mesmo tendo acontecido aos pelotões de Lanceiros 2.

Na Outra Banda, uma bateria da Escola Prática de Artilharia, que se juntara aos revoltosos, seguia os movimentos da fragata. Sob o nome de guerra de «Tigre», Otelo ordenava a «Charlie Oito» (Salgueiro Maia), que protegesse os blindados, após o que o comandante Vítor Crespo anulava a ordem dada ao comandante Louçã. Perto do meio-dia, este fundeava o navio no Alfeite. A 27 de Maio, solicitava a passagem à reserva, um pedido deferido pelo almirante Pinheiro de Azevedo, o qual não se absteve de lhe dizer: «Eh pá, você atrasou a revolução meia hora.» Não sabemos o que pai e filho se terão dito, mas uma coisa é certa: estivemos à beira de uma guerra civil. Em 1799, Goya publicou uma série de desenhos, os «Caprichos». Num dos mais famosos, o n.º 43, está inscrita a seguinte frase, «El sueño de la razon produce monstruos». O pintor conhecia por dentro os horrores que as utopias revolucionárias podem trazer ao mundo. A fragata nacional não disparou, mas jamais esqueci a frase, aliás ambígua, aposta na gravura espanhola.

O facto de ser descendente de um militar explica alguns traços de Francisco Louçã. Foi ao pai, e não ao avô materno, António Neves Anacleto, um algarvio que, tendo começado no anarquismo, acabou no PPD, que o líder do Bloco foi buscar o seu amor à disciplina. Aos 10 anos, numa redacção, defendia que as férias «servem para descansar, para estudar, e, naturalmente para atacar os pontos fracos nos estudos». Seu colega de turma, Santana Lopes conta que de tal forma o puritanismo do rapaz o irritava que, um dia, lhe prometera 20 escudos, se ele dissesse «merda» em voz alta, o que o outro teria recusado.

A rebeldia, se é que o termo se lhe aplica, reservava-a Francisco Louçã para a política. Em 1972, fora a França. Como tantos de nós, dirigiu-se à livraria Joie de Lire, no Quartier Latin, pertença de um militante trotskista. Era demasiado cedo – tinha apenas 15 anos – para saber o que desejava da vida. Marcelo Caetano resolveu-lhe o problema. No aniversário de uma amiga dos pais, ao saber que o jovem desejava ir para «Económicas», o Presidente do Conselho tentou dissuadi-lo, informando-o ser o ISCEF «um antro de comunistas». Tanto bastou para o entusiasmar. O menino viajou, estudou, casou, tendo hoje uma carreira académica respeitada. Mas nada disto alterou as suas ideias: o capitalismo é mau, o socialismo é bom, a globalização deve ser combatida. Que na adolescência se acredite em tais coisas, compreendo: o que me custa a perceber é como, passado o limiar dos 50 anos, alguém ainda assim pense.

«GQ» de Março 2010

segunda-feira, 7 de março de 2011

As Universidades em Portugal

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Por Maria Filomena Mónica

O QUE TÊM EM COMUM a Universidade de Lisboa, o Observatório Meteorológico da Ajuda e o Censo de 2011? Aparentemente nada. Vale todavia a pena olhar mais de perto. A propósito do Centenário daquela Universidade, o Reitor organizou uma série de «Cem Lições» proferidas por ex-alunos. Composta por meia dúzia de gatos-pingados, entre os quais me encontrava, a assistência revelou o óbvio: em Portugal, não existem Universidades.

Há alguns meses, um médico ordenou-me que andasse 40 minutos por dia. Comecei pela Tapada da Ajuda. Uma vez ali, deparei-me com o Observatório Meteorológico mandado construir, na década de 1850, por D. Pedro V. Faz este mês 150 anos que a primeira pedra foi por ele lançada. Apesar de o interior conter, ao que me dizem, um conjunto fascinante de instrumentos, não pode ser visto. Por outro lado, a beleza do edifício neo-clássico tão pouco estimulou o restauro. Perguntei a quem pertencia. A resposta deixou-me estupefacta: à Universidade de Lisboa.

Chegamos ao Censo de 2011: acabo de ser informada que 34% dos 50.000 candidatos à distribuição dos questionários porta a porta tem formação superior. Mas foi para esta tarefa que as Universidades andaram a preparar gente? É esta a geração «qualificada» de que o engº Sócrates gosta de falar? Como se sentirão os jovens que, dentro de dias, nos abordarão, envergando um colete verde reflector?

Se procurarmos averiguar quem são os responsáveis pela deplorável situação a que chegámos, temos que colocar, na primeira fila, os Ministros da Educação. Mas nem toda a responsabilidade é deles. Na medida em que, por preguiça ou indiferença, as Universidades abdicaram de ter uma palavra a dizer sobre os seus alunos, tornaram-se cúmplices. Por surpreendente que pareça, quem escolhe os jovens que entram no ensino superior é um computador.

Não minimizo as dificuldades sentidas, depois de 1974, pelas Universidades. Sem um passado em que ancorar os cursos, defrontando uma classe média exigindo que os filhos a ela tivessem acesso, não dispondo de um corpo docente qualificado, o regime democrático viu-se perante um problema. A direita, por covardia, e a esquerda, por convicção, acordaram em que o ingresso na Universidade era um direito fundamental. Ora, pela sua natureza, esta é elitista.

Uma boa Universidade é uma comunidade. A ausência de salas quer para professores que para alunos revela o que ali se passa: os docentes chegam, dão as aulas e desaparecem. Eis tudo. Ora, longe de ser uma corrida durante a qual os concorrentes procuram chegar em primeiro lugar, uma Universidade é o local onde tem lugar uma conversa. Sim, uma conversa, ou seja, um debate. Eis o que não existe. Olho a Universidade como o fazia Almeida Garrett quando falava dos frades, em Viagens na Minha Terra. Tenho saudades, não do que foi, mas do que poderia ter sido. Quando a critico, não é baseada em sentimentos nostálgicos, mas em nome daquilo que, em 1974, imaginei ser possível.
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«Expresso» de 5 Mar 11

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O MENINO JESUS

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Por Maria Filomena Mónica

QUANDO a minha mãe morreu, deixou-me um Menino Jesus. Depois de alguma hesitação sobre o seu destino, segui o conselho das minhas netas e coloquei-o ao lado da árvore de Natal. Devido à composição da família moderna, com segundos e terceiros casamentos, tal é o número de avós que as criancinhas têm de visitar que, cá em casa, a Consoada tende a prolongar-se até aos Reis. Assim, em vez de apenas ser exibido um ou dois dias, o Menino fica na sala até o último embrulho desaparecer. Não tive outro remédio que não fosse o de me habituar à sua presença.

Da minha infância católica, ficaram-me vestígios nem sempre evidentes. Gosto de Anunciações, de Nossas Senhoras do Ó, de Anjos sobrevoando humanos. Sou capaz de ficar horas a olhar as madonnas de Filippo Lippi, as adolescentes com asas de Boticelli, o menino salvador do mundo de Josefa de Óbidos. Tantas saudades albergo do latim dominical da minha infância que, este Verão, dei comigo na Igreja de St Aloysius, em Oxford, pela qual, ao longo de trinta anos, passara sem jamais nela ter entrado, a fim de ouvir a missa celebrada segundo o antigo ritual. Uma vez em Lisboa, decidi rever os anjinhos, em talha barroca, que decoram a capela de Nossa Senhora da Piedade na igreja de S. Roque. E, chegada a quadra natalícia, considerei apropriado ouvir, vezes sem conta, o exaltante coro «For unto us a child is born…», do Messiah, de Handel.

Mas nada me comove tanto quanto o Menino Jesus da minha mãe. Com aqueles olhinhos de vidro, aquela tanga doirada e aquela camisinha decorada a estrelas, parece um menino qualquer, só que mais bonito. Depois de o ter retirado do armário, onde fica guardado durante o resto do ano, tive um sonho, no qual ele aparecia ao lado de um senhor desconhecido, que disse chamar-se Alberto Caeiro. O Menino vinha, com ele, a correr, rolando-se pela erva do jardim, arrancando as hortênsias dos canteiros, rindo-se com gargalhadas que ecoavam por todo o prédio. Tinha fugido do céu, após ter chegado à conclusão de que lá tudo estava em desacordo com as flores e as árvores e as pedras deste mundo. Descobrira que, no Paraíso, não o deixavam, como sucedia com outras crianças, ter pai e mãe. O seu pai era duas pessoas: um velho chamado José, um carpinteiro que não era bem pai dele; e uma pomba estúpida, que não era do mundo nem pomba. E a sua mãe não tinha amado antes de o ter. Um dia, em que Deus estava a dormir e em que o Espírito Santo andava a voar, fora à caixa dos milagres e roubara aquele truque que permite a alguém fugir sem que tal facto seja notado. Em 2006, descendo pelo primeiro raio de sol, aterrou em minha casa.

Hoje, é uma criança saudável, alegre e brincalhona. Atira pedras aos gatos, rouba a fruta da nespereira e foge dos cães. Corre atrás das raparigas que, em rancho, vão pela rua, levantando-lhes as saias, porque sabe que elas não gostam e que toda a gente se ri do disparate. A mim, mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as tem na mão, conta-me que a Virgem Maria leva as tardes da Eternidade a fazer meia e que o Espírito Santo se coça com o bico. Quando adormece, levo-o, devagarinho, até à sua almofada carmim, decorada com um resplendor monumental. Vive na minha cave, entre garrafas de vinho do Porto vintage, que considera demasiado doce para o seu paladar, e meia dúzia de atoalhados de linho, que aprecia. No Natal, dá-me a mão, a mim e aos meus três netos, a Rita, a Joana e o Miguel, e vamos os cinco pelo caminho que houver, gozando o nosso segredo, que é o de saber que não há mistério no mundo e que tudo vale a pena.

O Menino e eu damo-nos tão bem que não nos interrogamos jamais sobre a sua origem. Ao anoitecer, conto-lhe histórias dos homens de carne e osso, sorrindo ele, porque tudo lhe parece incrível. Ri dos reis, que não são reis, e não gosta de ouvir falar de guerras, porque são cruéis. Às vezes, acorda de noite e vira os meus sonhos de pernas para o ar, batendo palmas. Quando morrer, depois de ter despido o meu cansado e humano ser, levar-me-á até ao meu prado favorito, perto do rio Isis, onde depositará as minhas cinzas. Eis a história do meu Menino Jesus. Por que razão não há-de ser mais verdadeira do que aquela que os teólogos nos impingem? A minha versão não teria agradado à minha mãe, mas, seja onde for que se encontre, pode estar sossegada. O seu Menino encontrou um lar onde se sente feliz.

«GQ» de Janeiro 2010

terça-feira, 9 de novembro de 2010

MUAMMAR KADHAFI

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Por Maria Filomena Mónica

UM DOS MAIS PERIGOSOS Lobos Maus internacionais, Kadhafi, acaba de se transformar numa Boa Avozinha. Descansem que não vou perorar sobre geopolítica, mas apenas lembrar a carreira e o carácter deste líbio peculiar. Nascido em 1942, numa família de camponeses pobres, ingressou na Escola Militar de Bengazi, onde se juntou a um grupo de nacionalistas inspirados por Nasser. Em 1965, foi enviado para Inglaterra, onde frequentou o British Army Staff College, tendo, no ano seguinte, regressado a Tripoli. Em 1969, quando liderou o golpe de Estado que destronou o rei Idris, fazia gala em usar óculos de sol e em envergar fatos de caqui. O jovem não passou desapercebido, muito menos ao chefe egípcio. Em 1970, pouco antes de morrer, Nasser confidenciou a um amigo: «Gosto de Kadhafi. Recorda-me quando tinha a idade dele.»

Em 1973, Kadhafi organizou a Revolução do Povo. Dois anos depois, publicou o primeiro volume do «Livro Verde» explicando, ou tentando explicar, o que era o socialismo árabe. Nos finais de 1970, expulsou dezenas de milhares de italianos – entre 1912 e 1934 o país fora uma colónia italiana – destruiu as bases americanas e inglesas ali estacionadas e transformou a catedral católica de Tripoli na Mesquita Gamal Adbel Nasser. Com base numa mistura de pan-nacionalismo árabe, aspectos do Welfare State e o que designava como «democracia directa», iniciou um plano de nacionalização das grandes companhias, instituiu a proibição do álcool e montou um vasto programa educativo.

Pobre e maltratada pelos ex-ocupantes, a Líbia descobrira, em 1959, uma fonte de riqueza fabulosa, o petróleo. Em 1969, já tinha ultrapassado o Kuwait como o quinto maior exportador mundial, o que deu a Kadhafi uma oportunidade de jogar um papel de relevo na crise de 1973-74. Os EUA não lhe perdoaram. Em 1982, declararam a interdição da importação do petróleo líbio e a exportação para este país de qualquer tecnologia. Em 1986, como represália pelo bombardeamento de uma discoteca em Berlim frequentada por militares norte-americanos (um atentado supostamente praticado por líbios), R. Reagan mandou bombardear Tripoli e Bengazi, tendo morto sessenta pessoas, incluindo a filha adoptiva de Kadhafi. A Líbia respondeu, enviando sobre uma base naval americana dois Scuds, os quais falharam o alvo. O «cão raivoso do Médio Oriente», como Reagan o apelidava, explodiu de fúria.

Entretanto, a suas excentricidades iam em crescendo. Kadhafi não só determinou que, fosse qual fosse o país onde se encontrasse, haveria de dormir numa tenda, como montou uma guarda pretoriana, exclusivamente composta de mulheres. Assustados, alguns países árabes começaram distanciar-se. Em 1975, Sadat dele disse estar «100% doente e possuído pelo diabo». A metamorfose de pestífero em aliado iniciou-se na década de 1990, quando Kofi Annan e Nelson Mandela o convenceram de que os suspeitos de terem posto uma bomba no avião da Pan Am que, em 1988, se despenhara sobre Lockerbie, deveriam ser julgados, a fim de as Nações Unidas suspenderem as sanções que estavam a minar a economia líbia. Curiosamente, Kadhafi fora o primeiro líder a pedir um mandato de captura internacional para Bin Laden, o que, depois do 11 de Setembro, foi recordado. Em 2003, aceitou ser o responsável por Lockerbie; três anos depois, os EUA retomaram relações diplomáticas com o seu país.

As recentes comemorações do 40.º aniversário do golpe foram transmitidas pelas televisões europeias. A 1 de Setembro último [2009], entre dançarinos bailando em cima de andas e enforcamentos simbólicos de inimigos, pude ver a História da Líbia encenada como se o país tivesse sido o centro do comércio fenício, da civilização romana e da cultura árabe. Depois, a 23, e contra o protocolo, Kadhafi discursou, nas Nações Unidas, durante uma hora e trinta e seis minutos! Após ter declarado que o Conselho de Segurança era o equivalente da Al-Qaeda, acusou os EUA de estarem propositadamente a espalhar o vírus da gripe A pelo mundo. Kadhafi pode ser o «nosso» aliado, mas não nos devemos esquecer que, na Líbia, existe um regime que proíbe a existência de qualquer tipo de oposição, que tortura os adversários e que não permite a mais vaga liberdade de expressão. Não percebo o que levou o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Luís Amado, elevado agora ministro de Estado, a comparecer nas festividades de Tripoli. A realpolitik não exigia tanto.

«GQ» - Dezembro 2009

domingo, 31 de outubro de 2010

OS BRAÇOS DE GARY COOPER

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Por Maria Filomena Mónica

NUM MUNDO MACHISTA, as divas tendem a ser femininas. Na minha opinião, se há um actor com qualificações ao título, no masculino evidentemente, ele é Gary Cooper. Hesitei bastante antes de o escolher, mas, depois de ter visto há tempos, numa exposição em Madrid, a fotografia que Edward Steichen lhe tirou em 1930, tudo se tornou claro no meu espírito. Gary Cooper aparece vestido com um fato escuro, uma camisa branca e um lenço no bolso. O que nos atrai, na fotografia, é o olhar, que nos desafia, e as rugas, evocativas de um passado conturbado. À época, tinha apenas 29 anos, mas, ao lado da boca, notam-se já os traços verticais que, ao longo da vida, caracterizariam a sua face. Há depois, e não é de somenos, o seu corpo. Ao contrário de Marlon Brando, Gary Cooper nunca exibiu o torso em t-shirts apertadas, mas basta ver, em The Foutainhead (Vontade Indómita), de 1949, os tendões dos braços emergindo das mangas da camisa, quando a heroína, Patricia Neal, com ele se cruza na pedreira onde está a trabalhar, para adivinharmos o resto.

Não é aqui o momento para analisar um filme que idolatrei quando, pela primeira vez, o vi no cinema e que depois contemplei, em êxtase, no Ciclo de Cinema Americano dos anos 40, organizado pela Fundação Gulbenkian. Percebo agora que o fascínio vinha sobretudo da presença de Gary Cooper. Não apenas devido à sua beleza, mas à forma – fria, lacónica, seca – como interpreta a figura do arquitecto Roark, um homem que não cede a compromissos, venham eles das elites ou do mercado. Há depois o romance entre ele e a jornalista, chique e arrogante, que decidira nunca se apaixonar. Até à grande cena do beijo, quando, sem ser esperado, ele salta para dentro do quarto dela, tudo é possível. Apesar de Roark aparentar serenidade, a violência nunca está longe da relação. O enredo desenrola-se de forma a que tudo se conjugue para tornar impossível um encontro sexual que, no entanto, pressentimos ser inevitável.

Tenho de admitir que, revisto hoje, em DVD, o filme me pareceu demasiado palavroso. Nunca o produtor deveria ter deixado Ayn Rand ser a autora do guião, pois raro é o escritor capaz de reduzir a linguagem literária à cinematográfica. Não nego que, pelo meio, existam frases dignas de uma antologia: é mesmo disso que me queixo. The Fountainhead é, em grande medida, uma arma na luta pela imposição da filosofia a que a autora chamou «objectivismo», uma corrente de pensamento influenciada pelo clima da Guerra Fria, que afirmava ser o povo uma massa amorfa e o génio a medida de todas as coisas. Felizmente, as palavras de Gary Cooper leva-as o vento. Fica apenas ele e isso chega.

Gary Cooper apareceu em muitos outros filmes. Recordo, por exemplo, High Noon (1952), um filme sobre a construção do Estado de Direito nos EUA. É por considerar que, dentro do western, ninguém chega aos calcanhares de John Ford que, até agora, o não revira. Dele apenas recordava o tema musical, «Do not forsake me of my darlin’…», da autoria de Dimitri Tiomkin. Muitas coisas aconteceram na minha vida desde que ouvi esta canção pela primeira vez, mas jamais a esqueci, como jamais esqueceria o rosto de Gary Cooper – então com 51 anos – no papel do marshall Will Kane. Casado nessa manhã, o herói decide abandonar a mulher, a virginal Grace Kelly, a fim de cumprir o que pensa constituir o seu dever. Enquanto os habitantes da aldeia se refugiam, cheios de medo, numa igrejinha, ele parte a fim de combater o bandido Frank Miller. Ao longo do filme, Gary Cooper quase não fala, mas mexe-se. Reparem na cena final. A maneira de andar de Gary Cooper é hierática e o balançar do coldre sobre a nádega mágico. É isto que recordamos quando tudo o resto se esvai.

Curiosamente, há algumas semelhanças ideológicas entre High Noon, de Fred Zinneman, e The Fountainhead, de King Vidor. Como o arquitecto Roark, o marshall Will Kane luta, sem o apoio do povo, contra os maus. As massas populares são, mais uma vez, consideradas como intrinsecamente covardes. Apesar de ser uma individualista, a mensagem contida nestes filmes não me atrai, mas tão pouco chega para destruir o prazer de, hoje como ontem, admirar os braços de Gary Cooper.

«GQ» de Novembro 2009

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

JOSÉ SÓCRATES

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Por Maria Filomena Mónica

A PRIMEIRA COISA que se nota, ao observar o actual primeiro-ministro, é a opacidade do seu olhar. Por que motivo terá ele medo que alguém penetre na sua alma? Em parte, por viver num limbo em que aquilo que dizem os documentos não corresponde à realidade. Nasceu no Porto, mas os pais decidiram registá-lo como tendo o parto ocorrido em Vilar de Maçada; o seu apelido não é Sócrates, mas Carvalho Pinto de Sousa; após ter obtido um diploma em circunstâncias estranhas, ficou engenheiro. Infelizmente, há pior. Em tempos, assinou, na Guarda, projectos arquitectónicos que não eram da sua autoria; sem que se perceba a necessidade, no último Conselho de Ministros de António Guterres, alterou os limites da ZPE do Tejo; a forma como foi feita a adjudicação da obra da central de tratamentos de lixo da Cova da Beira levanta dúvidas; comprou um andar, na Rua Braamcamp, em Lisboa, por um preço menor do que outros com a mesma dimensão; finalmente, entre 1999 e 2002, não declarou os seus rendimentos no Tribunal Constitucional.

José Sócrates pertence a uma família pequeno-burguesa de Trás-os-Montes. O avô paterno, José Pinto de Sousa, trabalhava, em simultâneo, num estabelecimento funerário e na organização de festas religiosas. O pai, de seu nome Fernando, fizera a instrução primária na aldeia de Maçada, tendo continuado estudos num seminário de Vila Real, abandonado ao fim de seis anos, a fim de seguir o curso de Arquitectura no Porto. Em 1955, casara com Adelaide de Carvalho Monteiro, cuja família tinha dinheiro, uma vez que o pai desta, Júlio César, fazia parte dos «novos ricos» do volfrâmio. Aparentemente devido à vida nómada do marido, o casal separou-se, tendo o filho do meio, José, ficado a viver com o pai, na Covilhã, enquanto os outros ficavam à guarda da mãe, em Cascais.

A vida na Covilhã era pacata, demasiado pacata. Mesmo as noites passadas com os amigos no café, a petiscar, ou as madrugadas em que, sentado no chão, comia chouriços assados, o enchiam de tédio. Como de tédio o enchiam as aulas. Terminou o liceu, onde o pai ensinava Desenho, com uma média de 13 valores. Para ultrapassar a neura, leu algumas obras da biblioteca paterna, de E. M. Remarque a Bernstein. Em Coimbra, matriculou-se no recém-criado Instituto Superior de Engenharia de Coimbra (ISEC), por onde viria a obter, mais uma vez com nota medíocre, o grau de bacharel.

Tal injustiça deu-lhe um ódio vesgo à autoridade: passou a detestar os intelectuais, os meninos finos, os ministros. E a Covilhã, para onde teve de voltar. Aquele tédio taciturno tornava-o impaciente. Como diria, numa entrevista: «Aos vinte e um anos, eu tinha tirado o sétimo ano, tinha estado quatro anos em Engenharia, também não queria ser muito engenheiro, mas era melhor ser engenheiro do que não ser», após o que acrescentou: «Eu esperei que a vida me surpreendesse, esperei pelo meu Sol.» O astro chegaria. Mais tarde.

Antes de enveredar pela carreira política, a única experiência profissional de Sócrates foi como técnico da Câmara Municipal da Covilhã, para onde, na década de 1980, fora levado pelo pai. Era o «filho do Arquitecto», como lhe chamava o Eng.º Silvino Morão, o qual se escandalizou ao ver a indumentária – calças de bombazina vermelha e sapatilhas brancas – por ele usada quando chegou ao emprego. Em boa hora, decidiu vir para Lisboa. Com esperteza, era possível alcançar o poder, como depressa se apercebeu, ao ouvir as conversas do sótão de António Guterres. Depois, tudo – desde a eleição para o Parlamento aos cargos de secretário de Estado e de ministro – se passou de forma rápida.

A 15 de Julho de 2004, Sócrates candidatava-se à liderança do Partido Socialista. Os jovens do partido odiavam o clã Soares e estavam-se nas tintas para a luta anti-fascista. Ao fundador do Partido e sobretudo ao benjamim, João Soares, preferiam o rapaz que gostava de Mercedes antigos. O que um grupo de velhotes proclamara, em Bad Münstereifel, era, para eles, menos importante do que o facto do rapaz de Trás-os-Montes ter fumado hashish em Amesterdão. Numa entrevista concedida a um jornal da Covilhã, Sócrates foi claro sobre o que pensava das elites: «Há uma grande segregação que tem a ver com a origem e com a província. Não há a mesma igualdade de oportunidades. Isto quer dizer que as pessoas do interior, para se afirmarem na corte lisboeta, têm de ser muito mais talentosas do que as pessoas de Lisboa.» A 12 de Março de 2005, tomava posse como primeiro-ministro. Conquistara, por fim, a cidade. Infelizmente, não era Eugène de Rastignac.
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«GQ» de Outubro 2009

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

EDWARD, O VAMPIRO

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Por Maria Filomena Mónica

SE EU TIVESSE catorze anos, como a minha neta mais velha, também gostaria de Edward Cullen. O herói inventado por Stephenie Meyer representa o amor interdito. Pálido e magro, a beleza de Edward não é a de James Dean – o herói da minha geração – mas a do rebelde sem causa do século XXI. Quando Bella é obrigada a trocar Phoenix, a cidade onde vivia, por Forks, fica vulnerável. «Bela, frágil, assustada» é assim que, pela primeira vez, olha Edward. Tal como Lady Caroline Lamb, após ter conhecido Lord Byron, também ela se apercebe que ele era «louco, mau e perigoso».

Para o ser, a paixão tem de ser imaterial, um tema que, entre outros, Eça de Queirós glosou no conto José Matias. Sei, porque a vivi, tinha exactamente a mesma idade de Bella. Educada num colégio de freiras, apenas sabia que havia pecados. Ouvira falar de uns relacionados com a carne, mas, até tarde, imaginei estarem eles ligados ao jejum das Sextas-Feiras, em que, nós, os católicos, éramos obrigados a abstermo-nos, à mesa, do consume de carne. O máximo que um confessor me perguntou, na altura, foi se eu dava beijos na boca ao namorado. Percebi logo que o sexo dava mais prazer quando interdito.

A Revolução dos anos 1960 veio alterar os costumes. Hoje, tudo é permitido, o que, como é obvio, diminui a possibilidade de se viverem paixões. Neste contexto, Stephenie Meyer tinha de inventar qualquer coisa de extraordinário para fazer do parceiro amoroso um objecto proibido. A solução foi arranjar um vampiro. Mesmo que Edward ame Bella, e ama-a com todas as suas forças, se consumar o acto, matá-la-á, o que o leva a um leque de emoções desencontradas. Não conseguindo explicar o comportamento errático de Edward – o qual tão depressa parece desprezá-la como amá-la – Bella fica obcecada por ele. Nada mais conta na sua vida para além daquele jovem simultaneamente incompreensível e sua alma gémea. Não é por acaso que Bella cita O Monte dos Vendavais. Sob certos aspectos, Bella e Edward retomam a relação entre Cathy e Heathcliff. Veja-se o que Cathy diz a Nelly (a ama que funciona como narradora): «Nelly, eu sou Heathcliff – ele está sempre no meu espírito, não como um prazer – tão pouco sou eu invariavelmente um prazer para mim própria – mas como a minha essência.» Antes, afirmara: «Se tudo o resto desaparecesse e ele ficasse, eu continuava a existir; e se tudo o resto permanecesse e ele fosse aniquilado, o universo transformar-se-ia num mundo estranho de que eu já não faria parte.»

É evidente que o livro de Emily Brontë é uma obra prima e o de Stephenie Meyer uma obra literariamente menor – embora tenha diálogos bem conseguidos – mas a razão que leva as adolescentes a gostar desta série de livros – Crepúsculo é o primeiro de uma tetralogia – é a atracção de certas mulheres por homens pérfidos. Ao longo de meses, os livros de Stephenie Meyer ocuparam, em todo o mundo, o primeiro lugar na lista de best-sellers. Lançado em Portugal, em 2005, pela Gaialivro, foi imediatamente reeditado. Pouco depois, o filme chegava às salas portuguesas, acabando de ser posto à venda em DVD. Até em Portugal, Edward tem uma longa fila de apaixonadas à espera.

Perante isto, não me venham dizer que os adolescentes não gostam de ler. É verdade que, por sua iniciativa, só lerão o que lhes diz qualquer coisa sobre o período que estão a atravessar – um dos mais difíceis da vida – mas fazem-no com avidez. É igualmente verdade que o livro contém passagens convencionais, mas não é tão conformista quanto se tem dito. Note-se que a heroína é filha de pais divorciados, que a mãe é uma irresponsável e o pai um ser destituído de capacidades afectivas. Aquele mundo, entre a casa disfuncional, os alunos de gel na cabeça e as discussões sobre quem gosta de quem, está próximo dos jovens.

Deixei, de propósito, para o fim a questão das convicções ideológicas da autora. O facto de ser mórmon tem sido referido como se o facto contaminasse o produto. Ora, a mim, pouco me importa que Edward saia da cabeça de alguém que acredita nos escritos de Joseph Smith ou de alguém que se entretém a analisar a Summa Theologica de São Tomás de Aquino. Como a Bella, o que me atrai é o facto de Edward ser belo e fugidio. Não há melhor receita para uma paixão.
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«GQ» de Setembro de 2009

domingo, 19 de setembro de 2010

O ZÉ POVINHO

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Por Maria Filomena Mónica

ESTOU A ESCREVER isto a 10 de Junho [2009], um feriado cuja origem caiu no esquecimento. Em 1880, um grupo de intelectuais decidiu mostrar ao mundo que Portugal era um país culto, como se provaria pela celebração, naquela data, do terceiro centenário da morte de Luís de Camões. Como é óbvio, o impacto na cena internacional foi nulo. Após a República, veio o decreto consagrando o ócio e, com o Estado Novo, a designação de Dia de Camões, de Portugal e da Raça. O actual regime manteve o feriado, alterando a designação para Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Não gostando de comemorações, muito menos de cariz nacionalista, optei por trabalhar como se nada fosse, do que resultou acabar o dia a pensar no Zé Povinho.

Cada país tem o símbolo que merece: a Inglaterra, o John Bull (um senhor rural e divertido), a França, a Marianne (uma mulher de seio revolucionário), a Alemanha, a Germânia (uma mocetona loira com uma espada na mão). Nós temos o Zé Povinho, nascido, pela pena de Rafael Bordalo Pinheiro, a 12 de Junho de 1875, no n.º 5 da revista A Lanterna Mágica. Ei-lo, no lado direito da imagem, coçando a cabeça, com ar apalermado. Dentro de um «trono», deparamo-nos com Fontes Pereira de Melo, a fazer de Santo António, tendo ao colo o rei D. Luís, como Menino Jesus. O pedinte é o ministro da Fazenda, Serpa Pimentel, com uma bandeja na mão, a fim de sacar moedas ao dito Zé. Não fosse o caldo entornar-se, está presente o Barão do Rio Zêzere, comandante da Guarda Municipal.

Poder-se-á pensar que, em 1875, o campónio estava a ser mais espoliado do que o costume. Não era o caso: depois de um triénio terrível, o de 1868/71, o país vivia dias bonançosos. As remessas dos emigrantes haviam recomeçado, a economia retomara o seu ritmo, a situação internacional acalmara. E, no entanto, nunca tantos intelectuais criticaram tanto o regime. É neste caldo de cultura que apareceu o Zé Povinho. Este foi evoluindo até acabar imortalizado na figura do saloio a fazer um manguito, a qual receberia a consagração derradeira sob a forma de uma escultura. O gesto tem sido interpretado como uma atitude corajosa, mas poucas coisas há mais desprezíveis do que um servo que, diante dos patrões, se curva, indo fazer manguitos para a cozinha.

A figura do Zé Povinho aparece noutras caricaturas, como a de 9 de Julho de 1880, publicada em O António Maria, na qual surge com uma albarda às costas. Dois anos depois, no Álbum das Glórias, a albarda está colocada no chão, podendo imaginar-se que alguém a voltará a colocar sobre o dorso popular. O texto que acompanha o desenho é de Ramalho Ortigão: «Como desenvolvimento, ele está pouco mais ou menos como se o tivessem desmamado ontem. De músculos, porém, de epiderme e de coiro, engrossou, endureceu e calejou como se quer, e, cumprindo com brio a missão que lhe cabe, ele paga e sua satisfatoriamente. De resto, dorme, reza e dá os vivas que são precisos.» Ramalho Ortigão, aliás a alma da festarola, declarava ambicionar ver o dia em que o Zé Povinho se transformasse em Povo.

O problema residia em que ninguém sabia o que este, o Povo, queria. Desde que não saísse das pocilgas que habitava, empunhando baionetas, ninguém dava a menor atenção às obscenidades a que, lá dentro, se entregava. Uma vez por outra, o Zé Povinho arregaçava as mangas, pegava num cacete e até corria um político a pontapé. Mas nunca o vemos tentando libertar-se da albarda. Leva, resmunga e amocha. O que não está sociologicamente errado. Um país rural pode conhecer, como conheceu, motins provocados pela fome, mas dificilmente dá origem a revoluções.

O regime monárquico só caiu, já Bordalo Pinheiro tinha morrido, quando a pequena burguesia urbana entrou em cena. Em 1910, após ter pedido a demissão do cargo de bibliotecário da Ajuda, por não querer engrossar «o abjecto número de percevejos que de um buraco estou vendo nojosamente cobrir o leito da governação», Ramalho Ortigão exilou-se em Paris. Afinal, o Povo não era aquilo com que tinha sonhado.

O que impressiona, ainda e sempre, é o facto de o Zé Povinho ser admirado. Feio, patego e bronco, representa o camponês no que este tem de mais grosseiro. Apesar de o governo lhe roubar os filhos para a tropa e de lhe arrecadar os tostões ganhos com o suor do seu rosto, o idiota continua a ostentar um sorriso alvar. A característica mais notória do símbolo nacional é, como se vê, a subserviência: não nos podemos orgulhar.

«GQ de Julho/Agosto 2009

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

OS RAPAZINHOS ANDRÓGINOS

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Por Maria Filomena Mónica

O MUNDO ESTÁ a ficar bissexual. Se não acreditam, peguem na última GQ e olhem o anúncio da Calvin Klein, com aquele rapazinho de cabelo grisalho-platinado ou o da Daniele Alessandrini, no qual são fotografados jovens do sexo masculino: concentrem-se no rapaz loiro, de cabelo aparado como se fosse uma menina, e notem a maneira como se apresenta. Estas coisas não acontecem por acaso.

A valorização da juventude é antiga. Quando as sociedades são machistas, como é o caso de Portugal, isto dá origem a casamentos entre seres de idade diferente, com o homem a figurar no papel de conjugue idoso, ao lado de uma rapariguinha desejável e fértil. Alguns colegas, todos homens, optaram por casar, em segundos matrimónios, com as lolitas que se passeiam pelos corredores das Faculdades. A não ser quando a coisa ultrapassava o decoro, nunca me pronunciei, mas esta opção sempre me pareceu um disparate. De facto, não entendo como alguém que se gaba da sua inteligência, serenidade e cultura pode viver ao lado de um ser que não partilha as suas perspectivas, ideias ou cultura. Concedo que algumas jovens têm maturidade suficiente para manterem conversas interessantes, mas a maioria parecem-me vir de outro planeta.

Curiosamente, a moda está a invadir o campo feminino. Algumas actrizes, como Demi Moore, exibem, sempre que a oportunidade surge, os seus toys boys. Num recente artigo na Pública, meia dúzia de mulheres portuguesas, casadas com homens bastante mais novos, ostentavam a sua felicidade. Se o amor se reduzisse ao físico, seria eu a primeira a estar a seu lado, mas, para o bem e para o mal, não é esse o caso.

Reconheço que a anatomia de um corpo jovem, seja ele de um homem ou de uma mulher, é mais belo do que um gasto pela idade. Não partilho a visão politicamente correcta de que um nu de sessenta anos é tão bonito quanto o de um adolescente: não, não é. No caso das mulheres, só recentemente descobri a falácia. Suponho que o facto de ter nascido numa família conservadora e educada num colégio de freiras, me impedira, até a esse momento, a contemplação do nu feminino. Há uns anos, após ter paralisado das costas, fui encaminhada para um centro de fisioterapia, onde tive acesso a tal visão. A inveja que ela em mim suscitou foi atenuada ao ter conhecimento que a hora por mim escolhida, o meio-dia, era a preferida por alguns modelos. É por saber que a beleza de um ou de uma jovem é suprema que compreendo a nostalgia de Burt Lancaster ao olhar Claudia Cardinale no baile de O Leopardo, de Visconti. Ele sabe que ela não é para ele, o que não o impede de ter saudades do tempo em que o poderia ter sido.

Mais do que a idade dos figurantes nos referidos anúncios, o que me impressionou foi a proposta do objecto sexual como um ser andrógino. As características tradicionais do homem e da mulher – ele, com braços peludos, ela com mamas grandes – estão a desaparecer, o que é simultaneamente novo e antigo. Na Grécia clássica, o objecto por excelência do desejo era o rapazinho. Em geral, a tão falada homossexualidade dos gregos não tinha lugar entre adultos, mas entre um adulto e um menino. Basta olhar o vaso, patente no Museu Ashmolean e reproduzido no livro de Simon Goldhill, Love, Sex and Tragedy, para compreendermos como, para os gregos, funcionava a relação ideal. À época, o problema da pedofilia não se punha, até porque, entre os parceiros, não havia penetração ou violência. Com o passar dos anos, o hábito desapareceu, tendo as mulheres voluptuosas ressuscitado – basta olhar os quadros de Rubens – mas o ideal clássico não desapareceu.

Nos tempos modernos, a figura que mais se aproxima da beleza adolescente é Tadzio, o efebo encarnado por Björn Andresen, em Morte em Veneza. Os seus cabelos loiros, o seu corpo pré-púbere e as suas feições efemininadas enlouquecem o agonizante von Aschenbach. Trata-se, neste caso, de um desejo de natureza homossexual, mas basta pensar no Cherubino, de Le Nozze di Figaro, para percebermos que os meninos também encantam condessas. Os tempos mudam, o desejo menos.

«GQ de Junho 2009

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

SALVEM O ADÃO

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Por Maria Filomena Mónica

OS HOMENS, no sentido estrito do termo, podem estar em vias de extinção, um assunto que, para meu espanto, não tem figurado nas primeiras páginas dos jornais. A ideia, expressa em Génesis:2, de que a mulher teria nascido de uma costela do Adão não se encontra validada do ponto de vista científico, o que tem consequências na sobrevivência do género masculino. Durante o último fim-de-semana, reli, em simultâneo, a Bíblia, alguns livros escritos por biólogos e The Diary of Adam and Eve de Mark Twain, o opúsculo o mais genial que conheço.

Sempre me causou espanto o facto de ninguém afirmar claramente que o Adão era um idiota, como o prova a sua falta de apetite por saber coisas. Foi necessário aparecer a Eva para que ele notasse que o fruto proibido estava ali, a dois passos, à mão de semear. Como a serpente disse à mulher, «Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal». Na minha inocência, julgava que isto era bom. Era até, pensava, o fundamento da ética, mas, na Bíblia, as coisas nunca são simples. Eis o que se segue: «Vendo a mulher que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de atraente aspecto e precioso para esclarecer a inteligência (sublinhado meu), agarrou do fruto, comeu, deu dele a seu marido, que estava junto dela, e ele também comeu.»

Apercebendo-se que estavam nus, o que seria um mal, Adão e Eva cobriram-se à volta dos rins com folhas de figueira (sempre me parecem parras, mas Deus lá sabe), após o que se esconderam. Mas para Jeová não há segredos. Este descobriu rapidamente o encolhido Adão, perguntando-lhe, com ar severo, o que acontecera. O queixinhas disse logo que a culpa não era dele, mas da mulher «que trouxeste para junto de mim». Esperta, a Eva decidiu atribuir a responsabilidade à serpente, mas Aquele não se impressionou, decretando que, doravante, ela passaria, não só a procurar um homem com paixão, mas a sofrer as dores do parto. Pelos vistos, Jeová não previra a epidural, pelo que a única maldição que subsiste – e de uma maldição se trata – é a de nos apaixonarmos.

É quase impossível dar-vos o tom que Twain usa para descrever a forma como Adão olha Eva pela primeira vez. Dado tratar-se de um artigo com apenas 13 páginas, mesmo o mais preguiçoso Adão conseguirá lê-lo. Dou-vos apenas o cenário. Estamos no Paraíso, onde Adão reina feliz, sozinho e soberano. A certa altura, depara-se com um animal diferente daqueles que conhecia, um bicho que não cessa de falar, que o persegue sem motivo compreensível e que tem ideias cada vez mais loucas. Era, claro, a Eva.

Salto abruptamente para as descobertas científicas. Recentemente, saíram dois livros, Y: The Descent Of Man, de Steve Jones (2002) e Adam’s Curse, de Bryan Sykes (2004), que demonstram que o sexo masculino é uma espécie apenas agarrada à vida através de um cromossoma frágil, de seu nome Y. De acordo com as investigações modernas, não seria a mulher que nascera do homem, mas este da costela feminina. Se não acreditam em mim, interroguem o primeiro cientista que encontrarem na rua.

Embora o cromossoma Y possa ser identificado com a força, o facto é que contem um princípio de vulnerabilidade. Originariamente, albergava, é certo, um conjunto de genes que desempenhavam as suas funções. A maldição começou quando o homem pretendeu lutar contra os dinossauros, desta forma assumindo o papel de sexo forte. Ao contrário do cromossoma X, capaz de metamorfosear os seus genes, a fim de evitar mutações fatais, o Y não consegue reparar os ataques que contra ele se vão acumulando, ou seja, não tem capacidade para cicatrizar as feridas que o tempo provoca. É por isso que a infertilidade masculina não para de aumentar. Dentro de cerca 125 000 anos os homens estarão totalmente extintos.

A possibilidade baralha-me. Sabia que o esperma era necessário para a reprodução da espécie, pelo que a notícia da morte do cromossoma Y me pareceu aterradora. Todavia, há quem defenda ser possível unir um óvulo a outro, em vez de o unir a um espermatozóide, mantendo-se viva a espécie humana, embora sob forma exclusivamente feminina. Isto tão pouco me agrada. Os homens fazem-me falta, quanto mais não seja para poder exibir a minha superioridade. Amanhã, vou organizar um movimento para a preservação da espécie masculina.
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«GQ» de Maio 2009

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

CHARLES DARWIN

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Por M. Filomena Mónica

A PUBLICAÇÃO de A Origem das Espécies foi um dos mais impressionantes acontecimentos do século XIX. Quando o livro saiu, Darwin foi visto como o homem que tentara assassinar Deus. Começava uma polémica – será que descendemos dos macacos? teremos que deixar de acreditar em Adão e Eva? seremos obrigados a aceitar que o mundo não tem significado? – que durou até hoje.

A 12 de Fevereiro último [2009], celebrou-se o segundo centenário do seu nascimento e este ano festeja-se o 150.º aniversário de A Origem das Espécies. Se, em Portugal, o livro pouca atenção suscitou, tal deriva de o Vaticano desaconselhar a leitura da Bíblia, tendo os católicos aceite, como alimento espiritual, a magra dieta do Catecismo. Nos EUA, um país que nasceu umbilicalmente ligado à religião, as coisas fiaram mais fino. Apesar de o conceito da separação da Igreja e do Estado estar no cerne da Constituição, a América ainda é o país protestante no qual a Bíblia desempenha um papel mais importante. Não admira que tenha sido aqui que apareceu uma candidata a vice-presidente dos EUA insistindo em que o relato da Criação deveria ser tomado a letra.

Curiosamente, este tipo de fundamentalismo é uma criação moderna: o que preocupava os Vitorianos não era a interpretação da Bíblia – eram suficientemente cultos para saber que o texto sagrado era para ser lido como uma metáfora – mas a possibilidade de o Darwinismo poder transformar a vida num caos amoral. A expansão moderna das teses antidarwinistas foi uma reacção ao abrandamento, nos anos 1960, dos códigos morais.

Charles Robert Darwin nasceu no seio de uma família rica, culta e ilustre. Depois de ter feito vários estudos nas Universidades de Edimburgo e de Cambridge, optou por ser geólogo. Foi nessa qualidade que, aos 25 anos, partiu, a bordo do Beagle, para uma viagem que o levaria aos Açores, Cabo Verde, Baía, Rio de Janeiro, ilhas Falklands, Valparaíso, Galápagos, Cidade do Cabo, ilhas Maurícias e a Austrália. A 2 de Outubro de 1836, ao pôr os pés em Inglaterra, tinha já em mente os fundamentos da sua teoria, mas, com receio, não tanto da opinião pública, mas da forma como a mulher, uma anglicana fervorosa, reagiria, decidiu nada publicar. Foi preciso um susto para divulgar o que sabia. Em 1859, apercebeu-se que, se não o fizesse, outro – Alfred Russel Wallace – avançaria. Por muito amor que tivesse pela mulher – e tinha – sentiu-se obrigado a dar a conhecer a sua tese.

Do ponto de vista social, o pior ficava para trás. As décadas de 1830 e 1840 tinham assistido a momentos difíceis: os motins dos trabalhadores tinham-se multiplicado, os Dissenters enchido as igrejas de cânticos revolucionários e as classes médias exigido leis tidas como impensáveis. Neste contexto, como podia um jovem respeitável abrir um livro com notas de viagem e, de forma despreocupada, afirmar que os nossos antepassados eram chimpanzés? O dilema, entre o que sabia ser verdade e as exigências do meio social a que pertencia, dilacerou-o. Quando, um dia, se decidiu a contar a um amigo as conclusões a que chegara afirmou-lhe que, para ele, tal era idêntico a «confessar um crime».

Mal A Origem das Espécies apareceu nas livrarias, os anglicanos classificaram-na como ateia, afrancesada e imoral. Apesar do cuidado de Darwin em apresentar todas as provas e do apelo aos leitores para as considerarem imparcialmente, não era possível aos contemporâneos aceitarem, de ânimo leve, as conclusões do livro. Porque, do ponto de vista intelectual, Darwin era um revolucionário. Terá aliás sido o reconhecimento desta faceta que levou Karl Marx a, depois de ter pensado em dedicar-lhe a obra, lhe enviar O Capital.

Darwin continuou a observar a Natureza de forma obsessiva, tendo chegado a dizer que os corais o fascinavam mais do que a música de Handel. Na velhice, perseguido por sentimentos de culpa, escreveria uma Autobiografia destinada a ser lida pelos filhos e netos. Vinte e três anos depois da publicação do seu mais célebre livro, morria. Com o tempo, Darwin passara a ser considerado como alguém cujo estatuto intelectual só era comparável ao de Newton. Enquanto o coro cantava, em Westminster Abbey, «Happy is the man that findeth wisdom», a catedral, onde ficaria sepultado o seu corpo, enchia-se de professores, clérigos e aristocratas que vinham prestar a derradeira homenagem a um homem sábio e bom.

«GQ» - Abril 2009

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

OS SONHOS DE OBAMA

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Por Maria Filomena Mónica

POR NÃO GOSTAR de Hillary Clinton, por desconfiar de Barack Obama e por suspeitar de John McCain, decidira não prestar atenção à campanha americana. Até que aconteceram duas coisas: McCain escolheu Sarah Palin para vice-presidente e li Dreams from My Father de Obama. Tendo declarado ao meu filho que achava a Palin cómica, admoestou-me, afirmando não compreender como, em vez de prestar atenção ao único candidato diferente, me entretinha a seguir as piruetas de uma mentecapta. O facto de ter sido ele, o mais anarquista dos seres, a obrigar-me a abandonar o cinismo, e não alguém da minha idade, não é despiciendo, uma vez que explica a maneira como Obama chegou à Casa Branca.

As memórias de Obama, Dreams from My Father, são uma espécie de bildungsroman, escritas aos 33 anos, ou seja, antes de ter entrado na política. Nelas, ele relata, sem auto-comiseração, a infância e juventude no Hawai e na Indonésia e, depois, aos 17 anos, a ida para o continente dos EUA. Por pretender que o filho admirasse o progenitor, a mãe, uma branca, contara-lhe histórias maravilhosas de África, o que fez com que o miúdo jamais tivesse sentido a raça como um problema, até porque, numa ilha com uma multiplicidade de etnias, tal era possível.

Há muito que leio memórias de políticos enquanto jovens, mas, se exceptuar My Early Life, de Churchill (uma obra cobrindo igualmente o período da juventude, mas redigida quando o autor ultrapassara os sessenta anos) não consigo lembrar-me de outro livro que se eleve acima das banalidades autoglorificatórias que os políticos têm por habito produzir. As memórias de Obama são uma obra-prima literária.

Até chegar à Universidade de Los Angeles, a sua identidade era de tal forma repartida que toda a gente o tratava por Barry, e não por Barack, nome que só adoptou após uma colega universitária lhe ter declarado que o último era mais giro do que o primeiro. Depois de ler a obra, passei a gostar do homem, o que, apesar do que dizem os apparatchicks, é importante. Admirei a sua insatisfação quando descobriu que não sabia a que grupo, étnico ou social, pertencia, como admirei o juízo revelado quando, após o ritual dos fuminhos – cannabis e cocaína – concluiu que a via hedonista o não interessava.

Só quem conhece os EUA compreenderá a sua conversão, tardia, ao Cristianismo. Filho e netos de ateus, Obama sentia um vácuo na sua vida, sentimento que a ausência de uma figura paterna contribuiu para agravar, tendo-se então convencido – o que é significativo – de que só através das igrejas conseguiria ter influência junto das comunidades negras.

Quando, após se ter licenciado por Columbia, decidiu ir para Chicago, o que o marcou foi a figura de Harold Washington, o Presidente da Câmara, negro, daquela cidade. Começou a pensar que talvez gostasse de fazer política. Uma das características da sua personalidade é a confiança em si próprio. Poderíamos imaginar que o jovem, que entrevimos através destas memórias, acabaria na delinquência, mas Obama quis sempre mais e melhor. Como explicou, «não nos podemos satisfazer enquanto a única forma de mobilidade social permitida aos negros for a mudança de um gueto pequeno para um maior».

Mais divididos do que nunca depois da guerra no Iraque, os americanos, brancos e negros, acreditaram em quem lhes dizia: «Yes, We Can». Numa época de pessimismo, Obama permitiu que os EUA pudessem exibir «a audácia da esperança». Há quatro anos, quando se apresentou à Convenção Nacional Democrática, era um senador desconhecido do Illinois. Nem os seus admiradores se arriscariam a pensar que, dentro de poucos anos, seria Presidente dos EUA. Mas foi isso que aconteceu. Porque, já então, ele o pensava.

Estou consciente de que o voto num homem carismático pode degenerar no populismo, mas o poder de atracção de Obama não reside em qualquer traço irracional, mas na serenidade. Por outro lado, o seu cepticismo quanto à forma de transformar o mundo levou-o a concluir que todas as intervenções, no seu país ou fora dele, têm de ser feitas lentamente. Desde cedo que desprezou «as pessoas que dão prioridade ao sonho relativamente à realidade, à impotência relativamente ao compromisso». Por muito estranho que pareça, dei comigo a pensar em Burke.

«GQ» - Fevereiro/Março 2009

sexta-feira, 30 de julho de 2010

CLINT EASTWOOD, O REALIZADOR

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Por Maria Filomena Mónica

PELO SEU CONTRIBUTO filantrópico e pela sua carreira no cinema, Clint Eastwood acaba de receber o Prémio pelo Reconhecimento do Mérito Artístico, concedido por uma das mais importantes organizações de Saúde Mental dos EUA, o Centro Thalians do Hospital Cedars Sinai. Para quem tenha dúvidas sobre o facto de a idade poder trazer vantagens, Eastwood, hoje com 78 anos, é uma dádiva do céu. Tendo começado como actor em filmes esquecidos, conheceu o sucesso com os western spaghetti, e depois, e justamente, com Dirty Harry, a série dirigida por Don Siegel, o seu mentor. Muitos pensaram que ficaria para sempre rotulado como o mítico macho. Enganavam-se.

Em 1995, Eastwood arriscou tudo, ao adaptar um livro melado, The Bridges of Madison County. Apesar de já ter 65 anos, decidiu encarnar Robert Kincaid. O filme é contado em flashback, com os filhos de Francesca (Meryl Streep) abrindo uma caixa – com cartas, diários e objectos – que a mãe lhes deixou. Aqueles apercebem-se então que, durante quatro dias, em 1965, a mãe, que viam como uma típica dona de casa, vivera um romance com o fotógrafo.

O marido de Francesca é um homem decente, bom e «limpo» – como, ela o descreve a Robert – e os filhos crescem segundo o ritmo próprio da idade. É neste quotidiano plácido que Robert irrompe, pedindo-lhe para lhe indicar o caminho para uma ponte. Depois de ter tentado descrever o itinerário, ela opta por se meter na carrinha. No regresso, é ela que o interroga sobre se ele gostaria de beber um chá frio em sua casa. A partir daí, não param de falar. Depressa compreendemos que a razão que leva Francesca a apaixonar-se é a mesma que conduziu Desdémona aos braços de Otelo. Relembro o que este diz na cena III do I Acto: «Ela amou-me devido aos perigos por que eu tinha passado e eu amei-a pela piedade que exibiu em relação a eles.»

Como convém, em várias ocasiões estive à beira das lágrimas, não porque Eastwood puxe ao sentimento – a reserva é, pelo contrário, a nota dominante – mas porque a antecipação e as consequências da paixão estão dadas de forma soberba. O filme não é sobre amor, muito menos sobre sexo, mas sobre a escolha: Francesca não partirá, porque sabe que aqueles dias só se manterão vivos se resistir ao convite. Durante algum tempo, ainda poderia viver o ardor que conhecera, mas seria, mais uma vez, apêndice de um homem, ainda por cima, arrastando com ela a culpa por ter abandonado o lar. A atenção ao pormenor, a palavra justa no momento certo, o pudor nas cenas de sexo tornam o filme no mais inesperado presente que Eastwood nos poderia dar.

Outra oferta, e esta superior, viria com Million Dollar Baby, a película pela qual, em 2005, receberia um Óscar como o Melhor Realizador do ano. Trata-se da história de um velho treinador de boxe, Frankie (Clint Eastwood) e de Maggy (Hillary Swank), uma miúda que pretende ser campeã de boxe. A determinação de Maggy vem-lhe da raiva perante o que destino lhe reservou (ser criada de café). O filme é narrado, em off, por Scrap (Morgan Freeman), o maior e o único amigo de Frankie. Tanto Frankie como Maggie são dois solitários. Nada disto é referido, excepto nalguns momentos, como, por exemplo, quando, depois da visita à família, Maggie diz a Frankie: «Não tenho mais ninguém no mundo a não seres tu.»

Com a idade, Eastwood tem vindo a interessar-se cada vez menos pela violência e mais pela relação entre homens e mulheres. Em Million Dollar Baby, o vazio, de origem misteriosa, deixado pela filha é preenchido por Maggie, cujo pai há muito desaparecera. Foi por pressentir que a relação entre eles poderia vir a ser complicada que, no dia em que a miúda aparece no ginásio, ele se recusa treiná-la. Depois de ceder, acabarão por formar uma família, baseada, não no sangue, mas no laço que literalmente os une até à morte.

Numa das cenas finais, no hospital, ela dir-lhe-á: «Tive tudo.» Di-lo com sinceridade. Ela sabe que a tragédia que vive não desfez o que, pela mão daquele homem, obtivera. Chegara o momento de Frankie lhe explicar o significado das palavras, em galês, inscritas no blusão que, antes do primeiro combate internacional, lhe oferecera («Meu amor, meu sangue»). A solução óbvia teria sido inventar um romance entre eles, mas Eastwood preferiu escolher uma relação do pai-filha. Tudo isto nos é dado, sem uma concessão ou um deslize. É por isso que Eastwood é actualmente o maior realizador vivo.

«GQ» de Janeiro 2009

quinta-feira, 22 de julho de 2010

D. JUAN CARLOS, REI DE ESPANHA

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Por Maria Filomena Mónica

A 22 DE OUTUBRO ÚLTIMO [2008], vi o rei de Espanha a entrar na Igreja do Salvador, em Sevilha. De regresso ao hotel, fiquei a pensar neste homem que, em 1956, comigo se cruzara em Cascais. Digo cruzara porque, tanto quanto me lembro, ninguém nos apresentou. O rapazito, de cabelo encaracolado, pareceu-me tímido. O que ignorava era que, nesse preciso ano, vivera uma tragédia: ao brincar com uma espingarda, matara o irmão mais novo, Alfonso. Todas as minhas amigas queriam conhecer o «D. Juanito», uma pretensão que considerei ridícula. A minha família nunca discutira a questão do regime, de forma que nem sequer sabia se, lá em casa, éramos monárquicos ou republicanos.

Em geral, o príncipe não aparecia na praia, mas havia um grupo muito restrito, entre os quais os Arnosos, que, por praticarem vela, se davam com ele. No final de um Verão, comecei namoro com o João, mas, como era com os irmãos mais velhos que o príncipe se passeava de iate, não creio que o tenha voltado a ver. Antes de me casar, passei uma temporada na Andaluzia, em casa de uma grande família aristocrática, tendo depois encontrado, em Madrid, o filho do almirante Carrero Blanco, um gigante que não me impressionou pelas capacidades intelectuais. Passaram-se anos sem pensar em Espanha, muito menos na questão dinástica.

A 20 de Dezembro de 1973, vinha eu de regresso a Portugal num barco espanhol, quando, entre Southampton e Bilbau, tive conhecimento do assassinato, pela ETA, do almirante Carrero Branco, chefe do governo de Espanha, o qual, segundo algumas fontes, estaria empenhado no problema da sucessão pacífica de Franco. Desde 1955 que D. Juan Carlos frequentava academias militares espanholas, o que não deixara de criar tensões entre o pai, um liberal, e o filho, educado dentro das rígidas convicções do conservadorismo espanhol.

Em 1969, D. Juan Carlos foi designado herdeiro da Coroa, tendo-lhe sido conferido o título de Príncipe de Espanha. Durante o período da doença de Franco em 1974/75, quando actuou como chefe de Estado, nada deixou transparecer sobre as suas ideias políticas. Depois da morte do Generalíssimo, as Cortes Gerais – faz trinta e três anos – proclamaram-no rei. Foi então, no discurso inicial, que apontou as linhas mestras do reinado: restabelecer a democracia e ser rei de todos os espanhóis (ao contrário de Portugal, a Espanha tinha, e tem, um problema separatista).

Em 1977, o conde de Barcelona, com quem, mesmo durante a vida de Franco, o filho se tinha aconselhado em segredo, transmitiu-lhe a chefia da Casa Real e, pouco depois, tiveram lugar as primeiras eleições democráticas desde 1936, tendo o Parlamento elaborado a actual Constituição. Do processo apenas tinha rumores, através de uma irmã há muito vivendo em Madrid, rodeada dos portugueses que, após o golpe de 1974, haviam optado pelo exílio, o que fazia com que, a meus olhos, os seus relatos fossem suspeitos.

Em 1981, olhei, estupefacta, o que vi na televisão: em Madrid, um tenente-coronel, tendo na cabeça um daqueles ridículos chapéus dos carabineros, encontrava-se, de pistola em punho, no centro da sala das sessões da Câmara dos Deputados, onde o primeiro-ministro, Calvo Sotelo, ia ser confirmado; em Valência, o general Milans del Bosch, comandante da III região militar, declarava publicamente apoiar Tejero. Os parlamentares e os governantes estavam reféns dos golpistas.

De madrugada, envergando o uniforme de Capitão General dos Exércitos, o rei apareceu na televisão, apelando a que os insurrectos se rendessem, o que viria a acontecer. Muito se debateu, durante e depois, a razão que levou a Espanha a conseguir, por via pacífica, aquilo que Portugal só obteve de forma revolucionária. Para além da validade da tese da «vacina» – os espanhóis não queriam passar por aquilo que tinham visto deste lado da fronteira – existia outro factor: o país há muito que não tinha colónias. O trauma da descolonização sentira-o, em 1898, com a perda de Cuba.

A forma como a Espanha passou de uma ditadura, nascida de uma guerra civil, para a democracia é um milagre. Em grande medida, isto deve-se à actuação de um rei corajoso. Ninguém seria capaz de prever que a criança nascida em Roma, em plena batalha de Teruel, seria um dos agentes da metamorfose. Muito menos eu que, em 1956, o achei feio, estúpido e antipático.

«GQ» de Dezembro de 2008

segunda-feira, 12 de julho de 2010

EU GOSTO DESTE PAPA

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Por Maria Filomena Mónica

A MAIORIA dos meus amigos considera patológico o interesse com que sigo as alterações verificadas na Igreja Católica. Se pensam que tal curiosidade é um prenúncio de conversão erram, como erram quando dizem que o assunto não me deveria atrair. Tal como o Don Giovanni diante do Comendador, sei que direi «não» quando chegar a altura. Mas o facto de ter sido criada no seio desta confissão faz com que goste de acompanhar o que se passa nos seus conclaves e de atender às mudanças dos seus rituais.

Para dizer a verdade, tenho saudades da igreja da minha infância. Quando o II Concílio do Vaticano teve lugar, em 1962, já a deixara, mas lembro-me de que fiquei indignada com o facto de a missa ter deixado de ser celebrada em latim. A fúria aumentou quando me cruzei com os católicos progressistas, a quem eu, por lhes atribuir a intenção de almejarem o Céu fazendo, na terra, o que lhes apetecia, passei a desprezar. Educada sob o olhar frio de Pio XII, a minha Igreja era a do Credo, cantado com firmeza, da Missa em dó menor de Mozart.

Não admira que tenha olhado a eleição de Bento XVI com alegria. A sua reputação de conservador levou-me a pensar que este novo papa iria mudar as práticas das ovelhas tresmalhadas. De facto, negou que o conceito de católico não-praticante fosse inteligível e acabou com a interdição da missa em latim. Em vez de um papa, como João Paulo II, que mais parecia uma estrela de cinema, temos, no Vaticano, um intelectual com a coragem necessária para manter os dogmas de uma igreja secular. Gosto de pontífices graves.

Como gosto dos que valorizam o culto tradicional. Para quem aprecie pandeiretas, coros desafinados e beijos a desconhecidos, há por aí evangélicos em barda prontos a oferecer o Céu e o Inferno a quem passar. A Igreja de Roma tem outros pergaminhos. No século XVIII, William Beckford, um dos homens mais ricos do mundo, veio a Portugal. Habituado à austeridade das igrejas anglicanas, adorou o que viu, quando observou, em Lisboa, uma missa no convento das Necessidades. Em 1787, escrevia: «Era um regalo ajoelharmo-nos no pavimento coberto de ricos tapetes persas e eu estive cheio de zelo e devoção.» Como ele, aprecio igrejas barrocas.

Mas voltemos a Bento XVI. Outro aspecto, o da a indumentária, é digno de louvor. Admiro o facto de ter reintroduzido o camauro, o barrete encarnado debruado a pele de arminho, de que se pode ver um exemplo no retrato de Inocento X pintado por Velásquez, na galeria Doria Pamphilj, em Roma. Finalmente, e não se trata de um aspecto meramente decorativo, há os sapatos com que o papa tem aparecido. João Paulo II optara por andar por esse mundo fora com uns sapatões castanhos. Logo nas primeiras aparições, Bento XVI exibiu um par de sapatos vermelhos, a tradicional cor pontifícia, tendo os especialistas de moda afirmado serem da Prada, facto que, até à data, o Vaticano não confirmou nem infirmou.

A maior parte das suas doutrinas, com destaque para a sua posição no que diz respeito à sexualidade, são detestáveis, mas isso não me impede de julgar que, para os católicos, é um papa magnífico. E, por favor, não me venham dizer que é reaccionário: não só possui um iPod Apple, como usa óculos de sol Serengeti. Bento XVI sabe aliar, o que não é simples, o fausto da Igreja Católica, o mundo contemporâneo e uma notável cultura teológica.

O seu curriculum vitae é impecável. Ordenado padre em 1951, J. Ratzinger doutorou-se dois anos depois, com uma tese sobre «O Povo e a Cidade de Deus em Santo Agostinho». Ensinou em várias universidades, participou, como perito, no Concílio Vaticano II e, em 1977, foi feito arcebispo de Munique, seguindo-se-lhe a elevação a cardeal. Já sob o papado de João Paulo II, foi escolhido para prefeito da «Congregação para a Doutrina da Fé» (o organismo que substituiu a Inquisição), a apoteose.

Finalmente, é obvio que Bento XVI se preocupa, e muito, com a imagem, um aspecto não despiciendo num mundo mediatizado. Os telespectadores podem não se aperceber, mas ter um papa com Prada nos pés e camauro na cabeça é o cúmulo da sofisticação. Acresce que o físico ajuda: apesar de filho de um polícia, nele tudo – as feições, as mãos, os cabelos – é aristocrático. Além disso, com base na sabedoria dos textos que consultou, exibe um olhar arrogante, o que, num papa, é indiscutivelmente uma vantagem.
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«GQ» de Novembro 2008