1.º Capítulo de Serões da Província, de Júlio Dinis
terça-feira, 15 de junho de 2010
Os passeios dos atuns
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 12 Jun 19
Por Nuno Crato
UM GRUPO DE CIENTISTAS, entre os quais um investigador da Universidade do Porto, acaba de publicar na revista “Nature” um estudo sobre os movimentos de várias espécies marinhas predadoras (doi: 10.1038/nature09116). Estudaram as deambulações de 55 indivíduos de 14 espécies diferentes, incluindo tubarões, atuns e outros, e verificaram que os comportamentos se ajustavam aos ditames de uma teoria matemática sofisticada. Estarão os peixes a ter aulas de cálculo?
Um dos padrões de deslocação seguido pelos animais é o chamado movimento browniano, que tem uma versão discreta conhecida por passeio aleatório. Trata-se de uma deslocação errática em que, qualquer que seja a escala em que se observe, a direcção do movimento e a distância percorrida são aleatórios. Quem pela primeira vez observou este tipo de comportamento foi o botânico Robert Brown (1773–1858), que se espantou com a agitação que pequenas partículas de pólen manifestavam quando mergulhadas em água. Foi preciso esperar por Albert Einstein para conseguir explicar o fenómeno. Em 1905, o grande físico percebeu que a agitação se devia aos choques de miríades de moléculas de água em agitação e que as desordens se somavam e subtraíam, de forma a provocar o movimento das partículas de pólen. Elaborou um esboço de modelo formal desse comportamento — e o movimento browniano fez a sua aparição em matemática. Cinco anos antes, contudo, o matemático francês Louis Bachelier (1870–1946) tinha derivado discretamente um modelo matemático semelhante. O seu objectivo era explicar os movimentos erráticos dos mercados, mas as suas ideias só foram desenvolvidas no último quartel do século XX, tornando-se a base dos estudos de matemática financeira.
Nos anos 1990, percebeu-se que algumas espécies de animais predadores, entre as quais tubarões, tinham um comportamento semelhante quando procuravam as presas. Os peixes juntaram-se aos grãos de pólen e aos mercados como exemplos de movimento browniano. Maldita matemática!
Mas há mais, alguns estudos notaram que os passeios aleatórios dos predadores mudavam quando a caça rareava. Nessas alturas os movimentos tornavam-se mais bruscos. Passavam muito tempo deslocando-se alguns poucos metros para, de repente, deslocavam-se quilómetros. Ora, no movimento browniano, o espaço percorrido em certo intervalo de tempo é aleatório, mas relativamente bem distribuído — segue aquilo a que se chama uma distribuição normal. Neste novo movimento de caçadores desesperados, a distância percorrida varia bruscamente — os animais mantêm-se relativamente tranquilos, mas de volta e meia fazem deslocações bruscas e longas. A distribuição dos espaços percorridos ajusta-se bem a uma lei chamada de Lévy, em que a probabilidade de haver grandes desvios é muito superior à que se verifica numa distribuição dita normal. Os matemáticos descreveram esse tipo de movimento como “voos de Lévy” (Lévy flights).
Recentemente, alguns cientistas modelaram matematicamente os movimentos dos predadores e concluíram que havia duas estratégias óptimas (Phys. Life Rev. 5, 133–150). Se a caça fosse relativamente abundante, os caçadores deveriam deambular seguindo um movimento browniano. Mas se a caça faltasse, a melhor estratégia seria a dos voos de Lévy.
No estudo agora relatado na “Nature”, os cientistas descrevem o movimento de peixes a que foram agrafados pequenos equipamentos electrónicos, sinalizando a sua localização. Quando a caça é abundante, os predadores movimentam-se seguindo um modelo browniano. Quando a caça rareia, passam a adoptar o modelo de Lévy. Não é que os animais tiveram mesmo aulas de matemática?!
.UM GRUPO DE CIENTISTAS, entre os quais um investigador da Universidade do Porto, acaba de publicar na revista “Nature” um estudo sobre os movimentos de várias espécies marinhas predadoras (doi: 10.1038/nature09116). Estudaram as deambulações de 55 indivíduos de 14 espécies diferentes, incluindo tubarões, atuns e outros, e verificaram que os comportamentos se ajustavam aos ditames de uma teoria matemática sofisticada. Estarão os peixes a ter aulas de cálculo?
Um dos padrões de deslocação seguido pelos animais é o chamado movimento browniano, que tem uma versão discreta conhecida por passeio aleatório. Trata-se de uma deslocação errática em que, qualquer que seja a escala em que se observe, a direcção do movimento e a distância percorrida são aleatórios. Quem pela primeira vez observou este tipo de comportamento foi o botânico Robert Brown (1773–1858), que se espantou com a agitação que pequenas partículas de pólen manifestavam quando mergulhadas em água. Foi preciso esperar por Albert Einstein para conseguir explicar o fenómeno. Em 1905, o grande físico percebeu que a agitação se devia aos choques de miríades de moléculas de água em agitação e que as desordens se somavam e subtraíam, de forma a provocar o movimento das partículas de pólen. Elaborou um esboço de modelo formal desse comportamento — e o movimento browniano fez a sua aparição em matemática. Cinco anos antes, contudo, o matemático francês Louis Bachelier (1870–1946) tinha derivado discretamente um modelo matemático semelhante. O seu objectivo era explicar os movimentos erráticos dos mercados, mas as suas ideias só foram desenvolvidas no último quartel do século XX, tornando-se a base dos estudos de matemática financeira.
Nos anos 1990, percebeu-se que algumas espécies de animais predadores, entre as quais tubarões, tinham um comportamento semelhante quando procuravam as presas. Os peixes juntaram-se aos grãos de pólen e aos mercados como exemplos de movimento browniano. Maldita matemática!
Mas há mais, alguns estudos notaram que os passeios aleatórios dos predadores mudavam quando a caça rareava. Nessas alturas os movimentos tornavam-se mais bruscos. Passavam muito tempo deslocando-se alguns poucos metros para, de repente, deslocavam-se quilómetros. Ora, no movimento browniano, o espaço percorrido em certo intervalo de tempo é aleatório, mas relativamente bem distribuído — segue aquilo a que se chama uma distribuição normal. Neste novo movimento de caçadores desesperados, a distância percorrida varia bruscamente — os animais mantêm-se relativamente tranquilos, mas de volta e meia fazem deslocações bruscas e longas. A distribuição dos espaços percorridos ajusta-se bem a uma lei chamada de Lévy, em que a probabilidade de haver grandes desvios é muito superior à que se verifica numa distribuição dita normal. Os matemáticos descreveram esse tipo de movimento como “voos de Lévy” (Lévy flights).
Recentemente, alguns cientistas modelaram matematicamente os movimentos dos predadores e concluíram que havia duas estratégias óptimas (Phys. Life Rev. 5, 133–150). Se a caça fosse relativamente abundante, os caçadores deveriam deambular seguindo um movimento browniano. Mas se a caça faltasse, a melhor estratégia seria a dos voos de Lévy.
No estudo agora relatado na “Nature”, os cientistas descrevem o movimento de peixes a que foram agrafados pequenos equipamentos electrónicos, sinalizando a sua localização. Quando a caça é abundante, os predadores movimentam-se seguindo um modelo browniano. Quando a caça rareia, passam a adoptar o modelo de Lévy. Não é que os animais tiveram mesmo aulas de matemática?!
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 12 Jun 19
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Passatempo-relâmpago de 14 Jun 10 - Solução
Quem mais se tenha aproximado deste valor, tem 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada para envio.
É bom observador? - Solução
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Do outro lado, à porta do Império:
Repare-se que os pilaretes em falta não são da família dos "derrubados".
Simplesmente nunca foram, sequer, colocados...
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Mas, noutros lados, o que se passou foi mais 'misterioso': o colocador de pilaretes teve o cuidado de, numa determinada fiada, se "esquecer" de meter alguns...
Um dos casos é este, junto ao Café Império - apesar de haver, ali em frente, um espaço destinado a cargas e descargas. Quem é amigo, quem é?
Do outro lado, à porta do Império:Repare-se que os pilaretes em falta não são da família dos "derrubados".
Simplesmente nunca foram, sequer, colocados...
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... e o resultado é este.
Genial!
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Não têm conta, em Lisboa, os pilaretes arrancados e que, depois, nunca mais são repostos. Trata-se de simples desleixo, que já ninguém estranha.Genial!
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Mas, noutros lados, o que se passou foi mais 'misterioso': o colocador de pilaretes teve o cuidado de, numa determinada fiada, se "esquecer" de meter alguns...
Um dos casos é este, junto ao Café Império - apesar de haver, ali em frente, um espaço destinado a cargas e descargas. Quem é amigo, quem é?
Vergonha
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Por João Paulo Guerra
UMA SONDAGEM publicada no final na semana passada pelo Correio da Manhã dava o primeiro-ministro a cair desamparado no índice de confiança dos portugueses.
Não admira. O que admira é que o guarda-costas do primeiro-ministro, o líder da chamada oposição, registasse uma subida idêntica à queda do chefe do governo. Porque na verdade tudo o que José Sócrates tenha feito nos últimos tempos, que explique a descida no índice da confiança dos portugueses, o fez com o ámen de Passos Coelho. Mas é assim a lógica perversa da democracia bipolarizada. Porque não contando apenas com o quadro míope da bipolarização imposta mediática e subconscientemente como modelo de alternância, o somatório das intenções de voto na esquerda é maioritário, o que não tem nunca qualquer efeito prático em Portugal.
Notícias publicadas nos últimos dias revelam um país que desautoriza e desacredita quem o governa e as políticas sem saída que conduziram Portugal ao beco da crise e às ruas da amargura. Ao fim de três décadas de governação PS e PSD, alternados ou em bloco, com ou sem CDS na bolsa marsupial, Portugal voltou a ser um país bom para se fugir daqui para fora. Há uma nova vaga de emigração, com portugueses a procurarem lá fora aquilo que não encontram cá dentro: emprego, melhores salários e realização profissional. E entre os portugueses que ficam começa a ser dramático o défice demográfico. Segundo um especialista citado pela imprensa a propósito das estimativas demográficas do INE, em Portugal faltam condições para ter e criar filhos.
Este retrato de um país de onde se foge ou se evita nascer devia encher de vergonha os governantes. Ou será que a vergonha é um produto que se esgota ainda mais depressa que as promessas eleitorais?
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«DE» de 14 Jun 10
Por João Paulo Guerra
UMA SONDAGEM publicada no final na semana passada pelo Correio da Manhã dava o primeiro-ministro a cair desamparado no índice de confiança dos portugueses.
Não admira. O que admira é que o guarda-costas do primeiro-ministro, o líder da chamada oposição, registasse uma subida idêntica à queda do chefe do governo. Porque na verdade tudo o que José Sócrates tenha feito nos últimos tempos, que explique a descida no índice da confiança dos portugueses, o fez com o ámen de Passos Coelho. Mas é assim a lógica perversa da democracia bipolarizada. Porque não contando apenas com o quadro míope da bipolarização imposta mediática e subconscientemente como modelo de alternância, o somatório das intenções de voto na esquerda é maioritário, o que não tem nunca qualquer efeito prático em Portugal.
Notícias publicadas nos últimos dias revelam um país que desautoriza e desacredita quem o governa e as políticas sem saída que conduziram Portugal ao beco da crise e às ruas da amargura. Ao fim de três décadas de governação PS e PSD, alternados ou em bloco, com ou sem CDS na bolsa marsupial, Portugal voltou a ser um país bom para se fugir daqui para fora. Há uma nova vaga de emigração, com portugueses a procurarem lá fora aquilo que não encontram cá dentro: emprego, melhores salários e realização profissional. E entre os portugueses que ficam começa a ser dramático o défice demográfico. Segundo um especialista citado pela imprensa a propósito das estimativas demográficas do INE, em Portugal faltam condições para ter e criar filhos.
Este retrato de um país de onde se foge ou se evita nascer devia encher de vergonha os governantes. Ou será que a vergonha é um produto que se esgota ainda mais depressa que as promessas eleitorais?
«DE» de 14 Jun 10
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YES, MINISTER! (?)
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«Público» de 14 Jun 10
Por Guilherme Valente
O EXEMPLO da Finlândia é muito referido, mas poucas vezes com rigor.
Também a Senhora Ministra referiu a Finlândia na Assembleia da República. Na Finlândia não há retenções, afirmou, parecendo querer dizer não existir essa possibilidade naquele país. E nem um deputado lhe pediu para esclarecer o que terá pretendido afirmar. Nos debates parlamentares nunca foi feita, aliás, a pergunta iluminante de toda questão da educação: em que tipo de sociedade quer o «eduquês» obrigar os Portugueses a viverem?
Na Finlândia existe a possibilidade de retenção. Mas o objectivo e a qualidade do ensino; a preparação dos professores e o reconhecimento da sua função inestimável; as regras, a direcção e o ambiente nas escolas; a responsabilidade exigida aos pais; a exigência desde o primeiro dia de aulas, reduzem as retenções a uma percentagem residual.
Na Finlândia a escola é a sério. Tudo está organizado para os professores ensinarem, os alunos aprenderem, para ninguém ficar para trás.
Em Portugal, pelo contrário, o facilitismo é cultivado desde o primeiro dia de aulas. E logo interiorizado por todos: alunos, pais e professores. (Para o bem e para o mal, é uma característica dos seres humanos: adaptarem-se depressa.) O resultado não pode ser outro.
A escola finlandesa é o inverso da escola em Portugal. E a medida agora anunciada – possibilidade oferecida aos alunos de 15 anos retidos no oitavo ano de poderem «saltar» para o décimo (e porque não aos de 14 anos?) – é um exemplo expressivo dessa diferença.
Medida injusta, por não ser oferecida a todos de qualquer ano (e os melhores conseguiriam avançar); inútil se os exames forem sérios; irreflectida por abalar sem mais a própria arquitectura do tempo de escolaridade.
Pareceu-me, aliás, haver constrangimento e confusão na defesa feita pela Ministra desse «milagre». Por isso pergunto: quem manda no ME?
Será seriamente imaginável que alunos reprovados (apesar do facilitismo todo) no 8º. ano, possam aprender num ano a matéria do 8º. e do 9º?. E se passarem no «exame sério» do 9.º e reprovarem no 8.º? E os pobres dos professores que os apanharem no décimo?
"Exames” em vez de exames, é o que virá. Prepara-se, portanto, mais um grande êxito… estatístico. É para isso esta medida. E não se faz o que devia ser feito: a oferta criteriosa, a tempo de prevenir o abandono, de uma via técnico-profissional, de exigência e dignidade iguais à via de acesso ao ensino superior, que, na Finlândia é frequentada, aliás, pela maioria dos estudantes.
O que é oferecido em algumas escolas, por iniciativa de directores e professores que vivem quotidianamente essa falta gritante, sem o empenhamento autêntico, muito pelo contrário, do Ministério, não pode responder a essa necessidade imperiosa. Mas mesmo assim - ouçam-se essas escolas – esses exemplos, que a nomenclatura do Ministério teve de aceitar que surgissem e procura sabotar, a funcionarem sem o reconhecimento, os meios humanos e as condições mínimas, provam a razão dos que durante todos estes anos combateram pela oferta de uma via de ensino técnico profissional no sistema educativo: a sério, qualificada, exigente e dignificada.
Impõe-se, pois, a pergunta, para muitos retórica: a Senhora Ministra está com ou contra o eduquês? Quer continuar a nivelar por baixo? Partilha o igualitarismo, anti-cultura, anti-conhecimento, loucura de tornar todos iguais? Ou, pelo contrário, quer uma escola de liberdade que revele e valorize as capacidades, interesses e vocação de todos, até ao limite do possível? Uma escola que reduza as desigualdades, ou esta escola de mentira, de ignorância e de exclusão que as agrava? Anti-escola que tornou Portugal no país mais desigual da União, com excepção da Polónia.
Tem um projecto para fazer sair o ensino público das trevas?
.O EXEMPLO da Finlândia é muito referido, mas poucas vezes com rigor.
Também a Senhora Ministra referiu a Finlândia na Assembleia da República. Na Finlândia não há retenções, afirmou, parecendo querer dizer não existir essa possibilidade naquele país. E nem um deputado lhe pediu para esclarecer o que terá pretendido afirmar. Nos debates parlamentares nunca foi feita, aliás, a pergunta iluminante de toda questão da educação: em que tipo de sociedade quer o «eduquês» obrigar os Portugueses a viverem?
Na Finlândia existe a possibilidade de retenção. Mas o objectivo e a qualidade do ensino; a preparação dos professores e o reconhecimento da sua função inestimável; as regras, a direcção e o ambiente nas escolas; a responsabilidade exigida aos pais; a exigência desde o primeiro dia de aulas, reduzem as retenções a uma percentagem residual.
Na Finlândia a escola é a sério. Tudo está organizado para os professores ensinarem, os alunos aprenderem, para ninguém ficar para trás.
Em Portugal, pelo contrário, o facilitismo é cultivado desde o primeiro dia de aulas. E logo interiorizado por todos: alunos, pais e professores. (Para o bem e para o mal, é uma característica dos seres humanos: adaptarem-se depressa.) O resultado não pode ser outro.
A escola finlandesa é o inverso da escola em Portugal. E a medida agora anunciada – possibilidade oferecida aos alunos de 15 anos retidos no oitavo ano de poderem «saltar» para o décimo (e porque não aos de 14 anos?) – é um exemplo expressivo dessa diferença.
Medida injusta, por não ser oferecida a todos de qualquer ano (e os melhores conseguiriam avançar); inútil se os exames forem sérios; irreflectida por abalar sem mais a própria arquitectura do tempo de escolaridade.
Pareceu-me, aliás, haver constrangimento e confusão na defesa feita pela Ministra desse «milagre». Por isso pergunto: quem manda no ME?
Será seriamente imaginável que alunos reprovados (apesar do facilitismo todo) no 8º. ano, possam aprender num ano a matéria do 8º. e do 9º?. E se passarem no «exame sério» do 9.º e reprovarem no 8.º? E os pobres dos professores que os apanharem no décimo?
"Exames” em vez de exames, é o que virá. Prepara-se, portanto, mais um grande êxito… estatístico. É para isso esta medida. E não se faz o que devia ser feito: a oferta criteriosa, a tempo de prevenir o abandono, de uma via técnico-profissional, de exigência e dignidade iguais à via de acesso ao ensino superior, que, na Finlândia é frequentada, aliás, pela maioria dos estudantes.
O que é oferecido em algumas escolas, por iniciativa de directores e professores que vivem quotidianamente essa falta gritante, sem o empenhamento autêntico, muito pelo contrário, do Ministério, não pode responder a essa necessidade imperiosa. Mas mesmo assim - ouçam-se essas escolas – esses exemplos, que a nomenclatura do Ministério teve de aceitar que surgissem e procura sabotar, a funcionarem sem o reconhecimento, os meios humanos e as condições mínimas, provam a razão dos que durante todos estes anos combateram pela oferta de uma via de ensino técnico profissional no sistema educativo: a sério, qualificada, exigente e dignificada.
Impõe-se, pois, a pergunta, para muitos retórica: a Senhora Ministra está com ou contra o eduquês? Quer continuar a nivelar por baixo? Partilha o igualitarismo, anti-cultura, anti-conhecimento, loucura de tornar todos iguais? Ou, pelo contrário, quer uma escola de liberdade que revele e valorize as capacidades, interesses e vocação de todos, até ao limite do possível? Uma escola que reduza as desigualdades, ou esta escola de mentira, de ignorância e de exclusão que as agrava? Anti-escola que tornou Portugal no país mais desigual da União, com excepção da Polónia.
Tem um projecto para fazer sair o ensino público das trevas?
«Público» de 14 Jun 10
domingo, 13 de junho de 2010
«Dito & Feito»
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Por José António Lima
A COMISSÃO EUROPEIA informou, agora, estar «preocupada porque Portugal não cumpriu as suas obrigações ao não abrir à concorrência os contratos para o fornecimento de computadores portáteis a estudantes e professores» do programa e-Escolas e dá dois meses ao Governo português para «responder de forma satisfatória», sob pena de «levar o caso ao Tribunal de Justiça» europeu. No que diz respeito ao afamado minicomputador Magalhães, do programa e-escolinhas, Bruxelas suspendeu o procedimento sancionatório depois de o Executivo de Sócrates dar garantias de ter passado a sujeitar a concurso público o seu fornecimento.
E qual foi a extraordinária reacção do secretário de Estado das Comunicações perante tal admoestação? «As dúvidas terminaram!», exclamou um sorridente Paulo Campos. Que teve, ainda, o topete de acrescentar: «Quero congratular-me com a decisão da Comissão Europeia de arquivar o procedimento» relativo ao Magalhães». Ou seja, o Governo reage como um delinquente que, após ser julgado por uma falcatrua, sai do tribunal a exultar com o facto de ter sido condenado com pena suspensa. «Como vêem, não fui preso, o processo está arquivado e as dúvidas terminaram!», diria o risonho trapaceiro.
Acrescente-se que a comissão de inquérito parlamentar à distribuição dos computadores Magalhães acaba de concluir que o Governo violou as regras «de confidencialidade, de transparência e de sã concorrência» ao entregar, sem concurso público, à empresa JP Sá Couto a produção e distribuição de mais de 400 mil computadores Magalhães. O que diz a isto o impenitente secretário de Estado Paulo Campos? Que «é uma atitude mesquinha» da Oposição, que apenas quer fazer «combate político a um programa de sucesso do Governo».
A propensão deste Governo para o clientelismo partidário e o amiguismo empresarial é capaz de perverter e estragar até boas ideias, como foi a distribuição dos Magalhães aos alunos do Ensino básico.
E a tendência para negar a realidade e tentar desmentir os factos mais evidentes e incontroversos tornou-se um hábito incorrigível deste Governo já fora de prazo. O extraordinário Paulo Campos não se cansa de o demonstrar. Um verdadeiro malabarista.
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«SOL» de 11 Jun 10
A COMISSÃO EUROPEIA informou, agora, estar «preocupada porque Portugal não cumpriu as suas obrigações ao não abrir à concorrência os contratos para o fornecimento de computadores portáteis a estudantes e professores» do programa e-Escolas e dá dois meses ao Governo português para «responder de forma satisfatória», sob pena de «levar o caso ao Tribunal de Justiça» europeu. No que diz respeito ao afamado minicomputador Magalhães, do programa e-escolinhas, Bruxelas suspendeu o procedimento sancionatório depois de o Executivo de Sócrates dar garantias de ter passado a sujeitar a concurso público o seu fornecimento.
E qual foi a extraordinária reacção do secretário de Estado das Comunicações perante tal admoestação? «As dúvidas terminaram!», exclamou um sorridente Paulo Campos. Que teve, ainda, o topete de acrescentar: «Quero congratular-me com a decisão da Comissão Europeia de arquivar o procedimento» relativo ao Magalhães». Ou seja, o Governo reage como um delinquente que, após ser julgado por uma falcatrua, sai do tribunal a exultar com o facto de ter sido condenado com pena suspensa. «Como vêem, não fui preso, o processo está arquivado e as dúvidas terminaram!», diria o risonho trapaceiro.
Acrescente-se que a comissão de inquérito parlamentar à distribuição dos computadores Magalhães acaba de concluir que o Governo violou as regras «de confidencialidade, de transparência e de sã concorrência» ao entregar, sem concurso público, à empresa JP Sá Couto a produção e distribuição de mais de 400 mil computadores Magalhães. O que diz a isto o impenitente secretário de Estado Paulo Campos? Que «é uma atitude mesquinha» da Oposição, que apenas quer fazer «combate político a um programa de sucesso do Governo».
A propensão deste Governo para o clientelismo partidário e o amiguismo empresarial é capaz de perverter e estragar até boas ideias, como foi a distribuição dos Magalhães aos alunos do Ensino básico.
E a tendência para negar a realidade e tentar desmentir os factos mais evidentes e incontroversos tornou-se um hábito incorrigível deste Governo já fora de prazo. O extraordinário Paulo Campos não se cansa de o demonstrar. Um verdadeiro malabarista.
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«SOL» de 11 Jun 10
Curtas-Letragens - GTB
Por Miguel Viqueira
DAS COISAS QUE FAÇO com prazer é falar dele, Gonzalo Torrente Ballester, o romancista que há exactamente cem anos, nesta manhã de Santo António, nascia no vale de Serantes, a dois passos do Ferrol (Galiza), e de quem tive a sorte de ser muito amigo. E o privilégio de aprender quanto sei de algumas coisas importantes para mim.
Diz-se que os artistas não têm biografia, têm obra. E que é melhor que assim seja porque as vidinhas deles soem ser um desastre humano de proporções insuspeitas, muito em particular as dos escritores. Neste caso está longe de ser verdade: a biografia de GTB faz jus à magnitude da sua obra, não pela quantidade nem a importância dos feitos mas pela qualidade humana com que se conduziu neste mundo, comportamento que fez dele talvez o último dos cavalheiros que eu conheci, uma pessoa cabal, um ser humano completo, inteligente e divertido, de rara compaixão, um exemplo humilde de rectidão moral e de bondade não contaminada.
Acendeu-se naquela manhã atlântica a luz de um escritor que atravessaria o século, que resistiria todas as suas tragédias e acabaria por nos deixar um legado de extraordinária importância sob a forma de uma obra literária que não tem par na Espanha contemporânea e cujo alcance nos sobreviverá a todos longamente. Admirador de Portugal, país que julgava o seu mais afim, não escondia o gosto pela literatura portuguesa: Eça e a geração de 70 eram a sua devoção; Pessoa o seu poeta e Torga o seu descobrimento tardio: três marcos de um muito mais vasto conhecimento lusitano com o qual se identificava, como sujeito atlântico que sempre fez questão de se reconhecer.
Ficou apenas uma coisa por fazer, que lamentarei sempre: passar uns dias de verão em Sintra (“É inevitável imaginar, por trás das janelas esconsas, vidas extraordinárias, sucessos suculentos, sem que isto seja exagerar, pois toda a vida humana, se se conhecesse na sua substância e não apenas na aparência, contada, seria extraordinária e única: contada com graça, entenda-se. Mas isto não o sabem alguns escritores”), ir de charrete à vila nas manhãs de neblina, mantinha escocesa sobre as pernas e um ar de romântico inglês em férias...
A luz de GTB iluminou as vidas de quantos o conheceram. A minha alterou-a completamente: fiquei seu eterno devedor e não passa dia que o não lembre. Restam-me as memórias e os seus livros, muitos dos quais se podem encontrar bem traduzidos em português. Ninguém o deixou escrito melhor do que ele próprio: “Quando morre um escritor, o melhor que se pode fazer é procurar nos seus livros o testemunho da sua relação com a realidade, e que o leitor o faça seu como puder e enquanto puder. Que não desespere na busca: por trás da obscuridade aparece sempre alguma coisa”.
DAS COISAS QUE FAÇO com prazer é falar dele, Gonzalo Torrente Ballester, o romancista que há exactamente cem anos, nesta manhã de Santo António, nascia no vale de Serantes, a dois passos do Ferrol (Galiza), e de quem tive a sorte de ser muito amigo. E o privilégio de aprender quanto sei de algumas coisas importantes para mim.
Diz-se que os artistas não têm biografia, têm obra. E que é melhor que assim seja porque as vidinhas deles soem ser um desastre humano de proporções insuspeitas, muito em particular as dos escritores. Neste caso está longe de ser verdade: a biografia de GTB faz jus à magnitude da sua obra, não pela quantidade nem a importância dos feitos mas pela qualidade humana com que se conduziu neste mundo, comportamento que fez dele talvez o último dos cavalheiros que eu conheci, uma pessoa cabal, um ser humano completo, inteligente e divertido, de rara compaixão, um exemplo humilde de rectidão moral e de bondade não contaminada.
Acendeu-se naquela manhã atlântica a luz de um escritor que atravessaria o século, que resistiria todas as suas tragédias e acabaria por nos deixar um legado de extraordinária importância sob a forma de uma obra literária que não tem par na Espanha contemporânea e cujo alcance nos sobreviverá a todos longamente. Admirador de Portugal, país que julgava o seu mais afim, não escondia o gosto pela literatura portuguesa: Eça e a geração de 70 eram a sua devoção; Pessoa o seu poeta e Torga o seu descobrimento tardio: três marcos de um muito mais vasto conhecimento lusitano com o qual se identificava, como sujeito atlântico que sempre fez questão de se reconhecer.
Ficou apenas uma coisa por fazer, que lamentarei sempre: passar uns dias de verão em Sintra (“É inevitável imaginar, por trás das janelas esconsas, vidas extraordinárias, sucessos suculentos, sem que isto seja exagerar, pois toda a vida humana, se se conhecesse na sua substância e não apenas na aparência, contada, seria extraordinária e única: contada com graça, entenda-se. Mas isto não o sabem alguns escritores”), ir de charrete à vila nas manhãs de neblina, mantinha escocesa sobre as pernas e um ar de romântico inglês em férias...
A luz de GTB iluminou as vidas de quantos o conheceram. A minha alterou-a completamente: fiquei seu eterno devedor e não passa dia que o não lembre. Restam-me as memórias e os seus livros, muitos dos quais se podem encontrar bem traduzidos em português. Ninguém o deixou escrito melhor do que ele próprio: “Quando morre um escritor, o melhor que se pode fazer é procurar nos seus livros o testemunho da sua relação com a realidade, e que o leitor o faça seu como puder e enquanto puder. Que não desespere na busca: por trás da obscuridade aparece sempre alguma coisa”.
sábado, 12 de junho de 2010
As vouvuselas e a crise
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Amigos ou similares, classificaram-me como espécime em vias de extinção, ao saberem do meu desconhecimento. Outros, aliás bastantes, suspeitaram e disseram-no que se tratava de mais uma das minhas habituais facécias. Que já sabiam o que a casa gastava e que eu estava mas era a mangar com o pessoal.
Porém, por uma destas noites mais caldas, estava tranquilamente a atirar-me ao teclado, quando me entrou pelo escritório que me dou ao luxo de ter em casa, um som tonitruante e simultaneamente pungente. Teria fugido o elefante do sininho do Zoológico? Parecia-me um lamento de proboscídeo capturado, prestes a regressar ao seu fosso nas Laranjeiras.
Fui à varanda e os decibéis continuavam em registo lancinante; mas de animal trombudo nenhum vestígio. No prédio há um, o vizinho do terceiro andar, exactamente por cima do meu, que quando o encontro no elevador ou na garagem vem sempre de trombas como se fora um trabalhador da Função Pública a trabalhar ao domingo. Sem horas extraordinárias.
Face à situação e aos desacordes que não cessavam, vim para dentro e perguntei à caríssima metade o que seria aquele tsunami sonoro. Ela olhou-me como se estivesse perante o ET do Spielberg. São umas duas ou três vouvuzelas. São quê? Duas ou três, quiçá mesmo quatro vouvuzelas. Disseste que não sabias o que eram; agora já sabes.
Calei-me para não agravar a questão. Mas, depois, aquando da transmissão televisiva de um jogo treino da selecção nacional, descobri o que eram esses instrumentos demoníacos, misto de trombeta e cana rachada que produziam um alarido sonoro de tal ordem que quase me levou a não assistir ao jogo com Cabo Verde. De resto, melhor seria que me tivesse retirado, tal a pobreza da prestação do Cristiano Ronaldo & ajudantes. Sem esquecer o Queirós, o Carlos, que não o Eça.
Originárias da África do Sul e vendidas por requisição nos postos da Galp, originando bichas, perdão, agora diz-se filas - por mor de más interpretações e piores intenções – de extensão impensável. Custam um euro esses objectos de tortura auditiva e tudo indica que seja um óptimo negócio. Pelo menos, foi esse o comentário do Marques, que se dedica à prestimosa tarefa de atestar o depósito do meu Hyundai com gasosa de 95 octanas.
Começou em Joanesburgo o Mundial e o tormento para os tímpanos e para os restantes componentes dos ouvidos, incluindo os estribos. Valha-nos, porém, uma coisa: a partir de ontem não há crise. Que resista às vouvuzelas. Portugal acalmou e até o nosso primeiro dorme mais descansado. Se não tiver uma qualquer vouvuzela por baixo da sua varanda.
Por Antunes Ferreira
NÃO SABIA O QUE ERA uma vouvuzela. Santa ingenuidade e candura q.b. Quando ouvi pela primeira vez o termo, palavra que pensei que era qualquer coisa comestível, que tivesse aparecido a enriquecer um qualquer menu. A minha mulher reprovou-me com alguma acrimónia - que eu só pensava em comida. Não lhe respondi. Tal como no famoso debate televisivo, pensei para mim mesmo que não respondo a provocações.
NÃO SABIA O QUE ERA uma vouvuzela. Santa ingenuidade e candura q.b. Quando ouvi pela primeira vez o termo, palavra que pensei que era qualquer coisa comestível, que tivesse aparecido a enriquecer um qualquer menu. A minha mulher reprovou-me com alguma acrimónia - que eu só pensava em comida. Não lhe respondi. Tal como no famoso debate televisivo, pensei para mim mesmo que não respondo a provocações.
Amigos ou similares, classificaram-me como espécime em vias de extinção, ao saberem do meu desconhecimento. Outros, aliás bastantes, suspeitaram e disseram-no que se tratava de mais uma das minhas habituais facécias. Que já sabiam o que a casa gastava e que eu estava mas era a mangar com o pessoal.
Porém, por uma destas noites mais caldas, estava tranquilamente a atirar-me ao teclado, quando me entrou pelo escritório que me dou ao luxo de ter em casa, um som tonitruante e simultaneamente pungente. Teria fugido o elefante do sininho do Zoológico? Parecia-me um lamento de proboscídeo capturado, prestes a regressar ao seu fosso nas Laranjeiras.
Fui à varanda e os decibéis continuavam em registo lancinante; mas de animal trombudo nenhum vestígio. No prédio há um, o vizinho do terceiro andar, exactamente por cima do meu, que quando o encontro no elevador ou na garagem vem sempre de trombas como se fora um trabalhador da Função Pública a trabalhar ao domingo. Sem horas extraordinárias.
Face à situação e aos desacordes que não cessavam, vim para dentro e perguntei à caríssima metade o que seria aquele tsunami sonoro. Ela olhou-me como se estivesse perante o ET do Spielberg. São umas duas ou três vouvuzelas. São quê? Duas ou três, quiçá mesmo quatro vouvuzelas. Disseste que não sabias o que eram; agora já sabes.
Calei-me para não agravar a questão. Mas, depois, aquando da transmissão televisiva de um jogo treino da selecção nacional, descobri o que eram esses instrumentos demoníacos, misto de trombeta e cana rachada que produziam um alarido sonoro de tal ordem que quase me levou a não assistir ao jogo com Cabo Verde. De resto, melhor seria que me tivesse retirado, tal a pobreza da prestação do Cristiano Ronaldo & ajudantes. Sem esquecer o Queirós, o Carlos, que não o Eça.
Originárias da África do Sul e vendidas por requisição nos postos da Galp, originando bichas, perdão, agora diz-se filas - por mor de más interpretações e piores intenções – de extensão impensável. Custam um euro esses objectos de tortura auditiva e tudo indica que seja um óptimo negócio. Pelo menos, foi esse o comentário do Marques, que se dedica à prestimosa tarefa de atestar o depósito do meu Hyundai com gasosa de 95 octanas.
Começou em Joanesburgo o Mundial e o tormento para os tímpanos e para os restantes componentes dos ouvidos, incluindo os estribos. Valha-nos, porém, uma coisa: a partir de ontem não há crise. Que resista às vouvuzelas. Portugal acalmou e até o nosso primeiro dorme mais descansado. Se não tiver uma qualquer vouvuzela por baixo da sua varanda.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Remoques
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«DE» de 11 Jun 10
Por João Paulo Guerra
O CHEFE DE ESTADO produziu uma afirmação que fica bem a qualquer estadista e em qualquer discurso.
Disse que não é Bruxelas que decide a agenda de Lisboa. Acontece que pelo andamento da carruagem se vê que não é preciso Bruxelas decidir a agenda de Lisboa, uma vez que Lisboa decide segundo a agenda de Bruxelas.
Recapitulemos. O comissário europeu para os Assuntos Económicos, o liberal finlandês Olli Rehn, reincidiu nos seus remoques a Portugal e nos seus avisos aos portugueses em matéria de austeridade e direitos laborais. O comissário, escolhido pelo Dr. Durão Barroso, já tinha metido o bedelho no PEC, em Abril passado, reclamando a Portugal e aos portugueses "esforços adicionais" para reduzir o défice orçamental. E como ninguém em Portugal se mostrou melindrado, o finlandês reincidiu, dando agora um público puxão de orelhas ao governo de Lisboa pela alegada insuficiência das medidas de austeridade e a suposta brandura da legislação laboral portuguesa. Foi então que o chefe do Estado se fez ouvir para declarar que "nenhuma entidade exterior pode colocar matérias dessas na agenda portuguesa".
Muito bonito mas absolutamente inútil. Porque a pressão para endurecer a austeridade e agravar a legislação laboral em Portugal tem origem no próprio Governo português. Ou seja: o governo socialista de Portugal não precisa dos conselhos de nenhum liberal finlandês, nem mesmo de uma União Europeia dominada por uma direita fundamentalista, para meter a mão no bolso das classes média e média baixa portuguesas e reduzir mais os direitos laborais dos portugueses que ainda têm emprego.
O mundo está a mudar, sentenciou o primeiro-ministro. Mas a questão é que está a mudar para pior. E a crise veio mesmo a propósito e dá mesmo jeito.
.O CHEFE DE ESTADO produziu uma afirmação que fica bem a qualquer estadista e em qualquer discurso.
Disse que não é Bruxelas que decide a agenda de Lisboa. Acontece que pelo andamento da carruagem se vê que não é preciso Bruxelas decidir a agenda de Lisboa, uma vez que Lisboa decide segundo a agenda de Bruxelas.
Recapitulemos. O comissário europeu para os Assuntos Económicos, o liberal finlandês Olli Rehn, reincidiu nos seus remoques a Portugal e nos seus avisos aos portugueses em matéria de austeridade e direitos laborais. O comissário, escolhido pelo Dr. Durão Barroso, já tinha metido o bedelho no PEC, em Abril passado, reclamando a Portugal e aos portugueses "esforços adicionais" para reduzir o défice orçamental. E como ninguém em Portugal se mostrou melindrado, o finlandês reincidiu, dando agora um público puxão de orelhas ao governo de Lisboa pela alegada insuficiência das medidas de austeridade e a suposta brandura da legislação laboral portuguesa. Foi então que o chefe do Estado se fez ouvir para declarar que "nenhuma entidade exterior pode colocar matérias dessas na agenda portuguesa".
Muito bonito mas absolutamente inútil. Porque a pressão para endurecer a austeridade e agravar a legislação laboral em Portugal tem origem no próprio Governo português. Ou seja: o governo socialista de Portugal não precisa dos conselhos de nenhum liberal finlandês, nem mesmo de uma União Europeia dominada por uma direita fundamentalista, para meter a mão no bolso das classes média e média baixa portuguesas e reduzir mais os direitos laborais dos portugueses que ainda têm emprego.
O mundo está a mudar, sentenciou o primeiro-ministro. Mas a questão é que está a mudar para pior. E a crise veio mesmo a propósito e dá mesmo jeito.
«DE» de 11 Jun 10
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quinta-feira, 10 de junho de 2010
Resposta com esperança... [Ver NOTA]
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Por Guilherme Valente
COMO ACREDITO na inteligência, não consigo imaginar que alguém conscientemente se queira enganar a si próprio. Proponho, por isso, ao comentador que leia e considere, sem preconceitos, com espírito aberto, este meu texto.
1. O que incomodou no meu texto anterior (*) não foi a história pessoal a que recorri. O que incomodou foi aquilo que a história me ajudou a transmitir com clareza. Vou repetir: o eduquês quer tornar toda a gente igual, mesmo que para isso tenha de reduzir toda a gente à ignorância e à boçalidade.
O que terá doído foi a evidência que referi: a realização desse projecto horroroso e inatingível (por isso delirante) conduziu e conduz inevitavelmente ao nivelamento por baixo, ao facilitismo sempre crescente. Diminui todos os alunos, mas prejudica sobretudo os mais desfavorecidos, as crianças pobres, de famílias pouco instruídas, sem meios ou conhecimentos para procurarem outro ensino, no país ou no estrangeiro. O delírio igualitarista agrava as desigualdades.
Note-se que esse projecto, para poder ser realizado, como foi sendo realizado, não podia (nem pode) ser assumido. Se o fosse, depararia, naturalmente, com a oposição geral do Pais. Pelo contrário, tinha de ser disfarçado, no discurso e com os recuos tácticos convenientes, usando o apoio dos idiotas úteis, dos ingénuos e dos oportunistas, matéria-prima que, como se sabe, num país com o grau e a qualidade de instrução do nosso, não falta.
E foi por isso, e é por isso, por não poderem assumir tal projecto (que não teriam argumentos para justificar, acrescente-se), que nunca responderam à nossa crítica, fazendo passar a ideia de que não somos especialistas, de que não temos credibilidade para falar dos problemas de educação. Na verdade, como se sabe, embora seja muito esquecido e pouco praticado entre nós, o que vale é a qualidade dos argumentos não o estatuto ou a cara de quem os emite. E o que está em causa discutir, aliás, exige apenas inteligência, cultura geral e sensatez. De qualquer modo não trocaria o meu currículo, de formação académica e profissional, por mil currículos dos «especialistas» do Ministério.
(Note-se, de passagem, que para quem impõe o regime das «competências», para quem desvaloriza a cultura letrada, para quem quer acabar com as elites, para quem quis impor a participação de miúdos de dez anos na direcção das escolas, e dos alunos do secundário na elaboração do programa dos cursos e na definição de modelos de avaliação, a contradição é gritante. Na verdade, o que querem, afinal, é uma sociedade igualitária em que sejam eles os únicos… desiguais. Também não é novo na História. )
Por outro lado, o facto de hoje, num país da União Europeia, depois da experiência do PREC, tal projecto ser inimaginável, fez com que o eduquês contasse com a distracção ou a indiferença de quase todos nós.
Mas se não podia ser assumido «oficialmente» pela nomenclatura do Ministério, a verdade é que os teóricos mais puros e duros do eduquês não resistiram a irem revelando nos seus escritos, mais ou menos explicitamente, esse projecto impensável (ver a antologia organizada por Nuno Crato, O Eduquês em Discurso Directo, Gradiva).
E, assim, o projecto pode ser realizado com uma continuidade que nunca qualquer outro programa político teve depois do 25 de Abril, sobrevivendo a todas as mudanças de governo, aos vários ministros da educação, à tragédia gritante, sempre a agravar-se, dos resultados e do abandono escolares, do ambiente insuportável em muitas escolas, à frustração e à desistência de inúmeros professores, à evidência crescente dos seus efeitos devastadores na realidade económica e social do Pais.
2. Repetido o que quis afirmar no meu texto, pergunto ao Senhor Eduquês que o comentou (trato-o assim por não saber o seu nome): é verdadeiro o que afirmo ou é falso? Se é falso explique então, a todos nós, claramente, qual é o projecto do eduquês do Ministério. E diga-nos de que outro modo poderemos interpretar os escritos dos representantes puros e duros do eduquês coligidos no livro de Nuno Crato.
Aliás, como muito pertinentemente foi referido noutro comentário, quem tem de responder a estas questões é a senhora Ministra da Educação. Tem de dizer claramente ao País de que lado está, o que pensa do eduquês e como vai agir relativamente ao seu domínio total do sistema educativo. Dizer muito claramente, qual é, afinal, o seu projecto, que intenções tem.
3. Um mundo de clones é o mundo em que o eduquês gostaria de nos pôr a viver. Com essa nomenclatura iluminada a mandar em nós, claro. Como aconteceu sempre nas tragédias históricas em que a experiência foi tentada.
Mas é, felizmente, um mundo impossível. Felizmente, porque para mim não é um mundo desejável. Não quero ser igual a ninguém. «Não sei por onde vou, não sei para onde vou, mas sei que não vou por aí» são versos de José Régio.
4. Dito isto, vou tentar mostrar (permita-se-me a especulação um pouco naive a que vou recorrer) que o projecto igualitarista é irrealizável. Mas, antes disso, quero lembrar que mesmo quando se apresentou como um projecto generoso acabou sempre, historicamente, quando as circunstâncias o permitiram e não foi travado a tempo, na crueldade mais odiosa. Não podia ser de outro modo, como facilmente se compreende. Um dos exemplos mais recentes é o do Cambodja de Pol Pot: começou na escola e terminou nos campos de extermínio. Não é ficção aquilo de que falo.
Assim:
a) A primeira condição para realizar a igualdade de todos os seres humanos teria de ser a «construção» de pessoas (pessoas?) geneticamente iguais. O que é uma impossibilidade absoluta. Repare-se, no entanto, que foi esse o projecto do nazismo. Eliminar todos os que não pertencessem a uma suposta raça ariana. Começou pelos judeus e, por meio da esterilização, pelos ciganos e deficientes. E começou sem que quase ninguém imaginasse que poderia tomar conta da Alemanha, sem que fossem levadas a sério as suas primeiras manifestações. Lembram-se do filme Cabaret?
b) Mas mesmo que essa impossibilidade fosse realizada, seria necessário muito mais, designadamente: impor a toda a gente a mesma alimentação, obrigar toda a gente a viver no mesmo sítio, a ter os mesmos mesmos vizinhos, os mesmos encontros e desencontros, o mesmo número de irmãos, a mesma longevidade de toda a família (eu perdi o meu pai aos oito anos e sei como isso marcou o meu destino), os mesmos amigos, as mesmas viagens, a mesma namorada, os mesmos livros, os mesmos filmes (é por isso que os regimes totalitários impõem a censura e queimam os livros), o mesmo Benfica, a tropeçar as mesmas vezes, a ter ou a não ter os mesmos acidentes, etc., etc., etc. Percebe-se certamente o que caricaturalmente estou a tentar explicar.
Leonardo da Vinci teve onze irmãos. Sabe-se o nome de algum deles? Se conseguíssemos fabricar um Einstein geneticamente igual ao original, não conseguiríamos com isso outro Einstein como o que existiu. Percebe-se porquê, não preciso de pormenorizar mais.
Uma loucura, um delírio, portanto. Mas sabemos que foi tentado. E sabe-se a dimensão de sofrimento que causaram as experiências de concretização dessa loucura. E lembramo-nos dos nomes dos «demiurgos» que as impuseram.
À esquerda ou a à direita - o totalitarismo não é de esquerda nem de direita – a explicação remete sempre para a avidez de poder, o ressentimento, a insegurança pessoal (enfim, não quero, nem seria a pessoa indicada para avançar as explicações do totalitarismo, do delírio ou da simples insensatez), rapidamente transformados em cegueira fanática, inevitável escalada de imparável violência, imposta, porventura, pela lógica de ocultação e justificação. Como é possível que alguém ainda se iluda e isso se possa repetir, se esboce, ou simplesmente se deseje? (Valerá a pena ler, a propósito, o pequeno, mas muito interessante, livro de ensaios de Umberto Eco, Cinco Escritos Morais, Difel.)
O problema e o desafio não é tornar todos iguais. O problema e o desafio é o das condições da liberdade para todos.
A liberdade não pode existir na imposição de um padrão, numa realidade em que «a obediência a um padrão é a única forma considerada verdadeira de auto-afirmação, onde aquilo a que se dá o nome de liberdade não é a possibilidade de agirmos no interior de um qualquer vazio, por reduzido que seja, reservado à nossa escolha pessoal, sem interferências dos outros». A essência da "liberdade livre" (a expressão feliz é de outro poeta, António Ramos Rosa) está na possibilidade de escolhermos o que queremos ser, porque o desejamos, sem coerção, sem opressão, não absorvidos num grande sistema… inexoravelmente totalitário.
O sonho da harmonia universal não será realizável, mas a redução das desigualdades sociais deve ser um objectivo sempre presente, que só pode ser realizado pela educação, oferecida a todos, apoiando mais os mais desfavorecidos, os que tenham maior dificuldade em progredir, uma educação dirigida ao que é distintivo da nossa humanidade: à inteligência, que só pode gerar solidariedade; realizado pela afirmação e a defesa intransigente dos direitos e dos grandes valores humanos; pelo aprofundamento da democracia.
Claro que o caminho da liberdade e do progresso não é, como bem sabemos, um caminho sem escolhos. É um caminho de combate, foi para muita gente, um caminho de grandes sofrimentos, de avanços e de recuos, mas chegámos aonde chegámos.
Como disse Churchill e vem a propósito lembrar, não se encontrou até hoje melhor solução, apesar das limitações e dos obstáculos que revoltam e é preciso enfrentar e superar. De qualquer modo, o que haverá mais para fazer na vida se não caminhar…
Educação, insisto, centrada no que se dirija ao córtice cerebral, o «lugar» onde a matéria se converte em consciência, o reino da intuição e da análise crítica, onde surgem as ideias e a inspiração, a matemática e a música. O córtice que controla a nossa vida consciente. Que distingue a nossa espécie. Cerne da nossa humanidade. Que produziu a civilização. Um ensino centrado no conhecimento, na exigência intelectual e na responsabilidade humana, nas suas várias dimensões.
Percebe-se, assim, também, porque são um logro, e humana e socialmente um crime, as «novas» teorias pedagógicas.
Sabemos que esta ambição humaníssima tem de ser um combate diário de cidadãos informados e, por isso, com consciência crítica. Construindo a confiança que é condição do progresso pessoal e social. Cidadãos que "aprendam a aprender" (outro slogan mentiroso do eduquês…) da única maneira que há para o conseguir: aprendendo, adquirindo os conhecimentos que contam e lhes permitem pensar criticamente a realidade, conhecimento que transforma, valoriza, a inteligência. Como explicou muito claramente Carl Sagan, parecendo estar a enfrentar o tal slogan absurdo, mas que ouço ser repetido por tanta boa gente que devia compreender o logro: «A informação a que temos acesso é o índice da nossa inteligência». Percebe-se, pois, porque é um crime a desvalorização do conhecimento e dos saberes, a atrofia da memória, estúpida ou perversamente programada, perpretada na escola.
É por isso que para mim só há um grande e fundador problema em Portugal: o do baixíssimo nível de instrução dos Portugueses. Resolvido esse, todos os outros se resolverão por acréscimo. É esta a grande dívida pública, monstruosa, endémica, de Portugal. Que em cada dia se está a agravar (ao contrário do que me dizem ter dito no dia 26, na televisão, surpreendentemente para mim, o Professor Marçal Grilo). É este o grande défice cívico de todos nós.
E pronto, vou para férias. Felicidades para todos, mesmo para todos.
-
NOTA: O título completo deste 'post', tal como foi afixado no De Rerum Natura, é: «Resposta com esperança a quem comentou a minha história em vez de enfrentar com argumentos o que eu disse sobre eduquês». Trata-se de uma resposta de G.V. a um leitor que, nesse blogue, discordou do texto anterior, que também foi afixado no Sorumbático e se pode ler [aqui] e [aqui].
COMO ACREDITO na inteligência, não consigo imaginar que alguém conscientemente se queira enganar a si próprio. Proponho, por isso, ao comentador que leia e considere, sem preconceitos, com espírito aberto, este meu texto.
1. O que incomodou no meu texto anterior (*) não foi a história pessoal a que recorri. O que incomodou foi aquilo que a história me ajudou a transmitir com clareza. Vou repetir: o eduquês quer tornar toda a gente igual, mesmo que para isso tenha de reduzir toda a gente à ignorância e à boçalidade.
O que terá doído foi a evidência que referi: a realização desse projecto horroroso e inatingível (por isso delirante) conduziu e conduz inevitavelmente ao nivelamento por baixo, ao facilitismo sempre crescente. Diminui todos os alunos, mas prejudica sobretudo os mais desfavorecidos, as crianças pobres, de famílias pouco instruídas, sem meios ou conhecimentos para procurarem outro ensino, no país ou no estrangeiro. O delírio igualitarista agrava as desigualdades.
Note-se que esse projecto, para poder ser realizado, como foi sendo realizado, não podia (nem pode) ser assumido. Se o fosse, depararia, naturalmente, com a oposição geral do Pais. Pelo contrário, tinha de ser disfarçado, no discurso e com os recuos tácticos convenientes, usando o apoio dos idiotas úteis, dos ingénuos e dos oportunistas, matéria-prima que, como se sabe, num país com o grau e a qualidade de instrução do nosso, não falta.
E foi por isso, e é por isso, por não poderem assumir tal projecto (que não teriam argumentos para justificar, acrescente-se), que nunca responderam à nossa crítica, fazendo passar a ideia de que não somos especialistas, de que não temos credibilidade para falar dos problemas de educação. Na verdade, como se sabe, embora seja muito esquecido e pouco praticado entre nós, o que vale é a qualidade dos argumentos não o estatuto ou a cara de quem os emite. E o que está em causa discutir, aliás, exige apenas inteligência, cultura geral e sensatez. De qualquer modo não trocaria o meu currículo, de formação académica e profissional, por mil currículos dos «especialistas» do Ministério.
(Note-se, de passagem, que para quem impõe o regime das «competências», para quem desvaloriza a cultura letrada, para quem quer acabar com as elites, para quem quis impor a participação de miúdos de dez anos na direcção das escolas, e dos alunos do secundário na elaboração do programa dos cursos e na definição de modelos de avaliação, a contradição é gritante. Na verdade, o que querem, afinal, é uma sociedade igualitária em que sejam eles os únicos… desiguais. Também não é novo na História. )
Por outro lado, o facto de hoje, num país da União Europeia, depois da experiência do PREC, tal projecto ser inimaginável, fez com que o eduquês contasse com a distracção ou a indiferença de quase todos nós.
Mas se não podia ser assumido «oficialmente» pela nomenclatura do Ministério, a verdade é que os teóricos mais puros e duros do eduquês não resistiram a irem revelando nos seus escritos, mais ou menos explicitamente, esse projecto impensável (ver a antologia organizada por Nuno Crato, O Eduquês em Discurso Directo, Gradiva).
E, assim, o projecto pode ser realizado com uma continuidade que nunca qualquer outro programa político teve depois do 25 de Abril, sobrevivendo a todas as mudanças de governo, aos vários ministros da educação, à tragédia gritante, sempre a agravar-se, dos resultados e do abandono escolares, do ambiente insuportável em muitas escolas, à frustração e à desistência de inúmeros professores, à evidência crescente dos seus efeitos devastadores na realidade económica e social do Pais.
2. Repetido o que quis afirmar no meu texto, pergunto ao Senhor Eduquês que o comentou (trato-o assim por não saber o seu nome): é verdadeiro o que afirmo ou é falso? Se é falso explique então, a todos nós, claramente, qual é o projecto do eduquês do Ministério. E diga-nos de que outro modo poderemos interpretar os escritos dos representantes puros e duros do eduquês coligidos no livro de Nuno Crato.
Aliás, como muito pertinentemente foi referido noutro comentário, quem tem de responder a estas questões é a senhora Ministra da Educação. Tem de dizer claramente ao País de que lado está, o que pensa do eduquês e como vai agir relativamente ao seu domínio total do sistema educativo. Dizer muito claramente, qual é, afinal, o seu projecto, que intenções tem.
3. Um mundo de clones é o mundo em que o eduquês gostaria de nos pôr a viver. Com essa nomenclatura iluminada a mandar em nós, claro. Como aconteceu sempre nas tragédias históricas em que a experiência foi tentada.
Mas é, felizmente, um mundo impossível. Felizmente, porque para mim não é um mundo desejável. Não quero ser igual a ninguém. «Não sei por onde vou, não sei para onde vou, mas sei que não vou por aí» são versos de José Régio.
4. Dito isto, vou tentar mostrar (permita-se-me a especulação um pouco naive a que vou recorrer) que o projecto igualitarista é irrealizável. Mas, antes disso, quero lembrar que mesmo quando se apresentou como um projecto generoso acabou sempre, historicamente, quando as circunstâncias o permitiram e não foi travado a tempo, na crueldade mais odiosa. Não podia ser de outro modo, como facilmente se compreende. Um dos exemplos mais recentes é o do Cambodja de Pol Pot: começou na escola e terminou nos campos de extermínio. Não é ficção aquilo de que falo.
Assim:
a) A primeira condição para realizar a igualdade de todos os seres humanos teria de ser a «construção» de pessoas (pessoas?) geneticamente iguais. O que é uma impossibilidade absoluta. Repare-se, no entanto, que foi esse o projecto do nazismo. Eliminar todos os que não pertencessem a uma suposta raça ariana. Começou pelos judeus e, por meio da esterilização, pelos ciganos e deficientes. E começou sem que quase ninguém imaginasse que poderia tomar conta da Alemanha, sem que fossem levadas a sério as suas primeiras manifestações. Lembram-se do filme Cabaret?
b) Mas mesmo que essa impossibilidade fosse realizada, seria necessário muito mais, designadamente: impor a toda a gente a mesma alimentação, obrigar toda a gente a viver no mesmo sítio, a ter os mesmos mesmos vizinhos, os mesmos encontros e desencontros, o mesmo número de irmãos, a mesma longevidade de toda a família (eu perdi o meu pai aos oito anos e sei como isso marcou o meu destino), os mesmos amigos, as mesmas viagens, a mesma namorada, os mesmos livros, os mesmos filmes (é por isso que os regimes totalitários impõem a censura e queimam os livros), o mesmo Benfica, a tropeçar as mesmas vezes, a ter ou a não ter os mesmos acidentes, etc., etc., etc. Percebe-se certamente o que caricaturalmente estou a tentar explicar.
Leonardo da Vinci teve onze irmãos. Sabe-se o nome de algum deles? Se conseguíssemos fabricar um Einstein geneticamente igual ao original, não conseguiríamos com isso outro Einstein como o que existiu. Percebe-se porquê, não preciso de pormenorizar mais.
Uma loucura, um delírio, portanto. Mas sabemos que foi tentado. E sabe-se a dimensão de sofrimento que causaram as experiências de concretização dessa loucura. E lembramo-nos dos nomes dos «demiurgos» que as impuseram.
À esquerda ou a à direita - o totalitarismo não é de esquerda nem de direita – a explicação remete sempre para a avidez de poder, o ressentimento, a insegurança pessoal (enfim, não quero, nem seria a pessoa indicada para avançar as explicações do totalitarismo, do delírio ou da simples insensatez), rapidamente transformados em cegueira fanática, inevitável escalada de imparável violência, imposta, porventura, pela lógica de ocultação e justificação. Como é possível que alguém ainda se iluda e isso se possa repetir, se esboce, ou simplesmente se deseje? (Valerá a pena ler, a propósito, o pequeno, mas muito interessante, livro de ensaios de Umberto Eco, Cinco Escritos Morais, Difel.)
O problema e o desafio não é tornar todos iguais. O problema e o desafio é o das condições da liberdade para todos.
A liberdade não pode existir na imposição de um padrão, numa realidade em que «a obediência a um padrão é a única forma considerada verdadeira de auto-afirmação, onde aquilo a que se dá o nome de liberdade não é a possibilidade de agirmos no interior de um qualquer vazio, por reduzido que seja, reservado à nossa escolha pessoal, sem interferências dos outros». A essência da "liberdade livre" (a expressão feliz é de outro poeta, António Ramos Rosa) está na possibilidade de escolhermos o que queremos ser, porque o desejamos, sem coerção, sem opressão, não absorvidos num grande sistema… inexoravelmente totalitário.
O sonho da harmonia universal não será realizável, mas a redução das desigualdades sociais deve ser um objectivo sempre presente, que só pode ser realizado pela educação, oferecida a todos, apoiando mais os mais desfavorecidos, os que tenham maior dificuldade em progredir, uma educação dirigida ao que é distintivo da nossa humanidade: à inteligência, que só pode gerar solidariedade; realizado pela afirmação e a defesa intransigente dos direitos e dos grandes valores humanos; pelo aprofundamento da democracia.
Claro que o caminho da liberdade e do progresso não é, como bem sabemos, um caminho sem escolhos. É um caminho de combate, foi para muita gente, um caminho de grandes sofrimentos, de avanços e de recuos, mas chegámos aonde chegámos.
Como disse Churchill e vem a propósito lembrar, não se encontrou até hoje melhor solução, apesar das limitações e dos obstáculos que revoltam e é preciso enfrentar e superar. De qualquer modo, o que haverá mais para fazer na vida se não caminhar…
Educação, insisto, centrada no que se dirija ao córtice cerebral, o «lugar» onde a matéria se converte em consciência, o reino da intuição e da análise crítica, onde surgem as ideias e a inspiração, a matemática e a música. O córtice que controla a nossa vida consciente. Que distingue a nossa espécie. Cerne da nossa humanidade. Que produziu a civilização. Um ensino centrado no conhecimento, na exigência intelectual e na responsabilidade humana, nas suas várias dimensões.
Percebe-se, assim, também, porque são um logro, e humana e socialmente um crime, as «novas» teorias pedagógicas.
Sabemos que esta ambição humaníssima tem de ser um combate diário de cidadãos informados e, por isso, com consciência crítica. Construindo a confiança que é condição do progresso pessoal e social. Cidadãos que "aprendam a aprender" (outro slogan mentiroso do eduquês…) da única maneira que há para o conseguir: aprendendo, adquirindo os conhecimentos que contam e lhes permitem pensar criticamente a realidade, conhecimento que transforma, valoriza, a inteligência. Como explicou muito claramente Carl Sagan, parecendo estar a enfrentar o tal slogan absurdo, mas que ouço ser repetido por tanta boa gente que devia compreender o logro: «A informação a que temos acesso é o índice da nossa inteligência». Percebe-se, pois, porque é um crime a desvalorização do conhecimento e dos saberes, a atrofia da memória, estúpida ou perversamente programada, perpretada na escola.
É por isso que para mim só há um grande e fundador problema em Portugal: o do baixíssimo nível de instrução dos Portugueses. Resolvido esse, todos os outros se resolverão por acréscimo. É esta a grande dívida pública, monstruosa, endémica, de Portugal. Que em cada dia se está a agravar (ao contrário do que me dizem ter dito no dia 26, na televisão, surpreendentemente para mim, o Professor Marçal Grilo). É este o grande défice cívico de todos nós.
E pronto, vou para férias. Felicidades para todos, mesmo para todos.
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NOTA: O título completo deste 'post', tal como foi afixado no De Rerum Natura, é: «Resposta com esperança a quem comentou a minha história em vez de enfrentar com argumentos o que eu disse sobre eduquês». Trata-se de uma resposta de G.V. a um leitor que, nesse blogue, discordou do texto anterior, que também foi afixado no Sorumbático e se pode ler [aqui] e [aqui].
quarta-feira, 9 de junho de 2010
A incapacidade de encontrar
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Por Ferreira Fernandes
A 1 DE MAIO, uma jovem de Lamego saiu de carro e sozinha para o restaurante em que trabalhava, na Régua. Não tendo chegado, colegas alertaram a família, esta, as autoridades e Portugal passou mais de um mês com o mistério de Carina Ferreira. Hipóteses, muitas: acidente, rapto, crime passional ou, tão-só, vontade de uma jovem partir. O caminho entre Lamego e a Régua foi "passado a pente fino", como escrevem os jornalistas, para quem as buscas são sempre a pente fino tal como um líder é sempre carismático. Fizeram-se buscas de helicóptero sobre o Douro e o Balsemão e houve mergulhadores nos rios. Entretanto, a PJ recitava livros de criminologia: "A alteração súbita das rotinas e não se ter mexido nas contas bancárias indiciam estar-se perante um crime." Fizeram-se triangulações dos dois telemóveis da jovem. Surgiram as redes sociais: na Internet, 20 mil pessoas em busca de Carina, no Facebook, 34 mil seguidores amigos. Na queima das fitas coimbrã, uma manifestação por Carina.
Agora, 38 dias depois, a jovem apareceu morta. Numa ravina, a 3 km de casa, na estrada que se presumia que ela tomou, no percurso de uma dúzia de quilómetros entre a casa e o trabalho. O mistério afinal é só um: como é que um Peugeot 106 vermelho passa por pente fino? Se calhar, a resposta é: o espectáculo tapa muito. Não fosse ele, numa zona de ravinas procurava-se nas ravinas.
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«DN» de 9 Jun 10
Por Ferreira Fernandes
A 1 DE MAIO, uma jovem de Lamego saiu de carro e sozinha para o restaurante em que trabalhava, na Régua. Não tendo chegado, colegas alertaram a família, esta, as autoridades e Portugal passou mais de um mês com o mistério de Carina Ferreira. Hipóteses, muitas: acidente, rapto, crime passional ou, tão-só, vontade de uma jovem partir. O caminho entre Lamego e a Régua foi "passado a pente fino", como escrevem os jornalistas, para quem as buscas são sempre a pente fino tal como um líder é sempre carismático. Fizeram-se buscas de helicóptero sobre o Douro e o Balsemão e houve mergulhadores nos rios. Entretanto, a PJ recitava livros de criminologia: "A alteração súbita das rotinas e não se ter mexido nas contas bancárias indiciam estar-se perante um crime." Fizeram-se triangulações dos dois telemóveis da jovem. Surgiram as redes sociais: na Internet, 20 mil pessoas em busca de Carina, no Facebook, 34 mil seguidores amigos. Na queima das fitas coimbrã, uma manifestação por Carina.
Agora, 38 dias depois, a jovem apareceu morta. Numa ravina, a 3 km de casa, na estrada que se presumia que ela tomou, no percurso de uma dúzia de quilómetros entre a casa e o trabalho. O mistério afinal é só um: como é que um Peugeot 106 vermelho passa por pente fino? Se calhar, a resposta é: o espectáculo tapa muito. Não fosse ele, numa zona de ravinas procurava-se nas ravinas.
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f.f
Quem nos livra desta gente?! - Solução

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O parque de estacionamento subterrâneo tem 500 lugares, em 5 pisos, dos quais o último até costuma estar fechado, por falta de clientes. A EMEL mantém estoutro, no passeio (a 1ª imagem mostra o parquímetro).
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Quando eu pergunto «Quem nos livra desta gente?!» estou a pensar nos 'cérebros' que inventam (e mantêm) situações como esta.
A violência encoberta
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«DN» de 9 Jun 10
Por Baptista-Bastos
VIVEMOS, HÁ SEMANAS, numa espécie de fervor que, simultaneamente, nos regozija e entorpece. Veio o Papa e enchemos os dias de graciosas solenidades. Andamos a pedir dinheiro emprestado, e a expressão sumptuariamente e devota que expusemos, importou em não se sabe quanto, certamente muitíssimo. Mantivemos o estilo, mas desentendemo-nos da realidade. Pobretes e alegretes. Sua Santidade abençoou-nos com transporte e unção. As televisões, muito pias, aborreceram-nos e fatigaram-nos tanto que nos deixaram depauperados. Horas e horas, dias e dias sem misericórdia nem compaixão. As narrativas dos locutores atingiram o grau máximo da repulsa. Um panegírico absurdo, acrítico, que produziu a tese exemplar de como se não deve fazer televisão.
O festim não parou. Foi a vitória do Benfica; foi a assinatura do contrato entre José Mourinho e o Real Madrid; foram as primícias do Mundial. Tudo minuciosamente filmado, em directo, pelos canais existentes, reconcentrados e vastos, impulsionados pelos magnos acontecimentos. Horas a fio, arbitrárias e agressivas pela imposição sem tréguas, assustadoras pelo que representavam de mau jornalismo, de desrespeito pelo povoléu, cujos gostos julgam lisonjear.
O futebol comporta, em si mesmo, doses substanciais de humanidade. Porém, o excesso não o serve, nem assiste aos adeptos. O excesso doentio de informação, que o não é, beneficia qualquer coisa de pouco asseado, dissimulado num institucionalismo ausente de profundidade e serventuário de outros interesses e objectivos. Estas falsas razões não são novas. As grandes tiranias e as democracias amolgadas utilizam as paixões e as emoções em massa para as manipular. O Estado é uma ferramenta perigosa nas mãos de quem conhece as características da multidão. O pior é a ressaca da euforia. E a debilidade da nossa consistência colectiva é esclarecedora da força que podem adquirir as diversas faces do poder. O jornalismo, este jornalismo, não emerge por acaso, e não está ausente da distinção entre segurança interior e segurança exterior. A inexistência de espírito crítico possui o sabor amargo da servidão.
Nos anos tumultuosos de 1974/75 esteve em Portugal um dos corifeus da antipsiquiatria, David Cooper. Por uma tarde embatente de calor, na Trindade, cervejávamos com ele, na companhia do Afonso Praça e, se bem me lembro, do Rogério Rodrigues, além do António Carmo e do José Carlos Gonzaléz. Ele dizia que o português possuía as particularidades comuns aos seres marcados pela tristeza da abulia. O que não significa um estado de impotência natural. Quando desperta, a cólera transforma-se em fúria e esta numa violência quase sem controlo.
.VIVEMOS, HÁ SEMANAS, numa espécie de fervor que, simultaneamente, nos regozija e entorpece. Veio o Papa e enchemos os dias de graciosas solenidades. Andamos a pedir dinheiro emprestado, e a expressão sumptuariamente e devota que expusemos, importou em não se sabe quanto, certamente muitíssimo. Mantivemos o estilo, mas desentendemo-nos da realidade. Pobretes e alegretes. Sua Santidade abençoou-nos com transporte e unção. As televisões, muito pias, aborreceram-nos e fatigaram-nos tanto que nos deixaram depauperados. Horas e horas, dias e dias sem misericórdia nem compaixão. As narrativas dos locutores atingiram o grau máximo da repulsa. Um panegírico absurdo, acrítico, que produziu a tese exemplar de como se não deve fazer televisão.
O festim não parou. Foi a vitória do Benfica; foi a assinatura do contrato entre José Mourinho e o Real Madrid; foram as primícias do Mundial. Tudo minuciosamente filmado, em directo, pelos canais existentes, reconcentrados e vastos, impulsionados pelos magnos acontecimentos. Horas a fio, arbitrárias e agressivas pela imposição sem tréguas, assustadoras pelo que representavam de mau jornalismo, de desrespeito pelo povoléu, cujos gostos julgam lisonjear.
O futebol comporta, em si mesmo, doses substanciais de humanidade. Porém, o excesso não o serve, nem assiste aos adeptos. O excesso doentio de informação, que o não é, beneficia qualquer coisa de pouco asseado, dissimulado num institucionalismo ausente de profundidade e serventuário de outros interesses e objectivos. Estas falsas razões não são novas. As grandes tiranias e as democracias amolgadas utilizam as paixões e as emoções em massa para as manipular. O Estado é uma ferramenta perigosa nas mãos de quem conhece as características da multidão. O pior é a ressaca da euforia. E a debilidade da nossa consistência colectiva é esclarecedora da força que podem adquirir as diversas faces do poder. O jornalismo, este jornalismo, não emerge por acaso, e não está ausente da distinção entre segurança interior e segurança exterior. A inexistência de espírito crítico possui o sabor amargo da servidão.
Nos anos tumultuosos de 1974/75 esteve em Portugal um dos corifeus da antipsiquiatria, David Cooper. Por uma tarde embatente de calor, na Trindade, cervejávamos com ele, na companhia do Afonso Praça e, se bem me lembro, do Rogério Rodrigues, além do António Carmo e do José Carlos Gonzaléz. Ele dizia que o português possuía as particularidades comuns aos seres marcados pela tristeza da abulia. O que não significa um estado de impotência natural. Quando desperta, a cólera transforma-se em fúria e esta numa violência quase sem controlo.
«DN» de 9 Jun 10
terça-feira, 8 de junho de 2010
Com certeza
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Por João Paulo Guerra
O PRIMEIRO-MINISTRO já foi desejar boa sorte aos “melhores jogadores do mundo” de maneira que os rapazes já podem partir para a África do Sul descansados e cobrirem-se de glória no Mundial de futebol.
Em 2002 não produziu grande efeito, é certo, a encomenda de Durão Barroso: "Tragam a Taça", pediu o então primeiro-ministro, enquanto o Governo em peso marcava passagens e bilhetes para a final em Yokohama, à qual Portugal ficava com obrigação moral de chegar. Mas nem perto chegou. A campanha portuguesa foi mesmo na linha do fiasco, com péssimo futebol e muita porcaria, do que resultou um último lugar ex-aequo com a Polónia na fase de grupos. Em 2006 também não surtiu grande efeito - embora um pouco melhor - a convocação geral do País pelo sargento Scolari. Mas este ano tudo é diferente. Portugal tem os "melhores jogadores do mundo" e com tal elenco o que é que pode esperar-se? "Ser campeões? Com certeza!". O primeiro-ministro não faz as coisas por menos.
A preparação para o Mundial visou mais conquistar a atenção e o coração dos portugueses, embora os jogos decorram a cerca de 8 mil km de Portugal, que o apronto da equipa, numa sucessão de "eventos" e passagens de modelos de equipamento desportivo para os "prime-time" da TV e as capas dos jornais e revistas. E nesse ponto, o futebol acercou-se da política tal como ela se pratica entre nós: muita imagem e pouco sumo. E na verdade, é tão fácil acenar com um título de campeão como prometer não aumentar os impostos.
O campeonato vai encher a vida dos portugueses nas próximas semanas, em busca de uma compensação para uma vida de frustrações. Mas é de crer que os portugueses estejam livres do pior que lhes poderia acontecer: ganhar o campeonato. Com tal anestesia a "limpeza" ia ser geral.
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«DE» de 7 Jun 10
Por João Paulo Guerra
O PRIMEIRO-MINISTRO já foi desejar boa sorte aos “melhores jogadores do mundo” de maneira que os rapazes já podem partir para a África do Sul descansados e cobrirem-se de glória no Mundial de futebol.
Em 2002 não produziu grande efeito, é certo, a encomenda de Durão Barroso: "Tragam a Taça", pediu o então primeiro-ministro, enquanto o Governo em peso marcava passagens e bilhetes para a final em Yokohama, à qual Portugal ficava com obrigação moral de chegar. Mas nem perto chegou. A campanha portuguesa foi mesmo na linha do fiasco, com péssimo futebol e muita porcaria, do que resultou um último lugar ex-aequo com a Polónia na fase de grupos. Em 2006 também não surtiu grande efeito - embora um pouco melhor - a convocação geral do País pelo sargento Scolari. Mas este ano tudo é diferente. Portugal tem os "melhores jogadores do mundo" e com tal elenco o que é que pode esperar-se? "Ser campeões? Com certeza!". O primeiro-ministro não faz as coisas por menos.
A preparação para o Mundial visou mais conquistar a atenção e o coração dos portugueses, embora os jogos decorram a cerca de 8 mil km de Portugal, que o apronto da equipa, numa sucessão de "eventos" e passagens de modelos de equipamento desportivo para os "prime-time" da TV e as capas dos jornais e revistas. E nesse ponto, o futebol acercou-se da política tal como ela se pratica entre nós: muita imagem e pouco sumo. E na verdade, é tão fácil acenar com um título de campeão como prometer não aumentar os impostos.
O campeonato vai encher a vida dos portugueses nas próximas semanas, em busca de uma compensação para uma vida de frustrações. Mas é de crer que os portugueses estejam livres do pior que lhes poderia acontecer: ganhar o campeonato. Com tal anestesia a "limpeza" ia ser geral.
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«DE» de 7 Jun 10
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A múmia e o modelo do défice
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Por Nuno Crato
BOLZANO é uma pequena cidade italiana, no sul do Tirol, muito conhecida pelos praticantes de montanhismo e de esqui. Os matemáticos lembram-se de um célebre teorema de Bernard Bolzano e pensam que a cidade terá alguma coisa a ver com esse matemático checo do século XIX. Talvez tenha, pois o pai desse académico nascera na Itália alpina. O mais famoso habitante da cidade, contudo, é Utzi, o “Homem da Neve” que foi descoberto em 1991 nas montanhas que circundam a cidade. É a múmia mais antiga do mundo. Terá vivido cerca de 3500 anos antes da nossa época, numa altura em que a Grande Pirâmide ainda não tinha começado a ser construída.
A múmia, carinhosamente chamada Utzi em referência a um vale da província, deve o seu espantoso estado de conservação a uma confluência de circunstâncias muito rara. Segundo se descobriu, trata-se de um homem que foi alvejado nas costas, teve uma hemorragia violenta, caiu na neve e ficou congelado. Mais tarde, as neves derreteram e o sol desidratou-o. Voltou a ser congelado pelas neves de inverno e ficou depois soterrado por gelo e neve até que, em 1991, dois turistas alemães o encontraram por acaso, numa altura em que o sol tinha voltado a derreter grande parte das neves. Depois de ter sido recolhido e estudado, o cadáver foi colocada em exposição no museu arqueológico de Bolzano, onde pode ser visto através de uma janela sobre uma câmara refrigerada.
Na semana passada, o moderno centro de investigação multidisciplinar de Bolzano, o EURAC, promoveu uma conferência internacional sobre divulgação científica em que Utzi foi uma das personagens centrais. Num painel sobre museologia científica discutiu-se a maneira de expor múmias em museus. Mas o que encheu o dia foi um debate sobre o actual modelo de divulgação científica.
Depois de uma época em que a divulgação era vista apenas como uma missão de cientistas para fornecerem informação ao público e assim suprirem um défice de cultura científica, a comunicação de ciência comporta hoje muito mais vertentes. Envolve museus e centros de ciência, junta educadores e profissionais de museologia. Inclui a actividade de muitos bons jornalistas, que fornecem um noticiário científico actualizado e rigoroso, enquanto outros escrevem magníficas peças de divulgação. Espalha-se pela rádio, pela televisão e pela internet, usa animações, blogues e discussões públicas.
Há umas duas décadas, o chamado «modelo do défice» foi muito criticado por ser apenas uma espécie de prolongamento da escola, em que os professores seriam substituídos por cientistas. Mas a crítica, influenciada por correntes pós-modernas então em ascensão, estendeu-se a outros aspectos. Afirmou que os cientistas não poderiam ser considerados detentores da verdade, que a ciência também erra e que era necessário o diálogo com o público, respeitando outras opiniões. Assim, a opinião do cientista não deveria valer mais do que as outras. Em vez de se tentar, de forma «paternalista», «divulgar» ou «vulgarizar» a ciência, era necessária uma «comunicação bidireccional».
Vários participantes no encontro salientaram que esta crítica apresenta algumas verdades mergulhadas num oceano de erros. Se é verdade que a ciência «também erra», quando se abordam fenómenos cientificamente estudados a ciência fornece conceitos mais fundamentados do que a simples opinião. E se é verdade a opinião dos cientistas vale tanto como a de outros cidadãos quando se trata de fazer escolhas morais, sociais e políticas, é crucial que se ouça o que a ciência tem a dizer para que essa escolha seja o mais bem informada possível. Se é também verdade que, em teoria, «a comunicação bidireccional» é preferível, nem todos têm igual informação e é desejável que os mais conhecedores em determinada área informem os outros. De outra forma, anular-se-ia a difusão da cultura. E ninguém inveja a vida que Utzi viveu nem quer voltar aos tempos da múmia.
A divulgação científica sofreria um grande retrocesso se substituísse o dito «modelo do défice» por um outro que, com pretexto na igualdade, promovesse o défice.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 5 Jun 10 (adapt.)
Por Nuno Crato
BOLZANO é uma pequena cidade italiana, no sul do Tirol, muito conhecida pelos praticantes de montanhismo e de esqui. Os matemáticos lembram-se de um célebre teorema de Bernard Bolzano e pensam que a cidade terá alguma coisa a ver com esse matemático checo do século XIX. Talvez tenha, pois o pai desse académico nascera na Itália alpina. O mais famoso habitante da cidade, contudo, é Utzi, o “Homem da Neve” que foi descoberto em 1991 nas montanhas que circundam a cidade. É a múmia mais antiga do mundo. Terá vivido cerca de 3500 anos antes da nossa época, numa altura em que a Grande Pirâmide ainda não tinha começado a ser construída.
A múmia, carinhosamente chamada Utzi em referência a um vale da província, deve o seu espantoso estado de conservação a uma confluência de circunstâncias muito rara. Segundo se descobriu, trata-se de um homem que foi alvejado nas costas, teve uma hemorragia violenta, caiu na neve e ficou congelado. Mais tarde, as neves derreteram e o sol desidratou-o. Voltou a ser congelado pelas neves de inverno e ficou depois soterrado por gelo e neve até que, em 1991, dois turistas alemães o encontraram por acaso, numa altura em que o sol tinha voltado a derreter grande parte das neves. Depois de ter sido recolhido e estudado, o cadáver foi colocada em exposição no museu arqueológico de Bolzano, onde pode ser visto através de uma janela sobre uma câmara refrigerada.
Na semana passada, o moderno centro de investigação multidisciplinar de Bolzano, o EURAC, promoveu uma conferência internacional sobre divulgação científica em que Utzi foi uma das personagens centrais. Num painel sobre museologia científica discutiu-se a maneira de expor múmias em museus. Mas o que encheu o dia foi um debate sobre o actual modelo de divulgação científica.
Depois de uma época em que a divulgação era vista apenas como uma missão de cientistas para fornecerem informação ao público e assim suprirem um défice de cultura científica, a comunicação de ciência comporta hoje muito mais vertentes. Envolve museus e centros de ciência, junta educadores e profissionais de museologia. Inclui a actividade de muitos bons jornalistas, que fornecem um noticiário científico actualizado e rigoroso, enquanto outros escrevem magníficas peças de divulgação. Espalha-se pela rádio, pela televisão e pela internet, usa animações, blogues e discussões públicas.
Há umas duas décadas, o chamado «modelo do défice» foi muito criticado por ser apenas uma espécie de prolongamento da escola, em que os professores seriam substituídos por cientistas. Mas a crítica, influenciada por correntes pós-modernas então em ascensão, estendeu-se a outros aspectos. Afirmou que os cientistas não poderiam ser considerados detentores da verdade, que a ciência também erra e que era necessário o diálogo com o público, respeitando outras opiniões. Assim, a opinião do cientista não deveria valer mais do que as outras. Em vez de se tentar, de forma «paternalista», «divulgar» ou «vulgarizar» a ciência, era necessária uma «comunicação bidireccional».
Vários participantes no encontro salientaram que esta crítica apresenta algumas verdades mergulhadas num oceano de erros. Se é verdade que a ciência «também erra», quando se abordam fenómenos cientificamente estudados a ciência fornece conceitos mais fundamentados do que a simples opinião. E se é verdade a opinião dos cientistas vale tanto como a de outros cidadãos quando se trata de fazer escolhas morais, sociais e políticas, é crucial que se ouça o que a ciência tem a dizer para que essa escolha seja o mais bem informada possível. Se é também verdade que, em teoria, «a comunicação bidireccional» é preferível, nem todos têm igual informação e é desejável que os mais conhecedores em determinada área informem os outros. De outra forma, anular-se-ia a difusão da cultura. E ninguém inveja a vida que Utzi viveu nem quer voltar aos tempos da múmia.
A divulgação científica sofreria um grande retrocesso se substituísse o dito «modelo do défice» por um outro que, com pretexto na igualdade, promovesse o défice.
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 5 Jun 10 (adapt.)
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Façam férias nas guerras cá dentro
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Por Ferreira Fernandes
NO QUE CHAMOU "um apelo forte e veemente", Cavaco Silva pediu aos portugueses para fazerem "férias cá dentro". Lá fora, em Xangai, o ministro da Economia, Vieira da Silva, disse: "Só espero que os presidentes de outros países não façam o mesmo apelo, caso contrário perdemos uma fonte de receitas importante para o País." E lá se armou uma estrangeirinha. Vamos começar a semana a debater mais um conflito entre Belém e São Bento.
Eu sei que é no embate do sim com o não que damos dialecticamente um passo em frente. Mas não podiam ir fazer embates filosóficos para longe (lá fora de preferência)?
A proposta de Cavaco Silva é bem lembrada - tão boa como aquela proposta da sociedade civil convidando os outros portugueses a visitar os madeirenses, quando estes tiveram a recente tragédia. Aliás, a proposta de Cavaco Silva ainda é melhor porque mais fácil de executar (não pede para irmos a um sítio determinado, a Madeira, mas simplesmente para não irmos ao resto do mundo). Só tem um contra: para um desiderato nacional não podia ter havido, antes, acordo entre o Presidente e o Governo? Mas, não tendo havido e tendo sido o Governo apanhado na curva, porquê atacar uma boa proposta? Ainda por cima de forma errada: se Cavaco pode influenciar portugueses nos seus destinos de férias, não influencia os apelos dos "presidentes de outros países".
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«DN» de 7 Jun 10
NO QUE CHAMOU "um apelo forte e veemente", Cavaco Silva pediu aos portugueses para fazerem "férias cá dentro". Lá fora, em Xangai, o ministro da Economia, Vieira da Silva, disse: "Só espero que os presidentes de outros países não façam o mesmo apelo, caso contrário perdemos uma fonte de receitas importante para o País." E lá se armou uma estrangeirinha. Vamos começar a semana a debater mais um conflito entre Belém e São Bento.
Eu sei que é no embate do sim com o não que damos dialecticamente um passo em frente. Mas não podiam ir fazer embates filosóficos para longe (lá fora de preferência)?
A proposta de Cavaco Silva é bem lembrada - tão boa como aquela proposta da sociedade civil convidando os outros portugueses a visitar os madeirenses, quando estes tiveram a recente tragédia. Aliás, a proposta de Cavaco Silva ainda é melhor porque mais fácil de executar (não pede para irmos a um sítio determinado, a Madeira, mas simplesmente para não irmos ao resto do mundo). Só tem um contra: para um desiderato nacional não podia ter havido, antes, acordo entre o Presidente e o Governo? Mas, não tendo havido e tendo sido o Governo apanhado na curva, porquê atacar uma boa proposta? Ainda por cima de forma errada: se Cavaco pode influenciar portugueses nos seus destinos de férias, não influencia os apelos dos "presidentes de outros países".
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domingo, 6 de junho de 2010
Quanto indica a balança? - Solução
Actualização: o palpite mais aproximado é o de 'Antónia' (afixado às 23h26m de ontem): 2398 g tem um erro de 13 g. Assim, a leitora tem 24h, a partir de agora, para escrever para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada e qual dos 2 livros prefere: o da ASA ou o do Círculo de Leitores.
Cegos por Israel
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In RuiTavares.Net
Por Rui Tavares
TENHO FAMÍLIA israelita e familiares judeus ou de ascendência judaica que, caso o desejassem, poderiam obter cidadania israelita. Teoricamente, parece que até eu teria direito a morar numa daquelas aldeias que nunca visitei mas onde não podem regressar os palestinianos que lá nasceram — as aldeias onde nasceram também os seus pais, avós, bisavós. O que para judeus de todo o mundo foi e é por vezes ainda uma esperança de justiça após séculos de perseguição, tem sido uma tragédia para os palestinianos. Não há afinidades — ideológicas, familiares, ou meramente caprichosas — que possam calar esta verdade.
Ao contrário do que sugerem fanáticos de toda a espécie, dentro e fora da região, o mundo sabe como resolver o conflito israelo-palestiniano. Mais pormenor, menos pormenor, a solução passa por dois estados lado a lado segundo as fronteiras de 1967, com trocas pontuais de terreno numa base 1:1; Jerusalém como capital partilhada de ambos esses estados, porventura preservada sob tutela internacional; e reparações financeiras e morais para os refugiados palestinianos, com possibilidade de viverem no seu estado independente e, em alguns casos negociados, poderem regressar às suas terras de origem. Outra solução, minoritária mas também apoiada por muita gente que quer a paz, passaria por um único estado com direitos iguais para todas as religiões e povos que vivam no seu território. Como qualquer não-fanático, não sou esquisito nos pormenores. O que desejo é isto. Desejo para os palestinianos dignidade e auto-determinação iguais às de qualquer outro povo no mundo.
Ao mesmo tempo, respeito o estado e a cidadania dos meus primos israelitas. O que não posso é respeitar as ações deste governo israelita, porque este governo não tem respeitado qualquer limite da decência, honestidade ou legalidade internacional. Nem os seus próprios compromissos têm respeitado, havendo razões para duvidar que faça esses compromissos de boa fé. É um governo pária que deve ser tratado como qualquer governo pária.
Para alguns fanáticos, ser “amigo de Israel” parece implicar duas coisas: que tudo o que um governo israelita faça, por mais brutal e desumano, seja sempre legítimo; que as normas internacionais não se apliquem da mesma forma a Israel e a outros países.
Por extraordinário que pareça, estes fanáticos por Israel conseguem justificar tudo, até a recente razia e sequestro a uma reduzida frota de barcos desarmados em águas internacionais, causando a morte de uma dezena de pessoas.
Enquanto um barco está em águas internacionais poderá ser interpelado, porventura vigiado ou no máximo escoltado. Não pode certamente ser atacado e os seus passageiros não podem ser assassinados, sob pena de este ser um ato de pirataria. Nem sequer o putativo “estado de guerra” a que alguns comentadores lançaram mão permite justificar isto: Israel não declarou guerra à Turquia (em águas internacionais, atacar um barco significa atacar o território da sua bandeira) e, mesmo que o tivesse feito, a guerra tem regras a que os estados se obrigam assinando convenções — e, mesmo quando não o fazem, os crimes de guerra continuam a existir. Decidam-se então: o que aconteceu foi pirataria, ato terrorista, ou crime de guerra. Justificável, nunca.
Diz-se que os fanáticos são os piores inimigos de Israel. É verdade. Os fanáticos muçulmanos. Os fanáticos pseudo-amigos de Israel no Ocidente. E, cada vez mais, os fanáticos no próprio governo israelita.
.Para alguns fanáticos, ser “amigo de Israel” parece implicar que tudo o que um governo israelita faça, por mais brutal e desumano, seja sempre legítimo; que as normas internacionais não se apliquem da mesma forma a Israel e a outros países.
TENHO FAMÍLIA israelita e familiares judeus ou de ascendência judaica que, caso o desejassem, poderiam obter cidadania israelita. Teoricamente, parece que até eu teria direito a morar numa daquelas aldeias que nunca visitei mas onde não podem regressar os palestinianos que lá nasceram — as aldeias onde nasceram também os seus pais, avós, bisavós. O que para judeus de todo o mundo foi e é por vezes ainda uma esperança de justiça após séculos de perseguição, tem sido uma tragédia para os palestinianos. Não há afinidades — ideológicas, familiares, ou meramente caprichosas — que possam calar esta verdade.
Ao contrário do que sugerem fanáticos de toda a espécie, dentro e fora da região, o mundo sabe como resolver o conflito israelo-palestiniano. Mais pormenor, menos pormenor, a solução passa por dois estados lado a lado segundo as fronteiras de 1967, com trocas pontuais de terreno numa base 1:1; Jerusalém como capital partilhada de ambos esses estados, porventura preservada sob tutela internacional; e reparações financeiras e morais para os refugiados palestinianos, com possibilidade de viverem no seu estado independente e, em alguns casos negociados, poderem regressar às suas terras de origem. Outra solução, minoritária mas também apoiada por muita gente que quer a paz, passaria por um único estado com direitos iguais para todas as religiões e povos que vivam no seu território. Como qualquer não-fanático, não sou esquisito nos pormenores. O que desejo é isto. Desejo para os palestinianos dignidade e auto-determinação iguais às de qualquer outro povo no mundo.
Ao mesmo tempo, respeito o estado e a cidadania dos meus primos israelitas. O que não posso é respeitar as ações deste governo israelita, porque este governo não tem respeitado qualquer limite da decência, honestidade ou legalidade internacional. Nem os seus próprios compromissos têm respeitado, havendo razões para duvidar que faça esses compromissos de boa fé. É um governo pária que deve ser tratado como qualquer governo pária.
Para alguns fanáticos, ser “amigo de Israel” parece implicar duas coisas: que tudo o que um governo israelita faça, por mais brutal e desumano, seja sempre legítimo; que as normas internacionais não se apliquem da mesma forma a Israel e a outros países.
Por extraordinário que pareça, estes fanáticos por Israel conseguem justificar tudo, até a recente razia e sequestro a uma reduzida frota de barcos desarmados em águas internacionais, causando a morte de uma dezena de pessoas.
Enquanto um barco está em águas internacionais poderá ser interpelado, porventura vigiado ou no máximo escoltado. Não pode certamente ser atacado e os seus passageiros não podem ser assassinados, sob pena de este ser um ato de pirataria. Nem sequer o putativo “estado de guerra” a que alguns comentadores lançaram mão permite justificar isto: Israel não declarou guerra à Turquia (em águas internacionais, atacar um barco significa atacar o território da sua bandeira) e, mesmo que o tivesse feito, a guerra tem regras a que os estados se obrigam assinando convenções — e, mesmo quando não o fazem, os crimes de guerra continuam a existir. Decidam-se então: o que aconteceu foi pirataria, ato terrorista, ou crime de guerra. Justificável, nunca.
Diz-se que os fanáticos são os piores inimigos de Israel. É verdade. Os fanáticos muçulmanos. Os fanáticos pseudo-amigos de Israel no Ocidente. E, cada vez mais, os fanáticos no próprio governo israelita.
In RuiTavares.Net
sábado, 5 de junho de 2010
A dieta de D. Augusta
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Por João Duque
DONA AUGUSTA foi a Cabo Frio à famosa Rua do Biquíni onde milhares de tanguinhas minúsculas, bem cavadas, deixam antever um inquieto e efervescente imaginário masculino. A seu lado, o sr. Januário, abanava e dizia sim às interpelações de sua esposa: "- Achas que este me fica bem?" "- Sim." "- E este mais cavado?" "- Sim." Nos sins do sr. Januário, o que faltava em biquíni, sobrava em celulite de dona Augusta, que garantia que a sua dieta a levaria a envergar, no Verão do Algarve, qualquer modelo mais ousado que ali comprasse.
O país entrou em dieta. Tivemos o PEC I, depois o PEC II e ainda esta semana mais um PEC-inho dedicado aos desempregados. Cada PEC descredibiliza porque mostra que os anteriores não foram suficientemente estudados e ponderados.
Aumenta-se o IVA, na taxa dos 5%, por causa da Coca-Cola, esquecendo que é tão obsceno a Coca-Cola na taxa de 5% como na de 6% e que os medicamentos, o pão, ou o leite, não são refrigerantes. Aumenta-se o IRS numa trapalhada que não sei o que vai dar, e reduzem-se algumas despesas.
Mas o que me está a assustar de momento é que apesar das estatísticas do produto estarem, aparentemente, a correr bem (crescimento de 1,7% no PIB no primeiro trimestre), tudo o resto desaba.
Até ao final de Março de 2010 a diferença entre as receitas e as despesas do Estado (orçamento e segurança social) era negativa na ordem dos 2050 milhões de euros, representando um agravamento de 13,8% neste indicador, face ao ano anterior.
Por isso, não é de estranhar que a dívida pública esteja, este ano, e novamente, a explodir! Se no ano passado, por esta altura, a dívida pública directa total já tinha aumentado 6100 milhões de euros entre Janeiro e Abril, este ano a conta já vai em 7189 milhões!
Isto é, se no ano passado, ano da calamidade, nos tínhamos endividado entre Janeiro e Abril a uma média de 51 milhões de euros ao dia, este ano vamos na bonita soma de 60 milhões de euros ao dia!
Agora, francamente, acham que se pode manter este ritmo de evolução?
Acham imaginável iludir os credores mostrando-lhes que estamos bem? Como?
Será que a estratégia passa por apregoar a manutenção dos programas de investimento público impossíveis e irreais, como fazia o patético ministro iraquiano quando afirmava, às câmaras da CNN que os invasores estavam dominados e estes lhe acenavam por trás das costas?
O crescimento do PIB no primeiro trimestre deste ano deveu-se, afinal, a um continuado programa de despesa pública e se estivesse de acordo com a nossa capacidade de produção, teria sido provavelmente um dos piores da Europa. Assim, continuamos felizes...
Dona Augusta acha que a dieta que está a fazer (cortar a manteiga das torradas), lhe permite enfiar o biquíni, mas o realista sr. Januário sabe bem que aquela celulite não sai assim das nádegas de sua esposa. E entre os sins à dona Augusta vai deitando o olho a outros biquínis...
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«Expresso» de 29 Mai 10
DONA AUGUSTA foi a Cabo Frio à famosa Rua do Biquíni onde milhares de tanguinhas minúsculas, bem cavadas, deixam antever um inquieto e efervescente imaginário masculino. A seu lado, o sr. Januário, abanava e dizia sim às interpelações de sua esposa: "- Achas que este me fica bem?" "- Sim." "- E este mais cavado?" "- Sim." Nos sins do sr. Januário, o que faltava em biquíni, sobrava em celulite de dona Augusta, que garantia que a sua dieta a levaria a envergar, no Verão do Algarve, qualquer modelo mais ousado que ali comprasse.
O país entrou em dieta. Tivemos o PEC I, depois o PEC II e ainda esta semana mais um PEC-inho dedicado aos desempregados. Cada PEC descredibiliza porque mostra que os anteriores não foram suficientemente estudados e ponderados.
Aumenta-se o IVA, na taxa dos 5%, por causa da Coca-Cola, esquecendo que é tão obsceno a Coca-Cola na taxa de 5% como na de 6% e que os medicamentos, o pão, ou o leite, não são refrigerantes. Aumenta-se o IRS numa trapalhada que não sei o que vai dar, e reduzem-se algumas despesas.
Mas o que me está a assustar de momento é que apesar das estatísticas do produto estarem, aparentemente, a correr bem (crescimento de 1,7% no PIB no primeiro trimestre), tudo o resto desaba.
Até ao final de Março de 2010 a diferença entre as receitas e as despesas do Estado (orçamento e segurança social) era negativa na ordem dos 2050 milhões de euros, representando um agravamento de 13,8% neste indicador, face ao ano anterior.
Por isso, não é de estranhar que a dívida pública esteja, este ano, e novamente, a explodir! Se no ano passado, por esta altura, a dívida pública directa total já tinha aumentado 6100 milhões de euros entre Janeiro e Abril, este ano a conta já vai em 7189 milhões!
Isto é, se no ano passado, ano da calamidade, nos tínhamos endividado entre Janeiro e Abril a uma média de 51 milhões de euros ao dia, este ano vamos na bonita soma de 60 milhões de euros ao dia!
Agora, francamente, acham que se pode manter este ritmo de evolução?
Acham imaginável iludir os credores mostrando-lhes que estamos bem? Como?
Será que a estratégia passa por apregoar a manutenção dos programas de investimento público impossíveis e irreais, como fazia o patético ministro iraquiano quando afirmava, às câmaras da CNN que os invasores estavam dominados e estes lhe acenavam por trás das costas?
O crescimento do PIB no primeiro trimestre deste ano deveu-se, afinal, a um continuado programa de despesa pública e se estivesse de acordo com a nossa capacidade de produção, teria sido provavelmente um dos piores da Europa. Assim, continuamos felizes...
Dona Augusta acha que a dieta que está a fazer (cortar a manteiga das torradas), lhe permite enfiar o biquíni, mas o realista sr. Januário sabe bem que aquela celulite não sai assim das nádegas de sua esposa. E entre os sins à dona Augusta vai deitando o olho a outros biquínis...
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«Expresso» de 29 Mai 10
Há reis e reis
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Por Antunes Ferreira
PIROLITO é a alcunha. Há muitos, mesmo muitos anos, era ainda catraio trabalhei num fábrica deles e assim fiquei. O meu nome, de acordo com o BI, é Julião Casimiro Pintado. É verdade, nã me posso esqueceri: tenho de ir tirar o Cartão de Cidadão. Nã sei a queim, mas lá que tenho de o tirar, tenho. Sou natural duma convenção. De quêi? De uma convenção foi o que disse, isto éi, de Evoramonte. A caminha do Caia, na raia.
Onde, vejam lá vomecês, nã há Multibanco. Quer-se dizêri, nã existe lá nenhuma ATM, quê cá nã sei muto beim oké, mas é assim que lhe prantaram e lhe chamam. Resumindo e concluindo: aquelas mánicas metidas nas paredes das agências bancárias ou nos supermercados ou nessas coisas assim e que servem para tirarmos dinhêro, pagarmos as contas e até carregarmos os telelés… O queles inventam. Ainda nã entendo qual a rezão do sindicato dos bancários nã têri protestado por elas inliminarem postos de trabalho.
Se me permitem, vou aligeirar o sotaque, senão ainda me arrisco a levar um arraial de porrada dos outros alentejanos que pensam que eu estou a mangar com eles – e se calhar até têm razão. Se eu fosse o Vasconcelos, conhecem?, o Miguel, ainda me defenestravam. Dizem que é aventar pela janela. Está boa, a palavra, o trambolhão é que não. Um tipo arrisca-se a partir umas coisas. E não há cola mesmo super que lhe valha.
Pois, na segunda-feira feira, estava eu pelo fim da tarde num bar de tapas em Badajoz e apareceu-me o Fernando Lavadinho, conterrâneo da melhor colheita. O sujeito trabalha por aquelas bandas, nos painéis solares, por conta de uma firma que os fabrica, em Montemor. Que é a terra com mais semáforos de todo o Mundo, pelo menos no Alentejo é.
Eu tinha mandado vir umas gambas a l’ajillo e um tinto de verano, e ele pediu riñones al Jerez e bebida igual, que o calor começou a apertar e com muito gelo o vinho com limonada passa pelo estreito que nem faca em manteiga no Verão. Lavadinho é conhecido pelo Alforreca, não me perguntem porquê, em Evoramonte não há mar que se veja ou que se não veja. Não há.
«Vieste ontem? Apanhaste o Rei?» «Mas qual rei?», retorqui-lhe. «Então o homem não foi hoje que tomou posse?» O Lavadinho, barra, Alforreca: «Tás a gozar comigo? Um rei toma posse? Isso é um Presidente da República, um primeiro-ministro, um chefe de repartição, até um ajudante de auxiliar de praticante. Um rei é coroado. Tás cada vez mais bronco. A caminho de cota é o que é…»
A conversa estava a dar para a banda do torto, por isso e para desanuviar, chamai o camarero e encomendei uns callos com garbanzos. E mais tinto. Para selar o tratado de paz que se impunha, mesmo sendo entre Portugueses, o que é cada vez mais difícil, vejam-se o Carvalho da Silva e o João Proença nas comemorações do Primeiro de Maio.
Decidimos assentar ideias e apagar confusões. Falávamos de temas diferentes, era óbvio. O meu interlocutor passou a esclarecer. No domingo, isto era ontem, comemorara-se na cidade do Guadiana espanhol, o Día de las Fuerzas Armadas que em cada ano tem lugar em urbes diferentes espalhadas pelo país vizinho. Assim a modos que o 10 de Junho por cá, com desfiles, discursos e condecorações. Isto antes da crise, que agora o PR até já mandou todos os convidados utilizarem a via ferroviária, com a gentil colaboração da CP e da RENFER.
Su Majestad el Rey Don Juan Carlos presidira às cerimónias, Acompanhado da Reina Sofia e dos Príncipes das Astúrias, Don Felipe e Doña Letizia. Esta era a base inabalável do Lavadinho que me contou das medidas de segurança, uma caterva de ruas cortadas, polícias de todas as qualidades, feitios e tamanhos, atiradores especiais nos telhados, o trivial da precaução, que a ETA…
Fiquei embasbacado. O compatriota afinal não estava passado, do sol sobre os colectores da energia dele; dele, astro rei. Cos diabos, já eram monarcas a mais, incluindo a estrela da nossa constelação e os herdeiros do trono. Só faltava o Dom Duarte Pio. As coisas eram claras, claríssimas. Nos entretantos, o acolhedor empregado de mesa, que afinal era Portuguesíssimo de Avis, trouxera una tortilla de patatas y cebolla e dois uísques aparentemente castellanos. Con soda e muchas piedras de hielo.
Era a minha vez de elucidar o Alforreca e o gentil servidor, aliás o Teixeira (que acabara de saira de serviço e fora substituído por un extremeño con bigote), interlocutores atentos e interessados na minha explicação. Depois nos informaria que ali ganhava bastante mais do que em Portugal e a gasolina era mais barata e as compras eram mais em conta e porque torna e porque deixa.
E apesar do paro ir acima dos 22%, ele queria trabalhar e por isso arranjara-o. Já na nossa terra, ainda acrescentou, o pessoal quer é ter um emprego, não quer trabalho. Cansa muito. Ou, melhor ainda, estar refastelado no desemprego com subsídio. Anotei e continuei. Por estas e por outras é que nós não passamos da cepa torta. E também, porque a nossa produtividade é menor do que as reservas de muitos bancos. Adiante. Eu referia-me, obviamente, ao Mourinho.
Da mesa do lado, veio um comentário com acento estremocense. «Esse sim, esse é que é rei. Ou antes, é Deus…» Definitivamente em Badajoz, a percentagem dos participantes lusitanos no colóquio era alta, uns cem por cento. Os aventureiros que somos não se ficaram nos Descobrimentos.
E o último interveniente: «Patrícios, vocês não sabem daquela do Mou quando estava no Chelsea e foi para a cama com uma inglesinha entusiasmada?» Não sabíamos. E ele: «Quando chegaram aos finalmentes, a Mary começou a gemer, oh my God, oh my God!!!!» e o Special One disse-lhe docemente, «my dear, you can call me just only José…»
Eu tinha ou não tinha razão?
PIROLITO é a alcunha. Há muitos, mesmo muitos anos, era ainda catraio trabalhei num fábrica deles e assim fiquei. O meu nome, de acordo com o BI, é Julião Casimiro Pintado. É verdade, nã me posso esqueceri: tenho de ir tirar o Cartão de Cidadão. Nã sei a queim, mas lá que tenho de o tirar, tenho. Sou natural duma convenção. De quêi? De uma convenção foi o que disse, isto éi, de Evoramonte. A caminha do Caia, na raia.
Onde, vejam lá vomecês, nã há Multibanco. Quer-se dizêri, nã existe lá nenhuma ATM, quê cá nã sei muto beim oké, mas é assim que lhe prantaram e lhe chamam. Resumindo e concluindo: aquelas mánicas metidas nas paredes das agências bancárias ou nos supermercados ou nessas coisas assim e que servem para tirarmos dinhêro, pagarmos as contas e até carregarmos os telelés… O queles inventam. Ainda nã entendo qual a rezão do sindicato dos bancários nã têri protestado por elas inliminarem postos de trabalho.
Se me permitem, vou aligeirar o sotaque, senão ainda me arrisco a levar um arraial de porrada dos outros alentejanos que pensam que eu estou a mangar com eles – e se calhar até têm razão. Se eu fosse o Vasconcelos, conhecem?, o Miguel, ainda me defenestravam. Dizem que é aventar pela janela. Está boa, a palavra, o trambolhão é que não. Um tipo arrisca-se a partir umas coisas. E não há cola mesmo super que lhe valha.
Pois, na segunda-feira feira, estava eu pelo fim da tarde num bar de tapas em Badajoz e apareceu-me o Fernando Lavadinho, conterrâneo da melhor colheita. O sujeito trabalha por aquelas bandas, nos painéis solares, por conta de uma firma que os fabrica, em Montemor. Que é a terra com mais semáforos de todo o Mundo, pelo menos no Alentejo é.
Eu tinha mandado vir umas gambas a l’ajillo e um tinto de verano, e ele pediu riñones al Jerez e bebida igual, que o calor começou a apertar e com muito gelo o vinho com limonada passa pelo estreito que nem faca em manteiga no Verão. Lavadinho é conhecido pelo Alforreca, não me perguntem porquê, em Evoramonte não há mar que se veja ou que se não veja. Não há.
«Vieste ontem? Apanhaste o Rei?» «Mas qual rei?», retorqui-lhe. «Então o homem não foi hoje que tomou posse?» O Lavadinho, barra, Alforreca: «Tás a gozar comigo? Um rei toma posse? Isso é um Presidente da República, um primeiro-ministro, um chefe de repartição, até um ajudante de auxiliar de praticante. Um rei é coroado. Tás cada vez mais bronco. A caminho de cota é o que é…»
A conversa estava a dar para a banda do torto, por isso e para desanuviar, chamai o camarero e encomendei uns callos com garbanzos. E mais tinto. Para selar o tratado de paz que se impunha, mesmo sendo entre Portugueses, o que é cada vez mais difícil, vejam-se o Carvalho da Silva e o João Proença nas comemorações do Primeiro de Maio.
Decidimos assentar ideias e apagar confusões. Falávamos de temas diferentes, era óbvio. O meu interlocutor passou a esclarecer. No domingo, isto era ontem, comemorara-se na cidade do Guadiana espanhol, o Día de las Fuerzas Armadas que em cada ano tem lugar em urbes diferentes espalhadas pelo país vizinho. Assim a modos que o 10 de Junho por cá, com desfiles, discursos e condecorações. Isto antes da crise, que agora o PR até já mandou todos os convidados utilizarem a via ferroviária, com a gentil colaboração da CP e da RENFER.
Su Majestad el Rey Don Juan Carlos presidira às cerimónias, Acompanhado da Reina Sofia e dos Príncipes das Astúrias, Don Felipe e Doña Letizia. Esta era a base inabalável do Lavadinho que me contou das medidas de segurança, uma caterva de ruas cortadas, polícias de todas as qualidades, feitios e tamanhos, atiradores especiais nos telhados, o trivial da precaução, que a ETA…
Fiquei embasbacado. O compatriota afinal não estava passado, do sol sobre os colectores da energia dele; dele, astro rei. Cos diabos, já eram monarcas a mais, incluindo a estrela da nossa constelação e os herdeiros do trono. Só faltava o Dom Duarte Pio. As coisas eram claras, claríssimas. Nos entretantos, o acolhedor empregado de mesa, que afinal era Portuguesíssimo de Avis, trouxera una tortilla de patatas y cebolla e dois uísques aparentemente castellanos. Con soda e muchas piedras de hielo.
Era a minha vez de elucidar o Alforreca e o gentil servidor, aliás o Teixeira (que acabara de saira de serviço e fora substituído por un extremeño con bigote), interlocutores atentos e interessados na minha explicação. Depois nos informaria que ali ganhava bastante mais do que em Portugal e a gasolina era mais barata e as compras eram mais em conta e porque torna e porque deixa.
E apesar do paro ir acima dos 22%, ele queria trabalhar e por isso arranjara-o. Já na nossa terra, ainda acrescentou, o pessoal quer é ter um emprego, não quer trabalho. Cansa muito. Ou, melhor ainda, estar refastelado no desemprego com subsídio. Anotei e continuei. Por estas e por outras é que nós não passamos da cepa torta. E também, porque a nossa produtividade é menor do que as reservas de muitos bancos. Adiante. Eu referia-me, obviamente, ao Mourinho.
Da mesa do lado, veio um comentário com acento estremocense. «Esse sim, esse é que é rei. Ou antes, é Deus…» Definitivamente em Badajoz, a percentagem dos participantes lusitanos no colóquio era alta, uns cem por cento. Os aventureiros que somos não se ficaram nos Descobrimentos.
E o último interveniente: «Patrícios, vocês não sabem daquela do Mou quando estava no Chelsea e foi para a cama com uma inglesinha entusiasmada?» Não sabíamos. E ele: «Quando chegaram aos finalmentes, a Mary começou a gemer, oh my God, oh my God!!!!» e o Special One disse-lhe docemente, «my dear, you can call me just only José…»
Eu tinha ou não tinha razão?
sexta-feira, 4 de junho de 2010
«Dito & Feito»
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«SOL» de 4 Jun 10
Por José António Lima
MANUEL ALEGRE afirma estar contra os cortes do Governo nos subsídios de desemprego e que «teria sido preferível fazer cortes no desperdício» do aparelho de Estado. Mas, logo a seguir, acrescenta que é preciso aceitar o esforço de «consolidação orçamental» do Executivo socialista. Ou seja, Alegre tem o coração ao lado da esquerda que se manifesta nas ruas contra os pacotes de austeridade de Sócrates e a razão a dizer-lhe que «é muito difícil um candidato de esquerda ganhar uma eleição presidencial sem o apoio do PS», como reconheceu anteontem, na entrevista à RTP.
E este vai ser o drama que irá acompanhar e ensombrar dia a dia, ao longo dos próximos seis meses, a campanha de Alegre na corrida para Belém. Não é possível estar com um pé e o espírito na manifestação da CGTP, ao lado de Louçã e Jerónimo, e com o outro pé em S. Bento, ao lado de Sócrates, quando este acaba de aprovar o PEC-II com o PSD. Alegre não poderá, daqui a três ou quatro meses, estar solidário com a esquerda que faz uma greve geral contra os cortes nos salários e nas prestações sociais e, em simultâneo, manifestar igual solidariedade para com um primeiro-ministro que esteja a anunciar um inevitável PEC-III ou PEC-IV.
É um equilibrismo eleitoral insustentável para qualquer candidato. Que torna o objectivo de Alegre conseguir o pleno de votos da esquerda equivalente ao desígnio de fazer a quadratura do círculo na geometria presidencial.
Enredado nesta insanável contradição política, que divide e desmotiva a sua base de votantes, Alegre dificilmente duplicará a sua votação de 2006 e chegará aos 40%. Mesmo contando que o politicamente ingénuo Fernando Nobre chegue além de uns improváveis 3% (ainda assim, sempre ajudará a desviar alguns votos de Cavaco).
E é inútil Manuel Alegre desafiar Cavaco Silva, como fez na RTP, a antecipar a candidatura que já pré-anunciou para Setembro-Outubro. Não é fácil Cavaco mudar de ideias a convite de um seu adversário. Nem parece que sirva os seus interesses, eleitorais e políticos, alongar o tempo de campanha para atrapalhar uma eleição virtualmente ganha à partida.
.MANUEL ALEGRE afirma estar contra os cortes do Governo nos subsídios de desemprego e que «teria sido preferível fazer cortes no desperdício» do aparelho de Estado. Mas, logo a seguir, acrescenta que é preciso aceitar o esforço de «consolidação orçamental» do Executivo socialista. Ou seja, Alegre tem o coração ao lado da esquerda que se manifesta nas ruas contra os pacotes de austeridade de Sócrates e a razão a dizer-lhe que «é muito difícil um candidato de esquerda ganhar uma eleição presidencial sem o apoio do PS», como reconheceu anteontem, na entrevista à RTP.
E este vai ser o drama que irá acompanhar e ensombrar dia a dia, ao longo dos próximos seis meses, a campanha de Alegre na corrida para Belém. Não é possível estar com um pé e o espírito na manifestação da CGTP, ao lado de Louçã e Jerónimo, e com o outro pé em S. Bento, ao lado de Sócrates, quando este acaba de aprovar o PEC-II com o PSD. Alegre não poderá, daqui a três ou quatro meses, estar solidário com a esquerda que faz uma greve geral contra os cortes nos salários e nas prestações sociais e, em simultâneo, manifestar igual solidariedade para com um primeiro-ministro que esteja a anunciar um inevitável PEC-III ou PEC-IV.
É um equilibrismo eleitoral insustentável para qualquer candidato. Que torna o objectivo de Alegre conseguir o pleno de votos da esquerda equivalente ao desígnio de fazer a quadratura do círculo na geometria presidencial.
Enredado nesta insanável contradição política, que divide e desmotiva a sua base de votantes, Alegre dificilmente duplicará a sua votação de 2006 e chegará aos 40%. Mesmo contando que o politicamente ingénuo Fernando Nobre chegue além de uns improváveis 3% (ainda assim, sempre ajudará a desviar alguns votos de Cavaco).
E é inútil Manuel Alegre desafiar Cavaco Silva, como fez na RTP, a antecipar a candidatura que já pré-anunciou para Setembro-Outubro. Não é fácil Cavaco mudar de ideias a convite de um seu adversário. Nem parece que sirva os seus interesses, eleitorais e políticos, alongar o tempo de campanha para atrapalhar uma eleição virtualmente ganha à partida.
«SOL» de 4 Jun 10
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jal
A situação está preta
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Por Ferreira Fernandes
Por Ferreira Fernandes
AS AGÊNCIAS de notação financeiras com aquele ar grave que põem para baixar notas acabam de dizer que vêem a BP numa "perspectiva negativa". A sério? As ratazanas do rating chegaram lá mais lentas que os pelicanos (e, estes, de asas coladas e patas presas na maré negra do golfo de México). A Fitch e a Moody's baixaram a BP do "AA+" para "AA". Agora que corre tanta tinta negra é que lhes deu para diminuírem os caracteres.
As autoridades americanas estenderam a primeira factura: 69 milhões de dólares. Que pode chegar a 20 mil milhões. Mas até esses números são tragáveis comparados à cara dos responsáveis da BP quando sobem a uma plataforma e se lhe estende um microfone. Ter uma branca é a expressão que se dá a quem nada lhe ocorre e tem mesmo de dar uma resposta. Ter uma branca é uma ironia quando se vê o que corre sob a plataforma. Mais preciso foi o patrão da empresa, Tony M. Hayword, falando para o Financial Times: "Não temos os instrumentos necessários na nossa caixa de ferramentas."
A jusante, na garagem, já ouvi mecânicos a dizer isso, tão a montante, à boca do poço de petróleo, nunca. É assustador. E pensar que o anterior patrão, Lord John Brown, queria, ainda há pouco, mudar o nome de British Petroleum para "Beyond Petroleum" (Para lá do Petróleo)... Mas, para arroubos líricos nas petrolíferas, nada melhor do que um susto real.
«DN» de 4 Jun 10
As autoridades americanas estenderam a primeira factura: 69 milhões de dólares. Que pode chegar a 20 mil milhões. Mas até esses números são tragáveis comparados à cara dos responsáveis da BP quando sobem a uma plataforma e se lhe estende um microfone. Ter uma branca é a expressão que se dá a quem nada lhe ocorre e tem mesmo de dar uma resposta. Ter uma branca é uma ironia quando se vê o que corre sob a plataforma. Mais preciso foi o patrão da empresa, Tony M. Hayword, falando para o Financial Times: "Não temos os instrumentos necessários na nossa caixa de ferramentas."
A jusante, na garagem, já ouvi mecânicos a dizer isso, tão a montante, à boca do poço de petróleo, nunca. É assustador. E pensar que o anterior patrão, Lord John Brown, queria, ainda há pouco, mudar o nome de British Petroleum para "Beyond Petroleum" (Para lá do Petróleo)... Mas, para arroubos líricos nas petrolíferas, nada melhor do que um susto real.
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Autor convidado,
f.f
Sugar sem dar de si
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Por Ferreira Fernandes
«DN» de 3 Jun 10
Por Ferreira Fernandes
HÁ DIAS, um Artrópodo, ordem Acarina e subordem Ixodoidea (facilitando: um carrapato), saltou para um palco de Oslo e pespegou-se frente ao cantor espanhol que actuava no Festival da Eurovisão. Foi dado ao cantor direito a segunda actuação, mas já não foi a mesma coisa.
Eu estava em Atenas, em 2004, quando outro carrapato saltou sobre o maratonista brasileiro Vanderlei Cordeiro, que liderava no fim da prova (aos 36 quilómetros). Cordeiro libertou-se mas, com a paragem e o susto, acabou em terceiro. E, como já tinha 36 anos, nunca mais soube se podia ter sido, mesmo, campeão olímpico.
O carrapato de Oslo tem nome artístico, Jimmy Jump, e diz-se "espontâneo profissional", o que, parecendo uma contradição nos termos, não é. Ele tem currículo, também por cá andou, nos minutos finais do Portugal-Grécia, no Europeu de 2004, interrompendo o trabalho dos outros e desvirtuando-o - quem sabe o que teria acontecido sem ele?
Estes carrapatos modernos, porque espalhafatosos, podem atrair alguma simpatia dos tansos, até porque são julgados inofensivos. Mas o seu pacifismo não é por convicção, é oportunista, permitindo-lhes sugar sem dar de si. E não é essa a definição de carrapato? Ontem, o representante de Jimmy Jump protestou porque ele fora, de novo, detido. Jimmy Jump tem representante! Claro, aquilo é um negócio. Não há espontâneos de borla.
.Eu estava em Atenas, em 2004, quando outro carrapato saltou sobre o maratonista brasileiro Vanderlei Cordeiro, que liderava no fim da prova (aos 36 quilómetros). Cordeiro libertou-se mas, com a paragem e o susto, acabou em terceiro. E, como já tinha 36 anos, nunca mais soube se podia ter sido, mesmo, campeão olímpico.
O carrapato de Oslo tem nome artístico, Jimmy Jump, e diz-se "espontâneo profissional", o que, parecendo uma contradição nos termos, não é. Ele tem currículo, também por cá andou, nos minutos finais do Portugal-Grécia, no Europeu de 2004, interrompendo o trabalho dos outros e desvirtuando-o - quem sabe o que teria acontecido sem ele?
Estes carrapatos modernos, porque espalhafatosos, podem atrair alguma simpatia dos tansos, até porque são julgados inofensivos. Mas o seu pacifismo não é por convicção, é oportunista, permitindo-lhes sugar sem dar de si. E não é essa a definição de carrapato? Ontem, o representante de Jimmy Jump protestou porque ele fora, de novo, detido. Jimmy Jump tem representante! Claro, aquilo é um negócio. Não há espontâneos de borla.
«DN» de 3 Jun 10
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f.f
Escolas
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«DE» de4 JUn 10
Por João Paulo Guerra
O GOVERNO socialista aproxima-se da sua própria expectativa: na anterior legislatura fechou 2500 escolas, agora prepara-se para fechar mais 900.
Dizem os jornais que essa é a "expectativa" do Governo. Fechar escolas transformou-se, desde os anos 80 com os governos de Cavaco Silva, num grande desiderato, um superior objectivo da acção governativa.
Em tempos, e à falta de um pensamento político próprio, original, os políticos portugueses diziam inspirar-se no modelo da Finlândia. Acontece que a Finlândia, posta perante uma crise, cortou em tudo e fez sacrifícios mas para aumentar os investimentos na educação e na formação tecnológica. Saiu da crise e hoje tem 75 por cento da população com o 12º ano, 32 por cento com formação universitária e a sociedade da informação mais avançada do mundo, dedica 3 por cento do PIB a investimentos em educação e dispõe de 25 universidades, todas públicas.
O Diário Económico explicava anteontem que é a situação económica que comanda a decisão de fechar 900 escolas. Mas o Governo e os seus arautos proclamam que os objectivos do fecho de escolas são educativos. O Governo diz que fecha escolas para combater o insucesso escolar. E pelo andamento que o fecho de escolas tem seguido nas últimas décadas, Portugal estará aqui estará perto do modelo da escolarização salazarista de um país que alcançou o vergonhoso lugar de campeão do analfabetismo. Quando deixar o Ministério da Educação, a ministra Isabel Alçada pode continuar a colecção juvenil, Aventura, escrevendo "Uma aventura na escola...fechada": crianças a atravessarem montes e vales, ao frio e à chuva, evitando os acidentes naturais dos caminhos e fugindo dos lobos, para chegarem às raras escolas de um país desertificado e mais ignorante.
.O GOVERNO socialista aproxima-se da sua própria expectativa: na anterior legislatura fechou 2500 escolas, agora prepara-se para fechar mais 900.
Dizem os jornais que essa é a "expectativa" do Governo. Fechar escolas transformou-se, desde os anos 80 com os governos de Cavaco Silva, num grande desiderato, um superior objectivo da acção governativa.
Em tempos, e à falta de um pensamento político próprio, original, os políticos portugueses diziam inspirar-se no modelo da Finlândia. Acontece que a Finlândia, posta perante uma crise, cortou em tudo e fez sacrifícios mas para aumentar os investimentos na educação e na formação tecnológica. Saiu da crise e hoje tem 75 por cento da população com o 12º ano, 32 por cento com formação universitária e a sociedade da informação mais avançada do mundo, dedica 3 por cento do PIB a investimentos em educação e dispõe de 25 universidades, todas públicas.
O Diário Económico explicava anteontem que é a situação económica que comanda a decisão de fechar 900 escolas. Mas o Governo e os seus arautos proclamam que os objectivos do fecho de escolas são educativos. O Governo diz que fecha escolas para combater o insucesso escolar. E pelo andamento que o fecho de escolas tem seguido nas últimas décadas, Portugal estará aqui estará perto do modelo da escolarização salazarista de um país que alcançou o vergonhoso lugar de campeão do analfabetismo. Quando deixar o Ministério da Educação, a ministra Isabel Alçada pode continuar a colecção juvenil, Aventura, escrevendo "Uma aventura na escola...fechada": crianças a atravessarem montes e vales, ao frio e à chuva, evitando os acidentes naturais dos caminhos e fugindo dos lobos, para chegarem às raras escolas de um país desertificado e mais ignorante.
«DE» de4 JUn 10
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quarta-feira, 2 de junho de 2010
O 'pragmatismo' contra a ideologia
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«DN» de 2 Jun10
Por Baptista-Bastos
CUNHAL, SOARES e SÁ CARNEIRO possuíam convicções e tinham projectos para o País. Gostássemos ou não da natureza desses projectos, estes faziam parte dos conceitos éticos e políticos de cada um daqueles homens, mas, sobretudo, correspondiam ao carácter da época. À ideologia, às ideologias. No imediato 25 de Abril, a criação das instituições era um problema capital. Sob uma figura de significado confuso: "democracia de tipo ocidental", vivemos uma ideia dividida, por imprecisa. Na verdade, ninguém sabia, exactamente, o que era a "democracia de tipo ocidental", pela singela razão de que, nessa lógica, havia democracias para todos os gostos e recados, e, por sinal, algumas bem repressivas e arbitrárias.
Portugal não conseguia harmonizar distância reflexiva com politização. Cinquenta anos de fascismo haviam liquidado a interrogação do presente. Pouco ou nada compreendíamos das possibilidades de escolha. O tumulto do PREC envolvia uma poética das ruas, inseparável dos sinais exaltantes da liberdade, da festa. Quem viveu esses tempos, entende que a História confluía em múltiplas mas ingénuas certezas. E que tudo era aprendizagem. Até do amor, até do sexo, porque as coisas relacionavam-se como laços sociais.
A "normalização" e a ascensão ao poder do dr. Cavaco determinaram a substituição da ideologia e do sonho pelo "pragmatismo." O "pragmatismo" não transmite saber, facilita e dá cobertura a todas as vilezas políticas porque ausente de qualquer sobressalto moral. São as possibilidades circunstanciais que formam as afirmações das suas condutas. Guterres, Durão, Santana, Sócrates descendem directamente desse abaixamento, ilustrativo de uma "certa maneira de estar no tempo." Os espaços públicos de contestação e de discussão, que representavam um contra-poder, minguaram até desaparecer. A dimensão afectiva extinguiu-se. Burocratas da política tomaram o lugar das paixões do homem.
Enquanto Cunhal, Soares e Sá Carneiro, habitados pela ideia de mudança, jogaram, no regueirão da História, o que de melhor e de pior a sua experiência incorporava, aqueles que se lhes seguiram eram movidos pelos seus interesses pessoais. Acrescente-se uma nefasta mediocridade e o quadro talvez aclare esta triste desgraça em que vivemos: mentiras, vacuidade, ignorância, impunidade aos prevaricadores, enriquecimentos ilícitos.
A nossa insatisfação nasce desse jogo complexo do poder, do carácter nocivo de quem nos dirige e dos mecanismos económicos que se sobrepuseram à importância da ideologia. A decomposição social resulta da fragmentação identitária dos partidos, da ambiguidade política e da fragilidade cultural de quem conduz. E da impassibilidade de todos nós.
.CUNHAL, SOARES e SÁ CARNEIRO possuíam convicções e tinham projectos para o País. Gostássemos ou não da natureza desses projectos, estes faziam parte dos conceitos éticos e políticos de cada um daqueles homens, mas, sobretudo, correspondiam ao carácter da época. À ideologia, às ideologias. No imediato 25 de Abril, a criação das instituições era um problema capital. Sob uma figura de significado confuso: "democracia de tipo ocidental", vivemos uma ideia dividida, por imprecisa. Na verdade, ninguém sabia, exactamente, o que era a "democracia de tipo ocidental", pela singela razão de que, nessa lógica, havia democracias para todos os gostos e recados, e, por sinal, algumas bem repressivas e arbitrárias.
Portugal não conseguia harmonizar distância reflexiva com politização. Cinquenta anos de fascismo haviam liquidado a interrogação do presente. Pouco ou nada compreendíamos das possibilidades de escolha. O tumulto do PREC envolvia uma poética das ruas, inseparável dos sinais exaltantes da liberdade, da festa. Quem viveu esses tempos, entende que a História confluía em múltiplas mas ingénuas certezas. E que tudo era aprendizagem. Até do amor, até do sexo, porque as coisas relacionavam-se como laços sociais.
A "normalização" e a ascensão ao poder do dr. Cavaco determinaram a substituição da ideologia e do sonho pelo "pragmatismo." O "pragmatismo" não transmite saber, facilita e dá cobertura a todas as vilezas políticas porque ausente de qualquer sobressalto moral. São as possibilidades circunstanciais que formam as afirmações das suas condutas. Guterres, Durão, Santana, Sócrates descendem directamente desse abaixamento, ilustrativo de uma "certa maneira de estar no tempo." Os espaços públicos de contestação e de discussão, que representavam um contra-poder, minguaram até desaparecer. A dimensão afectiva extinguiu-se. Burocratas da política tomaram o lugar das paixões do homem.
Enquanto Cunhal, Soares e Sá Carneiro, habitados pela ideia de mudança, jogaram, no regueirão da História, o que de melhor e de pior a sua experiência incorporava, aqueles que se lhes seguiram eram movidos pelos seus interesses pessoais. Acrescente-se uma nefasta mediocridade e o quadro talvez aclare esta triste desgraça em que vivemos: mentiras, vacuidade, ignorância, impunidade aos prevaricadores, enriquecimentos ilícitos.
A nossa insatisfação nasce desse jogo complexo do poder, do carácter nocivo de quem nos dirige e dos mecanismos económicos que se sobrepuseram à importância da ideologia. A decomposição social resulta da fragmentação identitária dos partidos, da ambiguidade política e da fragilidade cultural de quem conduz. E da impassibilidade de todos nós.
«DN» de 2 Jun10
terça-feira, 1 de junho de 2010
Passatempo «Dia da Criança» - Solução
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Os 8 leitores (sim, oito) que mais se tenham aproximado deste valor têm, a partir de agora, 24h para escreverem para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada para envio do livro e o nome do jovem a quem é dedicado. Em caso de empate, tem prioridade o 1.º "apostador".
Poderão indicar preferências, o que deverão fazer por ordem decrescente de interesse (*). Os livros seguirão para o correio - o mais tardar - na 5ª-feira de manhã.
Actualização (20h30m): Se não me enganei nas contas, os 8 premiados são:
1-Macy..1963 => erro= 24
2-Aª Pires..1950 => erro= 37
3-Mg..1947=> erro= 40
4-MNCardoso..1900 => erro= 87
5-Ramiro..1852 => erro= 135
6-Heresias..1850 => erro= 137
7-Ferreira..1789 => erro= 198
8-Borboleta..1760 => erro= 227
(Atenção, agora, ao prazo de 24h para indicar moradas e nomes dos jovens a quem os livros se destinam).
___
Terão de esperar pela próxima:
9-L Bonito..1740 => erro= 247
10-Amália..1680 => erro=307
11-Lau..1603 => erro= 384
12-Gimli..1540 => erro= 447
13-A.Xavier..1500 => erro= 487
14-Pedro Q..1410 => erro= 577
15-R Cunha..1395 => erro= 592
16-Zezita..1305 => erro= 682
17-Florêncio..1111 => erro= 876
(*) - Para a escolha dos livros pretendidos:
Macy, tendo ficado em 1.º lugar, poderá escolher o que quiser.
Antónia Pires só precisará de indicar 2 livros.
'Mg' só precisará de indicar 3 livros
Etc
Poderão indicar preferências, o que deverão fazer por ordem decrescente de interesse (*). Os livros seguirão para o correio - o mais tardar - na 5ª-feira de manhã.
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Atenção ao tamanho da vossa caixa do correio, pois alguns livros são grandes (nomeadamente o de Alice Vieira, que tem 23cm x 31cm)..oOo.
Actualização (20h30m): Se não me enganei nas contas, os 8 premiados são:
1-Macy..1963 => erro= 24
2-Aª Pires..1950 => erro= 37
3-Mg..1947=> erro= 40
4-MNCardoso..1900 => erro= 87
5-Ramiro..1852 => erro= 135
6-Heresias..1850 => erro= 137
7-Ferreira..1789 => erro= 198
8-Borboleta..1760 => erro= 227
(Atenção, agora, ao prazo de 24h para indicar moradas e nomes dos jovens a quem os livros se destinam).
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Terão de esperar pela próxima:
9-L Bonito..1740 => erro= 247
10-Amália..1680 => erro=307
11-Lau..1603 => erro= 384
12-Gimli..1540 => erro= 447
13-A.Xavier..1500 => erro= 487
14-Pedro Q..1410 => erro= 577
15-R Cunha..1395 => erro= 592
16-Zezita..1305 => erro= 682
17-Florêncio..1111 => erro= 876
.oOo.
(*) - Para a escolha dos livros pretendidos:
Macy, tendo ficado em 1.º lugar, poderá escolher o que quiser.
Antónia Pires só precisará de indicar 2 livros.
'Mg' só precisará de indicar 3 livros
Etc
Martin Gardner, o matemático amador
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Por Nuno Crato
SÁBADO PASSADO, a notícia propagou-se rapidamente na comunidade matemática. Gardner, o fabuloso criador de charadas, o fantástico divulgador da matemática, o incansável crítico da irracionalidade e da crendice, tinha falecido num hospital em Oklahoma, aos 95 anos.
Martin Gardner nascera em 21 do Outubro de 1914 em Tulsa, no mesmo estado onde viria a falecer, e estudou filosofia em Chicago. De volta à sua terra natal trabalhou como jornalista, até que a guerra o levou à volta do mundo ao serviço da marinha. Nas noites livres, começou a escrever histórias fantásticas e, no fim da guerra, colaborou no magazine Esquire, até que os editores se fartaram do seu estilo irreverente. Trabalhou então numa revista para crianças e escreveu o seu primeiro livro, “Fads and Fallacies in the Name of Science” (Modas e Falácias em Nome da Ciência).
Em 1956, escreveu, um pouco por acaso, um artigo para o “Scientific American”. Falava de “hexaflexagones”, construções geométricas com propriedades muito curiosas e que são usualmente representadas em pedaços de papel que se desdobram para revelar faces insuspeitadas. O artigo foi um sucesso e o editor convidou-o a escrever uma coluna sobre curiosidades e jogos matemáticos.
Começou aí uma colaboração que demoraria 25 anos. Mês após mês, as colunas de Martin Gardner surpreendiam cientistas e entretinham curiosos. Revelavam curiosidades matemáticas pouco conhecidas e divulgavam amiúde resultados e problemas lógicos que estavam ainda a ser desenvolvidos por investigadores profissionais. Muitos matemáticos e cientistas encontravam na coluna de Martin Gardner informações sobre temas matemáticos que desconheciam; muitos jovens encontravam aí desafios com que se divertiam; e muitos curiosos aprenderam matemática nessa coluna aparentemente modesta.
O que é espantoso, para além do talento de Gardner para explicar de forma simples problemas intrincados, foi a sua capacidade de produzir, mês após mês, crónicas vivas e complexas, com explicações matemáticas que não continham erros nem falhas. Gardner tornou-se uma autoridade em muitos temas matemáticos e científicos. Surpreendente, para um ensaísta que apenas tinha estudado filosofia na universidade!
A chave do seu sucesso, segundo o próprio afirmava, talvez com exagerada modéstia, foi um misto de ignorância e de trabalho esforçado: “Demorava tanto tempo a perceber aquilo que estava a apresentar, que aprendia a escrever de forma que todos os leitores me podiam compreender”.
Em 1976, Gardner criou, com Carl Sagan , Isac Asimov e outros, o Comité para a Investigação Científica do Paranormal, com que empreendeu um ataque cerrado à pseudo-ciência. O grupo veio a gerar um jornal que ainda hoje existe, o “Skeptical Inquirer”, onde Gardner escreveu até 2002. Os seus últimos escritos foram sobretudo de cariz filosófico, área em que o grande divulgador da matemática se revelou um adversário temível do relativismo e do pós-modernismo.
Ao longo de uma vida extraordinariamente produtiva, Martin Gardner escreveu mais de 70 livros. Alguns deles encontram-se traduzidos em Portugal pela Gradiva. Outros são fáceis de adquirir internacionalmente. Com o seu falecimento desaparece um grande intelectual. Desaparece aquele que Stephen Jay Gould dizia ser “a mais luminosa luz de defesa da racionalidade e da boa ciência”.
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 29 Mai 10
Por Nuno Crato
SÁBADO PASSADO, a notícia propagou-se rapidamente na comunidade matemática. Gardner, o fabuloso criador de charadas, o fantástico divulgador da matemática, o incansável crítico da irracionalidade e da crendice, tinha falecido num hospital em Oklahoma, aos 95 anos.
Martin Gardner nascera em 21 do Outubro de 1914 em Tulsa, no mesmo estado onde viria a falecer, e estudou filosofia em Chicago. De volta à sua terra natal trabalhou como jornalista, até que a guerra o levou à volta do mundo ao serviço da marinha. Nas noites livres, começou a escrever histórias fantásticas e, no fim da guerra, colaborou no magazine Esquire, até que os editores se fartaram do seu estilo irreverente. Trabalhou então numa revista para crianças e escreveu o seu primeiro livro, “Fads and Fallacies in the Name of Science” (Modas e Falácias em Nome da Ciência).
Em 1956, escreveu, um pouco por acaso, um artigo para o “Scientific American”. Falava de “hexaflexagones”, construções geométricas com propriedades muito curiosas e que são usualmente representadas em pedaços de papel que se desdobram para revelar faces insuspeitadas. O artigo foi um sucesso e o editor convidou-o a escrever uma coluna sobre curiosidades e jogos matemáticos.
Começou aí uma colaboração que demoraria 25 anos. Mês após mês, as colunas de Martin Gardner surpreendiam cientistas e entretinham curiosos. Revelavam curiosidades matemáticas pouco conhecidas e divulgavam amiúde resultados e problemas lógicos que estavam ainda a ser desenvolvidos por investigadores profissionais. Muitos matemáticos e cientistas encontravam na coluna de Martin Gardner informações sobre temas matemáticos que desconheciam; muitos jovens encontravam aí desafios com que se divertiam; e muitos curiosos aprenderam matemática nessa coluna aparentemente modesta.
O que é espantoso, para além do talento de Gardner para explicar de forma simples problemas intrincados, foi a sua capacidade de produzir, mês após mês, crónicas vivas e complexas, com explicações matemáticas que não continham erros nem falhas. Gardner tornou-se uma autoridade em muitos temas matemáticos e científicos. Surpreendente, para um ensaísta que apenas tinha estudado filosofia na universidade!
A chave do seu sucesso, segundo o próprio afirmava, talvez com exagerada modéstia, foi um misto de ignorância e de trabalho esforçado: “Demorava tanto tempo a perceber aquilo que estava a apresentar, que aprendia a escrever de forma que todos os leitores me podiam compreender”.
Em 1976, Gardner criou, com Carl Sagan , Isac Asimov e outros, o Comité para a Investigação Científica do Paranormal, com que empreendeu um ataque cerrado à pseudo-ciência. O grupo veio a gerar um jornal que ainda hoje existe, o “Skeptical Inquirer”, onde Gardner escreveu até 2002. Os seus últimos escritos foram sobretudo de cariz filosófico, área em que o grande divulgador da matemática se revelou um adversário temível do relativismo e do pós-modernismo.
Ao longo de uma vida extraordinariamente produtiva, Martin Gardner escreveu mais de 70 livros. Alguns deles encontram-se traduzidos em Portugal pela Gradiva. Outros são fáceis de adquirir internacionalmente. Com o seu falecimento desaparece um grande intelectual. Desaparece aquele que Stephen Jay Gould dizia ser “a mais luminosa luz de defesa da racionalidade e da boa ciência”.
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 29 Mai 10
Contas
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Por João Paulo Guerra
QUATRO MESES após o lançamento da candidatura de Manuel Alegre à Presidência da República, o PS lá decidiu apoiar o socialista que está na corrida a Belém. E porquê?
Porque, como disse José Sócrates, o PS não poderia "decidir... não decidir". Não decidir, uma alternativa em cima da mesa, consistia em o PS dizer aos militantes e votantes que não se habilitava a ter voto na matéria.
Seria apenas absurdo e ridículo, não fosse dar-se o caso de os defensores de tão bizarra opção serem quadros do PS que não se têm cansado de elogiar a candidatura do presidente da AMI. Uma espécie de candidato Pintasilgo 2010: não é para ganhar, mas para impedir que alguém fique em posição de disputar a vitória. Muita coisa pode acontecer nas presidenciais. Mas já existe um derrotado. O dr. Fernando Nobre era até agora um homem de causas que emocionava muitos portugueses pela coragem e disponibilidade para ajudar os que sofrem, em qualquer parte do mundo. Desta vez, optou por ajudar os que, cá por casa, sofrem de dor de cotovelo.
Quanto ao apoio do PS à candidatura de Manuel Alegre, alguns socialistas terão andado a colocar areia na engrenagem para que, chegada a devida altura, a máquina não funcione. Primeiro porque já levaram a descrença a uma parte do próprio eleitorado. Segundo porque haverá eleitores que entendem a hesitação do PS como uma prévia declaração de voto de vencido. E depois porque o PS que sai por fim em apoio de Alegre é o mesmo que na semana passada surgiu de rastos na sondagem publicada pelo DE. Mas pode ser que se enganem.
Os resultados das presidenciais de 2006 provaram que há milhões de votos que não têm dono. A questão é entre os candidatos credíveis e a consciência dos eleitores. E no fim fazem-se as contas.
.Por João Paulo Guerra
QUATRO MESES após o lançamento da candidatura de Manuel Alegre à Presidência da República, o PS lá decidiu apoiar o socialista que está na corrida a Belém. E porquê?
Porque, como disse José Sócrates, o PS não poderia "decidir... não decidir". Não decidir, uma alternativa em cima da mesa, consistia em o PS dizer aos militantes e votantes que não se habilitava a ter voto na matéria.
Seria apenas absurdo e ridículo, não fosse dar-se o caso de os defensores de tão bizarra opção serem quadros do PS que não se têm cansado de elogiar a candidatura do presidente da AMI. Uma espécie de candidato Pintasilgo 2010: não é para ganhar, mas para impedir que alguém fique em posição de disputar a vitória. Muita coisa pode acontecer nas presidenciais. Mas já existe um derrotado. O dr. Fernando Nobre era até agora um homem de causas que emocionava muitos portugueses pela coragem e disponibilidade para ajudar os que sofrem, em qualquer parte do mundo. Desta vez, optou por ajudar os que, cá por casa, sofrem de dor de cotovelo.
Quanto ao apoio do PS à candidatura de Manuel Alegre, alguns socialistas terão andado a colocar areia na engrenagem para que, chegada a devida altura, a máquina não funcione. Primeiro porque já levaram a descrença a uma parte do próprio eleitorado. Segundo porque haverá eleitores que entendem a hesitação do PS como uma prévia declaração de voto de vencido. E depois porque o PS que sai por fim em apoio de Alegre é o mesmo que na semana passada surgiu de rastos na sondagem publicada pelo DE. Mas pode ser que se enganem.
Os resultados das presidenciais de 2006 provaram que há milhões de votos que não têm dono. A questão é entre os candidatos credíveis e a consciência dos eleitores. E no fim fazem-se as contas.
«DE» de 1 Jun 10
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