segunda-feira, 9 de agosto de 2010

As minhas inconfessáveis aventuras no Facebook

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Por Ferreira Fernandes

Se um desconhecido lhe estender um “queres ser meu amigo?”, hesite. Posso ser eu a inventar passados e a tentar curar-me de traumas da infância

QUANDO EU TINHA seis anos e estava na 1ª classe, uma prima que tinha as pernas mais compridas que as minhas apresentou-me a Teresinha. Esta ofereceu-me a imagem de uma santinha, de cores suaves. Estavam as três a sorrir para mim e reparei que as mais novas (as duas que não tinham lírios à volta nem aura) gozavam-me. Corri atrás da minha prima que se me escapou como era costume, ignorei a Teresinha e, horas depois, descobri a imagem amarfanhada no bolso dos calções. Deitei fora a santinha sem perceber que marcava ali o meu destino. Nunca mais suportei a pergunta piegas: “Queres ser meu amigo?”

Não que me tenha tornado anti-amiguista primário. Tenho amigos, mas selecciono-os rigorosamente. Aos candidatos e candidatas convido a cavalgarmos até à melhor vista do Sol a cair atrás do Grand Canyon e eventualmente fumamos um Marlboro – se ao fim do lusco-fusco nenhuma palavra for trocada, tenho um(a) amigo(a) até ao fim da vida. Não suporto é, repito, o “queres ser meu amigo?”. Evidentemente, não estou no Facebook.

Quer dizer, estou mas sob pseudónimos. A única vez que me enterneceu uma mão suplicante de afectos foi a do Tavares, num encontro de antigos alunos do luandense Liceu Salvador Correia. Gordo e careca ele andava com um cartaz ao peito com foto colada. À volta da imagem a preto e branco de um adolescente guedelhudo estava um círculo vermelho que sublinhava esta frase em maiúsculas: “ESTE SOU EU!” Ele parava nos grupos, apontava a foto, dizia ser “o Tavares” e “do 6º C, 1963-64” e o mais que recebia era um ou outro meio-sorriso. A mim, ele reconheceu-me num abraço apertado: “Olha o terror das provetas! Ganda Seixas!”, lançou-me, comovido. Fui sempre “Fernandes” no meu liceu e, pretendendo ir para Economia, nunca entrei num laboratório. Disse-lhe: “Estás na mesma, Tavares!” Estava a ser sincero, nunca o tinha visto.

O equívoco não impediu uma tarde de recordações comuns em que pelo menos metade delas, as evocadas por mim, provinham da minha atenção em anteriores encontros de antigos alunos. “Lembraste do Lucas, o filho do professor?”, perguntei. Não nos lembrávamos nós de outra coisa – embora pela minha parte fosse impossível: quando entrei para o liceu já o Lucas tinha saído e era uma lenda. Passámos, eu e o Tavares, uma tarde inolvidável. Eu queria ser amigo dele, ele queria ser meu, e nem pedimos autorizações tais elas eram óbvias. Trocámos telefones. Nunca lhe liguei, com receio de vir a descobrir que o Tavares talvez tivesse estudado no liceu António Enes, em Lourenço Marques, e nunca pôs os pés em Luanda.

Mas as duas coisas concorreram para eu entrar para o Facebook e com falsos nomes. Entrar, para saborear amizades antigas (inventadas, mas antigas); sob nomes falsos, para não me desiludir. A coisa obriga-me a estudos minuciosos, a fotos da época e a uma forte convicção de que as novas tecnologias vieram para me servir.

Como, por definição, os meus personagens fantasmas não têm passado nem tão-pouco tiveram tempo de fazer amigos antigos a quem dê ganas de retomar contactos, eu próprio tomo a iniciativa em insinuar-me. Não podendo só apresentar um inexistente “Cristóvão Crisóstomo” (não procurem, esse ainda não inscrevi), invento-lhe um passado num lugar muito social – e parto à pesca (“queres ser meu amigo?”) entre quem já tem conta no Facebook e eu sei ter frequentado aquele tal lugar. Privilegio o nicho dos liceus porque, aí, a nostalgia é segura e as hesitações de memória são justificáveis. Tenho tido sucesso e eu, o falso, já pus em contacto verdadeiros antigos amigos, um com o outro. A minha coroa de glória foi quando alguém escreveu: “Éramos um trio do camandro!” E eu e o outro comentámos logo: “Se éramos!” Rimos os três por estas respostas simultâneas. De facto, só mesmo as amizades antigas permitem estas transmissões de pensamento.
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«DN» e «JN» de 8 Ago 10

SALVEM O ADÃO

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Por Maria Filomena Mónica

OS HOMENS, no sentido estrito do termo, podem estar em vias de extinção, um assunto que, para meu espanto, não tem figurado nas primeiras páginas dos jornais. A ideia, expressa em Génesis:2, de que a mulher teria nascido de uma costela do Adão não se encontra validada do ponto de vista científico, o que tem consequências na sobrevivência do género masculino. Durante o último fim-de-semana, reli, em simultâneo, a Bíblia, alguns livros escritos por biólogos e The Diary of Adam and Eve de Mark Twain, o opúsculo o mais genial que conheço.

Sempre me causou espanto o facto de ninguém afirmar claramente que o Adão era um idiota, como o prova a sua falta de apetite por saber coisas. Foi necessário aparecer a Eva para que ele notasse que o fruto proibido estava ali, a dois passos, à mão de semear. Como a serpente disse à mulher, «Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal». Na minha inocência, julgava que isto era bom. Era até, pensava, o fundamento da ética, mas, na Bíblia, as coisas nunca são simples. Eis o que se segue: «Vendo a mulher que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de atraente aspecto e precioso para esclarecer a inteligência (sublinhado meu), agarrou do fruto, comeu, deu dele a seu marido, que estava junto dela, e ele também comeu.»

Apercebendo-se que estavam nus, o que seria um mal, Adão e Eva cobriram-se à volta dos rins com folhas de figueira (sempre me parecem parras, mas Deus lá sabe), após o que se esconderam. Mas para Jeová não há segredos. Este descobriu rapidamente o encolhido Adão, perguntando-lhe, com ar severo, o que acontecera. O queixinhas disse logo que a culpa não era dele, mas da mulher «que trouxeste para junto de mim». Esperta, a Eva decidiu atribuir a responsabilidade à serpente, mas Aquele não se impressionou, decretando que, doravante, ela passaria, não só a procurar um homem com paixão, mas a sofrer as dores do parto. Pelos vistos, Jeová não previra a epidural, pelo que a única maldição que subsiste – e de uma maldição se trata – é a de nos apaixonarmos.

É quase impossível dar-vos o tom que Twain usa para descrever a forma como Adão olha Eva pela primeira vez. Dado tratar-se de um artigo com apenas 13 páginas, mesmo o mais preguiçoso Adão conseguirá lê-lo. Dou-vos apenas o cenário. Estamos no Paraíso, onde Adão reina feliz, sozinho e soberano. A certa altura, depara-se com um animal diferente daqueles que conhecia, um bicho que não cessa de falar, que o persegue sem motivo compreensível e que tem ideias cada vez mais loucas. Era, claro, a Eva.

Salto abruptamente para as descobertas científicas. Recentemente, saíram dois livros, Y: The Descent Of Man, de Steve Jones (2002) e Adam’s Curse, de Bryan Sykes (2004), que demonstram que o sexo masculino é uma espécie apenas agarrada à vida através de um cromossoma frágil, de seu nome Y. De acordo com as investigações modernas, não seria a mulher que nascera do homem, mas este da costela feminina. Se não acreditam em mim, interroguem o primeiro cientista que encontrarem na rua.

Embora o cromossoma Y possa ser identificado com a força, o facto é que contem um princípio de vulnerabilidade. Originariamente, albergava, é certo, um conjunto de genes que desempenhavam as suas funções. A maldição começou quando o homem pretendeu lutar contra os dinossauros, desta forma assumindo o papel de sexo forte. Ao contrário do cromossoma X, capaz de metamorfosear os seus genes, a fim de evitar mutações fatais, o Y não consegue reparar os ataques que contra ele se vão acumulando, ou seja, não tem capacidade para cicatrizar as feridas que o tempo provoca. É por isso que a infertilidade masculina não para de aumentar. Dentro de cerca 125 000 anos os homens estarão totalmente extintos.

A possibilidade baralha-me. Sabia que o esperma era necessário para a reprodução da espécie, pelo que a notícia da morte do cromossoma Y me pareceu aterradora. Todavia, há quem defenda ser possível unir um óvulo a outro, em vez de o unir a um espermatozóide, mantendo-se viva a espécie humana, embora sob forma exclusivamente feminina. Isto tão pouco me agrada. Os homens fazem-me falta, quanto mais não seja para poder exibir a minha superioridade. Amanhã, vou organizar um movimento para a preservação da espécie masculina.
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«GQ» de Maio 2009

domingo, 8 de agosto de 2010

Sucesso incrível de exportação lusa

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Por Ferreira Fernandes

EM NOVEMBRO de 2001, capa da revista brasileira Veja: "Falar e escrever, eis a questão." Esta semana, 451 capas depois, Veja volta à carga: "Português: falar bem é vital."
Lembro aos distraídos: a revista Veja não é o Jornal de Letras lá do sítio, vende mais de um milhão de exemplares. É como as nossas Sábado e Visão, sim, também fala de lipoaspirações (foi capa na semana passada) mas, semana vai, não vai, farta-se de regar aquilo que é o seu ganha-pão. Isso, o português. E não é mania dessa revista só. O "professor Pasquale" é personalidade nacional por aquilo que ensina nas colunas da Folha de São Paulo e de O Globo, rádios e televisões. Ele nasceu numa impronunciável Guaratinguetá e é filho de italianos, mas o assunto que o tornou famoso, já adivinharam, é o português.
Agora que os negócios Portugal-Brasil saltaram para as manchetes, apetece perguntar por esse produto primacial da relação. Na língua, quem deve a quem? Os portugueses devem cobrar juros por terem cedido o português? Ou os portugueses têm de pagar salário a quem tão bem cuida da menina dos seus olhos? Porque recriava a língua, Rubem Braga dizia: "Confesso, escrevo de palpite." Estava a fugir aos juros, sugerindo que a língua portuguesa ele não a contratou, era ele. Eu também fujo de pagar à Veja pelo orgulho que me dão aquelas capas.
Este é um raro negócio com dois lados a ganhar muito.
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«DN» de 8 Ago 10

sábado, 7 de agosto de 2010

Os ossos do atleta pobre

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Por Ferreira Fernandes

O NORMAL, na América, são os lugares estranhos. O uísque Jack Daniel's faz-se em Lynchburg, no Tennessee, um condado ainda sob a Lei Seca (é proibido beber álcool).
O próprio dos lugares americanos é agitarem-se, nem que seja com trocadilho: Reno, no Nevada, apresenta-se como "a maior pequena cidade do mundo!".
Antigamente ninguém parava numa vila mineira na Pensilvânia que ainda não se chamava Jim Thorpe. Depois, em 1953, a cidadezinha comprou à viúva de Jim Thorpe o direito de ficar com o túmulo e o nome do atleta - e atraiu turistas. A Associated Press acabara de eleger Jim Thorpe o maior atleta da primeira metade do século. Índio mestiço, ele foi ouro no pentatlo e no decatlo, nos JO de Estocolmo, em 1912. Mas em 1913 retiraram-lhe as medalhas por não ser amador puro. Quando estudante tinha ganho 35 dólares semanais num campeonato liceal...
Thorpe morreu em 1953, na miséria e sem as medalhas (que só seriam devolvidas aos filhos em 1983). Ontem, o Times de Londres contava que os filhos queriam também recuperar os ossos do pai para levá-lo para a terra natal no Oklahoma. Ele nunca tinha vivido na cidade a que deu o nome.
O milionário Avery Brundage ficou 6.º no pentatlo, em 1912. Enquanto foi presidente do Comité Olímpico Internacional, nunca permitiu que as medalhas de Jim Thorpe lhe fossem devolvidas. Brundage está sepultado no cemitério que quis, em Rosehill, Chicago.

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«DN» de 7 Ago 10

Pátio do Tronco - 3 Ago 10



A Justiça e a Senhora da Agrela

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Por Antunes Ferreira

«Só falta o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, SMMP, querer prender o Procurador Geral da República». Quem o disse foi o advogado, professor universitário e presidente do MRPP, Garcia Pereira. E poderia ter dito que só faltava que o SMMP quisesse executar, em público, Pinto Ribeiro, com um tiro na nuca e a bala paga pela família. O exemplo tem origem na RPC.

O diz-que-disse-que-disse, entretenimento nacional e desporto mais popular no nosso País, corrijo, depois do futebol, foi muito interessante, é e promete continuar a ser. E instrutivo. Até porque nunca é tarde para aprender. Desde a auto-qualificação pelo próprio Procurador, considerando que necessitava de mais poderes, de ser quase Rainha da Inglaterra, até ao atestado de incompetência passado pelo Sindicato, houve lugar para tudo. Um verdadeiro wrestling juridico-anedótico. Só que no vertente, ao contrário do ringue, não é previamente combinado.

Toda a gente que se acha importante da política & afins tem molhado a sopa neste escabroso tema. Ou melhor, nesta enorme caldeirada. Até à data em que escrevo este texto, mais precisamente, quarta-feira, 4 do corrente Agosto, ainda não participam na refrega justiceira, que eu saiba, o Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa e o tesoureiro da Junta de Freguesia de Alcagoitas e pouquíssimas entidades mais. É um esclarecedor fartar vilanagem, com a excepção vicentina da arraia-miúda.

Querido País este, que em plena época estival (em que o pessoal só vai a banhos o mais longe possível, ou seja a Costa da Caparica, incluindo o Meco, e por determinação pública de Sua Excelência o Senhor Presidente da Re-pública), se dedica a estas trocas de galhardetes realmente empolgantes. Longe já vai o tempo do Mundial sul-africano e esquecido paulatinamente o imbroglio do Queiroz – o Carlos, que o pobre do Eça, felizmente, não faz parte destas trocas e baldrocas.

Assim vai a Justiça (???) neste torrão natal, à beira-mar debruçado. Valha-lhe a Senhora da Agrela, que não há santa como ela. Valha-nos.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

É RIDÍCULO, é quase anedótico, que um processo judicial com a importância social e política do caso Freeport, envolvendo o próprio primeiro-ministro, chegue ao fim sem nada apurar de relevante. E com listas de perguntas, 27 a José Sócrates e 10 a Pedro Silva Pereira, não efectuadas por falta de tempo (!) ou por obrigação, imposta pela directora do DCIAP, Cândida Almeida, de se encerrar apressadamente o caso. Este episódio é o espelho do imenso descrédito em que se atolou a Justiça portuguesa.

Ainda mais ridículo, se possível, é o espectáculo dado por um procurador-geral da República que só ao fim de quatro anos no cargo descobre que tem «os poderes da Rainha de Inglaterra». Pinto Monteiro é um PGR que sacode sempre as responsabilidades de cima do seu casaco: ou as tenta disfarçar com inquéritos de averiguações que nunca dão em nada, ou atira as culpas para quem estiver mais à mão, neste caso o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público. É um PGR que impõe o ineditismo legal de manter em funções o seu vice-PGR já incompatível para o cargo. É um PGR que se permite a prática insólita de rasurar despachos por si exarados, como aconteceu com as escutas do processo Face Oculta. É um PGR capaz de desdizer com um sorriso tudo o que antes dissera, como o que agora veio afirmar, ao contrário do que garantira em Março, sobre a autonomia do Ministério Público. Pior ainda e mais grave: é um PGR que esteve sempre, por acções e omissões, alinhado e protegendo o poder político em funções.

Pinto Monteiro deixou de ter as condições mínimas necessárias para exercer o cargo de PGR com dignidade e com o respeito dos portugueses. E a procuradora Cândida Almeida deveria ter-se reformado há dois ou três anos, por forma a evitar a série de infelizes e desprestigiantes episódios que tem protagonizado neste seu final de carreira. Alguém da confiança de ambos, algum responsável do PS por exemplo, deveria aconselhá-los a procurar a porta de saída.

P. S. – Mário Bettencout Resendes tinha um pensamento aberto e sem amarras, o gosto da notícia e o saber de a comunicar, princípios sólidos, seriedade e isenção – características essenciais à prática do bom jornalismo. Em Portugal, nesta como nas outras profissões, não há muitos que reúnam tantas qualidades. Vai fazer falta.
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«SOL» de 6 Ago 10

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Arsénico antigo envenena presente

Por Ferreira Fernandes

HÁ DIAS, contou o New York Times, abriram o sarcófago de Simão Bolívar, ao som do hino e em directo para a TV, no Panteão de Caracas. Como em tudo que é grandiloquente na Venezuela, Hugo Chávez estava por trás. Ele disse que urgia tirar a limpo a dúvida histórica: o pai da Pátria morreu de tuberculose ou envenenado?
Simão Bolívar (1783-1830), um filho de Caracas, foi personagem extraordinário, libertador da Venezuela e do Equador, 1.º Presidente da Colômbia, do Peru e da Bolívia. Chávez serve-se dele como uma marca, ao ponto de ter mudado o nome do país para República Bolivariana da Venezuela. Tem sido sina de Bolívar servir de bandeira a líderes pitorescos: Vicente Gómez, ditador entre 1908 e 1935, fez coincidir as suas datas de vida e de morte com as do El Libertador.
Mas estas pantominas ingénuas podem ter consequências graves: a confirmar-se o arsénico, as relações entre Caracas e Bogotá, que já são más, podem agravar-se. Porquê? Porque Bolívar morreu na Colômbia... A verdade histórica é que Bolívar fora expulso da Venezuela, exilou-se na Colômbia e o congresso venezuelano até cortou relações com os vizinhos por o ter acolhido, mas a história pode ser sempre refeita... Mas refeita porquê?
George Orwell, no livro 1984, explicou: "Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado." É essa a aposta de Chávez.
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«DN» de 5 Ago 10

NOTA (CMR): na foto: estátua de Bolívar na Av. da Liberdade, em Lisboa.

As denúncias anónimas boas e as denúncias anónimas más

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Por Helena Matos

A PROPÓSITO DO FREEPORT, tal como da Casa Pia, a denúncia anónima tornou-se um estigma: “começou por denúncia anónima” – dizem como se o anonimato da denúncia atenuasse os factos denunciados. No caso do Freeport, a denúncia nem sequer foi anónima e os falsos anónimos acabaram condenados e provavelmente até serão os únicos condenados deste caso.
Não tenho simpatia pelo recurso ao expediente da denúncia anónima para abrir ou fazer andar processos. Noto, contudo, que os indignados da denúncia anónima no caso Freeport e no caso Casa Pia não se têm indignado com o estímulo das denúncias anónimas defendido e praticado por este governo. Na página do ministério da Justiça podemos denunciar anonimamente quem nos der na telha:

Formulário de apresentação de queixas à Inspecção-Geral dos Serviços de Justiça.
Utilize o formulário abaixo para apresentar a sua queixa, reclamação ou denúncia à Inspecção-Geral dos Serviços de Justiça. O preenchimento dos campos destinados à identificação não é obrigatório. Só será necessário o seu preenchimento caso pretenda receber informações sobre o andamento da queixa, reclamação ou denúncia apresentada. Se tiver dúvidas, consulte as perguntas frequentes inseridas na parte final deste formulário.


No caso da violência doméstica e do tráfico de droga as denúncias anónimas - e note-se que muitas destas denúncias mesmo que sobre factos reais nascem frequentemente por motivos muito obscuros - são consideradas essenciais. Será que as denúncias anónimas são todas boas à excepção daquelas que envolvem dirigentes do PS?
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Blasfémias.Net

CHARLES DARWIN

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Por M. Filomena Mónica

A PUBLICAÇÃO de A Origem das Espécies foi um dos mais impressionantes acontecimentos do século XIX. Quando o livro saiu, Darwin foi visto como o homem que tentara assassinar Deus. Começava uma polémica – será que descendemos dos macacos? teremos que deixar de acreditar em Adão e Eva? seremos obrigados a aceitar que o mundo não tem significado? – que durou até hoje.

A 12 de Fevereiro último [2009], celebrou-se o segundo centenário do seu nascimento e este ano festeja-se o 150.º aniversário de A Origem das Espécies. Se, em Portugal, o livro pouca atenção suscitou, tal deriva de o Vaticano desaconselhar a leitura da Bíblia, tendo os católicos aceite, como alimento espiritual, a magra dieta do Catecismo. Nos EUA, um país que nasceu umbilicalmente ligado à religião, as coisas fiaram mais fino. Apesar de o conceito da separação da Igreja e do Estado estar no cerne da Constituição, a América ainda é o país protestante no qual a Bíblia desempenha um papel mais importante. Não admira que tenha sido aqui que apareceu uma candidata a vice-presidente dos EUA insistindo em que o relato da Criação deveria ser tomado a letra.

Curiosamente, este tipo de fundamentalismo é uma criação moderna: o que preocupava os Vitorianos não era a interpretação da Bíblia – eram suficientemente cultos para saber que o texto sagrado era para ser lido como uma metáfora – mas a possibilidade de o Darwinismo poder transformar a vida num caos amoral. A expansão moderna das teses antidarwinistas foi uma reacção ao abrandamento, nos anos 1960, dos códigos morais.

Charles Robert Darwin nasceu no seio de uma família rica, culta e ilustre. Depois de ter feito vários estudos nas Universidades de Edimburgo e de Cambridge, optou por ser geólogo. Foi nessa qualidade que, aos 25 anos, partiu, a bordo do Beagle, para uma viagem que o levaria aos Açores, Cabo Verde, Baía, Rio de Janeiro, ilhas Falklands, Valparaíso, Galápagos, Cidade do Cabo, ilhas Maurícias e a Austrália. A 2 de Outubro de 1836, ao pôr os pés em Inglaterra, tinha já em mente os fundamentos da sua teoria, mas, com receio, não tanto da opinião pública, mas da forma como a mulher, uma anglicana fervorosa, reagiria, decidiu nada publicar. Foi preciso um susto para divulgar o que sabia. Em 1859, apercebeu-se que, se não o fizesse, outro – Alfred Russel Wallace – avançaria. Por muito amor que tivesse pela mulher – e tinha – sentiu-se obrigado a dar a conhecer a sua tese.

Do ponto de vista social, o pior ficava para trás. As décadas de 1830 e 1840 tinham assistido a momentos difíceis: os motins dos trabalhadores tinham-se multiplicado, os Dissenters enchido as igrejas de cânticos revolucionários e as classes médias exigido leis tidas como impensáveis. Neste contexto, como podia um jovem respeitável abrir um livro com notas de viagem e, de forma despreocupada, afirmar que os nossos antepassados eram chimpanzés? O dilema, entre o que sabia ser verdade e as exigências do meio social a que pertencia, dilacerou-o. Quando, um dia, se decidiu a contar a um amigo as conclusões a que chegara afirmou-lhe que, para ele, tal era idêntico a «confessar um crime».

Mal A Origem das Espécies apareceu nas livrarias, os anglicanos classificaram-na como ateia, afrancesada e imoral. Apesar do cuidado de Darwin em apresentar todas as provas e do apelo aos leitores para as considerarem imparcialmente, não era possível aos contemporâneos aceitarem, de ânimo leve, as conclusões do livro. Porque, do ponto de vista intelectual, Darwin era um revolucionário. Terá aliás sido o reconhecimento desta faceta que levou Karl Marx a, depois de ter pensado em dedicar-lhe a obra, lhe enviar O Capital.

Darwin continuou a observar a Natureza de forma obsessiva, tendo chegado a dizer que os corais o fascinavam mais do que a música de Handel. Na velhice, perseguido por sentimentos de culpa, escreveria uma Autobiografia destinada a ser lida pelos filhos e netos. Vinte e três anos depois da publicação do seu mais célebre livro, morria. Com o tempo, Darwin passara a ser considerado como alguém cujo estatuto intelectual só era comparável ao de Newton. Enquanto o coro cantava, em Westminster Abbey, «Happy is the man that findeth wisdom», a catedral, onde ficaria sepultado o seu corpo, enchia-se de professores, clérigos e aristocratas que vinham prestar a derradeira homenagem a um homem sábio e bom.

«GQ» - Abril 2009

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O sequestro com trema - Solução


Pág 17 .
Quem mais se tenha aproximado tem agora 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada para envio. (Em caso de empate, tem prioridade o 1.º apostador).
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Actualização: o vencedor foi Luís Bonito, com o palpite de pág. 23 (erro de 6 páginas).

E se a verdade não for novidade?

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Por Rui Tavares

QUANDO 90 MIL DOCUMENTOS
secretos sobre a guerra do Afeganistão são revelados, que ficamos a saber? Que os militares ocidentais matam mais civis inocentes do que revelam; que as chefias militares comandam esquadrões da morte; que as alianças no terreno são ambivalentes e hipócritas. Sim, é verdade: ficamos a saber aquilo que já sabíamos.

Mas não é por isso que estas revelações deixam de ser históricas. Aqueles que agora as desprezam como sendo triviais são os mesmo que antes se recusavam a admiti-las. Dizer que a verdade é trivial é apenas a nova forma que encontram de continuar a recusá-la.

Estranhamente, esta resposta tornou-se também opinião convencional entre os jornalistas. “Isto é verdade”, dizem, “mas não é novidade”. E então? Ao escolher a novidade contra a verdade, os jornalistas prestam um favor ao comando de guerra e um mau serviço à sociedade. A guerra do Afeganistão é agora pior do que uma guerra perdida: é uma guerra que não quer acabar.

Um exemplo: os ataques aéreos feitos por drones (ou seja: pequenos aviões telecomandados e não tripulados). Para a opinião pública dos EUA, os drones eram ovos de Colombo. Os “nossos” pilotos não estão lá nem pode ser abatidos; só os “maus” é que morrem. Genial!

Mas os documentos secretos revelados pela Wikileaks demonstram que estes drones matam muitos inocentes e que, quando caem, dão origem a custosas e violentas operações de resgate para que a tecnologia não caia em mãos inimigas. Os militares sempre souberam disso, e ocultaram-no.

E nós sempre pudemos saber — sem acesso a documentos secretos — que todas as novas armas de guerra têm um retorno. Tal como nas minas anti-pessoais, o problema não é o inimigo deter a tecnologia: é o conceito ter sido legitimado aos olhos da sua população-alvo. Quando um grupo terrorista telecomandar um drone sobre uma cidade ocidental, descobriremos que esta é uma arma cobarde. Toda a gente o dirá, — e se esquecerá de quem foram os primeiros a utilizá-la.

Desvalorizar a verdade como trivial só nos fará pagá-la mais cara.

Outra linha de ataque às revelações é comparativa. Diz-se nas redações: “o caso Wikileaks não é como os papéis do pentágono, revelados em 1971, nem como o escândalo Watergate, que o Washington Post noticiou em 1972″. E aqui os jornalistas estão simplesmente equivocados. Deixaram que a memória os traísse e não fizeram trabalho de arquivo.

Como lembra corretamente Frank Rich, colunista do New York Times, é verdade que os documentos da wikileaks tiveram de partilhar as primeiras páginas com o casamento de Chelsea Clinton. Mas a revelação dos “pentagon papers” também partilhou a primeira página do mesmo jornal com o casamento da filha de Nixon. O trivial e o fundamental sempre partilharam as primeiras páginas.

E quem viu Os Homens do Presidente — filme de 1976 sobre Watergate — sabe como ele acaba, já depois do escândalo revelado (quem não viu o filme talvez queira saltar este parágrafo): os dois jornalistas trabalham noite adentro enquanto as televisões dão a notícia da vitória esmagadora de Richard Nixon na sua segunda eleição.

No filme, os ruídos do telex e o fato de veludo castanho de Robert Redford estão para os anos 70 como os documentos secretos gravados em CDs da Lady Gaga e a figura de Julian Assange, fundador da Wikileaks, estarão para a nossa época. Seremos coloridos pelo trivial e definidos pelo fundamental. É que a verdade pode não ser novidade, e pode até não ser notícia. Mas não deixa de ser história.
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RuiTavares.net/blog

Ele, assim, não vai longe

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Por Baptista-Bastos

A CRER NAS ÚLTIMAS sondagens, Pedro Passos Coelho está a perder a base social de apoio. Os números são elucidativos. Empatou, praticamente, com Sócrates nas intenções de voto. A queda parece dever-se ao facto de falar em excesso. Por duas vezes, em Espanha, reprovou, com veemência, as decisões do Governo português em aplicar a golden share no negócio da PT-Telefónica-Vivo. Objectivamente, esteve ao lado dos espanhóis, materializando, com essa tineta fatal do neoliberalismo e das leis do mercado, os estados de incerteza e de angústia em que vivemos.

Passos seguia o balanço das ameaçadoras declarações sobre as alterações à Constituição, que haviam deixado toda a gente em polvorosa. Inclusive parte significativa dos apaniguados. Entendo que o presidente do PSD deseje marcar a diferença e ambicione ser o criador das horas de transição histórica. Mas o remédio deixou de estar na moda. A senhora Thatcher, seu modelo, é, hoje, tida como uma mediocridade política, que deixou a Inglaterra de rastos. E Tony Blair, inspirado naquela ênfase ideológica, transfez-se numa extravagância grotesca. Os novos dirigentes ingleses não sabem como resolver a embrulhada.

As afirmações de Passos Coelho em Espanha foram a rima desajeitada de quem ignora mover-se nos meandros da diplomacia política. Pareciam extraídas dos frascos de formol onde, nos museus da teratologia política, repousam as velhas aberrações doutrinárias. O português médio desagradou-se. Detesta que nos coloquemos de cócoras ante aquele a que, hipocritamente, chamamos de "hermanos". E o espanhol medianamente letrado não escondeu a sua perplexidade com a inesperada colaboração político- -económica do alto dirigente "social--democrata".

Resultado: Pedro Passos Coelho, que subira nas intenções de voto e deixara José Sócrates muito para trás, como uma espécie de ser à parte, regressou ao sonambulismo do velho PSD. Não só preocupara: assustara de pânico um eleitorado já ferido pelas novas regras dos apoios sociais, e desconfiadíssimo de tudo o que pareça alteração nas rotinas. Pese, embora, as palavras de tranquilidade, proferidas por distintos tenores do partido, o susto colectivo reflectiu-se nas sondagens, e despertou as dúvidas e as apreensões dos muitos que vêem na direita o rol de todos os perigos. Talvez Passos Coelho tenha depredado o concentrado de simpatia obtido pelo desastre político de Sócrates e pela notória repulsa que causou o consulado de Manuela Ferreira Leite. Ele fala de mais e, com perdão da palavra, pensa de menos. Nota-se-lhe a fragilidade do mimetismo doutrinário e, como síntese, a submissão às lógicas do momento, por absurdas que sejam. Assim, não vai longe nem deixa rasto.
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«DN» de 4 Ago 10

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Os 'cojones' de Sarah Palin

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Por Ferreira Frnandes

O DRAMA DO ARIZONA, estado que tem fronteira com o México, deve ser acompanhado com um dicionário na mão. Sarah Palin acaba de dizer que Jan Brewer, a governadora do Arizona, "tem 'cojones' que Obama não tem para lutar contra a imigração ilegal". A frase foi dita em inglês, a língua de Tucson, Arizona, com a excepção de 'cojones', dito como se fala em Nogales, no estado mexicano de Sonora. De Tucson para Nogales dista uma hora de carro.
A frase de Palin confirma que a coisa está grave: se uma política do Alasca já fala como uma vendedora de 'enchiladas', calculem a vaga de 'chicanos' que já vai pelo Arizona... Mas não deixa de ser surpreendente a linguagem de Palin. A sua companheira de partido, a citada governadora do Arizona, construiu a carreira com mais cuidados lexicais. Jan não guardou o seu apelido de baptismo, Drinkwine (bebe vinho, em português), e ficou com o nome do marido, Brewer (cervejeiro), mais suave. E certo, certo, é que não ficará para a História como Jan Tequilla.
Note-se, ainda, que 'cojones' é um autêntico 'palin'dromo nos EUA. Palíndromo é uma palavra que é lida da esquerda para a direita como da direita para a esquerda (por exemplo, sopapos). Na América, 'cojones' é dito pela esquerda ou pela direita, logo que o político seja mulher: já Madeleine Albright, a ministra de Clinton, o disse uma vez no Conselho de Segurança.
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«DN» de 3 Ago 10

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Relembrando um tema antigo

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A barraca de Barrancos

MAIS CEDO ou mais tarde, um país sujeito a uma ditadura acabará por aceder à democracia, tal como outro que aplica a pena de morte a irá abolir, e outro ainda acabará com a prática da tortura. Poderão não ser de imediato alterações irreversíveis mas, a longo prazo, sê-lo-ão.

O ritmo da escrita ia-me levando a escrever algo semelhante sobre as touradas de morte! Esquecia-me de que estou em Portugal, onde um apurado "sentido de oportunidade" de quem agora manda [Verão de 2002] levou o país a enveredar por bizarros caminhos.

Ora, já que não é possível (nem só por uns dias...) trocar Barrancos com Olivença, vai ser preciso dar tempo ao tempo. É que há uma evolução da Humanidade, uma espécie de "crescimento", que pode demorar bastante mais tempo do que se desejaria; tal como acontece com os garotos que, enquanto a sua sensibilidade não está apurada, praticam crueldades sobre animais indefesos - mas a quem a idade faz, depois, humanizar o comportamento.

Gostava muito de saber, em relação aos defensores das touradas de morte, qual será a sua "idade média"...

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Mas por que motivo é que o problema de Barrancos só apareceu recentemente quando, afinal, já existia até no tempo de Salazar? E, sendo o ditador tão "adepto da legalidade", como é que nunca se preocupou (que eu saiba) com o facto de ela não ser respeitada? Talvez porque nada melhor do que alentejanos entretidos com tradições tauromáquicas para dar descanso às outras tradições, as da GNR e da PIDE...

Assim, quando, há poucos anos, alguém se lembrou de que as leis se fizeram para serem cumpridas, começámos a assistir a verdadeiros malabarismos, o mais divertido dos quais foi o de Fernando Gomes: uma vez paga uma multa, a infracção desaparece. Uma espécie de taxa: paga-se e... "'tá legal".

Vimos o PCP a defender uma "zona demarcada" com direito a uma "legislação de excepção" (para não perder votos no Alentejo?); o PSD e o CDS a barafustar contra a esperteza-saloia do ministro acima referido; e Jorge Coelho a dizer uma coisa qualquer.

Mas os tempos mudaram, e o PSD e o CDS, uma vez no poder, passaram a defender exactamente o oposto do que dantes advogavam, descobrindo, de um dia para o outro, as virtudes das "tradições ininterruptas" - que decerto foram invocadas pelos que, junto do Marquês de Pombal, defenderam as "tradições" do Santo Ofício.

Quanto ao facto de as opiniões mudarem ao sabor das conveniências... sempre teve o nome de "oportunismo" - e esperemos que ninguém se zangue por se "darem os nomes aos bois".

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Mas há um outro aspecto interessante: o aparente paradoxo que consiste no facto de que, em geral, os que defendem os animais também os comem. Analisemo-lo, então:

A Natureza, ao fazer-nos omnívoros, fez questão de que nos alimentássemos de outros seres vivos.

Ora, juntando a isso a necessidade de autodefesa, o Homem teve de praticar, desde sempre, os actos de "matar para comer" e de "matar para não ser morto". Com o passar do tempo, a identificação do acto de matar com a sobrevivência levou a que ele lhe associasse um forte prazer, tornando-se a caça e a pesca actividades lúdicas - e passando ele a ser o único animal a matar mesmo sem necessidade.

Até aqui, ainda tudo se consegue compreender. Mas as dificuldades de entendimento crescem quando se nos deparam pessoas que sentem prazer, não na simples morte, mas no sofrimento do animal. E são ainda maiores quando se trata de classificar os que, na Europa e em pleno século XXI, se comprazem em prolongar esse sofrimento, encenando-o e transformando-o em espectáculo - com bancadas, bilhetes pagos e a bênção de políticos ao mais alto nível.

Mas, felizmente, podemos recorrer à obra de um famoso marquês: não o de Pombal, mas o de Sade.

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Crónica de CMR, publicada no "Expresso" (1.º Caderno), em 31 de Agosto 2002.

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NOTA: Respeitando o princípio lusitano de que «se não se consegue combater uma ilegalidade, o melhor é autorizá-la», Jorge Sampaio resolveu o problema da forma como se sabe...

OS SONHOS DE OBAMA

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Por Maria Filomena Mónica

POR NÃO GOSTAR de Hillary Clinton, por desconfiar de Barack Obama e por suspeitar de John McCain, decidira não prestar atenção à campanha americana. Até que aconteceram duas coisas: McCain escolheu Sarah Palin para vice-presidente e li Dreams from My Father de Obama. Tendo declarado ao meu filho que achava a Palin cómica, admoestou-me, afirmando não compreender como, em vez de prestar atenção ao único candidato diferente, me entretinha a seguir as piruetas de uma mentecapta. O facto de ter sido ele, o mais anarquista dos seres, a obrigar-me a abandonar o cinismo, e não alguém da minha idade, não é despiciendo, uma vez que explica a maneira como Obama chegou à Casa Branca.

As memórias de Obama, Dreams from My Father, são uma espécie de bildungsroman, escritas aos 33 anos, ou seja, antes de ter entrado na política. Nelas, ele relata, sem auto-comiseração, a infância e juventude no Hawai e na Indonésia e, depois, aos 17 anos, a ida para o continente dos EUA. Por pretender que o filho admirasse o progenitor, a mãe, uma branca, contara-lhe histórias maravilhosas de África, o que fez com que o miúdo jamais tivesse sentido a raça como um problema, até porque, numa ilha com uma multiplicidade de etnias, tal era possível.

Há muito que leio memórias de políticos enquanto jovens, mas, se exceptuar My Early Life, de Churchill (uma obra cobrindo igualmente o período da juventude, mas redigida quando o autor ultrapassara os sessenta anos) não consigo lembrar-me de outro livro que se eleve acima das banalidades autoglorificatórias que os políticos têm por habito produzir. As memórias de Obama são uma obra-prima literária.

Até chegar à Universidade de Los Angeles, a sua identidade era de tal forma repartida que toda a gente o tratava por Barry, e não por Barack, nome que só adoptou após uma colega universitária lhe ter declarado que o último era mais giro do que o primeiro. Depois de ler a obra, passei a gostar do homem, o que, apesar do que dizem os apparatchicks, é importante. Admirei a sua insatisfação quando descobriu que não sabia a que grupo, étnico ou social, pertencia, como admirei o juízo revelado quando, após o ritual dos fuminhos – cannabis e cocaína – concluiu que a via hedonista o não interessava.

Só quem conhece os EUA compreenderá a sua conversão, tardia, ao Cristianismo. Filho e netos de ateus, Obama sentia um vácuo na sua vida, sentimento que a ausência de uma figura paterna contribuiu para agravar, tendo-se então convencido – o que é significativo – de que só através das igrejas conseguiria ter influência junto das comunidades negras.

Quando, após se ter licenciado por Columbia, decidiu ir para Chicago, o que o marcou foi a figura de Harold Washington, o Presidente da Câmara, negro, daquela cidade. Começou a pensar que talvez gostasse de fazer política. Uma das características da sua personalidade é a confiança em si próprio. Poderíamos imaginar que o jovem, que entrevimos através destas memórias, acabaria na delinquência, mas Obama quis sempre mais e melhor. Como explicou, «não nos podemos satisfazer enquanto a única forma de mobilidade social permitida aos negros for a mudança de um gueto pequeno para um maior».

Mais divididos do que nunca depois da guerra no Iraque, os americanos, brancos e negros, acreditaram em quem lhes dizia: «Yes, We Can». Numa época de pessimismo, Obama permitiu que os EUA pudessem exibir «a audácia da esperança». Há quatro anos, quando se apresentou à Convenção Nacional Democrática, era um senador desconhecido do Illinois. Nem os seus admiradores se arriscariam a pensar que, dentro de poucos anos, seria Presidente dos EUA. Mas foi isso que aconteceu. Porque, já então, ele o pensava.

Estou consciente de que o voto num homem carismático pode degenerar no populismo, mas o poder de atracção de Obama não reside em qualquer traço irracional, mas na serenidade. Por outro lado, o seu cepticismo quanto à forma de transformar o mundo levou-o a concluir que todas as intervenções, no seu país ou fora dele, têm de ser feitas lentamente. Desde cedo que desprezou «as pessoas que dão prioridade ao sonho relativamente à realidade, à impotência relativamente ao compromisso». Por muito estranho que pareça, dei comigo a pensar em Burke.

«GQ» - Fevereiro/Março 2009

Sarkozy e Chávez vão para a guerra

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Por Ferreira Fernandes

UM É CAMPEÃO conservador na Europa, outro é chefe anti-imperialista nas Américas. Na semana que findou foram vedetas dos noticiários e foram irmãos de armas, Nicolas Sarkozy e Hugo Chávez.
O francês fez um discurso em tom marcial, identificando imigração e delinquência e ameaçando retirar a nacionalidade a "franceses de origem estrangeira" envolvidos em crimes. O que trouxe para terreiro uma categoria de nacionalidade desconhecida - até agora não havia senão franceses, franceses (incluindo o filho de imigrante húngaro que chega a Presidente). Já Chávez absteve-se dos seus longos monólogos televisionados (no programa semanal Aló Presidente), mas encontrou uma fórmula melhor para chamar atenção. Depois de dias desaparecido, telefonou para a televisão pública VTV dizendo que lhe dá "tristeza e dor passar quatro, cinco e seis horas revendo planos de guerra." Entretanto, espalhou com grande alarido unidades militares na fronteira com a Colômbia.
Sarkozy diz palavras que podem incendiar o seu país. Chávez atiça a sua Venezuela contra os vizinhos. Não são doidos, nem um nem outro querem o que parece apregoarem. Acontece é que abriu a campanha presidencial de 2012, em França, e há legislativas em Setembro, na Venezuela. E essa bela invenção que são as eleições às vezes traz com ela um senão: passa a mão pelo pêlo ao pior que nós temos.
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«DN» de 2 Ago 10

domingo, 1 de agosto de 2010

O ruir de uma lenda antiga

Por Ferreira Fernandes

O JORNAL The Wall Street Journal dedicou um artigo a notas. E dedicou-se logo às maiores, de 500 euros. De 2007 para cá, desde a pré-crise, as notas de euro em circulação cresceram 11%, mas as de 500 cresceram 26%... O artigo explica que o aumento de notas de 500 ajudou a fortalecer o sistema financeiro da Zona Euro (tem a ver com uma coisa que se chama seigniorage, privilégio que têm os bancos centrais, com a qual não vos maço) mas também preocupa as autoridades policiais. A Europol (a agência policial da União Europeia) suspeita de boa convivência entre as notas roxas e os criminosos.
A nota mais alta de dólar é de 100, o que quer dizer, à conversão de hoje, que são precisas seis delas para valer o mesmo que uma só de 500 euros. Ensinou-me The Wall Street Journal: um milhão de dólares, em notas de 100, pesa 10 quilos, e o mesmo valor em notas de 500 euros só pesa 1,6 quilos.
De toda a história retive o seguinte: Frank Sinatra está inocente! Corre uma lenda de que o grande cantor, nos finais da década de 40, levou uma maleta (daquelas à diplomata) onde transportava dinheiro para Lucky Luciano, o capo da Máfia que vivia em Havana. Valores que a lenda repete: 3,5 milhões de dólares, em notas de 50. Ora isso dá em peso o seguinte (sei agora): 3,5 milhões, vezes o dobro das notas de 100 em notas notas de 50, vezes 10 quilos - igual a 70 quilos. Lenda falsa. Arquive-se.

«DN» de 1 Ago 10

A petrofonia

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Por Rui Tavares

PARECE QUE DEPOIS de amanhã [24 Jul 10] a Comunidade de Países de Língua Portuguesa se prepara para acolher como membro a Guiné Equatorial.

Num país e numa comunidade linguística em que o acordo ortográfico gerou e gera debate infindo, oposição estrénua e arrancar de vestes, a entrada da Guiné Equatorial na CPLP é uma coisa mais ou menos indiferente. O que é estranho, porque a língua portuguesa com mais ou menos trema ou consoante muda não continua sempre sendo a língua portuguesa. E mais estranho ainda, porque essa língua portuguesa pode ser muita coisa, mas não é a língua que se fala na Guiné Equatorial. À língua que se fala na Guiné Equatorial pode chamar-se castelhano, ou espanhol, mas dificilmente se chamará português.

Poderão dizer-me que houve uma decisão do governo da Guiné Equatorial em consagrar o português como língua oficial (sem que se note que essa decisão tenha mais influência do que estar escrita em lei — nada na Guiné Equatorial se fala ou escreve em português, se exceptuarmos uns quantos milhares de falantes de crioulo na ilha de Ano Bom). Mas acontece que essa decisão foi tomada por um ditador dos mais insanos e caprichosos, Teodoro Obiango, recorrentemente eleito por 95% dos votos no país de que é dono e senhor. E agora dizem-nos que a entrada da Guiné Equatorial é favorecida pelo Brasil, por Angola e por São Tomé por aquele país ter muito petróleo.

E aqui chegamos a outro ponto. Pretende-se que a CPLP seja uma comunidade de democracias (Angola esquece-se de fazer eleições como certas pessoas se esquecem de arrumar os papéis: para o ano é que é!). Pretende-se que essa comunidade seja assente na língua. Não tanto uma comunidade para onde entram ditaduras assentes no petróleo.

Se a CPLP está numa atitude expansionista, tem bem para onde se virar. Existe no extremo da Ásia um país que decidiu democraticamente reintroduzir a língua portuguesa: Timor-Leste.

Timor-Leste vem muito a propósito neste caso.

Em primeiro lugar por uma razão moral: quando a Indonésia introduziu ditatorialmente a sua língua naquele país nós protestámos, pelo que não podemos agora aplaudir a decisão de Obiango de introduzir ditatorialmente o português na Guiné Equatorial.

Em segundo lugar por uma razão tática. A geração pró-lusófona de Timor-Leste não dura para sempre, e a reintrodução da língua portuguesa não terá futuro a não ser que os países lusófonos façam o seu trabalho e dêem a ajuda que os timorenses pediram.

Em terceiro lugar por uma razão estratégica. Timor-Leste está numa região do mundo onde ainda há muitas comunidades influenciadas pela língua ou pela cultura portuguesa: na Indonésia, na Malásia, no Sri Lanka, para não falar da Índia. Essas comunidades não estão organizadas em estados, mas dispersas em rede. Muitos dos seus membros são governantes, ou pertencem às elites locais — o candidato da oposição à presidência do Sri Lanka dava pelo apelido de Fonseka. Não deve ser impossível estudar essas comunidades, saber onde estão, manter contactos regulares com elas. Talvez até compensasse fazê-lo numa das regiões mais dinâmicas do mundo.

Mas dá trabalho, lá isso dá. Trabalho que a diplomacia portuguesa deveria gostar de ter. Daria certamente mais gozo do que acolher caprichos de ditadores.
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«RuiTavares.Net/Blog»

sábado, 31 de julho de 2010

Empresa? O que é isso?

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Por João Duque

DIZEM OS LIVROS que uma empresa é um conjunto de meios técnicos, humanos e financeiros, organizados com vista à concretização de um determinado fim económico, o qual passa pelo exercício de uma atividade orientada para a satisfação das necessidades dos seus vários stakeholders, nomeadamente: os seus clientes (pela oferta de bens ou serviços), os trabalhadores (através do emprego e da contraprestação salarial), os acionistas (pela realização do lucro que remunera o risco incorrido), os credores (pelo reembolso do capital e juros em prazo acordado), dos fornecedores (pela procura de bens ou serviços), o Estado (pelo cumprimento das obrigações fiscais e legais), etc.

Todos os que trabalham numa empresa privada sentem conhecer esta definição pela aprendizagem que fizeram e sofreram na pele o que cada uma destas palavras significa. Realidade bem diferente na administração pública... Vejamos as diferenças...

No dia 1 de janeiro de cada ano, não se tem garantido o pagamento dos salários aos funcionários e ao longo de cada dia do ano se não conseguirem convencer o comprador dos seus bens ou serviços não poderão faturar para depois, com meiguice, cobrar. Coisa extraordinária na administração pública, onde bastam duas linhas para extorquir aos outros o que se decide, do modo que se entende e no tempo que se deseja, sem que tal seja considerado roubo, assalto ou crime.

Por exemplo, ter de pagar as contas a tempo e horas, porque se o não fizerem arriscam o fornecimento sem qualidade, a interrupção da atividade ou a penalização compensatória, coisa muitas vezes irrelevante para o Estado...

A disciplina e a ordem são a lei, e os maus colaboradores, mesmo com direitos, acabam fora das empresas.

A concorrência impõe-se e os direitos adquiridos são todos os dias postos em causa pela disputa do mercado e dos clientes, e apenas a orientação para os que se servem é a forma de manter a atividade e o emprego no longo prazo.

Procura gerar-se o lucro para continuar a incentivar os empresários e os acionistas, para assim pugnar pela manutenção da atividade que gera emprego, e que se deseja aumentado por via de mais investimento, coisa que para muitos é pecado ou maldade, pois só a palavra lucro desata a fúria ou o apetite do imposto voraz...

O Governo de Portugal é constituído por um primeiro-ministro e mais 16 ministros. Nem um só trabalhou alguma vez numa empresa, participou em órgãos sociais (ou disso se orgulha), a ler pelos seus 17 curricula vitae. Como serão as suas reuniões quando falam sobre empresas e sobre elas decidem tudo e mais alguma coisa? Será que para eles o lucro é mau como quando anunciam os furiosos e rancorosos impostos sobre empresas de alguns sectores como o financeiro?

Esta minha descoberta deixou-me assustado. Mas ao desabafá-la logo um amigo me descansou: "- Está descansado, pá! Depois de saírem do Governo todos estarão enroscados nos respetivos lugares...".
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«Expresso» de 24 Jul 10

Os mas do Freeport

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Por Antunes Ferreira

O CHAMADO «Caso Freeport», mesmo depois do Ministério Público o ter dado por concluído, sem haver motivos para incriminar José Sócrates, continua a merecer por parte de órgãos da Comunicação Social, comentários os mais diversos, todos alicerçados nos mas mais diversos, ainda que tocando a mesma tecla. Será mesmo que Sócrates não participou activamente nele? As conclusões do processo não terão, elas próprias, sido influenciadas – pode ler-se manipuladas – pelo primeiro-ministro?

A afirmação feita por dois magistrados do grupo que se encarregou das averiguações ajudaram, ajudam e ajudarão à festa. Faltou-lhes tempo para fazer mais perguntas a Sócrates. Caiu o Carmo e a Trindade. Num processo que demorou cinco anos ou mais, faltou tempo, vejam lá, para fazer perguntas ao antigo ministro do Ambiente, hoje chefe do Governo.

Já escrevi e não tiro dos textos uma única vírgula, que José Sócrates, em quem depositei imensas esperanças e por isso nele votei, trem tido comportamentos que por complicados têm recaído sobre ele próprio. E bastantes, em número suficiente para que me dispense de aqui os enunciar. Ou seja, muito claramente: alterei em boa parte, as esperanças que alimentei.

Peço, desde já perdão das dimensões desta crónica. Mas, não posso deixar de transcrever um artigo da autoria do Embaixador de Portugal em França, Francisco Seixas da Costa, publicado no seu blogue «duas ou três coisas» na sexta-feira, 16 deste mês.

«Portugal tem uma das mais brilhantes escolas daquilo que se pode qualificar como "jornalismo adversativo". Trata-se de um apurado estilo, que exige uma grande experiência para garantir a sua hábil utilização, que consiste em relativizar e atenuar, pela negativa, qualquer notícia através da qual possa transparecer uma ideia positiva ou otimista.

Há anos que constato que esta é, verdadeiramente, uma especialização de um certo jornalismo português, muito patente nos títulos dos jornais ou dos seus "sites" informáticos, mas igualmente presente, quase por um peculiar imperativo deontológico doméstico, nos noticiários televisivos. Os exemplos são aos milhares, pelo que aconselho o leitor a estar atento, nos próximos dias, à eventual divulgação de qualquer estatística ou linha tendencial positiva. Logo verá que, no segundo seguinte, aparece uma frase começada por: "Porém ..." ou "Mas, contudo,..." ou "No entanto...".

Querem exemplos? "As praias portuguesas foram consideradas das mais limpas da Europa, em 2009. Porém, neste domínio, a Itália evoluiu mais do que Portugal, nos últimos dez anos". Ou ainda: "Há menos incêndios em Portugal em Julho de 2010 do que em idêntico período de 2009, mas isso pode ter ficado a dever-se às temperaturas mais baixas".

As estatísticas económicas e sociais são "bombo da festa" deste "jornalismo". Qualquer índice positivo em Portugal aparecerá, inevitavelmente, diminuído por um outro que permita negativizá-lo ou por uma oportuna comparação ("Contudo, dentro da UE, a economia de Malta cresceu mais no mesmo período" ou "No entanto, Portugal não conseguiu chegar ao nível de recuperação de postos de trabalho obtido por Chipre").

De notar que há uma "regra de ouro" nesta escola de jornalismo: nunca se "poluem" as notícias negativas com notas positivas, como por exemplo: "Desemprego cresceu no último mês, mas a taxa do seu crescimento tem vindo a diminuir de forma sensível, o que aponta para uma recuperação".
Era só o que faltava!, estarão a dizer os cultores do "jornalismo adversativo"».

E mais não escrevo. Era só o que faltava…

sexta-feira, 30 de julho de 2010

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

«CORTAR NA DESPESA do Estado é inexorável» para Portugal conseguir libertar-se do endividamento crónico em que tem vivido – avisava, há dias, Ernâni Lopes com a sabedoria de quem conhece bem os vícios do aparelho governativo e da administração pública; e com a lucidez de quem tem um pensamento livre aliado a uma reflexão profunda sobre a sociedade portuguesa e os constrangimentos da sua economia. Ora, soube-se agora, pelo balanço da execução orçamental no 1.º semestre, que a despesa do Estado continua – apesar de todas as promessas de contenção – a aumentar. Alegremente. Irresponsavelmente. No meio deste cenário, não deixa de ser perplexizante ouvir o ministro Jorge Lacão protestar contra a redução de 5% nos vencimentos dos assessores políticos que enxameiam os gabinetes. José Sócrates, aliás, já se opusera, na mesma linha, a igual diminuição nos salários dos políticos, classificando tal medida de demagógica e populista.

Quando se sabe que, neste e nos próximos anos, Portugal vai estar obrigado a uma cura radical de emagrecimento do Estado e do seu incomportável despesismo (que passará pela extinção de organismos, pela redução de clientelas, de pessoal e de salários), demagogia é escamotear-se esta inevitabilidade com um enganador optimismo embrulhado em discursos cor-de-rosa. Quando esta dura política de redução do nível de vida deveria ser acompanhada por um visível e efectivo combate às desigualdades sociais (onde Portugal é recordista na Europa e, a demonstrá-lo, o país onde cresceu mais, nestes primeiros meses de 2010, a venda de carros e, em especial, de carros de luxo), populismo é continuar a fazer de conta que há dinheiro para tudo e para todos, dos políticos aos assessores e demais clientelas.

Ernâni Lopes, com inexorável realismo analítico, não deixa dúvidas sobre o que nos espera: «Eu seguiria a lógica irlandesa e diminuiria os vencimentos dos funcionários públicos, incluindo os ministros, em15% sem dúvida, em 20% provavelmente». Em contraponto, a ministra Helena André veio prometer aumentos de 1,4% em 2011 e, no momento seguinte, dizer que, afinal, pode não ser bem assim. Este Governo e estes governantes ainda não perceberam de todo o filme em que estão metidos. Teme-se o pior.
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«SOL» de 23 Jul 10

CONVITE - Conferência de imprensa conjunta

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Por Manuel João Ramos


A SUBIDA alarmante do número de mortos e feridos nas estradas portuguesas deve ser uma preocupação de toda a sociedade, na medida em que os custos físicos, emocionais e económicos são partilhados por todos nós.

O poder central e local, tolhido pelo argumentário da crise, não parece disposto a despender recursos humanos e financeiros na redução dos comportamentos rodoviários de risco numa época crítica como é o período de férias de Verão.

Por isso, a ACA-M, a ANBP, a ASPIG, o SPP-PSP e a QUERCUS decidiram lançar uma Campanha Nacional de Sensibilização para uma Condução Segura e Ecológica durante o mês de Agosto, com distribuição de folhetos com conselhos práticos por todas as delegações regionais das várias organizações.

A Campanha será apresentada numa conferência de imprensa conjunta das várias organizações promotoras, a qual terá lugar no próximo dia 30 de Julho, pelas 10 horas, na sede do Sindicato dos Profissionais da Polícia (SPP-PSP), na Av. Ceuta, Lote 5-lj 2, em Lisboa. De seguida, os dirigentes associativos participarão numa acção simbólica de distribuição de folhetos aos condutores que partem para férias, para a qual convidam a comunicação social.

CLINT EASTWOOD, O REALIZADOR

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Por Maria Filomena Mónica

PELO SEU CONTRIBUTO filantrópico e pela sua carreira no cinema, Clint Eastwood acaba de receber o Prémio pelo Reconhecimento do Mérito Artístico, concedido por uma das mais importantes organizações de Saúde Mental dos EUA, o Centro Thalians do Hospital Cedars Sinai. Para quem tenha dúvidas sobre o facto de a idade poder trazer vantagens, Eastwood, hoje com 78 anos, é uma dádiva do céu. Tendo começado como actor em filmes esquecidos, conheceu o sucesso com os western spaghetti, e depois, e justamente, com Dirty Harry, a série dirigida por Don Siegel, o seu mentor. Muitos pensaram que ficaria para sempre rotulado como o mítico macho. Enganavam-se.

Em 1995, Eastwood arriscou tudo, ao adaptar um livro melado, The Bridges of Madison County. Apesar de já ter 65 anos, decidiu encarnar Robert Kincaid. O filme é contado em flashback, com os filhos de Francesca (Meryl Streep) abrindo uma caixa – com cartas, diários e objectos – que a mãe lhes deixou. Aqueles apercebem-se então que, durante quatro dias, em 1965, a mãe, que viam como uma típica dona de casa, vivera um romance com o fotógrafo.

O marido de Francesca é um homem decente, bom e «limpo» – como, ela o descreve a Robert – e os filhos crescem segundo o ritmo próprio da idade. É neste quotidiano plácido que Robert irrompe, pedindo-lhe para lhe indicar o caminho para uma ponte. Depois de ter tentado descrever o itinerário, ela opta por se meter na carrinha. No regresso, é ela que o interroga sobre se ele gostaria de beber um chá frio em sua casa. A partir daí, não param de falar. Depressa compreendemos que a razão que leva Francesca a apaixonar-se é a mesma que conduziu Desdémona aos braços de Otelo. Relembro o que este diz na cena III do I Acto: «Ela amou-me devido aos perigos por que eu tinha passado e eu amei-a pela piedade que exibiu em relação a eles.»

Como convém, em várias ocasiões estive à beira das lágrimas, não porque Eastwood puxe ao sentimento – a reserva é, pelo contrário, a nota dominante – mas porque a antecipação e as consequências da paixão estão dadas de forma soberba. O filme não é sobre amor, muito menos sobre sexo, mas sobre a escolha: Francesca não partirá, porque sabe que aqueles dias só se manterão vivos se resistir ao convite. Durante algum tempo, ainda poderia viver o ardor que conhecera, mas seria, mais uma vez, apêndice de um homem, ainda por cima, arrastando com ela a culpa por ter abandonado o lar. A atenção ao pormenor, a palavra justa no momento certo, o pudor nas cenas de sexo tornam o filme no mais inesperado presente que Eastwood nos poderia dar.

Outra oferta, e esta superior, viria com Million Dollar Baby, a película pela qual, em 2005, receberia um Óscar como o Melhor Realizador do ano. Trata-se da história de um velho treinador de boxe, Frankie (Clint Eastwood) e de Maggy (Hillary Swank), uma miúda que pretende ser campeã de boxe. A determinação de Maggy vem-lhe da raiva perante o que destino lhe reservou (ser criada de café). O filme é narrado, em off, por Scrap (Morgan Freeman), o maior e o único amigo de Frankie. Tanto Frankie como Maggie são dois solitários. Nada disto é referido, excepto nalguns momentos, como, por exemplo, quando, depois da visita à família, Maggie diz a Frankie: «Não tenho mais ninguém no mundo a não seres tu.»

Com a idade, Eastwood tem vindo a interessar-se cada vez menos pela violência e mais pela relação entre homens e mulheres. Em Million Dollar Baby, o vazio, de origem misteriosa, deixado pela filha é preenchido por Maggie, cujo pai há muito desaparecera. Foi por pressentir que a relação entre eles poderia vir a ser complicada que, no dia em que a miúda aparece no ginásio, ele se recusa treiná-la. Depois de ceder, acabarão por formar uma família, baseada, não no sangue, mas no laço que literalmente os une até à morte.

Numa das cenas finais, no hospital, ela dir-lhe-á: «Tive tudo.» Di-lo com sinceridade. Ela sabe que a tragédia que vive não desfez o que, pela mão daquele homem, obtivera. Chegara o momento de Frankie lhe explicar o significado das palavras, em galês, inscritas no blusão que, antes do primeiro combate internacional, lhe oferecera («Meu amor, meu sangue»). A solução óbvia teria sido inventar um romance entre eles, mas Eastwood preferiu escolher uma relação do pai-filha. Tudo isto nos é dado, sem uma concessão ou um deslize. É por isso que Eastwood é actualmente o maior realizador vivo.

«GQ» de Janeiro 2009

Espiões

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Por João Paulo Guerra

AFINAL, O MESMO ‘site’ da Internet que revelou segredos militares norte-americanos no Afeganistão também desvendou segredos da GNR no Iraque.

O facto, assim fanfarreado ontem pelo DN, constituirá um grande motivo de orgulho para as NT (Nossas Tropas, por oposição ao IN, o inimigo) e uma imensa surpresa para a generalidade dos portugueses. Poucos portugueses saberiam que Portugal, quanto mais a GNR, teriam segredos militares de suficiente interesse para serem devassados. Segredos militares portugueses são mais do âmbito das compras de equipamento e material ou então do puro e simples domínio da "guerra do Solnado". "O vosso prisioneiro já confessou tudo: diz que vocês vão atacar por baixo. Ah vão atacar por cima? Mas que grande vigarista."

Lendo o texto da notícia fica-se no entanto com alguma frustração e um travo amargo a azedar a produção portuguesa de bravatas militares. Afinal, a informação secreta da GNR pespegada na Internet é produzida por um capitão de Cavalaria, membro da célula G2, no Estado-Maior da Multinational Specialized Unit, em Nassíria, mas limita-se a processar as informações recolhidas no terreno pelos serviços secretos dos países envolvidos a sério no conflito, designadamente Inglaterra e Itália, relativas às ameaças terroristas e à situação política e social. Ou seja: tanta especulação, tanto alarme - ai, ai, ai que estão a meter o nariz nos nossos segredos da pólvora - e bem vistas as coisas os espiões portugueses limitam-se a fazer ‘copy and paste' de relatórios dos verdadeiros serviços secretos que actuam no Iraque.

Portugal teve uma guerra mas perdeu a oportunidade de a ganhar. E agora a Nação Valente nunca mais se reencontra. O que é péssimo para a auto-estima, embora estimule a imaginação.
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«DE» de 30 Jul 10

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O interesse nacional

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Por João Duque

PENSAVAM OS ESPANHÓIS que conseguiam iludir-nos e que com o vil metal conseguiam arrumar o assunto da PT ferindo o interesse nacional? Estão muito enganados.

O interesse nacional da posição da PT na Vivo é inalienável e não se concebe que alguém venha alguma vez sequer aventar a hipótese do Estado português vir a conceber a venda, a ablação desse apêndice, absolutamente imprescindível para o nosso desenvolvimento.

Vender a Vivo seria como vender o Algarve aos espanhóis. Sem o Algarve não saberíamos para onde ir no Verão e que destino dar a Portugal.

Sem a Vivo, a PT não sabe para quem ligar e dizer "- Oi cara! Me liga, vá..." Por isso os accionistas da PT não devem brincar com coisas sérias que só o Estado e os que conhecem o valor do dinheiro estão em condições de decidir.

É óbvio que a PT sem a Vivo é uma coisa morta. Isso vê-se logo e só a inconsciência e a inconsequente imaginação dos accionistas que só vêem o lucro fácil e não têm em conta toda a realidade e a envolvente estratégica que a Vivo representa para Portugal é que permite sequer imaginar que Portugal se pode vergar aos arrogantes dos espanhóis, que para além de nos eliminarem do campeonato do mundo de futebol pensavam que vinham aqui, e assim sem mais nem menos, a troco de uns euros, iam levar a "nossa" metade da Vivo para Espanha! A Vivo não é Olivença!

Nunca! Nem por cima do nosso cadáver! Aliás, se alguma vez vendêssemos a Vivo pintaríamos a cara de preto! Demitíamo-nos, sei lá! Nem sei mais o que faríamos! Mas isso, nunca! É, ou não é, de Homem com "H" maiúsculo?

O quê? Mas eles ainda oferecem mais? E os accionistas estão assim tão furiosos se não vendermos? Vendo bem, de facto, o interesse nacional é o interesse de todos os portugueses, até dos portugueses accionistas... E vendo bem alguns são grandes empregadores nacionais e dispostos a investir no Brasil... Além disso um negócio desta natureza ainda vai trazer um aumento dos resultados da PT e por essa via um aumento da receita dos impostos... Ora, como vêem, é de todo o interesse, para bem de Portugal, do Brasil e da própria Espanha do nosso amigo Zapatero, que se faça o negócio e que, assim, Portugal e Espanha continuem amigos fraternos. A Vivo deve pois ser vendida a bem do interesse nacional!

Dirão os detractores do Governo de Portugal que nos vendemos por um prato de lentilhas... Mas francamente, meus senhores, se por via da negação anterior em Assembleia Geral, o país conseguiu mais 185 milhões de euros de valor actual líquido nas condições do negócio, então conseguimos um acréscimo de €18,5 por cada um dos 10 milhões de portugueses!

Mas o quê? O capital da PT não é português? Ai não? Ai afinal só 36% dos 185 milhões de euros é que são dos accionistas portugueses? Não faz mal. Mesmo assim ainda ficam 66,8 milhões caramba! É muito milhão!

É bom saber que o interesse nacional são €6,68 por português.
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«DE» de 29 Jul 10

Ratos

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Por João Paulo Guerra

A JUSTIÇA PORTUGUESA é uma fecunda montanha parideira de ratos. Os processos prolongam-se no tempo, desenvolvem-se e desdobram-se, avolumam-se, incham, engrossam e, chegado o fim da gestação, saem ratos, correntezas de ratos.

Em alguma fase não identificada da gestação, os autos, os termos, os requisitórios, as pronúncias, as diligências, as precatórias transformam-se em ratos. Chegada a hora, os portugueses correm alvoroçados para a sala de espera dos tribunais, à espera da boa nova. «Nasceu. É uma menina e chama-se Justiça». Nada disso. Apenas mais uma paridela de ratos.

A interrupção, voluntária ou involuntária, da gravidez da Justiça, com reconversão em paridura de ratos, não é da responsabilidade específica de nenhum agente judicial, sejam juízes, procuradores, advogados, funcionários, como também investigadores. A responsabilidade é do sistema e tem origem no mais imbricado edifício legislativo de que há notícia: o português. Milhares de leis que se atropelam e se contradizem mas, todas elas, dotadas de mecanismos de escapamento que permitem, em quase todas as situações, que suspeitos e mesmo arguidos - desde que ricos e bem relacionados - se subtraiam à administração da Justiça. Se não forem os alçapões e escapatórias do texto das leis, se não for a complexidade e nebulosidade que torna os passos processuais inexequíveis, é o sistema recursório, permitindo que de recurso em recurso, de apelação em apelação, de delonga em delonga, se chegue à prescrição final.

Poucos dias após mais um fiasco da cadeia montanhosa Apito Dourado, os portugueses tomaram conhecimento com o fruto das entranhas das montanhas BCP e Freeport. No primeiro caso, caiu a acusação de burla qualificada, no segundo, a de corrupção. Ou seja: ratos, mais ratos.
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«DE» 29 Jul 10

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Segredo militar é guerra perdida?

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Por Ferreira Fernandes

O SEGREDO é a alma do negócio e não há negócio mais secreto que a guerra. Ou, melhor, era assim, já não é. Calculem os estragos que o site Wikileaks fez ao tornar públicos 90 mil documentos secretos da guerra do Afeganistão…
O site especializou-se em contar segredos, é a Garganta Funda (o informador do caso Watergate) da era da Internet. Até já propôs ao Governo islandês converter a ilha nórdica num santuário para as fontes sigilosas e para os jornalistas, com leis que protegeriam as fugas de informação como as ilhas Caimão protegem as fugas ao fisco.
Esta semana, o Wikileaks e a sua face mais visível, o jornalista australiano Julian Assange, fizeram uma formidável provocação a Washington.
Em todo o caso, a facilidade de se obter e pôr a circular informações mesmo em cenários que exigem sigilo - os soldados andam armados com telemóveis que filmam e partem para a frente viciados nas redes sociais - garante que sites tipo Wikileaks vieram para ficar. Pelo menos em países com democracia. Países que prescindem desta podem continuar a confiar no juramento de fidelidade e silêncio dos seus soldados. Sendo as fugas de informação inevitáveis, cabe às democracias ensinar duas coisas: às suas tropas, que não metam o pé na argola, e à sua opinião pública, que as guerras não são convites para tomar chá. Esta última batalha é quase impossível de vencer.

«DN» de 28 Jul 10

Deixa arder

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Por João Paulo Guerra

PORTUGAL é um país impreparado. No Inverno morre-se de frio, no Verão sufoca-se de calor. Com as chuvas, vai tudo na enxurrada. Com o calor, o país arde.

E por mais que se saiba que é assim, e que não há surpresas para melhor, o poder deixa arder e deixa ir na enxurrada.

Claro que há excessos descontrolados no clima. Mas já se sabe, quando se aproxima o Verão, que vem aí a chamada "época dos fogos". Só falta ter inauguração com ministros e fanfarra dos bombeiros. Como se sabe que com a chegada do Inverno aumenta o risco de cheias e enxurradas.

Desde a mais tenra idade profissional fiz reportagens de fogos no Verão e de cheias no Inverno. Fogos florestais no Vale do Vouga, inundações no Vale do Tejo, por exemplo. E o que é extraordinário é que todos os anos toda a gente dá pelos mesmos descuidos e negligências, ao nível mais rasteiro da prevenção. Em Portugal não se limpam as matas para obstar ao avanço das chamas no Verão; como nem sequer se limpam as sarjetas nas cidades para impedir as cheias nas ruas. Coisas simples, elementares, que dariam outra segurança ao país e às pessoas, são menosprezadas porque não rendem dividendos eleitorais. As únicas grandes diferenças entre os tempos em que comecei a fazer notícias de fogos e cheias e a actualidade é que o clima está mais descontrolado e o país ainda mais desordenado e descuidado, por via da desordem da especulação.

E é assim que, com o país a arder, a Liga dos Bombeiros Portugueses veio alertar que os meios aéreos de combate a incêndios não estão a ser usados em todos os grandes fogos florestais no país, ao contrário do que define a directiva operacional, elaborada pela Protecção Civil. Os investimentos de milhões são, acima de tudo, para exibir nos telejornais.

«DE» de 28 Jul 10

A excepção e o impossível

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Por Baptista-Bastos

A RENÚNCIA A PENSAR parece ser endémica. Como parece estar em marcha um processo substractivo que confere falsa "modernidade" a ideias que julgávamos nos sótãos das velharias ideológicas. As inflexões contemporâneas de alguns tenores da Direita resultam, logicamente, da circunstância de a Esquerda estar vazia de ideias. E uma não existe sem a outra. Chega a ser pungente o que, reclamando-se de "progressistas", alguns preopinantes declamam sobre a necessidade de se "reinventar" a Esquerda. Demonstradamente, é urgente fazer, isso sim, com que a Esquerda o seja.

Ao colocar, na agenda política, a revisão constitucional, Pedro Passos Coelho percebeu que essa questão, por extemporânea, se ergue como a excepção ao possível. E o possível é a actual relatividade das fronteiras entre a ética e o que realmente é importante para o País. A Direita não sabe.

A fome, a miséria, o desemprego, a ausência de perspectivas aumentam com a falta de decisões. A Esquerda, segundo as sondagens, continuará maioritária, mas possuímos, de facto, uma cultura de Esquerda? E que é uma cultura de Esquerda? Não me parece que alguém possa, seriamente, responder a estas perguntas. Sobretudo averiguando-se o que, em nome da Esquerda, tem sido cometido pelo PS - pelos PS's.

Há dias, numa assinalável entrevista do dr. António Marinho e Pinto ao jornalista Duarte Baião, e editada no suplemento Notícias-Sábado, do DN e do JN, o bastonário dos advogados proferiu uma afirmação que comportava uma séria advertência: "Não vão para Direito!" Conhece-se a franqueza, a coragem e a decência deste homem, alvo de críticas correspondentes à importância do que diz. Marinho fala com endereço e corre os riscos decorrentes. Estão a mandar milhares de jovens para o desemprego com leviandade criminosa. Acontece coisa semelhante com os cursos de "jornalismo". As escolas de "comunicação social" são inúmeras e "licenciam", anualmente, cerca de mil e quinhentos moços e moças, os quais, muito cedo, vêem pulverizada a concentração de sonhos que lhes foi criada. E alguns dos "professores" não servem, sequer, para receber informação telefónica de qualquer correspondente de província.

As questões estão sempre relacionadas umas com as outras. A sociedade de mercado invadiu, inclusive, as consciências. O modelo europeu de sociedade está a ser metodicamente liquidado, sem que consigamos estabelecer a conciliação, imprescindível, entre responsabilidade colectiva e responsabilidade individual. O projecto de Passos Coelho não está isolado do contexto. Como as preocupações de Marinho e Pinto no-lo dizem que devemos incitar à compreensão mútua das nossas verdadeiras urgências.
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«DN» 28 Jul 10