sexta-feira, 8 de outubro de 2010

JOSÉ SÓCRATES

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Por Maria Filomena Mónica

A PRIMEIRA COISA que se nota, ao observar o actual primeiro-ministro, é a opacidade do seu olhar. Por que motivo terá ele medo que alguém penetre na sua alma? Em parte, por viver num limbo em que aquilo que dizem os documentos não corresponde à realidade. Nasceu no Porto, mas os pais decidiram registá-lo como tendo o parto ocorrido em Vilar de Maçada; o seu apelido não é Sócrates, mas Carvalho Pinto de Sousa; após ter obtido um diploma em circunstâncias estranhas, ficou engenheiro. Infelizmente, há pior. Em tempos, assinou, na Guarda, projectos arquitectónicos que não eram da sua autoria; sem que se perceba a necessidade, no último Conselho de Ministros de António Guterres, alterou os limites da ZPE do Tejo; a forma como foi feita a adjudicação da obra da central de tratamentos de lixo da Cova da Beira levanta dúvidas; comprou um andar, na Rua Braamcamp, em Lisboa, por um preço menor do que outros com a mesma dimensão; finalmente, entre 1999 e 2002, não declarou os seus rendimentos no Tribunal Constitucional.

José Sócrates pertence a uma família pequeno-burguesa de Trás-os-Montes. O avô paterno, José Pinto de Sousa, trabalhava, em simultâneo, num estabelecimento funerário e na organização de festas religiosas. O pai, de seu nome Fernando, fizera a instrução primária na aldeia de Maçada, tendo continuado estudos num seminário de Vila Real, abandonado ao fim de seis anos, a fim de seguir o curso de Arquitectura no Porto. Em 1955, casara com Adelaide de Carvalho Monteiro, cuja família tinha dinheiro, uma vez que o pai desta, Júlio César, fazia parte dos «novos ricos» do volfrâmio. Aparentemente devido à vida nómada do marido, o casal separou-se, tendo o filho do meio, José, ficado a viver com o pai, na Covilhã, enquanto os outros ficavam à guarda da mãe, em Cascais.

A vida na Covilhã era pacata, demasiado pacata. Mesmo as noites passadas com os amigos no café, a petiscar, ou as madrugadas em que, sentado no chão, comia chouriços assados, o enchiam de tédio. Como de tédio o enchiam as aulas. Terminou o liceu, onde o pai ensinava Desenho, com uma média de 13 valores. Para ultrapassar a neura, leu algumas obras da biblioteca paterna, de E. M. Remarque a Bernstein. Em Coimbra, matriculou-se no recém-criado Instituto Superior de Engenharia de Coimbra (ISEC), por onde viria a obter, mais uma vez com nota medíocre, o grau de bacharel.

Tal injustiça deu-lhe um ódio vesgo à autoridade: passou a detestar os intelectuais, os meninos finos, os ministros. E a Covilhã, para onde teve de voltar. Aquele tédio taciturno tornava-o impaciente. Como diria, numa entrevista: «Aos vinte e um anos, eu tinha tirado o sétimo ano, tinha estado quatro anos em Engenharia, também não queria ser muito engenheiro, mas era melhor ser engenheiro do que não ser», após o que acrescentou: «Eu esperei que a vida me surpreendesse, esperei pelo meu Sol.» O astro chegaria. Mais tarde.

Antes de enveredar pela carreira política, a única experiência profissional de Sócrates foi como técnico da Câmara Municipal da Covilhã, para onde, na década de 1980, fora levado pelo pai. Era o «filho do Arquitecto», como lhe chamava o Eng.º Silvino Morão, o qual se escandalizou ao ver a indumentária – calças de bombazina vermelha e sapatilhas brancas – por ele usada quando chegou ao emprego. Em boa hora, decidiu vir para Lisboa. Com esperteza, era possível alcançar o poder, como depressa se apercebeu, ao ouvir as conversas do sótão de António Guterres. Depois, tudo – desde a eleição para o Parlamento aos cargos de secretário de Estado e de ministro – se passou de forma rápida.

A 15 de Julho de 2004, Sócrates candidatava-se à liderança do Partido Socialista. Os jovens do partido odiavam o clã Soares e estavam-se nas tintas para a luta anti-fascista. Ao fundador do Partido e sobretudo ao benjamim, João Soares, preferiam o rapaz que gostava de Mercedes antigos. O que um grupo de velhotes proclamara, em Bad Münstereifel, era, para eles, menos importante do que o facto do rapaz de Trás-os-Montes ter fumado hashish em Amesterdão. Numa entrevista concedida a um jornal da Covilhã, Sócrates foi claro sobre o que pensava das elites: «Há uma grande segregação que tem a ver com a origem e com a província. Não há a mesma igualdade de oportunidades. Isto quer dizer que as pessoas do interior, para se afirmarem na corte lisboeta, têm de ser muito mais talentosas do que as pessoas de Lisboa.» A 12 de Março de 2005, tomava posse como primeiro-ministro. Conquistara, por fim, a cidade. Infelizmente, não era Eugène de Rastignac.
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«GQ» de Outubro 2009

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Escola EB 2,3 Tecnopólis, de Lagos

O cão e a raposa

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Por João Duque

ERA UMA VEZ, no tempo em que os animais falavam, um bosque muito bonito onde habitavam em perfeita harmonia todos os bichinhos da região: coelhos e coiotes, galinhas e raposas, perdizes e cães de caça.

Um dia, os lenhadores que por lá passaram, deixaram uma tabuleta pregada numa das árvores da periferia com o seguinte texto: "Estado Social". E os animais começaram a chamar ao bosque Estado Social. Um dia resolveram eleger um dos animais para dirigir os trabalhos de limpeza e manutenção da floresta. Candidataram-se ao cargo a raposa e o cão.

A raposa começou a campanha prometendo que a floresta ia ser limpa sem requerer qualquer esforço, porque o vento, ao soprar como de costume, se encarregaria de varrer o lixo não sendo pois necessário que qualquer animal tivesse de levantar uma pata ou morder um saco de plástico. Os animais, delirantes, apoiavam as atraentes ideias da raposa sublinhando com vivas e olés as delícias apresentadas. Entusiasmada, a raposa prometia mais: "- Garanto que podemos ter manjares com que nem sonham e iguarias inimagináveis no Estado Social!" A bicharada, encantada, rejubilava com mais olés e vivas.

O cão, acabrunhado, e pressentindo que não era possível manter tais promessas, repetia a sua receita: "- Se trabalharmos muito talvez se consiga o necessário para nos mantermos. O bosque encolhe todos os anos e nem sei se amanhã vamos todos manter o Estado Social, quero dizer, o bosque que temos hoje...". Fez-se a votação. Ganhou a raposa.

A cada novo dia que passava a raposa continuava a proclamar o bem que se vivia no Estado Social, embora todos os dias caísse mais uma árvore e se reduzisse o Estado Social. Passados uns meses, o cão, entristecido e preocupado com a redução do tamanho do bosque, voltou a falar aos animais: "- Eu não sei se vamos todos ter o espaço e as condições que temos hoje no Estado Social. Talvez devêssemos rever as regras do bosque e pedir aos animais mais poderosos para começarem a procurar comida e refúgio fora do Estado Social..."

Os coiotes, amigos da raposa, furiosos, começaram por insultar o cão acusando-o de uma infame campanha contra a vida no Estado Social. Ele, cão, deveria saber que os seus pais lhe deixaram em herança o Estado Social que deveria manter com fé. Passados dias, com a chegada do inverno, o frio atacou cortante e sem dó. Para responder à crise provocada pela intempérie, a raposa mandou cortar metade do Estado Social para mandar queimar as árvores e com a fogueira aquecer os animais enregelados. O cão ainda bradou que tinha previsto que isso ia suceder e que o Estado Social era agora metade do que já tinha sido. Mas a raposa e os seus amigos coiotes começaram a rosnar dizendo que os seus ruidosos protestos atrairiam os homens que lhe trariam a morte.

Final da história: a) o cão, a bem da bicharada, conteve a ira e calou-se; b) o cão, a bem da bicharada, mordeu ferozmente a raposa, e expulsou-a.

Como devo concluir a fábula?
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«DE» de 7 Out 10

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A efeméride grandiosa

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Por Baptista-Bastos

A I REPÚBLICA durou dezasseis anos, cercada por inimigos poderosos. A Igreja, as monarquias circundantes, as conspirações e os revanchistas ajuramentados foram insistentes e infatigáveis nas tentativas de demolição. A História faz exigências isentas de considerações afectivas, e as suas subjectividades não implicam a adesão passiva nem escolhas racionais. É impressionante o rol de problemas enfrentados, em tão curto tempo, pelo novo regime. No entanto, execre-se ou não esses anos tumultuosos, exalte-se ou verbere-se as decisões tomadas, uma evidência ergue-se entre as demais: aquela gente era virtuosa, possuía convicções e, cada uma a seu modo, consoante as origens de classe, tinha projectos para a pátria.

Entre as grandes fotografias da época, que Benoliel fixou para a eternidade, há uma que me comove particularmente. Um batalhão vai para a guerra, os soldados são muito novos, e há algo de grandioso na cena: correndo ao lado do namorado, uma pequena portuguesa despede-se dele com a dor e o susto reflectidos no rosto. Ele toca-lhe levemente no queixo, a ternura a invadir o espaço, impetuosa e sublime. Só quem não quer não vê aqueles gestos subtis e demorados, a atravessar o tempo e o silêncio. A imagem devolvida de uma República jovem, que contrapõe aos limites da idade o exacto poder da sua força.

Foi essa força que aguentou aqueles dezasseis anos extraordinários. Há mais biografia naquela foto de Joshua Benoliel do que a bibliografia até agora publicada, plagiada de uns e de outros autores e consagrada ao simbolismo de estar a favor ou contra. Naquele par de amorosos, a fazer lembrar, também, Marc Chagall, condensa-se a espessura de um certo barroquismo ascético nascido não, somente, da idade jovem mas, sobretudo, da possibilidade de uma crença que ressoa na aparente mudez da imagem.

A ida para a guerra de 1914-18 constituiu, porventura, o abandono da nossa inocência. E foi um acto político de extrema importância. Portugal, parado pela oligarquia, dominado pela superstição romana e pelo hissope, sacudia o corpo e caminhava impelido pela sua própria têmpera. É uma história por contar, fora das abjectas interpretações da Direita, um episódio paradigmático no qual avulta um estadista proeminente, do melhor que o País produziu: Afonso Costa.

O que a República realizou, entre convulsões, intrigas, guerras, guerrilhas e sangue derramado pertence ao nosso património comum. Num sentido global de modernidade, a República possibilitou escolhas afirmativas que têm resistido a tudo: omissões, calúnias, infâmias. Amiúde subscritas por "historiadores" sem vergonha, sem decência e sem moral.

(À memória de Carlos Ferrão, grande jornalista republicano)
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«DN» de 6 Out 10

Cabrais

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Por João Paulo Guerra

O PARTIDO Socialista está estranhamente silencioso em relação à tremenda desigualdade social que resulta desta visão de austeridade governamental que penaliza irremediável e drasticamente os mais pobres. Ou será que, à semelhança de outras osmoses e outros fenómenos miméticos, o PS também absorveu do PSD a Lei da Rolha?

Raras vozes socialistas, marginais, lá se manifestaram criticamente em relação ao draconiano plano de austeridade do Governo do PS. Henrique Neto, sempre ele, denunciou o facto de a austeridade governamental não tocar na gordura do Estado nem nos interesses da oligarquia. Jorge Coelho comentou que se o consumo vai por água abaixo nos afundamos na recessão. Retirado da política para a política dos negócios, Coelho é o que resta do PS que em 2002 contestou a austeridade de Durão Barroso, responsabilizando-a por transformar uma crise financeira numa crise económica. Como transformou. E Henrique Neto é um homem de grande independência, porque, ao contrário da generalidade dos militantes e quadros satélites do PS, não precisa dos favores do aparelho, não anda a abichar colocações ou empenhos. De resto, no PS, zero em espírito crítico em matéria social.

Quando o PSD de Passos Coelho aprovou formalmente a adopção de uma famigerada Lei da Rolha, o PS chamou estalinista à decisão. Mas o estalinismo tem bigodes cada vez mais depilados e disfarçados. A rolha estalinista do PSD será a rolha democrática do PS. E se no PSD ninguém pode abrir a boca em matéria de eleição presidencial, no PS todos têm que aplaudir a austeridade que, de corte em corte, vai acabar por cortar a base eleitoral do próprio partido. Mas em silêncio. Afinal, toda esta casta política que agora até dá vivas à República descende dos Cabrais do século XIX.
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«DE» de 6 Out 10

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Cabeças relativistas

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Por Nuno Crato

AINDA HÁ ALGUMAS décadas, sempre que se falava da teoria da relatividade e das suas previsões sobre a dilatação do tempo ou a contracção dos objectos em movimento, dizia-se que se tratava de pequenas modificações, impossíveis de verificar na escala quotidiana.

Einstein descobriu, por exemplo, que o tempo passa mais lentamente nos locais onde a gravidade é mais forte e nos objectos em movimento. Mas os efeitos previstos são muito pequenos. Por exemplo, se compararmos dois relógios, um junto ao mar e outro a mil metros de altitude, o mais baixo atrasa-se em relação ao outro cerca de três segundos em cada milhão de anos. E não se trata de um problema dos relógios. É o próprio tempo que anda mais devagar em locais em que a força gravítica é maior. Mas o efeito é muito pequeno. Para se notarem os efeitos previstos por Einstein, seriam necessárias velocidades perto da da luz ou então escalas astronómicas. A verificação experimental das diversas previsões revelou-se difícil, mas foi sendo conseguida aos poucos.

Fizeram-se experiências com relógios muito precisos colocados em satélites e com átomos e partículas em aceleradores. Quando se montou o sistema GPS, já foi necessário introduzir nos cálculos as chamadas correcções relativistas, pois os relógios dos satélites evoluem num tempo diferente do que se regista à superfície terrestre. Sem essas correcções, acumular-se-iam enormes erros na posição estimada e o GPS tornar-se-ia inútil.

Os relógios instalados nos satélites do sistema GPS são atómicos, baseiam-se na medida da oscilação de átomos de Césio ou de Rubídio. Têm uma precisão da ordem de um segundo em um milhão de anos. Só assim o sistema pode ser preciso. Sendo isto espantoso, em 2009 e 2010 conseguiram-se construir relógios atómicos empregando átomos de Alumínio que têm uma precisão muito maior: um segundo em 3,7 mil milhões de anos. Com relógios tão precisos seria teoricamente possível medir as diferenças de tempo provocadas pela gravidade da Terra em objectos à sua superfície.

A semana passada, num artigo publicado na revista “Science” (doi: 10.1126/science.1192720), um grupo de investigadores do Instituto Nacional de Standards e Tecnologia (NIST), dos Estados Unidos, fez precisamente isso. Usando relógios atómicos de átomos de Alumínio, conseguiram verificar as diferenças no tempo entre dois relógios situados apenas 33 cm um acima do outro. As diferenças de tempo corresponderam com grande precisão ao previsto pela teoria da relatividade.

Isto quer dizer que, com estes relógios, se nos pusermos de pé podemos verificar a diferença de tempo entre os nossos pés, os nossos joelhos, a nossa barriga, o nosso peito e a nossa cabeça. O tempo anda mais devagar nos nossos pés, que estão mais perto do solo, e mais depressa na cabeça. Mas não nos entusiasmemos. A diferença é da ordem de um décimo milionésimo de segundo ao fim de 80 anos. Nada que se perceba. Por isso, leitor, se sentir a cabeça a acelerar, não deite as culpas sobre Albert Einstein.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 2 Out 10 (adaptado)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Gliese

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Por João Paulo Guerra

O GLIESE 581g, planeta rochoso que gravita em torno da estrela vermelha Gliese 581, na Constelação da Libra, tem três vezes a massa da Terra, gravidade suficiente para manter atmosfera, indícios de água.

O Gliese 581g é pois habitável. O problema é que fica a 20 anos-luz do planeta Terra. Caso contrário, seria um bom destino de emigração, agora que a Terra se está a tornar inabitável não apenas por razões ambientais mas também porque foi tomada pelos ‘talibans' neo-liberais.

Os terráqueos têm-se convencido que estão sozinhos no Universo e gabam-se de terem erguido várias civilizações que conduziram ao grau da civilização actual, a civilização. Mas eis que a civilização está cada vez menos civilizada e até já há quem defenda que isso de Direitos Humanos é relativo: haverá os Direitos Humanos que, sim senhor, são para cumprir; mas outros, são simples figuras decorativas, questões de forma, com zero de conteúdo. E esses serão os direitos sociais. Bem dizia um pensador norte-americano que, depois de vencer o comunismo, o capitalismo procuraria derrotar a democracia.

A globalização, ao fim de 500 anos de navegações a ligar os homens e a Terra, salda-se pela integração económica segundo as receitas do neo-liberalismo. E os homens comuns vão perdendo a esperança, perante um mundo desumano comandado por fanáticos do chamado mercado. Pelo caminho que as coisas levam, é fatal que a democracia - que já é posta em causa com total falta de pudor - a breve prazo seja arrumada no baú das tralhas do passado. Um país, o nosso, que corta com a mais absoluta crueldade no bem-estar dos cidadãos, investe ao mesmo tempo em equipamento de repressão policial.
Se ao menos Gliese 581g ficasse ali ao virar da esquina de um outro mundo...
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«DE» de 4 Out 10

sábado, 2 de outubro de 2010

Debaixo do braço

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Por Antunes Ferreira

ENTROU NO ELEVADOR da Glória com o DN debaixo do braço, como fazia antigamente para se identificar em encontro novidade com moça que pusera um anúncio para troca de opiniões, menina séria, de 29 anos, solteira, prendada, com bons meios de subsistência. Responder ao número 259-B deste jornal. Tivera diversas entrevistas com anunciantas, pois se elas eram femininas, umas mais sérias, outras menos prendadas, outras ainda depenadas de massas. Mas o meio utilizado para ser reconhecido era sempre o periódico.

Bons tempos esses, em que saía do emprego, depois de dar o até amanhã da praxe aos colegas e, sobretudo, ao chefe, não fosse o Diabo tecê-las, e se dirigia ao Príncipe Real, ao Jardim da Estrela, ao miradouro de Santa Luzia ou ao passeio em frente da igreja do Loreto, tudo lugares decentes, como a maioria das conversadoras anunciara que era.

Era, igualmente, solteiro. E adepto dos encarnados, naquele tempo vermelhos só os comunistas, que a Censura diligentemente cortava das notícias, crónicas e afins. Defensor do quem não é do Benfica, não é bom chefe de família, ainda que celibatário, bem tentava ultrapassar a limitação, mas os resultados não eram, de maneira nenhuma, empolgantes; nem sequer emocionantes, nem interessantes. Antes, pelo contrário.

Saiu da mesma forma como entrara: tentando aprumar-se mas falhando o objectivo. Uma vez mais, tal como lhe acontecera nas diligências matrimoniais. Do antigamente restavam-lhe as recordações, pouco cabelo, e o Diário de Notícias encaixado junto ao sovaco. Pouco, convenha-se, mas era o que se podia arranjar. A flor na botoeira murchara; os sapatos reluzentes da graxa cambaram; o colete de bombazina puíra-se; o chapéu de abas reviradas voara. Agora, chapéu só de chuva e de loja chinesa, dois euros e varetas para duas tardes.

Seguiu pela rua da Misericórdia, descendo para o Chiado, sabendo que arrastava um tanto os pés como o avô João, republicano visceral e membro do Ginásio Clube Português, depois de arrumados os pinos, os flique-flaques, as flexões, os plintos, os espaldares. Tal como com ele acontecera, o avô fora um especialista em encontros de qualidades, feitios e sabores bem variados. Até que num deles travara na Miquelina.

Coisa que ele não conseguira, ou seja, não lograra alcançar por mais que estivesse disposto a carregar no pedal verdadeiro. Continuara de diário sob a axila, de rosa – encarnada, que vermelha, etc. – na lapela, de brilhantina, de esperanças, de nada. Olhando para trás, não se referia à Santa Casa da Misericórdia, óbvio, mas para as traseiras da vida, só o Benfica lhe dera realmente prazeres.

Ainda vira jogar o Félix, o Moreira, o Bastos, o Melão e, claro, o Águas, o Zé Augusto, o Coluna, o Eusébio pantera negra, o bom gigante Torres, que falecera há umas semanas, e muitos mais. Hoje, o Roberto já não lhe dava tantas preocupações, mas continuava a pensar que oito milhões e meio fora um exagero, talvez agora o guarda-redes se redimisse do aviário que tinham sido os primeiros jogos.

Parou, finalmente, na esquina em frente da outra junto à igreja do Loreto. Aguardou, sem impaciência que o semáforo passasse para o verde, apagado o encarnado. Ora essa; já se podia dizer vermelho, mas o raio do hábito…

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

TRÊS CONCLUSÕES, todas elas politicamente pouco abonatórias para José Sócrates, resultam desde logo do pacote de medidas anticrise anunciado pelo Governo.

A primeira é a de que o chefe do Governo andou a negar a realidade que todos lhe apontavam e a iludir os portugueses, durante mais de um ano. Adiando, até aos limites da irresponsabilidade pública, as inevitáveis decisões para combater o galopante défice das contas do Estado.

Só o fez em desespero de causa, depois de tudo e de todos os outros, forçado pela pressão das autoridades europeias, da incomportável subida dos juros da dívida portuguesa e do ultimato do seu desamparado ministro das Finanças. O país pagou um preço elevado por essa cegueira obstinada.

A segunda conclusão é a de que José Sócrates optou, como sempre, pelo caminho mais fácil. Aumentou impostos em Maio, volta a subi-los em Setembro e, ao invés de reduzir drasticamente o número de serviços, institutos, fundações, empresas públicas e municipais que tornam insustentável o monstro despesista do Estado, optou por empobrecer ainda mais o funcionalismo público.

Em vez de suprimir organismos, diminuindo o peso do funcionamento e das clientelas partidárias em centenas de serviços inúteis ou parasitários, preferiu aplicar a receita do costume a todos os funcionários públicos - tanto aos competentes e indispensáveis como aos improdutivos e excedentários - apertando-lhes ainda mais o cinto.

Os 2.600 milhões ocasionais do fundo de pensões da PT ou os mais de 2.000 milhões de impostos agravados esgotar-se-ão rapidamente. Mas o gigantismo despesista da máquina do Estado continua lá, intocado: em 2012 ou 2013 voltará a asfixiar a economia do país. E com encargos acrescidos de parcerias público-privadas, fundos de pensões para pagar, etc., etc. Sobem-se, de novo, os impostos?

A terceira conclusão é a da falência absoluta do discurso do Estado Social. Com pensões congeladas, abonos da família eliminados, despesas em medicamentos e saúde aumentadas, IVA a 23%, deduções fiscais reduzidas, rendimento social de inserção e subsídio de desemprego diminuídos - com tudo isto e muito mais Sócrates ou algum responsável do PS ainda terão a desfaçatez de insistir no discurso do Estado Social? Provavelmente, têm.
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«Sol» de 1 Out 10

Facilitismo e aldrabice

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Por Carlos Fiolhais

QUEM RECENTEMENTE acertou na mouche ao falar sobre a crise financeira e económica que o país atravessa foi Ernâni Lopes, o ex-ministro das Finanças e Plano do Governo do Bloco Central, dirigido por Mário Soares, que em 1983 recebeu o FMI: «Não tem a ver com taxa de juro, oferta de moeda nem finanças públicas. Tem a ver com qualquer coisa mais importante. Os problemas resolvem-se com estudo e trabalho e não com facilitismo e aldrabice».

Fê-lo pouco antes do anúncio pelo governo do PS dirigido por José Sócrates de medidas de aumento de impostos para todos e de redução de vencimentos dos trabalhadores da função pública. As palavras do ex-ministro não podiam ser mais certeiras. Com efeito, não foi há muito tempo que o IVA desceu e os salários subiram, por mera conveniência eleitoral, numa altura em que as crises nacional e internacional já eram mais do que visíveis (a primeira, para mal dos nossos pecados, mais antiga do que a segunda). O governo minoritário que resultou das eleições continuou teimosamente a negar a realidade. Foi facilitando o mais que pôde. E foi aldrabando até mais não poder. Por pressão externa e não por convicção interna, anunciou um PEC 1, depois um PEC 2 e agora um PEC 3, uma vez que a dívida continuava a aumentar. Num mundo em crise os outros bem podiam fazer de formiga, com a Grécia, a Irlanda e a Espanha a diminuírem os salários, que nós continuávamos a fazer de cigarra, como se o crédito fosse ilimitado. De facto, o mundo mudou. Mas o nosso Governo, contrariamente ao que se impunha, não mudou, e não fez a tempo o que era preciso fazer, que era estudar o défice e trabalhar para o diminuir. Agora, tarde e a más horas, parece ter acordado. E o Presidente do PS, António de Almeida Santos, que tinha sido colega de Ernâni Lopes no governo do Bloco Central (lembram-se de não se poder sair do país com mais de sete contos?), não encontrou melhor justificação para a mais recente ida do Governo aos bolsos dos contribuintes do que dizer que «o povo tem que sofrer as crises como o Governo as sofre». Se o povo não sabia, ficou enfim a saber que tem de partilhar as crises do Governo...

E o que diz ao PEC 3 o PSD, que tinha assinado o PEC 2 numa quase reedição do Bloco Central? O seu porta-voz António Nogueira Leite, de quem se fala para ministro das Finanças (fez o tirocínio como secretário de Estado das Finanças de Guterres), foi tudo menos coerente e credível. Embora defendendo os cortes nos salários, pediu com candura ao Governo para “reconsiderar o aumento do IVA, porque não é bom para as famílias". A diminuição dos rendimentos salariais é, para ele, boa para as famílias. Estas, encolhidas pelos apertos de cinto, continuarão decerto a sofrer as crises, mesmo que mude o governo que as sofre. E não têm grande esperança que o facilitismo e a aldrabice acabem se houver uma mudança governamental.

Poderia ser de outro modo? Dificilmente poderia. Uma sociedade não pode ser melhor do que a escola que a molda. Facilitismo, o termo que tão bem se adequa à política em geral, é também o certo para designar a política escolar, também ela de Bloco Central. Mostra-o, por exemplo, o caso do aluno que entrou na Universidade, com 20 valores, pela porta do cavalo das Novas Oportunidades. E aldrabice é a palavra justa para descrever uma situação em que se passam diplomas a certificar sabedoria e competências a quem é manifestamente ignorante e incapaz. Uma aldrabice pegada, como cada vez é mais claro.

Dei-me conta outro dia de que a palavra aldrabar, de origem árabe, não é conhecida no Brasil. Mas a prática é. Mário Pratas, o autor do dicionário de português europeu para brasileiros “Schifaizfavoire” (Editora Globo, 1993; o título deriva do modo como se chama entre nós um empregado de mesa), comenta: “Depois de morar algum tempo em Portugal você começa a entender de onde veio essa nossa mania de levar vantagem, de dar golpinhos, de enganar o próximo, de tirar proveito das situações. Está certo que os brasileiros aperfeiçoaram a aldrabice...”
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«Público» e «De Rerum Natura»

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

EDWARD, O VAMPIRO

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Por Maria Filomena Mónica

SE EU TIVESSE catorze anos, como a minha neta mais velha, também gostaria de Edward Cullen. O herói inventado por Stephenie Meyer representa o amor interdito. Pálido e magro, a beleza de Edward não é a de James Dean – o herói da minha geração – mas a do rebelde sem causa do século XXI. Quando Bella é obrigada a trocar Phoenix, a cidade onde vivia, por Forks, fica vulnerável. «Bela, frágil, assustada» é assim que, pela primeira vez, olha Edward. Tal como Lady Caroline Lamb, após ter conhecido Lord Byron, também ela se apercebe que ele era «louco, mau e perigoso».

Para o ser, a paixão tem de ser imaterial, um tema que, entre outros, Eça de Queirós glosou no conto José Matias. Sei, porque a vivi, tinha exactamente a mesma idade de Bella. Educada num colégio de freiras, apenas sabia que havia pecados. Ouvira falar de uns relacionados com a carne, mas, até tarde, imaginei estarem eles ligados ao jejum das Sextas-Feiras, em que, nós, os católicos, éramos obrigados a abstermo-nos, à mesa, do consume de carne. O máximo que um confessor me perguntou, na altura, foi se eu dava beijos na boca ao namorado. Percebi logo que o sexo dava mais prazer quando interdito.

A Revolução dos anos 1960 veio alterar os costumes. Hoje, tudo é permitido, o que, como é obvio, diminui a possibilidade de se viverem paixões. Neste contexto, Stephenie Meyer tinha de inventar qualquer coisa de extraordinário para fazer do parceiro amoroso um objecto proibido. A solução foi arranjar um vampiro. Mesmo que Edward ame Bella, e ama-a com todas as suas forças, se consumar o acto, matá-la-á, o que o leva a um leque de emoções desencontradas. Não conseguindo explicar o comportamento errático de Edward – o qual tão depressa parece desprezá-la como amá-la – Bella fica obcecada por ele. Nada mais conta na sua vida para além daquele jovem simultaneamente incompreensível e sua alma gémea. Não é por acaso que Bella cita O Monte dos Vendavais. Sob certos aspectos, Bella e Edward retomam a relação entre Cathy e Heathcliff. Veja-se o que Cathy diz a Nelly (a ama que funciona como narradora): «Nelly, eu sou Heathcliff – ele está sempre no meu espírito, não como um prazer – tão pouco sou eu invariavelmente um prazer para mim própria – mas como a minha essência.» Antes, afirmara: «Se tudo o resto desaparecesse e ele ficasse, eu continuava a existir; e se tudo o resto permanecesse e ele fosse aniquilado, o universo transformar-se-ia num mundo estranho de que eu já não faria parte.»

É evidente que o livro de Emily Brontë é uma obra prima e o de Stephenie Meyer uma obra literariamente menor – embora tenha diálogos bem conseguidos – mas a razão que leva as adolescentes a gostar desta série de livros – Crepúsculo é o primeiro de uma tetralogia – é a atracção de certas mulheres por homens pérfidos. Ao longo de meses, os livros de Stephenie Meyer ocuparam, em todo o mundo, o primeiro lugar na lista de best-sellers. Lançado em Portugal, em 2005, pela Gaialivro, foi imediatamente reeditado. Pouco depois, o filme chegava às salas portuguesas, acabando de ser posto à venda em DVD. Até em Portugal, Edward tem uma longa fila de apaixonadas à espera.

Perante isto, não me venham dizer que os adolescentes não gostam de ler. É verdade que, por sua iniciativa, só lerão o que lhes diz qualquer coisa sobre o período que estão a atravessar – um dos mais difíceis da vida – mas fazem-no com avidez. É igualmente verdade que o livro contém passagens convencionais, mas não é tão conformista quanto se tem dito. Note-se que a heroína é filha de pais divorciados, que a mãe é uma irresponsável e o pai um ser destituído de capacidades afectivas. Aquele mundo, entre a casa disfuncional, os alunos de gel na cabeça e as discussões sobre quem gosta de quem, está próximo dos jovens.

Deixei, de propósito, para o fim a questão das convicções ideológicas da autora. O facto de ser mórmon tem sido referido como se o facto contaminasse o produto. Ora, a mim, pouco me importa que Edward saia da cabeça de alguém que acredita nos escritos de Joseph Smith ou de alguém que se entretém a analisar a Summa Theologica de São Tomás de Aquino. Como a Bella, o que me atrai é o facto de Edward ser belo e fugidio. Não há melhor receita para uma paixão.
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«GQ» de Setembro de 2009

A medidazita que faltou

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Por Ferreira Fernandes

ELE É VOGAL de uma dessas entidades reguladoras portuguesas - insisto, não é ministro de país rico, é um vogal de entidade reguladora de país pobre - e foi de Lisboa ao Porto a uma reunião. Foi de avião, o que nem me parece um exagero, embora seja pago pelos meus impostos. Se ele tem uma função pública é bom que gaste o que é eficaz para a exercer bem: ir de avião é rápido e pode ser económico. Chegado ao Aeroporto de Sá Carneiro, o homem telefonou: "Onde está, sr. Martins?" O Martins é o motorista, saiu mais cedo de Lisboa para estar a horas em Pedras Rubras.
O vogal da entidade reguladora não suporta a auto-estrada A1. O Martins foi levar o senhor doutor à reunião, esperou por ele, levou-o às compras porque a Baixa portuense é complicada, e foi depositá-lo de volta a Pedras Rubras.
O Martins e o nosso carro regressaram pela auto-estrada a Lisboa. O vogal fez contas pelo relógio e concluiu que o Martins não estaria a tempo na Portela. Encolheu os ombros e regressou a casa de táxi, o que também detestava, mas há dias em que se tem de fazer sacrifícios.
Na sua crónica nesta edição do DN, o meu camarada Jorge Fiel diz que o Estado tem 28 793 automóveis. Nunca perceberei por que razão os políticos não sabem apresentar medidas duras. Sócrates, ontem, ter-me-ia convencido se tivesse também anunciado que o Estado passou a ter 28 792 automóveis.
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«DN» de 30 Set 10

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Rapaziadas

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Por Baptista-Bastos

AS ÚLTIMAS SEMANAS foram copiosas em demonstrar que Portugal é um país para se levar pouco a sério. Dois rapazolas transformaram-no num terreiro de berlinde, cada um com um abafador que destinará quem venceu. O pior é que ninguém ganha e todos estamos a perder. Um deles possui um sentido circense que legitima todo o faz-de-conta. O outro manifesta uma devoção ingénua pelo poder que, na realidade, não possui. Ambos resultam desse milagre convencional que nos fez reféns de dois partidos desprovidos de grandeza, intelectualmente asténicos e politicamente impostores.

Na verdade, os dois partidos nunca foram grande coisa. Nas paredes das suas sedes estão retratos poéticos daqueles que os dirigiram. Percorremos o olhar por esses rostos líricos e chegamos a conclusões deploráveis. Poucos socialistas e poucos sociais-democratas. Há nomes cuja evocação lembra épocas festivas. Foram eliminados: eram socialistas ou sociais-democratas de intenção e decisão, coisa que não interessava a quem na sombra agia. É uma época ilustrada pela má-fé e frustrada pela traição.

Os dois mancebos que jogam o berlinde correspondem a uma inconsciência dócil, que opera no contexto histórico, e se esclarece nas relações de poder. São semelhantes na leviandade e na carência de conhecimentos. Nada mais do que isso. Não é só serem incredíveis. Sobretudo, são imaturos, ignorantes e tragicamente incapazes. Um deles já deu o que podia dar. E atingiu as funções que assume por completa ausência de antagonista. A dr.ª Manuela era um susto; e os seus antecessores, personagens menores de uma pungente ópera-bufa. Quanto ao outro rapazola, rapidamente se percebeu tratar-se de um moroso equívoco, uma bizarra consequência de época e, sobretudo, um produto incapaz de se conduzir a si próprio.

Estamos perante um imbróglio perturbador. E o dilema é este: como se passa do patológico para o normal? Ignoramo-lo. Desde a aparição mística do dr. Cavaco que aumentou o perigo de uma sociedade amolgada. Aquele senhor alimentava (e alimenta) um distorcido entendimento do que é a democracia. A década em que foi primeiro-ministro saldou-se pela recusa da modernidade e pela imposição de uma rigidez emocional que ainda hoje persiste. Pedra e betão substituíram a alma e a coragem.

As rapaziadas a que temos assistido procedem dessa cultura de ilusionismo que conduziu à relativa despersonalização do português, o qual vira no 25 de Abril uma porta de esperanças. O dr. Cavaco nada tinha ou tem a ver com o apostolado da liberdade. Ele nunca mexeu uma palha com esse objectivo. E até chegou a inventar uma rústica e grotesca história que o ungia como mosqueteiro da democracia. As rapaziadas destes rapazolas provêm da mesma matriz.
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«DN» de 29 Set 10

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Econometria da educação

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Por Nuno Crato

UMA DAS DESCOBERTAS mais surpreendente dos modernos estudos sociais quantitativos é a «não existência de uma relação sistemática nem de relações forte entre os gastos da escola e o desempenho dos estudantes». A frase é de Erik Hanushek, um dos principais fundadores da chamada «economia da educação», uma área académica que recorre a métodos estatísticos e a conceitos e modelos de economia para estudar o ensino.

A descoberta é surpreendente e perturbante, pois uma das premissas habituais dos responsáveis educativos é a de que, colocando mais meios à disposição da escola — por exemplo, computadores — ela educará melhor os seus alunos. Mas não é nem surpreendente nem perturbante para quem nela trabalha. Claro que há sempre recursos que faltam e que é importante, por exemplo, melhorar o acesso às modernas tecnologias. Mas o essencial é a formação dos professores, os pais, a boa estruturação e a exigência dos programas, a qualidade dos manuais, o rigor da avaliação e outros factores da actividade lectiva.

Recentemente, como já aqui referimos, um grupo de investigadores da Universidade Duke, na Carolina do Norte, (www.nber.org/papers/w16078.pdf) analisou uma amostra gigantesca, de 150 mil estudantes, seguidos ao longo de cinco anos, concluindo que os jovens não melhoram os seus conhecimentos pelo simples uso de computador pessoal. Os rapazes têm mesmo a algum retrocesso escolar, um retrocesso modesto, mas estatisticamente significativo.

Mais recentemente ainda, investigadores do Instituto Superior Técnico e da Universidade de Carnegie Mellon, estudaram os resultados da introdução de banda larga nas escolas portuguesas. Analisaram mais de 900 escolas entre os anos 2005 e 2009 e registaram as classificações dos alunos no 9.º ano de escolaridade. Construíram um modelo de “função de produção” com base nas “primeiras diferenças”, de onde extraíram as suas conclusões.

Uma função de produção é uma função matemática que relaciona os resultados com os recursos e que pode ser estimada com instrumentos estatísticos estudados em econometria. A equação que os investigadores utilizaram não é linear e os interessados poderão analisá-la em papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=1636584 . O método das “primeiras diferenças”, por seu turno, é a consideração dos incrementos em vez dos valores originais. Ou seja, em vez de comparar as notas com o uso da internet, compara-se o aumento ou a diminuição das notas com o aumento ou a diminuição do uso da internet ao longo dos anos. Tentam-se assim isolar os factores em estudo, eliminando a influência de condicionantes perturbadoras, como a qualidade das escolas ou os rendimentos das famílias.

O que os investigadores verificaram foi que as escolas em que mais tinha aumentado o uso da internet foram aquelas em que os resultados escolares mais diminuíram. Notaram ainda uma tendência, embora menos evidente, a que os resultados piorassem mais nas escolas piores, aquelas em que o acesso à internet terá, possivelmente, sido menos bem enquadrado.

Os resultados são provisórios, limitados a uma série curta, que apenas mede um primeiro efeito, e sujeitos à crítica, como tudo em ciência. Mas é encorajador que os temas de educação sejam estudados com este rigor quantitativo. Hanushek, Daniele Checchi, William Schmidt e outros grandes nomes da economia e econometria da educação estarão em Portugal em Janeiro (cemapre.iseg.utl.pt/events/1e3). Será interessante ver como esta área está desenvolvida entre nós e que resultados serão apresentados.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 25 Set 10

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Está lá fora o inspector

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Por João Paulo Guerra

A PRIMEIRA INICIATIVA para rever a Constituição da República Portuguesa, na altura escrita e aprovada de fresco, foi da autoria de Francisco Sá Carneiro e continha um item memorável.


Rezava mais ou menos assim: Portugal aceita os limites à sua soberania decorrentes da integração europeia.

Isto de um país aceitar voluntariamente e por sua iniciativa limites à própria soberania seria coisa para arrepiar qualquer patriota. Mas a verdade é que as pátrias dos conservadores - sejam eles de que colorações forem - já não são o que eram. As pátrias passaram a ter o símbolo do mercado e a cor do dinheiro. De maneira que a soberania, a independência nacional, e coisas desse quilate, jazem numa espécie de vala comum dos valores, nas traseiras do Panteão Nacional.

Isto dito porque, como assinalam as gazetas, está lá fora o inspector. Não, não se trata da reposição da peça de teatro do inglês John Boynton Priestley que celebrizou João Villaret, em Portugal, e Fernanda Montenegro, no Brasil. O inspector que para entrar em Portugal nem sequer vai bater à porta, como o da peça, e que vem por aí dentro para vasculhar as contas públicas, é o liberal polaco Janusz Lewandowski, que tem como facto mais notável do seu currículo a titularidade no Ministério das Privatizações do primeiro governo de Varsóvia após o derrube do Muro, ali ao lado, em Berlim. O segundo facto mais notável foi ter governado de tal maneira que na legislatura seguinte não conseguiu sequer a eleição como deputado. Mas na Comissão Europeia o currículo necessário e suficiente é a escolha pessoal do dr. Barroso.

E estamos neste pé em matéria de democracia: os portugueses elegem um Parlamento, que escolhe um Governo, e depois vem de lá o inspector e decide.
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«DE» de 27 Set 10

sábado, 25 de setembro de 2010

A resistente e a vizinhança

Um David no meio de dois Golias...

Escutai-os!

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Por João Duque

JÁ É DIFÍCIL imaginar um governo a aderir às mais avançadas técnicas de venda, quanto mais um governo socialista! Fiquei por isso surpreso quando ouvi o senhor secretário de Estado das Obras Públicas explicar, detalhadamente, a política de preços a introduzir nos troços de autoestrada sem custos para o utilizador, as famosas SCUT.

A ideia, parece, é aplicar uma taxa universal pela utilização do serviço, discriminando positivamente alguns eleitos. Em princípio, tratar-se-á de discriminar, baixando o custo, os residentes nos municípios de baixo rendimento das regiões envolventes. Começam por oferecer as 10 primeiras utilizações mensais e depois praticam um desconto nas restantes utilizações do mês, quer a empresas quer a particulares.

A ideia de usar o preço para regular a utilização do serviço e levar até pessoas a agir de determinado modo é a forma como os economistas pensam, e essa forma de pensar até me sensibilizou inicialmente.

Porém, olhando o problema de modo mais detalhado, fico com a sensação de que esta não será seguramente a forma ideal de estabelecer uma tarifa para utilização de serviços que se querem justos, equitativos e simples.

A primeira questão que se coloca é sobre a definição do beneficiário da discriminação. Disse o senhor secretário de Estado, ser esta "uma medida feita em nome da justiça". Mas será justo assumir que todos os residentes de uma determinada região padecem do baixo rendimento para justificar o benefício?

Podia invocar-se que não há maneira de discriminar entre os residentes de uma região. Mas se todas as viaturas estão em nome de pessoas (singulares ou coletivas) e identificadas pelo número fiscal de contribuinte, porque não usar essa informação, que está de posse do Estado, se querem fazer a dita discriminação e até alargá-la?

Depois vêm os descontos que vão beneficiar certamente os mais ricos e espertos. Como vivo num município 'rico', terei o maior prazer em poder ajudar os pobrezinhos dos concelhos envolventes que só têm três viaturas (para escolher de acordo com a cor da gravata), pois vão passar alegremente, e de borla, durante todo o mês porque têm 30 viagens gratuitas (cada chip terá 10 passagens gratuitas por mês). Acrescem a estes os outros descontos à utilização nas demais viagens se passarinharem mais...

E agora, pergunto eu, porque não usam mais imaginação na política de preço e a alargam a outras regiões? Não haverá pobres e desgovernados por todo este Portugal?

Porque não usam a happy hour, cupões de oferta de serviços (por x passagens 1 lavagem de estrada), cartão milhas, lotarias, etc., etc., etc.? Vá lá, puxem por essa imaginação!

Esta parece-me uma forma simples de desvirtuar a ideia do benefício, e vai resultar em manifesta injustiça. Mas será sem dúvida, como disse o senhor secretário de Estado, "uma medida solidária", em que os pobres dos concelhos ricos financiam os ricos dos concelhos pobres.
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«Expresso» de 18 Set 10

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

O ESTADO SOCIAL tornou-se a última bandeira de um poder socialista que continua, irresponsável e alegremente, a afundar o Estado num endividamento galopante a caminho da insolvência.

«A agenda do Governo é promover e defender o Estado social», insiste José Sócrates, dia sim dia não, ao mesmo tempo que vê as dívidas de 15 empresas públicas (da Refer aos CTT, do Metro à Estradas de Portugal) chegarem quase a uns incomportáveis 20 mil milhões de euros.

Enquanto vê os juros da dívida portuguesa baterem recordes à grega nos mercados internacionais. E enquanto se mostra incapaz sequer de reduzir a imparável despesa pública na execução orçamental de 2010.

À falta de melhor, também Manuel Alegre elegeu «o Estado social» como ideia central da sua campanha para Belém. Alegre quer o Estado social para salvaguardar «a segurança no trabalho e o apoio no desemprego».

Mas o Governo de Sócrates, além de apresentar uma folha de 600 mil desempregados, cortou nos apoios sociais ao subsídio de desemprego ou ao rendimento social de inserção, entre outros. Alegre exige um Estado social em defesa «da Saúde e da Educação públicas» e contra «a aplicação de políticas que agravam as desigualdades, de políticas anti-sociais que são um retrocesso civilizacional».

Mas o Governo de Sócrates obriga os idosos mais necessitados a deixarem de ter medicamentos grátis, fecha centenas de escolas por todo o país, aplica portagens em todas as SCUT com mais ou menos desigualdades, agrava fiscalmente as pensões dos reformados. Como se vê, o Estado social dá para tudo. Alegre e Sócrates poderiam, pelo menos, entender-se.

Já a Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, com a franqueza e a liberdade de expressão próprias de uma outsider no Governo, veio há dias declarar que «o Estado social está em colapso há décadas na Europa. Não é um problema português».

Sócrates e Alegre, cada um a seu modo, empunham, pois, uma bandeira que há muito entrou em colapso na Europa, segundo diz a ministra. E não deixa de ter a sua graça ver o silêncio e o embaraço do PS oficialista que se abateu sobre as palavras de Canavilhas.
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«SOL» de 24 Set 10

… como a pescada

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Por Antunes Ferreira

O ORÇAMENTO PARA 2011 arrisca-se a copiar o ditado que diz que a pescada antes de o ser já o era, noutra versão, como o vestido que afina pelo mesmo diapasão. O tema tem tido uma sucessão de peripécias qual delas pior do que a outra. Pepineira similar, naturalmente com consequências muito menos graves, é o famigerado caso Queiroz. Entre um e o outro, venha o Diabo e escolha. Mas, no fim deste despautério, na hora da verdade, deverá sair aprovado o que se dizia que não seria. Daí a parecença com a pescada e com o vestido.

Toda a gente tem metido o bedelho no patético confronto PS/PSD, e curiosamente ainda nem sequer é conhecido o documento que será apresentado no hemiciclo de São Bento. Estamos perante mais uma originalidade à portuguesa, que faria os cidadãos rirem-se a bandeiras despregadas, não fora o caso de poderem vir a estar confrontados com uma situação muito mais difícil do que a actual, o que não é, de todo, impossível.

As relações entre o Governo e o maior partido da Oposição foram marcadas por compasso musical – e continuam a sê-lo. Corrijo: talvez seja melhor utilizar ralações. Ainda há escassos meses, Sócrates e Passos Coelho davam os primeiros passos de um tango que o Gardel não enjeitaria. Ainda que a afinação fosse muito fraca, na vida tudo se aprende e evolui concomitantemente. Sendo necessário, um curso rápido mas intensivo nos Alunos de Apolo ajudaria imenso.

Porém, os filhos das pautas foram o que se tem vindo a ver. São eles os resultados confrangedores, a desafinação, a chinfrineira desaustinada, as contradanças, as notas falsas desde o dó ao si, em resumo, a asneira musical. E política. Poder-se-á até acentuar que neste momento o desgraçado do País assiste a um vira total e a um malhão que ninguém sabe até onde pode malhar. E, recordo, ainda bateram no ministro Santos Silva pela utilização do termo. Agora, há que o louvar, pela antevisão.

Bem pode o dito maestro convocar os intérpretes para o coreto de Belém. Falta-lhe a batuta para acertar os acordos, perdão, os acordes. Pelos vistos, ninguém quer acordar do pesadelo em que esta questão se transformou. A sintonia é des; a pretensa sinfonia orçamental está pelas cordas; e a orquestra é da outra banda.

Alvitra-se, numa verdadeira aberração, que venha de Washington quem seja capaz de acalmar esta ópera buffa, que nem opereta é, de tão desirmanada. Muitos, felizmente, não querem tal visita, sobretudo os que já foram brindados por ela. Mas, bem vistas as coisas, será mesmo que não somos capazes de tocar sozinhos alguma coisa que se oiça? Infelizmente, temo bem que sim.
Mas, como a esperança é a última coisa a morrer, talvez os deuses do Olimpo Polifónico nos cubram… de bênçãos.

Vem nos livros: tudo muda

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Por Ferreira Fernandes

HOLLYWOOD sabe farejar o ar do tempo. Num filme gentil, Você Tem Uma Mensagem, com Tom Hanks e a então namoradinha da América, Meg Ryan, contava-se a eterna história do tubarão que engole o peixinho.
No filme, de 1998, Meg tinha uma livraria familiar, dois empregados, e estava ameaçada pela megalivraria do Tom que abria na vizinhança. No fim, eles amavam-se, eram felizes, mas a ameaça ficava sugerida para além do "The End": as pequenas livrarias tinham os dias contados.
A história era inspirada por um facto real: o efeito de eucalipto da livraria Barnes & Noble, perto da Ópera de Nova Iorque, que secou à volta.
A Barnes & Noble, com 1357 lojas, é - com a Borders, cerca de mil lojas - um dos dois grandes grupos de livrarias americanas. Ora, contou ontem o jornal espanhol El País, estão ambas à beira da falência por causa da venda de livros na Internet.
A Barnes & Noble já fechou este ano 71 lojas. E, suprema ironia, a tal loja que serviu de pretexto ao amor de Meg Ryan e Tom Hanks é das que estão destinadas, já em Janeiro, a esvaziar as estantes dos seus seis andares.
Segundo o New York Times, uma dúzia de anos depois do filme, o que está a voltar a dar são as pequenas livrarias, lugares de convívio. Poderia haver um Você Tem Uma Mensagem (Parte II), com o ricaço Tom a ir pedir emprego à pequena Meg? Podia, mas as histórias justas não têm sucesso.
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«DN» de 24 Set 10

Apontamentos de Lisboa

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Traseiras do Centro Comercial Acqua Roma, na Rua Oliveira Martins, em Lisboa, com a saída de emergência 'devidamente' bloqueada. O logótipo colado no ecoponto identifica a entidade a quem se deve esta curiosidade de Lisboa.

A entrada principal é do lado da Av. de Roma, mesmo em frente ao edifício da Assembleia Municipal de Lisboa - uma simbologia perfeita!
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Actualização (Janeiro 2011): entretanto, foram retirados 2 dos 3 ecopontos. O que foi deixado foi, precisamente, o que está em frente à saída de emergência! Genial!

Cegueira

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Por João Paulo Guerra

LÊ-SE NOS JORNAIS e custa a crer: “A escola de Lamego que, no ano passado, foi escolhida pela Microsoft para integrar a rede mundial de escolas inovadoras, fechou as portas.


Os 32 alunos da EB1 de Várzea de Abrunhais - que dispunham de ‘wireless' e em cujas aulas os Magalhães trabalhavam conectados com o quadro interactivo - foram transferidos para um centro escolar onde não há telefone nem Internet".

Será possível? Claro que é possível. Passa-se em Portugal, onde toda a alarvidade fruto de uma política cega é possível. Fechou agora uma escola eleita pela Microsoft como já fecharam unidades de saúde acabadas de equipar. A EB1 de Várzea de Abrunhais nem sequer estava na lista negra das escolas com menos de 21 alunos que, por esse cego e estúpido motivo, estão condenadas ao encerramento. Fechou, porque sim. Porque o Governo manda e a Direcção Regional pode. E lá se vai a razão que colocou uma aldeia de Portugal no mapa-mundo da inovação tecnológica, o que parece não constituir motivo de orgulho para um país atrasado. Portugal prefere os trágicos recordes europeus do abandono e do insucesso escolar e da desertificação.

Há seguramente quem se recorde, como eu próprio me recordo, das primeiras escolas encerradas em Portugal pelos governos de Cavaco Silva - anos 80 e 90 do século passado - perante a maior indignação e a denúncia da oposição socialista, a nível central como local. Mas a verdade é que também os socialistas mudaram nas últimas décadas.

Cada escola que encerra é mais uma pazada de terra que se deita sobre o futuro de um Portugal ilustrado e desenvolvido. A política do fecho de escolas e de estabelecimentos de saúde é cega. Mas a cegueira do poder político é o complemento necessário e suficiente dos olhinhos das clientelas.
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«DE» de 24 Set 10

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O penteado de Hillary

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Por Ferreira Fernandes

O LÍDER IRANIANO Ahmadinejad discursou em Nova Iorque, garantiu que não tem bomba atómica e provavelmente essa é uma questão menor. A vedeta da abertura da Assembleia Geral da ONU foi Hillary Clinton. Mais exactamente, o seu novo penteado. A chefe da diplomacia americana deixou o cabelo crescer pelos ombros, com um gancho agarrando-o no alto da cabeça.
O assunto foi ontem motivo de editorial no Times de Londres e, já há dias, o Washington Post tratava-o (ao cabelo de Hillary) num longo artigo de mil palavras. O jornal inglês, em jeito de desculpa, explicava no começo do seu editorial a importância que dava à matéria. Citou a própria: "O cabelo conta. Preste atenção a ele, porque os outros fazem-no", disse Hillary numa conferência na Universidade de Yale, há dez anos.
Eis o que sucede, agora, com todos os olhos fixos no novo penteado da n.º 2 do Governo americano. E, não, talvez não sejam razões superficiais que levam tão respeitáveis jornais a interessar-se. Aquela que era contestada como mulher promovida a conselheira pelo marido presidente, aquela que falhou a oportunidade de concorrer à Casa Branca, tornou-se o membro do Governo americano que revelou mais autoridade neste mandato.
"Yes, eu penteio-me", é mero pretexto para se falar dela. Olha-se para o seu penteado para se ficar certo de que ela está bem consigo - isto é, que haja uma líder.
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«DN» de 23 Set 10

Vão? Ou não vão?

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Por João Duque

A GRANDE DÚVIDA que agora assalta os espíritos mais ocupados com as finanças públicas e a economia portuguesa, é a de saber se Portugal vai ou não vai cumprir os almejados 7,3% de défice público em 2010 projectados pelo Governo.

O Governo continua a afirmar que sim, a oposição a optar pelo não. Se estivéssemos no Reino Unido, país conhecido pelo amor que os seus súbditos têm às apostas, estaríamos já com um contrato de apostas a ser cotado nalguma das suas casas da especialidade.

Como o assunto não é de natureza desportiva, não é razoável esperar umas apostas na bwin...

De qualquer modo é um tema aliciante, e como estas crónicas são lidas por muitos leitores no formato ‘online', desafio esses leitores a fazerem as suas apostas. Isto é: o défice orçamental de Portugal vai ficar acima dos 7,3% ou fica igual ou abaixo disso? Quanto é que apostavam hoje para receber €100 no final do ano se ganhassem a aposta do lado do Governo? E quanto é que pagavam hoje para receber €100 no final do ano se ganhassem a aposta pelo lado da oposição?

Para que uma aposta seja realmente aceite numa casa de apostas, é necessário que se sinta que o jogo não é viciado. Isto é, só se aceitam apostas sobre eventos que são de natureza aleatória, onde nenhum interveniente pode, por si só, definir o resultado final do jogo. Ora, será este um evento aleatório?

O saldo do défice está, em finais do mês de Agosto, nos 9.190 milhões de euros negativos, quando, por esta altura do ano anterior rondava os 8.744 milhões de euros também negativos. É sabido que, nos últimos 10 anos, em média, o saldo até ao final de Agosto tem representado 66% do saldo verificado no final do ano, o que significa, sensivelmente, um crescimento de acordo com a proporção do ano já passada. Se tal voltasse a verificar-se este ano, e tendo em conta uma possibilidade de crescimento do PIB da ordem dos 1% em 2010, então seria expectável um crescimento do saldo orçamental até aos 8,1% do PIB.

Isto é, se a gestão orçamental fosse simples, então o Governo não conseguiria ganhar a aposta...

Mas há medidas que foram tomadas, há efeitos que ainda se esperam que funcionem mais activamente (o efeito das taxas do IVA) e depois há os milagres: a venda de dívidas fiscais, as transferências de activos e passivos dos fundos de pensões, as cativações, as vendas em leilões, as privatizações, e eu sei lá que mais "ões"...

Um economista amigo, especialista em finanças públicas, aposta na não concretização nem do orçamento de 2009! Eu sou mais moderado. Se a coisa funcionasse sem intervenção do Governo, iríamos romper o orçamento do ano anterior e o descalabro seria absoluto. Mas conhecendo quem conheço - como diz o povo, "o que a casa gasta" - não tenho dúvidas que os milagres se vão suceder nos finais do ano... Veremos se serão suficientes para acalmar os investidores internacionais e se não vamos mesmo ter de chamar o FMI para nos vir socorrer. Apesar de tudo aposto do lado do governo e vou divertir-me com a engenharia orçamental!
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«DE» de 23 Set 10

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Questão simples: quem mente?

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Por Ferreira Fernandes

Resenha.

1) A 18 de Setembro, o Expresso entrevista Manuel Maria Carrilho, embaixador na UNESCO. O entrevistado critica o Governo.

2) Dois dias depois, Carrilho é demitido de embaixador. Ele diz aos jornais: "Soube pela Lusa. Ninguém falou comigo."

3) No dia seguinte à demissão, Carrilho lança um livro, compilação das suas crónicas no DN. A editora faz um comunicado dizendo que a demissão foi consequência "da publicação do livro e da entrevista ao Expresso". Embora seja pouco provável que o livro seja causa da demissão (ninguém se irrita por textos em livro quando em jornal passaram sem queixume), é natural que a editora aproveite para propagandeá-lo.

4) Ainda a 21 de Setembro, o Ministério dos Negócios Estrangeiros diz que Luís Amado e Carrilho se reuniram a 15 de Abril, tendo o ministro informado o embaixador de que ele saía da UNESCO no Outono.

5) Um dos dois mente. Ou a) Amado mente de forma seca e despudorada sobre um facto inexistente (ter informado Carrilho, a 15 de Abril, da demissão); ou b) Carrilho mente, de forma mancomunada, preparando a entrevista ao Expresso e o lançamento do livro para ocorrerem aquando da demissão, que ele conhecia.

6) É inadmissível que o mentiroso sobreviva politicamente quando a verdade se souber. E a verdade que interessa é esta: a 15 de Abril, Carrilho foi ou não informado da sua demissão pelo ministro? Sim ou não?
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«DN» de 22 Set 10

A República ameaçada

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Por Baptista-Bastos

"SEM DISCURSOS NEM TROMBETAS, os inimigos da República tomaram o poder na sociedade. Na primeira linha, o dinheiro e a imagem. A sua aliança sucedeu ao trono e ao altar." Eis as primeiras frases de um texto notável, de que só agora tive conhecimento, e no qual o autor, o dr. Miguel Veiga, advogado e intelectual que vive no Porto, procede a uma análise do estado actual das coisas. Quando a cultura deixa de ser o paradigma da relação com o outro, a colectividade perde o lugar confluente onde se cruzam os preceitos éticos e estéticos que a justificam.

Diz Miguel Veiga: "Agravando a opulência pela notoriedade, multiplicando a desigualdade dos rendimentos pela da consideração pública, ela ataca os fundamentos do orgulho da República: o desinteresse e o anonimato que subordinam os interesses e as vaidades ao interesse geral. A República não é um regime político entre outros. É um ideal e um combate." O texto foi lido em Arcos de Valdevez, há menos de dois meses, numa homenagem a Mário Soares, e a sua importância reflexiva não mereceu, da imprensa a atenção necessária. A imprensa, cada vez mais abandonada à futilidade e ao pequeno escândalo, aumenta a hipótese repressiva da conduta política.

Essa conduta política repressiva expressa-se nas formas mais diversas. A última das quais, porventura, a da tentativa de alteração dos códigos constitucionais. Lembremos que o autor principal dessa revisão, proposta pelo dr. Passos Coelho, é um importante dirigente da Causa Real, Paulo Teixeira Pinto, ex-banqueiro, convertido aos fascínios da pintura e da edição. A tomada do poder, na sociedade, pelos inimigos da República, de que fala Miguel Veiga, não é uma metáfora. A lassitude com que assistimos à destruição dos princípios e dos padrões fundamentais da ideia republicana é sinal da nossa indolência moral. Antero chamou-lhe a "decadência da alma". É-nos imposto um novo modelo de desenvolvimento que desrespeita os tempos do homem e cria uma violência social destruidora da espontaneidade, da imaginação e da própria vida associativa. Nada fazemos para nos opor. E aceitamos a identidade dominante, rudemente aplicada, sem nos insurgirmos contra esse notório abuso de poder. Não é ingénua a leviandade com que muitos jornalistas portugueses aceitam este totalitarismo mascarado de democracia de superfície. A leviandade nunca é ingénua. E o silêncio da memória não protege o homem dos perigos que sobre ele impendem.

As ameaças à República são reais e corroem a identidade da democracia. É cada vez mais difícil reapropriarmo-nos das heranças legadas há um século. E cada vez mais fácil fomentar o mal-entendido que tem levado ao desleixo de cuidarmos dessas heranças.
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«DN» de 22 Set 10

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Bingo!

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Por Rui Tavares

LÁSTIMA É QUE, quando num dia futuro se fizer a história das presidenciais de 2011, vá passar despercebido o vigoroso momento de viragem que foi a passada sexta-feira. Efetivamente, foi nesse 10 de Setembro de 2010 que ocorreu a publicação de uma crónica de Vasco Pulido Valente em que este profetizava que “Alegre vai a caminho do desastre e não percebeu”.

Deveria até ser alcandorado a tradição eleitoral, no mesmo patamar das straw polls das aldeias do Maine nos EUA ou das previsões do polvo Paul na Alemanha, o impreterível facto de que em Portugal nunca nenhuma vitória eleitoral, — em verdade, nunca nenhum facto político —, se pôde dar sem que o Vasco Pulido Valente que todos conhecemos e amamos não lhe prognosticado a sua evidente impossibilidade. Manuel Alegre tem ainda muito caminho para percorrer; mas pode já respirar de alívio por saber que este primeiro escolho lhe foi removido.

Com infalível falibilidade, note-se, a previsão de Vasco Pulido Valente não vale só pela forma, mas também pelo conteúdo, a saber, que “o dr. Manuel Alegre condenou anteontem a decisão dos ministros das Finanças da União Europeia de impor um “visto prévio” ao Orçamento dos países-membros”. O problema não é ser isto incorreto — “formalmente, Manuel Alegre tem toda a razão” — mas que a “atitude de Alegre” o “torne assim, indiscutivelmente, o candidato do Bloco”.

Vale a pena perder algum tempo descendo a estes pormenores.

Para ser justo, é enfermidade crónica do comentarismo político (de que eu não juro que não padeça) pretender que os candidatos digam ou não digam isto ou aquilo por razões táticas — para se distanciarem ou não deste ou daquele partido, por exemplo. Às vezes estes conselhos ganham até a forma de suposta preocupação desinteressada pelo destino de um candidato, aquilo que em inglês ganhou o nome de “concern trolling”.

Mas isto é esquecer um singelo motivo pelo qual um candidato a Presidente deve dizer certas coisas: por ter “toda a razão”, formalmente ou não.

E no caso, Manuel Alegre tem toda a razão substancialmente também. O “visto prévio” de Bruxelas aos orçamentos nacionais é um problema de democracia essencial para o futuro de Portugal e da Europa. Um candidato que não tenha opinião sobre ele, e que não faça disso um tema de campanha, estará a menosprezar o eleitorado e a trair o cargo para que se candidata ainda antes de lá chegar.

A opinião de Manuel Alegre é diferente da posição oficial do governo e semelhante à posição do BE? Tanto pior, ou tanto melhor, como quiserem. Haverá na campanha muitas ocasiões para Alegre tomar posições próximas do PS e distantes das do BE. Para dizer a verdade, qual é o eleitor que se rala com isso? A única preocupação que devemos ter com Manuel Alegre, como com qualquer candidato, é que as suas posições sejam apenas idênticas — não às do partido X ou Y — mas às de Manuel Alegre ele-próprio. É por isso que temos eleições presidenciais uninominais. E a propósito: alguém se lembra de como Barack Obama “caminhava para o desastre” por ter sobre a Guerra do Iraque uma posição contrária à do seu partido? Pois é.

O que nós deveríamos estar a perguntar é: que pensa Cavaco Silva sobre o visto prévio de Bruxelas ao orçamento do seu país, que vai estar em cima da mesa precisamente ao tempo das eleições?
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RuiTavares.Net

21 Set 10


A guerra dos 'piercings'

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Por Ferreira Fernandes

O CENTRO EDUCATIVO dos Olivais, em Coimbra, achou, porque trabalha com miúdos difíceis, em "reinserção social", que os piercings não deviam ser autorizados aos alunos. Certo? Errado? Podemos passar horas a discutir a eficiência da medida mas temos de admitir que, sendo o piercing um sinal, pode ser considerado negativo.
É legítimo pôr-se como hipótese que o seu uso transmite uma identificação que os educadores daquele centro querem afastar dos seus alunos. Em tempos da semiótica rainha, em tempos em que as marcas e a imagem são tudo, é prudente dar-se atenção aos sinais. O Centro Educativo dos Olivais deu atenção àquele, o piercing, proibindo-o. Errado? Certo? Por enquanto, regulamento e para ser aplicado. E só devendo ser modificado em função do entendimento do que é melhor para os alunos. Sublinhem essa palavra, alunos, a razão de ser daquele centro.
Mas intrometeu-se nesta história um professor que tem três piercings e foi proibido de os usar na escola. Sei que é de Educação Física e que, indo por aí, eu explicaria mais facilmente a minha tese de que ele não pode usar os piercings por ser perigoso no ginásio. Mas tenho um argumento melhor e definitivo para que um professor com piercings não possa ser professor num Centro Educativo onde o regulamento proíbe os piercings aos miúdos em reinserção social. O argumento é: porque sim.
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«DN» de 21 Set 10

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Passatempo-relâmpago de 20 Set 10 - Solução

O logótipo da EPAL (mostrando o aqueduto das Águas Livres) não engana...
Assim, "macy" tem 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com, indicando 2 livros (por ordem decrescente de preferência) da lista que se pode ver [aqui].
Pede-se-lhe, também, que envie morada (mesmo que já a tenha mandado anteriormente).